1. Celebramos hoje o Domingo XVII do Tempo Comum. No Evangelho, Jesus serve aos seus discípulos quatro parábolas: 1) a parábola do tesouro escondido no campo (Mt 13,44); 2) a parábola da pérola de grande valor (Mt 13,45-46); 3) a parábola da rede que, lançada ao mar, se enche de peixes (Mt 13,47-50); 4) a parábola do pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas (Mt 13,51-52).
2. As duas primeiras pequeninas parábolas, a do tesouro escondido no campo e a da pérola de grande valor, mostram-nos Jesus e ilustram também a forma de viver de quem quer seguir Jesus. Durante muito tempo, pensou-se que estas parábolas transmitiam o apelo a deixar tudo ao jeito do convite que Jesus faz ao jovem rico: «se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens, dá aos pobres, e depois vem e segue-me. Ouvindo isto, o jovem foi-se embora entristecido, pois, na verdade, tinha muitos bens» (Mt 19,16-30). Porém, o acicate das parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor não é a renúncia aos bens temporais. O tema que enche estas duas parábolas e delas transborda é a alegria. É por causa da alegria (apò tês charãs autoû), que o homem que encontrou o tesouro escondido no campo, opera uma mudança radical na sua vida: «vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo» (v. 45). Por causa da alegria. O mesmo se passa com o homem que encontrou a pérola preciosa. Também ele vende tudo o que tem, e compra aquela pérola. Por causa da alegria.
3. Mas que alegria é esta? Não, não se trata da pequena alegria passageira que tu procuras para ti, e que encontras em ti, talvez ali ao dobrar da esquina. Trata-se da alegria em si mesma, daquela alegria que é uma dádiva que te é concedida, quando tu procuras «alegrar Deus». «A tua alegria acontece quando tu não procuras outra coisa senão a alegria de Deus: nada mais, nada menos do que a alegria em si mesma» (Furio Jesi). Portanto, a alegria em si mesma é um dom que Deus te dá, não para teu proveito exclusivo, mas para repartires com todos os filhos de Deus. Só assim alegrarás Deus. Não esqueças: essa alegria é um dom de Deus. É um dom que Deus te dá, e que deves conservar e partilhar. Imagina que Deus te dá um vaso cheio de alegria. É um dom. E um dom não é para se possuir. É para repartir. Se começares a considerar o vaso como teu, nesse preciso momento, quebra-se o vaso! (Abraham Joshua Heschel).
4. O tesouro escondido é Jesus. A pérola preciosa é Jesus. Quem ousar encontrar e seguir Jesus, que passa escondido, porque revestido da nossa frágil humanidade, descobrirá n’Ele o Reino de Deus em pessoa (hê autobasileía), que é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17). É Ele o tesouro escondido no campo. Quem o encontrar, saboreará uma alegria nova e transbordante. Para o dizer só com o Evangelho de Mateus, foi assim que os magos do Oriente se puseram a escavar o céu e descobriram uma estrela que indicava o nascimento de um Menino diferente, o Rei dos judeus (Mt 2,1-2). Diz o texto que «Quando viram a estrela, experimentaram uma “alegria grande” (chará megálê), e entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe» (Mt 2,10-11). De uma ponta à outra do Evangelho: Maria Madalena e a outra Maria, mal viram terminar o sábado com o despontar das primeiras três estrelas daquela noite daquele Primeiro Dia da Semana, correram ao túmulo de Jesus e viram o Anjo do Senhor a rolar com poder a pedra que fechava o túmulo (Mt 28,2). Ouvem as palavras que o Anjo lhes diz, e «partem a toda a pressa, a tremer, e com “alegria grande” (chará megálê), para levar aos discípulos a notícia da Ressurreição» (Mt 28,8). A alegria verdadeira vem de Deus. É de Deus. E «a alegria de Deus é a vossa fortaleza» (Ne 8,10). Rejoice!
5. Toda a atenção, portanto, queridos jovens, que o tesouro de Deus não se dá em qualquer campo nem em qualquer céu. São, por isso, necessários novos mapas, novas pautas, novas coordenadas, novas estradas, para se poder procurar e saber encontrar esse tesouro escondido, essa pérola de grande valor, essa rede que, nos Evangelhos, os profissionais da pesca não sabem encher. Só a veem encher por duas vezes, quando Jesus está presente e manda lançar as redes (Lc 5,6-7; Jo 21,6).
6. E Jesus termina a sua lição com uma última parábola: «Todo o escriba, feito discípulo do Reino dos Céus, é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas» (Mt 13,52). Aí está a imensa sabedoria e alegria do discípulo que deve ser como um pai, que dispõe na sua imensa dispensa de produtos excelentes, novos como o pão fresco, antigos como o vinho velho! Era próprio do escriba transmitir apenas as coisas antigas que vinham na torrente da tradição. Ao escriba não lhe competia inovar. Só lhe competia repetir. Mas aqui está agora, ao dispor do discípulo de Jesus, a Divina dispensa do Novo e do Antigo Testamento, Alimento novo de vida eterna. Note-se bem a ordem do serviço a prestar pelo discípulo de Jesus: coisas novas e coisas velhas! Primeiro as coisas novas!
7. Depois de teres ouvido nos teus ouvidos estas quatro parábolas de Jesus, atrevo-me a perguntar-te, querido jovem: Qual é a tua identidade? Como te chamas? No IV Evangelho, as pessoas mais ligadas a Jesus são seguramente Maria, sua Mãe, e João Evangelista, aquele que, na Ceia, se reclinou sobre o peito de Jesus (Jo 13,25). É espantoso, mas ao longo de todo o Evangelho, nunca o Evangelista se refere a Maria e a João pelos seus nomes, mas sempre e só pela sua relação com Jesus. Assim, não se fala nunca de Maria, mas da «mãe de Jesus» ou «da sua mãe». Também não se fala nunca de João, mas do «discípulo que Jesus amava» ou do «outro discípulo!». Fica claro: a nossa identidade está, não no nosso nome, mas na nossa relação com Jesus! Começo a pensar, querido jovem, que, na inscrição que fizeste para este Rejoice, te fizeram preencher a ficha errada. Não te esqueças de a preencher agora corretamente. Assinala bem qual a tua relação com Jesus. É essa a tua verdadeira identidade.
Rejoice, Lamego, 26 de julho de 2026
António Couto
