1. Santo António nasceu em Lisboa, provavelmente em 1195, e faleceu em Pádua (Itália), em 1231. Viveu apenas trinta e seis anos, mas foi o bastante para encher este mundo da beleza de Deus, do perfume performativo que nos vem só de Deus. É fácil ler, no contexto da iconografia, uma grande cumplicidade entre Maria, Mãe de Jesus, e Santo António de Lisboa, de Pádua, ou de todo o mundo.
2. Maria aparece muitas vezes, na iconografia, com o Menino nos braços e um olhar de graça suavemente iluminado. O movimento dos braços mostra a ternura maternal de quem embala e segura o Menino Jesus, ou a alegria evangelizadora de quem apresenta e oferece Jesus a este mundo, reclamando de cada um de nós mãos carinhosas e seguras, coração atento, entranhas maternais, olhar de graça.
3. E vê-se bem que também Santo António aparece com o Menino nos braços: umas vezes, segurando o Menino Jesus com os dois braços; outras vezes, com um braço segurando o Menino Jesus, e no outro ostentando um livro, o Livro por excelência, o Livro da Palavra de Deus, que Santo António tão bem viveu e tão bem soube dizer e dar a conhecer; outras vezes ainda, ostentando o Menino Jesus sentado sobre o Livro, Senhor do Livro, como o Anjo de Mateus sentado sobre a pedra do sepulcro (Mateus 28,2). Belíssimas fulgurações de amor e luz. Maria olhando pelo Menino Jesus ou convidando-nos a olhar pelo Menino Jesus, acolhendo-o nos braços e no coração. Santo António de Lisboa ostentando o Menino Jesus e o Livro, mostrando bem com que amor soube ler a Escritura, e convidando-nos a acolher o Menino que atravessa em contraluz toda a Escritura, e a ler a Escritura em contraluz acolhendo em cada página, não apenas sons e sílabas e palavras e frases, mas um Rosto e um Nome, JESUS.
4. Maria e Santo António de Lisboa. Os dois com o Menino Jesus nos braços e no coração, nos lábios, na vida. Eles tomaram conta de Jesus com amor, tomaram conta do amor. Ou foi o amor que tomou conta deles? Na verdade, são eles que seguram Jesus, ou é Jesus que os segura a eles? Somos nós que seguramos a Palavra de Deus, ou é a Palavra de Deus que nos segura a nós? Frágil, forte segurança, a segurança e confiança do amor, forte como a morte o amor (Cântico dos Cânticos 8,6).
5. É por esta imagem de um Menino ao colo de uma Mãe, seguro e confiante na força do amor maternal que cuida dele sempre que, em termos bíblicos, entramos no caminho da Verdade (Jacques Goldstain, Le monde des psaumes, Paris, la Source, 1964, pp. 391 e 393). Verdade, na Bíblia hebraica, diz-se ’emet, cuja etimologia remete para segurança, firmeza, confiança (’emunah, ’aman, ’amen), que o mesmo é dizer que, em última análise e no extrato mais fundo da etimologia, remete para mãe que, em hebraico, se diz ՚em. Quem, neste mundo, mesmo sem dizer uma palavra, faz o melhor sermão sobre a verdade, a firmeza e a confiança, será sempre uma mãe a sério que, por nada deste mundo, abandona o seu bebé. Biblicamente, a verdade não é a vulgar “adequação das coisas à mente”; em termos bíblicos, a verdade é uma pessoa segura, que não oscila ou engana, não derrapa, que serve de arrimo. Diz então o Livro, que Santo António segura no braço com o Menino em cima, que o lugar mais verdadeiro do mundo, portanto, a maior fonte de segurança do mundo, são os braços de uma Mãe ou de um Pai que ternamente seguram um bebé.
6. A verdade é, portanto, a verdade do Amor que não engana, o mais puro amor que existe. A analogia do amor materno e paterno abre para Deus, que o mesmo Livro diz que ama com amor-perfeito e performativo, que transforma a nossa vida. S. Paulo dirige-se a nós desta maneira, ao escrever as primeiras linhas da primeira página do Novo Testamento: «(…) Irmãos AMADOS por Deus (êgapêménoi hypò [toû] theoû)» (1 Tessalonicenses 1,4). A locução «AMADOS» apresenta-se no tempo perfeito passivo (êgapêménoi: part. perf. passivo de agapáô), e traduz, portanto, um amor novo, vindo de Deus, que começou a amar e a amar continua ainda hoje, pois é esse o sentido do perfeito grego.
7. É por isso que Deus, amor-perfeito e permanente, o mesmo ontem, hoje, amanhã e sempre (Hebreus 13,8), não mente, não engana, não derrapa. Ele é a Sabedoria, Ele é a luz. Ele chama, Ele ama, Ele dá a Sabedoria, Ele alumia. A nossa luz é reflexa, a nossa sabedoria é recebida, recebido é o amor com que amamos. Não o amor da sabedoria. Mas a sabedoria do amor. «Deus governa o mundo com as palmas das suas mãos» (Ben Sira 18,3), em que está inscrito o nosso rosto e o nosso nome (Isaías 49,16), e tem sempre as suas «mãos abertas sobre nós» (Salmo 139,5). Mãos de amor e de bênção.
8. Como Maria e como Santo António, experimentemos também viver de coração aberto e de mãos abertas para acolher e saborear o dom de Deus (Hebreus 6,4) e experimentar a beleza da Palavra de Deus (Hebreus 6,5). Maria e Santo António, com o Livro e o Menino, representam uma nova cultura, não assente na mentira, na esclerose ou dureza do coração, no poder e na violência das armas, mas na ternura, no amor, na suavidade e na verdade.
9. Santa Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, e Santo António de Lisboa, nosso padroeiro, ensinai-nos a viver com o Livro da Palavra de Deus e o Menino nos braços e no coração. Amém.
António Couto
