• A Igreja celebra no próximo dia 27, Sábado, a figura ilustre de São Vicente de Paulo, que encheu o século XVII de caridade, e vamos ouvir no Evangelho do próximo Domingo, dia 28, a parábola do Rico, que se banqueteava, e do pobre Lázaro, chagado e faminto, literalmente encostado à sua porta. Lembremo-nos agora que, no imaginário da Idade Média, o pobre Lázaro, cujo nome significa «Deus ajuda», saiu fora da parábola e transformou-se numa personagem histórica, como padroeiro dos leprosos e mendigos. É assim que nascem os «Lazaretos», edifícios destinados a albergar e tratar os doentes e deserdados. E, no século XVII, São Vicente de Paulo, cuja memória celebramos no próximo Sábado, que dedicou a sua vida toda aos pobres, fundou os Padres Lazaristas (sempre sobre a memória do pobre Lázaro), para continuar essa bela missão de tratar os pobres com carinho. E, no século XIX, o beato Frederico Ozanam fundou as Conferências Vicentinas, entregando-lhes a sublime missão de assistir os pobres e necessitados, sempre com referência a São Vicente de Paulo e à caridade por ele vivida e pregada, e que, nas suas palavras, é «inventiva até ao infinito».

    São Vicente de Paulo, ensina-nos a sair da nossa indiferença e a amar um pouco mais os pobres e desfavorecidos deste mundo, atirados pela porta fora pelos ricos e poderosos.

    António Couto


  • Hoje, dia 21 de setembro, é Domingo, e a Igreja celebra naturalmente o Dia do Senhor. Se não fosse Domingo, a Igreja celebraria a Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista, pois o dia 21 de setembro é o seu dia. Por isso, aqui inserimos umas linhas sobre ele. Mateus era publicano de profissão. O termo publicano deriva do termo latino publicanus, que designa coletor de dinheiro público. O posto de cobrança de Mateus situava-se um pouco a norte de Cafarnaum, junto da estrada internacional que ali passava, lugar de passagem, e que ligava o Egito à Mesopotâmia. Como publicano, Mateus estava ao serviço do poder ocupante, o império romano, e cabia-lhe a tarefa odiosa de cobrar impostos aos seus concidadãos judeus para os entregar às autoridades romanas. Era, pois, naturalmente mal visto e odiado pelos judeus, que diariamente o insultavam e enchiam de nomes feios.

    Até que um dia passou pela banca de impostos de Mateus um homem chamado Jesus, que, em vez de o insultar, poisou nele o seu sereno olhar de amor, e disse: «Segue-me!». A resposta de Mateus foi imediata. Atingido no coração por um olhar novo e uma palavra nova, Mateus levantou-se e seguiu Jesus. Afinal, era a primeira vez que alguém o tratava como seu igual! O passo seguinte foi uma Festa que Mateus ofereceu aos seus amigos, publicanos e pecadores como ele, e a Jesus e aos seus discípulos. É aqui que nasce o Apóstolo e Evangelista São Mateus.

    São Mateus, roga por nós e por todos os que desconhecem Jesus e não sabem o que é um olhar de Amor e de Perdão.

    António Couto


  • Amós 8,4-7; Salmo 113; 1 Timóteo 2,1-8; Lucas 16,1-13

    1. O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a Lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas belas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

    2. A parábola do Administrador desonesto, que escutaremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a leem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

    3. O leitor ou ouvinte simples e de boa fé diz naturalmente que não, e compreende que deve afinar pela honestidade a sua vida. Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o desconforto sentido pela incompreensão do texto, por indagar os costumes então em uso na Palestina, e descobrem que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que se ausentavam para os seus negócios, deixando no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o montante que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros ou benefícios, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

    4. Explicação aparentemente fácil e sensata, mas que não pode ser levada em conta. É demasiado equilíbrio para tão pouca explicação! Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, e tão pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a prontidão, inteligência, clarividência e largueza de vistas com que o administrador procede, sem permitir que o assalte, nem por um momento, a hesitação ou a fuga às suas responsabilidades.

    5. É verdade que o administrador da parábola e o discípulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador, não a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontidão, inteligência e largueza de vistas. Todavia, se a parábola só ensinasse isto, tratava-se de coisas óbvias que a vida sensata nos vai ensinando todos os dias. Para aprender apenas isto, não é preciso ler ou ouvir nenhum Evangelho. O Evangelho tem de nos levar para além do habitual, tem de desequilibrar completamente as nossas habituais maneiras de fazer e proceder.

    6. Prossigamos então este caminho. Na sua literalidade (nem precisamos de ser muito rebuscados), este pedaço do Evangelho deve revolver completamente os nossos procedimentos. E aquilo que salta à nossa vista, quer queiramos quer não, é a figura de um administrador que esbanja completamente os bens de que dispõe, e que não são dele. São do seu senhor. Inequívoco. O texto diz expressamente que o administrador «convocou os devedores do seu senhor, e disse ao primeiro: “Quanto deves ao meu senhor?”» (v. 5). Fica claro quem é o proprietário daqueles bens: é o senhor do administrador e dos devedores. À pergunta formulada pelo administrador: «Quanto deves ao meu senhor?», o devedor respondeu: «Cem talhas de azeite». Resposta do administrador, que traz para a cena, agora sim, não a usual prudência e honestidade, mas o Evangelho: «Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (v. 6). Sem equívocos: este administrador é um esbanjador dos bens do seu senhor! Olhemos então de frente, e perguntemo-nos: «E Jesus não veio esbanjar os bens do Pai?». Não esbanjou e continua a esbanjar o amor, o perdão, a vida, a misericórdia, a alegria, a paz? E não ensinou os seus discípulos a fazer assim também? Portanto, o administrador da parábola não faz mais do que Jesus fez e faz. Por estranho que pareça, distribuir sem medida, «esbanjar», é a ideia-chave e a palavra-chave da parábola. E então, o leitor e o ouvinte desta parábola do Evangelho já sabem até que ponto este bocadinho de Evangelho pode e deve envolver e revolver a sua vida.

    7. Mas, há ainda, no v. 6, outro belo apontador do Evangelho, que não podemos descurar. É aquele: «Senta-te depressa…». Mas que pressa é esta? É a pressa e o mapa da Páscoa do Egito, porta aberta para a viagem transitiva e intransitiva da liberdade: «Comereis a toda a pressa com os rins cingidos, as sandálias nos pés, o cajado na mão; é a Páscoa do Senhor» (Êxodo 12,11). É a pressa do mensageiro de Isaías 52,7, que corre sobre os montes porque tem para anunciar boas novas a Sião, exultação logo replicada pelas sentinelas de Sião, e que chega a revolver e a envolver mesmo as próprias ruínas de Jerusalém (Isaías 52,8-9). É a pressa do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, que o amor faz correr sobre os montes. É a pressa de Maria que se levanta e se põe a caminho apressadamente (Lucas 1,39), Arca da Nova Aliança portadora do Evangelho em pessoa. É a pressa dos pastores dos campos de Belém, que correm a Belém (Lucas 2,15-16), para ver e saudar o Salvador acabado de nascer. É a pressa dos setenta e dois discípulos de Jesus (Lucas 10,4), enviados por Jesus, sem paragens no caminho, procedimento inconcebível no mundo do Médio Oriente Antigo (onde as pessoas se entretinham longamente a conversar), e que lembra a pressa imposta pelo profeta Eliseu ao seu servo Guiezi para ir, sem paragem no caminho, ao encontro do filho morto da Sunamita (2 Reis 4,29), a qual também tinha partido a toda a pressa para casa de Eliseu (2 Reis 4,22). É a pressa do Pai do filho pródigo, quando interrompe o discurso do filho, e diz para os criados: «”Depressa”, trazei o primeiro vestido, e vesti-lho» (Lucas 15,22). É a pressa de Jesus, quando diz para Zaqueu: «Desce depressa, porque é preciso para mim ficar hoje em tua casa» (Lucas 19,5). É a pressa de Zaqueu a descer do sicómoro e a receber Jesus em sua casa, para virar a sua vida toda do avesso (Lucas 19,6). É a pressa das mulheres e dos homens da Páscoa, que até hoje não param de correr (João 20,2.4). É a pressa de Pedro pelo anjo atirado da prisão para a rua (Atos 12,7). É a pressa de Paulo em anunciar aos judeus de Damasco que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9,20). É esta a pressa do administrador esbanjador dos bens do seu senhor, que diz para um dos devedores: «Cem talhas de azeite? Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (Lucas 16,6). Não nos resta senão acelerar a nossa vida para nos pormos ao ritmo do Evangelho.

    8. A parábola contada por Jesus permite ainda uma correta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nós nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, ídolo a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5; Baruc 6,69). No nosso caso e nesta sociedade moderna, pode tratar-se de belos edifícios plantados no meio das cidades. É aí que estão os bancos! O historiador das religiões, David Flüsser, atravessava um dia a cidade de Atenas enquanto refletia sobre a fé, grego pístis, no Novo Testamento. E quando levantou os olhos, deparou-se com grandes letras no frontal de um edifício. Leu: trápeza tês písteôs, à letra, banco de fé, em termos modernos, banco de crédito! Veja-se, hoje, com olhar lúcido, o logro ou o lodaçal das nossas arquitetadas seguranças!

    9. Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben Sira já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben Sira 27,1-3).

    10. O livro de Amós, de que hoje ouvimos também uma pequena perícope (8,4-7), caustica severamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas o seu Livro parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda atualidade. A lição de hoje abre com a chamada «fórmula de atenção» [= «Ouvi»], que introduz habitualmente oráculos de desgraça, e dirige-se aos ricos e latifundiários, que vendem o trigo aos necessitados, enganando-os e roubando-os sorrateiramente, usando balanças, medidas e pesos falseados, comprando o trabalho dos pobres por um par de sandálias! Como se vê, sendo embora o texto do séc. VIII a.C., parece que estamos a ler um compêndio moderno de economia e comércio, que tem em vista apenas o lucro fácil a custo seja do que for. O oráculo termina referindo que para um tal comportamento de roubo, para cúmulo disfarçado de seriedade, não há amnistia: «nunca o esquecerei», diz Deus (v. 7). O efá, de que se fala no texto (v. 5), usado para medir cereais, equivalia a 45 litros. O sheqel ou siclo, de que também se fala no v. 5, pesava 11,4 gramas. A moeda propriamente dita aparece no séc. VIII na Anatólia, e pouco depois na Grécia. O sheqel é o nome atualmente usado para designar a moeda israelita.

    11. Chega-nos hoje mais uma extraordinária lição de São Paulo na sua 1 Carta a Timóteo 2,1-8. Primeiro que tudo (prôton pántôn), rezar por todos os homens, usando todas as modalidades da oração: súplicas (deêseis), orações intensas (proseuchaí), pedidos (enteúxeis), ações de graças (eucharistíai) (v. 1). Depois, a afirmação da vontade salvadora universal de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos, e ao conhecimento da verdade venham (v. 4). Dois movimentos: um da parte de Deus, nunca anulável; outro da nossa parte, indicando que nos devemos pôr em movimento em ordem ao conhecimento profundo, pessoal, íntimo, experimental (epígnôsis) da verdade, que é o amor fiel e fiável de Deus por nós. Em continuidade, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nós (v. 5-6). A seguir, a razão de ser do próprio Paulo e da sua missão de anunciador (kêryx) e apóstolo (apóstolos) (v. 7). Por último, como ao princípio, a vontade de Paulo de que todos rezem em toda a parte (v. 8).

    12. E ficamos com a música inebriante do Salmo 113, o Salmo que abre o fascículo dos Salmos 113-118, catalogados como o «pequeno Hallel da Páscoa» ou «Hallel egípcio», Salmos cantados no decurso da Ceia da Páscoa hebraica, de que o Talmude regista uma imagem sugestiva, deixando supor que, no decurso da Ceia da Páscoa, se levantava das casas dos hebreus um suspiro de louvor que perfurava os tetos e chegava ao céu: «A Páscoa é saborosa como a azeitona, e o Hallel deve atravessar os tetos das casas para chegar ao trono de Deus». O Salmo 113, sessenta palavras hebraicas, apresenta três belos andamentos: o primeiro, v. 1-3, convida os orantes a encher de louvor o espaço todo visto na sua linha horizontal (do nascer ao pôr do sol: oriente-ocidente) e o tempo todo (agora e sempre). Este louvor intenso dirige-se à pessoa do Senhor, expressa pelo Nome do Senhor (três vezes). O segundo andamento, v. 4-6, desenha uma linha vertical no sentido descendente (céu-terra), e mostra a transcendência, a glória e a incomparabilidade de Deus, sentado no alto, nos céus, mas amorosamente debruçado sobre a terra. Portanto, o nosso Deus não é um Deus impassível e abstrato, fechado nas paredes douradas da sua eternidade, mas é um Deus que se interessa por nós. O terceiro andamento, v. 7-9, desenha agora uma linha vertical no sentido ascendente (terra-céu), e mostra Deus em ação no nosso mundo, levantando do pó e do esterco os indigentes, e fazendo da estéril, por todos desprezada, mãe honrada e feliz, habitante digna na casa do Senhor. Grande Hino de Louvor, que faz comunhão na vertical e na horizontal, e que nos junta a todos na bênção (v. 2), hebraico berakah, grego eulogía, que desenha um mundo de bondade e de bem, de pensar bem, dizer bem, querer bem, fazer bem. Bendizer ou dizer bem une, como sabemos. Une-nos uns com os outros e todos com Deus. É a Eucaristia. Ao contrário, maldizer ou dizer mal separa, como também sabemos.

    13. Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

    António Couto


  • Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores.

    Na aurora dos tempos Deus sonhou

    o sonho que continua a sonhar ainda hoje.

    Um sonho bom e belo e justo brota sempre do coração de Deus,

    e o Homem está no centro desse sonho feito criação.

    Coração a coração, sonho a sonho,

    o Homem sonhou também,

    e via-se então a humanidade toda de mãos dadas e abertas,

    sem sebes nem armas nem cobiças.

    Mas rapidamente se embotou o coração da humanidade,

    e apareceu a cizânia, a inveja, a ambição, a guerra.

    No coração da humanidade,

    o sonho transformou-se então em pesadelo e morte.

    Mas Deus não desistiu nunca do seu sonho.

    E, no coração do tempo,

    clareira aberta no bosque,

    luz nas trevas,

    Maria encostou o ouvido ao coração de Deus.

    Sonho a sonho,

    o coração de Maria começou a pulsar ao ritmo do coração de Deus.

    O sonho sonhado fez-se carne,

    e Maria tornou-se a Mãe da nova Humanidade.

    Mas as nossas raivas continuavam acesas e atiçadas

    contra este sonho estreme e indefeso.

    Foi assim que matámos o teu Filho, Senhora.

    Matámos o teu Filho.

    Mas tu vieste ao nosso encontro.

    Vens sempre ao nosso encontro,

    ao encontro dos teus filhos violentos,

    e acolhes-nos no teu regaço maternal.

    Mãe! Senhora das Dores!

    Senhora que acolhe as nossas Dores.

    Aqui estamos, nesta terra tão sofrida e tão querida.

    Recebe-a.

    Recebe-nos.

    Recebe o nosso coração violento e azedo.

    Recebe, Mãe, as nossas lágrimas,

    e troca-as por flores,

    Mãe, Senhora das Dores.

    Acolhe-nos, Mãe.

    Embala-nos nos teus braços maternais.

    Deixa-nos encostar o nosso ouvido ao teu coração de Mãe.

    Acolhe as nossas preces.

    Acalma-nos.

    Sorri para nós, Mãe.

    Queremos ir daqui embora sossegados, serenos, tranquilos.

    Como teus filhos queridos,

    protegidos pela tua bênção maternal.

    António Couto


  • Irei também, Senhor,

    Em procissão de amor,

    Beijar a tua Cruz.

    E quando eu olhar para ti,

    Para o teu rosto ferido e desfigurado,

    Para as tuas muitas chagas a sangrar,

    Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

    E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

    Com esse meigo olhar de serena compaixão,

    Dá-me a graça de aí ver o teu perdão nunca poupado,

    E de sair com o coração transfigurado.

    António Couto


  • Nm 21,4-9; Fl 2,6-11; Sl 78; Jo 3,13-17

    1. Por coincidir este ano com o dia 14 de setembro, a Igreja celebra, neste Domingo XXIV do Tempo Comum, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que se celebra todos os anos neste dia 14 de setembro. É sabido que a Igreja-Mãe de Jerusalém rapidamente fez do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. Na sua luta implacável contra o culto cristão, o Imperador Adriano (117-138), sobretudo nos últimos anos do seu reinado, transformou Jerusalém, em termos de edifícios e de moral, numa cidade de estilo romano, a Aelia Capitolina. Para tanto, soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de dissuadir os cristãos de continuar a frequentar esses lugares pelo temor da communicatio in sacris. Assim, no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. O projeto de Adriano não atingiu os seus fins, pois os judeo-cristãos continuaram a frequentar aqueles lugares, confundindo-se com os pagãos, que ali faziam ritos semelhantes, ainda que antitéticos. Neste sentido, conclui S. Jerónimo, que o imperador não conseguiu, como pretendia, apagar nas almas dos cristãos a fé na Ressurreição e na Cruz de Cristo. Não é de admirar, portanto, que, quando em 13 de setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, tenham sido logo demolidas as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que, em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração da Cruz: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

    2. E as coisas assim continuaram até ao ano 614, quando o rei persa Cosroé II conquistou Jerusalém e levou consigo a Santa Cruz. Neste dia, rezam as diferentes crónicas que documentam o sucedido no dia 20 de maio de 614, que «a Jerusalém do Alto chorava sobre a Jerusalém de baixo», tal era o grau de destruição, fúria, ódio, violência, sangue. Todavia, em 630, a Santa Cruz regressa a Jerusalém por obra do imperador bizantino Eráclio que, em 628, tinha derrotado o louco Cosroé II.

    3. São estes dois episódios históricos, dos séculos IV e VII, que fornecem o chão histórico para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que hoje celebramos. Anotamos, porém, que, mesmo sem estes episódios, e antes deles, a Cruz do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo, foi, segundo o Evangelho, exaltada para sempre diante dos nossos olhos.

    4. É, nesse sentido luminoso, que temos hoje a graça de ouvir o Evangelho de João 3,13-17, que expõe a toda a luz o «Filho do Homem, que deve (deî) ser levantado (hypsôthênai: aor. inf. passivo de hypsóô), para que todo o que acredita nele tenha a vida eterna» (João 3,14b). Vê-se perfeitamente que Jesus está a expor diante dos olhos de Nicodemos e dos nossos, a Cruz Santa e Gloriosa em que Ele próprio, o Senhor da Vida, será crucificado, que o mesmo é dizer, na linguagem Joanina, exaltado e glorificado. Note-se a presença da mão de Deus, quer na necessidade teológica, expressa naquele deî, que reclama o plano divino, quer na forma passiva utilizada na ação deste levantamento. Também é importante a comparação explícita que o próprio Jesus faz do seu levantamento com a ação de Moisés: «Assim como Moisés levantou (hýpsôsen: aor. de hypsóô) a cobra no deserto» (João 3,14a). E não podemos também perder de vista que, com este dizer, Jesus se assume como o verda­deiro Servo de YHWH, que «será exaltado» (hypsóô) por Deus (Isaías 52,13), e se apresenta a si mesmo como transparência de Deus: «Quando tiverdes levantado (hypsóô) o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou” (egô eimi), e que por mim mesmo nada faço, mas como me ensinou o Pai estas coisas falo (laléô)» (João 8,28). Paulo também dirá, na Carta aos Filipenses, acerca deste Jesus, que Deus o «sobreexaltou» (hyperhypsóô) (Filipenses 2,9).

    5. Notemos, antes de mais, que o levantamento de Jesus na Cruz é em ordem a dar a vida eterna (zôê aiônios) a todos os que creem (João 3,15-16). É por isso que Jesus diz: «Quando eu for levantado (hypsóô) da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32). E ainda: «Hão‑de olhar para aquele que trespassaram» (João 19,37). Na verdade, para ter a Vida verdadeira, eterna, divina, vivente, que não morre, é necessario ver [= acre­ditar] o Filho (João 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36). Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (João 3,5), isto é, do alto e de outra maneira (ánôthen) (João 3,3).

    6. Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naquelas chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está escondido em nós; 2) passa ali também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça. Sendo Deus amor, então a única maneira que Ele tem de curar o meu pecado não é decretar, lá do alto e de dentro das paredes douradas da sua eternidade, uma qualquer amnistia. A única maneira que Deus tem de me curar é descer ao meu mundo, viver no meu mundo, caminhar comigo, sujeitar-se às minhas maldades e violências, sofrê-las, absorvê-las e absolvê-las. É só assim, desarmado e só amando, que pode dissolver e absolver o pecado que há em mim. «Deus amou tanto o mundo» (João 3,16). A cura não é mágica. Levantada e exibida bem diante dos nossos olhos, naquele rosto desfigurado e naquele sangue a escorrer, a imagem da violência, mentira, ódios, dentro de nós escondida, mas agora declarada, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali exposto bem diante dos nossos olhos: é aquele amor e perdão subversivos!

    7. Era então necessário que Jesus sofresse na Cruz, daquela maneira, por nós? Sim, porque, para nos salvar, Deus não podia senão amar-nos. E, para nos amar, tinha sempre de vir viver connosco, no meio de nós, e sujeitar-se naturalmente às maldades e violências daqueles que Ele amava. Se nós fôssemos todos bons, seguramente que Jesus não teria sofrido e morrido naquela Cruz. Porquê? Porque não era necessário? Penso que a maioria de nós responderia que sim, que não era necessário. Mas a resposta verdadeira e objetiva nem sequer passa pelos terrenos da necessidade, e está toda aqui: Jesus não teria morrido naquela Cruz simplesmente porque, sendo nós todos bons, quem de nós ia fazer uma coisa daquelas?!

    8. Atenção, portanto: a Cruz não é o nosso pecado. É a imagem do nosso pecado! O pecado, que está em nós, produziu aquela imagem. Sim, está ali a imagem da nossa violência e estupidez. Vendo a imagem, podemos ver o pecado, o mal que há em nós, habitualmente escondido e dissimulado. A Cruz também não é o amor de Deus. É a imagem do Amor de Deus!

    9. Se olharmos agora para o texto do Livro dos Números 21,4-9, tudo fica mais claro. O pecado camuflava-se nos interstícios do coração do povo de Israel no deserto. O resultado era a murmuração contra Deus e contra Moisés, o não reconhecimento da ação libertadora de Deus no Êxodo e o desprezo do alimento dado por Deus no deserto, causa de fastio, e não de maravilha (Números 21,5). Como corrigir, com boa pedagogia, esta situação? Aí estão as cobras (nehashîm) venenosas, que mordem e matam (Números 21,6). A cobra é, por excelência, imagem do pecado. Esconde-se e dissimula-se como o pecado. E o veneno que transporta, igualmente dissimulado, conduz à morte, como o pecado. A cobra, como o pecado, anda dentro de nós, dissimulada nas pregas do nosso coração empedernido. É sintomático que o Livro do Génesis 3,14 refira que a cobra se alimenta de pó (ʽaphar). De pó (ʽaphar) foi modelado o homem (Génesis 2,7). Salta então à vista que a cobra se alimenta de nós. É um parasita perigoso que se alimenta de nós e nos vai corroendo. Como o pecado.

    10. Moisés expõe num poste uma cobra de bronze. Quem olhar para ela, fica curado (Números 21,8-9). Não se trata de magia, mas, outra vez, do realismo bíblico. Note-se também, antes de mais, que não era uma cobra que Moisés fixava no poste, mas a imagem de uma cobra. Olhar bem para a imagem da cobra leva-nos a descobrir a cobra verdadeira que anda dentro de nós, o veneno que transportamos, que nos mata e mata os nossos irmãos. Feito o diagnóstico, reconhecido o mal de que padecemos, podemos então iniciar o processo da cura. É neste ponto preciso que a boa pedagogia de Jesus em João 3,14 nos leva a ver bem o Filho do Homem levantado como Moisés levantou a cobra no deserto.

    11. O chamado «hino cristológico», que encontramos na Carta aos Filipenses 2,6-11, volta a pôr diante de nós o Filho de Deus, humilhado e exaltado, Jesus, que recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. Segundo as boas indicações gramaticais, o sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

    12. O Salmo 78 ensina-nos que a Bíblia é a longa história de uma salvação sempre oferecida, acolhida e, por vezes, rejeitada. Lembra-nos que que as maravilhas de Deus não são para guardar no cofre da família, mas para passar, de mão em mão, de coração a coração, de pais para filhos, de geração a geração. A catequese é o anúncio de um acontecimento em carne viva que nos deve comprometer, e não de uma série de frias ou requentadas teses teológicas.

    António Couto


  • Senhor, Tu falas,

    Tu fazes,

    Tu chamas,

    Tu ordenas.

    O teu dizer é belo, fácil e fecundo:

    Tu dizes, e tudo vem à existência.

    Todos os caminhos vêm de ti,

    vão para ti.

    És tu o Senhor de todos os chamados,

    de todos os reunidos,

    de todos os enviados.

    Nós somos os teus próprios discípulos,

    tua propriedade,

    coisa própria tua.

    Tu és a casa,

    a mesa,

    o caminho,

    o peixe,

    o pão,

    o vinho.

    Velas por todos:

    pelos pais,

    pelos filhos,

    pelos irmãos,

    pelos desfilhados,

    pelos órfãos,

    pelos desirmanados.

    Vela por nós, Senhor!

    Fica connosco!

    Dirige a nossa inteligência e a nossa vontade!

    Acalma-nos,

    quando nos vires em demasia atarefados e desorientados,

    com medo de morrermos afogados.

    Orienta a nossa barca!

    Deita-te tranquilamente à popa:

    o teu sono sereno

    há de por certo serenar as nossas tempestades.

    Senhor, vem em nosso auxílio!

    António Couto


  • 1. Vale a pena abrir uma das páginas seletas de Marcos, que transborda aromas de excecional serenidade e beleza. Trata-se do episódio de Marcos 4,35-41:

    «4,35E diz-lhes naquele dia, à tardinha: “Passemos para a outra margem”. 36E tendo eles deixado a multidão, tomam-NO consigo (paralambánousin autón), assim como estava (hôs ên), na Barca (en tô ploíô), e outras barcas estavam com ELE. 37E acontece uma grande tempestade de vento, e as ondas atiravam-se para dentro da Barca, de maneira a ficar cheia a Barca. 38E ELE estava à popa (prýmna), dormindo (katheúdôn) sobre a almofada (epì tô proskephálaion). E acordam-NO e dizem-LHE: “Mestre, Tu não Te importas que morramos?”. 39E, tendo acordado, ordenou ao vento e disse ao mar: “Cala-te! Acalma-te!”. E cessou o vento, e aconteceu grande bonança. 40E disse-lhes: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. 41E foram amedrontados (ephobêthêsan) de um medo grande (phóbos mégas), e diziam uns para os outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”».

    2. Um Evangelho de excelência, uma página imensa, como o mar imenso, em que somos convidados a mergulhar. Um luxo. Em pleno mar da Galileia, os discípulos / apóstolos de Jesus lutam, aflitos, contra a tempestade que ameaça desfazer a pequena e frágil embarcação no meio do mar encapelado (Marcos 4,35-41). A arqueologia pôs a descoberto as pequenas embarcações de pesca do tempo de Jesus. Tinham cerca de 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, tornando-se, portanto, presa fácil das ondas e do vento. E em claro e sereno contraponto, narra o Evangelho, «Jesus, à popa, dormia deitado sobre uma almofada» (Marcos 4,38). Não nos esqueçamos que a popa é o lugar de comando da embarcação. Jesus permanece, portanto, no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem nos apercebamos da serenidade da sua condução. A presença da almofada na pobre embarcação e do sono sereno de Jesus marcam bem o tom doce e tranquilo deste condutor diferente da nossa vida agitada. Não é a nossa agitação que conta. É o seu sono tranquilo. Ainda que algumas vezes nós caiamos na tentação, como, de resto, sucede com aqueles discípulos, de julgar o sono de Jesus como indiferença (4,38).

    3. Canta bem a Liturgia das Horas da Igreja:

    «Se me colhe a tempestade,

    E Jesus vai a dormir na minha barca,

    Nada temo porque a Paz está comigo».

    4. Senhor, Tu falas, tu fazes, tu chamas, tu ordenas. Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o caminho, o vinho, o pão, o peixe. Velas por todos: pelos pais, pelos filhos, pelos irmãos, pelos desfilhados (shekôl, shikulîm), pelos órfãos, pelos desirmanados. Vela por nós, Senhor, orienta a nossa barca, deita-te tranquilamente à popa (Marcos 4,38): o teu sono sereno há-de certamente serenar as nossas tempestades.

    5. Marcos descreve três travessias do mar da Galileia. Além da que aqui apresentamos agora (Marcos 4,35-41), veja-se também Marcos 6,45-52 e 8,13-21. Carateriza-as sempre o facto de a precedê-las estar o afastamento das multidões. Por outro lado, estas travessias do mar na Barca deixam Jesus a sós com os seus discípulos, possibilitando-lhes uma experiência pessoal com Ele. A Barca (tò ploîon) demarca, de resto, um espaço privilegiado que Jesus condivide unicamente com os seus discípulos. Mais ninguém entra nessa Barca, ainda que o solicite (veja-se Marcos 5,18).

    6. Na travessia de hoje, levantou-se uma violenta tempestade, que encheu de água a pequena Barca e de medo aqueles discípulos. Como Jesus dormia tranquilamente deitado sobre a almofada, os discípulos correram a acordá-lo, deixando no ar um certo tom acusatório por aquilo que julgavam ser o desinteresse de Jesus pela vida dos que seguiam com Ele: «Tu não te importas que pereçamos?» (Marcos 4,38).

    7. Jesus levanta-se e mostra um modo novo de fazer bem diferente dos seus discípulos. Dirige-se primeiro ao vento e ao mar, dando duas ordens: «Cala-te! Acalma-te!» (Marcos 4,39). E parou o vento, e fez-se bonança no mar (Marcos 4,39). Só depois disto, Jesus se dirige aos seus discípulos, não com duas ordens, mas com duas perguntas incisivas: «Por que tendes medo? Ainda não tendes fé? (Marcos 4,40). Os discípulos não responderam, mas expressam a sua reação perante tudo o que viram Jesus fazer e ouviram Jesus dizer: «Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?» (Marcos 4,41).

    8. Já lá atrás, em Cafarnaum, Jesus tinha dado ordens a um espírito impuro, e ele obedeceu (Marcos 1,26-27). Fica então claro que os espíritos impuros e as forças da natureza, que não reagem a palavras humanas, seguem à letra as ordens de Jesus. Os discípulos saem então de um temor, não para a acalmia, como seria de supor, mas para outro temor ainda maior. É o temor que resulta da experiência do poder divino, sobreumano (Êxodo 14,31). Tal como o perigo, também a salvação do perigo é superior ao homem, vence a humana impotência e desperta o sentido profundo do sagrado. O novo temor daqueles discípulos mostra o sentido que começam a ver nascer do fazer divino de Jesus. Mas expressa também o seu espanto diante da pergunta de Jesus [«ainda não tendes fé?»], que deixa supor uma fé incondicionada. Se fosse requerida por um homem, uma tal fé seria impossível e sem sentido. A pergunta que os discípulos se fazem entre si é, portanto, dupla: «Quem é este que faz tais coisas e que pede uma tal fé»? Esta pergunta não exprime dúvida, mas espanto sagrado e pesquisa atenta. Acompanhá-los-á daqui para a frente no seu caminho com Jesus.

    9. Note-se que, no episódio hoje diante de nós estendido, e nunca de todo entendido, a iniciativa de entrar na Barca é de Jesus (Marcos 4,35), mas também é dito que os discípulos «tomam Jesus, assim como estava, na Barca» (Marcos 4,36). Pode passar despercebido, mas esta fantástica anotação não é uma pequena nota do diário de bordo daquela travessia marítima. Serve, antes, para nos apercebermos bem que, na verdade, é Jesus que conduz aqueles discípulos, estes discípulos, assim como somos, assim como estamos!

    António Couto


  • Os seguidores de mesadepalavras.wordpress.com devem ter reparado que o site deixou de ser atualizado há cerca de quinze dias. Problemas técnicos ainda hoje não compreendidos a isso obrigaram o autor e alimentador do site. Além disso, Todo o acervo de mesadepalavras.com, que contava mais de 1300 posts foi perdido, e permanece irrecuperável. A página aberta ao público ainda permanece disponível, por enquanto, e pode ser aproveitada.

    Anuncio aos muitos seguidores, de todas as latitudes, a criação de um novo site, também com o título mesadepalavras.org. A única pequena diferença está no .org. Esquecendo o passado, que permanece irrecuperável, este novo site vai manter a identidade do anterior, servindo sobretudo as páginas litúrgicas, como era usual no anterior. Mas não só. Haverá também, como já se fazia no anterior, anotações apropriadas às circunstâncias que se forem deparando na dobadoira próprio do tempo.

    Para começar, vou colocar o post mais visitado no site anterior: “Jesus, à popa, dormia deitado numa almofada”.

    Saudações a todos os antigos e novos visitantes.

    António Couto