• 1. Com a Carta Apostólica Aperuit IllisAbriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras» (Lc 24,45)], sob a forma de Motu próprio, datada de 30 de setembro de 2019, memória litúrgica de São Jerónimo, e abertura da celebração do 1600.º aniversário da sua morte (30 de setembro do ano 420), O Papa Francisco instituiu o Domingo da Palavra de Deus, a celebrar anualmente no Domingo III do Tempo Comum.

    2. Oportunidade para toda a Igreja se debruçar com veneração sobre a Palavra de Deus, que deve escutar com amor e diligência, e da mesma maneira viver e anunciar, dado que a Palavra de Deus constitui para o cristão alimento indispensável. S. Jerónimo dedicou-lhe toda a sua vida e atenção. Aqui deixo, pois, um extrato significativo dos seus Comentários ao Salmo 147, que pode ser para nós inspirador, hoje e em qualquer tempo. É claro que veneramos a Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Cristo. Mas adverte-nos S. Jerónimo que igual veneração nos deve merecer a Escritura Santa, que é também Corpo e Sangue de Cristo. Prestemos-lhe atenção:

    3. «Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as Santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e beber o meu sangue” (João 6,53), embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?».

    António Couto


  • Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,

    caminha pelas nossas estradas,

    percorre as nossas praias,

    visita as nossas casas,

    vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

    Jesus é Deus que passa, ama e chama.

    Mas não nos chama a responder a um inquérito,

    a preencher uma ficha,

    responder a uma entrevista,

    fazer uma inscrição,

    pagar a matrícula,

    aprender uma doutrina.

    Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.

    Nem sequer nos entrega um projeto de vida,

    uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.

    Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:

    «Vinde atrás de Mim!», é o desafio,

    e partilha logo ali connosco a sua vida toda,

    como uma dança de roda,

    como uma boda.

    Não nos põe primeiro a fazer um teste,

    não nos ama nem chama à condição,

    não tem lista de espera,

    não nos põe num estágio,

    num estado,

    num estrado,

    numa estante,

    mas num caminho!

    E um dia mais tarde,

    ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!»,

    novo e imenso desafio.

    É sempre no caminho que nos deixa,

    mas não nos deixa sós,

    vai sempre connosco,

    acompanha-nos,

    não apresenta queixa,

    não paga ao fim do mês,

    não paga a prestações,

    não paga,

    pede e dá tudo de uma vez.

    Vem, Senhor Jesus!

    Vem e ama!

    Vem e chama por mim outra vez!

    António Couto


  • Isaías 8,23-9,3; Salmo 27; 1 Coríntios 1,10-13.17; Mateus 4,12-23

    1. Domingo III do Tempo Comum. Cruzamento e entrelaçamento de textos num facho de intensa luz, vinda de fora, como a aurora. É assim que o Evangelho de Mateus 4,15-16 recolhe Isaías 8,23-9,1. O profeta tinha diante dos olhos uma luz grande que havia de brilhar naquela Galileia devastada. Ventos de morte tinham varrido a Galileia nos anos 733-732 a.C., quando o imperador assírio Tiglat-Falasar III, na sua expansão para ocidente, e no seguimento da guerra siro-efraimita, invadiu e reduziu estes territórios da Galileia a três províncias assírias: Galaad, Meguido e Dor, levando para o exílio muitos dos seus habitantes judeus e transferindo para ali povos pagãos de outros credos, raças e culturas, para impedir que um Israel com identidade própria e religiosidade judaica pudesse ainda vingar e prosperar naquela região. Era assim que a Assíria tratava os seus vassalos rebeldes: matava-lhes o corpo e a alma. Mateus, que bem conhecia a realidade da Galileia, e que também seguiu os caminhos de Jesus, gravou no seu Evangelho que essa luz que Isaías vislumbrou é Jesus que, com a sua presença e pregação, alumia agora a sombria região da Galileia.

    2. O Evangelho de hoje (Mateus 4,12-23) refere com precisão que, «quando Jesus soube que João Batista tinha sido preso, retirou-se (anechôrêsen) para a Galileia» (Mateus 4,12), e, «desde então, começou a pregar» (Mateus 4,17a). Uma prolepse e uma surpresa, podemos dizer mesmo um escândalo. A prolepse: ao anotar a prisão de João Batista, o narrador está a registar um facto histórico, mas, mais do que isso, está já a desvendar aquilo que um dia acontecerá também a Jesus. E já se começa a notar, pois é dito que Jesus, ao ter conhecimento da prisão de João Batista, se retirou para a Galileia. O uso do verbo grego anachôréô [= retirar-se] indica geralmente em Mateus a fuga de um lugar que se revelava perigoso e hostil para outro mais tranquilo (cf. Mateus 2,12.13.14; 4,12; 12,15; 14,13; 15,21). De resto, em caso de perseguição, Jesus aconselha os seus discípulos a fugirem para outra cidade (Mateus 10,23), ainda que neste texto use um verbo diferente. A surpresa e o escândalo: era do sentir comum que o anúncio messiânico fosse feito no coração do judaísmo, em Jerusalém e na Judeia, e não numa região periférica, desprezada e contaminada pelo paganismo, como era esta «Galileia dos pagãos» (Mateus 4,15). Curiosamente, Jesus tinha vindo de Norte para Sul, da Galileia para a Judeia, ao encontro de João Batista, para ser por ele batizado (Mateus 3,13), e ei-lo que faz agora a viagem ao contrário, de Sul para Norte, da Judeia para a Galileia (Mateus 4,12), e é aí, em Cafarnaum, que começa a pregar o Evangelho (Mateus 4,17). Regresso forçado, como vimos, pelos acontecimentos hostis verificados no Sul, e que levaram à prisão de João Batista. É para justificar e iluminar este estranho e inesperado começo, que Mateus se vê como que obrigado a citar por inteiro a passagem apropriada de Isaías 8,23-9,1, que põe o povo humilhado da tribo de Zabulon, de que fazia parte Nazaré, e da tribo de Neftali, de que fazia parte Cafarnaum, a ser visitado por uma grande Luz, que rasgava a noite e a morte semeadas pela guerra e o desprezo (Mateus 4,13-16).

    3. Esta Luz é Jesus. Luz de Jesus que vem iluminar a noite da Galileia. Voz de Jesus a romper aquele espesso manto de silêncio: «Convertei-vos, porque se fez próximo (êggiken) o Reino dos Céus!» (Mateus 4,17b). É assim, com estas palavras, que Jesus começa a pregar na Galileia. É fácil verificar que são exatamente as mesmas palavras com que João Batista abria a sua pregação no Sul: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2). Conversão, isto é, mudança de mentalidade (metanoéô LXX), mas sobretudo de caminho e de direção [voltar-me, não para mim mesmo, mas para o Deus pessoal da aliança] (shûb TM), e responder à sua Palavra sempre primeira. A exigência da conversão é motivada pela proximidade e continuidade do Reino de Deus entre nós. O uso do verbo grego eggízô no perfeito [êggiken = fez-se próximo] ensina-nos que o Reino de Deus não está apenas perto ou próximo de nós ou a caminho, que está para chegar, mas que já veio para ficar sempre próximo de nós, no meio de nós. Não está em vias de acontecer num futuro mais ou menos próximo, mas está agora a acontecer. É agora (cf. Mateus 26,45-46). Esplêndida Luz, esplêndida Voz, esplêndido Amor de Deus, esplêndida surpresa divina! Ainda antes de nos interpelar a que nos interessemos por Deus, a Bíblia mostra que é Deus que se interessa primeiro por nós, tomando a iniciativa de percorrer as nossas estradas poeirentas para nos vir visitar a nossas casas! E não apenas visitar, mas ficar connosco! É esta a maravilha desconcertante do Evangelho! Evangelho no duplo sentido: objetivo e subjetivo. O Evangelho é Jesus, a pessoa de Jesus (sentido objetivo). O Evangelho é a ação de evangelização desencadeada por Jesus (sentido subjetivo). Jesus é, portanto, o Evangelho e o Evangelizador.

    4. É o que constatamos no velho texto de Mateus e nas nossas estradas de hoje. Verificação: Jesus caminha ao longo das praias do Mar da Galileia, e vê dois irmãos, Simão e André, ocupados nas lides da pesca, e diz-lhes: «Vinde atrás de mim (deûte opísô mou)» (Mateus 4,19). Bem vistas as condições de trabalho em que os dois estavam envolvidos, e a importância da pesca no mundo pobre da Galileia, a ordem de Jesus parece completamente disruptiva. Mas a resposta dos dois é excessiva, imediata e radical: «Deixaram logo (euthéôs) as redes, e seguiram-no!» (Mateus 4,20). Note-se, no entanto, que aquele «Vinde atrás de mim» não é um convite; é uma exigência. E não se trata tanto do dizer de um Mestre, mas de um Profeta, ao jeito do chamamento de Elias a Eliseu (cf. 1 Reis 19,19-21). É normal os discípulos seguirem o Mestre, «atrás do Mestre», mas já não é usual ser o Mestre a chamá-los; são os discípulos que devem procurar um Mestre. Por outro lado, ainda, a atividade própria do Mestre é ensinar, mas no caso deste chamamento, Jesus parece ter em vista uma estranha atividade de pesca: «farei de vós pescadores de homens». Compreende-se a metáfora da pesca no seguimento da ocupação acabada de descrever daqueles dois chamados, mas fica em aberto a natureza da nova pesca acenada por Jesus: de quê e para quê pescar pessoas? Jeremias 16,16 põe Deus a falar e a dizer: «Enviarei muitos pescadores para a pesca, e pescá-los-ão».

    5. É a mesma metáfora da pesca, mas trata-se aqui de reunir os pecadores para o julgamento. É aqui que encaixa a pesca proposta por Jesus face à Vinda do Reino de Deus. Daí também a exigência da conversão ordenada por Jesus. E a força daquele chamamento feito por Jesus àqueles pescadores. Lendo outra vez as palavras de Jesus, percebemos que não se trata de convidar, mas de exigir, método de Profeta, e não de Mestre. E falar de «pescadores para pescar homens» é também linguagem profética e tem em vista o julgamento de Deus. E andando um pouco mais, viu outros dois irmãos, Tiago e João, que, com o pai, Zebedeu, remendavam (katartízontas) as redes na barca. Também os chamou. E também eles deixaram logo (euthéôs) a barca e o pai, e seguiram-no (Mt 4,21-22). Porquê este chamamento disruptivo e a resposta radical destes pescadores? A resposta reside na urgência criada pela proximidade do Reino de Deus, a que nada se deve antepor. Nada é primeiro em relação ao Reino de Deus: nem sepultar o próprio pai ou despedir-se dos familiares (Lucas 9,59-61). «Quem lança as mãos ao arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus» (Lucas 9,62). E o Reino de Deus não tem fronteiras, nem bandeiras, nem moeda própria. Não está aqui ou ali. Não é deste mundo. O Reino de Deus é o próprio Jesus Cristo com o Espírito Santo. Ele é o Reino em pessoa (hê autobasileía), conforme o belo dizer de Orígenes. É, então, face a Ele que nos devemos converter. É a voz dele que temos de ouvir. É o seu caminho que temos de seguir. O Reino de Deus, Jesus, põe-nos em cheque e em causa. Daí a urgência da conversão, daquele chamamento e daquela resposta.

    6. É então urgente compreender que Jesus, que é o Reino de Deus em pessoa, desce ao nosso mundo, caminha pelas nossas estradas e vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho. E é aí que nos chama e nos põe em estado de urgência e de conversão. Não espera por nós apenas no cenário sagrado das nossas Igrejas! Não nos obriga a fazer uma inscrição, a preencher uma ficha, a aprender uma doutrina, nem sequer nos entrega um projeto de vida, um guião, uma regra, não pede a nossa opinião. Não nos convida a segui-lo, mas exige que o sigamos, não para nos ensinar, mas para nos enviar como pescadores de homens para o julgamento decisivo do Reino de Deus. A sua voz é mais de Profeta do que de Mestre. Tudo o que Jesus diz e faz é exigente, decisivo e urgente. É face a Ele que devemos saber queimar a nossa palha. É a isso que se chama pôr a nossa vida em estado urgente, mas permanente, de conversão. Jesus não nos põe a fazer uma espécie de estágio, para que um dia nos tornemos Mestres. Já sabemos que permaneceremos sempre irmãos, e um só é o nosso Mestre (cf. Mateus 23,8). Não nos coloca num estágio, num estado, num estrado, numa estante, mas num caminho! E um dia mais tarde, ouvi-lo-emos ainda dizer: «Ide!» (Mateus 28,19). É sempre no caminho que nos deixa. Mas sempre atrás d’Ele.

    7. A toada do Evangelho de hoje, com Jesus a chamar por nós, pode levar-nos a casa de Carl Gustav Jung (1875-1961), um dos pais da psicanálise. Carl Jung mandou esculpir sobre a porta da sua casa, em Küsnacht, na Suíça, esta frase: «Chamado ou não chamado, Deus estará sempre presente. Nunca se vai embora. Fica sempre por perto, à espera de nos abraçar».

    8. Mas voltemos a Isaías 8,23-9,3, hoje, como já vimos, entrançado com o sublime Evangelho de Mateus 4,12-23. Visita de Deus. Luz grande para os abandonados. É a passagem das nossas trevas para a luz refulgente que vem de Deus. É o habitual link editorial dos profetas que sabem sobrepor ou justapor a promessa de redenção com o desastre, mostrando que dentro do desastre já germina a esperança, das entranhas das trevas já começa a despontar a luz, nova criação, milagre sem explicação. Deus em ação. As trevas podem surgir quando falta a luz; mas em caso algum podem produzir luz. Vê-se ainda a vida a borbotar das feridas infligidas pelas espadas. Alegria a desenhar a estação das ceifas. As nossas mãos em concha a recolher os dias dados. Deus primeiro e antes. Deus basta. O dia de Madiã é o dia em que Gedeão enfrenta e desbarata as tropas de Madiã com trezentos homens que sabem que a água é um dom de Deus (cf. Juízes 7). E estiveram lá junto da fonte mais trinta e um mil e setecentos candidatos que apenas exibiam a própria força e que pensavam que estavam ali por mero acaso! Estavam a mais. Foram naturalmente mandados embora. Como já tinham sido outros dez mil antes deles.

    9. Continuamos a saborear a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, servida hoje no extrato entrecortado de 1,10-13.17. Sem cedências de qualquer espécie, Paulo aponta à comunidade cristã de Corinto as divisões e rixas que nela se instalaram, e os grupinhos de pertença em que as pessoas se agrupam e reveem. E Paulo propõe aos Coríntios e a nós que, em vez de nos ocuparmos com divisões ou cismas (schísmata), nos tornemos «remendadores» (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (1,10), que é sintomaticamente o mesmo verbo em que se ocupavam os discípulos hoje chamados, que estavam a remendar (katartízontas: part. presente de katartízô) as redes (Mateus 4,21). Aí está um novo e belo ministério: «remendadores» da comunidade, isto é, fazedores de pontes, estradas, braços e abraços, para que as pessoas, em vez de se separarem e dividirem, se unam e reúnam. E porque circulava também em Corinto uma certa conceção de batismo que criava especiais laços de pertença do batizando em relação a quem o batiza, Paulo adianta bem que a sua missão não é batizar, mas evangelizar!

    10. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar atento e carinhoso de Deus.

    11. Este Domingo é também, por vontade do Papa Francisco, o Domingo da Palavra de Deus. O Domingo da Palavra de Deus foi instituído pela Carta Apostólica sob a forma de motu proprio Aperuit illis, de 30 de setembro de 2019, e começou a celebrar-se desde 2020 no Domingo III do Tempo Comum. Portanto, deixemo-nos invadir performativamente, e não apenas informativamente, pela torrente da Palavra de Deus. E deixemos que a Palavra de Deus rasgue em nós novas avenidas férteis e floridas, onde despontem novos e adequados comportamentos.

    António Couto


  • 1. Neste dia dedicado a São Sebastião, Padroeiro principal da nossa Diocese de Lamego, quero saudar todos os filhos da nossa Diocese, espalhados por todas as paróquias, por todos os recantos de Portugal e também em países de imigração, sobretudo os mais fragilizados, os doentes, os reclusos, os que perderam Deus e a esperança. A todos entrego à solícita proteção de São Sebastião que, ao longo dos séculos, tem sempre sabido defender quem dele implora pronto-socorro em situações difíceis de fome, de peste e de guerra. Quero saudar de modo particular o Sr. D. Jacinto, meu irmão no Episcopado, que hoje celebra o 30.º aniversário da sua Ordenação Episcopal, que teve lugar nesta Catedral no dia 20 de janeiro de 1996.

    2. Portanto, a nossa Igreja de Lamego está hoje em festa. A razão fundamental é porque celebramos hoje o nosso Padroeiro principal, São Sebastião, de quem recebemos a implorada e desejada proteção e a suprema lição, que não passa por um sermão, mas pela doação da própria vida. A nós, que aqui nos reunimos hoje, interessa-nos saber que foi Jesus Cristo a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. Foi intensa a sua LUZ, imenso e notório o seu TESTEMUNHO no meio de uma cidade ensonada e às escuras.

    3. No meio da cidade pestilenta e decadente de Roma, São Sebastião representa uma fonte de vida e um ponto de luz. Há a cidade dormente e sonolenta. E há, em contraponto, a cidade alumiada e atenta, que não se pode esconder sobre um monte. Não se pode apagar o horizonte. Não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição que desencadeou contra os cristãos nos primeiros anos do século IV. O tirano, Diocleciano, fez o que podia fazer. Mas era pouco e tarde demais. Mandou quebrar o frasco cheio de perfume. Mas não se apercebeu que, ao quebrar-se o frasco, se soltaria o perfume, que nem o estrume de Roma podia apagar. E foi assim que o perfume intenso daquele amor imenso se espalhou por Roma e pelo mundo inteiro. Já sabemos que chegou também a Lamego esse aroma intenso e perfumado, que sanava a fome, a peste e a guerra, mas também o frio, e sobretudo o vazio do coração e da alma, a descrença e a indiferença, a maior doença que corrói a sociedade.

    4. Um documento manuscrito guardado na Biblioteca Nacional reporta uma grande peste em Lisboa e Alcácer do Sal em 1569 e 1570, que provocou muitas dezenas de milhar de mortos. O vocabulário é semelhante ao que nós usamos hoje: «cercas sanitárias», «isolamento», «quarentenas». Lê-se ainda, nesse documento que, no dia 22 de agosto de 1569, de uma imagem de São Sebastião escorreram grossas gotas de água claríssima que, recolhidas em lenços, curaram então muitas pessoas.

    5. Acabados também nós de sair de um tempo de pandemia, eis-nos já entrados num tempo de guerras brutais como há muito não se via, em que já se contam centenas de milhares de mortos, milhões de vidas humanas truncadas, atiradas ao lamaçal da sorte, a um vale de lágrimas, ao desalento e ao sofrimento. Tempo de imunda insensatez. Não é pensável que um ser humano sensato ocupe o seu tempo a pensar como pode matar mais e mais depressa. Seguramente não falta dinheiro a este mundo. Falta amor a este mundo. Falta Deus a este mundo. É por isso que faltam irmãos, e sobram inimigos.

    6. Jesus não veio trazer-nos uma definição de Deus. Veio trazer-nos Deus, e mostrar-nos que somos filhos e irmãos, amados e não abandonados. Não nos ensinou montes de orações. Só nos ensinou a rezar o Pai Nosso e a perceber o alcance das palavras que dizemos. E, portanto, ouvimos no Evangelho de hoje (Mateus 10,28-33): Tende confiança! Valeis mais do que muitos passarinhos. Se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não semeiam nem ceifam, com quanto mais carinhos cuidará de nós, seus filhos queridos! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tão segura que está mesmo retratada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16).

    7. Portanto, Igreja de Lamego, tem confiança. Aprende outra vez a rezar o Pai Nosso. Levanta-te e vai com os passarinhos, que não semeiam nem ceifam, mas voam e cantam os louvores do nosso Pai, que está nos Céus. Levanta-te e vai com São Sebastião, e enche este mundo de perfume e de unção, de oração, de comunhão e de paixão. Enche este chão bendito de estradas de Jericó, onde passa o próprio Deus, e se debruça sobre o teu pó, e o levanta e o beija.

    8. Vem, Senhor Jesus! Ensina-nos outra vez a rezar o Pai Nosso, e isso nos basta. Nós vo-lo pedimos por intercessão do Mártir S. Sebastião. Amém.

    António Couto


  • Deus fiel,

    fiável,

    sim irrevogável.

    Matriz fidedigna,

    maternal amor preveniente,

    permanente,

    paciente.

    Palavra primeira e confidente,

    providente,

    eficiente,

    a dizer-se sempre

    e para sempre dita.

    Rochedo firme,

    abrigo seguro,

    alcofa para o nascituro,

    luz no escuro,

    amor forte,

    sem medo da morte

    e do futuro.

    Deus fiel e confidente,

    fala,

    que o teu servo escuta atentamente.

    Nada do que dizes cairá por terra.                      

    A tua palavra à minha mesa,

    minha habitação,

    minha alegria,

    minha exultação,

    energia do meu coração,

    luz que me guia e que me alumia.

    A minha luz é reflexa,

    a minha palavra é lalação,

    de ti decorre,

    para ti corre a minha vida,

    dita,

    dada,

    recebida

    e oferecida.

    António Couto


  • Neste dia 17 de janeiro, a Igreja faz memória de Santo Antão, pai do monaquismo do Ocidente. Segundo a tradição, viveu mais de cem anos. Terá nascido no Egito em 251, ocorrendo a sua morte em 17 de janeiro do ano 356.

    Era rico. Ainda jovem, por volta dos vinte anos, durante uma celebração litúrgica, ouviu o texto de Mateus 19,21, em que Jesus diz ao jovem rico: «Se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-me».

    Chegado aqui, o jovem rico do Evangelho foi-se embora muito triste, como sabemos, porque possuía muitos bens e não estava disposto a desfazer-se deles. Mas o jovem Antão levou o Evangelho à letra, distribuiu, com alegria, os seus muitos haveres pelos pobres, e fez-se seguidor dos passos de Cristo no deserto do Egito, onde muitos o seguiram também.

    Atenção, meu irmão deste dia 17 de janeiro! A rajada de verbos que virou do avesso a vida do jovem Antão pode virar também a tua. Não esqueças: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!».

    Deixo ainda uma questão fundamental: por que razão os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza, por sermos ricos e importantes?

    Santo Antão, roga por nós.

    António Couto


  • Isaías 49,1-6; Salmo 40; 1 Coríntios 1,1-3; João 1,29-34

    1. Estamos já no Domingo II do Tempo Comum, e escutamos o Evangelho de João 1,29-34. E à nossa frente está outra vez João Batista, a figura do umbral ou do limiar, que está sempre ali, à porta, para acolher quem vier, fazer as apresentações e dar as indicações necessárias. É dito, em João 1,28, que João Batista estava «em Betânia» (Bêthanía), de beyt ՚aniyyah [= «Casa da barca»] ou de ՙeynon beyt [= «Casa da fonte»], «do outro lado do Jordão (péran toû Iordánou), e que era aí que batizava». Em termos de crítica textual, o nome «Betânia» é o que reúne mais consenso, sendo, portanto, o melhor estabelecido por aparecer na maioria dos manuscritos maiúsculos e minúsculos. Há, porém, outras possibilidades de leitura, de que destacamos Bêthabarah, de beyt ՙabarah [= «Casa da passagem»]. Esta última denominação remonta a Orígenes que, no séc. III, visitou a região e não encontrou o topónimo «Betânia», mas encontrou Bêthabarâ. No seguimento de Orígenes, também Eusébio de Cesareia, Jerónimo e vários manuscritos assumem esta leitura. Portanto, segundo a crítica textual, o nome do lugar pode mudar. O que não muda é a locução «do outro lado do Jordão» que, no Evangelho de João, aparece sempre relacionada com João Batista (João 1,28; cf. 3,26; 10,40). João Batista coloca-se, portanto, estrategicamente «do outro lado do Jordão», onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). Era então «do outro lado do Jordão» que João Batista batizava (baptizôn). Este particípio indica duração, fazendo da atividade de João Batista uma missão continuada e duradoura. Pode mudar-se o lugar, que não se muda o significado, seja ele «Casa da barca», «Casa da fonte» ou «Casa da passagem». Mas este dado «do outro lado do Jordão» não pode deixar-se cair, dado o valor simbólico que indica, e que, em si, é já um discurso. É preciso voltar atrás, ao «outro lado do Jordão» para se poder entrar agora com o pé direito na Terra Prometida.

    2. Dado que estamos a lidar com o início do Evangelho de João, talvez valha a pena olhar para a forma como está organizado. Aperceber-nos-emos logo que este início do Evangelho de João (1,19-2,12) distribui as ações por dias, organizados em dois blocos de 4 + 3. No primeiro dia (1,19-28), João Batista, postado no umbral de Betânia ou Bêthabara, é interrogado pelas autoridades acerca da sua identidade. No segundo dia (1,29-34), João Batista acolhe Jesus e apresenta-o, sem que seja dito a quem, a todos nós com certeza. No terceiro dia (1,35-42), alguns discípulos de João Batista seguem Jesus, e Simão recebe o nome de Cefas [= Kêphâs] (1,42), única vez nos Evangelhos, que significa Pedra esburacada, acolhedora e protetora. No quarto dia (1,43-51), Jesus chama Filipe e revela-se a Natanael e aos outros discípulos. Estes quatro dias representam em crescendo a preparação remota para a manifestação da Glória de Jesus. Correspondem à primeira parte da preparação para a Festa do Dom da Lei, que os judeus celebravam na Festa das Semanas ou Pentecostes. Depois destes quatro dias, salta-se logo para o «3.º Dia» (2,1-12), que é o 7.º do esquema 4 + 3, e que tem a ver com a manifestação da Glória de Jesus (2,11), que corresponde ao 3.º Dia da manifestação da Glória de Deus no Sinai (Êxodo 19,10-20), para o qual se requerem dois dias de intensa preparação (Êxodo 19,10-11). Se os quatro primeiros dias constituem a preparação remota, os dois seguintes são a preparação próxima para este 3.º Dia! Este era o esquema da preparação do povo para a Festa do Dom da Lei de Deus que se celebrava no Pentecostes.

    3. O Evangelho de João hoje proclamado e escutado (1,29-34) põe diante de nós o 2.º dia dos primeiros quatro de preparação a que atrás aludimos. João Batista permanece parado, imóvel e sereno e atento, desde João 1,28, em Betânia ou Bêthabarâ, nomes que indicam claramente que se trata de um lugar de passagem e de água. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, entre o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. É desse lugar de passagem, mas em que está parado e atento como um guarda ou sentinela vigilante, a observar, que João Batista vê bem, «vê por dentro», como indica o verbo grego emblépô, Jesus a passar (peripatoûntos) (1,36) e a VIR (erchómenos) ao seu encontro (1,29). Esta é a primeira vez que Jesus surge em cena no Evangelho de João. E João Batista é assim o primeiro a ver Jesus, que VEM ao seu encontro, como Deus VEM ao nosso encontro, verificando-se e cumprindo-se assim quanto dito em Isaías 40,10: «O Senhor VEM». Recolhendo, em analepse, as vozes proféticas do passado, mas desenhando também já, em prolepse, os passos futuros, o Batista apresenta Jesus como «o CORDEIRO de DEUS, que tira o pecado do mundo» (1,29). Apresenta-o a nós, pois não é dito que mais alguém esteja lá. Riquíssima apresentação de Jesus, que lembra o cordeiro pascal (Êxodo 12), o servo de Isaías que carrega os nossos pecados (Isaías 53), enfim, o cordeiro vitorioso do Apocalipse. Mas é preciso ter presente ainda que Cordeiro se diz na língua aramaica, língua comum então falada, thalya’. Mas thalya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Tantos fios fecundos, tantas sementes, tantos frutos, a recolher e já também a lançar aos campos que se desenham diante dos nossos olhos. Aí está bem delineada a identidade de Jesus. CORDEIRO de DEUS diz ainda, numa linguagem bem nossa conhecida, que este CORDEIRO é de DEUS, pertence a Deus: é Deus o seu pastor. Mas o Batista diz ainda de Jesus, CORDEIRO de DEUS, que é Ele «que tira o pecado do mundo». Com esta locução não parece que estejam em vista apenas os pecados individuais, mas o fim do domínio do pecado, avistando-se já um mundo novo, esvaziado do mal e cheio do conhecimento de Deus (Isaías 11,9), verdadeira plantação de Deus (Isaías 61,3; 1 Coríntios 3,9). O verbo aírô [= tirar], quando relacionado com pecado (hamartía) diz o mesmo que aphíêmi [= perdoar], que é obra só de Deus, que se vai repetindo nos sacrifícios pelo pecado realizados no Templo.

    4. Nesta passagem do Evangelho de João trata-se de eliminar o pecado todo, de fechar o tempo do pecado com uma única ação, e não do perdão pontual de um determinado pecado individual, a que era necessário acorrer muitas vezes. Os leitores e ouvintes mais habituados a lidar com os textos bíblicos já certamente repararam na vizinhança entre «tirar (aírô) o pecado do mundo» e «tirai (aírô) tudo isto daqui, e não façais da casa do meu Pai casa de comércio» (2,16). Espaço e modo relacional novo. Eis, portanto, que Jesus VEM ao encontro de João, e é por este apresentado como o Messias, Aquele que VEM pôr fim à longa espera de Israel, e estabelece uma nova etapa na relação que une Deus com a humanidade. E talvez não seja por acaso que João Batista exerce o seu ministério «no outro lado do Jordão», fora das instituições do Templo. E ao ver o Espírito descer como uma pomba sobre Jesus e nele permanecer (1,32), João Batista está a ver o nascimento do novo Israel, inaugurado com Jesus, que é o que batiza com o Espírito Santo (1,33), novo nascimento, portanto. A pomba no judaísmo antigo representa Israel. O Espírito que desce sob a forma de pomba anuncia a geração e o nascimento do novo Israel inaugurado com Jesus, e constitui o fruto maduro da vinda do Espírito para o meio dos homens. Uma coisa é o que se vê, do que João Batista vê; outra é o significado do que vê, que não é fruto das suas ideias ou inspiração própria, mas obra da revelação de Deus, daquele que o enviou a batizar com água (1,33).

    5. O Espírito de Deus entra na nossa história, descendo e permanecendo na humanidade de Jesus (1,33). A humanidade de Jesus é a porta por onde entra em nossa casa o Espírito de Deus. É esta novidade que, do seu posto de sentinela, João Batista está também a ver (heôraka, verbo no perfeito grego), e dela dá testemunho (memartýrêka, verbo no perfeito grego) (1,34). O perfeito grego indica continuidade: vi e continuo a ver; testemunhei e continuo a testemunhar. Entenda-se bem: João Batista dá testemunho, não porque viu e agora já não vê, mas porque viu e continua a ver, exatamente como as testemunhas de Jesus Ressuscitado (20,18.25). O Filho de Deus feito Homem, sobre quem desce e permanece o Espírito de Deus, Vem ao nosso encontro em Betânia ou Bêthabarâ, mas sempre no «outro lado do Jordão», margem esquerda, para nos fazer entrar em Casa, na Terra Prometida, novo espaço, tempo e modo relacional com Deus.

    6. Cordeiro, Servo, Filho, Pão: eis Jesus, manso e dócil, nosso irmão e nosso alimento. O «Segundo Canto do Servo do Senhor» (Isaías 49,1-6), em que Hoje se espelha o Evangelho, já mostra este Servo de Deus, libertado do serviço entre os povos estrangeiros, para se colocar exclusivamente ao serviço do Senhor, que, por isso e para isso, o pode chamar «meu Servo» (Isaías 49,3 e 6). A sua missão será reconduzir Israel para Deus, de quem se tinha afastado física, moral e espiritualmente (Isaías 49,5). Fica, todavia, logo claro que não é suficiente proceder à reunião dos filhos de Abraão. É necessário ir mais longe e refazer o mundo dos filhos de Adam. É necessário ser a Luz das nações, como Jesus (Lucas 2,32). E assim devem ser também todos os seus escolhidos e enviados.

    7. Veja-se Paulo, que faz sua a missão do Servo Israel de ser Luz das nações até aos confins da terra (Atos 13,47). É nesse rastro de Luz que chega um dia a Corinto para lá acender a Luz de Cristo, Senhor Nosso, e velar por essa Luz que arde nas entranhas. É por isso que hoje escutamos também o princípio da correspondência que Paulo estabelece com a comunidade de Corinto (1 Coríntios 1,1-3).

    8. Cantamos hoje o primeiro andamento do Salmo 40, repetindo o refrão: «Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade!» (vv. 7-8). É o cântico novo que ecoa hoje na nossa boca (v. 4), e que se vai ouvindo já por toda a terra. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos e modos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, que põe em cena João Batista, o grande indicador de caminhos, e, sobretudo, do Caminho, que é Jesus, e em sintonia também com a lição do Servo de Deus de Isaías 49, que vem para levar Deus e a sua Luz às nações e aos corações. Como Paulo faz desde Damasco até Corinto, até Roma. Para tanto, todo o Servo de Deus tem de ter os ouvidos escavados (v. 7) e o coração incendiado.

    António Couto


  • Ain Karem ou Fonte do Jardim, a uns 8 km a sudoeste de Jerusalém, é apontado como o lugar tradicional do nascimento de João Batista. Mas o verdadeiro lugar da sua vida é o deserto da escuta infinita e do sentido a transbordar que abre caminhos nunca andados e opera corações empedernidos e embotados. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Tal como a escuta infinita e o sentido a transbordar, também os gafanhotos e o mel silvestre são alimento para o coração, e não para o estômago. Como a verdade, a fidelidade, a felicidade, a paz, a alegria e o amor.

    Sempre em contraponto, João pregava no deserto, e não na Trafalgar Square. No deserto, João estava a sós com Deus. Não havia distrações. E quem o queria ouvir, e muitos eram, tinham de sair de casa, das praças, do barulho da cidade. E já sabiam que iam ouvir uma palavra diferente, que caía no coração, e aí crescia como uma semente.

    Também Jesus veio lá da Galileia, fez 150 km para ficar tu-a-tu com João e a céu aberto com Deus. A água do Jordão lava o coração. O batismo de João é como um sismo que abala, não o chão, mas o coração.

    António Couto


  • O Filho e o Espírito Santo são,

    no dizer de Santo Ireneu de Lião,

    as duas mãos do Pai

    enviadas em missão

    para junto dos seus filhos de adoção.

    À semelhança, claro,

    daquelas mãos de amor,

    que, no alvor da Criação,

    modelaram da terra pura o nosso coração,

    e de misericórdia o vestiram.

    Filhos no Filho, divina hyiothesía,

    hemorragia de graça e de alegria:

    Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

    e dá-nos em herança a sua divina filiação.

    E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

    divina comunhão, sem confusão,

    toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

    e faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

    a mais bela lalação que há,

    o nome novo Ab-ba!

    António Couto


  • Isaías 42,1-4.6-7; Salmo 29; Atos 10,34-38; Mateus 3,13-17

    1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

    2. Esta apresentação só é possível porque em cada um dos Anos Litúrgicos é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano A, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como «o Evangelho da Igreja», dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja nascente, sobretudo devido à clareza e riqueza temáticas dos longos, solenes e pausados Discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja. Na verdade, o leitor ou ouvinte encontra no Evangelho segundo Mateus uma longa e bela sinfonia dos ensinamentos fundamentais de Jesus, organizada em cinco andamentos à volta de cinco imensos Discursos de Jesus: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

    3. No umbral do «Tempo Comum» está sempre o episódio do Batismo de Jesus no Jordão, este ano servido pelo Evangelho segundo Mateus 3,13-17. Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Mateus: 1) em primeiro lugar, é-nos dito que Jesus veio da Galileia ao encontro de João para ser por ele batizado no Jordão (Mateus 3,13); 2) quando vê Jesus que vem no meio da multidão como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com o seu povo e assumindo as suas faltas, João Batista fica confuso; na verdade, esperava um Juiz acima do povo, para julgar o povo (cf. Mateus 3,7.10-12), e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 3) além disso, e contra todas as expectativas de João Batista, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado, solidário com o povo (Mateus 3,11.13-14); 4) o diálogo travado entre João Batista e Jesus, em que João manifesta o seu desconforto em ser ele a batizar Jesus, e não o contrário (Mateus 3,14-15), é um exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve); 5) são de notar as primeiras palavras, em absoluto, ditas por Jesus no Evangelho segundo Mateus: «É conveniente para nós cumprir toda a justiça» (Mateus 3,15); neste Evangelho, o termo «justiça» (dikaiosýnê) indica o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade [= obediência] a esse plano, e faz-se ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32) contra uma única vez em Lucas (1,75) e nenhuma em Marcos; o seu uso é modelar e programático (traduz a postura obediente de Jesus e apela à nossa obediência); 6) o verbo «cumprir» (plêróô), que Mateus usa por dezasseis vezes, aponta para o cumprimento da Escritura em Jesus, mas desafia também o discípulo de Jesus e o ouvinte ou leitor da Escritura; 7) a abertura dos céus na forma passiva (êneôchthêsan), passivo divino (sujeito Deus), e a descida do Espírito como uma pomba (Mateus 3,16) evoca e cumpre Isaías 63,19: «Ah, se rasgasses os céus e descesses!», sem esquecer que a pomba representa nas fontes judaicas o Espírito de Deus que pairava sobre as águas (Talmude da Babilónia, Hagîgah 15a), mas evoca também a «voz da pomba» (Ct 2,12) que os Targûmîm traduzem com «a voz do Espírito de salvação»; 8) a voz vinda do céu também deve merecer a atenção do discípulo, do ouvinte e/ou do leitor, porque, ao contrário do que acontece nos outros Evangelhos sinóticos, a proclamação não aparece formulada na segunda pessoa [Marcos 1,11: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»; Lucas 3,22: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»), mas na terceira pessoa: «Este é o meu Filho, o Amado, em quem pus o meu enlevo» (Mateus 3,17]; não é, portanto, uma revelação dirigida a Jesus, mas a nós, salientando desde o princípio a perspetiva eclesial de Mateus, e o quanto devemos estar atentos e implicados em tudo o que vemos acontecer em Jesus.

    4. Diante dos olhos atónitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, connosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser connosco batizado. Extraordinária a epígrafe que Pedro, na lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-38), põe sobre a vida de Jesus: «Passou fazendo o bem e curando todos» (Atos 10,38). Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. É aqui que o rio Jordão nos pode trazer, não apenas água, mas também alguma luz e sentido. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. Rasga, de alto-a-baixo, a terra de Israel, mas atravessa também as páginas dos dois Testamentos! Desce do sopé do Hermon e vai desaguar no Mar Morto, fazendo um percurso sinuoso de mais de 300 km [104 km em linha reta], e o seu nome ouve-se por 179 vezes nas páginas do Antigo Testamento e 15 vezes no Novo Testamento. As suas águas curam (2 Reis 5,14: Naamã) e dão acesso à vida nova: é atravessando-o que o Povo entra na Terra Prometida (Josué 3,14-4,24). É ainda belo ver que, depois de um percurso de mais de 300 km, o Jordão entra no Mar Morto, onde, através de uma intensa evaporação, parece subir ao céu, lembrando Elias que sobe ao céu desde o leito do Jordão (2 Reis 2,8-11). É lembrando estes cenários, sobretudo o do Batismo que também cura e dá acesso à vida nova, que muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» ao canal que conduz a água para a fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

    5. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

    6. Há ainda a registar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz» (Isaías 42,2). Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, então é porque a faz ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, impostos, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Está bom de ver que Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão. De resto, Mateus diz-nos expressamente que Jesus vem cumprir a missão do Servo de Isaías 42,1-4, texto que este Evangelho cita por inteiro em Mateus 12,18-21.

    7. No seu discurso em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, segundo a lição do Livro dos Atos 10,34-38, que hoje temos também a graça de escutar, Pedro dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de todos nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, de acordo com o percurso e o jeito de Jesus que, após o Batismo no Jordão, diz Pedro, passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas (Atos 10,38). É este o programa de vida de todos os cristãos batizados e crismados.

    8. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos amados que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que a nós se dirige, apresentando e revelando o Filho no Batismo do Jordão, e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

    António Couto


  • 1. «O homem é um animal racional», têm repetido tranquilamente os livros e os homens, ao longo dos séculos, desde Aristóteles. Dizer que o homem é um animal, ainda que racional, é definir o homem por baixo, dado que o termo de comparação é o animal.

    2. De forma diferente de todos os outros livros, a Bíblia ousa dizer e repetir que o homem é «imagem de Deus», definindo assim o homem, não por baixo, a partir do animal, mas por cima, a partir de Deus.

    3. E ao mesmo tempo que define o homem como «imagem de Deus», a Bíblia define também claramente qual deve ser a relação do homem com o animal. Refere, de facto, o primeiro Capítulo do Livro do Génesis que o homem deve saber dominar o animal, a animalidade (Gn 1,26 e 28), e mostra logo que, quando tal não acontece, surge naturalmente a desgraça. É assim que Caim se tornará assassino: por não ter sabido dominar o animal, deixando-se antes dominar por ele, ser à imagem dele e não à imagem de Deus. Em boa verdade, o homem violento é aquele que deixa que o animal ou a animalidade o domine. Dominado, então, pelo instinto do pecado à sua porta deitado (Gn 4,7), como se de um leão se tratasse (Sir 27,10), Caim trucida o seu irmão, não lhe dando qualquer espaço: nem sequer o estreito espaço da palavra!

    4. Refere, de forma penetrante, a versão original do Livro do Génesis: «Disse Caim para Abel, seu irmão» (Gn 4,8a). Mas é em vão que ficamos à espera de ouvir ou de ler o anunciado dizer de Caim. De facto, ele não dirá mesmo nada. A narrativa deixa-nos perante um silêncio cortante. Omitindo qualquer palavra, o relato prossegue logo referindo que «Caim se lançou sobre o seu irmão Abel, e matou-o» (Gn 4,8b). É tão gritante este não dizer de Caim depois do seu dizer anunciado, que as versões posteriores, pensando tratar-se de uma omissão, se esforçaram por preencher essa lacuna, colocando lá uma locução do género: «Saiamos para o campo». Mas o texto original não tem lá nada. Apenas um gritante e intencional vazio.

    5. Bem o compreendeu Judas, irmão de Tiago, quando, na sua Carta, diz certeiramente que «aqueles que seguem o caminho de Caim» são «como os animais sem palavra» (Jd 10-11). De facto, a besta que há em Caim não fala, mas grita e trucida e come o outro! Ao grito basta-lhe o instante. A palavra precisa de tempo. A palavra verdadeira é desejo de outra palavra: da palavra do outro. A palavra verdadeira dá a palavra e pede a palavra. Estreito espaço sobre o qual há que vigiar constantemente.

    6. É bom que tomemos consciência de que quando usamos tons que não admitem resposta, quando somos categóricos e intolerantes, quando falamos sem dar atenção às palavras do outro ou sem ter presente que é o outro que está à nossa frente, então somos, de facto, como Caim: gritamos sem dizer nada e preparamo-nos apenas para o ódio, para a violência, para o homicídio que, na Bíblia, é sempre um fratricídio.

    7. Escrever, como falar, é não dizer tudo. É a arte de lidar com as palavras como se cada palavra, para ser admitida à passagem estreita pela qual se apresenta depois de uma palavra e antes de outra palavra, tivesse que produzir uma declaração atestando que não está contaminada pela totalidade ou pestilência da morte. Escrever é um ato de fragilidade e de liberdade.

    8. Que a palavra escrita, ou dita, que nos une, seja sempre frágil e aberta.

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, 2024, pp. 33-35.


  • Vem pelo cais uma criança a correr

    Traz uma pomba branca pela mão

    Uma criança não tem onde morrer

    O seu único haver é o coração.

    1. Sobre esta terra térrea e escura há de haver sempre uma fonte de água pura, uma mulher «no seu ventre concebendo» o céu (Lc 1,31; 2,21), fruto maduro, acorde seguro, das entranhas misericordiosas do nosso Deus (Lc 1,78), Luz nova no céu se alevantando (Lc 1,78; cf. Nm 24,17; Is 60,1-2; Ml 3,20), Rebento tenro na terra germinando (Jr 23,5; 33,15; Zc 3,8; 6,12), luminosa sinfonia de Deus e de Maria, o céu ao léu, enchendo de luz os nossos corações duros e escuros como o breu.

    2. «Conceber no ventre» é um pleonasmo evidente, mas é dito duas vezes de Maria, e apenas de Maria. Certamente para a mostrar dependente das entranhas misericordiosas do nosso Deus Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente, causa da Luz que nas alturas se alevanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na terra germina, que a terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria.

    3. E tem de ser dito agora que, na Escritura Santa, aquela Luz que no céu se alevanta e o Rebento que na nossa terra germina são ditos com o mesmo nome grego: anatolê (forma verbal: anatéllô), que é como quem diz ainda que a Luz germina e o Rebento ilumina, orientando os nossos passos para os braços de Deus e de Maria, causa da nossa alegria.

    4. A nossa terra sombria precisa de Deus e de Maria, e dessa Luz que suavemente Rebenta e Orienta, aquece e alumia o nosso dia-a-dia. Conceber no ventre, «compor no coração as palavras que acontecem e não esquecem» (Lc 2,19), estender a mão de irmão à inteira criação, olhar com ternura para cada criatura, por cada criatura, em cada partitura. É assim que Deus faz a Bênção e a Paz (Nm 6,22-27).

    5. Chegou, meu irmão, a hora de acordar do sono, de encher de amor cada buraco de ozono. Põe fim ao fumo e ao consumo. Dia Mundial da Paz. Dia de Paz. Alarga o coração. Saúda a criação. Leva uma criança a passear com uma pomba branca pela mão!

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, pp. 12-13.


  • Chega uma criança

    À madrugada

    Desarmada

    Traz mãos e pés e uns olhos tão bonitos

    Traz um rasto de lume e de esperança

    E uma espada

    Apontada

    À raiz dos nossos conflitos.

    1. É assim que vem Jesus em filigrana pura, em contraluz coada de alegria, e atravessa ao colo de Maria as páginas arenosas da Escritura. Ei-lo que vem rosado de ternura, acorda, esfrega os olhos azulados de lonjura, salta para o chão, vê-se que procura a minha mão, sabe o meu nome e o de toda a criatura.

    2. Conta-me histórias, a dele e a minha, mas conta também as estrelas uma a uma, apresenta-me Abraão, Moisés, David, demora-se um pouco no caminho com Elias, Isaías, Miqueias, Jeremias, recebe os pastores dos campos de Belém, canta com eles, acena aos anjos nas alturas, fica longamente extasiado a abrir os presentes trazidos pelos magos.

    3. O espaço que habita é um curral que os animais gratuitamente acederam partilhar com ele, com ele brincam, vê-se que sabem de cor a partitura de Génesis um e de Isaías onze.

    4. Maria e José também conhecem e jogam esse jogo, esfuziante corre-corre de alegria, até eu dou por mim a fazer casinhas num prato de aletria, mas na sala ao lado há gente a dormir longe dali, anestesiada e dormente, indiferente, trocando a luz do dia pela romaria.

    5. Ó humanidade sem sal, sem sol e sem sonho, só com sono, acorda que já a luz desponta, todo o tempo é pouco porque o tempo é graça, não fiques atolada na desgraça, desconsolada e triste, como quem tem sempre que pagar a conta.

    6. Olha em redor e vê que já nasceu o dia, e há de andar por aí uma roda de alegria. Se não souberes a letra, a música ou a dança, não te admires, porque tudo é novo. Olha com mais atenção. Se mesmo assim ainda nada vires, então olha com os olhos fechados, olha apenas com o coração, que há de bater à tua porta uma criança. Deixa-a entrar. Faz-lhe uma carícia. É ela que traz a música e a letra da canção. Ela é a Notícia.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 28-29.


  • Há dois mil anos Deus sonhou

    E foi

    Natal em Belém.

    Sonha também.

    Se o jumento corou

    E o boi se ajoelhou,

    Não deixes tu de orar também.

    1. A notícia ecoou nos campos de Belém. Com o celeste recital que ali se deu, o céu ficou ao léu, a terra emudeceu de espanto, e os pastores dançaram tanto, tanto, que até os mansos animais entraram nesse canto.

    2. Isaías 1,3 antecipou a cena, e gravou com o fulgor da sua pena o manso boi e o pacífico jumento comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao Lume, e bafejando depois suavemente o Menino de perfume. Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono, o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

    3. Nos campos lavrados passeiam cotovias, ondulam os trigais, e vê-se Rute a respigar o trigo ao lado dos pardais. Que estação é esta que reúne as estações e os anais? Abre-se ali num instante um caminho novo. Vê-se que passam Maria e José e o Menino, que salta logo do colo e suja as mãos na terra, tira da sacola estrelas todas de oiro, e semeia-as na terra com carinho.

    4. Anda à sua volta um bando de boieiras, leves e ledas companheiras, correndo no mesmo chão de oiro semeado. E nós continuamos a passar ali ao lado daquela sementeira toda de oiro, que o Menino pobre acaricia, e logo se transforma em trigo loiro. Mas ninguém para, ninguém acredita que o Menino pode ser dono de um tal tesoiro. 5. Vem, Menino! E quando vieres para a tua doirada sementeira que logo cresce e se faz messe (João 4,35), quando assobiares às boieiras, chama também por mim, diz bem alto o meu nome, vamos os dois para o campo e para a eira, e enche-me de fome de um amor como o teu, pequenino e enorme.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.


  • Do Oriente veio em procissão de esperança

    o melhor da nossa humanidade.

    Os magos caminharam à luz de uma estrela nova,

    recém-nascida,

    mansa,

    como uma criança.

    A procissão faz-se em passos de dança,

    e a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

    de cristal,

    com alma enternecida,

    e coração de natal.

    Por isso,

    não a viu Herodes,

    não a viram os guardas,

    não a viram os sábios,

    que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

    Viram-na os magos,

    pegaram nela à mão,

    levaram-na aos lábios,

    deitaram-na no coração.

    Vem, Senhor Jesus.

    O mundo precisa tanto da tua Luz.

    1. Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta de Jacob, um cetro se levanta de Israel (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, oriundo das margens do Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7), terra da sabedoria maior do que Salomão, de onde vêm os sábios e a burra de Balaão.

    2. Balaão habita o coração da luz, escuta Deus, sabe que só pode dizer de Deus o que Deus disser, sai de entre as fragas frias e escarpadas, caminha por caminhos estreitos e murados, tem por companhia uma burra fiel e astuta, que escuta e vê Deus melhor que o dono, que corre atordoado pela pressa e pelo sono. Mas a burra trava de repente a correria, e atira Balaão ao chão, que se zanga e fustiga sem razão a astuta burra, que fez o que fez porque viu um anjo parado no meio do caminho, com a espada na mão desembainhada a fazer stop. Não o viu Balaão, viu-o a burra. Fustigada pelo dono uma e outra vez, travou-se a burra de razões, e pediu satisfações ao dono: «Que te fiz eu, para me bateres assim?» (Números 22,28), protesta a burra, fazendo coro com Miqueias 6,3 e os impropérios postos na boca de Jesus, enquanto se beija a Cruz em Sexta-Feira Santa.

    3. Habituado a ler as estrelas, Balaão via à distância, e à distância viu Jesus. Mas a burra viu-o de perto, no caminho, viu-o bem, e ajoelhou-se logo ali, como se fosse ali o presépio de Belém. Quando Balaão se apercebeu e se levantou do chão, meteu a mão no bornal, e encontrou numa folha de jornal uma bênção que pronunciou sobre José, o Menino, e Maria, sua Mãe. E a burra de Balaão ofereceu-se logo ali para levar Jesus ao Egito, e o trazer de volta também.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 53-54.


  • Isaías 60,1-6; Salmo 72; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12

    1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob,/ um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

    2. Do Oriente são também os Magos (mágoi), que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho revelador (2,12), a estrela e o sonho indicadores de caminhos novos, belos, insuspeitados, nunca andados. Os Magos, neste contexto, não devem ser entendidos como «bruxos» ou «charlatães». Trata-se, antes, de um termo que remonta ao nome de uma tribo da Média que desempenhava, na religião persa, funções sacerdotais e se ocupava também de astronomia e astrologia. O Evangelho hebraico de Mateus, de Shem Tov, traduz o termo por «videntes nas estrelas», e, em diversos textos antigos, o termo «mago» é posto em relação com clarividência, interpretação de sonhos, profecia, e os magos de Mateus não devem ser uma exceção.

    3. Mas o texto de Mateus 2,6, com a citação de Miqueias 5,1, encarrega-se de clarificar que a leitura das estrelas não é suficiente para o sucesso da busca dos Magos. É preciso o conhecimento das Escrituras, que lhes chega através dos chefes dos sacerdotes e dos escribas do povo. É só com a interpretação extraída da leitura de Miqueias 5,1, que os Magos conseguirão encontrar o Menino. Estrelas, sonhos, Escritura. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego do Livro dos Números e de Mateus diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn) (Números 23,7; Mateus 2,1). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular (2,2 e 9), pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural e das estrelas da moda mais brilhantes e atraentes.

    4. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do MESSIAS e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e ilumina e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô) (Mateus 2,2.11). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

    5. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil e cansado controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem tudo acerca do Messias, mas não se comprometem com ele, não dão um passo de saudação e acolhimento em direção a ele (Mateus 2,4-6). Dá-lo-ão mais tarde. Mas aí é tarde, e é contra ele (Mateus 26,57.59). A informação que retiram da leitura da Escritura será útil apenas para os Magos.

    6. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento de Jesus. Já sabemos que se trata de dons preciosos, e, porque são enumerados três, antigas representações da adoração dos Magos mostram também três figuras: um jovem, um homem de meia-idade e um velho, representando um asiático, um europeu e um africano. Claro que estas indicações não estão na letra do texto, mas estão no espírito do Evangelho, que pretende dizer a todos nós que a adoração deste Menino, reconhecido como Rei e Senhor, deve mobilizar gente de todas as idades e de todos os continentes. Afinal, a Epifania é a manifestação de Deus a todas as nações e a todos os corações.

    7. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a.C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Também se pode fazer destes dados uma leitura simbólica e popular que indica um nascimento real, porventura do Messias, Rei dos Judeus, dado que Júpiter é um planeta real e Saturno é a estrela do sábado, portanto, dos Judeus, e a constelação de Peixes representa o fim dos tempos. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela que faz levantar os Magos e os põe em movimento é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam os Magos, certamente, se soubessem que nós indagamos a abóbada celeste com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. Talvez seja por isso que, enquanto nós nos ocupamos e distraímos com tantas luzes mais ou menos inúteis e estéreis, «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos céus» (Mateus 8,11). E nós, que gastámos tanto tempo e dinheiro e esfregámos os olhos a indagar as Escrituras sem lhes descortinarmos o verdadeiro fio de ouro (Mateus 2,4-6), e sem as transpormos para a nossa vida, sem as pormos em prática, corremos o risco de ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29). Os de fora são os estrangeiros como Balaão, como os Magos, que vêm e veem de longe, com o olhar puro, sem esquadrias ou sistemas ou ideologias. Estrangeiros que nada possuem: nem propriedades nem verdades nem pessoas.

    8. Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Não é só para despistar Herodes. Sim, quem viu o que os Magos viram, quem viu como os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se simplesmente a continuar seja o que for. Tudo tem mesmo de ser novo. Também os olhos e o coração. Até para casa precisamos de aprender o caminho!

    9. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

    10. Também os versos sublimes do Salmo 72, um Salmo Real, cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

    11. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

    12. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que são as crianças a ensinar-nos que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação. Há apenas entreajuda, compreensão e partilha do pão.

    13. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças que nos podem ensinar esta maravilhosa lição.

    António Couto


  • 1. Mãe de Deus, Senhora da alegria, Mãe igual ao dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

    2. De ti pouco sabemos, singular mulher! Mas esse «sim» que te saiu dos lábios abriu um grande rombo no silêncio. De Bezetha[1], mas sempre de Bethesda[2]: não é o amor o que fica das colinas, das colinas, das palavras e de nós? Bezetha, Nazareth, Ayin Karem[3], Betlehem[4]: estivesses onde estivesses, estavas decerto permanentemente à escuta, e estremecias, inundada de alegria, sob a palavra que sobre ti descia em ondas sucessivas de emoção.

    3. Uma palavra, depois outra, depois outra: caía sobre ti tanto silêncio, que necessariamente havia de ganhar corpo no teu corpo o corpo que atravessa em contraluz toda a Escritura. Mulher, grande mulher, mulher messiânica, mulher entre todas única, Mulher!, aeì parthénos[5], sempre virgem, ao mesmo tempo esposa, ao mesmo tempo mãe: mulher de estrelas coroada, ou solar rapariguinha na solene procissão saltando à corda, ou moreninha enamorada saltando, soltando pelos montes a enleante melodia do shîr hashîrîm[6].

    4. Shalôm[7], disseste, shalôm: oh imensa, divina saudação, clarão de Deus nos céus de orini[8], no ventre de Isabel, na dança de João: incontrolável rebentação, intraduzível lalação. Era de paz a voz dos anjos, era de paz, como sempre foi a voz de Deus.

    5. Menina de Deus bendita! Sossegada e livre e firme, levas os teus filhos pela mão, salvo-conduto para a esperança, Mulher de todas as esperas. O tempo em que vamos é semelhante ao de Herodes, tu sabe-lo bem, atravessado por tanta tirania e prepotência, batido por tantas vagas de poder e ambição.

    6. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria.

    7. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre a olhar por Deus, sempre sob o olhar de Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste sempre que Deus também é pequenino! Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»!

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, pp. 9-11.


    [1] Lugar tradicional do nascimento de Maria, na colina junto da porta Probática e da piscina gémea do mesmo nome, a norte da esplanada do Templo de Jerusalém.

    [2] Significa «casa do amor».

    [3] Cidade de Isabel e João Batista, situada no meio da região montanhosa de Orini, a cerca de 8 km a sudoeste de Jerusalém.

    [4] Nome hebraico de Belém [= «casa do pão»].

    [5] Expressão grega que significa «sempre virgem».

    [6] Expressão hebraica que significa «Cântico dos Cânticos», nome de um livro da Bíblia, poema de amor que canta o amor do noivo e da noiva, do esposo e da esposa, o amor de Deus pelo seu povo.

    [7] Habitual saudação hebraica, que significa «paz», «felicidade».

    [8] Nome geográfico da região montanhosa cujo centro é Ain Karem, cidade de Isabel e João Batista.


  • Que Deus nos abençoe e nos guarde,

    que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

    que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

    cheios de amor, de paz e de alegria,

    que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

    e nos ponha nos caminhos de Maria.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

    num amor maior do que um letreiro,

    um amor que rompe as trevas e o nevoeiro.

    Vela por nós, Maria, em cada dia

    deste ano inteiro,

    para que levemos a cada enfermaria,

    a cada periferia,

    um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

    Santa Maria da Paz,

    ensina-nos como se faz.

    António Couto


  • Números 6,22-27; Salmo 67; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21

    1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», irmanando assim a Páscoa e o Natal, eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2026, sendo o primeiro dia do ano tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

    2. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre (na riqueza espiritual que o termo contém), com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus enviou o seu Filho, nascido (genómenon) de mulher, nascido (genómenon) sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Duplo nascimento: nascido de mulher, isto é, como todos nós, nosso irmão em humanidade; nascido sujeito à Lei, isto é, membro do povo hebreu, a quem Deus tinha dado a sua Lei. Nesta linha breve e densa e, todavia, com uma repetição vocabular só aparentemente desnecessária, aparece compendiado o mistério da Encarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Ela é a Mãe do Filho de Deus e filho seu. Para falar do nascimento de João, refere o texto, de forma um tanto ou quanto indeterminada, que Isabel «deu à luz um filho» (egénnêsen hyión) (Lucas 1,57). Mas para falar do nascimento de Jesus, o texto diz, de um modo todo particular, que Maria deu à luz «o seu filho o primogénito» (tòn hyiòn autês tòn prôtótokon) (Lucas 2,7). O facto desta designação de Jesus como «o primogénito» não significa que Maria tenha tido outros filhos depois dele, mas revela tão-só a sua singular consagração a Deus, como vinha referido no Livro do Êxodo 13,2: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu». É por isso que ao episódio do Evangelho de hoje (Lucas 2,16-21) se segue imediatamente o episódio da «apresentação ao Senhor» (Lucas 2,21-22). Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza. Vem-lhe do facto de ser a Mãe deste Filho, seu e de Deus.

    3. O Evangelho deste Dia de Maria guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio, na escuta qualificada e na contemplação. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica uma atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. Como quando o povo de Deus reza confiante: «Guardai-nos e defendei-nos como coisa própria vossa».

    4. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar todas estas palavras e acontecimentos, para melhor entender, e para melhor dar a entender. É como quem, com aquelas Palavras e acontecimentos, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida inteira a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). De Isabel apenas se diz que «concebeu» (syllambánô) (Lucas 1,24). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre das misericórdias do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome de Jesus, Nome vindo de Deus através do anúncio de Gabriel (Lucas 1,31). Nome vindo de Deus, dado por Deus. Em Lucas 1,31, Gabriel dizia para Maria: «Chamarás o nome dele Jesus» (kaléseis tò ónoma autoû Iêsoûn). Mas no texto que estamos a ler (Lucas 2,21), Maria desaparece da cena, e lê-se na forma passiva: «Foi chamado o nome dele Jesus» (eklêthê tò ónoma autoû Iêsoûs). Deus por detrás de tudo. Na Escritura Santa, a Luz que no céu nasce e irradia, como uma Estrela, e o Rebento tenro, que na nossa terra germina, apontam e são figura do Messias, e dizem-se com o mesmo vocábulo grego, anatolê (hebraico, tsemah).

    5. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 59.º Dia Mundial da Paz que se celebra, a que o Papa Leão XIV, em contraponto com os inúmeros conflitos e guerras absurdas que assolam violentamente o nosso mundo, apôs o lema «Uma paz desarmada e desarmante». Guerras absurdas, porque não se trata de guerras entre dois exércitos para tal preparados e armados. Trata-se de um despejo da nojenta estupidez que nos habita sobre uma população humana pacífica, normal e sensata, que nada tem a ver com tamanha, incomensurável e incompreensível cegueira, que envergonha a inteira humanidade. Neste contexto, o suspiro humano pela paz transformou-se num grito imenso que há de com certeza atingir o céu. A paz é mais, muito mais do que a ausência de guerras. A paz é uma refeição saborosa, servida por Deus aos seus filhos.

    6. Na verdade, não temos sabido gerir como filhos e irmãos o pão nosso de cada dia, que em cada dia nos é dado. Daí que, do meio da guerra que a todos nos atinge, se levante outra vez este grito dorido e lacrimado pela paz, verdadeira sementeira de lágrimas (Salmo 126). As lágrimas também dão fruto como a semente. E é bom que não deitemos a perder esta oportunidade que Deus nos dá para tomarmos consciência de que estamos doentes e nos temos vindo a arrastar no lamaçal da banalidade, da indiferença e da equivalência, em que vale tudo e tudo vale o mesmo, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sem fontes e sem horizontes. Na verdade, nesta «noite do mundo», em que domina a escuridão, literal na Ucrânia, e a nefasta atração pela morte, palpável nas guerras, mas também nas já consideradas conquistas da liberdade, como sejam a interrupção voluntária da gravidez e a eutanásia, tudo nos aparece sem Deus, sem rosto e sem rumo, só com fumo, sem irmão, sem irmã, sem pai, sem mãe, tudo à medida sem medida da hipertrofia do «eu», que julga poder dispor de uma soberania e autonomia ilimitadas, sem sequer nos apercebermos do número cada vez mais elevado de deserdados, abandonados, refugiados e velhinhos que já perderam a soberania e a quem já roubámos a autonomia e a liberdade, e que continuamos a atirar com disfarçada subtileza para o sótão das inutilidades. Em poucas palavras, a Paz do Dia Mundial da Paz não é a «paz romana», que se conquista pelas armas; também não é a «paz do judaísmo palestinense», que se obtém por acordos. É tão somente a Paz que vem de Deus, dom de Deus, puro dom de Deus.

    7. Ao contrário, de Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir e gravar no coração outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

    8. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «que Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos os povos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

    9. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

    10. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Amém!

    António Couto


  • Neste Natal aposta na paz

    Limpa o teu olhar de traves e de medos

    De torpedos

    Deita fora as velhas espingardas

    Despede os guardas

    Sê simples e frontal

    Feliz Natal!

    1. Correm pelas colinas as mansas ovelhinhas como novelos de lã, de cá para lá, de lá para cá, sem nenhum afã que perturbe o seu olhar meigo e puro. Nada sabem as ovelhinhas mansas do passado e do futuro. A água que bebem é de um furo aberto no céu, que faz também germinar do chão a erva verde e a mansidão. Mas também o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, a vaca e o urso, o boi e o leão habitam e partilham a paz desta mansão, e é um menino o pastor desta visão.

    2. Os homens, sim, são os homens que cruzam espadas, espingardas, mísseis, drones, desencadeiam ciclones, fecham os céus, brincam ao número de baixas e de balas, e deixam o chão cravado de valas e putrefação.

    3. Escuridão anterior à criação. Sem rosto de irmã ou de irmão. Só Deus pode dissipar este apagão e fazer refulgir uma luz, um clarão, como nas terras pisadas pelas guerras de Zabulão e Neftali, Estrada do mar, Galileia dos gentios. Também ali a luz rompeu tempos sombrios, e se instalou o júbilo e a alegria, e talvez também a feira e o mercado, porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, e é sobre os seus ombros que repousa a soberania e a alegria.

    4. Isto disse o profeta Isaías, que viu a escuridão da guerra assolar a Galileia. Mas, por uma brecha, ou por uma brecha e meia, entreviu a luz que incendiou a guerra e encheu de alegria a terra inteira. Foi por uma brecha, ou por uma brecha e meia, que entreviu a luz e anteviu Jesus, o menino para nós nascido em Belém da Judeia, um menino com divina soberania, filho de Deus e de Maria, que começou na Galileia a acender a mecha da alegria.

    5. Mas nem por isso os homens deixaram de construir castelos na areia, e de disparar disparates de todas as ameias. Valham-nos as ovelhinhas mansas, as doces abelhas que constroem casulos e colmeias, os passarinhos que admiravelmente constroem os seus ninhos, as operosas formiguinhas que constroem os seus celeiros, muito melhor do que os melhores arquitetos e engenheiros. Valha-nos Deus que preparou o seu berço numa manjedoura, e nos ensinou a fazer das nossas espadas relhas de arado e outros instrumentos de lavoura.

    6. Começámos a ensaiar. E anda já pelo ar um aroma a céu acabado de lavrar.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 50-51.


  • À nossa volta parece tudo escuro:

    espingardas, mentiras, raivas, ódios,

    Herodes a mais, Belém a menos,

    Belém outra vez sem paz e sem meninos,

    sem alegria, só com sangue e choro,

    sem coro e decoro de Natal.

    É como se o tempo corresse para trás,

    e para trás corresse também a água das fontes,

    o sopé dos montes,

    a linha que define os horizontes.

    Onde estamos, afinal? Onde chegamos?

    Quem somos? Para onde vamos?

    Não somos nós a humanidade por Deus criada?

    O que é feito da nossa liberdade e responsabilidade?

    Não partilhou connosco Deus

    o seu poder omnipotente,

    a sua ciência omnisciente,

    a sua presença omnipresente,

    a sua vida vivente?

    Para que servem os túneis, os paióis,

    os mísseis, os muros, as trincheiras?

    Por que investimos tão pouco em presépios,

    em presentes,

    em abraços, em flores, em sementes?

    Vem, Senhor Jesus,

    o mundo precisa tanto da tua Luz.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, p. 52.


  • Santa Maria de um amor maior,

    Do tamanho do Menino que levas ao colo,

    Diante de ti me ajoelho e esmolo

    A graça de um lar unido ao teu redor.

    Protege, Senhora, as nossas famílias,

    Todos os casais, os filhos e os pais,

    E enche de alegria, mais e mais e mais,

    Todos os seus dias, manhãs, tardes, noites e vigílias.

    Vela, Senhora, por cada criança,

    Por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,

    A todos os velhinhos, Senhora, dá a mão,

    E deixa em cada rosto um afago de esperança.

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, p. 14.


  • Ben Sira 3,2-6.12-14; Salmo 128; Colossenses 3,12-21; Mateus 2,13-15.19-23

    1. Atravessamos ainda a Solenidade do Natal do Senhor, dado que esta Solenidade se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro Dia de Janeiro.

    2. O Natal do Senhor põe diante do nosso olhar contemplativo uma Família humilde e bela, Jesus, Maria e José, mas traz também consigo uma forte sensibilidade Familiar, tornando-se o tempo forte da reunião festiva das nossas Famílias. Estes dois acertos são importantes para se compreender a razão pela qual, no Domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebre a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. Quando não existe nenhum Domingo entre o Natal e o Ano Novo, o que acontece quando o Natal e o Ano Novo caiem ao Domingo, a Festa da Sagrada Família celebra-se no dia 30 de dezembro.

    3. Os textos da Liturgia são outra vez preciosos. O Evangelho põe no nosso coração os últimos episódios do Evangelho da Infância segundo S. Mateus (2,13-15.19-23), habitualmente conhecidos por «Fuga para o Egito» e «Regresso do Egito à Terra de Israel». Na inteireza do texto que Hoje, por graça, nos é dado ler e escutar, vemos e ouvimos por cinco vezes a extraordinária e significativa locução «o Menino e a sua Mãe» (tò paidíon kaì tên mêtéra autoû) (Mateus 2,11.13.14.20.21), mostrando entre os dois uma unidade inseparável. A expressão, fortíssima, surge no contexto de uma missão por duas vezes confiada em sonhos a José pelo Anjo do Senhor, para que «tome consigo o Menino e a sua Mãe» e procure refúgio no Egito, ou que do Egito volte para a Terra de Israel, o que José executa pronta e silenciosamente, «tomando consigo o Menino e a sua Mãe», e encaminhando-se diligentemente para os destinos indicados. Esta forte vinculação do Menino à sua Mãe, e dos dois a José, que os deve tomar consigo e a seu cargo (paralambánô) traduz bem a união familiar que hoje, Dia da Sagrada Família, se celebra.

    4. Mas o texto de Mateus guarda muitos outros tesouros. Desde logo, o facto de vermos Jesus a refazer a história de Israel e a nossa história também, tornando-se assim verdadeiro filho de Israel e da nossa humanidade dorida, hoje com a Ucrânia e tantas situações no mundo em que a violência vem à tona e ocupa o primeiro plano. Desde pequenino, Jesus desce ao nosso chão e ao nosso coração, sofre as nossas raivas e violências, conhece a perseguição, o mundo dos exilados e dos refugiados, vive como clandestino e «descartado», como tantos dos nossos concidadãos de hoje e de todos os tempos. Como aqueles irmãos nossos que da África partem para a Europa sem documentação e atravessando o Mediterrâneo em frágeis e sobrelotadas embarcações, em condições subumanas, e que, se escaparem da intempérie marítima, são retidos na fronteira e atirados para a fome e para a miséria, ou simplesmente para o lixo. Assemelha-se ainda a quantos da Europa de Leste, dos países da Ásia abaixo do limiar da pobreza e do Terceiro Mundo entram no Ocidente, e conhecem todos os cantos e esquinas da clandestinidade, da rejeição e da indiferença humana. Assim Jesus entra na nossa história dorida e na história do seu Povo, Israel, fazendo a experiência fundamental do Êxodo, descendo ao Egito e saindo do Egito, para entrar na Terra de Israel. O quadro, convenhamos, está longe do tom romântico pintado por Murillo. O jumento, que a cultura popular associou a este episódio, pode provir de idêntico quadro e idêntica linguagem, do Livro do Êxodo 4,20.

    5. Vê-se bem que não é um Deus de luxo e de uma família de luxo que se trata. Planta a sua tenda nos campos dos refugiados, e conhece a miséria total. Será, como é sabido, rejeitado na sua terra e crucificado fora dos muros da cidade dos homens, que se quer sempre tranquila e serena e não contaminada. É assim que Jesus absorve e absolve as nossas páginas mais doridas. É assim, profunda e subtil, a sua presença em solo ucraniano, na faixa de Gaza e nos países onde reina a violência.

    6. Aqui estão sempre as linhas entrelaçadas da perseguição e da libertação, com Deus sempre subtilmente por detrás. Revivendo a experiência fundamental da perseguição e do Êxodo, Jesus torna-se um verdadeiro filho de Israel. E, com a anotação precisa de que ENTROU na TERRA DE ISRAEL (Mateus 2,21), Jesus reúne e dá cumprimento a vários fios perdidos e dispersos na história bíblica. Desde logo, vai ao encontro de Moisés, que tinha ficado fora da Terra da Promessa (Deuteronómio 4,21-22; 32,51-52; 34,4), mas reúne também os exilados que, provindos do Exílio na Babilónia, não entraram na Terra de Israel, como refere com precisão  o profeta Ezequiel (20,38). Em nome de todos, a todos reunindo, Jesus cumpre agora o ingresso integral e definitivo nessa Terra.

    7. E no versículo que se segue imediatamente no texto de Mateus (2,22), nós lemos que, uma vez mais guiado em sonhos, isto é, por Deus, José não ficou em Jerusalém ou na Judeia, e foi para a região da GALILEIA. Com esta menção da região da GALILEIA, trata-se de estabelecer uma ponte para a Terra sombria, mas que será iluminada, de Isaías 8,23-9,1. Jesus é a grande LUZ que alumia essa região queimada e humilhada por sucessivos desastres históricos e calcada por muitas botas militares. Mas abre também uma ponte para o início do anúncio do Evangelho por parte de Jesus, referido em Mateus 4,12-17, que cita, de resto, na íntegra, a anterior passagem de Isaías, deixando a claro a missão de Jesus. Mas é também o final do Evangelho de Mateus que fica iluminado, pois é na Galileia que Jesus precede sempre os seus discípulos-irmãos (Mateus 28,7 e 10); é para lá que eles se dirigem (Mateus 28,16), e é de lá que são enviados a levar o Evangelho a todos os corações (Mateus 28,18-20).

    8. Em voz-off, mediante o sonho e através de citações da Escritura Santa, Deus guia esta Família, que assim é perseguida e rejeitada pelos homens, mas está sempre nas mãos de Deus. A primeira citação, «Do Egito chamei o meu filho», é de Oseias 11,1, e a segunda, «Será chamado Nazareu», sem provir de um lugar explícito, reúne preciosos fios de significado. Evoca Nazaré, uma pequena povoação desconhecida, que nunca é mencionada no Antigo Testamento, e que, no tempo de Jesus, não contaria mais de 500 habitantes, mas aponta ainda para Nazîr [= Consagrado] e Netser [= Rebento], termos densos de religiosidade, e o segundo de cariz claramente messiânico (Isaías 11,1).

    9. Dentro da temática da Família, o Antigo Testamento traz-nos hoje um extrato sapiencial retirado do Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico) 3,2-6.12-14, e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais sempre, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade. Importa ainda considerar, em termos familiares, que este belo Livro Bíblico foi escrito em hebraico por um velho pai de família, que o deixou guardado na gaveta, aí pelo ano 180 a.C. E, por lá ficou esquecido, até que, aí pelo ano 130 a.C., um seu neto o descobriu, o leu e admirou, e achou cheio de tanta riqueza que o traduziu para grego, para que muito mais gente pudesse ter acesso aos tesouros de sabedoria nele contidos. Sublime admiração e comunhão familiar entre as gerações.

    10. O Salmo 128 é a música suave, de teor didático sapiencial, que canta uma família feliz e nos mostra a fonte dessa felicidade: a bênção paternal do Senhor. «Felizes os que esperam no Senhor,/ e seguem os seus caminhos», é a bela litania em que o refrão de hoje nos faz entrar.

    11. Finalmente, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses 3,12-21, exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que música devemos encher o nosso coração. Salta à vista que a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor, o perdão, são vestidos importantes para a festa, mas não se compram nem se vendem por aí em nenhum pronto-a-vestir. Nesta época de bastante consumismo, convém que nunca nos esqueçamos de Deus, pois é Ele, e só Ele, que veste carinhosamente o coração dos seus filhos.

    António Couto


  • Há dois mil anos Deus sonhou

    e foi

    Natal em Belém.

    Sonha também.

    Se o jumento corou

    e o boi se ajoelhou,

    não deixes tu de orar também.

    A notícia ecoou nos campos de Belém.

    Com o celeste recital que ali se deu,

    o céu ficou ao léu,

    a terra emudeceu de espanto,

    e os pastores dançaram tanto, tanto,

    que até os mansos animais entraram nesse canto.

    Isaías 1,3 antecipou a cena,

    e gravou com o fulgor da sua pena

    o manso boi e o pacífico jumento

    comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,

    e bafejando depois suavemente o Menino de perfume.

    Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,

    o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

    Vem, Menino!

    E quando vieres para a tua doirada sementeira,

    que logo cresce e se faz messe (João 4,35),

    quando assobiares às boieiras,

    chama também por mim,

    diz bem alto o meu nome,

    vamos os dois para o campo e para a eira,

    e enche-me de fome de um amor como o teu,

    pequenino e enorme.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.


  • Hoje é Dia de Natal.

    É Dia de Jesus.

    O Natal é um imenso caudal

    de luz

    e de alegria:

    hemorragia

    de Jesus.

    Há quem pense amansá-lo e enlatá-lo,

    domesticá-lo,

    e depois tomá-lo em pequenos comprimidos,

    mais ou menos à razão de um por dia.

    Mas o Natal não se pode comprá-lo

    ou aviá-lo por receita.

    Nem cumprimentá-lo,

    quer com a mão esquerda quer com a direita.

    O Natal não tem regra ou etiqueta.

    Não se pode semeá-lo

    na jeira ali ao lado.

    Não se pode trocá-lo

    por qualquer bugiganga à venda no mercado.

    Este vendaval,

    que se chama Natal,

    só podemos deixá-lo entrar por nós adentro aos borbotões,

    até que rebentem os portões,

    e caiam um a um do nosso fraque todos os botões.

    Também o mofo e o verdete que há nos corações

    serão levados na torrente,

    e também tudo o que apenas é corrente,

    banal ou indiferente.

    Só ficaremos mesmo eu e tu, menino,

    só mesmo nós os dois,

    lado-a-lado ou frente-a-frente.

    António Couto


  • Noite: Is 9,1-6; Sl 96; Tt 2,11-14; Lc 2,1-14

    Aurora: Is 62,11-12; Sl 97; Tt 3,4-7; Lc 2,15-20

    Dia: Is 52,7-10; Sl 98; Hb 1,1-6; Jo 1,1-18

    1. «Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador», é a Antífona do Cântico de Entrada da Missa da Noite, que dá o devido tom de exultação a esta Solenidade, magnífico pórtico para este intenso feixe de Luz, Mistério de Jesus, fazendo logo ver o Natal à Luz da Páscoa, «a Páscoa do Natal», assim o diz significativamente a liturgia oriental. A Antífona da Missa da Aurora prossegue a mesma sintonia, conjugando Isaías 9,1 e Lucas 2,11, e soa assim: «Hoje sobre nós resplandece uma Luz: nasceu o Senhor». A Antífona da Missa do Dia continua a indicar o «para nós» deste Filho e do seu Mistério, trazendo ao de cima outra vez a pauta luminosa de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9,6).

    2. A linha dos Evangelhos deste Dia é de excecional riqueza, e desenvolve-se em quatro andamentos: o acontecimento, o anúncio, o acolhimento e a revelação do Verbo feito carne. Começa com Lucas 2,1-14 (Noite), e continua com Lucas 2,15-20 (Aurora), que nos trazem o quadro histórico-geográfico do nascimento de Jesus (Lucas 2,1-7), o seu anúncio (Lucas 2,8-14) e acolhimento (Lucas 2,15-20), e culmina com o prólogo de João 1,1-18 (Dia), que nos mostra a Luz fulgurante do Verbo de Deus feito carne, o Único que nos pode dizer Deus. O nascimento de Jesus, na sua nudez, aparece narrado três vezes, nos três andamentos do texto lucano (Lucas 2,7.12.16). Ele é claramente o centro. Aparece logo situado no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria (Lucas 2,1-2). O reinado de Augusto estende-se por muitos anos (27 a.C.-14 d.C.), mas Pôncio Sulpício Quirino foi prefeito da Síria apenas no ano 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande, e anexa definitivamente a Judeia ao Império Romano. O leitor menos prevenido dirá logo que há aqui uma imprecisão histórica. Acrescento então que este recenseamento foi iniciado em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino, prefeito da Síria durante os anos 9-6 a.C. É sabido, de resto, que a era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI, em 525, pelo monge xiita, de origem egípcia, Dionísio o Pequeno, com um pequeno erro de cálculo que resultou no atraso de 6 ou 7 anos em relação ao nascimento de Jesus. Portanto, Jesus terá nascido 6 ou 7 anos antes do início da era cristã fixada pelo monge Dionísio. E aí está então tudo em dia: Jesus nasce quando Sêncio Saturnino dá início ao recenseamento. Dirá outra vez o leitor incauto: se assim foi, por que é que Lucas fala de Quirino, e não de Saturnino? Se repararmos bem, Lucas faz exatamente como nós fazemos hoje. Nas placas que colocamos nos edifícios públicos que inauguramos constam os nomes das autoridades que os terminam e inauguram, e não daqueles que os iniciam. O mesmo se diga da promulgação de leis e tratados.

    3. É ainda no quadro deste recenseamento que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se fica a dever ao facto de José ser da descendência de David (Lucas 2,3-4). O próximo passo refere que, quando chegaram (José e Maria), não havia lugar para eles na sala (Lucas 2,7). Note-se que o texto refere, de forma clara, sala, grego katályma, e não hospedaria, como se lê em muitas e preconceituosas traduções. Na verdade, Lucas sabe bem dizer hospedaria, como faz na passagem do bom samaritano (Lucas 10,34), em que usa o termo grego pandocheîon. Katályma não significa hospedaria. Significa sala. Pode ser a sala do andar superior (Lucas 22,11), que ficou conhecida como Cenáculo, onde Jesus comerá a Ceia da Páscoa com os seus discípulos. No episódio de Belém, que estamos a ler, pode tratar-se de uma sala destinada a hóspedes que a arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Judeia do tempo de Jesus. Esta sala apresenta forma quadrangular ou retangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. A sala tinha uma única porta de entrada, por onde entravam as pessoas com os seus animais de transporte. Ao fundo da sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais, depois de descarregarem os seus bens. É neste estábulo anexo à sala destinada aos hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura (Lucas 2,7 e 12).

    4. Vem depois a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos da sociedade, e não entram nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, David, não entra nas contas já encerradas de seu pai (1 Samuel 16,10-11), mas entra nas contas de Deus (1 Samuel 16,11-12). O mesmo acontece com os pastores de Belém, a quem o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento de um Salvador para todo o povo, Hoje nascido em Belém (Lucas 2,8-11). E, deste acontecimento, o mensageiro celeste dá um sinal (sêmeîon) aos pastores e a nós: «encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura» (Lucas 2,12). E, depois daquele celestial e humano Gloria in excelsis Deo e Paz na terra aos homens que Ele ama (Lucas 2,14), aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista de pessoas dignas de consideração, aí vão eles apressadamente (Lucas 2,16), como Maria (Lucas 1,39), verificar (ideîn) os acontecimentos a eles dados a conhecer por Deus (Lucas 2,15), e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar, e devem dar também a conhecer a todos (Lucas 2,17). Note-se o aroma desta Paz diferente, que não é obra das armas, como no mundo romano, nem de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense, mas dom de Deus!

    5. Cena sublime e suprema ironia. Os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados, mas saem logo de cena, para dar lugar aos pastores, que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. Os senhores do mundo ocupam um único versículo cada um (Lucas 2,1 e 2). Os pastores enchem treze versículos (Lucas 2,8-20). Também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos Anjos e dos pastores. Mas Maria é estupendamente retratada a «guardar todas aquelas palavras, compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,19). Note-se ainda o sinal dado aos pastores e a nós, leitores: um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. É preciso também começar a ver já aqui a Luz da Páscoa, a «Páscoa do Natal», com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro (Lucas 23,53). Mas também a sala (katályma) onde não havia lugar para eles (Lucas 2,7) reclama já a sala (katályma) para comer a Páscoa (Lucas 22,11), onde haverá lugar para Jesus e para nós! O Evangelho do Dia, o prólogo do Evangelho de João 1,1-18, deixa-nos de joelhos em contemplação: «E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) entre nós, e nós contemplámos (theáomai) a sua glória» (João 1,14). Mas também: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Leitura sublime do presépio, da falta de lugar para Jesus, e a sua rejeição já desde então encenada e em prolepse acenada.

    6. Mas é imperioso ler este extraordinário texto até ao fim. E, no final, no v. 18, lemos: «Deus (theón), ninguém (oudeís) viu (heôraken: perf. de horáô) nunca (pôpote); o Monogénito Deus (monogenês theós), Aquele-que-é (ho ôn) para o seio do Pai (heis tòn kólpon toû patrós), Ele (ekeînos) fez exegese (exêgêsato)» (Jo 1,18). Este texto imenso introduz a afirmação da revelação pelo Filho Monogénito e marca bem a invisibilidade de Deus por nós, que exclui toda a espécie de “visão” humana, quer física quer intelectual. Revelação exclusiva: nenhum ser humano atinge diretamente Deus. E gratuita: note-se a mudança de sujeito: não nós, mas o Filho Monogénito trouxe a revelação. É sobre esta nova dimensão da revelação de Deus a cargo do Verbo, na parte final do v. 18, que recai o acento do inteiro versículo. Este texto traz, portanto, um dado novo: a exclusividade do agente da revelação. Só o Filho Único de Deus (monogenês designa o Filho e exprime a sua relação única, que não se pode comparar a nenhuma outra, com Deus), voltado para o seio do Pai, para a sua Origem, para o seio em que é eternamente gerado, verdadeira «cátedra» divina, pode explicar-nos o Deus que nunca ninguém viu (heôraken). Não é que a tese seja a invisibilidade de Deus. O texto, imenso, não tem vocação metafísica. Com o recurso ao verbo no tempo perfeito (heôraken), que cobre o passado e o presente, e ao advérbio temporal pôpote [= nunca], que exclui a história humana, o texto pretende colocar-nos perante o momento decisivo da história entre Deus e a humanidade. E é Jesus o centro dessa história.

    7. Este Filho em Belém e na Cruz nascido, totalmente voltado para o seio do Pai, e que é eternamente consciente de receber do Pai todo o seu ser filial, é o único capaz de nos trazer a revelação. Sendo o revelador definido pela sua relação filial e intradivina, podemos então esperar que o ato de revelação e o seu conteúdo sejam constituídos por esta relação filial. Neste sentido, podemos agora notar com atenção meticulosa como o termo theós [= Deus], que abre o v. 18, vem a ser intencionalmente substituído no fecho, em 18b, pelo termo patrós [= Pai]. Na verdade, esta relação divina, inefável oceano da Divindade Única, é, sem mediação temporal, coextensivamente e coeternamente, in eterno, o Gerar paterno e o Ser-gerado filial: um único Gerar, um único Ser-gerado. Seguindo a preciosa formulação de S. Gregório de Nazianzo (329-389), que mereceu o título de «O teólogo» (ho theólogos), desta relação intradivina única entre o Pai e o Filho, o Pai, Arquétipo divino paterno, que é eternamente, «Aquele que é sem princípio» (ánarchos), e o Filho Monogénito, que é eternamente gerado, «Aquele que é gerado sem princípio» (ánarchôs gennêthéntes), Imagem divina filial, nada saberíamos, se o Verbo Único do Pai, Imagem eterna do Pai, e em si mesmo, como Deus, invisível por definição, não se tivesse feito, filialmente, também Imagem espacial e temporal do Pai, através da Incarnação, também esplendidamente afirmada e formulada no prólogo joanino (v. 14), que aqui inserimos novamente: «E o Verbo fez-se (egéneto) carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) no meio de nós, e nós contemplámos (etheasámmetha) a sua Glória (dóxa), Glória do Monogénito do Pai, Cheio de graça e de verdade» (João 1,14).

    8. Fica assim a claro a vinculação e unidade entre os v. 14 e 18, entre a invisibilidade de Deus (v. 18) e a visibilidade da Glória do Verbo Incarnado (v. 14), que podemos demorada e intensamente contemplar, como sugere o uso do verbo theáomai, um olhar prolongado que se abre à contemplação e interioridade. O Verbo Único de Deus, Deus Ele mesmo, sem deixar de ser o que eternamente é junto do Pai, com o Espírito Santo, fez-se também a nossa carne humana, e cumpriu o Êxodo histórico juntamente connosco ao pôr a sua tenda no deserto da vida humana, «entre nós, em nós», connosco. Há que acentuar aquele «fez-se» (egéneto), que põe em relação a divindade com a carne, associação que é absolutamente estranha e incompreensível para a mentalidade grega, segundo a qual a essência divina é por definição imutável e impassível, excluindo a ousía divina qualquer alteração, que seria “geração e corrução”. Outra vez a feliz formulação de S. Gregório de Nazianzo: «O que era, manteve; e o que não era, assumiu. Antes, era sem causa (anaitíôs), pois a causa (aitía) de Deus, qual é? Mais tarde, nasceu devido a uma causa (di’ aitían), para que tu fosses salvo, tu, que o insultaste; tu, que desprezaste a divindade, por ela ter acolhido a tua baixeza». Oh insondável mistério do amor de Deus!

    9. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem Hoje para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único Templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou à razia dos Persas de Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efectuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

    10. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à já mencionada sala de hóspedes. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, riqueza, poder, ódio, ostentação, tirania. Na tua casa e na tua sala há lugar para quem e para quê, meu irmão deste Dia de Natal?

    António Couto


  • Que o céu se abra,

    e que o orvalho desça

    sobre esta terra dura e seca,

    com as mãos em prece,

    pois vê-se que carece

    de paz

    e de ternura.

    Que o Teu orvalho desça,

    mas desce Tu também,

    Menino de Belém,

    por essa escada

    rendilhada

    de água pura.

    E não Te esqueças

    de que está na altura

    de vires nascer em Belém

    e aqui também.

    Por isso Te espero

    com a alma acesa,

    o pão na mesa,

    os pés ao borralho.

    Não te percas às voltas

    na circunvalação,

    mete pelo atalho

    do presépio de cascalho,

    que com oração e trabalho,

    abri no coração,

    neste tempo do Advento.

    Vem, Senhor Jesus,

    e enche de luz o nosso tempo,

    segundo a segundo,

    momento a momento.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 41-42.


  • 1. Foi no século II, e com intenções sincréticas, que o gnóstico egípcio Basílides e seus discípulos introduzem a celebração da Epifania, em que celebravam o Batismo de Jesus (para eles, o Verbo de Deus veio sobre o homem Jesus no Batismo e não no Nascimento), a verdadeira manifestação de Deus no mundo. A festa gnóstica da Epifania foi colocada em 6 de janeiro, pois nessa data já se celebravam diversas festas pagãs em honra de Adónis, Dionísio e Osíris. Às festas pagãs, os gnósticos contrapõem a manifestação de Cristo nas águas do Jordão.

    2. Em princípios do século IV, a festa da Epifania de Jesus consta já no calendário da Grande Igreja, que junta, no entanto, à celebração do Batismo de Jesus também a celebração do seu Nascimento. Assim, a noite de 5 para 6 de janeiro era particularmente reservada à celebração do Nascimento de Jesus, celebrando-se o Batismo no dia 6.

    3. A celebração do Nascimento de Jesus em 25 de dezembro, dissociada da Epifania em 6 de janeiro, verifica-se pela primeira vez em Roma, provavelmente entre os anos 325 e 354: a primeira menção regista-se na Chronographia de Philocalus (1.ª ed. em 336?). Para a dissociação do Nascimento de Jesus do âmbito da Epifania, e para a sua celebração como Festa independente, muito contribuiu a necessidade de acentuar, contra gnósticos e docetas, que Deus se fez homem no Nascimento de Jesus. Para que esta Festa do Natal se passasse a realizar em 25 de dezembro, terá contribuído o facto de os romanos celebrarem em 25 de dezembro a Festa do Sol ou Natal do Sol (solstício de Inverno), em que o dia começa a ganhar terreno à noite. Ao facto não será também alheia a posição do imperador Constantino, fervoroso adepto do culto do Sol e simpatizante do cristianismo (na verdade, só renegou o paganismo, batizando-se, no leito de morte), que via com bons olhos os dividendos políticos que lhe poderiam advir de um tal sincretismo religioso. Neste sentido, tinha já Constantino oficializado o descanso dominical, no ano 321, numa altura em que o «Dia do Senhor» era já conhecido por «Dia do Sol». A mistura entre os dois cultos da luz, a luz do Sol e a «Luz verdadeira que vem a este mundo e alumia todo o homem» (João 1,9), que é Cristo, continuou pelos séculos fora. Em meados do século V, o Papa S. Leão Magno verbera a duplicidade dos cristãos de Roma que, nas festas natalícias, antes de entrarem na Basílica de S. Pedro, se prostravam nos degraus que lhe dão acesso, com o rosto voltado para o sol nascente.

    4. Grande impacto no mundo cristão teve o Natal de 1223. O responsável foi Francisco de Assis que fez construir um presépio numa colina de Greccio (Itália), fazendo de Greccio a nova Belém, para todos espelho de simplicidade, pobreza e humildade, e tornando o Menino de Belém inesquecível no coração de muitos que já o tinham esquecido. O presépio de Greccio era um presépio especial: não tinha a figura de Maria, nem a figura de José, nem sequer o Menino Jesus! Francisco tinha pedido aos camponeses que pusessem lá apenas uma manjedoura, e que trouxessem um burro e um boi, e os colocassem um de cada lado da manjedoura. E que pusessem muito feno na manjedoura, para que os animais pudessem comer em abundância. O presépio não tinha Maria nem José… nem o Menino Jesus! A ideia genial de Francisco era expor nessa noite toda a verdade do Natal. Por isso, em vez de pedir que se colocasse a imagem do Menino Jesus na manjedoura, como fazemos nós ainda hoje, feito o presépio como atrás referido, procedeu-se à celebração da Eucaristia, tendo a manjedoura como altar, e, então sim, aí se faria presente o próprio Jesus, para ser por todos adorado.

    5. O Filho de Deus em Belém e na Cruz nascido, totalmente voltado para o seio do Pai, e que é eternamente consciente de receber do Pai todo o seu ser filial, é o único capaz de nos trazer a revelação. Sendo o revelador definido pela sua relação filial e intradivina, podemos então esperar que o ato de revelação e o seu conteúdo sejam constituídos por esta relação filial. Neste sentido, podemos agora notar com atenção meticulosa como o termo theós [= Deus], que abre João 1,18, vem a ser intencionalmente substituído no fecho, em 18b, pelo termo patrós [= Pai]. Na verdade, esta relação divina, inefável oceano da Divindade Única, é, sem mediação temporal, coextensivamente e coeternamente, in eterno, o Gerar paterno e o Ser-gerado filial: um único Gerar, um único Ser-gerado. Seguindo a preciosa formulação de S. Gregório de Nazianzo (329-389), que mereceu o título de «O teólogo» (ho theólogos), desta relação intradivina única entre o Pai e o Filho, o Pai, Arquétipo divino paterno, que é eternamente, «Aquele que é sem princípio» (ánarchos), e o Filho Monogénito, que é eternamente gerado, «Aquele que é gerado sem princípio» (ánarchôs gennêthéntes), Imagem divina filial, nada saberíamos, se o Verbo Único do Pai, Imagem eterna do Pai, e em si mesmo, como Deus, invisível por definição, não se tivesse feito, filialmente, também Imagem espacial e temporal do Pai, através da Incarnação, também esplendidamente afirmada e formulada no prólogo joanino (João 1,14), que aqui inserimos: «E o Verbo fez-se (egéneto) carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) no meio de nós, e nós contemplámos (etheasámmetha) a sua Glória (dóxa), Glória do Monogénito do Pai, Cheio de graça e de verdade» (João 1,14).

    6. Fica assim a claro a vinculação e unidade entre os vv. 14 e 18 do prólogo do IV Evangelho, entre a invisibilidade de Deus (v. 18) e a visibilidade da Glória do Verbo Incarnado (v. 14), que podemos demorada e intensamente contemplar, como sugere o uso do verbo theáomai, um olhar prolongado que se abre à contemplação e interioridade. O Verbo Único de Deus, Deus Ele mesmo, sem deixar de ser o que eternamente é junto do Pai, com o Espírito Santo, fez-se também a nossa carne humana, e cumpriu o Êxodo histórico juntamente connosco ao pôr a sua tenda no deserto da vida humana, «entre nós, em nós», connosco. Há que acentuar aquele «fez-se» (egéneto), que põe em relação a divindade com a carne, associação que é absolutamente estranha e incompreensível para a mentalidade grega, segundo a qual a essência divina é por definição imutável e impassível, excluindo a ousía divina qualquer alteração, que seria «geração e corrução». Outra vez a feliz formulação de S. Gregório de Nazianzo: «O que era, manteve; e o que não era, assumiu. Antes, era sem causa (anaitíôs), pois a causa (aitía) de Deus, qual é? Mais tarde, nasceu devido a uma causa (di’ aitían), para que tu fosses salvo, tu, que o insultaste; tu, que desprezaste a divindade, por ela ter acolhido a tua baixeza». Ó insondável mistério do amor de Deus!

    7. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem no dia de Natal para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único Templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou à razia dos Persas de Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efetuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

    8. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à sala de hóspedes de uma casa da Judeia, certamente pertença da família de José, como abaixo indicamos. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, poder, ódio, ambição, ostentação, tirania.

    9. Muitas foram as considerações astronómico-simbólicas arranjadas para situar e explicar o nascimento de Jesus em 25 de dezembro ou noutras datas. Todas sem fundamento sólido. Os indícios mais seguros de que dispomos continuam a ser os que constam nos Evangelhos da Infância de Mateus 1-2 e Lucas 1-2. Os dados sóbrios que aí encontramos, permitem-nos situar com muita probabilidade o Nascimento de Jesus nos anos 7-6 a.C., num estábulo anexo à «sala de hóspedes» superlotada de uma casa de Belém de Judá, certamente pertença da família de José. De notar que Lucas tem em vista mesmo uma «sala» (grego katályma: Lucas 2,7; cf. 22,11), e não uma «hospedaria», como é vulgar dizer-se. Lucas fala de uma «hospedaria» no contexto da parábola do bom samaritano, mas usa o termo grego pandocheíon (Lucas 10,34). A arqueologia mostrou que o traçado das casas da Judeia contemplava muitas vezes no plano térreo uma sala de hóspedes, que apresentava um simples banco rochoso a toda a volta, para facultar o descanso das pessoas em trânsito, abrindo ao fundo para um estábulo, onde se guardavam os animais, que atravessavam, para o efeito, a sala de hóspedes.

    10. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos e historiadores se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a.C. Esta última está registrada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). O quadro histórico desta estrela e a normal curiosidade dos sábios por ocasião desse extraordinário acontecimento astronómico, são aproveitados redacionalmente por Mateus para a construção do cenário do Natal, o que é coisa perfeitamente aceitável e verosímil.

    11. Igualmente verosímil é o aproveitamento redacional feito por Lucas do quadro histórico do recenseamento do mundo romano, ordenado por César Augusto (27 a.C.-14 d.C.), sendo Pôncio Sulpício Quirino prefeito romano da Síria. É sabido que Quirino ocupa o cargo de prefeito da Síria apenas durante 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande (37 a.C.-4 a.C.), anexando definitivamente a Judeia ao Império Romano. Porém, o recenseamento tinha sido iniciado, qual «descriptio prima» em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino (9-6 a.C.). Se se fala apenas em Quirino, é porque o recenseamento fica normalmente conhecido pelo nome daquele que o levou a cumprimento em 6 d.C., e não daquele que o iniciou em 7-6 a.C.

    12. De quanto fica dito no referente aos caixilhos históricos aproveitados por Mateus e Lucas, podemos adiantar como data provável para o Nascimento de Jesus os anos 7-6 a.C.

    13. A era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita Dionísio o Pequeno com um pequeno erro de cálculo de 6-7 anos. O monge Dionísio não o podia saber então, mas nós sabemos hoje com rigor que a morte de Herodes o Grande ocorreu em abril do ano 4 a.C. nas suas termas de Jericó. Jesus teria então 2-3 anos, e teria nascido nos anos 7 ou 6 a.C. Note-se que 7 ou 6 a.C. não significa 6 ou 7 antes do Nascimento de Cristo, o que seria absurdo, mas 6 ou 7 anos antes da era cristã fixada pelo monge Dionísio.

    14. É seguro que Jesus nasceu no nosso mundo, e nele enxertou a mais poderosa carga de amor que se possa imaginar. Tão forte que mudou a história. É esta a verdade lancinante do Natal. O comércio, esse chegou muito depois!

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 8-15.


  • Aqui estamos, Senhor, à beirinha do Natal,

    que és Tu que vens de mansinho bater à nossa porta,

    visitar a nossa casa,

    comer à nossa mesa,

    sentar-Te à nossa beira.

    E enquanto te aqueces à lareira,

    e começas a contar a tua história,

    é como se se abrisse uma clareira,

    e tanta coisa me passa na memória.

    Vejo-te aqui sentado ao meu lado.

    Faço contas:

    éramos tantos ao princípio,

    entusiasmados,

    a ouvir e a repetir as tuas histórias,

    aqueles pedaços de Evangelho

    que não nos deixavam pregar olho

    naquelas velhas enxergas de folhelho.

    E então quando o Natal se aproximava,

    e corríamos à procura de musgo pelos montes,

    e também de uns pinheirinhos mansos,

    com cheiro a verde e a resina,

    que alegria ardia nos meus olhos,

    que, sem o saber, bebia as fontes,

    entrava pelas chaminés,

    construía pontes,

    contava de um a dez,

    rasgava horizontes.

    Vem, Senhor Jesus.

    E vindo, não te esqueças de bater à minha porta,

    entrar em minha casa,

    comer à minha mesa,

    onde já arde uma lareira acesa

    e se sente o odor do vinho e do pão.

    Falta apenas o calor da tua mão.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 16-17.


  • Se o Senhor não construir a casa,

    em vão trabalham os que a constroem.

    Se o Senhor não guardar a cidade,

    em vão vigiam as sentinelas.

    Não se pode esconder uma cidade situada no cimo de um monte,

    ou sobre a linha do horizonte,

    porque alumia, alumia, alumia,

    irradia, irradia, irradia,

    de noite e de dia.

    Cidade de alto-a-baixo erguida,

    como um manto de orvalho caída,

    como uma ermida,

    uma jazida de luz

    e de Jesus.

    Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,

    lançai os fundamentos no céu,

    construí desde o cume,

    sobre o gume da Palavra

    que de Deus vem

    nascer em Belém

    e aqui também.

    Vem, Senhor Jesus!

    Vem, vem, que Te esperamos!

    António Couto


  • Isaías 7,10-14; Salmo 24; Romanos 1,1-7; Mateus 1,18-24

    1. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação, que é a divina surpresa, e a adequação da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Neste Evangelho, os discípulos de Jesus nunca são ditos «justos», mas são chamados à «justiça», isto é, a andar no «caminho da justiça», auto destituindo-se, isto é, libertando-se dos seus projetos autorreferenciais, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: «não te metas com esse justo»), o que não deixa de ser uma nota significativa.

    2. Fica então diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade com Deus (Mateus 1,18-24). A cena abre com a notícia acerca da origem (génesis) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e não nascimento. Se fosse nascimento, o texto grego assinalá-lo-ia com génnêsis. A cena remete essa origem para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria não provinha de José nem de uma possível infidelidade de Maria, mas do Espírito Santo (ek pneúmatos hagíou) (Mateus 1,19b). É assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa grávida durante o noivado, a que os hebreus chamam ՚arûsîn, antes da fase propriamente conjugal ou de coabitação, a que os hebreus chamam nîssû՚în, e não sabendo disso a razão, mas desconfiando, dado que o seu matrimónio com Maria era seguramente, não em ordem à procriação, mas de proteção mútua e de total dedicação a Deus.

    3. Pode, de facto, ler-se este matrimónio de Maria e de José pelo estatuto dos chamados matrimónios putativos ou de proteção ou espirituais, a que não será alheia a locução «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê), que se lê em Lucas 1,27. O matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, é difícil de explicar no quadro habitual de um matrimónio em ordem à procriação, mas é possível explicá-lo mais, muito mais, no quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus, protegendo-se mutuamente. Neste quadro religioso, jurídico, social, Maria é apresentada como «desposada» (emnêsteuménê) (Mateus 1,18; Lucas 2,5), «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27), ou simplesmente como «a sua esposa» (hê gynê autoû) (Mateus 1,24), sendo José «o esposo de Maria» (ho anêr Marías) (Mateus 1,16) ou «o seu esposo» (hoanêrautês) (Mateus 1,19). A não ser este o estatuto do matrimónio de Maria e José, não se compreende que, posta perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), Maria avance logo a objeção concreta: «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34).

    4. É também mais fácil compreender que, no quadro de um matrimónio habitual em mundo judaico, esta objeção não faria sentido, pois mais dia menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho, que era o ideal de qualquer casal judaico. Parece óbvio que não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter filhos. Faço notar que este estatuto matrimonial era conhecido no judaísmo, como se pode ver no tratado Niddah, da Mishnah judaica, e no cristianismo primitivo (ver as anotações precisas de Ireneu de Lião [130-202], Tertuliano de Cartago [160-220], Gregório de Niza [330-395] e Jerónimo [347-420]). Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que, no dizer de Gabriel, muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos (Lucas 1,13).

     5. José nada sabia daquela gravidez de Maria, sua esposa, mas não duvidava da sua retidão (temîmût) e fidelidade a Deus. Suspeitava de Deus, mas guardava tudo para si, no silêncio do seu coração, como é dito também de Maria (Lucas 2,19.51). Evita cenas públicas. Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, «em um sonho» (kat’ ónar) (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, entenda-se, surpresas, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas antigas da Escritura Santa (cf. Isaías 60,1.4-5; 62,4-5). A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como se vê em Mateus 1,18-24, é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José» como se pode ver comparando o relato do encontro de Gabriel com Maria (Lucas 1,26-38) e o relato deste encontro de um anjo com José (Mateus 1,18-24). E esta cumplicidade mansa, em sonhos, entre Deus e S. José, sempre com Deus a conduzir a cena, continua a ver-se aquando da procura de refúgio no Egito, devido à raiva assassina de Herodes (cf. Mateus 2,13), aquando do regresso do refúgio do Egito à terra de Israel, após a morte de Herodes (cf. Mateus 2,19-20), e na ida para a Galileia, para Nazaré porque, aquando do regresso do refúgio do Egito, reinava na Judeia Arquelau, filho de Herodes, que não era melhor do que o seu pai (cf. Mateus 2,22-23).

    6. Sempre em bicos de pés e no limiar do silêncio, e lendo bem os acontecimentos à luz de Deus, o «justo» José passa discretamente da possível ideia de expor Maria à difamação pública (deigmatízô) para a ideia de ele próprio sair de cena em segredo (láthra) (Mateus 1,19), entregando assim a cena toda a Deus, imitando desse modo a leitura do seu homónimo José (do Egito)!

    7. Em boa verdade, este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!), não deixa de lembrar o outro José, «o homem dos sonhos» (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime.

    8. A missão esponsal de José, declarado «justo» (Mateus 1,19), fica logo clarificada pelo anjo que o incumbe de receber Maria como sua esposa (Mateus 1,20). Mas José, também pelo anjo chamado «filho de David» (Mateus 1,20), expressão fora deste passo só usada acerca de Jesus, mostra bem a importância de José para incorporar Jesus na linhagem davídica, e explica a razão pela qual José é incumbido pelo anjo da sua particular missão paternal em relação ao filho que a sua esposa Maria vai dar à luz. É preciso ter em conta que Mateus toma todos os cuidados, já no v. 16, para precisar que Jesus é filho de Maria, esposa de José, mas que não é filho de José, afirmando depois, nos vv. 18 e 20, que a conceção de Maria é obra do Espírito Santo. Esta afirmação, retirando José da conceção de Jesus, tornaria inútil a inteira linha genealógica cuidadosamente traçada por Mateus em 1,1-16 com o intuito de integrar Jesus na descendência de David. Em termos da linha do sangue resulta de facto impossível, dado que Jesus é filho de Maria, mas não de José. Então, o que é impossível pela via do sangue, vai tornar-se possível pela via da adoção. O primeiro ato da missão paternal de José, a quem o anjo se dirige chamando-o propositadamente «filho de David» (v. 20), consistirá então, também por indicação do anjo, na adoção formal do filho que vai nascer de Maria, dando-lhe o nome de Jesus (v. 21). Modo de fazer também de Deus, que diz de Israel: «Chamei-te pelo teu nome; tu és meu» (Isaías 43,1). Ao dar-lhe o nome de Jesus, indicado pelo anjo (vv. 21 e 24), José assume o estatuto de pai legal de Jesus, que assim se torna seu filho e herdeiro e fica inserido na linha dinástica de David. O nome «Jesus» surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (v. 21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida da SALVAÇÃO e do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem conta, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice na ceia pascal: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (Mateus 26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

    9. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é Emanuel, «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, sorve, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão, contemporâneo e companheiro, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos juntos a dar-lhe o nome de Emanuel, Deus connosco. Mateus faz aqui uma citação de Isaías 7,14 que, por graça, também hoje é objeto de leitura para nós. Mas Mateus faz uma alteração literária e teológica fundamental. Em Isaías lia-se no texto hebraico: «E ela [a jovem mãe] chamará o nome dele Emanuel». O verbo hebraico weqaraʼt [«chamar-lhe-á»] aparece aqui na 3.ª pessoa do singular feminino. Na versão grega dos LXX lemos kaléseis [«chamar-lhe-ás»] na 2.ª pessoa do singular masculino.  Mas Mateus altera o sujeito e a forma verbal e escreve assim: «E eles chamar-lhe-ão (kalésousin) Emanuel» (Mateus 1,23). Com esta mudança de sujeito e forma verbal do singular para o plural, Mateus faz de Jesus, não apenas o sinal de salvação dado a um povo, mas sinal de salvação para todos os povos! E a dádiva do nome por todos, por nós também, implica-nos a todos com este Jesus, Emanuel, Deus connosco. Sempre.

    10. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva pela mão o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»] (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pequeno pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como para-vento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade de quem reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

    11. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abi, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abi, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» dado fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus, como, por graça, nos é dado ouvir no Evangelho de hoje (Mateus 1,18-24). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734, se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

    12. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que vem a acontecer, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926 a.C., data da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

    13. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Isaías 9,1-6 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

    14. Temos também hoje a graça de receber o início da Carta de S. Paulo aos Romanos (1,1-7), em que podemos identificar a apresentação ou titulatio [«Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado apóstolo, separado para o Evangelho de Deus»] (v. 1), seguida de um longo parêntesis cristológico (vv. 2-6), o endereço ou adscriptio [«a todos os que estão em Roma, amados de Deus, aos chamados santos»] (v. 7a), e a saudação ou salutatio [«Graça a vós e Paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo»] (v. 7b). Notemos que a locução «Graça e Paz» abre todas as Cartas de S. Paulo, e «A Graça» está em todas as saudações finais, fechando todas as Cartas. Mas é ainda grandemente sintomático que, depois deste início, a Carta aos Romanos prossiga assim: «Primeiro, dou Graças ao meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por todos vós…» (Romanos 1,8). Aqui está o mesmo olhar de bondade e de beleza, ícone de Paulo em oração sem fim. Na verdade, depois daquele «primeiro», ficamos à espera de encontrar um «segundo» ou um «depois», que, todavia, nunca mais aparecerá. A Graça e a Ação da Graça estão antes de tudo e preenchem tudo. Nesse sentido, é bom e justo que tomemos consciência de que não é mais suficiente um cristianismo convencional, marcado pela ação social. É hoje igualmente insuficiente a espiritualidade da militância, que persegue a causa nobre de uma Igreja viva e participada e da construção de um mundo melhor. Um serviço pastoral que se reduza a «coisas que fazer» está gasto. Passou o tempo dos cristãos meramente «praticantes». Hoje são necessários cristãos enamorados, à maneira de Paulo.

    15. Vem, Senhor Jesus. Só um amor como o teu transformará este mundo e salvará o nosso engessado coração! O «justo» José pode ensinar-nos como te ensinou a andar, menino, a dar os primeiros passos, e também como tu, menino, lhe ensinaste a ele a andar no «caminho da justiça».

    16. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e nosso Salvador que vem na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No primeiro andamento deste Salmo (vv. 1-6), justamente a parte Hoje cantada, somos convidados a acolher este Senhor com as mãos limpas e o coração purificado. O teólogo luterano alemão Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

    António Couto


  • Se não fosse Domingo, a Igreja celebraria hoje, 14 de dezembro, a memória de São João da Cruz, místico de olhos abertos, cravados em Jesus, que foi sempre o seu tesouro e a sua luz, a música e a letra do seu Cântico Espiritual. Na noite, por vezes escura, da sua vida, sempre encontrou em Jesus doçura bastante para seguir adiante, sabendo-se e sentindo-se sempre iluminado pelo olhar intenso de Jesus, que assim expressou de forma bela:

    «Quando Tu me olhavas,

    A sua graça em mim os Teus olhos imprimiam:

    Por isso me amavas,

    E nisso mereciam

    Os meus olhos adorar o que em Ti viam».

    São João da Cruz, roga por nós, e indica-nos hoje, no teu dia, o caminho luminoso de Jesus. Amen.

    António Couto


  • Hoje, 13 de dezembro, é dia de Santa Luzia, Virgem e Mártir. Ainda muito jovem, com pouco mais de vinte anos, deu a sua vida por Cristo. Aconteceu nos primeiros anos do século IV, durante a perseguição de Diocleciano.

    Diz-nos o Evangelho de São João que, após a crucifixão de Jesus, quatro soldados dividiram entre si as coisas de Jesus. Mas não dividiram a túnica, porque era tecida de Alto-a-baixo como um todo (João 19,23-24).

    Quem costura assim, de Alto-a-baixo, senão as mãos de Deus, aquelas mãos que com terra e saliva fazem lodo, que curam a nossa vista e o nosso corpo todo (João 9,6), as mesmas mãos que, com ternura, no cenário da criação, do pó da terra modelaram o nosso humano coração? (Génesis 2,7).

    São João diz-nos ainda que, depois dos quatro soldados, vieram quatro mulheres que se abraçaram à Cruz de Jesus (João 19,25). Das mulheres diz-nos quem são: a sua Mãe,/ a irmã de sua mãe,/ Maria de Cléofas/ e Maria Madalena.

    Os quatro soldados preferem as coisas de Jesus. As quatro mulheres preferem Jesus, ficam abraçadas a Jesus.

    Juntemos hoje uma quinta mulher, a Senhora deste dia 13 de dezembro: Santa Luzia.

    Santa Luzia, Virgem e Mártir, Padroeira dos olhos e da visão do coração, roga por nós ao Senhor da Luz e da Alegria!

    António Couto


  • São estes os caminhos do Advento,

    cheiinhos do vento do Espírito,

    que derruba as folhas secas das árvores,

    e nos faz ver

    que somos todos como a erva,

    e a nossa glória não é mais do que a flor da erva.

    Mas seca a erva e murcha a flor,

    e nós passamos.

    Sim, estamos de passagem.

    Mas sentimos no rosto,

    ou talvez no coração,

    a tua aragem mansa,

    que nos enche de paz e confiança.

    O Advento é uma escola de esperança

    e de oração,

    de coragem e de alento.

    O Advento é uma viagem

    até ao nascimento

    do menino de Belém,

    lá,

    e dentro de nós também.

    António Couto


  • Isaías 35,1-6a.10; Salmo 146; Tiago 5,7-10; Mateus 11,2-11

    1. «Tendo João ouvido na prisão as obras de Cristo, por meio dos seus discípulos, mandou dizer-lhe: “És TU Aquele-que-vem, ou esperamos outro?” E respondendo, Jesus disse-lhes: “INDO (poreuthéntes), ANUNCIAI (apaggeílate) a João o que ouvis e vedes: os cegos veem e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”» (Mateus 11,2-5).

    2. João Batista não tem dúvidas de que Jesus é o Cristo, o Messias esperado. Se não tem dúvidas, então por que é que pergunta: «És TU Aquele-que-vem, ou não»? Pergunta ou manda perguntar, não porque ignore ou duvide que Jesus é o Messias-que-vem, mas porque Jesus vem revestido de um messianismo que não corresponde às ideias messiânicas de João Batista e do judaísmo em geral. E porque, nestas condições, embora reconhecendo e indicando em Jesus o Messias, João Batista não está apto a compreender e dizer este messianismo novo, é com exemplar clarividência que João manda os seus discípulos pôr aquela pergunta a Jesus, dando assim a Jesus a oportunidade de se dizer, de se auto apresentar. João Batista representa o velho: «Todos os profetas e a Lei profetizaram até João» (Mateus 11,13). E Lucas acrescenta: «Daí para a frente é evangelizar o Reino de Deus» (Lucas 16,16). João Batista chegou ao limiar do Novo Testamento, e indicou em Jesus o Messias sem hesitação. Indica-o, mas não o sabe dizer, porque Jesus, o Messias que João vê vir ao seu encontro, não vem ao seu encontro segundo os moldes previstos pelo judaísmo. Na verdade, vem por outros caminhos e de outra maneira. Assume outra postura, e João, que representa o velho, não está apto a dizer o Novo. Equivoca-se até quando se adianta e começa a dizer alguma coisa antes do tempo, como vimos no Domingo passado, quando começou a dizer que Ele vinha com o machado e com a pá de joeirar (Mateus 3,10 e 12): tudo somado, vinha para cortar as árvores estéreis, que não dão fruto, e para separar o cereal da palha, para operar uma separação nítida entre as pessoas, entre justos e pecadores, portanto. Mas rapidamente se apercebeu do seu equívoco. O velho não sabe dizer o novo. Falta-lhe vocabulário e conceitos adequados, não reúne competência para poder dizer o Novo, que é Jesus, o Cristo, o Messias-que-vem. E, porque não o sabe dizer, opta então por dar a Jesus a oportunidade de ser Ele próprio a fazer a sua apresentação. A pergunta de João é, portanto, um sinal de sabedoria e de exemplar clarividência.

    3. E a resposta de Jesus, acima transcrita, é clara, mas mais performativa do que informativa. De acordo com este belo e transformante dizer de Jesus, é o caudal da evangelização que chega até João. Que o mesmo é dizer: João é evangelizado! Ele é o primeiro «pobre», perseguido pelos poderosos, e, por esse motivo, metido na prisão de Maqueronte por Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, e tetrarca da Galileia (4 a.C-39 d.C.), responsável pela prisão e decapitação de João Batista (Lucas 3,20; 9,9). João denunciou abertamente os erros de Herodes Antipas, e este meteu-o na prisão. João não era um «cão mudo, que já não ladra» (cf. Isaías 56,10), «embriagado à beira da estrada» (cf. Isaías 56,12). No escuro das paredes da prisão de Maqueronte, João recebe a «boa notícia» que abre os seus olhos. Permanecendo embora no escuro cárcere, João Batista recebe a vista de Jesus através da boa notícia que os seus discípulos lhe transmitem: ele é o primeiro «cego» que recebe a vista, o primeiro «preso» que é libertado, o primeiro «pobre» que é evangelizado!

    4. Mas a resposta de Jesus vai ainda mais longe, e envolve desde já os mensageiros enviados por João em verdadeiros mensageiros do Evangelho, que requer de todos nós uma nova, exigente e envolvente metodologia. Ao empregar o verbo «anunciar» ou «narrar» (grego apaggélô, hebraico higgîd) na missão que lhes confia: «INDO (poreuthéntes), ANUNCIAI (apaggeílate) a João o que ouvis e vedes: os cegos veem e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados», tudo no presente, Jesus está a dizer àqueles mensageiros que o Evangelho não se enuncia no passado, não é acerca de algo que já aconteceu, de alguém que já por cá passou. Não é coisa velha, enferrujada e requentada e já de cor sabida. O Evangelho é Jesus, que está no meio de nós, e nunca se anuncia ou enuncia no passado. Com este procedimento, Jesus está a dizer-nos que não podemos anunciar o Evangelho com os verbos no passado, sem nos comprometermos a fazê-lo acontecer Hoje, a apresentar Jesus Hoje, nosso irmão, companheiro e contemporâneo. O Evangelho, que é Jesus, conta-se, anuncia-se e enuncia-se no presente. Envolve-nos e revolve-nos e implica-nos em fazer acontecer Aquele que vamos anunciar, narrar e apresentar. Só assim é verdadeiro o testemunho do mensageiro, que se envolve em fazer acontecer o Evangelho, que é Jesus, o Cristo, o Messias-que-vem; só assim o destinatário pode ser igualmente envolvido, revolvido e implicado na mensagem que o atinge, com Jesus a bater já à porta do seu coração.

    5. Depois de os mensageiros de João Batista terem encetado a viagem de regresso, Jesus fala de João às multidões, mostrando a verdadeira identidade de João. Diz Jesus: «Este é aquele de quem está escrito: “Eis que Eu envio o meu mensageiro diante de ti, o qual preparará o teu caminho diante de ti”» (Mateus 11,10). A ninguém passará despercebido que se trata de uma citação do profeta Malaquias 3,1. Malaquias põe Deus a falar em primeira pessoa desta maneira (salientamos os pronomes, pondo-os em itálico): «Eis que Eu envio o meu mensageiro, e ele preparará o meu caminho diante de mim…». O próprio Malaquias dirá mais à frente (3,23) que este mensageiro que vem adiante de Deus, preparando-lhe o caminho, é Elias, e Jesus acrescenta e atualiza que João «é o Elias que estava para vir» (Mateus 11,14). Voltemos então às palavras de Jesus, citando Malaquias, para falar de João Batista às multidões (reparemos nos pronomes agora também colocados em itálico): «Eis que Eu envio o meu mensageiro diante de ti, o qual preparará o teu caminho diante de ti». Vê-se bem que continua a ser o mensageiro de Deus (meu) que é enviado; é enviado, porém, não diante de Deus, mas diante de Jesus (ti), para preparar o caminho de Jesus (teu), adiante de Jesus (ti). É fácil perceber que o mensageiro é agora João Batista (que aparece no lugar de Elias). Mas também salta à vista que Jesus é Deus, pois, na citação atualizada de Malaquias, aparece no lugar de Deus. Aí está então em plenitude a resposta de Jesus para João Batista e para todos.

    6. «Orvalho de luz» (Isaías 26,19) ou de lume, palha incendiada, vida nova a rebentar dos quatro cantos do nosso mundo inerte, em que os vivos quase já não chegam para sepultar os mortos (cf. Sabedoria 18,12). Luzes e vozes de alegria que abrem olhos engessados, rompem ouvidos rombos, entupidos por mato e por silvas, levantam paralíticos que saltam como filhotes de gazela (Isaías 35,6), desatam línguas de mudos e nós cegos que asfixiam corações! Tantos caminhos que se abrem para os deserdados que não têm caminhos, nem luz, nem uma mão ou voz amiga, nem música de dança para ouvir. Mais do que caminhos, são passadeiras floridas, jardins e avenidas (Sabedoria 19,3), tanto sonho, tanta água, tanta luz a irromper pela aridez do deserto, oh Isaías 35,1-6!

    7. A avenida florida é no deserto, engenharia divina, que transporta os seus filhos queridos da escuridão da Babilónia para a luz em flor de Jerusalém. «Ele mesmo, Deus, andará por essa estrada» (Isaías 35,8), esse caminho, essa avenida. Estrada santa, passadeira de luz e de sentido, engenharia divina!

    8. Arrisca um passo nessa estrada divina, nessa estrada de luz e de graça, meu irmão do Advento. Encontrarás com certeza alguém que te levará até Belém. É importante que essa estrada de Amor, de Perdão, de Bondade, de Justiça e de Paz chegue à tua porta, à tua casa, ao teu coração. Do coração de Deus ao teu coração. Do teu coração ao coração do teu irmão.

    9. Com paciência, persistência, humildade e amor. Sê como o camponês, que acaricia a semente, lavra a terra, visita o campo para ver crescer devagarinho a plantação. Vela também sobre o teu coração, para que não se torne duro e pesado. Vigia com amor, como quem está sempre à espera de alguém que ama, à espera do Senhor-que-vem. E pode vir na pessoa de um irmão. Não digais mal uns dos outros. Grande lição de Tiago 5,7-10.

    10. Vê-se bem que o melhor e mais belo que anda por aí não é obra nossa. É engenharia de Deus a inundar de Luz este Domingo da Alegria! A nós compete-nos deixar entrar em nós esta torrente de Evangelho, e começar então a ver, sentir e dizer bem, belo e bom. Ajustar a esquadria do nosso coração por essa divina engenharia.

    11. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas diletas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

    António Couto


  • Senhora de dezembro,

    Maria, minha Mãe,

    passa hoje o dia

    da tua Imaculada Conceição.

    …..

    Senhora de dezembro,

    dos dias frios e frágeis,

    dos passos firmes e ágeis,

    do coração que velava

    à espera de quem te amava.

    …..

    Assim te entregaste a Deus,

    de coração inteiro,

    como um tinteiro

    todo derramado numa página.

    …..

    Tu és a mais bela página de Deus,

    a Deus doada, apresentada, dedicada,

    Mãe da vida consagrada,

    Imaculada,

    ensina-me a tua tabuada,

    a tua nova alegria,

    a luz do Evangelho que te aquece e alumia.

    …..

    Eu te saúdo, Maria,

    neste dia da tua Imaculada Conceição.

    Ave-Maria.

    …..

    António Couto


  • Génesis 3,9-15.20; Salmo 98; Efésios 1,3-6.11-12; Lucas 1,26-38

    1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobre bendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras hebraicas da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), e o Verbo Incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19). Aí está a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos corações! As partituras desta música divina vêm hoje de Lucas 1,26-38, Génesis 3,9-15.20, Efésios 1,3-6.11-12 e do Salmo 98.

    2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

    3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação» ou «Evangelização», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, ecoar em nós um cântico novo.

    4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta (Génesis 3,9). «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados (Génesis 3,10). A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus» (Génesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer daquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto, e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

    5. Sim, esta história tem sempre a ver connosco. Basta ler este relato rabínico: estando o Rabino Shneur Zalman (1745-1812) preso em S. Petersburgo, entrou na sua cela o comandante da guarda, e pôs-se a conversar com ele sobre assuntos diversos. No final, perguntou: «Como se deve interpretar que Deus Omnisciente pergunte a Adam: “Onde estás?”». «Você acredita, respondeu o Rabino, que a Escritura é eterna e que diz respeito a todos os tempos, a todas as gerações e a todas as pessoas?». «Sim, acredito», disse o comandante da guarda. «Então, respondeu o Rabino, em cada tempo Deus pergunta a cada homem: “Onde estás no teu mundo? Dos dias e dos anos que te foram atribuídos, já passaram muitos: entretanto, até onde é que tu chegaste no teu mundo?”. Deus disse, por exemplo: “Vê, já há 46 anos que andas aqui. Onde te encontras?”». Ao ouvir o número exato dos seus anos, o comandante sentiu dificuldade em controlar-se, pôs a mão no ombro do Rabino, e exclamou: «Bravo!». Mas o seu coração tremia.

    6. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

    7. Cantemos, pois, com o Salmo 98, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôfar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

    8. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4) e para nos dar, através de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Efésios 1,5; Romanos 8,14.16-17; Gálatas 4,6-7), que nos faz «membros da família de Deus» (Efésios 2,19), «filhos de Deus» (1 João 3,2), «filhos no Filho», unidos no mesmo amor, unidos na ordem do amor, logo irmãos. Não somos, portanto, simples continuadores de Jesus Cristo, mas seus contemporâneos e seus irmãos. Entrando assim, por graça, na casa de Deus (Efésios 4,19), andaremos sempre na sua presença. Ele é o Deus Santo que nos santifica.

    9. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria, no grande texto da Anunciação (Lucas 1,26-38). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, solidamente documentada por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

    10. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo» (Mateus 28,5 e 9). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

    11. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

    12. Memorial da beleza incandescente desta página é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa S. Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

    13. Foi o Concílio de Basileia (1439) que sugeriu a definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamado depois por Pio IX em 08 de dezembro de 1854, através da bula Ineffabilis Deus. Note-se que o termo «conceção», na linguagem bíblica, indica a totalidade da existência. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospectivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: «Sobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe» (Salmo 71,6). Assim também, a existência de Maria está, desde o seu início, sob a proteção de Deus, marcada com o selo de Deus, não estando nunca sob o selo do pecado original, que mostra a existência humana marcada por um projeto alternativo ao de Deus, em que cada existência humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecerão sobre a face da terra, queremos ser por nossas próprias forças «como deus, conhecedores do bem e mal» (Génesis 3,5).

    14. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado e muito medicado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

    António Couto


  • O Senhor do Advento

    é Aquele-que-Vem

    nascer em Belém,

    bater à nossa porta,

    pedir ao nosso coração

    um bocadinho de pão.

    Tão pouco e tanto

    nos pede Jesus,

    e para nosso espanto,

    e encanto nosso,

    o Filho de Maria

    vem vestido de irmão nosso

    de cada dia.

    Ele anda por aí,

    ao frio e ao calor,

    rico e pobrezinho,

    Nosso Senhor,

    Vem, Menino,

    Senhor do mundo,

    do sol e da lua,

    bate à minha porta,

    entra em minha casa,

    e que, por graça,

    entre eu também na tua.

    António Couto


  • Domingo II Advento

    Isaías 11,1-10; Salmo 72; Romanos 15,4-9; Mateus 3,1-12

    1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes que reclamam a nossa atenção. 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2; cf. Mateus 4,17). 2) O ministério de ambos é colocado com referência a belas e indicativas paisagens textuais de Isaías: «Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”», é o lema do ministério de João Batista, como se pode ver em Mateus 3,3, citando Isaías 40,3. Por sua vez, «Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, região de além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que jazia nas trevas viu uma grande luz…», é o lema do ministério de Jesus, como se pode ver em Mateus 4,14-16, cumprindo Isaías 8,23-9,1. 3) Ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egito, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica (cf. Mateus 24,26): em todos os casos, o deserto evoca a proximidade com Deus, o povo «a céu aberto» com Deus. 4) A indumentária de João Batista (Mateus 3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8). Em toda a Escritura, só os dois se vestem de pêlos de camelo com um cinturão de couro. De resto, também Jesus identifica João Batista com Elias (Mateus 11,14; 17,12-13). De notar ainda que, na interpretação de Malaquias 3,23, o ministério de Elias não tem a ver com a vinda de outro profeta, mas com a Vinda do próprio Deus. Sem equívocos então: em Jesus não se trata da vinda de outro profeta, mas da Vinda do próprio Deus!

    2. É para esta Vinda de Deus em Jesus que todos se devem preparar. E é porque esta Vinda é vista como importante e decisiva, que é requerida uma preparação. A Vinda d’Aquele-que-Vem é tão importante, que não basta ficar tranquilamente à espera d’Ele. É preciso preparar-se para essa Vinda. Fazer com que todas as pessoas se preparem para esta Vinda, eis a missão de João Batista, que assume traços específicos. De modo estranhamente diferente dos outros profetas, João Batista não vai pregar para as cidades e aldeias ao encontro das pessoas, mas vai para o deserto, e são as pessoas que têm de ir ter com ele. E não são apenas algumas. São todas. O texto diz expressamente «toda a Judeia» e «toda a região à volta do Jordão» (v. 5). É ainda de salientar que, para se deslocarem ao deserto, as pessoas têm de deixar os seus afazeres habituais. Deixar tudo para trás e ir para o deserto, lugar que evoca, de muitos modos, a proximidade de Deus, como já mostrámos atrás em 1.3). É esta realidade que exige adequada preparação. Para ter acesso à Presença de Deus e ao seu serviço, impõe-se que se tenha um coração puro (Salmo 24,3-5), pelo que é necessário fazer as necessárias imersões ou abluções com água pura. Não é que a água lave o coração, mas é disso um indicador. Estas purificações rituais com água pura, banhos e outras abluções, eram feitas pelas próprias pessoas. Mas agora estamos perante um facto novo. Não são as pessoas que se purificam na água. É João Batista que as introduz na água. E para significar e implicar a necessária purificação, não apenas exterior, mas sobretudo interior, João exige das pessoas a confissão dos pecados e a conversão, bem como a imersão ou batismo nas águas do Jordão, que traz à memória a travessia operada pelo povo de Israel, vindo do deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Josué 3). E é também o rio que Elias atravessa antes de ser arrebatado para o céu (2 Reis 2,1-18). Ao rio Jordão anda, pois, associada a aproximação a Deus, à sua Vida, e aos seus dons.

    3. E que significado atribuir à anotação da incompetência (ikanós) de João para «retirar» ou descalçar as sandálias d’Aquele-que-Vem (v. 11)? Será simplesmente uma confissão de humildade por parte de João face a Alguém que lhe é incomparavelmente superior? Esta tonalidade está certamente presente, mas não esgota a metáfora das sandálias. Trata-se, desde logo, de um dizer importante, pois encontramo-lo por cinco vezes no Novo Testamento: Mateus 3,11; Marcos 1,7; Lucas 3,16; João 1,27; Atos dos Apóstolos 13,25. Num célebre artigo, intitulado «As sandálias do Messias Noivo», um dos mais ilustres biblistas do século XX, o jesuíta espanhol Luís Alonso-Schökel (1920-1998), levou este dizer e esta metáfora para o domínio da esponsalidade do Messias. De acordo com o referido nos Salmos 60,10 e 108,9, «pôr a sandália sobre» significa «tomar posse»; é, portanto, linguagem jurídica de posse. No Livro do Deuteronómio 25,5-9, o não cumprimento da lei do levirato implica que seja «retirada» a sandália ao cunhado não cumpridor da lei, gesto que garante a sua perda de posse no domínio matrimonial. Aqui já se trata de direito matrimonial. Em Rute 4,7-10, temos um caso jurídico concreto em que o que tem o direito de resgatar o património e de desposar Rute prescinde desse direito. Para o dizer juridicamente, em reunião pública realizada à porta da cidade (Rute 4,1), o homem em causa «retira» a sandália e entrega-a a Booz, que fica assim com o direito de resgatar o património e de desposar Rute. A metáfora da sandália em Mateus 4,11 e nos demais dizeres do Novo Testamento que anotámos significa que é Jesus o noivo, a quem assiste o direito de desposar Israel, e que a João não assiste esse direito ou competência.

    4. Se é evocada a continuidade dos ministérios de João e de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado, por outro lado, o confronto entre os dois, pois têm esquemas messiânicos diferentes. 1) Vê-se bem que João Batista anuncia um Messias-Juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), ao passo que Jesus assume a figura de Servo-do-Senhor manso e humilde (12,17-21). 2) O apelo à conversão que João faz não é dirigido apenas aos pagãos e aos pecadores, mas também aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias-Juiz-que-Vem, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé. 3) A conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…). 4) A conversão, aqui expressa pelo verbo grego metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade. Seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados. Ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas endireitar-se e orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida no mundo grego. 5) À vista de Jesus-que-Vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo-do-Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso. Na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado, como indica o facto de Jesus vir no meio do povo a este batismo de penitência. 6) Além disso, e contra todas as expetativas de João, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (3,11.13-14). 7) O diálogo travado neste lugar entre João Batista e Jesus (3,14-15), que nenhum outro Evangelho descreve, e em que João mostra o seu desacordo com o facto de ter de ser ele a batizar Jesus e não o contrário, é ultrapassado por Jesus que profere aqui as suas primeiras palavras neste Evangelho: «é bom que seja cumprida toda a justiça» (v. 15). A justiça, termo muito em uso neste Evangelho em que se faz ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), traduz o plano divino de salvação, que é a divina surpresa, e requer a adequação da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Sendo as primeiras palavras de Jesus, e por isso importantes e analépticas, rasgam uma avenida de sentido que Jesus seguirá até à Cruz: obediência ao Pai e solidariedade com o povo pecador. Rutura clara com a esperança messiânica de João e do mundo judaico desse tempo, mas sintonia com o significado verdadeiro das Escrituras. A conversão a que João e o judaísmo e cada um de nós somos convidados é um regresso à sintonia com a Palavra de Deus. Pelo que o verdadeiro judeu e o verdadeiro homem é aquele que se faz cristão. Torna-se então notório o sonho de um Deus que desce ao nosso mundo, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco e caminhar no meio de nós.

    5. Isaías 11,1-10, que serve de ressonância ao Evangelho de hoje, mostra muito mais o tom manso e suave do Servo-do-Senhor que Jesus incarna do que o martelo do Juiz que João Batista prenuncia. Isaías abre diante de nós um mundo novo, tenro e terno, que, visto desde este nosso mundo escuro e tantas vezes desumano e violento, soa a sonho. Ei-lo desenhado nestes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro,/ o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

    6. Avista-se daqui o Menino de Belém. Uma paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno! Vê-se bem que este mundo belo e manso não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino pequeno poderia governar um mundo assim! E o problema que nos assalta não está no menino; está neste nosso mundo mentiroso, fraudulento e violento.

    7. Contra este mundo empedrado e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem outra vez: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados e equivocados. É por isso que somos convidados à conversão.

    8. O mundo novo e saboroso que emerge dos textos de hoje é também sublinhado por S. Paulo nas exortações que nos dirige na Carta endereçada aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6). Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

    9. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva, e a que só Deus pode responder.

    António Couto


  • 1. A Igreja Arquidiocesana de Braga celebra no dia 22 de Outubro, com superlativa alegria, a solenidade do seu principal Padroeiro, S. Martinho de Dume. A Igreja em Portugal celebra a sua memória no dia 05 de dezembro, amanhã, portanto, juntamente com S. Frutuoso e S. Geraldo. Natural de outras terras, Martinho de Dume foi feito por graça cidadão dos céus, e partiu da Panónia, atual território da Hungria, para Oriente e para Ocidente. Peregrino do Homem e de Deus, viu bem e de perto Cristo nos pobres e estrangeiros, e com eles soube repartir o pão do corpo e do espírito, a roupa que vestia, a alegria do bom e belo Cristo que servia.

    2. Vindo de fora, agora para Ocidente, ao jeito de Abraão, do Oriente para o Ocidente, incondicionalmente abençoado e com o objetivo único de abençoar, passou por Tours, onde outro Martinho, seu conterrâneo tinha semeado e colhido, dois séculos antes, a fina flor do trigo do Evangelho. E foi assim que chegou até ao extremo Ocidente das dumienses e bracarenses terras que pisamos. O seu dizer simples, são e sábio sabia a sal e sol e luz. Nele ardia a Luz e exalava o suave odor do incenso e do louvor. Quem o encontrava, encontrava Jesus sempre a dizer: «Vós sois o sal da terra!… Vós sois a luz do mundo!» Nasciam assim os novos sabores da Paz, do Amor, da Alegria, do Evangelho. Novas luzes se acendiam nas alturas e nas planuras. «Não se pode esconder uma cidade iluminada!» Sim, que cidade é a vossa, assim tão escura e tão cinzenta?, bem poderia perguntar-nos hoje S. Martinho de Dume, Padroeiro principal da Arquidiocese de Braga. E que coração é o vosso, tão insensível e tão pouco fraterno?, pergunta-nos outra vez hoje S. Martinho. Naquele tempo ainda o amor doía, o moinho moía, o insonso não existia, e parece que nem a indiferença, a insensatez, a anestesia. S. Martinho de Dume é do tempo da alegria, da beleza do lírios do campo, do tempo em que os pássaros comiam à mesa dos meninos.

    3. «Cristo no meio de vós!», assim dizia Paulo, e assim fazia. «Cristo no meio de vós!», assim dizia Martinho, e assim acontecia. «Nada temo,/ porque Tu estás comigo!», repetia o povo rude que começava a saber o sabor da bondade e da alegria e da boa companhia. Bom Pastor, Cristo ou Martinho, Martinho ou Cristo, quem os distinguia?, cuidava com carinho das ovelhas, com o seu braço forte reunia os cordeirinhos no regaço, tratava-lhes as feridas com óleo e vinho. Pastor Bom: sabia o caminho, mostrava o caminho, abria o caminho. O Bom Pastor é Cristo e é Martinho. Martinho configurado com Cristo, transfigurado por Cristo, missionário de Cristo, veio de longe acender na Luz de Cristo a nossa vida.

    4. Na sua mensagem para o 84.º Dia Missionário Mundial, que a Igreja inteira celebrou no Domingo, dia 24 de Outubro de 2010, o Papa Bento XVI escreveu de forma exemplar e luminosa: «O mês de Outubro, com a celebração do Dia Mundial das Missões, oferece às comunidades diocesanas e paroquiais, aos Institutos de Vida Consagrada, aos Movimentos Eclesiais e a todo o Povo de Deus uma ocasião para renovar o compromisso de anunciar o Evangelho». E na Mensagem para o Dia Missionário Mundial do ano imediatamente anterior, que ocorreu no dia 18 de Outubro de 2009, escreveu Bento XVI: «Às Igrejas antigas com às de recente fundação recordo que são constituídas pelo Senhor como sal da terra e luz do mundo, chamadas a irradiar Cristo, luz do mundo, até aos extremos confins da terra». Tempo de verificação: como tudo isto é verdade em S. Martinho de Dume! Como deixou a sua terra, e veio até aos confins do mundo para nos trazer, a nós, a Luz de Cristo! E será que esta Luz de Cristo arde em nós, ainda hoje? A exemplo de S. Martinho, a minha alegria consiste em levar ao meu irmão a Luz de Cristo? E a exemplo de Martinho, sei o caminho, mostro o caminho, abro caminhos?

    5. A estas sólidas mobilizações do Evangelho – «Vós sois o sal da terra!… Vós sois a luz do mundo!» – e do Papa Bento XVI, que nos recordou que «todas as Igrejas são constituídas como sal da terra e Luz do mundo, para irradiar a Luz de Cristo até aos extremos confins do mundo», o Papa ousou ainda acrescentar esta fortíssima indicação programática: «A missão ad gentes deve ser a prioridade dos planos pastorais de todas as Igrejas!» O que o Papa ousou dizer é que ser missionário, para um batizado, não é facultativo. É de fundo. E se ser missionário deve ser a prioridade de todas as Igrejas, portanto também da Igreja de hoje onde quer que esteja estabelecida, então, meus irmãos, teremos mesmo de mudar o coração e de o revestir ou investir com novos sentimentos, novas decisões, novas paixões, novas ações, novas missões.

    6. E bem vistas as coisas, este amor maior não é senão o tesouro que nos trouxe de longe e nos legou o missionário, S. Martinho de Dume. S. Martinho de Dume, continua a proteger e a abençoar a Igreja de Dume e de Braga e todas as Igrejas, para que arda nos nossos corações a Luz de Cristo. De ti, Martinho, invocamos a tua proteção. A Ele, a Cristo, seja dada glória para sempre. Ámen.

    António Couto


  • 1. A Igreja celebra no dia 03 de dezembro com alegria a memória litúrgica de S. Francisco Xavier, que nasceu no Castelo de Xavier, em Navarra, na Espanha, em 07 de abril de 1506, e morreu na Ilha de Sanchoão, às portas da China, na madrugada do dia 03 de dezembro de 1552.

    2. Ao todo, viveu sobre esta terra 46 anos de Graça. Havia no Castelo de Xavier um belo Cristo Crucificado que ostenta um sorriso nos lábios. Por isso lhe chamam «El Cristo de la Sonrisa». Muitas vezes, na sua infância e juventude, Xavier contemplou esse Cristo e foi por Ele contemplado, de tal maneira que passou a haver uma grande cumplicidade entre os dois. São, de facto, muitas as testemunhas que descrevem Francisco Xavier «com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus» (Monumenta Xaveriana, tomo 2, Madrid, 1912, pp. 291 e 306).

    3. Tornou-se companheiro de Santo Inácio de Loyola. Ardia em Xavier um amor imenso por Cristo e pelo Evangelho. Embarcou em Lisboa no dia 07 de abril de 1541, dia em que completava 35 anos de idade, para uma viagem de 20.000 km, rumo a Goa, onde desembarcou mais de um ano depois, em 06 de maio de 1542, após paragem de quase meio ano (setembro de 1541 até fevereiro de 1542) na Ilha de Moçambique para o restabelecimento dos doentes, enquanto se esperava por ventos favoráveis à navegação.

    4. Desde que desembarcou em Goa, em 06 de maio de 1542, até à sua morte, em 03 de dezembro de 1552, vão 10 anos e quase 07 meses de desmedida dedicação aos outros, sobretudo aos pobres e doentes, enchendo de Evangelho os caminhos do Oriente. Pio XII proclamou-o «Padroeiro Universal das Missões», e S. João Paulo II proclamou-o «o maior missionário da era moderna».

    5. É também de salientar a sua ilimitada Confiança em Deus, como transparece de uma sua carta, datada de 05 de novembro de 1549, escrita de Kagoshima, no Japão, e dirigida aos seus companheiros de Goa:

    Sei de uma pessoa a quem Deus concedeu muitas graças, que se ocupava muitas vezes, tanto nos perigos como fora deles, em pôr toda a sua Esperança e Confiança n’Ele, e o proveito que daí lhe adveio levaria muito tempo a descrever.

    6. Aquele «Sei de uma pessoa» lembra Paulo (2 Cor 12,2). Pôr toda a sua confiança em Deus é firmar-se em Deus, viver de Deus e desde Deus. A tanto nos desafia também a nós, hoje, este missionário intenso e dedicado. E aquele Sorriso nos lábios do Crucificado e de Xavier é outro impressionante desafio para nós. Sem esta cumplicidade com Cristo, sem esta Confiança e Alegria, que Evangelho podemos nós viver e testemunhar?

    7. Obrigado, amigo Francisco. Celebrarei gozosamente a tua Festa, a que me associo com particular alegria desde 03 de dezembro de 1980.

    António Couto


  • O texto da Carta aos Romanos que lemos hoje, no Domingo I do Advento, também Santo Agostinho o leu, e ficou virado do avesso! Agostinho é um dos Santos mais queridos e conhecidos de todos nós. Vejamos a história de uma vida e de uma conversão. Nascido em Tagaste, norte de África, no longínquo ano de 354, experimentou, na sua juventude, as futilidades da vida. Mas nada disso, nem riquezas, nem prazeres, nem académicas discussões, lhe enchiam a alma. Agostinho não procurava qualquer coisa, qualquer simples remedeio. Procurava a Verdade, e correu o mundo à procura da verdade. Foi assim que chegou a Milão, e se pôs a ouvir as catequeses de Santo Ambrósio. E foi assim que, conta ele mesmo nas suas “Confissões”, Livro VIII, Capítulo 12, em finais do verão do ano 386, não conseguindo dormir, veio para o jardim anexo à casa onde residia, e, envolto em lágrimas, deitou-se debaixo de uma figueira. E eis que, conta ele, saída de uma casa vizinha, começou a ouvir a voz de uma criança que cantarolava repetidamente uma canção, cuja letra era: “Toma e lê! Toma e lê! Toma e lê! Toma e lê!”, e assim continuava. Foi então que Agostinho se apercebeu de que uma criança não costuma trautear uma letra assim, e foi por isso levado a pensar que devia ser um recado para ele. Subiu logo ao quarto, onde tinha sobre a mesa um rolo das Cartas de São Paulo, desenrolou à sorte, também à sorte pôs o dedo, e leu: «Não em orgias e bebedeiras,/ não em devassidão e libertinagem,/ não em rixas e ciúmes,/ mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo». Agostinho acabava de ler a Carta aos Romanos, Capítulo 13, versículos 13-14. Estava ali tudo: a sua vida passada, mas também o futuro que se lhe abria diante dos olhos: revesti-vos do Senhor Jesus Cristo. No ano seguinte, 387, foi batizado por Santo Ambrósio, e veio a ser depois eleito bispo de Hipona, norte de África, dando um imenso testemunho de Cristo, com a sua vida vivida e escrita. Morreu no ano 430.

    Neste tempo de tantas futilidades e procuras, Santo Agostinho, roga por nós!

    António Couto


  • Como é fácil, Senhor Jesus,

    daqui, de ao pé da tua Cruz,

    contemplar a paisagem do Advento,

    compreender-lhe a mensagem,

    respirar-lhe o alento.

    Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

    sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

    mais alto e mais profundo,

    vê-se bem, com toda a claridade,

    que a lonjura do Advento não é horizontal.

    Eleva-se em altura.

    Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

    vertical,

    e sem costura.

    Tu vens do Alto, Senhor.

    Tu vens de Deus.

    Tu és Deus.

    Tu és o Justo

    que chove das alturas

    sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

    Vem, Senhor Jesus,

    alumia e rega a nossa terra dura,

    acaricia o nosso humilde chão

    e modela com as tuas mãos de amor

    em cada um de nós

    um novo coração

    capaz de ver.

    Capaz de Te ver

    nascer

    em cada irmão.

    António Couto


  • Isaías 2,1-5; Salmo 122; Romanos 13,11-14; Mateus 24,37-44

    1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, a mesma «subida» espiritual é cantada com esfuziante alegria no Salmo Responsorial (122). Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «Vigiai», «Compreendei», «Estai preparados», «Sabei o dia», «Não aconteça que não deis por nada!» (Mateus 24,37-44). Vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

    2. Faz parte da sabedoria popular acumulada, saber de experiência feito, que os rumos da vida de cada um e da inteira história da humanidade dependem em partes não iguais das nossas decisões e dos determinismos da natureza ou do destino, como é usual dizer-se. Deriva daqui a ideia corrente de que as coisas continuarão a funcionar mais ou menos como tem vindo a acontecer até aqui, a menos que surja alguma catástrofe provocada pelo homem ou pela natureza ou pelo destino que deixe o nosso mundo intransitável e completamente fora de controlo. É nestes carris da sonolência e aparente normalidade que Jesus traz hoje à colação, neste primeiro Domingo ou carruagem do comboio do Advento e do Ano Litúrgico, os dias de Noé, antes do dilúvio, em que as pessoas passavam os seus dias, comendo e bebendo, casando, negociando, trabalhando, até serem completamente surpreendidas pelo dilúvio que a todos dizimou (Mateus 24,37-39).

    3. Em claro contraponto com esta maneira acomodada de pensar e de viver, em que o andamento do mundo decorre de acordo com os nossos hábitos de sempre e segundo as elementares leis da natureza, em que dificilmente surge ou se detecta uma surpresa, Jesus anuncia um Acontecimento Novo e Determinante que é a Vinda do Reino dos Céus (Mateus 4,17), que se há de verificar na Vinda do Filho do Homem com poder e glória (Mateus 24,30). E tratar-se-á, não de um acontecimento circunscrito, constatável apenas «aqui» ou «ali», mas universal, que afetará de maneira decisiva toda a existência humana, que aí receberá o seu sentido último. No dizer novo de Jesus, o nosso mundo não é então mais um mundo redondo e fechado em que o velho comboio continua a circular como sempre segundo as mesmas regras e cumprindo os mesmos rumos e tabelas. Jesus anuncia um acontecimento novo, que é a Vinda de Deus ao nosso mundo, que rompe os determinismos do nosso mundo fechado e habituado, e inaugura modos de vida até agora insuspeitados. Note-se bem: nem se trata de uma nossa ida ou viagem para Deus. Ao contrário e ainda mais surpreendente: é Deus que Vem!

    4. O Evangelho hoje proclamado (Mateus 24,37-44) insere-se na II Parte do Discurso Escatológico deste Evangelho de Mateus, que abre em 24,36 e fecha em 25,13, encontrando-se a abrir e a fechar a afirmação: «ninguém conhece o dia nem a hora». E, como se não bastasse, ouve-se ainda a mesma afirmação mais três vezes ao longo da perícope (24,42.44.50). Já se sabe que este insistente não conhecimento do dia e da hora não se refere a um qualquer fenómeno mais ou menos espetacular. Refere-se à Vinda do Filho do Homem, de que fala o texto do Evangelho de hoje por três vezes (24,37.39.44). Bem se entende que a Vinda do Filho do Homem é a Vinda do Senhor Jesus (24,42). Torna-se então claro que uma tão acentuada ignorância do «quando» da Vinda do Senhor por parte dos habitantes da terra deve determinar neles, não a sonolência e a dormência, mas uma atitude de permanente atenção e vigilância.

    5. Para avivar esta necessidade de vigilância, Jesus faz-nos ver que ninguém viaja seguro neste comboio dos anos, dos dias e das horas. E clarifica: «dois homens estarão a trabalhar no campo: um será tomado, e o outro deixado» (Mateus 24,40); «e duas mulheres estarão a moer no moinho em casa: uma será tomada, e a outra deixada» (Mateus 24,41). Não é explicada a razão de a situação de uns e de outros ser diferente. Não é sequer dito que a divisão tenha a ver com a maldade de uns e a bondade de outros. Tem então apenas a ver com o Senhor-Que-Vem. Se o Senhor Vem, e é certo que o Senhor Vem, então não podemos deixar-nos embalar e enredar tranquilamente nos habituais afazeres do quotidiano. Sejam eles quais forem. É preciso estarmos vigilantes. E mesmo que comecemos já, neste primeiro Domingo do Advento, a pensar no presépio que vamos fazer, é imperioso que não nos esqueçamos de que a vigilância é o caminho da Cruz: o caminho da doação, e não o caminho da conservação. Uma advertência solene: «Recordai-vos da mulher de Lot. Quem procurar salvar a sua vida, vai perdê-la, e quem a perder, salvá-la-á» (Lucas 17,32-33). Portanto, desde o primeiro Domingo do Advento e do Ano Litúrgico, requer-se o olhar fixo na Cruz, e nada de olhar para trás!

    6. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

    7. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

    8. E aí está S. Paulo, no final da sua carreira, a escrever desde Corinto aos Romanos (13,11-14). E aí está também o buscador Agostinho. Na sua intensa busca da verdade, foi de Tagaste para Cartago, para Milão. Homem inquieto, no polo oposto do coktail da tranquilidade e consolo, servido pela New Age ou Next Age, e de acordo com a advertência de Julien Green: «Enquanto estivermos inquietos, podemos estar tranquilos». No princípio do Outono de 386, angustiado e inquieto, Agostinho (Confissões, Livro VIII, 12) sai para o jardim da casa de um amigo, em Milão, e chora amargamente, sentado debaixo de uma figueira. Ouve então uma criança que, na casa vizinha, cantarolava uma estranha melodia com uma letra ainda mais estranha: «Toma e lê!», «toma e lê!». Agostinho apercebeu-se de que não era normal uma criança trautear uma canção com uma letra assim. Foi, por isso, levado a compreender que bem podia ser um recado de Deus para ele. Levantou-se do jardim, entrou em casa, desenrolou à sorte as Cartas de S. Paulo que tinha sobre a mesa, e leu: «Não em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência» (Romanos 13,13b-14).

    9. Nesse dia e nessa hora, nasceu Santo Agostinho. Hoje podes nascer tu também, meu irmão do tempo novo do Advento. Mãos à obra, e conta sempre com a graça de Deus: «Segundo a graça que Deus me deu, como bom arquiteto, lancei o fundamento, mas é outro que constrói por cima. Mas cada um veja como constrói. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diferente do que foi posto: Jesus Cristo. Se alguém, sobre esse fundamento, constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência» (1 Coríntios 3,10-13).

    10. Enfim, ressoa Hoje a voz do imenso Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Trata-se, de facto, de um imenso canto de espanto, emoção, comoção, amor, que junta a cidade com as pessoas, tudo e todos envoltos num manto de extraordinária beleza. O Salmo tem um início de teor cinematográfico, acostando admiravelmente dois extremos: o anúncio da partida (v. 1), logo seguido da chegada (v. 2), a alegria da partida e o êxtase da chegada, que provoca uma paragem extática no limiar daquelas portas, descrita nos pés extasiados dos peregrinos (!), tantas são as coisas a contemplar e a amar naquela cidade querida, de que se amam (ratsah) até as pedras e se acaricia (hanan) o pó (ʽaphar) (cf. Salmo 102,15). Há quatro palavras que se repetem três vezes, num especialíssimo 4×3: Jerusalém (2b.3a.6a), Senhor (1b.4d.9a), Casa (1b.5b.9a), Paz (6a.7a.8b). Este «trishágion» constitui como que a espinha dorsal do Salmo e define a alta qualidade da vida na cidade. Um imenso desejo instintivo e visceral de paz, felicidade, fraternidade, atravessa o Salmo e constitui como que a energia, a magia e o magnetismo de Jerusalém, que atrai os peregrinos e os povos, como se vê no Salmo 87, em Isaías 2,1-3 e Miqueias 4,1-2, e como se vê ainda hoje com peregrinações provenientes do mundo inteiro, e como se sentiu recentemente, em 1996, aquando da celebração do seu aniversário trimilenar. Tal como se encontra tecido, o Salmo pode parecer uma paranomásia do nome Jerusalém, recurso muito ao gosto dos autores bíblicos, e muito em uso em culturas de elevado teor oral e auditivo, que joga sobre efeitos sonoros. É conhecida a etimologia mais provável de yerûshalaim, yerûshalayim ou yerûshalam, que será «fundação de Shalem», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. O que passa, todavia, é a etimologia popular que vê nela a «cidade da paz», tomando ye, não como uma forma do verbo yarah [= fundar], mas por ʽîr [= cidade], e tomando shalaim por shalôm [= paz]. O desdobramento destes dois nomes, cidade e paz, como que se verifica no próprio corpo do Salmo, assim apresentado: vv. 1-2: introdução; vv. 3-5: a harmonia da cidade; vv. 6-9: a paz que envolve a vida na cidade. Tenha-se presente como a locução bêt-YHWH [= Casa do Senhor, Templo] faz de envelope ao Salmo inteiro, fazendo-se notar nos vv. 1 e 9, ficando no centro, no v. 5, a bêt-David [= Casa de David]. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (thôb), com que franciscanamente se saúdam!

    António Couto


  • 1. O Capítulo II do Livro de Daniel traz-nos a história de um sonho, mais pesadelo do que sonho, que transtornou Nabucodonosor, rei da Babilónia, no segundo ano do seu reinado, ou seja, em 604 a.C. A história do andamento deste pesadelo de Nabucodonosor pode ler-se em  Daniel 2,1-45.

    2. Acossado por um sonho, que se tornou, na verdade, um pesadelo, Nabucodonosor ficou de tal modo perturbado que já não conseguia dormir nem viver em paz. Para tentar ver-se livre do stress e das insónias, Nabucodonosor precisava de saber o que significava o pesadelo que lhe tinha caído em cima. Como não via, para isso, nenhuma clareira, e como cada vez se sentia pior, decidiu convocar para o seu palácio todos os sábios, adivinhos, bruxos e magos e astrólogos, que pululavam na Babilónia, para que interpretassem o seu sonho.

    3. Eles compareceram, e apresentaram-se diante do rei. O rei disse-lhes: «Tive um sonho, e o meu espírito está stress até que lhe compreenda o significado». Disseram eles: «Conta o teu sonho aos teus servos, e nós te daremos a interpretação». Mas o rei disse-lhes: «Eis a minha decisão: se não adivinhardes o sonho que eu tive, e não me derdes a sua interpretação, sereis feitos em pedaços, e as vossas casas ficarão reduzidas a escombros. Ao contrário, se descobrirdes o sonho e a sua interpretação, recebereis de mim riquezas, presentes e honrarias. Portanto, relatai-me o sonho e a sua interpretação». Eles insistiram: «Queira o rei contar o sonho aos seus servos, e nós dar-lhe-emos a interpretação».

    4. Mas o rei continuou: «Vejo que quereis ganhar tempo, sabendo que a minha decisão está tomada. Se não me dais a conhecer o sonho, uma só sentença vos espera. Vejo que estais combinados para inventar explicações falsas e funestas diante de mim, enquanto o tempo vai passando. Portanto, relatai-me o sonho, e ficarei a saber que me podereis dar também a interpretação».  Responderam-lhe: «Não há homem algum sobre a terra que possa descobrir o segredo do rei. Por isso, nenhum rei, governador ou chefe propôs algum dia tal problema a um bruxo, mago ou adivinho. O problema que o rei propõe, homem algum o pode resolver; só os deuses». A essas palavras, o rei encolerizou-se e mandar trucidar todos os sábios da Babilónia. Promulgou o decreto de execução, procurando também Daniel e os seus companheiros, para os executar.

    5. Ao ter conhecimento do decreto do rei, Daniel dirigiu-se a Arioc, chefe da guarda real, que tinha saído para executar os sábios da Babilónia. Daniel perguntou a Arioc: «Por que motivo promulgou o rei uma sentença tão premente?» Arioc explicou o caso a Daniel, que foi imediatamente ter com o rei, e pediu-lhe que lhe desse um prazo, que ele mesmo daria ao rei a interpretação do seu sonho. Daniel voltou para casa, comunicou o problema aos seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, pedindo-lhes que implorassem de Deus a resolução deste mistério, a fim de não perecerem também eles juntamente com os outros sábios da Babilónia. E o mistério foi revelado a Daniel numa visão noturna. Daniel foi logo ter com Arioc, dizendo-lhe que suspendesse a ordem de matar os sábios da Babilónia, e que o fizesse comparecer diante do rei, que ele mesmo lhe daria a interpretação do sonho.

    6. Arioc apressou-se a fazer Daniel comparecer diante do rei, a quem disse: «Encontrei, entre os deportados de Judá, um homem que dará ao rei a interpretação desejada». O rei dirigiu-se então a Daniel, e perguntou-lhe: «És realmente capaz de me dar a conhecer o sonho que tive, e a sua interpretação?» Daniel respondeu: «O mistério que o rei procura desvendar, nem os sábios, nem os adivinhos, nem os magos, nem os bruxos, nem os astrólogos podem dá-lo a conhecer ao rei. Mas há um Deus no céu que dá a conhecer os mistérios do que vai acontecer. Eu não tenho mais sabedoria do que os outros, mas Deus deu-me a conhecer o teu sonho e a sua interpretação, para que tu possas conhecer os pensamentos do teu coração».

    7. O teu sonho, ó rei, ei-lo aqui. Tu viste, ó rei, uma estátua enorme, que se erguia diante de ti, uma estátua grande e terrível. A cabeça da estátua era de ouro, os braços e o peito de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e os pés uma mistura de ferro e barro. Estavas tu olhando, ó rei, quando uma pedrinha, sem intervenção de mão humana, rolou pela colina e veio embater contra os pés de barro da estátua, que logo se pulverizaram. E logo se pulverizaram também o ferro, o bronze, a prata e o ouro, que ficaram como palha miúda na eira, que o vento levou, sem deixar rasto. E, entretanto, a pedrinha que embateu na estátua tornou-se uma grande montanha que ocupou a terra inteira. Este foi o teu sonho, ó rei.

    8. Eis agora a sua interpretação. Tu, ó rei, tu és a cabeça de ouro daquela estátua. Depois de ti, levantar-se-á outro reino, inferior ao teu, simbolizado no peito e nos braços de prata daquela estátua. Virá depois um terceiro reino que dominará a terra inteira, e que está representado no ventre e nas coxas de bronze da estátua. Haverá ainda um quarto reino, simbolizado nas pernas de ferro daquela estátua. Os pés de ferro e barro que viste, ó rei, representam um reino dividido. Entretanto, ó rei, virá um reino novo que destruirá todos os outros e que não será destruído. Está representado na pedrinha que viste, que fez em pó os elementos daquela estátua, e cresceu, cresceu, cresceu, transformando-se numa montanha.

    9. Para bom leitor e intérprete, nestes metais estão representados os impérios babilónio, medo, persa e grego. Este último, à morte de Alexandre Magno, será dividido entre os seus generais, dando depois origem aos Selêucidas da Síria e aos Lágidas do Egito. Lição: todos os impérios caem, os grandes, os pequenos, os meus e os teus. Neste sentido, pode ver-se ainda mais: a cabeça de ouro representa o poder, a ambição, a importância, o orgulho, a opulência, o dinheiro, o lucro; o peito e os braços de prata representam a sedução, o luxo, o prazer, a vaidade; o bronze e o ferro representam a guerra e a violência; os pés de barro significam que a estátua inteira, embora manifeste brilho e esplendor, é inútil, não serve para nada. Não anda.

    10. Impõe-se, por isso, uma mudança radical da nossa vida, da cabeça aos pés. Uma cabeça de ouro, de facto, não serve para nada. O que é que vamos lá pôr? Proponho: bom senso, grandes ideais, olhos, ouvidos, nariz, boca. O peito e os braços de prata também não servem para nada. O peito não tem coração; os braços nada podem fazer. O que é que vamos lá pôr? Proponho: um coração sensível, uns braços que sejam capazes de levantar uma criança, umas mãos abertas. Um ventre e umas coxas de bronze e umas pernas de ferro também não servem para nada. O que é que vamos lá pôr? Proponho: retirar todas as armaduras, e colocar lá um ventre maternal, que é lugar misericórdia. Com uns pés de barro, esta estátua não anda, ninguém pode andar. O que é que vamos lá pôr? Proponho: os pés do mensageiro de Isaías, que leva boas novas a Jerusalém (52,7), ou os pés do noivo do Cântico dos Cânticos, que correm por amor (2,8).

    António Couto


  • A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, faz-nos ver em Jesus um Messias, Rei e Senhor, que não comunga da nossa atração sádica pelo espetáculo ávido de sangue, mas vem revestido da mansidão do Servo do Senhor, de Isaías 42,1-4, que é, por sinal e de forma significativa, a mais longa citação do Antigo Testamento que o Evangelho de Mateus faz em 12,18-21, retratando com ela Jesus, o Rei manso e novo que desconcerta João Batista e a nós também. O referido texto de Isaías 42,2 diz do Servo do Senhor que «não fará ouvir desde fora a sua voz». Fica então claro que, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas, salvando as pessoas. Jesus, Rei manso e novo, vai assumir por inteiro a identidade deste Servo e vai cumprir a sua missão.

    Reina, Senhor Jesus, no nosso coração e no coração deste mundo dominado por guerras, ambições e violências.

    António Couto


  • 2 Samuel 5,1-3; Salmo 122; Colossensesl 1,12-20; Lucas 23,35-43

    1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

    2. Antes de mais, o título de Rei, com que hoje celebramos o único Senhor da nossa vida. Pode parecer um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que poria Jesus ao nível dos senhores ricos e poderosos deste mundo. Para não resvalarmos para equívocos e terrenos movediços, convém anotar desde já a descrição que o próprio Jesus faz dos Reis: «Os Reis das nações, diz Jesus, dominam sobre elas» (Lucas 22,25). E a sua advertência: «Não seja assim entre vós» (Lucas 22,26). E, todavia, Jesus diz-se Rei, confirmando, neste domínio, as suspeitas de Pilatos (Marcos 15,2; João 18,37).

    3. Para sabermos o que é que Jesus tem em vista quando se afirma como Rei, é preciso saber como é que a Escritura traça o perfil do Rei. É como quem pinta um quadro, ou melhor, dois: um díptico. No primeiro quadro, o Rei é alguém muito próximo de Deus, completamente nas mãos de Deus, sempre atento à sua Palavra, de modo que deve ter, para seu uso pessoal, uma cópia da Lei de Deus, feita pela sua própria mão, isto é, com a sua letra, para não poder dizer que não entende a letra, e deve lê-la todos os dias, nada fazendo por sua conta, mas sempre e só de acordo com a Palavra de Deus (cf. Deuteronómio 17,18-19). No segundo quadro, que completa o primeiro, formando um díptico, o Rei é alguém muito próximo do seu povo, sempre atento ao seu povo, em ordem a poder levar-lhe a prosperidade, o bem-estar, a saúde, a paz, a alegria, a felicidade, a salvação. Aí está, então, o retrato completo de Jesus Cristo como Rei: sempre pertinho de Deus, sempre pertinho de nós.

    4. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), ele mesmo símbolo da confusão e do mal, que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

    5. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

    6. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a, e, portanto, dissolvendo-a e absorvendo-a, e é só assim que a absolve. É assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira e da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

    7. Aí está a página divina deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Lucas 23,35-43. Texto espantoso. É preciso vir um pouco atrás buscar o fio de sentido deste imenso texto. Diz, na verdade, Lucas 23,32 que «Eram conduzidos também com Ele outros dois malfeitores para serem executados». Sim, o texto diz, com espantosa precisão teológica, «outros dois malfeitores» (héteroi kakoûrgoi dýo). Ao dizer «outros dois malfeitores», o texto está a dizer que Jesus, o Justo, é também um malfeitor! Aí está o Livro a abrir-se perante os nossos olhos atónitos! O quarto Canto do Servo do Senhor já dizia que o Servo Justo «Foi contado entre os malfeitores» (Isaías 53,12). Sim, Ele é um de nós! Não passa ao nosso lado ou por cima de nós, mas desce ao nosso chão, abraça-nos e absorve os nossos males.

    8. Ouve-se depois um tema por três vezes repetido e martelado: «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), na boca dos chefes, dos soldados, de um dos malfeitores. Os chefes veem um falso deus, os soldados um falso rei, o malfeitor um falso messias. Tudo ídolos que vamos usando a nosso bel-prazer, sem sequer repararmos nisso. O critério destes maldizentes é o critério da auto salvação. Face ao fim à vista previsível, todos concluem pela exclusão da dignidade messiânica e real de Jesus. Mas o leitor atento é levado a ver como «o povo que estava lá de pé a ver (theôrôn)» (Lucas 23,35a), com um ver que dá que pensar (theôréô), a continuidade do plano de Deus: tal como Deus libertou o orante perseguido (cf. Salmo 22), do mesmo modo está agora a agir em relação a Jesus. O outro malfeitor é o primeiro teólogo da Cruz. Não interroga aquela Cruz; deixa-se interrogar por ela. E avança um pedido imenso: «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino!» (Lucas 23,42). De notar que estas palavras imensas, que devíamos repetir muitas vezes, são cantadas pelo povo no momento da Comunhão, no Rito grego. E Jesus responde, para imenso espanto nosso: «Hoje estarás comigo no paraíso» (Lucas 23,43). Aos sarcásticos interrogadores da Cruz, Jesus não deu qualquer resposta. Mas a este pedido, respondeu. Este Hoje entala-nos no tempo, sendo uma permanente provocação que nos faz o Evangelho de Lucas. Este é o décimo primeiro e último Hoje que encontramos neste Evangelho. Eis a sequência: Lucas 2,11; 4,21; 5,26; 12,28; 13,32; 13,33; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43.

    9. Vale a pena, neste momento, dar a palavra a um dos grandes pregadores dos primeiros séculos cristãos, São João Crisóstomo (349-407). Disse ele: «Este ladrão roubou o paraíso. Ninguém antes dele ouviu uma promessa semelhante: nem Abraão nem Isaac nem Jacob nem Moisés nem os profetas nem os apóstolos. O ladrão entrou à frente deles todos. Mas também a sua fé ultrapassou a deles. Ele viu Jesus atormentado, e adorou-o como se estivesse na glória. Viu-o pregado a uma cruz, e suplicou-lhe como se o tivesse visto no trono. Viu-o condenado, e pediu-lhe uma graça como se faz a um rei. Ó admirável malfeitor! Viste um homem crucificado, e proclamaste-o Deus!».

    10. Entenda-se ainda que este tempo escandaloso da Cruz é o tempo da Graça deixado em suspenso em Lucas 4,13b, no final do grande texto das tentações de Jesus na sua condição filial, batismal, em que o diabo, também por três vezes, ia dizendo: «Se és o Filho de Deus…». O narrador termina o episódio, dizendo que «o diabo se afastou dele até ao kairós, o tempo estabelecido» por Deus. Sem equívocos agora: o kairós de Deus, a torrente da Palavra de Deus que solicita a nossa resposta, e a torna imperiosa, sob pena de afogamento, é a Cruz!

    11. Entenda-se melhor. Um «malfeitor» é alguém cuja profissão é, como o nome diz, «fazer o mal». Uma sociedade em que o usual é «fazer o mal» é uma sociedade malvada e violenta. E numa sociedade assente sobre a malvadez e a violência, a alternativa é: vencer ou ser vencido, matar ou ser morto. Neste tipo de sociedade, todos nós escolhemos preventivamente a primeira opção. Nem sequer será por mal, mas para nos salvarmos a nós mesmos, cada um de nós faz preventivamente o mal que pode: o ladrão e o banqueiro, o comerciante e o operário, o médico e o barbeiro, o patrão e o empregado, o padre e o assaltante, o benfeitor e o delinquente. Cada um, com os meios que tem, pensa e põe em primeiro lugar o seu caso particular. Mas vai saltando à vista que, se Jesus seguisse a nossa lógica de se salvar a si mesmo, a auto salvação, não nos salvaria a nós, porque teria, não de assumir, abraçar, sorver e sofrer a nossa violência e o nosso pecado, mas de se ver livre de nós!

    12. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras da calçada do nosso empedrado coração. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta brava que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro (cf. Génesis 4,8). Bem visto por Judas na sua pequena Carta, infelizmente pouco lida e meditada. Escreveu ele: «Aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais sem palavra» (Judas 10-11).

    13. «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino».

    14. Ilumina o Evangelho de hoje a página de 2 Samuel 5,1-3. Depois de ter sido ungido Rei no Hebron sobre Judá, pelos homens de Judá (2 Samuel 2,4), David é agora ungido Rei também sobre Israel, pelos anciãos de Israel que, para o efeito, se deslocam ao Hebron (2 Samuel 5,3). Não sem que antes o tenham reconhecido como membro da sua família: «Vê! Nós somos teus ossos e tua carne» (v. 1), e tenham lembrado que era desígnio de Deus que ele reinasse sobre Israel e sobre Judá (v. 2; cf. 2 Samuel 3,10). Tudo isto tem a ver com Cristo. Antes de mais, é o novo David, que reúne todo o povo e sobre ele Reina. Mas, para isso, fez-se também igual a nós, é membro da nossa família.

    15. Temos Hoje também a graça de poder escutar um antigo hino sobre o primado de Jesus, provavelmente de língua aramaica, que Paulo incrustou na sua Carta aos Colossenses (1,15-20), mas que tem como prólogo os vv. 12-14, a inteireza da lição de Hoje. O hino é belo, teológico, denso, produzido com rima e metro, como é normal nos hinos antigos. Tudo começa com o convite à ação de graças, isto é, a fazer eucaristia ao Pai por nos ter dado a herança dos santos na luz (v. 12), arrancando-nos do poder das trevas, e transportando-nos para o Reino do «Filho do seu amor» (hyiós tês agápês autoû) (v. 13), em quem temos a redenção, a remissão dos pecados (v. 14). Este Filho do seu amor é Jesus Cristo, «Imagem (eikôn) do Deus invisível», «Primogénito (prôtótokos) de toda a criatura» (v. 15) e também «Primogénito dos mortos» e «Cabeça do corpo que é a Igreja» (v. 18). E é «n’Ele» (en autô), «através d’Ele» (di’ autoû) e «para Ele» (eis autón) que tudo foi criado (v. 16). Ele, o Senhor Jesus, é absolutamente o centro de tudo e o primeiro em tudo, desde a criação, à propiciação pelo sangue da sua Cruz (v. 20), à vida da Igreja, à Ressurreição. É sempre n’Ele e através d’Ele e para Ele, que tudo quanto existe encontra o seu caminho, sentido, enlevo (eudokía) e plenitude (plêrôma).

    16. Enfim, ressoa Hoje a voz do Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Desdobra-se em três vagas: a primeira, vv. 1-2), reúne a alegria incontida da partida e a emoção intensa da chegada; a segunda, vv. 3-5, entoa o louvor de Sião, passeia os olhos pela bela arquitetura dos seus edifícios, mas sobretudo vê Jerusalém como polo de atração e de união das tribos para louvar a pessoa (o Nome) de Deus no seu Templo; a terceira, vv. 6-9, estende uma toalha branca de paz (shalôm), três vezes dita, como vê os seus quatro ângulos, sobre a mais bela cidade, Jerusalém, yerûshalaim, popularmente interpretada como «cidade da paz (shalôm)», ainda que o seu nome signifique «Shalem a edificou», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (thôb), com que franciscanamente se saúdam!

    António Couto


  • Senhora de novembro,

    Maria, minha Mãe,

    Passa hoje o dia da tua apresentação ao Senhor,

    Que desde o seio materno já te conhecia,

    Senhora da dedicação.

    Senhora de novembro,

    Dos dias frios e frágeis,

    Dos passos firmes e ágeis,

    Do coração que velava

    À espera de quem te amava.

    Assim te entregaste a Deus,

    De coração inteiro,

    Como um tinteiro

    Todo derramado numa página.

    Sim, tu és a mais bela página de Deus,

    A Deus doada, apresentada, dedicada,

    Mãe da vida consagrada,

    Ensina-me a tua tabuada,

    A tua nova alegria,

    A luz do Evangelho que te aquece e alumia

    O coração.

    Eu te saúdo, Maria,

    Neste dia

    Da tua apresentação.

    António Couto


  • Ainda a palavra me não chegou à língua,

    e já Tu, Senhor, a conheces toda.

    Também não admira,

    pois a Palavra é sempre tua,

    desde a origem até que respira

    na música da harpa e da lira.

    De Ti saiu,

    no meu coração caiu,

    é lá que comigo se entretece,

    alumia e aquece,

    como uma fogueira a arder.

    É lá que a escuto,

    é lá que rasga o meu ser,

    como uma espada de dois gumes,

    como um bisturi

    manuseado por Ti.

    Primeiro, é preciso escutar.

    E escutar é deixar-se dizer, cortar, sangrar.

    Só depois aparece a palavra à porta dos meus lábios,

    depurada e limpa,

    pronta para eu a dizer.

    Mas o meu dizer não é senão redizer,

    orar, cantar, saborear o teu dizer.

    Que seja assim, Senhor,

    a tempo inteiro

    contigo e comigo a condizer.

    António Couto


  • No meio da bruma e da esperança

    que envolve os passos de tanta gente

    nestes dias toldados de novembro,

    há sempre uma mãozinha que se sente,

    uma luzinha que se acende,

    nos alumia, nos acolhe e nos atende.

    Guia-me sempre, Luz amável,

    no meio do nevoeiro que me envolve:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    A noite é escura,

    a casa é distante:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    Guarda Tu os meus passos!

    Eu não peço para ver o horizonte distante:

    um passo de cada vez

    é para mim o bastante.

    Obrigado, Senhor Jesus!

    Tu és a Luz que me alumia

    a cada instante!

    Alumia também

    cada viandante,

    que na penumbra dos dias,

    tenha perdido a fé ou o volante.

    António Couto


  • Malaquias 3,19-20; Salmo 98; 2 Tessalonicenses 3,7-12; Lucas 21,5-19

    1. Eis-nos aqui, neste caminho e neste hoje. Passamos, vemos e somos vistos. Entramos no Templo ou na Igreja da nossa terra, cheia de belas pedras, painéis, lustres, imagens, talhas douradas, toalhas de linho, música e flores. Também de gente bem vestida e perfumada.

    2. Cá fora, lá fora, as guerras continuam, como continuam as catástrofes, as crises, as riquezas, as pobrezas, os impérios, os imperadores e as tiranias, os turistas que tiram fotografias, filmam pedras que julgam interessantes, a canalha, os pardais, os pares de namorados, os velhinhos sentados na soleira da sua porta, os vendedores fanáticos de qualquer seita, que tão depressa vaticinam desastres, como fabricam e vendem mezinhas e remédios, sonhos e futuros fáceis, enlatados, pré-fabricados, à medida, prontos a vestir ou a viver, mas também continuam as falências, as insolvências, as dores, as doenças, as desavenças, os desentendimentos familiares.

     3. Dentro do Templo, e não fora dele, à saída, como narram os Evangelhos de Mateus e Marcos, o Jesus de Lucas 21,5-19, que temos a graça de ouvir neste Domingo XXXIII do Tempo Comum, faz ver e compreender, não apenas aos seus discípulos de ontem e de hoje, mas a todos os ouvintes (também neste ponto, Lucas difere de Mateus e de Marcos), como tudo é passageiro e efémero, «tão cedo passa tudo quanto passa»! Passam as belas pedras e as flores, os perfumes, os impérios, as palavras, as guerras, as tragédias!

    4. Nós fazemos quase sempre perguntas superficiais e epidérmicas, banais, sem sentido: «Quando, e como se poderá saber quando será o fim destas coisas, deste mundo, deste tempo?!» (cf. Lucas 21,7). É evidente que Jesus não nos responde diretamente, mas adverte-nos: «Não vos deixeis enganar, nem perturbar!» (cf. Lucas 21,8). E aproveita a embalagem para orientar o nosso olhar e o nosso coração para o essencial: o fim não deve desviar-nos e distrair-nos do Presente, da Presença, d’Aquele que não passa, e em Quem devemos sempre saber pôr o coração, biblicamente falando, pôr a nossa atenção.

    5. É esta Presença, esta Voz, que Hoje nos chama e diz que nos ama, que deve reclamar toda a nossa atenção, o nosso inteiro coração. Portanto, silêncio em nós. Pausa e bemol. Tempo novo de deixar falar o Espírito (Lucas 12,12) e Jesus (Lucas 21,15). Não há lugar para atitudes de autodefesa («não prepareis a vossa defesa»), mas para «o testemunho» (Lucas 21,13-14).

    6. No Templo ardia o fogo perpétuo no altar do incenso, cuidado e renovado duas vezes ao dia, nove da manhã e três da tarde, pelo sacerdote de turno. Esse fogo era o sinal desta Presença permanente, amante e interpelante. Nas nossas Igrejas arde permanentemente aquela frágil lamparina, luzinha acesa junto do Sacrário, que assinala esta Presença, este Presente perpétuo. Não nos deixemos distrair ou perturbar com o acidental. Velemos por esta Presença essencial, que vela por nós sempre. Afinal, é «Na tua Luz que veremos a Luz» (Salmo 36,10).

    7. Esta Luz pequenina, vou deixá-la brilhar! Está acesa no mundo para alumiar e aquecer a nossa vida, purificar o nosso coração esclerosado, empedernido, empedrado, atulhado de impurezas e asperezas, e sinalizar rumos novos, tenros, ternos, verdadeiros. Cuidado convosco! Não suceda que essa luzinha, essa chamazinha que arde mansamente, se transforme num fogo ardente, incontrolável, que queima a vossa palha (Malaquias 3,19). Diz-nos Malaquias, na lição de hoje (3,19-20), que o fogo tanto pode queimar como alumiar. O problema não está no fogo. Está na palha. Deixai-vos então alumiar, e limpai já o vosso coração de toda a tralha que possa fazer com que aquela luzinha, aquela chamazinha, em vez de alumiar, se venha a transformar num fogo inextinguível. Bem nos exorta São Paulo: «Veja cada um como constrói: com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha. A obra de cada um será posta em evidência. O Dia que há de vir torná-la-á conhecida, pois ele manifestar-se-á pelo fogo, e o fogo provará o que vale a obra de cada um» (cf. 1 Coríntios 3,10-13).

    8. Trabalhai com diligência e amor. Semeai o vosso trigo, tratai-o com carinho, limpai-o da palha que o possa afogar, regai-o, colhei-o com alegria, moei-o, amassai a farinha com as vossas mãos limpas e carinhosas, acendei o forno com cuidado, cozei o vosso pão, parti-o e comei-o à vossa mesa, com uma vela acesa! Chamai o pobre, fazei-o entrar e sentar, alumiai-o e alimentai-o. Agasalhai-o. É a lição de São Paulo na Segunda Carta aos Tessalonicenses 3,7-12. Mesmo a propósito: passa hoje o Dia Mundial dos Pobres.

    9. Sim, meus irmãos, o fio de ouro, a filigrana, que atravessa a história, é o amor. É o que fica do que passa. É, portanto, o amor que julga, isto é, que põe em crise a nossa história e a nossa vida vã e banal. O fim do mundo é o amor que ama. O fim de um mundo. O fim do meu mundo egoísta, narcisista, egocêntrico e egolátrico, assente apenas nos meus instintos e interesses. Quero dizer: aquilo que põe fim a este meu mundo vão e banal é o amor que ama, e, porque ama, é pessoal, é uma pessoa, é Deus que vem, amando, e me faz ver, amando-me, como eu tenho andado distraído e enganado, que nem tenho reparado no seu amor! As pedras, mesmo as mais imponentes construções, não amam. Portanto, passam (cf. Lucas 21,6).

    10. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôfar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

    António Couto


  • 1. Pode ler-se, num dos mais belos contos do grande escritor russo Leão Tolstoi, a terrível história de Pahóm, um modesto camponês, que vivia feliz com a mulher e os filhos, e cuja única consumição era não ter terra suficiente. De facto, o seu gado invadia, de vez em quando, os prados de uma vizinha que possuía uns 120 hectares de terras, e o carrancudo feitor não tardava em cobrar ao camponês as respetivas multas. Até que um dia, a vizinha pôs as suas terras à venda, e o feitor preparava-se para as comprar. Os camponeses ficaram inquietos a pensar no inevitável aumento das multas caso o feitor se tornasse no dono das terras. A única maneira de evitar esse obstáculo era juntarem-se e comprarem eles mesmos as terras. Mas não se conseguiram pôr de acordo, e cada um comprou segundo as suas posses, tendo acordado com a vizinha metade a pronto, e o resto um ano depois.

    2. Um comprou 20 hectares, outros 10, outros menos. Pahóm consultou a mulher. Investiram as suas poupanças, puseram um filho a trabalhar, venderam um cavalo, pediram emprestado, o suficiente para Pahóm comprar um campo de 15 hectares. Agora que tinha terra sua, Pahóm ficou feliz outra vez. Tinha agora terreno suficiente para cultivar e para o seu gado pastar à vontade. Mas nem tudo eram rosas. Como que se voltou o feitiço contra o feiticeiro. Agora era o gado dos vizinhos pobres que invadia as terras de Pahóm. Ao princípio, Pahóm tolerava esse pecado. Mas, com o andar do tempo, Pahóm começou a perder a paciência, levou os vizinhos a tribunal, e as coisas complicaram-se. Ameaçaram queimar-lhe a casa. Pahóm tinha agora mais terras do que dantes, mas vivia muito pior.

    3. Foi por esta altura que se levantou o rumor de que muita gente ia sair da aldeia. A ambição voltou a atacar Pahóm: «Se muitos se fossem embora, mais terra ficaria livre, e Pahóm poderia então arredondar a sua pequena propriedade; então é que seria viver à farta, e sem consumições!». Estava Pahóm nestes pensamentos, quando calhou de chegar a sua casa um camponês vindo de fora, que estava de viagem, e a quem Pahóm deu hospedagem. À ceia, puseram-se a conversar. Afinal, o forasteiro vinha de além-Volga, onde tinha trabalhado, e contou a Pahóm que havia muita gente a demandar aquelas paragens, pois lá havia muita terra, e tão boa que o centeio crescia à altura de um cavalo. Havia casos de camponeses que lá chegaram sem nada, e logo receberam 75 hectares de boa terra, de tal modo que já estavam ricos. O peito de Pahóm inflamou-se de cobiça: «Para que hei de eu continuar neste buraco, se no além-Volga se vive tão bem? Vou vender tudo, e, com o dinheiro, vou começar a vida nessa terra de sonho!»

    4. Depois de se informar melhor, Pahóm partiu para o além-Volga. Os dirigentes da aldeia concederam-lhe 375 hectares de terras fabulosas. Pahóm construiu casas, comprou gados, cultivou os campos. Estava incomparavelmente melhor do que antes. No 2.º ano, ainda alugou novos terrenos, tanta era a sua ambição de possuir mais e mais… No 3.º ano, Pahóm comprou mais um terreno de 500 hectares por 1500 rublos. Mas já estava a ficar cansado. Também ali havia disputas por causa das terras. Foi então que passou pela casa de Pahóm um comerciante, que vinha da terra dos Baquires, que era muito longe, e disse a Pahóm que tinha lá comprado 5000 hectares de boa terra apenas por 1000 rublos. – «Há por lá mais terra do que a que se pode percorrer num ano de marcha» – disse o comerciante. Ardeu outra vez de cobiça o peito de Pahóm, que pensou consigo: «Na terra dos Baquires, posso eu comprar dez vezes mais terra do que aqui, e pelo mesmo dinheiro!».

    5. Mal o comerciante o deixou, logo Pahóm começou os preparativos para a viagem à terra dos Baquires. Partiu com um criado. Muitos dias depois, chegaram às tendas dos Baquires. Pahóm ofereceu presentes ao chefe, e falaram das terras. O chefe disse logo que Pahóm podia ficar com a terra que quisesse. Pahóm quis logo saber o preço, e o chefe respondeu-lhe: «O nosso preço é sempre o mesmo: 1000 rublos por dia». – «Por dia? Que medida é essa? Quantos hectares?» – perguntou Pahóm. – «Isso não sabemos; vendemos terra ao dia; é tua a terra a que puderes dar a volta, a pé, num dia; e são 1000 rublos por dia» –, retorquiu o chefe. Pahóm ficou fora de si: – «Mas num dia pode-se andar muito!…». O chefe riu-se: – «Pois será toda tua! Com uma condição: se não voltares no mesmo dia ao ponto de partida, perdes o dinheiro». Pahóm ficou contentíssimo, e decidiu partir na manhã seguinte. Nem dormiu naquela noite só de pensar na quantidade de terra que conseguiria abarcar…

    6. Antes do nascer do sol, lá estavam no cimo da colina os Baquires, Pahóm e o seu criado. – «Olha para isto» – disse o chefe –, «tudo o que vês é nosso; poderás ficar com o que quiseres». O chefe colocou no chão o barrete de pele de raposa, e disse: – «O sinal é este; partes daqui e voltas aqui; é tua toda a terra a que deres a volta até ao pôr-do-sol». Pahóm depositou o dinheiro no barrete, e, ao primeiro raio de sol, partiu, com a pá aos ombros para marcar o percurso. Um quilómetro andado, fez o primeiro buraco, e amontoou os torrões, para servir de sinal. Andou, andou, andou… Marcou, marcou, marcou… Cada vez as terras lhe pareciam melhores! Era uma pena perdê-las! O sol queimava. Pahóm começava a sentir o cansaço. Tinha os pés cortados… Continuou a andar cada vez com mais dificuldade. Mas não podia perder terrenos tão bons. Já esgotado, olhou o sol. Estava já perto do crepúsculo, e Pahóm ainda longe da colina. O sol caía para o horizonte, e Pahóm subia para a colina. – «E se chego tarde?». Estugou o passo, atirou fora o casaco, as botas, o cantil; ficou só com a pá para se apoiar. Pahóm já mal podia andar. O sol punha-se. Pahóm soltou um grito: «Tudo em vão!», e ia parar, quando ouviu os gritos dos Baquires, e se lembrou que, de lá, do alto da colina, ainda se via o sol. Trepou pela colina. Lá estava o barrete e o chefe a rir-se, de mãos nos quadris. Pahóm soltou um grito, as pernas falharam-lhe, e foi com as mãos que agarrou o barrete.

    7. – «Grande homem, grande homem!» – gritou o chefe. – «A terra que ele ganhou!». O criado de Pahóm veio a correr e tentou levantá-lo, mas viu que o sangue lhe corria da boca. Pahóm morrera. Os Baquires davam estalos com a língua, para mostrar a pena que sentiam. O criado pegou na pá, fez uma cova em que coubesse Pahóm, e meteu-o lá dentro. Sete palmos de terra: não precisava de mais.

    António Couto


  • A Igreja celebra no dia 11 de novembro São Martinho de Tours. Dada a época do ano, é conhecido pelas castanhas e pelo vinho. Na verdade foi um santo no meio do povo. Soldado, monge e bispo, veio, no século quarto, da Panónia, atual território da Hungria, para Tours, na Gália, atual território da França. Veio por amor, para trazer o Evangelho de Jesus ao povo da Gália e a quantos pelo caminho encontrava. Célebre ficou o episódio em que cortou ao meio o seu manto de soldado, para agasalhar um pobre mendigo. Diz-se que Jesus lhe apareceu logo a seguir, coberto com essa metade do seu manto, para nos mostrar que tudo o que fazemos ao nosso irmão mais pequenino é a Ele que o fazemos. São Martinho é, pois, modelo vivo de caridade, bom fazedor das obras de misericórdia. Mas é sobretudo um missionário. Cheio de Jesus, sai da sua terra e traz Jesus para o Ocidente Peninsular, vencendo a indiferença, a paralisia, a anestesia. São Martinho é do tempo da alegria, das castanhas e do vinho, da beleza dos lírios do campo, do tempo em que os pássaros do céu comiam à mesa dos meninos.

    São Martinho, reparte connosco o teu manto e a tua alegria, e roga por nós.

    António Couto


  • Quando,

    chegado ao fim do dia,

    no teu caminho só encontres paz,

    paz,

    inebria-te de vinho e de alegria,

    e brinda ao puro rumo das manhãs.

    Não pares

    enquanto não detenhas

    o rastro das armas nucleares.

    Enquanto uma espada andar à solta na cidade,

    não deixes de cantar a liberdade.

    Canta.

    Considera uma mão-cheia de chão,

    olha ao redor do coração.

    E quando,

    no pátio sobranceiro da cidade,

    um pássaro cair vergado pela idade,

    não deixes de falar da eternidade.

    Pensa.

    O que há em nós são caudalosos rios

    de silêncio,

    ocultas nascentes de esperança,

    e há um país tão próximo da infância.

    Mas a gente despe o tempo todo

    nas palavras.

    As tardes crescem, crescem,

    entretecem o crepúsculo,

    enquanto os mortos acocorados

    na memória

    ritualmente sepultam a distância.

    Traz-me uma manhã amor.

    Traz-ma como quando

    pelas tardes de verão me trazes água.

    Não deixes que o sonho se esvaneça,

    que esmoreça a esperança nos teus passos.

    Não deixes de lutar.

    Até um dia amor,

    até quando

    cada palavra que disseres

    transporte uma pomba nos seus braços.

    António Couto


  • Quem tem sede,

    venha a mim e beba,

    diz Jesus,

    e expôs-se sobre a Cruz

    como fonte sempre aberta e disponível.

    Quem tem sede,

    Alegre-se então por poder beber,

    Mas não se entristeça

    Por não ser capaz de esgotar a fonte.

    Convém que a fonte permaneça

    e abasteça o horizonte

    de paz e de alegria.

    A água escorre deste santuário,

    e, como um rio,

    percorre e irriga a terra inteira,

    coração a coração,

    sementeira a sementeira.

    E não há fio que meça esta torrente,

    que cresce desde a nascente até ao estuário.

    E nas suas margens tanta vida nova e bela nasce e cresce,

    tanto trigo floresce,

    tanto coração amadurece,

    tanto amor.

    Dá-me sempre dessa água viva, Senhor!

    António Couto


  • Ezequiel 47,1-2.8-9.12; Salmo 46; 1 Coríntios 3,9-11.16-17; João 2,13-22

    1. Cai este ano em dia de Domingo o dia 9 de novembro, em que se celebra a Festa da Dedicação da Basílica de S. João de Latrão, que é «a igreja mãe e cabeça de todas as igrejas», sede do bispo de Roma. Por este motivo, não se celebra este ano a Liturgia do Domingo XXXII do Tempo Comum. A celebração da Dedicação da Basílica de S. João de Latrão dá-nos a oportunidade de celebrar a presença de Deus no meio de nós, no nosso espaço. Mas é ainda uma boa oportunidade para aprendermos a olhar com mais amor para os espaços das nossas Igrejas catedrais e paroquiais, espalhadas pelo mundo inteiro, que acolhem a presença de Deus e de muitos irmãos, e que reconhecem à Igreja e ao bispo de Roma a «presidência da caridade», de acordo com o belo dizer de Santo Inácio de Antioquia.

    2. O texto do Evangelho proclamado nesta celebração constitui uma importante passagem no tecido do IV Evangelho (João 2,13-22). Jesus apresenta-se como tempo novo e Templo novo, novo espaço relacional, caminho novo aberto para o PAI, nova paginação e compreensão das Escrituras. Da Páscoa dos judeus (A) à Páscoa de Jesus (A’), do Templo antigo (B) ao Santuário novo (B’), tendo no meio o caminho da memória que começam a fazer os discípulos de Jesus (C), como podemos constatar no texto a seguir transcrito:

    «E estava próxima a Páscoa dos judeus, e JESUS subiu a Jerusalém. (A)

    E ENCONTROU no TEMPLO (hierón) os vendedores de bois e ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. E, tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do TEMPLO (hierón), as ovelhas e os bois, bem como os cambistas, espalhou as moedas, derrubou as mesas, e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da CASA DO MEU PAI (oíkos toû patrós mou) CASA de COMÉRCIO (oíkos emporíou)”. (B)

    Recordaram-se (emnêsthêsan) os discípulos d’ELE que está escrito: “O zelo da tua CASA (toû oíkou sou) me devorará”. (C)

    Responderam então os judeus e disseram-lhe: “Que sinal nos mostras de que podes fazer estas coisas?” Respondeu JESUS e disse-lhes: “Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)”. Disseram então os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado este SANTUÁRIO (naós), e tu em três dias o levantarás (egeírô)?” (B’)

    Isto, porém, dizia do SANTUÁRIO do seu corpo (toû naoû toû sômatos autoû). Quando, pois, foi ressuscitado dos mortos (êgérthê), recordaram-se (emnêsthêsan) os discípulos d’ELE que tinha dito isto, e acreditaram na Escritura e na palavra que JESUS tinha dito» (João 2,13-22). (A’)

    3. O episódio aparece situado e datado. O lugar é Jerusalém e o seu Templo. O tempo é a Festa da Páscoa «dos judeus», assim dita por três vezes no Evangelho de João (2,13; 6,4; 11,55). Ora, uma FESTA é, na tradição bíblica, um ENCONTRO marcado (mô‘ed), plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro]. Um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros. Sendo um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a FESTA é de peregrinação, como é a PÁSCOA, aqui referida [as outras duas são as SEMANAS ou PENTECOSTES e as TENDAS], então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que FESTA de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E o nome hag remete para o verbo hag [= dançar] e deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida.

    4. ENCONTRO, filialidade, fraternidade: marcas acentuadas por JESUS que, em vez de Templo de pedra (hierón), diz CASA (oíkos) – com particular afeto, CASA DO MEU PAI –, sendo a CASA paterna o lugar do ENCONTRO e da intimidade, e não das coisas, da superficialidade, da banalidade, do consumismo, do mercado. Neste texto de João, a referência vai sobretudo para Zacarias 14,21 e assume sabor escatológico: «Não haverá mais vendedor na casa do Senhor dos Exércitos naquele dia». Nos paralelos de Mateus 21,13, Marcos 11,17 e Lucas 19,46, a referência articula Isaías 56,7 [«A minha casa será chamada casa de oração (para todos os povos)»] e Jr 7,11 [«Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões»]. Vê-se, portanto, bem que JESUS fala do Templo usando a expressão forte «A MINHA CASA» (ho oîkós mou), definindo-a como «casa de oração», e não como «covil de ladrões».

    5. É neste sentido que o Livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra a comunidade mãe de Jerusalém a frequentar assiduamente o Templo, salientando, no entanto, que a sua maneira de prestar culto a Deus acontecia nas CASAS. Do Templo para as CASAS (Atos 2,46). Não se trata de uma simples mudança de lugar, mas de uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus. A extensão deste espaço chama-se comunhão.

    6. Sintomático é que, postos estes pressupostos, o texto refira, não que JESUS ENCONTROU filhos e irmãos, mas que ENCONTROU vendedores, banqueiros e comerciantes, contra a profecia de Zacarias 14,21, que refere que «Não haverá mais vendedor na CASA do SENHOR dos Exércitos naquele dia». «A CASA DO MEU PAI», «A MINHA CASA», por um lado, e o MERCADO, por outro lado, são lugares incompatíveis. São maneiras diferentes de conceber e ocupar o espaço.

    7. No texto que estamos cuidadosamente a ler, o Templo é dito com três vocábulos diferentes – hierón, oíkos e naós – com significações diferentes: edifício de pedra, casa familiar, santuário (ou lugar da presença de Deus).

    8. Quando, num dos típicos «mal-entendidos» do IV Evangelho, JESUS diz: «Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)» (João 2,19), os judeus não conseguem distinguir entre o naós pessoal que JESUS levantará em três dias e o hierón feito de pedra que demorou 46 anos a construir (João 2,20): desde 19 a.C. até 27/28 d.C., quando ocorre esta discussão. Em claro contraponto, o narrador explica bem, num genitivo epexegético, que JESUS «dizia isto do SANTUÁRIO do seu corpo» (toû naoû toû sômatos autoû) (João 2,21). Entenda-se: do SANTUÁRIO que é o seu corpo. É significativo que, no Evangelho de João, o termo «corpo» (sôma) se encontre apenas aqui (2,22) e no relato da morte e ressurreição de Jesus (cf. 19,31.38.40; 20,12), deixando claro que o santuário a que Jesus alude é o seu corpo livremente oferecido por nós (Hebreus 10,10; cf. Gálatas 1,4; Tito 2,14). Com esta explicação do narrador, fica claro que é JESUS o «lugar» da adoração de Deus, a verdadeira «Casa de Deus» (cf. João 1,51), o SANTUÁRIO de Deus.

    9. A anotação do narrador, em João 2,22, faz-nos ver ainda que foi também assim que entenderam os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus. Lição para os leitores: num tempo em que já não há Templo em Jerusalém, os leitores crentes do IV Evangelho experimentam a PRESENÇA de JESUS Ressuscitado como o seu verdadeiro «Templo».

    10. Em harmonia com o Santuário novo, gerador de vida nova e relações novas, que é Jesus Ressuscitado, está hoje o Santuário novo de Ezequiel 47,1-12, de onde sai água excecionalmente abundante e salutar, um caudal que cresce, cresce, cresce, saneia, fertiliza e cura, fazendo da Terra Prometida o verdadeiro jardim do éden, com água boa e salutar, com muitas árvores com muitos frutos. Como a torrente corre para oriente e sudeste, é toda a árida Arabá e o Mar Morto salitrado e sulfuroso que recebem vida nova em abundância. E também o homem pode pescar e colher frutos novos todos os meses, e encontrar cura nas folhas medicinais de tantas árvores. E tudo isto vem do Santuário. Como o rio de água viva que irriga a Jerusalém celeste, e que sai do trono de Deus e do Cordeiro. Também este rio é gerador de vida, de fertilidade, de frutos doze vezes ao ano, e de remédio para curar todos os corações (Apocalipse 22,1-2).

    11. O Apóstolo lembra, na sua Primeira Carta aos Coríntios (3,9-17), que todos formamos um belo edifício construído por Deus, mas também por nós, sobre o alicerce que é Jesus Cristo. E, de forma intensa, como sempre, São Paulo ainda grita aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). É sempre importante e sobrecarregado de beleza este movimento das pedras para as pessoas. A lição hebraica do Salmo 150,1 põe-nos a cantar assim: «Louvai Deus no seu Santuário». É notável a atualização da versão grega dos LXX, que regista assim: «Louvai Deus nos seus santos».

    12. Se o Salmo 150,1 decanta bem o Evangelho de hoje e a lição da Primeira Carta aos Coríntios, o Salmo 46 continua o nosso êxtase quando contemplamos a cidade mãe, Jerusalém, a morada de Deus no meio de nós, no seu Santuário, e o rio sobrecarregado de beleza que alegra Jerusalém. Este rio não é aqui a inconstante torrente de Gihón que corre mansamente para Siloé. É claramente uma hipérbole espiritual que nos leva para além desta Jerusalém sedenta e árida, situada a 800 metros de altitude, para a Jerusalém celeste irrigada por um rio de água viva, fonte de vida e de remédio (Apocalipse 22,1-2). As águas deste rio não se deixam inquinar. Nem a vida da cidade, sempre cheia de paz e de alegria.

    António Couto


  • 1. Não resisto a deixar aqui registada, às portas de novembro, mais esta saborosa história rabínica.

    2. Conta o sábio que um homem tinha três amigos. Dizendo isto, acrescenta logo que os tinha classificados: o amigo n.º 1, o amigo n.º 2 e o amigo n.º 3. E explica logo a seguir o que pode parecer óbvio: o amigo n.º 1 era o amigo inseparável daquele homem: andavam sempre juntos; o amigo n. º 2 aparecia lá por casa do nosso homem de vez em quando, bebiam uns copos, punham a conversa em dia; o amigo n.º 3 muito raramente aparecia, talvez uma ou duas vezes por ano, e o encontro era ainda assim mais devido ao acaso do que à amizade.

    3. Diz a história que um dia o nosso homem foi surpreendido por uma intimação do Rei que o instava a comparecer no Palácio Real.

    4. O nosso homem sentiu-se tomado por uma grande angústia e preocupação. Na verdade, nunca tinha entrado num Palácio, não sabia mesmo o que era um Palácio, não imaginava como se devia comportar dentro de um Palácio.

    5. É nestas alturas de aflição que nos lembramos dos amigos. Foi assim que o nosso homem foi ter com o seu amigo n.º 1, e disse-lhe: «Amigo, nós andamos sempre juntos, preciso da tua ajuda, não me digas que não». «Fala, homem», disse o amigo n.º 1. Então, o nosso homem contou ao seu melhor amigo que tinha de comparecer no Palácio do Rei, que nunca tinha entrado num Palácio, que não sabia como proceder, que se sentia muito preocupado. E adiantou: «Peço-te que me acompanhes nesta viagem». A este pedido, o amigo n.º 1 respondeu: «Amigo, de facto somos amigos inseparáveis. Podes contar sempre comigo, mas nesta viagem não posso ajudar-te».

    6. Então, o nosso homem foi ter com o seu amigo n.º 2, aquele que encontrava de vez em quando para beber uns copos e pôr a conversa em dia. Expôs-lhe o mesmo problema. E o amigo n.º 2 respondeu assim: «Sim, senhor, estou disposto a acompanhar-te, mas com uma condição». «Qual é então a condição?», perguntou com ânsia e curiosidade o nosso homem. «Vou contigo, mas só até à porta do Palácio», disse o amigo n. º 2. E acrescentou: «Da porta para dentro terás de te desenrascar sozinho». Ouvindo isto, o nosso homem insistiu: «Até à porta, também eu consigo ir; o meu problema é dentro do Palácio, pois não percebo nada de Palácios». Rematou o amigo n.º 2: «É como te digo; posso ir contigo só até à porta».

    7. Restava ao nosso homem o amigo n.º 3, aquele que via por mero acaso apenas uma ou duas vezes no ano. Foi ter com ele, e expôs-lhe igualmente o problema, para ele difícil, de ter de comparecer no Palácio do Rei. E pediu-lhe igualmente, ainda que sem grande esperança de ser atendido, que o acompanhasse naquela viagem difícil. Ouvindo atentamente, o amigo n.º 3 respondeu assim: «É claro que te acompanho. Confesso-te mesmo que até ficaria muito triste se visse a saber dessa tua viagem difícil, e tu não me tivesses dito nada!».

    8. A história termina assim, aparentemente no ar, à boa maneira rabínica. Mas para que tu, meu irmão sentado às portas de novembro, possas entender melhor, passo a descodificar o essencial: A) o Rei desta história é Deus; B) o nosso homem, o que foi intimado a apresentar-se no Palácio do Rei, é cada um de nós: posso ser eu; podes ser tu; C) o amigo n.º 1 é a nossa própria vida, a minha própria vida; eu e a minha vida, os meus afazeres, os meus negócios, os meus projetos, andamos sempre juntos: somos amigos inseparáveis; mas, quando eu morrer, de facto, nada disso me pode acompanhar!; D) o amigo n.º 2 são os nossos próprios amigos: podem acompanhar-nos só até à porta… do cemitério!; E) o amigo n.º 3, aquele que raramente vemos, é o bem que fazemos ao longo da nossa vida; é o amor que pomos naquilo que humildemente fazemos.

    9. Ainda estás a tempo, meu irmão sentado às portas de novembro, de pegar na tua lista de amigos, e de a virar do avesso. Verifica bem, e, pelo menos, trata de trazer para primeiro lugar o amigo que tens na lista em 3.º lugar e que tão poucas vezes vês. Afinal, é o único que te acompanhará sempre!

    António Couto


  • Apega-se-me aos pés esta terra enevoada de novembro,

    mas a cabeça é sempre bom tê-la nos céus.

    Sei que as palavras que sussurro atravessam as nuvens,

    e, com elas, é todo o meu ser que sobe para Deus.

    Quando o chão que pisamos cheira a sangue,

    e não a pão quente e vinho novo,

    quando as pessoas e os ideais que amamos

    revelam um alto grau de mortalidade,

    temos de acender com lume novo

    as velas do nosso embotado coração,

    e de erguer até Deus nuvens de oração.

    De facto, a nossa proteção

    está no Nome do Senhor,

    que fez os céus e a terra

    e a nossa vida também.

    E é bom que o nosso coração não desfaleça,

    mas se fortaleça e bata cada vez mais forte.

    A nascente do mal não reside na paixão,

    num coração que bate forte e se apaixona.

    A raiz do mal está em todo o coração empedernido,

    em que nenhuma emoção se acende e vem à tona.

    Concede-nos, Senhor, no meio desta noite escura,

    a luz acesa da saúde, da paz e da esperança,

    e dá-nos a tua mão segura

    de amor, serenidade e confiança.

    António Couto


  • A Igreja comemora hoje, dia 2 de novembro, todos os fiéis defuntos, os nossos irmãos que adormeceram em Cristo, como costumamos rezar na liturgia. Na verdade, deixando respirar o Evangelho, e sentindo-lhe o calor, o odor e o vivo pulsar, vemos bem que Jesus não nos deixou palavras mortas, para nós guardarmos cuidadosamente em velhos armários ou latas de conserva, museus ou casas de penhores, deitadas e adormecidas num caldo de azeite rançoso, como se fossem múmias. Jesus não nos deixou palavras de conserva, para nós as mantermos congeladas por milhares de anos, mas deu-nos palavras vivas e ardentes, a saltar, para servir já, e para alimentar a nossa esperança. Neste nosso mundo líquido e escorregadio, habitado por mais de oito biliões de solidões, precisamos mais do que nunca das palavras de Jesus, para que se faça luz, e para podermos outra vez colher a esperança com as nossas mãos rugosas, como se fossem sementes ou grãos que semeamos, e de cujo chão pode nascer um mundo novo.

    Senhor Jesus, neste tempo embaciado de novembro, senta-nos à tua mesa, e serve-nos o teu pão que enche de paz o coração.

    António Couto


  • Senhor,

    Tu firmaste a terra há muito tempo,

    o céu é obra das tuas mãos.

    Eles perecem, mas Tu permaneces.

    Eles ficam gastos como a roupa.

    Sim,

    Tu os mudarás como um vestido,

    e eles ficarão mudados.

    Mas tu permaneces o mesmo,

    e os teus anos jamais findarão.

    O homem é como a erva,

    e toda a sua glória como a flor do campo.

    Seca a erva e murcha a flor,

    mas a tua Palavra, Senhor, permanece para sempre.

    Neste mês em que a paisagem muda,

    as folhas caem,

    as árvores choram,

    e nós verificamos que a nossa vida é breve e frágil,

    como a lançadeira no tear,

    assiste-nos, Senhor, mais de perto, com a tua bondade,

    sustém os nossos passos vacilantes,

    alumia os olhos do nosso coração titubeante,

    faz-nos sentir a alegria da tua presença carinhosa

    e senta-nos à mesa

    da certeza da tua salvação.

    António Couto


  • Job 19,1.23-27; Salmo 27; 2 Coríntios 4,14-5,1; Mateus 11,25-30

    2 Macabeus 12,43-46; Salmo 103; 2 Coríntios 5,1.6-10; João 11,21-27

    Isaías 25,6a.7-9; Salmo 23; 1 Tessalonicenses 4,13-18; João 6,51-58

    1. No próximo dia 2 de novembro, este ano dia de Domingo, XXXI do Tempo Comum, celebramos a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Seja qual for o texto de Paulo hoje lido e escutado, é sempre de uma enxurrada de vida nova que se trata, mas que, a fazer fé no que se sente, ouve e vê, parece que já não nos diz nada, não fala para nós, nenhuma fome nos mata, nenhuma sede nos apaga, não responde a nenhuma inquietação nossa. E, todavia, os textos de Paulo que hoje lemos, quer provenham das Cartas aos Coríntios ou aos Tessalonicenses, eram então ansiosa e atentamente recebidos e respondiam às questões que se punham os cristãos das comunidades dos anos 50: o que acontece com a nossa morte? O que vai acontecer quando Cristo Ressuscitado vier ao nosso encontro? E como pode a humanidade das gerações que viveram e morreram antes de Jesus ter aparecido a calcorrear os caminhos da Palestina beneficiar da salvação por Ele trazida e oferecida?

    2. Em boa verdade, não parece credível que as questões acima formuladas façam parte das preocupações das pessoas que hoje frequentam as igrejas ou visitam os cemitérios das nossas comunidades paroquiais. Tanto quanto nos podemos aperceber, as questões que as gentes de hoje transportam têm mais a ver com a situação daqueles que a morte separou de nós: o que permanece da relação que tínhamos com eles? O que permanece sobretudo da amizade, do amor, do carinho que se partilhava quando eles ainda estavam connosco? Haverá alguma maneira, alguma possibilidade de lhes permanecermos fiéis? Poderemos, porventura, fazer algo mais do que colocar estas flores sobre a sua campa?

    3. Podemos, com certeza, pôr tranquilamente de parte a imagem do toque da trombeta e dos restos mortais a saírem dos túmulos. Mas também podemos abandonar sem medo o medo quotidiano da morte que uma certa pregação medieval e moderna incutia nas pessoas. É sabido, de resto, que esta comemoração de todos os fiéis defuntos é de origem medieval e monástica, e acusa, por vezes, traços de piedade duvidosa e supersticiosa, acentuados ainda por outras estranhas ideologias que, de forma difusa, dissimulada e até violenta, invadem hoje o nosso quotidiano.

    4. Estranha Boa Nova que amedrontava para levar à conversão. Conversão a que deus?, temos de nos perguntar. Porque não era seguramente àquele Deus a quem Jesus tratava por Pai e nos ensinou a tratar também por Pai. E a força explosiva dos textos de Paulo hoje lidos não está nos acessórios, mas reside toda no nosso conhecimento pessoal e experimental (ginôskô / yadaʽ) de Jesus Cristo e da força (dýnamis) da sua Ressurreição (Filipenses 3,8 e 10). «Em verdade, em verdade, vos digo: “Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna (zôê aiônios), e passou da morte para a vida (zôê)”» (João 5,24).

    5. Sim, esta Palavra nova que Jesus faz irromper na nossa vida faz-nos saber que o peso e o medo da morte já passou, afinal, para trás de nós, de tal modo que já não pode ameaçar apagar, mais dia, menos dia, como uma esponja, a vida que vamos construindo com o amor novo que nos vem do Ressuscitado, pois é este amor que nos faz passar da morte para a vida (zôê) (1 João 3,14). E mesmo quando o sofrimento cai sobre nós como uma avalanche, transformando a nossa vida num insuportável pesadelo, como sucede com Job, seremos ainda levados a descobrir que não é Deus que nos persegue e fustiga, pois Ele permanece ao nosso lado, dado que é Ele o nosso «familiar mais próximo», que é o nosso «redentor» (goʼel) (Job 19,25), aquele a quem cabe o dever, a obrigação, de velar sempre por nós em todas as situações difíceis da nossa vida. Os pretensos e falsos amigos de Job tudo fazem para o fazer calar. Vão de argumento em argumento. Só Deus se vem verdadeiramente sentar ao nosso lado, põe a sua mão de Pai sobre o nosso ombro (Job 9,33), carrega sobre si as nossas dores e a nossa morte (Isaías 53,4; Mateus 8,17; Hebreus 2,14-15), limpa os nossos olhos e o terreno todo à nossa frente, dá-nos a mão para a liberdade, libertando-nos também do temor da morte (Hebreus 2,15).

    6. Estranha aberração que a Igreja tenha durante tanto tempo pregado a resignação, a aceitação do sofrimento, mas também da injustiça e da desigualdade. Sim, mas a fé na ressurreição é esta força (dýnamis), esta alavanca, que mantém Job de pé, e o leva a recusar até ao fim a resignação, a demissão, a ideia de um Deus que ficaria satisfeito com a injustiça.

     7. Faz-nos bem sentar hoje com tempo à beira da página do Evangelho de Mateus 11,25-30. As poucas linhas que a atravessam guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

    8. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem podem confiar (2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos das crianças batizadas: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

    9. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua História de uma alma, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança já desmamada (gamûl). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

    10. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que pensam que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, que dele dependem a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos na mão as chaves de tudo e de todos, que cantamos a nossa radical autonomia e liberdade de escolha, a hipertrofia do «eu», um «eu» sem «me», nominativo sem acusativo, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança e a quem entregamos a guarda do nosso mais precioso tesouro, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

    11. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança em Deus, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

    12. É assim que o Evangelho deste Dia entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Nenhum arrogante ou elegante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida (bíos e psychê) para dar, e a vida divina (zôê aiônios) para receber.

    13. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus que, por graça, nos deu a sua vida divina, vida vivente, vida eterna (zôê aiônios) que não morre nunca mais.

    António Couto


  • «O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egito,

    e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

    CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

    DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

    e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa,

    para uma terra que mana leite e mel”».

    Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

    Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

    É um Deus bem atento, próximo e interventor.

    É um Deus que, por amor, SAI de SI,

    e não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua eternidade.

    Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

    Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

    que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

    conhecidos e anónimos,

    e aos Fiéis Defuntos.

    Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

    que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

    como escreveu bem S. João Paulo II.

    E o SANTO é aquele que SAI de SI,

    é aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

    vê com os olhos de Deus,

    fala com a língua de Deus,

    acaricia com as mãos de Deus,

    ama com o coração de Deus.

    Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

    dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

    e a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e necessitados.

    Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

    António Couto


  • Apocalipse 7,2-4.9-14; Salmo 24; 1 João 3,1-3; Mateus 5,1-12a

    1. Dia um de novembro. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (cf. Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) de si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

    2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projetos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Santa Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele que é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica!

    3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» de Mateus 5,1-12, que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10). Eis o precioso texto:

    «5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

    Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

    2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

    3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

    porque deles é o reino dos céus;

    4FELIZES os aflitos,

    porque serão consolados;

    5FELIZES os mansos,

    porque herdarão a terra;

    6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

    porque serão saciados;

    7FELIZES os misericordiosos (eleêmones), porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

    8FELIZES os puros de coração,

    porque verão a Deus;

    9FELIZES os fazedores de paz,

    porque serão chamados filhos de Deus;

    10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

    porque deles é o reino dos céus.

    11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

    e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

    por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

    4. Sim, escutámos por nove vezes o termo «FELIZES». Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente, anestesiado e medicado em que vivemos.

    5. Também não nos devemos esquecer que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa S. João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, S. João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

    6. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shefal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

    7. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144 000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144 000, número perfeito e incontável [12 vezes 12 vezes 1000], que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo.

    8. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é», grande teologia da divinização por graça aportada pela página inesgotável da Primeira Carta de S. João 3,1-3. Filiação por graça, diferente da filiação natural de Jesus. Deus ama-nos. O mundo não nos ama. O mundo não sabe amar. A natureza não ama ninguém, não sabe amar. Mas, em grande contraponto, Deus ama-nos. Não o vemos no decurso da história humana, mas «vê-lo-emos como Ele é», em versão transformante, pois «seremos semelhantes a Ele». «Quem tem esta esperança nele, torna-se puro como Ele é puro». É esta a esperança (elpís) – termo usado só aqui em todo o tecido joanino –, que o amor de Deus faz habitar em nós.

    9. Sim, disse-o no Sínodo sobre a Nova Evangelização (2013) para mim e para todos os homens de boa consciência e boa vontade que vivem de olhos postos em Cristo: por que será, perguntava eu, que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, para serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (cf. Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), para sermos ricos e importantes?

    10. «Esta é a geração dos que procuram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (v. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o «não ir atrás dos ídolos» e «não praticar fraudes» (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia regista por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade». Por aqui passa o Dia de todos os Santos.

    António Couto


  • 1. A Declaração Nostra aetate sobre a relação da Igreja com as religiões não cristãs foi aprovada no Concílio II do Vaticano no dia 28 de outubro de 1965, passam hoje, portanto, 60 anos. Esta Declaração constituiu um passo importante, pois abriu a Igreja ao mundo e às diferentes expressões de religiosidade.

    2. Quero recordar hoje, com particular afeto, as renovadas relações da Igreja com o judaísmo. Lembro a participação, por parte do judaísmo, de Abraham Joshua Heschel, um sábio, um crente, um orante na verdadeira aceção das palavras, homem de grande envergadura intelectual, espiritual e moral. Heschel nasceu em 1907 em Varsóvia e faleceu em 23 de dezembro de 1972 em Nova Iorque. Em 1965, participou com Martin Luther King na grande marcha a favor dos direitos dos negros. Participou de um modo tal, que chegou a confessar com verdade: «senti as minhas pernas rezar».

    3. A sua ação vigorosa fez-se sentir também no âmbito do diálogo religioso, e, como escreveu a sua filha, Susannah Heschel, começou mesmo a sentir grande afinidade com os católicos, sentimento, de resto, recíproco por parte dos católicos. Tinha um grande amigo no Cardeal Bea, que foi o principal redator da Declaração Nostra aetate. Teve também diversos encontros com o Papa Paulo VI, havendo entre os dois grande admiração e estima mútua. O último encontro, confessa Heschel, ocorreu em março de 1971, quando foi recebido por Paulo VI em audiência particular, que Heschel descreveu assim: «Quando o Papa me viu, abriu um grande sorriso, cheio de alegria, com o rosto radiante, e pegou na minha mão, apertando-a cordialmente com ambas as mãos, gesto que repetiu diversas vezes durante a audiência. Iniciou o encontro dizendo-me que estava a ler os meus livros, que os julgava muito espirituais e muito belos, e que um católico os devia ler».

    4. Foi professor na Alemanha, na Polónia e nos Estados Unidos. Conseguiu fugir das perseguições nazis, mas vários dos seus familiares foram assassinados nos campos de Treblinka e Auschwitz. É um dos grandes pensadores do séc. XX, com vasta obra realizada e publicada. Os seus livros são, de facto, obra de grande sabedoria, excecional cultura, e fina sensibilidade literária, requerendo do seu leitor extrema atenção e apurado sentido literário. Os títulos, que cito em português, são muito significativos: Deus à procura do homem; O homem à procura de Deus; O homem não está só; Quem é o homem?; O canto da liberdade; A mensagem dos profetas; O sábado; A descida da Shekinah… Os originais estão em língua inglesa, mas encontram-se traduzidos em diferentes línguas.

    António Couto


  • A Palavra de Deus desce, desce, desce,

    atravessa as nuvens,

    como chuva miudinha,

    cai num pedaço de chão,

    ou num pobre coração,

    e adormece

    como o crescente

    no ventre da farinha,

    e cresce, cresce, cresce,

    até voltar a Deus, sua nascente.

    A oração do humilde é pobre e pura,

    mas sobe, sobe, sobe,

    como um passarinho,

    atravessa as nuvens,

    e deita-se de mansinho

    no coração de Deus,

    que presta atenção e cura

    as nossas feridas,

    as nossas alergias,

    e acaricia as nossas alegrias.

    Atende, Senhor, as nossas preces de hoje

    e de todos os dias.

    António Couto


  • Ben Sira 35,15-17.20-22; Salmo 34; 2 Timóteo 4,6-8.16-18; Lucas 18,9-14

    1. Domingo XXX do Tempo Comum. Aí está, no Evangelho de hoje (Lucas 18,9-14), mais uma parábola de Jesus direitinha ao nosso orgulhoso coração. Trata-se da famosa parábola do fariseu e do publicano, duas personagens muito tipificadas, que sobem ao Templo para rezar. O narrador fornece-nos, a abrir a parábola, a sua chave de interpretação, situando-se e situando-nos a nós também do lado do fariseu. Assim, seguindo a indicação do narrador, Jesus «disse ainda esta parábola para alguns (pròs tinas) que se consideravam justos (díkaioi) e desprezavam os demais» (Lucas 18,9). O leitor atento não deixará passar em branco esta disjunção: na verdade, considerar-se justo e desprezar os outros são duas posições contraditórias. Como é que a conjunção «e» (grego kaì) pode reunir duas afirmações completamente díspares? A surpresa da parábola está na conclusão (Lucas 18,14), em que o próprio Jesus revela o ponto de vista de Deus, isto é, dá a conhecer a reação de Deus à oração dos dois homens, mostrando que foi operada uma verdadeira reviravolta: o publicano, que se reconheceu pecador, foi declarado justificado (dedikaiôménos), ao contrário do fariseu orgulhoso que volta para casa privado da justiça que pensava possuir. O publicano, rezando desde o seu humilde chão, obteve o perdão, enquanto o fariseu pecou mesmo a rezar, arrogando-se o poder de julgar uma pessoa, e negando a Deus a possibilidade de perdoar, e ao homem a possibilidade de ser redimido. Ao contar esta parábola, a intenção de Jesus não é mostrar-nos a radiografia religiosa de duas figuras públicas e emblemáticas do seu tempo: um fariseu e um publicano. A intenção de Jesus é que a parábola nos atinja a nós, e dissolva o orgulho e a arrogância que nos habitam e orientam a nossa vida, quer na nossa relação com Deus, quer na nossa relação com o próximo.

    2. O facto de nos ser dito que os dois homens subiram ao Templo para rezar, é para os colocar e nos colocar, não numa situação qualquer, mas numa situação limite, dado que, de acordo com o fortíssimo dizer de Jeremias, «aproximar-se de Mim» (lageshet ʼelay), diz Deus, implica «empenhar [ou penhorar] o coração» (ʽarab ʼet-libbô) (Jeremias 30,21). «Empenhar o coração» no sentido estrito e técnico de «pôr o coração no prego», de «penhorar o coração», no contexto das «casas de penhores». Salta à vista que «penhorar o coração» é pôr a vida em risco, é como subir a um poste de alta tensão, onde vemos escrito: «perigo de morte». É, pois, nesta situação limite que são colocados os dois homens de hoje, e nós também. Esta situação dá às coisas uma seriedade imensa e intensa. Vejamos como tudo se passa.

    3. Vem primeiro a radiografia do fariseu. Entenda-se sempre, não de um homem da classe dos fariseus do tempo de Jesus, mas do farisaísmo que há em mim, em ti, em nós. O que a radiografia nos mostra é, então, um fariseu cheio de si, afogado em si, autossuficiente e autorreferencial. Já a água lhe dá pelo pescoço, dada a situação de proximidade com Deus em que ousou colocar-se, mas nem por isso «põe o coração» na situação limite em que se encontra. Para espanto nosso, na sua oração, não pede auxílio, não estende a mão; antes, procede a um estranho ritual de auto incensação e debita faturas e palavras orgulhosas que não atravessam as nuvens (Ben Sira 35,21). Mais parecem pedradas no charco em que alegre e orgulhosamente se afunda, agora já com a água a entrar-lhe pela boca adentro. Em breve as velas do coração ficarão encharcadas, e a embarcação afundar-se-á. À superfície, a boiar, antes de se afundarem também, fica um monte de faturas e de palavras inchadas. É assim que vive e reza o fariseu que há em mim, em ti, em nós. A balança do deve e haver com Deus, pensa o fariseu e pensamos nós muitas vezes também, está claramente desiquilibrada a seu e a nosso favor. Aí estão as faturas que Deus terá de nos pagar: «Jejuo duas vezes por semana [a lei mandava jejuar uma vez] e pago o dízimo de todos os meus rendimentos» (Lucas 18,12). Julga o fariseu, portanto, e julgamos muitas vezes nós também com ele, que temos muito crédito acumulado face a Deus. E, por isso, até nos damos ao luxo de dar graças (eucharistéô) a Deus por não sermos como os outros, que vemos como ladrões, injustos e adúlteros, nem como este reles publicano (Lucas 18,11), estes, sim, cheios de dívidas para com Deus. É assim que, no enfadonho monólogo da sua oração, o fariseu acusa os outros homens de serem ladrões, injustos e adúlteros (Lucas 18,11). Fina ironia do narrador! Os traços da acusação do fariseu aos outros correspondem exatamente à descrição do retrato que pouco antes Lucas ofereceu dos fariseus (Lucas 16,14-18). Convenhamos que este enfadonho monólogo de auto incensação e acusação dos outros é uma estranha forma de dar graças a Deus, isto é, de «fazer eucaristia» (Lucas 18,11). Este fariseu que eu sou acha-se com direitos adquiridos sobre Deus e sobre o próximo, de tal modo que facilmente os julgo e condeno. A sua e a nossa oração não atravessa as nuvens, como a do humilde (Ben Sira 35,21); desfaz-se contra as paredes da sua arrogância.

    4. Ao fundo da cena, sempre ao fundo da cena, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, este pecador, este publicano, leva a sério a situação limite que é rezar, que supõe verdade. Não vale a pena mentir à beira da morte, à beira da vida dada! Sim, é um publicano, um cobrador de impostos, coletor de dinheiro público, daí o publicano [do latim publicanus], é um traidor à pátria judaica, um vendido aos invasores romanos, um ladrão, porque, naquela profissão, sempre se cobravam uns cobres a mais. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão, rezando assim: «ó Deus, sê-me propício (hilásthêtì mou: imp. aor. pass. de hiláskomai), a mim, que sou pecador» (Lucas 18,13). No NT, o verbo hiláskomai [= ser propício] só se encontra aqui e em Hb 2,17. O nome hilastêrion [= propiciatório] encontra-se em Rm 3,25. É assim, com este pedido de propiciação, que o publicano põe a andar a sua pobre embarcação. É assim que reza o publicano que há em mim, em nós. É a verdadeira respiração ou oração do nosso coração. Conclui Jesus de forma solene: «Eu vos digo: “este desceu justificado (dedikaiôménos: part. perf. pass. de dikaióô) para sua casa; o outro não”» (Lucas 18,14a). Este justificado, no modo passivo, chamado passivo divino ou teológico, diz-nos que esta justificação é obra de Deus, não nossa. Diz bem São Paulo: «não com a minha justiça, a da lei, mas aquela através da fé em Cristo, a de Deus» (Filipenses 3,9; cf. Romanos 3,28). Na verdade, justificar significa transformar um pecador em justo. Então, justificar é perdoar. E, neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são ações que só Deus sabe e pode fazer («quem pode perdoar os pecados senão Deus somente?») (Lucas 5,21), dado que, transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Atenção, portanto: perante Deus, não há justos; há apenas justificados!

    5. Pode ajudar-nos uma belo conto judaico, edificante, sobre a verdadeira oração, que vai de encontro à parábola de Jesus, hoje escutada, e que mostra a oração como abandono a Deus e em Deus, louvor, súplica, confissão. O protagonista é David, depois do pecado de adultério com Betsabé e de homicídio na pessoa de Urias. David apresenta-se diante de Deus, e diz somente: «Pequei, Senhor!» (2 Samuel 12,13), calando-se logo e ficando em silêncio. Por que se cala?, pergunta o narrador. Porque se vê semelhante àquele pobre, esfomeado, com as roupas rotas, que um dia teve a sorte de poder entrar no palácio, de ir à presença fulgurante do rei. Chegado à beira do trono, não disse nada, não obstante a insistência dos cortesãos para que implorasse a ajuda do rei. Na verdade, não precisava de palavras. O seu próprio corpo, a sua miséria exposta, era um pedido mais forte do que qualquer palavra.

    6. O precioso Livro de Ben Sira, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, mostra-nos como Deus está atento ao indigente, à viúva, ao órfão, ao deserdado, ao humilde, e diz-nos que a sua oração atravessa as nuvens (Ben Sira 35,15-22). Belíssima expressão que se cruza com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, atravessa as nuvens para baixo e para cima, enchendo de alegria a nossa terra abençoada (Isaías 55,10-11). Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração a Deus, enquanto Deus não olhar para eles com olhos de bondade (Ben Sira 35,21). É exatamente o modo como reza o publicano: «ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão», com aquele olhar maternal da bênção sacerdotal (Números 6,25-26).

    7. Reza, meu irmão. Como vês, rezar não é para beatos ou beatas de trazer por casa. Rezar é para gente forte, para militantes, pois requer a coragem das situações limite, podendo, de facto, mudar a nossa vida inteira. Bem, hoje, a confissão de São Paulo na reta final da sua vida: «Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé» (2 Timóteo 4,7). E a bela doxologia final, que nos mostra um Paulo sempre em oração: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

    8. Aí está, então, a fazer ressoar no nosso coração as páginas deliciosas deste Dia de Domingo, o Salmo 34, que põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah) que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah) que é a sua verdadeira razão de viver (vv. 2-3). O pobre enche o seu olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» [«Saboreai e vede que Bom é o Senhor»], em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido, na pronúncia viva, christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés». E São Francisco de Assis, no Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, aí por abril ou maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, ocorrida a seguir ao pôr-do-sol de 03 de outubro desse mesmo ano, recomenda aos seus irmãos que amem sempre nossa senhora, a santa pobreza.

    António Couto


  • A Igreja celebra hoje, dia 17 de outubro a memória litúrgica de Santo Inácio de Antioquia. Santo Inácio de Antioquia foi o sucessor de São Pedro como Bispo de Antioquia. Santo Inácio foi, com certeza, o primeiro «Padre da Igreja» a usar a palavra «Sínodo», dando-lhe, todavia, um sentido mais forte do que nós hoje fazemos. Sínodo é a palavra que anda hoje por aí. Mas já andava ontem e anteontem. Tem a idade da Igreja. Se examinarmos atentamente a literatura cristã antiga, descobriremos que, no seu uso cristão mais antigo, a palavra sínodo nos aparece com um significado pessoal, isto é, referindo pessoas, e não eventos. Na sua Carta aos Efésios, escrita enquanto era conduzido para o martírio em Roma, onde foi atirado às feras no Coliseu, nos últimos anos do séc. I ou nos primeiríssimos anos do séc. II, durante a perseguição de Trajano, escreveu Santo Inácio de Antioquia (35-107), chamado «Teóforo» ou «portador de Deus» (theóphoros), que os cristãos são sínodos (sýnodoi), entenda-se: aqueles que caminham uns com os outros. Escreveu ele: «Sede todos companheiros de caminho (estè oûn kaì sýnodoi pántes), portadores de Deus (theophóroi) e portadores do templo (naophóroi), portadores de Cristo (christophóroi), portadores do Espírito (hagiophóroi), em tudo adornados (katà pánta kekosmêménoi) com os mandamentos (entolaí) de Jesus Cristo» (Ad Ephesios 9,2; PG 5, 652), Ele que é o Sýnodos por excelência (João 14,6), o verdadeiro companheiro de caminho para os seus discípulos, chamados na origem «os discípulos do caminho» (Atos 9,2; 19,9.23; 22,4; 24,14.22). Lê-se numa comovente exortação conservada no apócrifo Atos de Tomé, de princípios do séc. III: «Acredita em Cristo Jesus (…). Ele será teu companheiro (Sýnodos) ao longo do caminho perigoso; Ele será teu guia para o seu reino e do seu Pai» (Acta Thomae, 103). Portanto, cristãos, sede sínodos, e não vos limiteis a fazer sínodos!

    António Couto


  • Êxodo 17,8-13; Salmo 121; 2 Timóteo 3,14-4,2; Lucas 18,1-8

    1. Depois da semente pequenina, pequenina, que é a fé, e que pode virar do avesso a nossa vida, depois do samaritano leproso curado, agradecido a Jesus e salvo pela fé (Lucas 17,19), eis-nos, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, perante uma viúva desprotegida no campo social, económico e jurídico, mas persistente no seu clamor por justiça.

    2. A Bíblia insiste que ninguém deve afligir ou menosprezar uma viúva ou um órfão, pois se o fizer, e se a viúva ou o órfão gritarem a Deus, o seu grito será escutado e os seus opressores duramente castigados (Êxodo 22,21-23). Juntamente com o estrangeiro e o pobre, a viúva e o órfão fazem parte do rol das chamadas personae miserabiles, pessoas miseráveis, sem proteção social, económica ou jurídica, mas que, para sua defesa, podem contar sempre com a mão protetora de Deus, que sobre elas coloca o seu manto protetor ou pálio.

    3. A impressão da pobre viúva do Evangelho de hoje (Lucas 18,1-8) é que o seu pedido esbarra contra uma porta fechada, quase blindada, que tem por detrás o coração fechado com um nó cego de um juiz agnóstico, portanto, sem Deus, e insensível, incapaz de se condoer com as dores seja de quem for. O retrato que dele faz o narrador mostra-nos um juiz fechado a Deus (à sua bondade, à sua grandeza e à sua vontade) e aos homens, que ostenta um coração empedernido, e não um «coração que vê», para usar a bela expressão do Papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica Deus caritas est, de 25 de Dezembro de 2005, n.º 31.

    4. Sem nunca abrir a porta ou o coração aos apelos da viúva, o juiz de coração fechado com um nó cego acaba, todavia, por ceder aos gritos persistentes da viúva, não porque o seu coração se tenha amaciado ou o nó cego desatado, mas tão-só para se ver livre do incómodo causado pelos gritos persistentes e obstinados da viúva. A oração da viúva indefesa, o seu grito por justiça, tem semelhanças com a oração dos mártires de que fala o Livro do Apocalipse: «Até quando, ó Deus santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça e a pedir contas do nosso sangue aos habitantes da terra?» (Ap 6,10).

    5. A reflexão corre do menor para o maior (qal wahomer), à boa maneira rabínica. Se assim faz o juiz de coração fechado com um nó cego, quanto mais e mais depressa fará Deus aos seus eleitos que a Ele gritam dia e noite? (Lucas 18,7).

    6. Note-se que o narrador nos dá a chave logo no início, para podermos abrir a parábola e entrar na sua correta compreensão. Na verdade, introduz-nos assim o narrador na parábola: «Disse-lhes uma parábola sobre a necessidade de REZAR sempre, sem descanso» (Lucas 18,1). E no final insiste nos eleitos que gritam a Deus dia e noite (Lucas 18,7). Rezar com persistência, com perseverança, sem relaxamento. Não tanto para que Deus faça agora o que agora lhe pedimos, mas para que a nossa fé permaneça acesa! Sim, conclui surpreendentemente Jesus, o verdadeiro problema não é a intervenção de Deus (que faz justiça com certeza), mas a constância da nossa fé: «Quando vier o Filho do Homem, encontrará a fé sobre a terra?» (Lucas 18,8).

    7. É, de resto, sabido que o Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da oração. Aqui deixamos, para quem o desejar e achar útil, os principais acenos. 1) Este Evangelho apresenta cenários de oração a abrir (Lucas 1,10 e 13; 2,37) e a fechar (Lucas 24,53), formando aquilo que se chama uma inclusão literária ou envelope, como que a dizer que o inteiro Evangelho está repleto de oração. 2) Este Evangelho é de longe o que apresenta mais vezes Jesus a rezar sozinho, como modelo de oração: Lucas 3,21; 5,15-16; 6,12-16; 9,18-20; 9,28-36; 10,21; 11,1; 22,31-32; 22,39-46; 23,33-34; 23,44-46. 3) É este Evangelho que nos apresenta as mais belas e inesquecíveis figuras de oração: Maria, com o magnificat (Lucas 1,46-55); Zacarias, com o benedictus (Lucas 1,68-79); Simeão, com o nunc dimittis (Lucas 2,29-32); o coro celeste, com o gloria in excelsis Deo (Lucas 2,14). 4) É ainda este Evangelho que salienta alguns traços fundamentais da oração: a persistência, no chamado «amigo importuno» (Lucas 11,5-13) e na figura de hoje, a «viúva importuna» (Lucas 18,1-8), e a humildade, como veremos no próximo Domingo, na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18,10-14).

    8. Não se pode descurar hoje a colagem ao belo modelo de oração da viúva, do texto do Êxodo 17,8-13, que nos mostra Moisés também a rezar sem descanso no cimo da colina com os braços e as mãos abertos e firmes em cruz. Salta à vista que a vitória sobre Amalec não resulta tanto da espada de Josué, mas mais da oração de Moisés! É como quem diz que a oração dia e noite, sem descanso, é a chave da nossa vida em todas as suas circunstâncias. Sobretudo quando a tentação toma conta de nós e a nossa vida só conhece guerras e litígios. Sintomaticamente o lugar em que está o povo de Israel chama-se Massá (massah) e Meribá (merîbah), à letra,  lugar da tentação (nasah: v. 2) e do litígio (rîb: v. 2), que é o Horeb, onde está a rocha de onde jorra a água, dada por Deus ao seu povo, o qual, face às dificuldades do deserto, tinha já entrado na grande tentação, expressa na questão: «Está Deus no meio de nós, ou não»? (Êxodo 17,7).

    9. É ainda de uma beleza inexcedível o alcance dos versículos 15 e 16 do mesmo Capítulo 17 do Livro do Êxodo que estamos a seguir. YHWH-nissî [= «O Senhor, minha bandeira»], a bandeira ou o pálio de YHWH nas minhas mãos. É outra vez o manto ou o pálio carinhoso de Deus que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisarmos de «cuidados paliativos»… Foi a este manto, a este «pálio», que a medicina foi buscar os cuidados «paliativos». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os doentes, os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, e os moribundos…

    10. São Paulo adverte hoje Timóteo (2 Timóteo 3,14-4,2), seu discípulo e cooperador dileto, que as Escrituras não transmitem apenas um saber, que há que estudar, aprender e ensinar. Ele acentua que as Escrituras têm o poder (dýnamis) de nos comunicar a sabedoria que conduz à salvação. É esta dinâmica que se deve manifestar em tudo o que fazemos. Oportuna e inoportunamente. Portanto, sempre.

    11. O Salmo 121 é um delicioso hino inserido na coleção dos chamados «Cânticos das peregrinações» ou «subidas», que se estendem do Salmo 120 ao 134. O sonho do peregrino, que se lhe vê nos olhos e no coração, é o Senhor, que habita nas alturas de Sião. Por isso, enquanto atravessa montes e vales, leva já os olhos fixos no «monte Sião, belo em altura, alegria de toda a terra» (Salmo 48,3), e vai dialogando no seu coração acerca d’Aquele que é o seu auxílio (ʽezer) e o criador do céu e da terra (vv. 1-2). Depois desta fixação no seu Senhor, que reside em Sião, o salmista passa a contemplar Deus como o seu «guardador», três vezes o nome shômer [= «guardador»] (vv. 3.4.5), três vezes o verbo shamar [= «guardar»] (vv. 7[2 x].8), uma maneira de dizer um Deus protetor e atento, como a mãe que vela sobre o bebé, para seguir o belo dizer de Alonso Schökel: «Imagino uma cena noturna. Um bebé no berço que baloiça, docemente movido pela mãe que vigia. O vai e vem do berço, que poderia provocar medo, traz serenidade, porque o bebé sente a presença da mãe… No vai e vem da nossa vida, «levantamos os olhos» expectantes e descobrimos a presença vigilante de Deus, que nos tranquiliza». Vem depois a imagem da «sombra» protetora, que protege do sol escaldante do deserto, mas também dos raios nefastos da lua (vv. 5-6). No Próximo Oriente Antigo, os raios lunares eram temidos, podendo, como se pensava, causar febres, cegueira e loucura. E, mesmo entre nós, o termo «lunático» é aplicado a pessoas com comportamentos esquisitos e extravagantes. O Deus «guardador» reaparece no final, para nos guardar quando saímos e quando entramos (v. 8a), portanto, sempre. Pode entender-se do nosso movimento diário, mas também desde o nascimento até à morte, pois o verbo «sair» (yatsaʼ) também significa «nascer», e «entrar» (bô՚) pode aludir também ao túmulo. O acerto final «desde agora e para sempre» (v. 8b). Esta maneira forte de dizer deixa sob a guarda de Deus, não apenas o segmento da nossa cronologia humana, mas também o futuro misterioso do depois da morte. Graças a Deus.

    12. Celebra-se também neste Domingo o 99.º Dia Missionário Mundial. A ideia da instituição de um Dia dedicado à reflexão acerca da dimensão missionária da Igreja, bem como à oração, comunhão e partilha de vida com os nossos irmãos mais necessitados e com todos os missionários espalhados pelos cinco continentes foi apresentada ao Papa Pio XI em 1926 pelas Obras da Propagação da Fé. Dando logo seguimento à sugestão apresentada, o Papa Pio XI, conhecido como «o Papa das Missões», instituiu, nesse mesmo ano de 1926, o Dia Missionário Mundial, que, a partir de então, se tem celebrado anualmente. E este é já o 99.º Dia Missionário Mundial que celebramos, e o Papa Francisco convida-nos a dar testemunho de Cristo, neste Jubileu de Esperança, apondo a este Dia Mundial o tema «Missionários de esperança entre os povos». Bem sabemos que o Papa actual é Leão XIV, eleito em 08 de maio de 2025. Mas esta mensagem para o 99.º Dia Missionário Mundial já tinha sido escrita pelo Papa Francisco, e traz a data de 25 de janeiro de 2025, Festa da Conversão de São Paulo.

    António Couto


  • A Igreja celebra no dia 15 de outubro, a memória litúrgica de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja, padroeira de Espanha. Viveu entre 1515 e 1582. Aos sete anos de idade, já ia a caminho do martírio, mas foi travada nas suas intenções por um familiar. Aos catorze anos, perdeu a sua mãe, e começou a dedicar o perfume da sua vida à Virgem Maria, sua mãe espiritual. Ingressou numa escola de religiosas agostinianas, em Ávila, mas aos quinze anos adoeceu, e teve de ficar em casa vários anos. Foi então que leu as Confissões de Santo Agostinho e começou a interessar-se particularmente por Santa Maria Madalena. Entrou para o Convento Carmelita da Encarnação, em Ávila, em 1535, e ficou perplexa ao ver a vida mundana e relaxada das religiosas carmelitas, que então povoavam os mosteiros em grande número. Ao ver o estado deprimente do mosteiro em que entrou, tratou logo de fundar um Carmelo reformado, o que aconteceu em 1562-1563. Juntamente com São João Cruz, reformou a Ordem Carmelita, e os dois fundaram a Ordem dos Carmelitas Descalços. O Carmelo ganhou assim novo fulgor, pobreza, e a necessária espiritualidade e contemplação. Santa Teresa deixou-nos Obras extraordinárias que traduzem a sua vida mística e contemplativa, como “O Castelo Interior” e o “Caminho de Perfeição”. Foi ao ler estas grandes Obras que a judia Edith Stein se converteu ao catolicismo, sendo hoje Santa Teresa Benedita da Cruz. As últimas palavras de Teresa de Ávila, antes de morrer, foram: “Meu Senhor, é hora de seguir adiante. Pois bem, que seja feita a Tua vontade. Ó meu Senhor e meu Esposo, chegou a hora que tanto esperei. É hora de nos encontrarmos”.

    Foi canonizada em 1622 por Gregório XV. Em 27 de setembro de 1970, S. Paulo VI proclamou-a doutora da Igreja, juntamente com Santa Catarina de Sena, as duas primeiras doutoras da Igreja.

    Santa Teresa de Jesus, roga por nós, que atravessamos também tempos de grande confusão e de difícil visibilidade, a clamar por uma verdadeira reforma espiritual.

    António Couto


  • No meio da bruma e da esperança

    que envolve os passos de tanta gente

    nestes dias toldados por guerras e nuvens escuras,

    há sempre uma mãozinha que se sente,

    uma luzinha que se acende,

    nos alumia, nos acolhe e nos atende.

    Guia-me sempre, Luz amável,

    no meio do nevoeiro que me envolve:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    A noite é escura,

    a casa é distante:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    Guarda Tu os meus passos!

    Eu não peço para ver o horizonte distante:

    um passo de cada vez

    é para mim o bastante!

    Obrigado, Senhor Jesus!

    Tu és a Luz que me alumia

    a cada instante!

    Alumia também

    cada pedinte,

    cada viandante,

    que na penumbra dos dias,

    tenha perdido a fé ou o volante.

    António Couto


  • 2 Reis 5,14-17; Salmo 98; 2 Timóteo 2,8-13; Lucas 17,11-19

    1. De há muito que seguimos Jesus no seu caminho para Jerusalém. No seu caminho, que é o nosso itinerário ou currículo de formação. É por isso que devemos pôr toda a atenção em tudo o que se passa. No episódio do Evangelho proclamado no Domingo passado (XXVII do Tempo Comum), Lucas 17,5-10, fomos nós que pedimos a Jesus: «Aumenta a nossa fé!» (Lucas 17,5). E Ele foi ao campo buscar a metáfora da semente pequenina da mostarda e do serviço humilde e dedicado do servo que serve em tudo e sempre o seu Senhor (Lucas 17,10), acabando mesmo por ser servidos pelo seu Senhor (Lc 12,37).

    2. No seguimento imediato, o Evangelho proclamado neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, Lucas 17,11-19, continua a glosar a temática da fé, e põe diante de nós dez leprosos que empregam todas as suas forças para, com voz grande e em uníssono, se fazerem ouvir por Jesus. É a Jesus que dirigem o seu pedido, nestes termos: «Jesus, Mestre, Faz-nos Graça!» (Lucas 17,13). Aquele «Faz-nos Graça!» soa, no texto grego, eléêson hêmãs, cujo eco ainda hoje ressoa no nosso «Kýrie, eléêson» («Senhor, Faz Graça»). «Fazer Graça» é um dizer muito bíblico, que o pensamento ocidental desconhece, com que nós pedimos a Deus que, como uma mãe cheia de ternura, nos embale nos seus braços carinhosos e seguros e olhe para nós com o seu olhar carregado de bondade maternal. Note-se, porém, que esta relação maternal, carinhosa e gratuita, não assenta em nenhum determinismo. Não é movida pelos laços do sangue ou beleza atraente ou simpatia que nos move sempre para o valor, de acordo com a pedagogia grega, mas é devida a todos, até aos inimigos e àqueles com quem não simpatizamos e excluimos das nossas relações, os pobres, o estrangeiro, o órfão, a viúva, os refugiados, os descartados, é movida para o desvalor, de acordo com a pedagogia bíblica. Não se trata, portanto, da nossa natural inclinação para o valor, mas da imitação de Deus, que se debruça sobre o desvalor.

    3. Note-se que, no tempo e no mundo cultural de Jesus, os leprosos, devido à sua doença contagiosa, eram excluídos da sociedade, literalmente excomungados, e obrigados a andar longe dos povoados, não se podendo aproximar de ninguém. E, à vista de alguém, deviam gritar: «Impuro, impuro!», para que as pessoas se desviassem deles, de acordo com as prescrições que podemos ver no Livro do Levítico 13,45-46.

    4. O Evangelho diz-nos que se trata de um grupo de dez leprosos, certamente judeus e samaritanos. Já sabemos que os judeus não se dão com os samaritanos (cf. João 4,9). Mas aqui, afinal, andam juntos uns e outros. É bem verdade que a doença, a miséria, a dor, o sofrimento juntam as pessoas, sem olhar a credos e raças! E o grito que lançam juntos a Jesus é igualmente estranho e significativo, dado que, no seu grito, chamam a Jesus Mestre (epistáta) (cf. Lucas 17,13), eles que têm necessidade de cura e não de ensinamentos, pois, ainda que o desejassem, nem sequer podiam ir à escola. Então é como se estes leprosos estivessem a pensar em nós, a fazer-nos compreender que Jesus veio sobretudo curar os males do espírito e iluminar o escuro dos corações, desfazer os preconceitos e os nós que toldam tantas vezes a nossa vida quotidiana!

    5. É claro que Jesus escuta o seu pedido (nós é que não sei!), e manda que se vão apresentar aos sacerdotes, para que estes, dentro das suas competências de autoridade sanitária de controlo (Levítico 13,2-3; 14,2-32), os pudessem declarar curados da lepra. Note-se bem que Jesus os manda apresentar-se aos sacerdotes, antes de os curar, como quem diz que requeria deles uma fé total na sua capacidade de os curar. Eles partem, sinal da plena confiança que depositam em Jesus, pois, quando se põem a caminho, ainda continuam possuídos pela lepra. Na verdade, é depois de partirem, enquanto vão a caminho, que se sentem curados! (Lucas 17,14).

    6. O narrador tem o cuidado de avisar o leitor de que Jesus caminhava para Jerusalém (Lucas 17,11). Jerusalém é a meta de Jesus desde Lucas 9,51, e o narrador insiste neste nome em 9,53; 13,22; 13,33; 17,11; 18,31; 19,29. Enquanto insiste em sublinhar que o caminho de Jesus vai na direção de Jerusalém, e para que este aspeto fique claro, reduz todas as outras localidades por onde Jesus passa a cidades e aldeias inominadas, uma certa povoação, um certo lugar. É assim também no Evangelho hoje proclamado, em que o narrador nos informa que Jesus entrou numa aldeia (kômê), quando vieram ao seu encontro dez leprosos (Lucas 17,12), que lhe pediram que lhes fizesse graça (Lucas 17,13). O narrador informa-nos ainda que, ao vê-los, Jesus ordenou simplesmente que se fossem mostrar aos sacerdotes (Lucas 17,14). O leitor ou ouvinte pode presumir que os leprosos foram curados, e, no seguimento, enviados a Jerusalém, para que a sua cura fosse confirmada pelos sacerdotes. Todavia, o que o texto diz é que a ordem de Jesus precede a cura, que vai acontecer no caminho. Note-se em primeiro lugar o envio dos leprosos a Jerusalém. É lá que se encontram os sacerdotes. Note-se ainda a fé destes dez leprosos que pedem a Jesus que os cure, e ainda antes de serem curados, obedecem à sua ordem de seguirem para Jerusalém. Entretanto, a cura dá-se no caminho, mas só um dos dez volta para trás para se prostrar aos pés de Jesus e lhe agradecer (Lucas 17,15-16). Todos mostraram ter fé ao pedirem a Jesus que os curasse e ao obedecerem às suas ordens, pondo-se a caminho de Jerusalém, mas o que voltou atrás, só ele, soube juntar à fé um gesto de adoração.

    7. É agora que entramos no centro do episódio. Os holofotes do narrador põem em grande destaque este leproso que, sentindo-se curado, interrompeu a sua viagem e voltou para trás, louvando a Deus com voz grande, e veio agradecer a Jesus, prostrando-se aos seus pés, num típico gesto de adoração! O narrador informa-nos que era um samaritano (Lucas 17,15-16), portanto herético, estrangeiro, excluído, marginalizado, descartado, habitante da região «daquele estúpido povo que habita em Siquém», para o dizer com as palavras de Ben Sira 50,26. É-nos permitido deduzir ainda que este samaritano se sente pobre e devedor a Deus pela graça concedida, enquanto que os restantes, talvez todos judeus, não sentiram tal necessidade, bem pelo contrário, porque o seu pensamento teológico talvez os levasse a pensar que era Deus quem estava em dívida para com eles, e que, portanto, Jesus não teria feito mais do que devia fazer!

    8. Jesus louva a fé deste excluído, deste estrangeiro (Lucas 17,18), e deixa entender que a fé não consiste simplesmente em cumprir ordens, mas também em proclamar a boa nova da salvação, em reconhecer a graça recebida diante daquele que a concedeu, com uma voz tão grande como o grito com que antes lha pediu. Esta voz nova de louvor e de alegria precede mesmo o cumprimento dos ritos de purificação, precede qualquer rito, interrompe qualquer viagem, passa à frente de qualquer negócio. É já a segunda vez que Lucas nos mostra um samaritano a interromper a sua viagem. A primeira vez foi naquela estrada que descia de Jerusalém para Jericó, quando um samaritano se debruçou por amor sobre um homem meio morto (cf. Lucas 10,33-34). O viajante mesmo é Jesus. O seu discípulo, atento e sensível, segue o Mestre, e, ao seguir o Mestre, corta estradas velhas, abre estradas novas! Parte sempre de Jesus, chega sempre a Jesus, princípio e meta de todo o seu caminhar discipular.

    9. O contraponto musical vem hoje naturalmente do sírio Naamã, que se vê curado da sua lepra seguindo as instruções do profeta Eliseu, a quem recorre (2 Reis 5,14-17). Na verdade, Naamã tem de se desfazer, primeiro, de todas as evidências e de todo o tom negocial e diplomático, tem de cair abaixo da sua importância, das suas vestes de gala, das grandes somas de dinheiro, da atitude sobranceira de comprar. Naamã tem apenas de aprender a colocar-se nas mãos de Deus, para renascer puro como uma criança (2 Reis 5,14). E uma criança apenas confia e recebe. Não tem nada. No seguimento da história, e em claro contraponto com o desapropriamento de Naamã, que se desfaz de toda a sua importância e riqueza, somos levados a ver a ambição de Guiezi, servo de Eliseu, que fraudulentamente foi atrás dos bens de Naamã, procurando subir uns degraus na vida. O resultado de um tal procedimento é desastroso. Disse-lhe Eliseu: agora podes comprar vinhas e olivais, servos e servas, mas a lepra de Naamã se apegará a ti!

    10. Deus é fiel e não pode dar o dito por não dito, diz Paulo a Timóteo (2 Timóteo 2,8-13), a quem incentiva a proclamar a Palavra de Deus. Paulo está preso por causa do Evangelho e adverte Timóteo que também lhe pode vir a suceder a mesma coisa. E termina confessando com júbilo e firme ousadia que a Palavra de Deus continua à solta e ninguém a consegue aprisionar. É esta a âncora de Paulo, e deve ser também o baluarte firme de Timóteo. O equívoco dos poderosos e mentirosos que prenderam Paulo foi que, ao prender Paulo, pensaram que secavam a fonte do Evangelho, e, portanto, o Evangelho no seu todo. Pensavam que era Paulo que levava o Evangelho. Nem suspeitavam que era o Evangelho que levava Paulo! As correntes e as espadas do poder podem prender e decapitar Paulo, mas nada podem fazer para cortar e secar a torrente do Evangelho. Ao contrário, será o Evangelho a espada de dois gumes que rasgará por dentro e destruirá todo o poder orgulhoso, gorduroso e mentiroso que se lhe opuser (Hebreus 4,12). A Palavra de Deus anda sempre à solta, e mais dia menos dia há de encontrar-nos, também a nós, para nos salvar. Jesus veio, de facto, procurar e salvar o que estava perdido (Lucas 19,10). E aí estamos outra vez a fechar o círculo com o Evangelho de hoje na mão e no coração.

    11. Levantar-se-á sempre, desde o santuário do nosso coração emocionado, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôfar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

    12. Kýrie, eléêson, faz-nos graça, Senhor, e dá-nos um coração samaritano.

    António Couto


  • Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    mas não a aumentes tanto,

    que possamos pensar que a fé é como um banco

    de alto rendimento,

    e que, portanto,

    já não precisamos mais da tua mão,

    para nos guiar para fora do barranco.

    Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    mas aumenta-a só um bocadinho,

    de mansinho,

    como a semente da mostarda,

    que guarda

    o canto de um passarinho.

    Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    mas aumenta-a devagarinho,

    pé ante pé,

    para não perdermos o pé,

    pois perder o pé é perder a fé,

    e ficar perdido no caminho.

    Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    e assiste-nos sempre,

    na alegria e na tristeza,

    na saúde e na doença,

    e na nossa pequenez imensa.

    António Couto


  • Habacuc 1,2-3; 2,2-4; Salmo 95; 2 Timóteo 1,6-8.13-14; Lucas 17,5-10

    1. Falo do umbral do outono, de uma praça carregada de metáforas. Moro aqui debaixo deste céu. Claro que durmo ao relento. Sou pobre e puro. Pedinte apenas à porta do espírito. Como os plátanos no púlpito das praças, abrigo os pássaros. Atiram-me pedras os meninos. O meu lugar é aqui, de bruços nas palavras, pedra a pedra construindo o pátio do poema. É assim que hoje enfrento, em estilo diferente, mas de frente, os dizeres deste Domingo XXVII do Tempo Comum.

    2. Oiço bater à porta. Serás tu ainda? Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente envolta em neblina?

    3. Trazes a história de uma semente pequenina, microscópica. Trata-se da semente de mostarda (Lucas 17,6). Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra, dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria (cf. Lucas 13,18-19). E dizes, outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado, empedrado, empecadado, fazer ruir os nossos cálculos mais estudados, fazer florir o alcatrão das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra (cf. Lucas 17,5-6).

    4. Acrescentas logo, sempre para espanto meu, que uma vida de serviço e da máxima simplicidade é a melhor. E que, além de ser a melhor, é ainda também a melhor pregação, uma vez que, como nos ensinou o Papa São Paulo VI, na sua Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n.º 41, «O homem con­temporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas». Servir por amor. Sem tempo nem contrato. Sem cláusulas. Doação total. Dar a vida como tu, Senhor e Servo. Não se trata de dizer que sou um servo inútil (achreîos), se o serviço que prestei ao meu Senhor foi útil. Trata-se simplesmente de dizer que sou apenas um servo, e que a minha missão é «fazer tudo o que me foi ordenado», e que tudo recebo da liberalidade do meu Senhor. Servo apenas servo (Lucas 17,10), que não passa de servo, não sobe na carreira, não tem carreira, servo que se cumpre e esgota como servo, portanto, servo servido pelo seu Senhor, como ensina a parábola de Lucas 12,37. A fé é esse vínculo firme e fiel ao meu Senhor e ao meu irmão.

    5. Para me dizeres tanto, foste buscar metáforas ao campo: a semente, as árvores e o servo (Lucas 17,5-10). E, uma vez no campo, levas-me a visitar o jardim de Habacuc (1,2-3, 2,2-4), que aparece hoje também no mapa da liturgia. Poucos saberão, mas Habacuc é o nome de uma planta de jardim, talvez o manjerico ou a hortelã. Num clima seco como o do Médio Oriente, a plantinha de jardim está de passagem, portanto. Como diz bem Isaías, «de manhã viceja e à tarde seca» (cf. Isaías 40,6-8). É mesmo preciso ir depressa. Até porque Habacuc ainda tem de ir à cidade e escrever num grande painel publicitário, para que todos possam ver bem, a única palavra que Deus o incumbe de dizer: «o não-reto perecerá, mas o justo viverá pela FÉ» (Habacuc 2,4).

    6. A FÉ é a tal sementinha de nada, do tamanho do grão de mostarda, que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história. Um dito rabínico do tempo de Jesus afirmava que vale mais um grão de mostarda que um cesto de melancias. Vale também aqui o verso belíssimo da Primeira Carta de São João que a liturgia nos faz cantar hoje ao Aleluia: «Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé» (1 João 5,4).

    7. Corre e demora-te a ver esse painel, metáfora erguida na cidade, e aprende a FÉ, isto é, a FIDELIDADE. São Paulo demorou-se longamente a contemplar esse painel, de tal maneira que gravou os seus dizeres na alma e em Romanos 1,17 e Gálatas 3,11.

    8. Sim, Timóteo (2 Timóteo 1,6-8.13-14), escuta bem, reacende o dom de Deus que arde em ti, não tenhas vergonha do Evangelho, dá testemunho de Jesus Cristo, guarda a FÉ!

    9. Sim, não nos é permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus discípulos.

    António Couto


  • 1. A Igreja celebra com júbilo no próximo sábado, dia 4 de outubro, a memória litúrgica de S. Francisco de Assis, um dos santos que mais fundo entrou no coração do povo de Deus. Nasceu em Assis em 1182 e morreu na Porciúncula, também em Assis, logo após o pôr-do-sol do dia 03 de outubro de 1226. 44 anos de vida.

    2. Oriundo de família nobre e rica, Francisco viveu a sua juventude no meio de festas e folguedos, pouco ou nada se importando com os pobres, os doentes, princípios morais, religiosos e humanitários.

    3. Em 1202, Francisco foi mobilizado para a guerra entre Assis e Peruggia. Nesse tempo e circunstâncias, as guerras eram coisa de nobres. Acontece que Francisco foi feito prisioneiro na batalha de Ponte San Giovanni, e foi levado para Peruggia, onde esteve enclausurado durante mais de um ano. No cárcere, adoeceu gravemente. Foi libertado por esse motivo, e voltou à sua terra de Assis, onde passou anos de convalescença e meditação, com grande apoio da sua piedosa mãe.

    4. O ano de 1205, ou talvez 1206, marcará para sempre a vida de Francisco. É o ano em que recebe do próprio Senhor do Universo Crucificado, na Igreja de S. Damião, a missão de reparar a sua Igreja que ameaçava ruínas. E não era só, vê-se bem, o edifício da igreja de S. Damião. Era sobretudo o edifício espiritual da Igreja de Deus, o Povo Santo de Deus que espiritual e moralmente se desmoronava. É o ano em que beija e lava as chagas de um leproso (os leprosos sempre lhe repugnaram), e bebe a água com que as lavou. É o ano em que o «Rei da Juventude de Assis» participa numa última festa de despedida com os seus amigos. Francisco nasceu rico. Viveu a sua juventude em festas e folguedos. Tinha muitas coisas. A partir de 1205, ano em que ouve o Crucificado da capela de S. Damião dizer-lhe: «Francisco, vai e repara a minha Igreja, que ameaça ruínas», Francisco começa a ser tocado e trabalhado pela graça, terreno nos anos anteriores preparado pela sua mãe.

    5. Outra data importante na vida de Francisco é o ano de 1208. No dia 24 de fevereiro desse ano, tinha Francisco 26 anos, foi à missa à igreja de Santa Maria degli Angeli (Porciúncola), e ouviu proclamar o Evangelho da Festa de S. Matias (Mateus 10,6-14), que então se celebrava nesse dia, e entraram-lhe pela alma adentro as palavras de Jesus aos seus Apóstolos enviados em missão: «Ide» […]. «Recebestes de graça. Dai de graça. Não adquirais ouro, nem prata, nem cobre para os vossos cintos, nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão» (Mateus 10,6.8-10). Francisco ouviu essa página. E anota Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de Francisco, que «imediatamente se descalçou, abandonou o seu bastão, ficou apenas com uma túnica áspera, e substituiu o seu cinto por uma corda».

    6. Tomás de Celano descreve o «onde» e o «quando» desta cena: «um dia, em que nesta igreja (da Porciúncola) se lia a passagem do Evangelho relativa ao envio dos Apóstolos a pregar, o Santo, que estava presente e tinha captado o sentido geral, terminada a missa, pediu ao sacerdote que lhe explicasse a passagem. O sacerdote comentou-lha ponto por ponto, e Francisco, ouvindo que os discípulos de Cristo não devem possuir nem ouro, nem prata, nem dinheiro, nem alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, nem sandálias, nem dias túnicas, mas devem apenas pregar o reino de Deus e a penitência, de repente, exultando de fervor divino, exclamou: “É isto que quero, é isto que peço, é isto que desejo praticar com todo o meu coração”» (FF 356). Francisco levou o que ouviu a sério. E o segredo mais profundo desta reviravolta que Francisco operou (ou que foi operada em Francisco) consiste na mudança radical da sua vida, à maneira do Evangelho, chamemos-lhe conversão. Francisco não foi nem nunca quis ser um reformador, nem da sociedade nem da Igreja, não obstante a época em que viveu se apresentar cheia de chagas a sangrar no que à fé e aos costumes dizia respeito. Francisco não quis mudar o mundo nem a Igreja! Quis apenas mudar a sua vida de acordo com as pautas do Evangelho.

    7. Nas trevas brilhou uma luz. Imensa e intensa. Como no outro caminho de Damasco. Francisco mudou então a vida toda. Abandonou tudo. Desapropriou-se. Nunca ter nada de próprio passou a ser um dos seus lemas mais preciosos, e exigia a mesma radicalidade àqueles que o queriam seguir, e muitos eram. Francisco, fez-se pobre e irmão de todos, para levar a todos a incontida e incontrolável alegria encontrada. Francisco tinha descoberto a pérola preciosa da pobreza e da fraternidade.

    8. Na noite de 18 para 19 de março de 1212, Francisco recebe Clara, então com 18 anos, e entrega-lhe o hábito da pobreza e da penitência, colocando assim a «primeira pedra» das senhoras pobres, futuras clarissas.

    9. Em 1219/1220, Francisco faz uma peregrinação ao Oriente. Encontra-se com o sultão Malek-al-Kamel, e visita os lugares santos, particularmente Belém, regressando a Itália. 1220 é também o ano em que Fernando de Bulhões deixa os cónegos regrantes de Santo Agostinho, e se faz Frade Menor, seguidor de Francisco de Assis, tomando o nome de António.

    10. Em maio de 1221, a partir do dia 23, dia de Pentecostes, começou a realizar-se nas imediações da Porciúncola o primeiro Capítulo Geral dos «irmãos menores» que seguiam os passos de Francisco. E eram já tantos. O Capítulo ficou conhecido como o «Capítulo delle Stuoie», ou das esteiras. Na verdade, compareceu um número elevadíssimo de «irmãos», na ordem dos 5.000, e não havia logística possível para albergar e alimentar aquela multidão. Daí o recurso aos campos, às esteiras e aos ramos das árvores. Sintomático é que também não foi necessária logística nenhuma, dado que a população do lugar e de outras povoações se mobilizou, e foi trazendo os víveres necessários para alimentar tantos irmãos. O Capítulo durou sete dias, e ainda sobejaram muitos alimentos.

    11. Outra data importante e inesquecível é a noite de Natal de 1223, na aldeia de Greccio, acontecimento de que passaram há pouco os 800 anos. Jesus estava então esquecido e o seu Natal apagado na nossa velha Europa. E S. Francisco de Assis resolveu fazer um presépio em Greccio, uma aldeia pobre, vizinha de Assis. O presépio de Greccio era um presépio especial: não tinha nem Maria nem José, nem sequer o Menino Jesus! Francisco tinha pedido aos camponeses que pusessem lá apenas uma manjedoura, e que trouxessem um burro e um boi, e os colocassem um de cada lado da manjedoura. E que pusessem muito feno na manjedoura, para que os animais pudessem comer em abundância.

    12. O presépio não tinha nem Maria nem José… nem o Menino Jesus. A ideia genial de Francisco era expor nessa noite toda a verdade do Natal. Por isso, em vez de pedir que se colocasse a imagem do Menino Jesus na manjedoura, como fazemos nós ainda hoje, feito o presépio como atrás referido, procedeu-se à celebração da Eucaristia, tendo a manjedoura como altar, e, então sim, aí se faria presente o próprio Jesus, para ser por todos adorado.

    13. O dia 14 de setembro de 1224 é outra data a reter. Era a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Francisco tinha-se recolhido no ermitério de Monte Alverne. E fixando o olhar no Crucifixo de Monte Alverne, Francisco tem a graça de dele receber os estigmas.

    14. Em 1225 estava Francisco quase cego, recolhe-se em S. Damião, e compõe o famoso Cântico das Criaturas ou do Irmão Sol, que está agora a celebrar 800 anos.

    15. Se há uma marca que carateriza Francisco, e na qual todas as fontes são concordes, é a altíssima pobreza. No Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, em abril-maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, Francisco reúne e resume a sua aventura humana e espiritual nestas poucas linhas: «Como, em razão da fraqueza e do sofrimento da doença, não posso falar, manifesto brevemente aos meus irmãos a minha vontade nestas três palavras, que são: como sinal da minha bênção e do meu testamento, amem-se sempre uns aos outros (1); amem sempre nossa senhora, a santa pobreza (2); e sejam sempre fiéis e submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe Igreja (3)».

    16. Na sua obra póstuma Escritos de Londres e últimas cartas (1957), Simone Weil anotava que «a riqueza aniquila a beleza…, porque a esconde com a mentira. É a mentira contida na riqueza que mata a poesia. É por isso que os ricos têm necessidade do luxo como de um sucedâneo». Modelo de articulação entre a pobreza e beleza é S. Francisco, que «não procurou na pobreza a dor, mas a verdade e a beleza, a poesia do encontro verdadeiro».

    17. Acerca de Jesus, dizem os insuspeitos fariseus, no Evangelho de João: «O mundo veio atrás dele» (João 12,19). Todos sabemos quem era Jesus. E todos sabemos também que havia em Francisco de Assis qualquer coisa que não há em nós. «Por que razão o mundo inteiro corre atrás de ti?», terá perguntado um dia Frei Masseo a Francisco. Francisco terá respondido: «Porque os olhos de Deus não encontraram sobre a terra pecador mais vil do que eu». Frei Masseo não deve ter entendido a resposta de Francisco. Mas eu penso que a resposta é certeira e verdadeira, e deve ler-se ou cantar-se em duas pautas diferentes, mas complementares. Primeira: não há santo que não se sinta verdadeiramente pecador, o maior pecador; segunda, não há santo que não se sinta verdadeiramente amado e perdoado, vendo sobre ele cair em ondas sucessivas o olhar agraciador de Deus, o perdão de Deus.

    18. Já muito debilitado, Francisco morreu, como já dissemos, pouco depois do pôr-do-sol do dia 3 de outubro de 1226.

    19. Em 16 de julho de 1228, menos de dois anos depois da sua morte, foi canonizado em Assis pelo Papa Gregório IX.

    António Couto


  • Estamos à porta de outubro, um mês dedicado à causa da evangelização. Nada melhor para o fazer do que evocar, logo no primeiro dia de outubro, com a Igreja inteira, a memória de Santa Teresinha de Lisieux, popularmente conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, aclamada como Virgem e Doutora da Igreja e Padroeira Universal das Missões. Santa Teresinha viveu apenas 24 anos, tendo nascido em 2 de janeiro de 1873, ocorrendo a sua morte em 30 de setembro de 1897, faz hoje 128 anos. Entrou no Convento das Carmelitas de Lisieux aos 15 anos, com autorização expressa do Papa Leão XIII. A sua maneira de viver foi sempre o amor vivido nas coisas mais pequenas e humildes do dia-a-dia, na simplicidade, dedicação, oração e total confiança em Deus. O seu legado é o “Pequeno Caminho” ou a “Infância Espiritual”, como quem apanha um alfinete do chão ou uma das pequeninas rosas brancas que levam o seu nome. Tinha, todavia, um coração grande, do tamanho do mundo, e vivia ardentemente a paixão de salvar a humanidade inteira. Não admira, por isso, que sem nunca ter saído de casa ou do convento, tivesse sido declarada “Padroeira Universal das Missões”, em 1927, pelo Papa Pio XI, que já a tinha beatificado em 1923 e canonizado em 1925. O Papa S. João Paulo II declarou-a, em 1997, “Doutora da Igreja”. “No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, eu serei o amor”, escreveu ela. Como esta melodia faz falta nos dias de hoje. Os seus pais, Luís e Zélia, foram beatificados em 2008 e canonizados em 2015, caso único na história da Igreja. Como dizia bem S. João Paulo II, “a Santidade é a medida alta da vida cristã ordinária”. Por isso, Jesus proclamou as Bem-Aventuranças no alto da montanha!

    Santa Teresinha do Menino Jesus, roga por nós e ensina-nos o teu Caminho pequenino e florido.

    António Couto


  • Cristo, que nos guarda, diz Santo Agostinho,

    adormeceu apenas uma vez, para nos salvar.

    Acordou, e não dormirá jamais.

    Estamos, pois, salvos e seguros,

    com Alguém sempre por perto e vigilante.

    Mas é bom saber também

    que este Alguém

    é Aquele-que-nos-ama,

    aquele-que-nos-chama,

    a nós que adormecemos tantas vezes.

    Mas, ainda assim, deu-nos também os Anjos e os Arcanjos,

    para serem a nossa Companhia e nossa Guarda,

    de noite e de dia,

    e acenderem na nossa alma uma luzinha de alegria

    do tamanho de um grãozinho de mostarda.

    A Igreja celebra amanhã, dia 29, a Festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.

    Obrigado, Senhor, por nos dares estes companheiros,

    e também mensageiros,

    vigilantes e atentos,

    que guiam os nossos passos em todos os momentos.

    António Couto


  • Amós 6,1.4-7; Salmo 146; 1 Timóteo 6,11-16; Lucas 16,19-31

    1. A parábola que nos é dado escutar neste Domingo XXVI do Tempo Comum, conhecida por «O rico avarento e o pobre Lázaro», narrada em Lucas 16,19-31, tem duas coisas únicas: 1) a primeira reside no facto de ser a única parábola de Jesus em que uma personagem ostenta nome próprio, Lázaro, nome emblemático que significa «Deus ajuda»; 2) a segunda tem a ver com o facto de que Jesus não dá qualquer explicação da parábola, nenhuma chave de interpretação nos é dada por Ele.

    2. A parábola mostra, em comparação (sýnkrisis) e em claríssimo contraponto, um RICO e um POBRE, de nome LÁZARO. Do RICO, que permanece anónimo, é dito que se vestia luxuosamente de púrpura e linho fino, sempre em comparação e em contraponto com o POBRE LÁZARO que se apresentava coberto ou vestido de chagas. A púrpura era considerada na antiguidade o tecido mais raro e precioso, e a tradição rabínica reservava-o aos reis. Do RICO é dito que se banqueteava sumptuosamente, outra vez em comparação e contraponto com o POBRE LÁZARO, esfomeado, que bem desejava comer os restos do miolo do pão com que o RICO limpava a gordura das suas mãos, de que resultavam pequenas bolas, que atirava depois aos cães!

    3. O RICO é absolutamente insensível, apresentado em contraponto até com os próprios cães, que se aproximavam do POBRE LÁZARO e lhe lambiam as chagas! A questão de fundo nem está em que o RICO hostilize o POBRE. Está em que nem sequer o vê! E a presença e o gesto simpático dos cães não tem o significado que hoje lhes atribuiríamos, mas exatamente o contrário, pois o cão era um animal impuro, e ser abandonado aos cães era uma desonra (cf. 1 Reis 21,19).

    4. Enfim, morre o POBRE LÁZARO e morre também o RICO anónimo, e o nevoeiro começa a dissipar-se. LÁZARO é acolhido no seio luminoso de Abraão. O RICO cai nos braços de um lume inextinguível que o aperta e atormenta.

    5. É então que o RICO levanta os olhos, e começa a ver alguma coisa para além de si mesmo. Mas o que vê, ou quem vê, é ainda para tentar pôr ao serviço do seu «eu» muito autorreferencial. É assim que vê finalmente, só agora, o pai Abraão e LÁZARO. A Abraão vê-o como pai (Lucas 16,24). Mas ao POBRE LÁZARO ainda não o consegue ver como um irmão, mas apenas como um servo que agora lhe pode ser útil. O RICO já não pode fazer mais nada. É irreversível a sua situação. Recorre então ao pobre para duas coisas, agora também impossíveis: primeiro, para refrescar a língua do RICO (Lucas 16,24); segundo, para avisar os cinco irmãos do RICO, vivos, ricos, insensíveis e insensatos como ele (Lucas 16,27-28). O RICO continua afinal a pensar nos RICOS, e ainda se quer servir, para esse efeito, dos pobres… No entanto, o facto de a parábola trazer os vivos para a cena constitui um elemento importante, pois é a situação do leitor e do ouvinte da parábola. E ficamos então todos a saber que também a nós toca a conversão. E que é este o tempo da conversão. E que, para esse efeito, não é suficiente vir alguém do além para nos fazer mudar de ideias. Para isso, basta escutar a Palavra de Deus e agir em consequência.

    6. A resposta de Abraão é esclarecedora e decisiva. Há um abismo entre nós e vós. Claro que o abismo que AGORA não é possível transpor é o abismo cavado em vida pelo RICO separando-se do POBRE. É, portanto, HOJE que o RICO deve ouvir a voz do POBRE. É, portanto, HOJE que o RICO deve escutar Moisés e os Profetas.

    7. A parábola é imensa. É como uma faca apontada ao coração dos RICOS de hoje, que continuarão a fazer as suas reuniões faustosas e vistosas, mas continuarão a não cumprir sequer os «Objetivos de Desenvolvimento do Milénio», estabelecidos no ano 2000 para erradicar doenças e reduzir para menos de metade a pobreza extrema. A pobreza afinal é dos outros, que nós não conhecemos de lado nenhum, ainda que estejam doentes e esfomeados ali mesmo à nossa porta! Pensam como o RICO da parábola.

    8. Lembremo-nos que, no imaginário da Idade Média, o POBRE LÁZARO, nome que significa «Deus ajuda», saiu para fora da parábola e se transformou numa personagem histórica, padroeiro dos leprosos e mendigos. É assim que nascem os «Lazaretos», edifícios destinados a albergar e tratar os deserdados e doentes. E, no século XVII, S. VICENTE DE PAULO, cuja memória a Igreja celebra no dia 27 de setembro, que dedicou toda a sua vida aos pobres, fundou os Padres LAZARISTAS (sempre sobre a memória do POBRE LÁZARO), para continuar essa bela missão de saber que os pobres existem, que têm nome, e de os tratar com carinho. E, no século XIX, o beato FRÉDÉRIC OZANAM fundou as CONFERÊNCIAS VICENTINAS, que alicerçou sobre uma frase de S. VICENTE DE PAULO: «A caridade é inventiva até ao infinito!».

    9. Está à vista, meus irmãos, que o POBRE LÁZARO tem de voltar a sair da parábola para nos incomodar e nos colocar todos os dias no caminho da criatividade da bondade e da Caridade!

    10. E aí temos outra vez Amós (6,1-7) a bater à nossa porta, a desassossegar o nosso sossego, a desmoronar os nossos belos palácios de marfim, a surpreender-nos enfartados e bêbados, deitados por aí em qualquer divã. O retrato feito nos vv. 4-6 é considerado como a melhor e mais ampla descrição da vida luxuosa dos ricos em todo o Antigo Testamento. Estendidos, isto é, reclinados (ver também Amós 2,8), para comer e beber, não o pão e o vinho da bênção de Deus e da partilha com os necessitados, mas o pão do crime e o vinho da violência (Provérbios 4,17). Mas também semelhantes à palha, deitada, e não de pé, como a árvore plantada, de acordo com as imagens vegetais utilizadas no Salmo 1 para retratar o insensato em confronto com o justo. A árvore plantada, portanto, de pé, está viva, respira o vento, dá fruto. A palha, essa, está deitada, é levada pelo vento, não dá fruto, mas é a casca do fruto. Ricos, orgulhosos, altivos, atulhados de excessos,  de luxos e de lixos, mas completamente indiferentes aos pobres – «não se afligem com a ruína de José» (6,6) –, o retrato traçado desta confraria dos «estendidos» só é comparável, porventura, com a parábola lucana do rico e do pobre Lázaro, que hoje também temos a graça de ouvir nos nossos ouvidos. Mas aí estão também já os Assírios para pôr fim àquilo que tantas vezes julgamos seguríssimo, senão eterno. Sim, os habitantes da Samaria irão nus e descalços para o exílio na Assíria. E um dia hão de chegar os arqueólogos, que descobrirão debaixo das ruínas os restos deste mundo podre e dissoluto!

    11. E a solene exortação de São Paulo a Timóteo, seu discípulo dileto, que hoje nos visita outra vez (1 Timóteo 6,11-16). Começa o v. 11a, com uma forte advertência a Timóteo a fugir destas coisas. Quais coisas? É preciso visitar atrás os vv. 4-6, onde se encontra um elenco de vícios, como o orgulho, controvérsias, conflitos de palavras, inveja, contendas, blasfémias, más suposições, lutas infindáveis, a piedade como fonte de lucro. No v. 7, encontramos esta verdade: «Nada trouxemos para o mundo, nem dele coisa alguma podemos levar». E ainda a grande sabedoria condensada no v. 10: «A raiz de todos os males é o dinheiro». Ora bem, é disto tudo que Timóteo deve fugir, para perseguir um elenco de virtudes, como a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão (v. 11b). Paulo exorta depois Timóteo a combater (agônízô) o bom e belo combate (agôn) da fé, para conquistar a vida eterna (v. 12a), e a fazer uma boa e bela profissão de fé (homología), como Jesus Cristo fez diante de Pilatos (vv. 12b-13).

    12. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

    António Couto


  • A Igreja celebra no próximo dia 27, Sábado, a figura ilustre de São Vicente de Paulo, que encheu o século XVII de caridade, e vamos ouvir no Evangelho do próximo Domingo, dia 28, a parábola do Rico, que se banqueteava, e do pobre Lázaro, chagado e faminto, literalmente encostado à sua porta. Lembremo-nos agora que, no imaginário da Idade Média, o pobre Lázaro, cujo nome significa «Deus ajuda», saiu fora da parábola e transformou-se numa personagem histórica, como padroeiro dos leprosos e mendigos. É assim que nascem os «Lazaretos», edifícios destinados a albergar e tratar os doentes e deserdados. E, no século XVII, São Vicente de Paulo, cuja memória celebramos no próximo Sábado, que dedicou a sua vida toda aos pobres, fundou os Padres Lazaristas (sempre sobre a memória do pobre Lázaro), para continuar essa bela missão de tratar os pobres com carinho. E, no século XIX, o beato Frederico Ozanam fundou as Conferências Vicentinas, entregando-lhes a sublime missão de assistir os pobres e necessitados, sempre com referência a São Vicente de Paulo e à caridade por ele vivida e pregada, e que, nas suas palavras, é «inventiva até ao infinito».

    São Vicente de Paulo, ensina-nos a sair da nossa indiferença e a amar um pouco mais os pobres e desfavorecidos deste mundo, atirados pela porta fora pelos ricos e poderosos.

    António Couto


  • Hoje, dia 21 de setembro, é Domingo, e a Igreja celebra naturalmente o Dia do Senhor. Se não fosse Domingo, a Igreja celebraria a Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista, pois o dia 21 de setembro é o seu dia. Por isso, aqui inserimos umas linhas sobre ele. Mateus era publicano de profissão. O termo publicano deriva do termo latino publicanus, que designa coletor de dinheiro público. O posto de cobrança de Mateus situava-se um pouco a norte de Cafarnaum, junto da estrada internacional que ali passava, lugar de passagem, e que ligava o Egito à Mesopotâmia. Como publicano, Mateus estava ao serviço do poder ocupante, o império romano, e cabia-lhe a tarefa odiosa de cobrar impostos aos seus concidadãos judeus para os entregar às autoridades romanas. Era, pois, naturalmente mal visto e odiado pelos judeus, que diariamente o insultavam e enchiam de nomes feios.

    Até que um dia passou pela banca de impostos de Mateus um homem chamado Jesus, que, em vez de o insultar, poisou nele o seu sereno olhar de amor, e disse: «Segue-me!». A resposta de Mateus foi imediata. Atingido no coração por um olhar novo e uma palavra nova, Mateus levantou-se e seguiu Jesus. Afinal, era a primeira vez que alguém o tratava como seu igual! O passo seguinte foi uma Festa que Mateus ofereceu aos seus amigos, publicanos e pecadores como ele, e a Jesus e aos seus discípulos. É aqui que nasce o Apóstolo e Evangelista São Mateus.

    São Mateus, roga por nós e por todos os que desconhecem Jesus e não sabem o que é um olhar de Amor e de Perdão.

    António Couto


  • Amós 8,4-7; Salmo 113; 1 Timóteo 2,1-8; Lucas 16,1-13

    1. O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a Lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas belas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

    2. A parábola do Administrador desonesto, que escutaremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a leem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

    3. O leitor ou ouvinte simples e de boa fé diz naturalmente que não, e compreende que deve afinar pela honestidade a sua vida. Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o desconforto sentido pela incompreensão do texto, por indagar os costumes então em uso na Palestina, e descobrem que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que se ausentavam para os seus negócios, deixando no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o montante que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros ou benefícios, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

    4. Explicação aparentemente fácil e sensata, mas que não pode ser levada em conta. É demasiado equilíbrio para tão pouca explicação! Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, e tão pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a prontidão, inteligência, clarividência e largueza de vistas com que o administrador procede, sem permitir que o assalte, nem por um momento, a hesitação ou a fuga às suas responsabilidades.

    5. É verdade que o administrador da parábola e o discípulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador, não a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontidão, inteligência e largueza de vistas. Todavia, se a parábola só ensinasse isto, tratava-se de coisas óbvias que a vida sensata nos vai ensinando todos os dias. Para aprender apenas isto, não é preciso ler ou ouvir nenhum Evangelho. O Evangelho tem de nos levar para além do habitual, tem de desequilibrar completamente as nossas habituais maneiras de fazer e proceder.

    6. Prossigamos então este caminho. Na sua literalidade (nem precisamos de ser muito rebuscados), este pedaço do Evangelho deve revolver completamente os nossos procedimentos. E aquilo que salta à nossa vista, quer queiramos quer não, é a figura de um administrador que esbanja completamente os bens de que dispõe, e que não são dele. São do seu senhor. Inequívoco. O texto diz expressamente que o administrador «convocou os devedores do seu senhor, e disse ao primeiro: “Quanto deves ao meu senhor?”» (v. 5). Fica claro quem é o proprietário daqueles bens: é o senhor do administrador e dos devedores. À pergunta formulada pelo administrador: «Quanto deves ao meu senhor?», o devedor respondeu: «Cem talhas de azeite». Resposta do administrador, que traz para a cena, agora sim, não a usual prudência e honestidade, mas o Evangelho: «Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (v. 6). Sem equívocos: este administrador é um esbanjador dos bens do seu senhor! Olhemos então de frente, e perguntemo-nos: «E Jesus não veio esbanjar os bens do Pai?». Não esbanjou e continua a esbanjar o amor, o perdão, a vida, a misericórdia, a alegria, a paz? E não ensinou os seus discípulos a fazer assim também? Portanto, o administrador da parábola não faz mais do que Jesus fez e faz. Por estranho que pareça, distribuir sem medida, «esbanjar», é a ideia-chave e a palavra-chave da parábola. E então, o leitor e o ouvinte desta parábola do Evangelho já sabem até que ponto este bocadinho de Evangelho pode e deve envolver e revolver a sua vida.

    7. Mas, há ainda, no v. 6, outro belo apontador do Evangelho, que não podemos descurar. É aquele: «Senta-te depressa…». Mas que pressa é esta? É a pressa e o mapa da Páscoa do Egito, porta aberta para a viagem transitiva e intransitiva da liberdade: «Comereis a toda a pressa com os rins cingidos, as sandálias nos pés, o cajado na mão; é a Páscoa do Senhor» (Êxodo 12,11). É a pressa do mensageiro de Isaías 52,7, que corre sobre os montes porque tem para anunciar boas novas a Sião, exultação logo replicada pelas sentinelas de Sião, e que chega a revolver e a envolver mesmo as próprias ruínas de Jerusalém (Isaías 52,8-9). É a pressa do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, que o amor faz correr sobre os montes. É a pressa de Maria que se levanta e se põe a caminho apressadamente (Lucas 1,39), Arca da Nova Aliança portadora do Evangelho em pessoa. É a pressa dos pastores dos campos de Belém, que correm a Belém (Lucas 2,15-16), para ver e saudar o Salvador acabado de nascer. É a pressa dos setenta e dois discípulos de Jesus (Lucas 10,4), enviados por Jesus, sem paragens no caminho, procedimento inconcebível no mundo do Médio Oriente Antigo (onde as pessoas se entretinham longamente a conversar), e que lembra a pressa imposta pelo profeta Eliseu ao seu servo Guiezi para ir, sem paragem no caminho, ao encontro do filho morto da Sunamita (2 Reis 4,29), a qual também tinha partido a toda a pressa para casa de Eliseu (2 Reis 4,22). É a pressa do Pai do filho pródigo, quando interrompe o discurso do filho, e diz para os criados: «”Depressa”, trazei o primeiro vestido, e vesti-lho» (Lucas 15,22). É a pressa de Jesus, quando diz para Zaqueu: «Desce depressa, porque é preciso para mim ficar hoje em tua casa» (Lucas 19,5). É a pressa de Zaqueu a descer do sicómoro e a receber Jesus em sua casa, para virar a sua vida toda do avesso (Lucas 19,6). É a pressa das mulheres e dos homens da Páscoa, que até hoje não param de correr (João 20,2.4). É a pressa de Pedro pelo anjo atirado da prisão para a rua (Atos 12,7). É a pressa de Paulo em anunciar aos judeus de Damasco que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9,20). É esta a pressa do administrador esbanjador dos bens do seu senhor, que diz para um dos devedores: «Cem talhas de azeite? Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (Lucas 16,6). Não nos resta senão acelerar a nossa vida para nos pormos ao ritmo do Evangelho.

    8. A parábola contada por Jesus permite ainda uma correta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nós nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, ídolo a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5; Baruc 6,69). No nosso caso e nesta sociedade moderna, pode tratar-se de belos edifícios plantados no meio das cidades. É aí que estão os bancos! O historiador das religiões, David Flüsser, atravessava um dia a cidade de Atenas enquanto refletia sobre a fé, grego pístis, no Novo Testamento. E quando levantou os olhos, deparou-se com grandes letras no frontal de um edifício. Leu: trápeza tês písteôs, à letra, banco de fé, em termos modernos, banco de crédito! Veja-se, hoje, com olhar lúcido, o logro ou o lodaçal das nossas arquitetadas seguranças!

    9. Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben Sira já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben Sira 27,1-3).

    10. O livro de Amós, de que hoje ouvimos também uma pequena perícope (8,4-7), caustica severamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas o seu Livro parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda atualidade. A lição de hoje abre com a chamada «fórmula de atenção» [= «Ouvi»], que introduz habitualmente oráculos de desgraça, e dirige-se aos ricos e latifundiários, que vendem o trigo aos necessitados, enganando-os e roubando-os sorrateiramente, usando balanças, medidas e pesos falseados, comprando o trabalho dos pobres por um par de sandálias! Como se vê, sendo embora o texto do séc. VIII a.C., parece que estamos a ler um compêndio moderno de economia e comércio, que tem em vista apenas o lucro fácil a custo seja do que for. O oráculo termina referindo que para um tal comportamento de roubo, para cúmulo disfarçado de seriedade, não há amnistia: «nunca o esquecerei», diz Deus (v. 7). O efá, de que se fala no texto (v. 5), usado para medir cereais, equivalia a 45 litros. O sheqel ou siclo, de que também se fala no v. 5, pesava 11,4 gramas. A moeda propriamente dita aparece no séc. VIII na Anatólia, e pouco depois na Grécia. O sheqel é o nome atualmente usado para designar a moeda israelita.

    11. Chega-nos hoje mais uma extraordinária lição de São Paulo na sua 1 Carta a Timóteo 2,1-8. Primeiro que tudo (prôton pántôn), rezar por todos os homens, usando todas as modalidades da oração: súplicas (deêseis), orações intensas (proseuchaí), pedidos (enteúxeis), ações de graças (eucharistíai) (v. 1). Depois, a afirmação da vontade salvadora universal de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos, e ao conhecimento da verdade venham (v. 4). Dois movimentos: um da parte de Deus, nunca anulável; outro da nossa parte, indicando que nos devemos pôr em movimento em ordem ao conhecimento profundo, pessoal, íntimo, experimental (epígnôsis) da verdade, que é o amor fiel e fiável de Deus por nós. Em continuidade, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nós (v. 5-6). A seguir, a razão de ser do próprio Paulo e da sua missão de anunciador (kêryx) e apóstolo (apóstolos) (v. 7). Por último, como ao princípio, a vontade de Paulo de que todos rezem em toda a parte (v. 8).

    12. E ficamos com a música inebriante do Salmo 113, o Salmo que abre o fascículo dos Salmos 113-118, catalogados como o «pequeno Hallel da Páscoa» ou «Hallel egípcio», Salmos cantados no decurso da Ceia da Páscoa hebraica, de que o Talmude regista uma imagem sugestiva, deixando supor que, no decurso da Ceia da Páscoa, se levantava das casas dos hebreus um suspiro de louvor que perfurava os tetos e chegava ao céu: «A Páscoa é saborosa como a azeitona, e o Hallel deve atravessar os tetos das casas para chegar ao trono de Deus». O Salmo 113, sessenta palavras hebraicas, apresenta três belos andamentos: o primeiro, v. 1-3, convida os orantes a encher de louvor o espaço todo visto na sua linha horizontal (do nascer ao pôr do sol: oriente-ocidente) e o tempo todo (agora e sempre). Este louvor intenso dirige-se à pessoa do Senhor, expressa pelo Nome do Senhor (três vezes). O segundo andamento, v. 4-6, desenha uma linha vertical no sentido descendente (céu-terra), e mostra a transcendência, a glória e a incomparabilidade de Deus, sentado no alto, nos céus, mas amorosamente debruçado sobre a terra. Portanto, o nosso Deus não é um Deus impassível e abstrato, fechado nas paredes douradas da sua eternidade, mas é um Deus que se interessa por nós. O terceiro andamento, v. 7-9, desenha agora uma linha vertical no sentido ascendente (terra-céu), e mostra Deus em ação no nosso mundo, levantando do pó e do esterco os indigentes, e fazendo da estéril, por todos desprezada, mãe honrada e feliz, habitante digna na casa do Senhor. Grande Hino de Louvor, que faz comunhão na vertical e na horizontal, e que nos junta a todos na bênção (v. 2), hebraico berakah, grego eulogía, que desenha um mundo de bondade e de bem, de pensar bem, dizer bem, querer bem, fazer bem. Bendizer ou dizer bem une, como sabemos. Une-nos uns com os outros e todos com Deus. É a Eucaristia. Ao contrário, maldizer ou dizer mal separa, como também sabemos.

    13. Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

    António Couto


  • Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores.

    Na aurora dos tempos Deus sonhou

    o sonho que continua a sonhar ainda hoje.

    Um sonho bom e belo e justo brota sempre do coração de Deus,

    e o Homem está no centro desse sonho feito criação.

    Coração a coração, sonho a sonho,

    o Homem sonhou também,

    e via-se então a humanidade toda de mãos dadas e abertas,

    sem sebes nem armas nem cobiças.

    Mas rapidamente se embotou o coração da humanidade,

    e apareceu a cizânia, a inveja, a ambição, a guerra.

    No coração da humanidade,

    o sonho transformou-se então em pesadelo e morte.

    Mas Deus não desistiu nunca do seu sonho.

    E, no coração do tempo,

    clareira aberta no bosque,

    luz nas trevas,

    Maria encostou o ouvido ao coração de Deus.

    Sonho a sonho,

    o coração de Maria começou a pulsar ao ritmo do coração de Deus.

    O sonho sonhado fez-se carne,

    e Maria tornou-se a Mãe da nova Humanidade.

    Mas as nossas raivas continuavam acesas e atiçadas

    contra este sonho estreme e indefeso.

    Foi assim que matámos o teu Filho, Senhora.

    Matámos o teu Filho.

    Mas tu vieste ao nosso encontro.

    Vens sempre ao nosso encontro,

    ao encontro dos teus filhos violentos,

    e acolhes-nos no teu regaço maternal.

    Mãe! Senhora das Dores!

    Senhora que acolhe as nossas Dores.

    Aqui estamos, nesta terra tão sofrida e tão querida.

    Recebe-a.

    Recebe-nos.

    Recebe o nosso coração violento e azedo.

    Recebe, Mãe, as nossas lágrimas,

    e troca-as por flores,

    Mãe, Senhora das Dores.

    Acolhe-nos, Mãe.

    Embala-nos nos teus braços maternais.

    Deixa-nos encostar o nosso ouvido ao teu coração de Mãe.

    Acolhe as nossas preces.

    Acalma-nos.

    Sorri para nós, Mãe.

    Queremos ir daqui embora sossegados, serenos, tranquilos.

    Como teus filhos queridos,

    protegidos pela tua bênção maternal.

    António Couto


  • Irei também, Senhor,

    Em procissão de amor,

    Beijar a tua Cruz.

    E quando eu olhar para ti,

    Para o teu rosto ferido e desfigurado,

    Para as tuas muitas chagas a sangrar,

    Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

    E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

    Com esse meigo olhar de serena compaixão,

    Dá-me a graça de aí ver o teu perdão nunca poupado,

    E de sair com o coração transfigurado.

    António Couto


  • Nm 21,4-9; Fl 2,6-11; Sl 78; Jo 3,13-17

    1. Por coincidir este ano com o dia 14 de setembro, a Igreja celebra, neste Domingo XXIV do Tempo Comum, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que se celebra todos os anos neste dia 14 de setembro. É sabido que a Igreja-Mãe de Jerusalém rapidamente fez do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. Na sua luta implacável contra o culto cristão, o Imperador Adriano (117-138), sobretudo nos últimos anos do seu reinado, transformou Jerusalém, em termos de edifícios e de moral, numa cidade de estilo romano, a Aelia Capitolina. Para tanto, soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de dissuadir os cristãos de continuar a frequentar esses lugares pelo temor da communicatio in sacris. Assim, no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. O projeto de Adriano não atingiu os seus fins, pois os judeo-cristãos continuaram a frequentar aqueles lugares, confundindo-se com os pagãos, que ali faziam ritos semelhantes, ainda que antitéticos. Neste sentido, conclui S. Jerónimo, que o imperador não conseguiu, como pretendia, apagar nas almas dos cristãos a fé na Ressurreição e na Cruz de Cristo. Não é de admirar, portanto, que, quando em 13 de setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, tenham sido logo demolidas as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que, em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração da Cruz: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

    2. E as coisas assim continuaram até ao ano 614, quando o rei persa Cosroé II conquistou Jerusalém e levou consigo a Santa Cruz. Neste dia, rezam as diferentes crónicas que documentam o sucedido no dia 20 de maio de 614, que «a Jerusalém do Alto chorava sobre a Jerusalém de baixo», tal era o grau de destruição, fúria, ódio, violência, sangue. Todavia, em 630, a Santa Cruz regressa a Jerusalém por obra do imperador bizantino Eráclio que, em 628, tinha derrotado o louco Cosroé II.

    3. São estes dois episódios históricos, dos séculos IV e VII, que fornecem o chão histórico para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que hoje celebramos. Anotamos, porém, que, mesmo sem estes episódios, e antes deles, a Cruz do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo, foi, segundo o Evangelho, exaltada para sempre diante dos nossos olhos.

    4. É, nesse sentido luminoso, que temos hoje a graça de ouvir o Evangelho de João 3,13-17, que expõe a toda a luz o «Filho do Homem, que deve (deî) ser levantado (hypsôthênai: aor. inf. passivo de hypsóô), para que todo o que acredita nele tenha a vida eterna» (João 3,14b). Vê-se perfeitamente que Jesus está a expor diante dos olhos de Nicodemos e dos nossos, a Cruz Santa e Gloriosa em que Ele próprio, o Senhor da Vida, será crucificado, que o mesmo é dizer, na linguagem Joanina, exaltado e glorificado. Note-se a presença da mão de Deus, quer na necessidade teológica, expressa naquele deî, que reclama o plano divino, quer na forma passiva utilizada na ação deste levantamento. Também é importante a comparação explícita que o próprio Jesus faz do seu levantamento com a ação de Moisés: «Assim como Moisés levantou (hýpsôsen: aor. de hypsóô) a cobra no deserto» (João 3,14a). E não podemos também perder de vista que, com este dizer, Jesus se assume como o verda­deiro Servo de YHWH, que «será exaltado» (hypsóô) por Deus (Isaías 52,13), e se apresenta a si mesmo como transparência de Deus: «Quando tiverdes levantado (hypsóô) o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou” (egô eimi), e que por mim mesmo nada faço, mas como me ensinou o Pai estas coisas falo (laléô)» (João 8,28). Paulo também dirá, na Carta aos Filipenses, acerca deste Jesus, que Deus o «sobreexaltou» (hyperhypsóô) (Filipenses 2,9).

    5. Notemos, antes de mais, que o levantamento de Jesus na Cruz é em ordem a dar a vida eterna (zôê aiônios) a todos os que creem (João 3,15-16). É por isso que Jesus diz: «Quando eu for levantado (hypsóô) da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32). E ainda: «Hão‑de olhar para aquele que trespassaram» (João 19,37). Na verdade, para ter a Vida verdadeira, eterna, divina, vivente, que não morre, é necessario ver [= acre­ditar] o Filho (João 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36). Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (João 3,5), isto é, do alto e de outra maneira (ánôthen) (João 3,3).

    6. Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naquelas chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está escondido em nós; 2) passa ali também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça. Sendo Deus amor, então a única maneira que Ele tem de curar o meu pecado não é decretar, lá do alto e de dentro das paredes douradas da sua eternidade, uma qualquer amnistia. A única maneira que Deus tem de me curar é descer ao meu mundo, viver no meu mundo, caminhar comigo, sujeitar-se às minhas maldades e violências, sofrê-las, absorvê-las e absolvê-las. É só assim, desarmado e só amando, que pode dissolver e absolver o pecado que há em mim. «Deus amou tanto o mundo» (João 3,16). A cura não é mágica. Levantada e exibida bem diante dos nossos olhos, naquele rosto desfigurado e naquele sangue a escorrer, a imagem da violência, mentira, ódios, dentro de nós escondida, mas agora declarada, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali exposto bem diante dos nossos olhos: é aquele amor e perdão subversivos!

    7. Era então necessário que Jesus sofresse na Cruz, daquela maneira, por nós? Sim, porque, para nos salvar, Deus não podia senão amar-nos. E, para nos amar, tinha sempre de vir viver connosco, no meio de nós, e sujeitar-se naturalmente às maldades e violências daqueles que Ele amava. Se nós fôssemos todos bons, seguramente que Jesus não teria sofrido e morrido naquela Cruz. Porquê? Porque não era necessário? Penso que a maioria de nós responderia que sim, que não era necessário. Mas a resposta verdadeira e objetiva nem sequer passa pelos terrenos da necessidade, e está toda aqui: Jesus não teria morrido naquela Cruz simplesmente porque, sendo nós todos bons, quem de nós ia fazer uma coisa daquelas?!

    8. Atenção, portanto: a Cruz não é o nosso pecado. É a imagem do nosso pecado! O pecado, que está em nós, produziu aquela imagem. Sim, está ali a imagem da nossa violência e estupidez. Vendo a imagem, podemos ver o pecado, o mal que há em nós, habitualmente escondido e dissimulado. A Cruz também não é o amor de Deus. É a imagem do Amor de Deus!

    9. Se olharmos agora para o texto do Livro dos Números 21,4-9, tudo fica mais claro. O pecado camuflava-se nos interstícios do coração do povo de Israel no deserto. O resultado era a murmuração contra Deus e contra Moisés, o não reconhecimento da ação libertadora de Deus no Êxodo e o desprezo do alimento dado por Deus no deserto, causa de fastio, e não de maravilha (Números 21,5). Como corrigir, com boa pedagogia, esta situação? Aí estão as cobras (nehashîm) venenosas, que mordem e matam (Números 21,6). A cobra é, por excelência, imagem do pecado. Esconde-se e dissimula-se como o pecado. E o veneno que transporta, igualmente dissimulado, conduz à morte, como o pecado. A cobra, como o pecado, anda dentro de nós, dissimulada nas pregas do nosso coração empedernido. É sintomático que o Livro do Génesis 3,14 refira que a cobra se alimenta de pó (ʽaphar). De pó (ʽaphar) foi modelado o homem (Génesis 2,7). Salta então à vista que a cobra se alimenta de nós. É um parasita perigoso que se alimenta de nós e nos vai corroendo. Como o pecado.

    10. Moisés expõe num poste uma cobra de bronze. Quem olhar para ela, fica curado (Números 21,8-9). Não se trata de magia, mas, outra vez, do realismo bíblico. Note-se também, antes de mais, que não era uma cobra que Moisés fixava no poste, mas a imagem de uma cobra. Olhar bem para a imagem da cobra leva-nos a descobrir a cobra verdadeira que anda dentro de nós, o veneno que transportamos, que nos mata e mata os nossos irmãos. Feito o diagnóstico, reconhecido o mal de que padecemos, podemos então iniciar o processo da cura. É neste ponto preciso que a boa pedagogia de Jesus em João 3,14 nos leva a ver bem o Filho do Homem levantado como Moisés levantou a cobra no deserto.

    11. O chamado «hino cristológico», que encontramos na Carta aos Filipenses 2,6-11, volta a pôr diante de nós o Filho de Deus, humilhado e exaltado, Jesus, que recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. Segundo as boas indicações gramaticais, o sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

    12. O Salmo 78 ensina-nos que a Bíblia é a longa história de uma salvação sempre oferecida, acolhida e, por vezes, rejeitada. Lembra-nos que que as maravilhas de Deus não são para guardar no cofre da família, mas para passar, de mão em mão, de coração a coração, de pais para filhos, de geração a geração. A catequese é o anúncio de um acontecimento em carne viva que nos deve comprometer, e não de uma série de frias ou requentadas teses teológicas.

    António Couto


  • Senhor, Tu falas,

    Tu fazes,

    Tu chamas,

    Tu ordenas.

    O teu dizer é belo, fácil e fecundo:

    Tu dizes, e tudo vem à existência.

    Todos os caminhos vêm de ti,

    vão para ti.

    És tu o Senhor de todos os chamados,

    de todos os reunidos,

    de todos os enviados.

    Nós somos os teus próprios discípulos,

    tua propriedade,

    coisa própria tua.

    Tu és a casa,

    a mesa,

    o caminho,

    o peixe,

    o pão,

    o vinho.

    Velas por todos:

    pelos pais,

    pelos filhos,

    pelos irmãos,

    pelos desfilhados,

    pelos órfãos,

    pelos desirmanados.

    Vela por nós, Senhor!

    Fica connosco!

    Dirige a nossa inteligência e a nossa vontade!

    Acalma-nos,

    quando nos vires em demasia atarefados e desorientados,

    com medo de morrermos afogados.

    Orienta a nossa barca!

    Deita-te tranquilamente à popa:

    o teu sono sereno

    há de por certo serenar as nossas tempestades.

    Senhor, vem em nosso auxílio!

    António Couto


  • 1. Vale a pena abrir uma das páginas seletas de Marcos, que transborda aromas de excecional serenidade e beleza. Trata-se do episódio de Marcos 4,35-41:

    «4,35E diz-lhes naquele dia, à tardinha: “Passemos para a outra margem”. 36E tendo eles deixado a multidão, tomam-NO consigo (paralambánousin autón), assim como estava (hôs ên), na Barca (en tô ploíô), e outras barcas estavam com ELE. 37E acontece uma grande tempestade de vento, e as ondas atiravam-se para dentro da Barca, de maneira a ficar cheia a Barca. 38E ELE estava à popa (prýmna), dormindo (katheúdôn) sobre a almofada (epì tô proskephálaion). E acordam-NO e dizem-LHE: “Mestre, Tu não Te importas que morramos?”. 39E, tendo acordado, ordenou ao vento e disse ao mar: “Cala-te! Acalma-te!”. E cessou o vento, e aconteceu grande bonança. 40E disse-lhes: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. 41E foram amedrontados (ephobêthêsan) de um medo grande (phóbos mégas), e diziam uns para os outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”».

    2. Um Evangelho de excelência, uma página imensa, como o mar imenso, em que somos convidados a mergulhar. Um luxo. Em pleno mar da Galileia, os discípulos / apóstolos de Jesus lutam, aflitos, contra a tempestade que ameaça desfazer a pequena e frágil embarcação no meio do mar encapelado (Marcos 4,35-41). A arqueologia pôs a descoberto as pequenas embarcações de pesca do tempo de Jesus. Tinham cerca de 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, tornando-se, portanto, presa fácil das ondas e do vento. E em claro e sereno contraponto, narra o Evangelho, «Jesus, à popa, dormia deitado sobre uma almofada» (Marcos 4,38). Não nos esqueçamos que a popa é o lugar de comando da embarcação. Jesus permanece, portanto, no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem nos apercebamos da serenidade da sua condução. A presença da almofada na pobre embarcação e do sono sereno de Jesus marcam bem o tom doce e tranquilo deste condutor diferente da nossa vida agitada. Não é a nossa agitação que conta. É o seu sono tranquilo. Ainda que algumas vezes nós caiamos na tentação, como, de resto, sucede com aqueles discípulos, de julgar o sono de Jesus como indiferença (4,38).

    3. Canta bem a Liturgia das Horas da Igreja:

    «Se me colhe a tempestade,

    E Jesus vai a dormir na minha barca,

    Nada temo porque a Paz está comigo».

    4. Senhor, Tu falas, tu fazes, tu chamas, tu ordenas. Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o caminho, o vinho, o pão, o peixe. Velas por todos: pelos pais, pelos filhos, pelos irmãos, pelos desfilhados (shekôl, shikulîm), pelos órfãos, pelos desirmanados. Vela por nós, Senhor, orienta a nossa barca, deita-te tranquilamente à popa (Marcos 4,38): o teu sono sereno há-de certamente serenar as nossas tempestades.

    5. Marcos descreve três travessias do mar da Galileia. Além da que aqui apresentamos agora (Marcos 4,35-41), veja-se também Marcos 6,45-52 e 8,13-21. Carateriza-as sempre o facto de a precedê-las estar o afastamento das multidões. Por outro lado, estas travessias do mar na Barca deixam Jesus a sós com os seus discípulos, possibilitando-lhes uma experiência pessoal com Ele. A Barca (tò ploîon) demarca, de resto, um espaço privilegiado que Jesus condivide unicamente com os seus discípulos. Mais ninguém entra nessa Barca, ainda que o solicite (veja-se Marcos 5,18).

    6. Na travessia de hoje, levantou-se uma violenta tempestade, que encheu de água a pequena Barca e de medo aqueles discípulos. Como Jesus dormia tranquilamente deitado sobre a almofada, os discípulos correram a acordá-lo, deixando no ar um certo tom acusatório por aquilo que julgavam ser o desinteresse de Jesus pela vida dos que seguiam com Ele: «Tu não te importas que pereçamos?» (Marcos 4,38).

    7. Jesus levanta-se e mostra um modo novo de fazer bem diferente dos seus discípulos. Dirige-se primeiro ao vento e ao mar, dando duas ordens: «Cala-te! Acalma-te!» (Marcos 4,39). E parou o vento, e fez-se bonança no mar (Marcos 4,39). Só depois disto, Jesus se dirige aos seus discípulos, não com duas ordens, mas com duas perguntas incisivas: «Por que tendes medo? Ainda não tendes fé? (Marcos 4,40). Os discípulos não responderam, mas expressam a sua reação perante tudo o que viram Jesus fazer e ouviram Jesus dizer: «Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?» (Marcos 4,41).

    8. Já lá atrás, em Cafarnaum, Jesus tinha dado ordens a um espírito impuro, e ele obedeceu (Marcos 1,26-27). Fica então claro que os espíritos impuros e as forças da natureza, que não reagem a palavras humanas, seguem à letra as ordens de Jesus. Os discípulos saem então de um temor, não para a acalmia, como seria de supor, mas para outro temor ainda maior. É o temor que resulta da experiência do poder divino, sobreumano (Êxodo 14,31). Tal como o perigo, também a salvação do perigo é superior ao homem, vence a humana impotência e desperta o sentido profundo do sagrado. O novo temor daqueles discípulos mostra o sentido que começam a ver nascer do fazer divino de Jesus. Mas expressa também o seu espanto diante da pergunta de Jesus [«ainda não tendes fé?»], que deixa supor uma fé incondicionada. Se fosse requerida por um homem, uma tal fé seria impossível e sem sentido. A pergunta que os discípulos se fazem entre si é, portanto, dupla: «Quem é este que faz tais coisas e que pede uma tal fé»? Esta pergunta não exprime dúvida, mas espanto sagrado e pesquisa atenta. Acompanhá-los-á daqui para a frente no seu caminho com Jesus.

    9. Note-se que, no episódio hoje diante de nós estendido, e nunca de todo entendido, a iniciativa de entrar na Barca é de Jesus (Marcos 4,35), mas também é dito que os discípulos «tomam Jesus, assim como estava, na Barca» (Marcos 4,36). Pode passar despercebido, mas esta fantástica anotação não é uma pequena nota do diário de bordo daquela travessia marítima. Serve, antes, para nos apercebermos bem que, na verdade, é Jesus que conduz aqueles discípulos, estes discípulos, assim como somos, assim como estamos!

    António Couto


  • Os seguidores de mesadepalavras.wordpress.com devem ter reparado que o site deixou de ser atualizado há cerca de quinze dias. Problemas técnicos ainda hoje não compreendidos a isso obrigaram o autor e alimentador do site. Além disso, Todo o acervo de mesadepalavras.com, que contava mais de 1300 posts foi perdido, e permanece irrecuperável. A página aberta ao público ainda permanece disponível, por enquanto, e pode ser aproveitada.

    Anuncio aos muitos seguidores, de todas as latitudes, a criação de um novo site, também com o título mesadepalavras.org. A única pequena diferença está no .org. Esquecendo o passado, que permanece irrecuperável, este novo site vai manter a identidade do anterior, servindo sobretudo as páginas litúrgicas, como era usual no anterior. Mas não só. Haverá também, como já se fazia no anterior, anotações apropriadas às circunstâncias que se forem deparando na dobadoira próprio do tempo.

    Para começar, vou colocar o post mais visitado no site anterior: “Jesus, à popa, dormia deitado numa almofada”.

    Saudações a todos os antigos e novos visitantes.

    António Couto