• Páscoa significa passagem. É passagem. Transitiva e intransitiva. No mapa e no coração. Do inverno para a primavera, como os antigos pastores beduínos seminómadas, nas origens de Israel, e como registam os calendários dos modernos sedentários. Da escravidão para a liberdade, como os hebreus do Egito para a Terra Prometida. Da morte para a vida, como Jesus Cristo, que assume, atravessa e transfigura todas as nossas Páscoas ou passagens. A Páscoa és Tu, Senhor, que passas e nos chamas a seguir-te, e a estar contigo, para depois nos enviares em missão. «Vinde atrás de mim» (Mateus 4,19). «Vinde ver» onde moro (João 1,39). «Ide por todo o mundo» (Mateus 28,19).

    Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti, voltam a sair de ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o vinho, o pão, o peixe. Tu és a Páscoa verdadeira. Seguindo-te de perto no caminho, nós aprendemos e «sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Onde a habitual trajetória que seguimos parece levar-nos inexoravelmente da vida para a morte, tu vens ensinar-nos um caminho novo que faz passar da morte para a vida. E que esse caminho é o amor.

    A Páscoa é também o tempo social, usual entre nós, de limpar as casas e os caminhos, e de os alindar com flores. Mas a Páscoa é sobretudo o tempo interior da máxima exposição ao amor e à palavra que nos lava os pés e a alma, e que nos limpa o coração: «Vós já estais limpos, por causa da palavra que ouvistes de mim» (João 15,3). A Páscoa é então o tempo intenso de nos deixarmos operar pelo bisturi da palavra, que penetra até às pregas mais recônditas do nosso engessado coração (Hebreus 4,12). A Páscoa é a luz fulgurante que acende a nossa vida, e nos leva a passar essa luz, que é Jesus Ressuscitado, de mão em mão, de coração a coração. A Páscoa é Missão.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

    Mas quando dizem que Te querem ver,

    não é para Te conhecer.

    É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

    a tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

    Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

    Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

    quando Te dás a conhecer a nós,

    não mostras o rosto,

    uma fotografia,

    o cartão de cidadão.

    Se fosse assim,

    mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

    E o facto é que,

    quando surges no meio deles,

    não Te reconhecem.

    E em vez do rosto,

    são, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

    Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

    Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

    é dar a mão e o coração.

    É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

    Senhor, dá-nos sempre desse pão!

    António Couto


  • Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia

    Atos 2,42-47; Salmo 118; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31

    1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), que o Papa S. João Paulo II, em 30 de Abril do ano 2000, consagrou como «Domingo da Divina Misericórdia». Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência e da Precedência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua vida e à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. João Batista tinha apresentado Jesus como Aquele que batiza com o Espírito Santo (João 1,33), que é a vida de Deus, a Dýnamis, o poder de Deus, imperecível, que só Deus pode comunicar. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

    2. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo, quando Ele por graça se faz ver, não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Não se capta deste lado, seja qual for a técnica aplicada. É-nos dado por graça reconhecê-lo. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz, de onde jorra também a dádiva do Espírito (João 19,34; cf. 7,37-39; Atos 2,33). Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, fazendo-nos ao mesmo tempo reconhecer que Ele ultrapassou a morte, vencendo-a. As mãos e o lado são sinais abertos para podermos entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus Ressuscitado, soprando sobre nós o alento do Espírito, da Vida, da Paz e do Perdão. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

    3. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

    4. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele deve ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, por assim dizer, rasteirado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Confessa de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo, fé e confiança, adesão no tempo da história, e no dia-a-dia renovada. Esta felicitação é para nós.

    5. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entrando dentro dele, precedendo-o e presidindo-o, rendeu-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

    6. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47, mas ver também 4,32-35 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

    7. Vem em nosso auxílio também a Primeira Carta de Pedro 1,3-9, que nos apresenta uma síntese feliz da visão nova da fé e da obra da misericórdia de Deus em nós, os dois grandes temas deste Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia. Filhos renascidos da grande misericórdia do nosso Deus, verificada pela Ressurreição de Jesus Cristo (1 Pedro 1,3), exultamos de alegria. E repetem-se temas importantes acerca da visão da fé na Ressurreição de Jesus, em que a expressão gramatical é outra vez importante. Não o tendo visto na história (ouk idóntes: part. aor2 de horáô), nós o amamos agora, e não o vendo agora com os nossos olhos (mê horôntes: part. pres. de horáô), acreditamos agora (pisteúontes: part. pres. de pisteúô) (cf. 1 Pedro 1,8).

    8. Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa [«Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24], e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘ozzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

    António Couto


  • 1. Em 12 de Janeiro de 2010, às 16h53, um violento sismo abalou o Haiti e abalou o coração do mundo, desencadeando por toda a parte uma gigantesca onda de solidariedade e compaixão.

    2. «Merci, Seigneur», [= «Obrigado, Senhor»], rezavam vozes jovens logo nos primeiros dias resgatadas dos escombros. Vozes saídas do milagre. Oração saída das entranhas.

    3. Naquela tarde do dia 12 de Janeiro, Ena Zizi, uma senhora de 69 anos, estava na missa quando viu a igreja cair-lhe em cima. Continuou a rezar, e, ao sétimo dia, chegou o auxílio. E Ena saiu a cantar de debaixo dos escombros. Contou uma socorrista mexicana: «Ela agarrou a minha mão com tanta força, que pensei que era Deus que me estava a tocar».

    4. «Deus ajudou-me», respondeu Kiki, aquele menino de sete anos, feliz, de sorriso largo e de braços abertos, quando lhe perguntaram: «Como conseguiste sobreviver sete dias debaixo dos escombros»?

    5. Isabel Jossaint, uma bebé de 15 dias, foi resgatada ao oitavo dia, quando já até os seus pais estavam conformados com a sua morte. Estava sossegada debaixo da mobília da casa. Tinha passado metade da sua vida debaixo dos escombros! Disse o avô: «Todos sabiam que a menina estava morta, menos Deus!».

    6. Emmanuel Buso, um jovem de 21 anos, esteve soterrado nos escombros da sua casa durante dez dias. Foi bebendo a própria urina para não se desidratar. Deitado agora na cama do hospital, afirma: «Só estou aqui, porque Deus assim o quis».

    7. «Rezei a Deus», respondeu a menina, de 14 anos, resgatada catorze dias depois da catástrofe, quando lhe perguntaram: «O que fizeste durante este tempo todo?»

    8. São histórias vivas, densas, encharcadas de dor, de Deus e de amor. Corações a bater, orações a arder, lições a doer para este mundo sonolento, violento, insípido, amortalhado em vida, esse sim soterrado nos escombros de um egocentrismo sem saída.

    9. O Apóstolo Paulo aponta-nos o AMOR como o CAMINHO HIPERBÓLICO (kath’ hyperbolèn hodón) (1 Cor 12,31), portanto, excessivo e belo e maravilhoso. E dirá na Carta aos Colossenses que o AMOR é o vínculo (sýndesmos) (Cl 3,14), portanto, a fita, o fio, o cíngulo, o cinto que aperta e ajusta as vestes e os corações. E a Carta aos Hebreus vai até ao ponto de nos exortar a estar atentos uns aos outros «até ao paroxismo do AMOR» (eis paroxysmòn agápês) (Hb 10,24).

    10. Tristemente célebre e tragicamente verdadeira é a transcrição que George Orwell (1903-1950) fez do grande texto do «Hino ao Amor» que o Apóstolo Paulo nos deixou em 1 Coríntios 13, substituindo o AMOR pelo DINHEIRO. Escreveu assim George Orwell: «Ainda que falasse todas as línguas, se não tiver dinheiro, sou como um bronze que retine… Se não tiver dinheiro, nada sou… O dinheiro tudo crê, tudo espera, tudo suporta…».

    11. Não anda longe de Orwell esta sociedade em que vivemos. E aqueles que mandam no mundo, ou que pensam que mandam. Mas os pobres, que não têm dinheiro nem poder, continuam a dar-nos lições de amor. Como estas, vindas do Haiti. Merci, Seigneur!

    António Couto


  • 1. «Do SENHOR veio isto:/ isto é MARAVILHOSO (niphla’t TM / thaumastê LXX) aos nossos olhos! ESTE-O-DIA que fez o SENHOR:/ exultemos e alegremo-nos nele!» (Sl 118,23-24).

    2. Não é um dia cíclico, um dia entre outros dias, o dia que o salmista aclama! Os dias, de resto, fê-los todos o SENHOR (Gn 1,1-2,3). Trata-se aqui de um DIA novo, e sem série (cf. Sir 33,7-9). É o profético «DIA do SENHOR», aqui totalmente cheio da ação benfazeja do SENHOR!

    3. Os Evangelhos documentam esta alegria grande e nova e esta ESTUPEFAÇÃO MARAVILHOSA a abrir o nascimento de JESUS e o DIA novo da sua Ressurreição. Alegria grande (chará megálê) evangelizada (euaggelízomai) aos pastores, mas que é para todo o povo (Lc 2,10). De facto, todos quantos escutaram os pastores ficaram MARAVILHADOS (thaumázô) (Lc 2,18). Em estado de MARAVILHA (thaumázôn: particípio presente) ficou Pedro quando leu os sinais do túmulo de Jesus aberto (Lc 24,12), e depois os Onze e os outros com eles, movidos pela alegria (chará) e pela MARAVILHA (thaumázontes: particípio presente) (Lc 24,41), um versículo sobrecarregado com as notas da alegria incontida e da esfuziante MARAVILHA.

    4. Só assim, em estado de MARAVILHA permanente, Maria Madalena pode ir anunciar: «VI (heôraka) o SENHOR!» (Jo 20,18), e os Dez podem dizer a Tomé, chamado Gémeo, irmão gémeo, talvez nosso: «VIMOS (heôrákamen) o SENHOR!» (Jo 20,25). Os dois verbos «ver» estão no tempo perfeito, pelo que, de facto, significam: «VI e continuo a VER», «VIMOS e continuamos a VER». Um VER perfeito. Sempre pleno. Completo.

    5. Lendo muito bem o mistério de Cristo, o Papa S. João Paulo II, no início do seu Pontificado, deixou escrito, com palavras luminosas, na Encíclica Redemptor hominis, n.º 10, de 04 de março de 1979, que o homem deve «apropriar-se e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção para se encontrar a si mesmo», e ficar assim «MARAVILHADO face a si mesmo», «ESTUPEFACTO perante o seu valor e dignidade». E acrescenta ainda que é «a esta ESTUPEFAÇÃO que se chama Evangelho ou Boa Nova».

    6. Os missionários cultivam a alegria, o espanto e a MARAVILHA, e compete-lhes colocar este mundo em estado de MARAVILHA, ou não fôssemos nós também testemunhas destas coisas (cf. Lc 24,48; At 2,32). E, portanto, somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste! Nós tornámo-nos desistentes, apoderou-se de nós o desânimo e a frustração, fomos embora. E como é que estamos agora aqui, indómitas testemunhas, prontos a dar a vida por Jesus?

    7. A Páscoa só pode ser cheia de CRISTO RESSUSCITADO, MARAVILHA do SENHOR aos nossos olhos!

    António Couto


  • 1. As mais antigas raízes da festa da Páscoa [= «passagem»] remontam certamente aos antigos pastores seminómadas do Próximo Oriente Antigo, que se deslocavam, com os seus rebanhos, ao longo de uma estreita faixa de terra, situada entre as terras cultivadas e o deserto. Não entravam nas terras cultivadas: se o fizessem iriam arranjar problemas com as populações sedentárias; não entravam no deserto: se o fizessem, o gado miúdo sucumbiria rapidamente.

    2. A festa da Páscoa teria a ver inicialmente com os ritos apotropaicos [de apo-trépô = afastar de, conjurar] levados a cabo por estes pastores seminómadas, ritos que seriam em tudo análogos aos sacrifícios realizados entre os beduínos árabes pré-islâmicos, no decurso da primeira noite de lua cheia (antigo shabbat ou sábado) da Primavera [= primeiro Verão], mês de Radjab ou de Abib ou de Nisân, antes da transumância estival, e que se destinavam a afastar as doenças dos rebanhos, sobretudo as que podiam afetar as crias jovens, particularmente nesta época de transumância, e, portanto, de «passagem».

    3. Tratava-se de uma festa noturna, realizada à luz da lua. É a lua, de resto, que comanda o suceder dos dias no Próximo Oriente, onde o dia começa, não com o nascer do sol, mas com o nascer da lua. A escolha para uma noite de festa recai, portanto, naturalmente na noite de lua cheia, por causa do luar. De resto, o intenso calor no limiar do deserto não permitia que tais ritos festivos se realizassem durante o dia. Nessa época de «passagem» para a Primavera e para novas pastagens, era costume imolar um animal do rebanho, provavelmente um cabrito desleitado, de um ano de idade, dito «filho de um ano». Só mais tarde se fala em imolar um cordeiro. Nos sacrifícios da Primavera dos árabes antigos, o cabrito é referido mais vezes do que o cordeiro. É também o cabrito desleitado, «filho de um ano», que é mencionado no texto ritual antigo do Livro do Êxodo 34,26. A carne do animal imolado era comida juntamente com o bolo folhado de pão não levedado, próprio dos pastores seminómadas, que o assavam sobre as pedras escaldadas pelo sol, condimentando-o com ervas do deserto. O pão ázimo cozido no forno e comido com ervas amargas tiradas da horta representa a fase sedentária, e, portanto, posterior, dos ázimos.

    4. A antiga descrição da Páscoa no Egito, referida em Êxodo 12,21-23, recolhe as antigas tradições atrás referidas acerca dos sacrifícios apotropaicos dos pastores seminómadas efetuados na primeira noite de lua cheia da Primavera para afastar os golpes do «exterminador» (Êxodo 12,23), e sedentariza-as. Fala-se, portanto, de casas (Êxodo 12,22.23), e não de tendas. E localiza-as no Egito. Continua a privilegiar a noite e a lua cheia, como vinha da antiga tradição seminómada. Situa, por isso, a festa da Páscoa na noite do décimo quinto dia (Êxodo 12,6-8) do mês de Abib ou de Nisân, primeiro mês do ano (Êxodo 12,2), que começava com a Primavera. Mas aqui já não se trata de transumância com a «passagem» do gado para novas pastagens, nem tão pouco da «passagem» para o tempo primaveril, mas da «passagem» do povo de Israel da escravidão para a liberdade.

    5. A Páscoa de Cristo retoma tudo o que vem de trás: o cordeiro, o pão ázimo, as ervas amargas, o carácter noturno (patente ainda hoje na Ceia Pascal hebraica e na Vigília Pascal cristã), a lua cheia (a Páscoa é uma festa móvel, porque acompanha, ano após ano, a primeira lua cheia da Primavera). Mantém-se também o sentido de «passagem», ainda que cada vez mais alargado e aprofundado: passagem tranquila para novas pastagens, passagem para um tempo novo, passagem da escravidão para a liberdade, passagem da morte para a vida verdadeira, que é o verdadeiro sentido da Páscoa de Cristo, que se apresenta a si mesmo como o passageiro deste mundo para o Pai (João 13,1).

    António Couto


  • O ser humano, criança, jovem ou adulto, merece sempre o melhor de nós. Em todas as circunstâncias, e seja qual for o seu lugar no mapa. Parecemos, por vezes, mais ocupados com o alcatrão e as estátuas. Tempo perdido, pois é sabido que nenhuma música inebria as estátuas de alegria. O essencial do ser humano não se vê nas praças ou nas ruas. O melhor do ser humano é intransitivo. O mapa desenrola-se por dentro. Alta tensão. Toda a atenção no coração. Só o Amor pode dissolver este nevão. Só o Bem pode vencer o mal. O Bem não combate. Se combatesse, já não seria Bem. Seria mal. Mais mal, portanto, adviria. Só o Bem pode vencer, sem combater, este combate. Só o Amor. O Amor ama também o mal. É aí que o vence.

    Foi assim que Jesus atravessou e abraçou a nossa cegueira e violência. Até à Cruz e à Luz da Ressurreição. Vem sempre, Senhor Jesus. Vem e chama por nós outra vez. Ainda agora vieste para reanimar a nossa esperança. Não nos deixes ficar aqui, tranquilos, a consertar bolsas ou redes, quando há tanto Amor para semear, tanta paz para ativar.

    António Couto


  • Tu, Senhor, Tu falas

    e um caminho novo se abre a nossos pés,

    uma luz nova em nossos olhos arde,

    átrio de luminosidade,

    pão

    de trigo e de liberdade,

    claridade que se ateia ao coração.

    Lume novo,

    lareira acesa na cidade,

    és Tu, Senhor, o clarão da tarde,

    a notícia, a carícia, a ressurreição.

    Passa outra vez, Senhor,

    dá-nos a mão,

    levanta-nos,

    não nos deixes ociosos nas praças,

    sentados à beira dos caminhos,

    sonolentos,

    desavindos,

    a remendar bolsas ou redes.

    Sacia-nos.

    Envia-nos, Senhor,

    e partiremos

    o pão,

    o perdão,

    até que em cada um de nós nasça um irmão.

    António Couto


  • Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

    At 10,34a.37-43; Sl 118; Cl 3,1-4 (1 Cor 5,6b-8); Jo 20,1-9

    1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mt 27,46 e Mc 15,34, citando apenas o início: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Rm 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (Jo 19,34; Ef 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a caminhada quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Ef 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Rm 16,25‑26; 1 Cor 2,7‑10; Ef 3,3‑11; Cl 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Ef 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos com a Chará, a Alegria grande da Páscoa, pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Sl 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mt 28,1; Mc 16,2 e 9; Lc 24,1; Jo 20,1 e 19; At 20,7; 1 Cor 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (At 2,20; Ap 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico inteiro, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte!), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde jorra continuamente a vida e a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

    2. O Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de Jo 20,1-9, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Mc 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mt 28,2): impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Mc 16,4); dois homens com vestes fulgurantes (Lc 24,4); as faixas de linho no chão e o sudário enrolado em outro lugar (Jo 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram o abandono das vestes da morte e deixam entrever uma forma de vida nova que somos chamados a identificar.

    3. O texto imenso de João 20,1-9 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não.

    4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê (blépei), com um olhar normal (verbo grego blépô), um olhar que até causa aflição, a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus(Jo 20,1), tal é o significado imposto pela forma verbal êrménos, particípio perfeito passivo do verbo aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável (ação de Deus!) como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece um claro contraponto com a pedra por algum tempo retirada pelos homens do túmulo de Lázaro. Chegado ao túmulo de Lázaro, Jesus manda retirar (árate: impv. aor. de aírô) a pedra (cf. Jo 11,39), e mãos humanas retiraram-na (êran: aoristo de aírô) (cf. 11,41) por algum tempo, pois Lázaro, trazido da morte por Jesus a esta vida terrena, vai naturalmente voltar a morrer. No que se refere ao túmulo de Jesus, a Madalena, cega pelos seus preconceitos, falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada e baralhada, a levar uma notícia falsa: «Retiraram (êran: aoristo do verbo aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (Jo 20,2). O que a Madalena diz, trocando o perfeito pass. pelo aoristo simples, é que mãos humanas retiraram (ato histórico pontual) o Senhor do túmulo. Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (Jo 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende, e nada do que faça dá bom resultado. A oposição luz-trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (Jo 1,9). Sem esta Luz, que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompetência, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (Jo 3,2) e nada entende, como os discípulos que nada pescam de noite (Jo 21,3), e no meio do escuro andam perdidos (Jo 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (Jo 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido no pátio da noite e no meio dos guardas (Jo 18,17-18).

    5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e «o outro discípulo». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos empregados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e (blépei) a pedra(da morte) retirada. 2) «O outro discípulo», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e (blépei) as faixas de linho no chão, mas não entra. 3) Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em Jo 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (Jo 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim, até à Cruz e ao túmulo! Digamos, à nossa maneira, que deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, «o outro discípulo» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR «o outro discípulo», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

    6. Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que «o outro discípulo» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se Jo 13,24 e 21,7), e (theôreî, ind. presente do verbo theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. Jo 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada com tanta ordem, aprumo e esmero! Por isso, Pedro com o olhar de quem fica a pensar no que terá acontecido… Olhando para trás, pode comparar-se com o que se passou com Lázaro. Por ordem de Jesus, mãos humanas retiraram por algum tempo a pedra que tapava o túmulo de Lázaro (cf. Jo 11,41). Por ordem de Jesus, Lázaro saiu do túmulo com as vestes da morte, com as faixas da morte a prenderem-lhe os pés e as mãos e o sudário a tapar-lhe o rosto (cf. Jo 11,44a). Foi mesmo necessária uma nova ordem de Jesus para que o libertassem e o deixassem ir (cf. Jo 11,44b). Em contraponto, a pedra agora da morte retirada para sempre e por Deus faz ver que o poder da morte não tem ali mais qualquer domínio. E a indicação preciosa de que as faixas da morte estavam estendidas no chão, inutilizadas, e que o sudário se apresentava cuidadosamente dobrado fazem ver a Pedro que o que ali aconteceu não foi obra de ladrões, mas Pedro ainda não está apto para compreender o que fazem ali as vestes da morte deixadas para trás (Jo 20,6-7).

    7. «O outro discípulo» entrou depois de Pedro no túmulo, viu a mesma coisa, mas com olhos diferentes e de forma diferente. Viu por dentro, viu a identidade. O verbo empregado já não é o de Pedro, que era o verbo theôréô, que indica que quem vê, fica a pensar no significado do que vê. «O outro discípulo» entrou no túmulo, e viu de modo absoluto (eîden: ind. aoristo de horáô), com o olhar próprio de quem vê a identidade. Por isso, «o outro discípulo» deu um passo em frente: viu e acreditou de modo absoluto (Jo 20,8). Todavia, o narrador fecha a cena dizendo que «ainda não tinham entendido a Escritura, que dizia que Ele devia (deî) ressuscitar dos mortos» (Jo 20,9). A capacidade de compreensão dos discípulos habilitava-os a entender o que podiam entender: que o final da vida terrena de Jesus estava ali, naquela morte na cruz e naquele túmulo, onde ele jazia envolvido nas faixas da morte (cf. Jo 19,40). Agora já sabem que as faixas no chão estendidas e o sudário cuidadosamente dobrado são sinais, que ainda terão de aprender a ler; como terão também de aprender a ler a Cruz de Jesus como «Obra do Senhor» (Sl 22,32), bem como outros sinais que Jesus recomendou, para evitar equívocos, que apenas fossem falados depois de o Filho do Homem ressuscitar dos mortos (Mc 9,9). Será, portanto, o encontro com o Senhor Ressuscitado que habilitará os discípulos de todos os tempos a compreenderem a Escritura (cf. Jo 2,22) e a interpretarem tudo o que ela diz sobre Jesus (At 2,24-31; 13,32-37).

    8. É verdade que à pergunta fundamental de Jesus aos seus discípulos, estrategicamente colocada no centro do Evangelho: «Quem dizeis vós que Eu Sou?», Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16). Mas opõe-se logo energicamente às palavras de Jesus (Mt 16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (Mt 16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Mc 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre eles sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de eles certamente ter pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

    9. O que não compreendem agora, compreendê-lo-ão mais tarde, quando souberem a Escritura e experimentarem a força (dýnamis) da Ressurreição de Cristo (Fl 3,10-11). Reconhecerão então em Jesus Aquele que veio do outro lado do nosso mundo de sofrimento e de morte, Aquele que veio de Deus, para trazer à humanidade, na sua pessoa, a vida de Deus e a plena comunhão com Ele. Verdadeiramente, a vida, a vida mesmo, é união e comunhão com Deus. E esta vida divina, dada por Jesus à humanidade, atravessa a morte, mas não se extingue nem se apaga na morte. A união e comunhão com Deus, a nós dada por Jesus, não conhece fim nem decaimento nem qualquer tipo de parêntesis. O verdadeiro dom que Jesus nos traz não consiste numa vida terrena que se prolonga sempre, digamos uma vida terrena sem morte terrena, mas na vida em comunhão com Deus, esta sim, inextinguível.

    10. Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e , agora também (como Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza, do luto. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (Jo 19,38), daquele Rei por mãos humanas retirado (Jo 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do túmulo de Lázaro (Jo 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de Jo 20,1. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram» (Jo 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

    11. Voltando-se para o jardim, , outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (Jo 20,15).

    12. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar em aramaico o nome dela: «Maria!» (Jo 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para Jo 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (Jo 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (Jo 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

    É o amor, ainda que imperfeito,

    é o amor, ainda que com defeito,

    é o amor que faz correr a Madalena.

    É o amor, ainda que imperfeito,

    é o amor, ainda que com defeito,

    é o amor que faz chorar a Madalena.

    Mas tu sabes, meu irmão da páscoa plena,

    tu sabes que há outro amor em cena,

    e é esse amor que faz amar a Madalena.

    13. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco ortodoxa, a romano católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

    14. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jr 31,34; Is 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ez 34,16; Dn 9,24. Ver depois Jo 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

    15. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

    16. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Cor 5,7 e Lc 22,15, esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Cor 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; é comido em família. O Sacrifício da Páscoa realizava-se a seguir à ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Ex 29,38-42 e Nm 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Depois deste sacrifício quotidiano, procedia-se então, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Dt 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Cor 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

    17. A música do Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), levanta-se do meio da alegria própria da Festa: «Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!» (v. 24) é o refrão que hoje cantaremos. Este Salmo eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘ozzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Ex 15,2 e Is 12,2. YAH está por YHWH. A récita das maravilhas do Senhor enche a nossa vida de alegria, e deixa mesmo os nossos olhos encantados a contemplar a ação surpreendente de Deus entre nós, que põe como pedra angular a pedra por nós rejeitada (v. 22).

    António Couto


  • Acabámos de entrar no país da Páscoa.

    Os pátios dos sacerdotes e de Pilatos

    ficaram para trás.

    Para trás ficou também o canto do galo,

    os gritos dos guardas e das multidões,

    a febre das traições.

    O que se ouve agora é o anúncio do Anjo,

    a alegria das mulheres,

    a Plenitude da Vida a transbordar

    das páginas da Escritura Santa e da Cruz de Jesus,

    o rumor do Amor,

    de um Amor novo e subversivo,

    que vence óbitos e ódios,

    raivas e violências,

    a raiz de um mundo novo a germinar

    daquela noite de Luz

    e a entregar Jesus

    a quem o queira receber.

    Veem-se mulheres e homens a correr,

    belos e leves

    sobre os montes,

    sem qualquer bagagem a estorvar,

    sem nada a entorpecer,

    como quem acaba agora de nascer.

    Move-os apenas a Notícia do Ressuscitado,

    a Carícia que acaba de chegar,

    e que é preciso levar

    à pressa a todo o lado.

    Vem, Senhor Jesus Ressuscitado,

    fica connosco,

    vai connosco,

    que precisamos de ter o coração habitado,

    iluminado,

    e incendiado.

    António Couto


  • Gn 1,1-2,4a; Sl 104;/ Gn 22,1-18; Sl 16;/ Ex 14,15-15,1; Ex 15,1-6.17-18;/

    Is 54,5-14; Sl 30;/ Is 55,1-11; Is 12,2-6;/ Br 3,9-15.32-4,4; Sl 19;/

    Ez 36,16-1a.18-28; Sl 42;/ Rm 6,3-11; Sl 118;/ Mt 28,1-10

    1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3).

    2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo e belo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado, todos irmãos, todos contemporâneos. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não». Tudo céu azul claro acabado de lavrar. Nenhuma parcela de chão envenenado. Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não. «E viu Deus que era Bom!», eis o selo do sentido que, por sete vezes, plenitude, Deus apôs à sua Criação, e assim a entregou ao homem para que dela cuidasse com desvelo e devoção.

    3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Abraão, sim, confiou em ti, e tomou o rumo da liberdade, ao ritmo da tua Palavra, para Te oferecer em holocausto o seu filho único, que ele amava tanto, única riqueza da sua vida, depois de deixar para trás a sua terra, a sua parentela e a casa do seu pai (Génesis 12,1). Ao terceiro dia, Abraão avistou ao longe o monte do holocausto, «viu o meu dia, e encheu-se de alegria», dirá Jesus acerca de Abraão (João 8,56), e Abraão prosseguiu o caminho até lá, deixando para trás e à espera os seus dois criados, como testemunhas de quanto iria acontecer. Na verdade, Abraão diz-lhes antes de partir: «Ficai aqui com o jumento. Eu e o menino iremos ao alto daquele monte adorar o Senhor, e voltaremos para junto de vós» (Génesis 22,5). Isaac carregava a lenha. Abraão levava o fogo e o cutelo. «Temos o fogo e a lenha», observa Isaac, «mas onde está o cordeiro para o holocausto?», pergunta Isaac (Génesis 22,7). Abraão respondeu: «Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho» (Génesis 22,8). Chegados ao lugar, Abraão preparava-se para oferecer em holocausto o seu filho único, que ele amava tanto. Mas Deus segurou a mão de Abraão, impedindo o cutelo de cumprir a sua missão. Assim Deus mediu a confiança de Abraão. E, afinal, não foi oferecido um cordeiro (seh), mas um carneiro (ʼayil) que estava ali preso no silvado (Génesis 22,13). Portanto, não foi o cordeiro, o filho, que foi oferecido; foi o carneiro, o pai, que assim ofereceu a Deus a sua vontade paterna de possuir o seu filho como sua propriedade. Os criados, que tinham ficado à espera, são testemunhas desta oferta a Deus da paternidade de Abraão. Na verdade, o texto diz bem que Abraão regressou para junto deles (Génesis 22,19). Os dois criados viram que Abraão subiu com o menino; e constatam agora que Abraão regressa sozinho. Abraão ofereceu a Deus a sua posse mais profunda. Nós somos filhos e herdeiros desta imensa confiança e doação plena de Abraão.

    4. Visitámos depois o Egito possessivo e opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «pradaria verdejante» (Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

    5. Com Isaías, Jerusalém é trazida para o centro da cena, verdadeiro lugar teológico. Por pouco tempo abandonada e desfilhada, mas logo amada e desposada, rodeada de filhos como se fossem pedras preciosas, ajustadas com argamassa negra, dita em hebraico pûk (Isaías 54,11), entenda-se embelezadas, adornadas e sombreadas com rímel, que é também o significado do hebraico pûk, como se de pedras vivas ou pessoas se tratasse. E, na verdade, vendo mais fundo, belo e bom, como Deus vê (Génesis 1), não se trata de pedras (ʼabanîm), mas de filhos (banîm). Metáfora sublime: Jerusalém, esposa e mãe, vê chegar os seus filhos de longe, do exílio, e vê também, em sobreposição, as muralhas da cidade a serem reconstruídas! Tudo isto vem de Deus que ama a sua cidade, esposa e mãe embevecida, de novo visitada pela alegria e encharcada pela chuva fecunda da Palavra de Deus (Isaías 55,10-11), que irriga o coração e oferece um alimento novo e literalmente «de graça» àqueles que chegam de longe, do exílio, sem nada. Sim, com Isaías e Ezequiel, recordámos as paisagens tristes e sombrias dos nossos exílios, mas também da tua admirável presença e proteção, Senhor. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas também e sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas! Vós, que não tendes dinheiro, vinde! Comprai cereal e comei! Comprai cereal sem dinheiro e, sem pagar, vinho e leite. […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti… e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e protetora, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, quebraste o nosso coração de pedra e deste-nos um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 36,26).

    6. Tanta gratidão te é devida, Senhor! Com Baruc aprendemos a sentar-nos junto de Ti, Senhor, e a rezar para recebermos a Vida que vem de Ti. Dá-nos, Senhor, um coração capaz de compreender e de se comover, capaz de escutar a tua Palavra; dá-nos, Senhor, a Sabedoria que se senta junto de Ti, que são os teus Mandamentos, a tua Instrução, o Livro da Vida das Escrituras Santas, que quiseste que fosse também a nossa bússola. É lá que está a Vida verdadeira.  Por isso, desejar ler bem as Escrituras é desejar o divino. E é ainda por isso que é preciso rezar para ler bem as Escrituras. O que é divino obtém-se pela oração. Se o pudéssemos obter com a nossa mão, não haveria nenhuma razão para o chamar divino. Seria então simplesmente humano. Mas o Livro das Escrituras Santas, que é o Livro dos teus Mandamentos, que é o Livro da tua Sabedoria, ensina-nos a viver de outra maneira, ensina-nos a fazer em cada momento o que devemos fazer, e a fazê-lo, não por dever, mas por amor.

    7. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, ó milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino depositado na manjedoura, o Crucificado depositado no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

    8. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de pergaminho ou de papel, elevando a nossa humana vida e a inteira Escritura Santa à sua Plenitude. Mal aparecem as primeiras três estrelas no firmamento, que acendem o Primeiro Dia da semana (tê epiphôskoúsê eis mían sabbátôn) (Mateus 28,1a), Maria Madalena e a outra Maria vêm ver (theôréô) o túmulo com atenção e carinho (Mateus 28,1b). Já antes estavam lá a ver (theôréô) da mesma maneira (Mateus 27,55) a Cruz de Jesus e a sua Morte e tudo quanto, vindo de Deus, ali aconteceu. O verbo theôréô não significa um simples e anódino ver, mas um ver atento que faz estremecer, que dá que pensar, únicas duas menções deste verbo no Evangelho de Mateus. E traduz o ver diferente das mulheres junto da Cruz e junto do túmulo de Jesus. Note-se que, nesta página admirável de Mateus, as mulheres não conseguem dormir, não esperam pela madrugada do primeiro dia da semana para saírem de casa, mas vão ver o túmulo de Jesus logo que termina o sábado, pouco depois do pôr-do-sol de sábado e de aparecerem as primeiras três estrelas no céu de Domingo! É esse o sinal de que acabou o sábado e se acende para sempre um dia novo, o primeiro dia da semana, o DOMINGO.

    9. Além desta saída apressada das mulheres mal termina o sábado e se acende a Luz nova de Domingo, note-se outra particularidade desta página sublime de Mateus. Neste Evangelho, as mulheres vão simplesmente ver o túmulo de Jesus. Não se ocupam a preparar e  a levar perfumes, não as move qualquer intenção de ungir com aromas o corpo de Jesus, não pensam em entrar no túmulo, não estão preocupadas com a pedra que fecha a entrada do túmulo como referem Marcos e Lucas. No Evangelho de Mateus, as mulheres vão simplesmente ver o túmulo. Mas acabam por ver muito mais. Aconteceu um grande terramoto, e um Anjo do Senhor desceu do céu como um relâmpago, aproximou-se, rolou a pedra do túmulo, e sentou-se (ekáthêto: imperf. de káthêmai) soberanamente sobre (epánô) ela (Mateus 28,2-3). O sentar-se do Anjo sobre a pedra da morte indica domínio sobre a morte; é como estar sentado sobre um trono (cf. Mateus 23,22). Acabou-se o domínio da morte. Perante um tal esplendor e domínio fulminante, os guardas de serviço, que vigiavam um eventual furto do cadáver de Jesus, ficaram cheios de medo, e caíram por terra como mortos (Mateus 28,4). Já não poderão testemunhar o dizer do Anjo. Às mulheres que tinham ido, desarmadas, simplesmente para ver o túmulo, o Anjo do Senhor diz para não terem medo, e desvenda o que elas sentem e pensam: «Sei que procurais Jesus, o Crucificado» (Mateus 28,5), e entrega-lhes um novo e inaudito saber: «Não está aqui; foi Ressuscitado», e convida-as a mudarem de olhar e a irem, não ver ou identificar (ideîn) um corpo morto, mas ver o lugar onde jazia (Mateus 28,6).

    10. A pedra retirada do sepulcro e o facto de o Anjo se sentar sobre ela indica o fim do domínio da morte. A pedra não é retirada para Jesus sair, mas para que as mulheres possam entrar e verificar a ausência do corpo de Jesus. E a ausência do corpo de Jesus aqui, neste lugar, como bem sabiam Maria Madalena e a outra Maria, que estiveram lá sentadas em frente do túmulo (Mateus 27,61), mostra que a Ressurreição de Jesus não é menos real do que a sua morte. Não é, todavia, suficiente que as mulheres vejam o túmulo aberto e a ausência nele do corpo de Jesus; é necessário o anúncio da Ressurreição feito pelo Anjo do Senhor. E é ainda o Anjo do Senhor que as faz dar um novo passo em frente, incumbindo-as de uma imensa missão: «Ide dizer aos seus discípulos que Ele foi ressuscitado dos mortos e vos precede na Galileia» (Mateus 28,7). E elas partiram imediatamente e, com alegria grande, correram a levar a notícia (Mateus 28,8). Mas pelo caminho são ainda surpreendidas pelo próprio Jesus Ressuscitado, que as convida à alegria e a não terem medo, e reformula, de forma maravilhosa, o último dizer do Anjo: «Ide dizer aos meus Irmãos…» (Mateus 28,9-10).

    11. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição de Jesus antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.

    12. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como os discípulos de Emaús, que sentiam o coração a arder. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado deverá levar para sempre a arder dentro de si este Lume Novo.

    13. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

    António Couto


  • Sexta-Feira Santa. Celebração da Paixão do Senhor

    Isaías 52,13-53,12; Salmo 31; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1-19,42

    1. Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.

    2. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cédron e entrámos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas – mísero sucedâneo da LUZ – e com armas (João 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, referem os relatos de Mateus e de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Mateus 26,56; Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados, unidos e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).

    3. Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Marcos 14,72; João 18,1-27). Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que, depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o relato do anunciador. É o relato que serve de base ao futuro anunciador do Evangelho, que não pode limitar-se a atirar para o ar a Notícia do Crucificado Ressuscitado, sem nela se envolver e comprometer. Terá de credibilizar a incrível Notícia que anuncia, contando a sua história de desistente e dissidente, ensonado e renegado, mas recuperado e perdoado e transformado pelo Ressuscitado! Sim. Pedro renegou Jesus e foi-se embora, certamente destroçado com aquela paixão e morte de Jesus. O que se esperava do Messias não é que viesse para sofrer e morrer. Não só não vinha para sofrer e morrer, mas vinha para nos libertar a nós do sofrimento e da morte, assim pensava o judaísmo fiel.

    4. Fica assim bem à vista que, se Pedro voltar à cena, não o fará por algum resto de esperança que ainda permaneça aceso nele. Pedro desceu ao fundo. Se ainda emergir, então é porque Jesus é o Vivente e pegou em Pedro e nos outros e em nós. É esta a história da sua vida que Pedro agora vive e terá de contar para credibilizar o anúncio do Ressuscitado. «Conhecer a Páscoa significa, para quem verdadeiramente a conhece, estar implicado nos acontecimentos de Sexta-Feira Santa» (Karl Barth). Percebe-se que só assim é credível o anúncio de Pedro, como o dos restantes Apóstolos, igualmente desistentes e dissidentes e renegados! Como o de Paulo, completamente virado do avesso pela força nova do Ressuscitado! A Igreja está fundada sobre Pedro, mas Pedro está fundado sobre o seu pecado perdoado! Assim Pedro, assim Paulo, assim nós também! O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Génesis 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já antes disso, logo desde os primeiros séculos, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos.

    5. Mas vejamos ainda melhor a qualidade ou falta dela do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (João 18,19-21). Impressionante verificarmos que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio do Sumo Sacerdote, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (João 18,17.25-27).

    6. Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, em três vagas sucessivas, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espetáculo da morte! A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Salmo 35,19; 69,5; João 15,25). Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 João 4,19), quando éramos ainda pecadores (Romanos 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Isaías 2,2-4; Miqueias 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gálatas 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Colossenses 2,14).

    7. Ainda vamos a tempo de ver que, sob o olhar do Crucificado, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (João 19,23). O contraponto, belo, de inexcedível beleza, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus (parà tô staurô) (João 19,25). A expressão grega parà tô staurô, tradução literal «junto da Cruz», é de quem vê a Cruz como uma pessoa (é essa a força daquele dativo: tô staurô); se a Cruz fosse vista como um objeto, teríamos a expressão em acusativo: tòn staurón. Portanto, elas, as mulheres, abraçam a pessoa de Jesus e levam consigo o amor de Jesus!

    8. As pessoas mais ligadas a Jesus, neste IV Evangelho, são seguramente Maria, sua Mãe, e João Evangelista, aquele que se reclina sobre o peito de Jesus (João 13,25). É espantoso, mas ao longo de todo o Evangelho, o Evangelista nunca se refere a Maria e a João pelo seu nome, mas pela sua relação com Jesus. Assim, não se fala de Maria, mas da mãe de Jesus, da sua mãe; não se fala de João, mas do outro discípulo, aquele que Jesus amava! Fica claro: a nossa identidade está, não no nosso nome, mas na nossa relação com Jesus!

    9. Na Cruz, Jesus reza o salmo 22, todo, desde «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Salmo 22,2), até «Esta é a obra do Senhor!» (Salmo 22,32), que são as últimas palavras do Salmo 22, que deixam a claro que é de Deus a obra da Cruz! É assim, nos braços do Pai, que Jesus morre, sendo depois o seu corpo descido da Cruz e carinhosamente envolvido em panos de linho literalmente encharcados com 32 quilos e 800 gramas de perfume! (João 19,39), à imagem do Rei messiânico cantado no Salmo 45,9, que tinha os vestidos encharcados de perfume! Foi sepultado no jardim, num sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido sepultado (João 19,41). O Rei é sempre o primeiro em tudo. Vem depois aquela madrugada da Ressurreição.

    10. Por isso, depois disso, por causa disso, os primeiros cristãos rapidamente fizeram deste Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. O Imperador Adriano (117-135) soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de afastar os cristãos: no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis ou da Ressurreição, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

    11. Adoremos nós também, com amor, caríssimos irmãos e irmãs, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida.

    António Couto


  • Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a Deus,

    sabe a pão,

    sabe a alegria,

    sabe a Eucaristia!

    Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a amor,

    a dádiva da vida,

    a uma lágrima em flor,

    sossegada e comovida.

    Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a Ceia

    e a Jesus,

    luz grande que incendeia

    as trevas do coração,

    e põe a mesa cheia

    de amor e comunhão.

    António Couto


  • Quinta-Feira Santa, Missa da Ceia do Senhor

    Êxodo 12,1-8.11-14; Salmo 116; 1 Coríntios 11,23-26; João 13,1-15

    1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Vésperas II do Domingo da Ressurreição), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.

    2. Neste Dia Santíssimo, é-nos dada a graça de poder escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor: «O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Coríntios 11,23-26).

    3. Atravessado o relato, deparamo-nos com uma sequência verbal riquíssima, que mostra bem como a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro, desde o coração, sístole e diástole, ao mesmo tempo sangue e amor a circular nas nossas veias! Vida nova que vem de Deus, como quando o Espírito impele Sansão, os profetas, Paulo ou Jesus. O verbo hebraico para dizer este impulso do Espírito é paՙam. Sim, o Espírito impele-nos e empurra-nos pela estrada fora, mas esta sua ação forte e suave faz-se também sentir por dentro e desde dentro, movendo o coração e as suas avenidas, pois a família etimológica que de paՙam se desprende também serve para dizer o bater do coração (paՙam) e a pulsação (poՙam), e estende-se ainda ao soar do sino e da campainha (paՙamon), cujo som festivo ouvimos há pouco, e se calou, para voltar a soar na noite da Vigília Pascal, e queremos que se oiça bem alto no Domingo da Ressurreição do Senhor. É a voz do Espírito, é a força (dýnamis) irresistível do Espírito. Portanto, o Espírito de Deus que invocamos sobre este pão e sobre este vinho, impele-nos, empurra-nos, impulsiona-nos desde fora, mas move também a nossa vida desde dentro, dando-nos um coração novo, capaz de conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,/ PARTILHAR e DAR,/ COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

    4. Receber é um verbo fundamental, é a base da nossa vida, do pão e do vinho, vocação e missão sempre de Deus recebidas. Deus antes de nós; Deus para nós. Começamos a Eucaristia de mãos abertas para Deus, grande atitude bíblica e cristã. Dar graças. É só reconhecendo e sabendo e sentindo que a Graça tomou conta de nós, que podemos e sabemos dar graças, outra grande atitude que transforma a nossa vida. Partir, partilhar o pão. Grande atitude a de saber que nada é só meu, nem sequer a minha vida. Tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos e irmãs. Sim, à minha volta há só irmãos e irmãs, e à minha frente há sempre uma mesa posta com lugar para todos. Em memória de Jesus. Sim, amados irmãos e irmãs, nunca podemos esquecer aquele jeito de Jesus. Ele no centro da nossa vida e das nossas atitudes, municiando-as. Anunciar a morte do Senhor. Não se trata de chorar ou de vestir de luto, como quem diz que Jesus morreu e desapareceu. Não é essa a vocação cristã. Trata-se, antes, de saber ver e ler bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus, da sua Morte e Ressurreição. Jesus não morreu para desaparecer. Morreu para viver em plenitude e dar aos seus irmãos essa vida nova, transbordante e transformante. Sim, trata-se de anunciar que Jesus viveu e morreu para dar a vida por amor, para sempre e para todos. E é nessa atitude que continua vivo e presente no meio de nós.

    5. Tivemos Hoje também a graça de ouvir o colorido relato da Páscoa primeira, celebrada pelo Povo hebreu no Egito, conforme o relato do Êxodo 12,1-14. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens e de vida nova. Com os hebreus, no Egito, sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e fomos levados, por graça, a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, fomos, também por graça, levados a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos «filhos no Filho», aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que, paradoxalmente, nos serviu primeiro a nós.

    6. É aí que estamos todos, meus irmãos. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é aí que Jesus se dirige a Pedro e a cada um de nós, e diz: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8). Isto é, não participarás da minha vida por amor Dada e Recebida (cf. João 10,17-18). «Ter parte com» Cristo é «participar» no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos. Está aí, na participação na vida nova de Jesus, no modo novo de viver de Jesus, a fonte do nosso sacerdócio ministerial, mas também do sacerdócio comum dos fiéis.

    7. É à Mesa que estamos, meus irmãos, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8).

    8. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer de revelação ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o «como» se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.

    9. O Salmo 116, que hoje cantamos, é o quarto canto do chamado «Hallel Pascal», que reúne os Salmos 113-118. O Salmo 116 enche de música e de cor a Ceia Pascal hebraica. Na verdade, neste Salmo, canta-se a liberdade e a alegria confiante de vermos a nossa vida segura nas mãos de Deus, que nos retira do esquecimento do túmulo, e reacende a chama que se extingue. Entre os admiradores deste Salmo conta-se, com algum espanto nosso, o filósofo francês Voltaire (1694-1778), que privilegiava o v. 12: «Como restituirei (heshîb) ao Senhor por todos os seus benefícios (gemûlôt) que me deu?». O Salmo fornece logo a seguir a resposta: «O cálice da salvação erguerei,/ e o Nome do Senhor invocarei./ Os meus votos ao Senhor cumprirei,/ diante de todo o seu povo» (v. 13-14). Este cálice erguido e partilhado assinala, no ritual (seder) da Ceia Pascal hebraica, o momento em que ia passando entre os comensais a terceira taça de vinho, a da Ação de Graças. De resto, o orante sabe bem que não pode «restituir» a Deus. Por isso, no Saltério, o sujeito do verbo «restituir» (heshîb: hiphil de shûb) é, por norma, Deus (21 sobre 28 vezes). Mas o orante pode sempre agradecer a Deus e anunciar a todos que Deus atua em favor do seu povo, ação de evangelização.

    10. Que o Senhor da nossa vida nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

    António Couto


  • Quinta-Feira Santa, Missa Crismal

    Isaías 61,1-3a.6a.8b-9; Salmo 89; Apocalipse 1,5-8; Lucas 4,16-21

    1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou para dar um evangelho aos pobres»: assim se exprime alguém, que se apresenta em primeira pessoa, no texto de Isaías 61, dizendo-se investido pelo Espírito de Deus, ungido por Deus e enviado por Deus para levar um evangelho aos pobres, aos aflitos, aos deserdados, aos injustiçados, aos enlutados. Quem é este alguém que aqui se apresenta tão cheio de Deus e com o seu evangelho para anunciar aos pobres e descartados? Durante mais de cem anos, desde o contributo de Berhnard Duhm (1892) aos estudos do Livro de Isaías, foi-se pacificamente pensando que este alguém que aqui se exprime em primeira pessoa seria o profeta anónimo, autor dos últimos Capítulos (56-66) do Livro de Isaías, a que se convencionou chamar “Trito-Isaías”. E este texto de Isaías 61 seria o seu programa vocacional.

    2. Hoje já ninguém, ou muito poucos, pensarão assim. Qualquer profeta pode ser impelido pelo Espírito do Senhor e dedicar-se ao anúncio do evangelho, mas não consta que algum profeta tenha sido ungido. A figura escondida nos interstícios do texto, mas que nele emerge em claro relevo, é, sem dúvida o Messias, o verdadeiro Ungido do Senhor, em quem todos os atributos assentam à maravilha (cf. Isaías 11,1-5).

     3. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou, repete Jesus, lendo Isaías na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18), e assumindo sobre si a unção e a missão do evangelho, que acabou de ler no Livro de Isaías. Jesus levantou-se para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô), e sentou-se para fazer a homilia. E «Os olhos de todos», informa o narrador, «estavam fixos (verbo atenízô) nele!», num misto de espanto, de encanto e de esperança (Lucas 4,20). Registado fica o início da homilia de Jesus, que começa assim: «Hoje cumpriu-se (peplêrôtai: perf. pass. de plêróô) esta Escritura nos vossos ouvidos!» (Lucas 4,21). Nesta sua primeira apresentação pública, Jesus não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor atento e conhecedor da Escritura por dentro: lê os Profetas, concretamente Isaías, e pede-lhe emprestadas as Palavras, e, na sua homilia, reclama o nosso ouvido como pátria para a Palavra Hoje, aponta para a Lei de Deus, concretamente para o Deuteronómio, que é o Livro do «Escuta, Israel!», e em que o Hoje se faz ouvir por mais de 70 vezes!

    4. Nunca ninguém terá iniciado uma homilia de forma tão performativa. E nunca nenhum homileta terá tido uma assembleia tão atenta: todos tinham os olhos espetados nele. Sem sucesso, porém. As palavras entram pelos ouvidos, e não pelos olhos! Se tivessem sido ouvidas, tinham entalado a assembleia. Como o «Hoje» nos entala no tempo. É hoje. Nem é ontem nem é amanhã. Não é por acaso que o Evangelho de Lucas traz o «Hoje» para a boca da cena por onze vezes! «Cumpriu-se» (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) hoje. A gramática grega diz-nos que estamos perante um perfeito passivo, ou seja um passivo divino ou teológico. Deus em ação, portanto. Deus está aí, em ação, e nós tão distraídos!

    5. Condensação e hipérbole do tempo e da Escritura. O tempo deixa de ser o fio tecido e a tecer de chrónos, o fio dos dias e dos anos a fio, para se concentrar neste único «Hoje» (sêmeron), termo técnico, clássico, nas homilias dos Padres gregos, em que cai sobre nós, como um relâmpago, uma vertigem, a Palavra toda de Deus, não nos deixando também senão este único «Hoje» para responder! Tudo Hoje e Aqui. É este vinco na página, esta dobra, esta mão-cheia de tempo, apenas esta mão-cheia de tempo, que se chama kairós, tempo da graça. Se repararmos bem, se tivermos os olhos bem abertos, veremos então que, na intensa homilia de Jesus, a Palavra salta da folha plana de papiro ou de pergaminho ou de papel, e começa a ganhar relevo, forma-se um corpo, desenha-se um rosto, pulsa um coração, ouve-se uma voz. Mas também a tinta irrompe da página selada e alisada, e entra-nos, aos borbotões, pelos olhos adentro, como o ribombar do trovão e o rumor de muitas águas (Ezequiel 1,24; 43,2; Apocalipse 1,15; 14,2; 19,6)! E o sentido rebenta como uma enxurrada, corre pelos caminhos, embate contra portas e janelas, amontoa-se no seu termo, que ele não pode ultrapassar, que é a morte, mas rebenta-o e deixa-nos inundadas a casa e a alma!

    6. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu». É assim que nós Hoje, submersos pelo Espírito, reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro ou de pergaminho ou de papel. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade diaconal, e não patronal. É mesmo a única maneira de nós podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isaías e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres.

    7. «Encontrei o meu Servo David, e ungi-o com o meu óleo santo», cantávamos com o Salmo 89,21. Encontro e unção do rei segundo o coração de Deus (1 Samuel 13,14). Mas também o sacerdote era ungido com o azeite santo, como é dito de Aarão num belo poema artisticamente construído em cascata: «Como é bom,/ como é belo,/ viverem unidos os irmãos.// É como azeite do bom sobre a cabeça,/ descendo pela barba,/ a barba de Aarão,/ descendo sobre a boca das suas vestes» (Salmo 133,1-2).

    8. Olhamos para o texto, e vemos o azeite de oliveira, perfumado com mirra, cinamomo, cálamo e cássia (Êxodo 30,22-33), a encharcar a cabeça e o cabelo de Aarão, a descer pela barba, e sobre a boca das vestes… A escrita é meticulosa e quer que se veja o azeite, não a descer pelo pescoço, mas por fora, encharcando o humeral (ʼephod), uma espécie de roquete que desce sobre os ombros, e, descendo sempre, encharca depois o peitoral (hoshen), bolsa quadrada, com 25 cm de lado, aplicada sobre o humeral, cobrindo o peito. Sim, quem escreve interessa-se que o azeite encharque o tecido que está sobre os ombros e sobre o peito do sacerdote. Sim, porque nas duas fitas do humeral que estão sobre os ombros, traz o sacerdote incrustadas duas pedras de ónix, uma sobre cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das doze tribos de Israel (Êxodo 28,1-14). E, sobre o peito, no peitoral, traz o sacerdote doze pedras preciosas diferentes, e em cada uma delas está gravado o nome de uma das doze tribos de Israel (Êxodo 28,15-30), irmanadas, como se fosse uma joia familiar em unidade harmónica. Extraordinária simbologia! O sacerdote carrega aos ombros (Êxodo 28,12) e leva sobre o coração (Êxodo 28,29) todos e cada um dos filhos de Israel! É assim que se vê bem a missão do sacerdote. Mas vê-se igualmente bem que se trata de um povo todo ungido, todo sacerdotal e aromático.

    9. Dizia bem a lição de hoje do Livro do Apocalipse: «Graça e paz […] da parte de Jesus Cristo, Aquele que nos ama, que nos libertou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um Reino de Sacerdotes» (Apocalipse 1,4-6), respondendo e cumprindo a lição do Livro do Êxodo 19,6, em que Deus dizia, com o verbo no futuro: «Farei de vós um Reino de Sacerdotes».

    10. Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes. Sim, somos um presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, em aramaico Meshîhâ, em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bemóis, porque Deus estava com Ele (Atos 10,37-38). Se o Ungido é Cristo, então nós somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, então a referência da nossa maneira de viver terá de ser também sempre Cristo. Temos, então, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; Gálatas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal.

    11. Mas também vós, Fiéis Leigos, batizados e crismados, sois, na verdade inteira, outros Cristos, porque fostes também Ungidos com o óleo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo. Cristo significa Ungido. Crisma significa Unção. Também vós, amados Fiéis Leigos, fostes Ungidos na fronte, com o óleo do Crisma, no Batismo e na Confirmação. Além de Ungidos na fronte, no Batismo e na Confirmação, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas mãos com o mesmo óleo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabeça. Também as igrejas e os altares são ungidos com o óleo do Crisma no dia da sua Dedicação.

    12. Mas não podemos ficar só pelo exterior – a fronte, as mãos, a cabeça –, e pelo pouco óleo, tão pouco que mal se vê e mal se sente, com que costumamos fazer esta unção. Quando lemos, na Bíblia, relatos de Unção com óleo, por exemplo, quando Samuel unge Saul (1 Samuel 10,1) ou David (1 Samuel 16,13), ou quando admiramos a bela cascata do Salmo 133, que canta a unção sacerdotal, constatamos logo que anda ali demasiado óleo perfumado, de modo a encharcar os cabelos e os vestidos, e a regar ainda o próprio chão. Somos então levados a perguntar: porquê tanto óleo, se acaba por escorrer e se perder no chão? E a resposta é: derramando tanto óleo na cabeça, vê-se que ficam empapados os cabelos, os vestidos, e acaba por escorrer para o chão. Mas o povo bíblico vê ou compreende ainda mais, muito mais, e é para este «mais» que é preciso chamar ainda a atenção. O povo bíblico compreende ainda que desse muito óleo em grande quantidade derramado na cabeça, uma parte entra para dentro da cabeça, e vai banhar o interior do homem, vai banhar o coração, a alma e as entranhas.

    13. Aí está então a verdade da Unção com o óleo do Crisma que fazemos na fronte, nas mãos ou na cabeça. Na verdade, é no coração que somos Ungidos. E se a Unção feita na fronte, nas mãos ou na cabeça pode sempre ser lavada com um pouco de água e sabão, a Unção feita no coração é indelével, imprime carácter, não pode mais ser apagada. É assim, amados irmãos Ungidos no coração, que não podemos mais deixar de ser quem somos, outros Cristos: eu, bispo; vós, sacerdotes; vós, diáconos; vós, fiéis leigos.

    14. É este óleo do Crisma, com que todos somos ungidos no coração, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confecionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e cooperação dos Sacerdotes. Vão igualmente ser benzidos o óleo dos enfermos, destinado a servir de remédio e de alívio aos doentes, e o óleo dos catecúmenos, destinado a preparar e dispor os catecúmenos para o Batismo.

    15. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós. A messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Ámen.

    António Couto


  • O mundo belo e sete vezes bom que Deus nos deu mostra-se hoje desfigurado, irreconhecível, maltratado, fruto das nossas desmedidas ambições, que envenenam o céu e o chão, e enchem os nossos dias de sangue e de guerras e de fomes e os esvaziam de amor, de pão, de paz e de perdão. O desvario que atravessa e varre de lés a lés o nosso mundo físico e mental impõe-se a uma velocidade supersónica semelhante aos mísseis e aos drones que diabolizam as vidas de tantos irmãos nossos. Nestas circunstâncias de crescente insensatez, não há como saber saudar com o coração aberto, ainda que dorido, esta oportunidade, esta estação de Graça, estes Dias Santos, esta Semana Santa, que Deus nos dá para rezar, para pensar, para contemplar. Neste sentido, a Semana Santa é um convite e um desafio a que saibamos transformar a nossa cidade exterior e interior num grande átrio de fraternidade, de oração e de paz. É por isso e para isso que as nossas igrejas têm ao seu redor um adro, um átrio, são um adro, um átrio, para todos irmos aprendendo a trocar impressões com Deus e uns com os outros. E já sabemos que, em cada Semana Santa, no centro deste grande adro ou átrio, que se deve expandir em círculos cada vez mais amplos até ocupar toda a cidade e todos os corações, deve estar a Cruz do Senhor, que traduz e assume as nossas dores, mas também o Senhor da Cruz, que dá sentido aos nossos sofrimentos e nos aponta o rumo da Ressurreição.

    Contemplemos, então, demoradamente a Cruz do Senhor, e encontremo-nos com o Senhor da Cruz!

    António Couto


  • O Concílio II do Vaticano usa reiteradamente a expressão «Mistério Pascal» para designar a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e o seu significado para nós. Este «para nós» do Mistério Pascal tem de ser sempre fortemente acentuado, uma vez que Cristo – refere o texto conciliar e cantamos nós no Prefácio da Vigília Pascal – «morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando restaurou a nossa vida». É deste CUME que nasce a Igreja e os sacramentos, nomeadamente o batismo e a eucaristia (SC 5.6.47); é neste LUME NOVO que se acende a celebração do inteiro ano litúrgico, cujo centro é sempre o Domingo e a Páscoa Anual (SC 102.106s.); é esta FONTE que anima todo o quotidiano cristão, devendo informar, desde a raiz, tudo o que fazemos, todas as nossas atividades, todos os nossos comportamentos; mas é ainda neste cume, neste lume e nesta água viva que cada homem de boa vontade, crente ou não crente, será sempre contado, encontrado e conhecido (1 Cor 13,12; Gl 4,9; Fl 3,12) – saiba-o ou não, Deus o sabe (cf. 2 Cor 12,2.3) – para que possa receber ânimo e sentido para a vida e para a morte (GS 22).

    A caminhada quaresmal conduz-nos à Semana que nós dizemos «Santa», e que as Igrejas do Oriente dizem «Grande» ou «dos Mistérios». É então verdade que caminhamos para a Páscoa do Senhor, mas é igualmente verdade que é de lá que vimos, pois foi lá que nascemos, e é depois dela e por causa dela que vivemos e celebramos intensamente estes Dias Santos. Vivamos então intensamente todos os instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo nesta caminhada é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

    António Couto


  • Nós sabemos que Deus cuida de nós com desmesurado carinho, mais do que uma mãe faz com o seu filho pequenino. E talvez seja por isso que tantas vezes nos sentamos à beira do caminho, com os pés e as mãos dormentes, e o coração adormecido. E chegamos mesmo a pensar que isso é rezar. Mas viver em «modo de oração» não é viver em «modo de avião», olhando tranquilamente o céu e o chão. Viver em «modo de oração» não é sossegar o coração. É pôr o coração a caminho. Não há Providência para o sentadinho. Apenas sonolência. A Providência de Deus acompanha apenas o homem a caminho.

    A Quaresma é uma estrada de montanha, difícil e estreita, com curvas apertadas à esquerda e à direita. Toda a atenção aos sinais viários, para não nos transformarmos em funcionários. Senhor Jesus, Tu que és o caminho e a verdade, ensina-nos o pão e o vinho e a caridade.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    serenos e seguros no caminho da vida e da paixão,

    da ressurreição.

    Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    sossegados e firmes,

    resolutos,

    até à porta do meu coração.

    Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos,

    dos meus e dos teus,

    finalmente harmonizados,

    finalmente lado a lado:

    os meus, imprecisos, indecisos,

    atravessados pelo teu perdão;

    os teus, sossegados e firmes,

    sincronizados pelo pulsar do meu coração.

    Sim,

    eu sei que foi por mim que desceste a este chão

    pesado, íngreme, irregular,

    de longilíneas lajes em que é fácil escorregar.

    Mas os teus braços sempre abertos ajudam-me a levantar.

    Senhor Jesus,

    deixa-me chegar um pouco mais junto de ti,

    chega-te tu também mais junto de mim.

    Segura-me.

    Dá-me a tua mão firme e corajosa.

    Agarro-me.

    Sinto sulcos gravados nessa mão.

    Sigo-os com o dedo devagar.

    Percebo que são as letras do meu nome.

    Foi então por mim que desceste a este chão.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    Senhora das Dores, Maria, minha Mãe,

    que seguiste até ao fim os passos do teu Filho,

    acompanha e protege os meus passos também.

    Obrigado, Senhor Jesus,

    meu Senhor, meu Irmão e Companheiro.

    António Couto


  • Mateus 21,1-11; Isaías 50,4-7; Salmo 22; Filipenses 2,6-11; Mateus 26,14-27,66

    1. Batizado com o Espírito Santo no Jordão, confirmado com o Espírito Santo no Tabor, Jesus realizou a sua missão filial batismal anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas «obras». A sua «viagem» chega agora ao fim, na Judeia, em Jerusalém, onde o seu Batismo deve (plano divino) ser consumado (ainda Lucas 12,49-50) na sua Morte-Ressurreição Gloriosa: única Fonte do Espírito Santo para nós, porque única Fonte da Vida Eterna verdadeiramente Dada (sempre Atos 2,32-33; João 19,30 e 34; 7,38-39), pois não se alcança através da nossa programação ou planificação. As coisas supremas não são planificáveis. Já estão prontas para receber. A missão filial batismal do Filho de Deus finalmente consumada! É que nós fomos, de facto, batizados na sua Morte (Romanos 6,3-4) e, com Ele, fomos , para usar a vigorosa linguagem paulina, «com-sepultados», «com-ressuscitados», «com-vivificados» e «com-sentados» na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13: tudo verbos cunhados por Paulo e postos em aoristo (passado) histórico!). Formamos, por isso, «a Igreja que Ele amou» (Efésios 5,25). A este grande amor de Cristo pela Igreja chama Paulo «o mistério grande» (Efésios 5,32). Nós, a Igreja do amor de Cristo, somos, portanto, a Esposa bela, a nova Jerusalém (Apocalipse 19,7-9; 21,2.9-14) que, juntamente com o Espírito, diz ao Senhor Jesus: Vem! (Apocalipse 22,17).

    2. Embora o Evangelho deste Domingo de Ramos seja a Paixão segundo S. Mateus 26,14-27,66, o tom deste Domingo de Ramos é dado pela bela página de Mateus 21,1-11, que nos mostra o Rei messiânico a tomar posse da sua Cidade, a «Cidade do Grande Rei» (Salmo 45,5; 47,2-3; Tobias 13,11; Mateus 5,35), a Esposa bela que nascerá do seu Sangue: Esposa cúmplice da Morte do Esposo, e beneficiária da Morte do Esposo! Esposa, portanto, e no entanto! Que ao encontro do Esposo desce em vestido de noiva, não de viúva! (Apocalipse 21,2).

    3. Começamos então por Mateus 21,1-11, que dá o tom a este Domingo. O Rei messiânico toma posse da sua Cidade, a Filha de Sião, a Esposa, e fá-lo de forma invulgar e surpreendente. Até aqui, Jesus andou sempre a pé por toda a parte, ou de barco, quando atravessava o mar da Galileia. E foi também a pé que fez o caminho da Galileia para Jerusalém, como fazem habitualmente os peregrinos que para lá se dirigem. Todavia, depois de ter subido o Wadi el-Kelt, vinte e sete quilómetros de íngreme e difícil subida, que ligam o oásis de Jericó à cidade de Jerusalém, ao chegar perto da aldeiazinha de Betfagé, Jesus faz uma paragem e dá a dois dos seus discípulos indicações muito precisas para irem à povoação em frente, onde encontrarão logo uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Jesus ordena que lhos tragam. E adianta que, se alguém disser alguma coisa, responderão que o Senhor precisa deles, mas que logo os devolverá (cf. Mateus 21,2-3). Neste ponto da narrativa, o narrador refere, em parte em prolepse, que «isto aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta: dizei à Filha de Sião: eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado numa jumenta, num jumentinho, filho de uma jumenta» (Mateus 21,4-5). O profeta referido é Zacarias 9,9-10 (ver abaixo). E é dito, depois deste importante parêntesis, que os discípulos fizeram como o Senhor lhes ordenara, e trouxeram a jumenta e o jumentinho, e ainda que puseram sobre eles os seus mantos, tendo-se Jesus sentado sobre eles. É dito também que a numerosa multidão estendia os seus mantos no caminho, e outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos no caminho (Mateus 21,6-8), procedimento usual quando um novo rei subia ao trono (cf. 2 Reis 9,13). Enquanto isso, a multidão que acompanhava Jesus gritava: «Hossana, Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hossana no mais alto dos céus!» (Mateus 21,9). «Hossana» é um grito de júbilo, que significa «Salva, por favor!» (Salmo 118,5), usado para saudar o Rei-que-Vem, «Aquele-que-Vem» (título divino) (Salmo 118,26), com o Reino de David, o novo David, que vem no Nome do Senhor! Foi assim que Jesus fez o caminho de Betfagé até Jerusalém, descendo o Monte das Oliveiras. Ao entrar em Jerusalém, somos ainda informados que a cidade inteira se agitou e perguntava: «Quem é este?», ao que a multidão respondia: «Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia» (Mateus 21,10-11).

    4. Deduz-se dos preciosismos da descrição dos acontecimentos e da sua realização como cumprimento de um dizer profético, que o que está a acontecer não é por mero acaso, mas obedece à vontade de Deus, expressa na Escritura Santa. Também por isso, Jesus não vai dizer mais nada. Terão de ser os acontecimentos, iluminados pela Escritura, a falar por si. E vê-se logo que Jesus não vai entrar em Jerusalém como um vulgar peregrino nem como tem feito até aqui calcorreando os caminhos da Galileia. Jesus vai entrar em Jerusalém como um rei, no dia em que solenemente entra na sua capital e é entronizado. Mas salta também à vista que, ao fazer como faz, Jesus se apresenta como rei de um modo singular e único, novo, totalmente diferente dos reis terrenos até então conhecidos. Jesus vem montado num jumentinho, criteriosamente selecionado (Mateus 21,2), e não sobre cavalos de guerra, como era usual. Além disso, tudo aqui é provisório e pobre: o jumento nem sequer tem uma sela; Jesus senta-se sobre os mantos dos seus discípulos. O jumento não é pertença de Jesus; é emprestado com a promessa de ser rapidamente restituído, o que quer dizer que Jesus voltará em breve a andar a pé. Além disso, nesta sua entrada em Jerusalém só Jesus vai montado, ainda que num jumento. A multidão que o acompanha vai a pé. Não há nenhum cortejo ou guarda de honra de soldados montados a cavalo e carros de combate devidamente engalanados. Jerusalém é a cidade de David, e para lá convergem todos os olhares e todas as esperanças. Sendo os acontecimentos apresentados como realização profética, temos de reparar então na forma criteriosa como o jumento é escolhido. E repararemos então que, quer no caso do jumento, quer em tudo o que Jesus faz e no modo como o faz, é realizada à letra a profecia de Zacarias 9,9-10, que aqui deixo referida na íntegra: «Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém. O arco de guerra será eliminado. Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar, e do Rio às extremidades da terra». O profeta Zacarias pôde ver, no último terço do século IV a.C., o imponente espetáculo militar do grande Alexandre Magno, talvez o maior imperador que a história conheceu, descendo a costa palestinense para conquistar o Egito. Gravou-se certamente no seu espírito profético esse cenário majestoso, e Zacarias terá vislumbrado então, em claro contraponto, esta deslumbrante imagem messiânica de um Rei diferente, pobre, manso e humilde, não como senhor da guerra, mas como Senhor da Paz!

    5. Ainda hoje, no domingo de Ramos, não obstante o ambiente abertamente hostil aos cristãos que se respira, é costume fazer-se, desde Betfagé [= «Casa dos figos»], hoje uma pequena aldeia totalmente muçulmana com um pequeno santuário à guarda dos Franciscanos, uma impressionante procissão e manifestação de fé que, descendo o Monte das Oliveiras, termina na Igreja de Santa Ana, junto da porta de Santo Estêvão (ou dos Leões), onde se faz a celebração alusiva ao Dia.

    6. Como já deixámos escrito logo no princípio, o Evangelho que enche este Domingo de Ramos na Paixão do Senhor é o imenso e impressionante relato da Paixão de Mateus 26,14-27,66, que marca o ritmo celebrativo da nossa «Semana Santa», que as Igrejas Orientais chamam «Semana Grande», e que o antigo rito da Igreja de Milão conhecia por «Semana Autêntica». Somos nós, portanto, carregando os nossos ódios, raivas, mentiras, invejas e violências, seguindo a par e passo o Rei manso e obediente que a nós e por nós se entrega por amor, absorvendo, absolvendo e dissolvendo assim o nosso lado sombrio e pecaminoso. O rei assume, no seu perfil, duas valências fundamentais: 1) pôr-se totalmente nas mãos de Deus, escutando diariamente a sua Palavra e cumprindo-a; 2) pôr-se totalmente ao serviço do seu povo, a quem deve fazer chegar a prosperidade e o bem-estar, a plenitude dos bens espirituais e materiais.

    7. O que esta Semana Santa nos oferece são, pois, momentos e tonalidades intensos e decisivos, em que a Esposa bela, tornada bela, segue o Rei-Esposo passo a passo, gesto a gesto: a unção para a sepultura em Betânia, a venda de Jesus por Judas, como se de um objeto se tratasse, a Ceia Primeira (e não última!) na mesa da intimidade, que deixa ver melhor as traições e as negações que já se desenham no horizonte, a afirmação solene de Pedro e de todos os discípulos de que estão dispostos a morrer por Jesus, mas nunca a negá-lo, o abismo do Getsémani, onde Cristo, sendo embora o Filho de Deus, Deus Ele mesmo, treme perante a morte, mas aceita-a, submetendo a sua vontade humana à sua Vontade divina, que é a mesma Vontade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, a oração de Jesus e o sono pesado dos discípulos (uma, duas, três vezes!), Judas que vem prender Jesus com um beijo (a traição num gesto de intimidade!), acompanhado de outros que trazem espadas e varapaus que não usam, mas é um dos que estão com Jesus que puxa da espada e a usa (!), a prisão de Jesus «segundo as Escrituras» (Mateus 26,54 e 56), altura em que todos o abandonam e fogem (Mateus 26,56), deixando Jesus sozinho como verdadeiro «Resto de Israel!», os processos e a condenação [Jesus afirma-se como «o Cristo», «o Filho de Deus», «o Filho do Homem-que-Vem-na-sua-Glória», «o Rei»], Pilatos que «lava as mãos» como quem nada quer ter a ver com o assunto (Mateus 27,24) – gesto que só Mateus relata –, a entrega à morte de cruz por Pilatos (Mateus 27,26) e por Judas (Mateus 26,15-16.21-25; 27,3), mas na verdade por Deus (1 Coríntios 11,23: paredídeto: passivo divino ou teológico!), a coroa de espinhos, Pedro disposto a morrer com Jesus (Mateus 26,35), mas negando-O logo de seguida com aquele triplo «não sei!» (Mateus 26,70.72.74), a Cruz Santa e Gloriosa, as três tentações por parte dos transeuntes, dos chefes dos sacerdotes juntamente com os escribas e os anciãos, dos ladrões: «salva-te a ti mesmo», «desce da cruz» (Mateus 27,39-44), a oração do Salmo 22 (todo): começa «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», e termina «Esta é a obra do Senhor!», a agonia e a Morte precedida do «grande grito» (Mateus 27,46 e 49), que indica que Jesus continua a ser o sujeito ativo de todos os seus atos, mas indica também a Vitória de Deus… Proclamação da máxima Obra de Deus no mundo, a indizível Economia divina na vida terrena do Filho de Deus! Segue-se a sepultura num túmulo novo (Mateus 27,60), como convém ao Rei, sempre o primeiro em tudo, as mulheres à distância do recolhimento, observando tudo com atenção (verbo grego theôréô) (Mateus 27,55), como farão depois na sua visita ao túmulo (Mateus 28,1), os únicos dois lugares em que Mateus usa o verbo grego theôréô, que não consiste num simples «ver», mas num «ver que dá que pensar». Depois de morto, ainda é tratado por «impostor» por ter dito que, três dias depois de morto, ressuscitaria, o que, segundo os judeus, poderia levar os seus discípulos a virem de noite roubar o seu corpo, para depois, com uma nova impostura, virem dizer que tinha ressuscitado (Mateus 27,63-64). Esta lenda do roubo do seu corpo pelos discípulos (só lembrada por Mateus) leva à guarda do túmulo reclamada pelos judeus, e pode costurar-se ainda com as páginas iniciais do Génesis, que relatam a história de um fruto e a lenda de um furto (cf. Génesis 1,29 vs. 3,1-6). A proclamação deste imenso texto deve seguir-se com a conversão no coração, e, sobretudo, com o louvor no coração.

    8. Para quem queira seguir mais de perto os passos de Jesus, deixo aqui registadas, segundo a agenda de Marcos, as suas últimas e decisivas vinte e quatro horas, desde as 15h00 de Quinta-Feira Santa até perto das 18h00 de Sexta-Feira Santa: 15h00 = Preparação da Ceia; 18h00 = Ceia Primeira; 21h00 = Getsémani; 24h00 = Prisão de Jesus; 03h00 = Pedro nega e o galo canta; 06h00 = Jesus diante de Pilatos; 09h00 = Crucifixão de Jesus; 12h00 = As trevas em vez da Luz; 15h00 = Morte de Jesus; 18h00 = Sepultamento de Jesus.

    9. Note-se que, na cronologia dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), esta Quinta-Feira é o dia da Preparação da Páscoa, comendo-se a Ceia Pascal logo após o pôr-do-sol (no calendário religioso hebraico já é Sexta-Feira, dado que o dia começa com o pôr-do-sol). Como se constata, esta cronologia vê na Ceia de Jesus com os seus Discípulos uma Ceia Pascal. Também de acordo com esta cronologia, Jesus seria preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado em Sexta-Feira, Dia da Páscoa dos judeus, o que seria completamente estranho! O Evangelho de S. João apresenta outra cronologia, hoje defendida pela maioria dos estudiosos, segundo a qual Jesus terá comido uma Ceia, a sua Ceia Primeira em Quinta-Feira logo após o pôr-do-sol (no calendário religioso hebraico já é Sexta-Feira, dado que o dia começa com o pôr-do-sol), mas não a Ceia ritual da Páscoa dos judeus, e foi preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado em Sexta-Feira, dia da Preparação da Páscoa (João 18,28; 19,14.31.42), antes da Ceia ritual da Páscoa dos judeus, que teria lugar logo após o pôr-do-sol de Sexta-Feira, já dia de Sábado. João informa que os judeus não entram no pretório de Pilatos, terra pagã, para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa (João 18,28). No seu Último Livro sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI defende também esta cronologia joanina. As Igrejas do Ocidente seguem a cronologia dos Sinóticos: por isso, a nossa Eucaristia é celebrada com pão Ázimo, derivado do ritual da Ceia da Páscoa dos judeus. Por seu lado, as Igrejas do Oriente seguem a cronologia joanina, sendo a sua Eucaristia celebrada com pão comum, dado não derivar do ritual da Páscoa dos judeus.

    10. O Antigo Testamento serve-nos hoje o chamado «terceiro canto do Servo» (Isaías 50,4-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» é um Discípulo a quem Deus abre os ouvidos até ao coração, para ouvir bem a música de Deus, e poder levar uma palavra de consolo aos dela necessitados. «Tornando o seu rosto duro como uma pedra» (Isaías 50,7), apresenta-se como um Servo, não insensível e indiferente, mas decidido a levar até ao fim a missão que lhe é confiada. A mesma expressão será dita acerca de Jesus em Lucas 9,51. O Novo Testamento passa por aqui!

    11. Em claro paralelismo com o «Servo», cantado por Isaías, aí está Jesus apresentado por Paulo aos Filipenses (2,6-11). Mas aqui, o «Servo» tem um Rosto e um Nome: Jesus recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. O sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

    12. Voltamos à música do Salmo 22, uma oração que nasce na Paixão e termina na Páscoa! É belo tomarmos consciência de que Jesus nos pediu estas palavras emprestadas, para no-las devolver a transbordar de sentido. Já se sabe que aquele «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», que Jesus reza na Cruz, e que são as primeiras palavras do Salmo, implica, segundo a praxe judaica, a recitação do Salmo inteiro, que tem uma primeira parte de fortíssima lamentação (vv. 2-22), passando logo para uma segunda parte que expressa consolação por ver Deus ao nosso lado, tão próximo de nós (vv. 23-27), e terminando em verdadeira exultação (vv. 28-32). O grande pregador francês Jacques Bossuet (1627-1704) declarava bem-aventurados aqueles que, recitando este Salmo, se encontram com Jesus, tão santamente tristes e tão divinamente felizes!

    António Couto


  • Senhora da Anunciação

    e da Visitação,

    que corres ligeira sobre os montes,

    vela por nós,

    fica à nossa beira.

    É bom ter a esperança como companheira.

    Contigo rezamos ao Senhor:

    dá-nos, Senhor,

    um coração sensível e fraterno,

    capaz de escutar

    e de recomeçar.

    Mantém-nos reunidos, Senhor,

    à volta do pão e da palavra.

    Ajuda-nos a discernir

    os rumos a seguir

    nos caminhos sinuosos deste tempo,

    por Ti semeado e por Ti redimido.

    Ensina-nos a tornar a tua Igreja toda missionária,

    e a fazer de cada paróquia,

    que é a Igreja a residir

    no meio das casas dos teus filhos e das tuas filhas,

    uma Casa grande, aberta e feliz,

    átrio de fraternidade,

    de onde se possa sempre ver o céu,

    e o céu nos possa sempre ver a nós.

    António Couto


  • Isaías 7,10-14; 8,10; Salmo 40; Hebreus 10,4-10; Lucas 1,26-38

    1. Dia 25 de Março, Dia grande, Dia solene, que reúne a Igreja inteira, Oriente e Ocidente, em celebração compacta ao seu Único Senhor, venerando a sua Mãe, na Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, que aponta já para o Natal do Senhor. Ainda que, de facto, separados, hoje os irmãos estão todos unidos e reunidos à volta mesma mesa da Graça. Demos, por isso, graças a Deus. No Oriente, a Anunciação do Senhor permanece um Mistério tão central que, nas rubricas do calendário litúrgico, apenas cede à Sexta-Feira Santa. No rito bizantino, a própria Vigília Pascal, caso caia no dia 25 de março, reparte a celebração, uma parte do cânon Pascal, outra parte do cânon da Euaggelismós [= Evangelização], nome que este acontecimento recebe no Oriente.

    2. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). Aí está outra vez a harmonia da Escritura Santa. E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

    3. O centro da cena neste dia é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra da Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus a sua vida toda e a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver em matrimónio está, porém solidamente documentada, e impõe-se mesmo que assim a compreendamos no texto da Anunciação. O matrimónio de Maria e de José, como se pode entrever em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será tanto o quadro habitual do matrimónio em ordem à procriação, mas será mais o quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus. Neste quadro religioso, jurídico, social, não é de estranhar que Maria seja apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27; 2,5) que, perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), avança a objeção concreta: «Como pode ser isso, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34). Faço notar que, no quadro de um matrimónio habitual, esta objeção não faria sentido, pois se se tratasse de um matrimónio habitual, mais dia, menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho. Claramente, não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter um filho. Faço notar que este estatuto é conhecido no judaísmo [(tratado Niddah 1,4 da Mishnah judaica, e ver também as anotações precisas de Ireneu de Lião (130-202), Adv. Haer. III, 22,4, de Tertuliano de Cartago (160-220), De Virg. XI,2; Exhort. ad Cast. XII,2,  Gregório de Niza (330-395), in PG 46, 1140s., e Jerónimo (347-420), De Perp. Virg. 19]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos, no dizer de Gabriel (Lucas 1,13).

    4. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver o matrimónio, além de estar documentada no judaísmo, é a que melhor explica a objeção de Maria ao anjo (de outro modo, no contexto de um matrimónio habitual, mais dia, menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho). Ao contrário do homem de Génesis 3 e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

    5. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1, 28 e 30). Não se trata de uma simples saudação, de uma espécie de «Olá», como pode deixar entender a tradução latina, mas de uma condensação de inúmeras páginas do Antigo Testamento, de uma enxurrada de «Evangelização», como, de resto, é chamado o episódio entre os nossos irmãos Orientais.

    6. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Em toda a Escritura Santa, nenhuma mulher, exceto Maria, aparece chamada «a serva do Senhor». Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

    7. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

    8. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante, que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»], pela mão (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como paravento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade que reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

    9. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus (Mateus 1,18-25). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734 a.C., se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

    10. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora invasores e agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926, data provável da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

    11. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

    12. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com esta avenida de sentido que atravessa a Escritura Santa. Travessia que jamais fazemos sozinhos, porque Ele está connosco sempre, e é Ele que abre a Escritura para nós nela podermos entrar (Lucas 24,32). Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram,/ mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7). E o texto, notável, da Carta aos Hebreus cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste,/ mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). E é assim, que vem ao nosso mundo, nascendo de Maria, para, no seu corpo e com o seu corpo, mãos, pés, entranhas, coração, inteligência, fazer a vontade de Deus (Hebreus 10,7 e 9; cf. Salmo 40,9), como está escrito acerca d’Ele no rolo antigo (Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8). Assim é ultrapassada a Economia antiga dos muitos sacrifícios e ofertas pela Economia nova em que somos santificados por meio da oferta (minhah) do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas (epáphax) (Hebreus 10,10).

    António Couto


  • Concede-nos, Senhor Jesus,

    que neste tempo de dor e desalento,

    nos refugiemos aqui,

    nos ajoelhemos aqui,

    ao pé da tua Cruz,

    à espera de encontrar algum alento.

    Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

    sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

    mais alto e mais profundo,

    vê-se bem, com toda a claridade,

    que a lonjura do tempo não é horizontal.

    Eleva-se em altura,

    como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

    vertical,

    e sem costura.

    Tu vens do Alto, Senhor.

    Tu vens de Deus.

    Tu és Deus.

    Tu és o Justo

    que chove das alturas

    sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

    Vem, Senhor Jesus,

    alumia e rega a nossa terra dura,

    acaricia o nosso humilde chão,

    limpa as nossas lágrimas,

    e modela com as tuas mãos de amor

    em cada um de nós

    um novo coração,

    capaz de ver,

    desde al-Azariye,

    a alegria do teu terceiro dia

    e a força nova

    da tua Ressurreição.

    António Couto


  • Domingo V da Quaresma

    Ezequiel 37,12-14; Salmo 130; Romanos 8,8-11; João 11,1-45

    1. A «caminhada» quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), batizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Atos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39, textos que mutuamente se explicam e clarificam). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma, Domingo da dádiva da Ressurreição, os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Batismal.

    2. Segundo a maioria dos estudiosos deste Evangelho de João, o episódio da chamada «ressurreição» de Lázaro (João 11,1-45) constitui o 7.º dos sete «sinais» que, neste Evangelho, vão revelando e descodificando o Mistério de Cristo. Depois das bodas de Caná (João 2,1-12) (1.º), da cura do filho do oficial em Cafarnaum (João 4,46b-54) (2.º), da cura do paralítico na «piscina probática» (João 5,1-47) (3.º), da multiplicação dos pães e dos peixes (João 6,1-14) (4.º), de Jesus a caminhar sobre o mar (João 6,16-21) (5.º) e da Iluminação do cego de nascença (João 9,1-41) (6.º). O episódio da chamada «ressurreição» de Lázaro apresenta-se como a charneira deste Evangelho, fechando, por assim dizer, a primeira Parte, mas abrindo também a segunda, que culmina no Grande Último Primeiro «Sinal» que é a própria Ressurreição do Senhor, «o Sinal da Santa Cruz», decifrado pelo Espírito Santo, com que todos fomos (somos) marcados para sempre (Efésios 1,13; 4,30). Esta página, colocada no centro do Evangelho, constitui um verdadeiro «tornado», destacando-se pelo número das pessoas envolvidas, pela extensão e magnitude do texto, pela sua intensidade dramática, pela forma como expõe diante de nós o mistério de Jesus com tão grande clareza, como Aquele-que-Vem-de-Deus para nos libertar das cadeias da morte.

    3. Em boa verdade, o episódio da morte e «ressurreição» de Lázaro remete de forma clara para a Morte e Ressurreição do Senhor. O tempo que marca a narrativa não é o tempo de Lázaro (da sua doença, da sua morte, do seu sepultamento). O tempo que marca a narrativa é o tempo (a hora) de Jesus, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem sempre, passageiro total, pascal, amigo íntimo (phílos) de Lázaro (João 11,3.11.36), e que amava com amor novo e divino (agápê) Lázaro, Marta e Maria (João 11,5). Meu amigo íntimo, que me ama. Teu amigo íntimo, que te ama. Nosso amigo íntimo, que nos ama. Por isso, quando recebe a notícia da doença do seu amigo Lázaro, Jesus, que tinha acabado de escapar das pedras das mãos dos Judeus e se tinha refugiado no outro lado do Jordão, na margem esquerda do Jordão, na outra Betânia ou Bêthabarah (João 10,39-40; cf. 1,28), deixa passar propositadamente dois dias (João 11,6), e é ao terceiro dia que se encaminha para a Judeia (João 11,7), e é ao terceiro dia que chama Lázaro da morte (João 11,43). Pouco importa que Lázaro já esteja sepultado há quatro dias! (João 11,17.39). Verdadeiramente importante e decisiva é a hora-que-vem (!), agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus (João 5,25.28), Aquele-que-faz-viver (zôopoiéô) (João 5,21; 1 Coríntios 15,45), esplendoroso Rio de Luz e de Sentido a inundar a terra inteira, enchendo-a de Vida e de Saúde (Ezequiel 47,1-12; Apocalipse 22,1-2). Verdadeiramente importante é este terceiro dia em que o Filho de Deus é glorificado (v. 4), e suscita a fé de todos os intervenientes na cena: dos discípulos (João 11,15), de Marta (João 11,27), de Maria (João 11,29.32), da multidão (João 11,42), de muitos Judeus (João 11,45).

    4. Transcorridos os dois dias acima assinalados (João 11,6), Jesus diz de modo convincente aos seus discípulos: «Vamos de novo para a Judeia» (João 11,7). Os discípulos tentam explicar a Jesus que não é prudente voltar para a Judeia, dado que ainda há pouco de lá tinham sido forçados a sair porque os Judeus se dispunham a apedrejá-lo (João 11,8; cf. 10,31-39). Jesus diz-lhes então que Lázaro está a dormir, e que vai acordá-lo (João 11,11). Os discípulos replicam que, se Lázaro está a dormir, não haverá problema (João 11,12). Intromete-se o narrador para explicar que os discípulos não entenderam que Jesus jogava com a dualidade ou anfibologia semântica do termo dormir, querendo, na verdade, referir-se, não ao sono, mas à morte (João 11,13). Então Jesus diz abertamente: «Lázaro morreu» (João 11,14), e acrescentou que se alegrava por não ter estado lá, para que agora os discípulos pudessem acreditar (João 11,15). É verdade que Jesus jogou com a dualidade semântica do sono de Lázaro, de modo a deixar confusos os seus discípulos. Mas também é verdade que os discípulos de Jesus jogam em dois teclados, começando por considerar, não a morte de Lázaro, mas o seu sono, não tanto a morte de Lázaro, mas a morte de Jesus, adiantando que a ida de Jesus para a Judeia era a sua entrega à morte (João 11,8), e começam a vislumbrar até o significado Batismal dessa morte, uma vez que manifestam o desejo de morrer com Ele (João 11,16), isto é, querem Viver aquela morte! Como bons catecúmenos que seguiram fielmente o Mestre, aprenderam já que a Vida verdadeira brota daquela morte na qual verdadeiramente somos batizados (Romanos 6,3-4), com-sepultados (syntaphéntes), com-ressuscitados (synêgérthête), com-vivificados (synexôopoíêsen), com-sentados na Glória celeste! (synekáthisen en toîs epouraníois) (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13). Fantástico aglomerado de aoristos passivos e históricos com que Paulo pretende dizer o inaudito: a obra de Deus já realizada em nós!

    5. Deixando para trás a Betânia da vida, eis que Jesus já está a chegar à Betânia da morte. Lázaro, diz-nos o narrador, já está sepultado havia quatro dias (João 11,17), e Marta, quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saltou do lugar em que estava sentada e correu ao seu encontro, e disse-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido» (João 11,21), palavras que Maria dirá também a Jesus um pouco mais à frente (João 11,32). Com estas palavras, as duas irmãs, cada uma por sua vez, expressam a sua fé de que Jesus podia curar os doentes, mas mostram também a sua desilusão por Ele não ter chegado a tempo! A troca de palavras que se segue entre Jesus e Marta é sublime e imperdível: «Diz-lhe Jesus: “O teu irmão ressuscitará”. Diz-lhe Marta: “Eu sei (oìda) que ressuscitará na ressurreição no último dia”. Disse-lhe Jesus: “Eu Sou (egô eimi) a ressurreição (hê anástasis) e a vida (kai hê zôê); quem acredita em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim, não morrerá para sempre. Acreditas nisto?” Diz-lhe: “Sim, Senhor, eu acredito (pepísteuka: perf. de pisteúô) que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, Aquele-que-vem-ao-mundo”» (João 11,23-27). O que acabámos de ouvir é de um alcance excecional. O fio da esperança messiânica que em filigrana atravessa a Escritura Santa, que é toda a esperança judaica confessada por Marta, quando refere que o seu irmão ressuscitará na ressurreição no último dia (João 11,24), conhece aqui o seu fim, pois a sua realização acontece já, agora, na pessoa de Jesus, traduzida nas suas palavras: «Eu Sou a ressurreição e a vida; quem acredita em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim, não morrerá para sempre» (João 11,25-26), e confessada por Marta na sua agora altíssima profissão de fé cristã: «Sim, Senhor, eu acredito (pepísteuka: perf. de pisteúô) que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem-ao-mundo» (João 11,27). Marta reconhece em Jesus aquele que veio, não simplesmente do outro lado do Jordão, mas mais radicalmente do outro lado do nosso mundo de sofrimento e de morte, de Deus, para trazer à humanidade, na sua pessoa, a vida de Deus e a comunhão com Ele. Verdadeiramente, a vida, a vida mesmo, é união e comunhão com Deus. E esta vida divina, dada por Jesus à humanidade, atravessa a morte, mas não se extingue nem se apaga na morte. A união e comunhão com Deus, a nós dada por Jesus, não conhece fim nem decaimento nem qualquer tipo de parêntesis. O verdadeiro dom que Jesus nos traz não consiste numa vida terrena que se pode prolongar sempre, digamos uma vida terrena sem morte terrena, mas na vida em comunhão com Deus, esta sim, inextinguível.

    6. Depois destes sublimes dizeres de Jesus e depois desta altíssima profissão de fé cristã de Marta (expressa no tempo perfeito grego, que significa, não um ato de fé pontual, mas a atitude de fé permanente), Marta sai de cena e vai chamar a sua irmã Maria (João 11,28), que imediatamente se levanta e vai também ao encontro de Jesus, ainda que os Judeus que estavam com ela, a confortá-la, ao ver tanta pressa e emoção em Maria tenham sido levados a pensar que ela iria ao túmulo para chorar. Mas tiveram que a seguir, afinal, até Jesus. Jesus viu Maria a chorar (verbo klaíô) e viu também a chorar (verbo klaíô) os Judeus que a acompanhavam (João 11,33). E o narrador acrescenta que Jesus chorou (verbo dakrýô) (João 11,35). Belo, belo, belo este Jesus que vem ao nosso encontro, sente as nossas dores, se comove connosco, chora connosco e também por nós. É difícil, se não mesmo impossível, ficar indiferente face a uma pessoa que chora. São quatro as menções do verbo chorar, duas por parte de Maria (João 11,31.33), uma por parte dos Judeus (João 11,33), outra por parte de Jesus (João 11,35). O verbo grego empregado é, nos três casos de Maria [2 vezes] e dos Judeus, o verbo klaíô. No caso de Jesus, é o verbo dakrýô. Verificando então que Jesus chora porque nos vê chorar, podemos perceber que Jesus chora connosco, misturando as suas lágrimas com as nossas nesta situação dolorosa. Mas devemos notar ainda que o narrador põe Jesus a chorar com um verbo diferente do que usou para nós nas três vezes anteriores. Nós choramos com o verbo klaíô. Jesus chora com o verbo dakrýô. Com este procedimento, talvez o narrador nos queira dizer que, além de chorar connosco, Jesus chora também por nós, ao ver a nossa incredulidade.

    7. Depois desta cena das lágrimas, Jesus, sempre comovido, aproxima-se do túmulo de Lázaro, que era uma gruta fechada por uma pedra (João 11,38). Jesus diz: «Retirai (árate: imperativo aor. de aírô) a pedra», e Marta refere então a Jesus a inutilidade, mesmo o desconforto, o mau cheiro de uma tal ação, dado que já lá vão quatro dias desde que Lázaro morreu (João 11,39). Marta continua a pensar que Jesus chegou atrasado, e ainda não compreendeu que não é o tempo de Lázaro (4.º dia) que conta, mas sim o tempo de Jesus (3.º Dia). Por ordem de Jesus, mãos humanas «retiraram (êran: aoristo de aírô) então a pedra» (João 11,41). Assinala-se neste momento a primeira vez, neste Evangelho, que Jesus reza ao Pai (não o tendo feito em nenhum dos sinais até agora realizados), agradecendo ao Pai por o ter ouvido, e dizendo que o fez para que a multidão acredite que foi o Pai que o enviou (João 11,41-42). Só depois da oração ao Pai, Jesus levanta a voz e grita: «Lázaro, vem para fora!» (João 11,43). E Lázaro saiu ligado com as faixas e o rosto envolvido num sudário (João 11,43-44). É preciso ainda uma nova ordem de Jesus à multidão para que Lázaro seja libertado das faixas que o prendem na morte e do sudário da morte que lhe tapa o rosto (João 11,44).

    8. Como tudo isto é sublime e grandioso e aponta, em luminoso contraponto, para a ressurreição de Jesus! Aqui, no caso de Lázaro, a pedra é mandada retirar (árate) e é por mãos humanas por algum tempo retirada (êran). O verbo aírô [= retirar] aparece nos dois casos na forma ativa e no tempo aoristo, que traduz uma ação no tempo. Entenda-se: por mãos humanas e por algum tempo, dado que Lázaro, regressado a esta vida terrena, voltará naturalmente a morrer. Mas, para o leitor atento e competente, toda a ação remete já para o cenário da Ressurreição de Jesus. E então, quando se tratar do túmulo de Jesus, o leitor não pode deixar de reparar que a pedra já se apresenta retirada (êrménon: part. perf. passivo), na forma passiva e no tempo perfeito (João 20,1). Oh sublime gramática divina! Entenda-se então: pedra retirada por Deus e para sempre! É o inefável que se abre diante dos nossos olhos! E também as faixas não prendem, e o sudário não encobre! As faixas estão no chão, e o sudário cuidadosamente enrolado em um lugar (João 20,6-7). Tudo está feito, e bem feito, ao jeito do Criador (cf. Génesis 1). Nenhuma ação de libertação é necessária, como o foi para Lázaro em João 11,41.44.

    9. A vida cristã, no seu todo, a nossa vida toda, decorre daquele 3.º Dia de Jesus, como decorre também da voz de Jesus, e daquela única mão que nos salva e nos liberta dos vales onde vamos caindo mortos. Ele é a nossa Vida. Ainda hoje, em Betânia, atual al-Azariye, aldeiazinha situada na colina oriental que desce do monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém, se pode visitar, descendo 24 degraus, o túmulo que a tradição popular atribui a Lázaro. Ao lado está a igreja franciscana, dita «da amizade», levantada pelo famoso arquiteto Barluzzi, em 1952-1953.

    10. O imenso texto de Ezequiel 37,12-14 é uma belíssima metáfora plantada no meio da Escritura, uma lampadazinha (2 Pedro 1,19) que aponta já para a Luz nova e grande de Jesus. A metáfora mostra-nos que os exilados na Babilónia são como ossos ressequidos e sem nenhuma esperança. Eles estão na morte e na humilhação. O seu discurso não deixa dúvidas: «Os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; para nós está tudo acabado» (Ezequiel 37,11). Mas a Palavra de Deus manda também na morte. Apontando para o Novo Testamento, Deus chama os mortos dos seus túmulos, e fá-los reviver. Jesus que passa no Evangelho de Hoje «grita com voz forte» (João 11,43), e Lázaro, morto, saiu do túmulo.

    11. Paulo não se cansa de nos lembrar a vida nova que habita os filhos de Deus (Romanos 8,8-11). «Viver em Cristo» ou «no Espírito» são fórmulas batismais intensas que indicam a vida nova do batizado: com o dom da Iluminação, marcado pelo Espírito até à Vida eterna. Mas agora é tempo de passar, como Jesus, ao estilo de Jesus, dando um testemunho credível da nossa condição nova de filhos de Deus, deixando o fruto do Espírito iluminar a nossa vida. E «o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

    12. Sim, o Salmo 130 é um grito desde o abismo profundo em que jazemos atolados. São apenas 52 palavras hebraicas que atiramos a Deus, Senhor do Amor fiel (hesed) da Redenção (pedût). Cada orante que grita este Salmo sabe em que grau ou degrau de profundidade está. Sim, este é um dos 15 Salmos graduais ou das subidas ou das peregrinações (120-134). É uma voz que se levanta e sobe até àquele Senhor que não desprezou as nossas profundezas, mas até elas desceu, e até elas desce, para nos ajudar a subir!

    António Couto


  • São José,

    Esposo e Pai,

    Esposo e Pai como Deus,

    Em vez de Deus,

    Administrador fiel da casa de Deus,

    Homem justo e piedoso,

    Silencioso,

    Habitante do país do silêncio habitado,

    Não coagulado

    Ou congelado.

    Homem manso,

    Escutador atento,

    Escuta e age e sente,

    De forma surpreendente,

    Eloquente,

    Diligente,

    E fala sem dizer palavra,

    Palavra fecunda,

    Como a semente.

    A sua oração

    São nuvens de algodão,

    Atravessa os céus,

    Sabe a pão,

    Suavíssima paixão de esposo e pai.

    Como Moisés,

    Sabe manter a porta entreaberta,

    Para Deus entrar

    Quando quiser

    E se venha sentar

    No seu lugar,

    No meio de nós.

    António Couto


  • 2 Samuel 7,4-5.12-14.16; Salmo 89; Romanos 4,13.16-18.22; Mateus 1,16.18-21.24

    1. Celebramos hoje, dia 19 de março, a Solenidade de S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus, hoje proclamado aos nossos ouvidos (Mateus 1,16-24), qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade à vontade salvífica de Deus. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça» (Mateus 21,32), auto destituindo-se, libertando-se dos seus próprios projetos, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta, andando nos seus caminhos. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19, na pena do narrador) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: «que não haja nada entre ti e esse justo»), o que não deixa de ser uma nota significativa.

    2. A cena abre com a notícia acerca da origem (génesis) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e não nascimento. Se fosse nascimento, o texto grego assinalá-lo-ia com génnêsis. A cena remete essa origem para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria não provinha de José nem de uma possível infidelidade de Maria, mas do Espírito Santo (ek pneúmatos hagíou) (Mateus 1,19b). É assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa grávida durante o noivado, a que os hebreus chamam ՚arûsîn, antes da fase propriamente conjugal ou de coabitação, a que os hebreus chamam nîssû՚în, e não sabendo disso a razão, mas desconfiando, dado que o seu matrimónio com Maria era seguramente, não em ordem à procriação, mas de proteção mútua e de total dedicação a Deus.

    3. É oportuno introduzir aqui o estatuto dos chamados matrimónios putativos ou de proteção ou espirituais, a que não será alheia a locução «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê), que se ouve em Lucas 1,27. Parece cada vez mais razoável que o matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será explicável no quadro habitual de um matrimónio em ordem à procriação, mas será explicável mais, muito mais, no quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus, protegendo-se mutuamente. Neste quadro religioso, jurídico, social, Maria é apresentada como «desposada» (emnêsteuménê) (Mateus 1,18; Lucas 2,5), «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27), ou simplesmente como «a sua esposa» (hê gynê autoû) (Mateus 1,24), sendo José «o esposo de Maria» (ho anêr Marías) (Mateus 1,16) ou «o seu esposo» (hoanêrautês) (Mateus 1,19). A não ser este o estatuto do matrimónio de Maria e José, não se compreende que, posta perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), Maria avance logo a objeção concreta: «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34).

    4. Eu entendo e entenda quem puder que, no quadro de um matrimónio habitual em mundo judaico, esta objeção não faria sentido, pois mais dia menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho. Sem equívocos: não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter filhos. Faço notar que este estatuto matrimonial era conhecido no judaísmo, como se pode ver no tratado Niddah, da Mishnah judaica, e no cristianismo primitivo (ver as anotações precisas de Ireneu de Lião [130-202], Tertuliano de Cartago [160-220], Gregório de Niza [330-395] e Jerónimo [347-420]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que, no dizer do Anjo Gabriel, muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos (Lucas 1,13).

    5. Voltamos agora ao texto do Evangelho de hoje. Depois de se referir à origem de Jesus Cristo (Mateus 1,18a), acrescenta logo que Maria se encontrava grávida por obra do Espírito Santo (Mateus 1,18b). José nada sabia daquela gravidez de Maria, sua esposa, mas não duvidava da sua retidão (temîmût) e fidelidade (ʼemûnah) a Deus. Suspeitava de Deus, mas guardava tudo para si, no silêncio do seu coração (Mateus 1,19), como é dito de Maria (Lucas 2,19.51). Evita cenas públicas. Está a pensar em abandonar Maria em segredo (láthra) (Mateus 1,19). Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, «em um sonho» (kat’ ónar) (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas antigas da Escritura Santa (cf. Isaías 60,1.4-5; 62,4-5). A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como podemos ver em Mateus 1,18-25, é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José». E esta cumplicidade mansa, em sonhos, entre Deus e S. José, sempre com Deus a conduzir a cena, continua a ver-se aquando da procura de refúgio no Egito, devido à raiva assassina de Herodes (cf. Mateus 2,13), aquando do regresso do Egito à terra de Israel, após a morte de Herodes (cf. Mateus 2,19-20), e na ida para a Galileia, para Nazaré porque, aquando do regresso do Egito, reinava na Judeia Arquelau, filho de Herodes, que não era melhor do que o pai (cf. Mateus 2,22-23).

    6. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (Mateus 1,19), preparando-se mesmo para sair de cena, não tanto para não expor Maria, sua esposa, a uma situação embaraçosa, mas para expor Deus a toda a luz, entregando a Deus a cena toda!

    7. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime. Em que ficamos: foram os irmãos que despacharam José para o Egito, para se verem livres dele por inveja e ciúmes, ou foi Deus que por amor o enviou para o Egito? No teclado da história empírica, é verdade que foram os ciumentos irmãos de José que o despacharam para o Egito… Mas, no outro teclado de Deus, de acordo com a boa leitura de José, foi Deus que o enviou para o Egito para uma missão de salvação!

    8. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria (Mateus 1,21.25). O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice da Ceia da Páscoa: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

    9. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, sorve, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão e contemporâneo, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos juntos a dar-lhe o nome de Emanuel. Por isso, o verbo que, em Isaías 7,14, na versão grega dos LXX, aparece na 2.ª pessoa do singular: kaléseis [chamar-lhe-ás], no texto hebraico aparece na 3.ª pessoa do singular feminino: weqaraʼt [chamar-lhe-á], e aparece agora, no dizer do anjo a José, na 3.ª pessoa do plural: kalésousin [chamar-lhe-ão] Emanuel (Mateus 1,23). Todos os povos envolvidos e implicados neste nome.

    10. A lição do Segundo Livro de Samuel 7,4-16 mostra-nos Deus a prometer a David, através do profeta Natan, que construirá uma ponte de bênção e de paz, pura graça, entre David e o filho que lhe suceder, Salomão. Mas Deus acaba por relançar a sua promessa para sempre, indo, portanto, esta ponte de graça muito para além de Salomão, de filho em filho, até ao filho que será também filho de Deus: «Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um filho» (2 Samuel 7,14). Anda por aqui o «Filho de David», que atravessa as Escrituras. Anda por aqui Jesus. É a boa interpretação que Paulo faz na sinagoga de Antioquia da Pisídia: «Da sua descendência [de David] é que Deus, conforme prometera, fez sair para Israel um Salvador, Jesus» (Atos 13,23). A tanto conduz o desejo intenso de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

    11. S. Paulo escreve aos Romanos (4,13-22) e retrata a figura de Abraão, constituído herdeiro pela fé, e não pela lei. Pela fé, e não pela lei, para que a herança fosse vista como dom de Deus para todos, e não apenas para alguns. Por isso, todos nos sentimos na senda de Abraão e agradecidos a Deus. Sim, Jesus veio para todos. Para nós também.

    12. É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor, sobretudo a sua fidelidade à promessa feita a David. O Salmo 89 insinua-se nas pregas do nosso coração, e não nos deixa parar de cantar. O Salmo 89 é um Salmo Real, que amplifica a promessa feita a David em 2 Samuel 7, cantando Deus e o seu Messias, e o Reino maravilhoso do seu amor já estabelecido no meio de nós.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    serenos e seguros no caminho da vida e da Paixão,

    da ressurreição.

    Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    sossegados e firmes,

    resolutos,

    até à porta do meu coração.

    Sim,

    eu sei que foi por mim que desceste a este chão

    pesado, íngreme, irregular,

    de longilíneas lajes em que é fácil escorregar.

    Mas os teus braços sempre abertos ajudam-me a levantar.

    Senhor Jesus,

    deixa-me chegar um pouco mais junto de ti,

    caminharemos juntos nesta terra escura e arenosa.

    É dura a caminhada.

    Segura-me.

    Dá-me a tua mão firme e corajosa.

    Agarro-me.

    Sinto sulcos gravados nessa mão.

    Sigo-os com o dedo devagar.

    Percebo que são as letras do meu nome.

    Foi então por mim que desceste a este chão.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    Senhora das Dores, Maria, minha Mãe,

    que seguiste até ao fim os passos do teu Filho,

    acompanha e protege os meus passos também.

    Obrigado, Senhor Jesus,

    meu Senhor, meu Irmão e companheiro.

    António Couto


  • Vai adiantado o tempo da Quaresma,

    e eu continuo ainda aqui parado

    nesta página em branco da calçada.

    Sei bem que foste tu que me puseste em movimento,

    que teceste o meu ser,

    que me deste a vida e de comer,

    que me acolheste e me acolhes sempre em tua casa.

    Como é que estou então aqui parado na berma desta estrada,

    pensando que fui eu que me pus no ser,

    que sou dono de mim,

    que esta vida é minha,

    minha é esta casa,

    este pedaço de chão,

    este naco de pão

    e até este coração?

    Não fiques aí parado, meu irmão.

    Ergue-te e vai pelos nós do vento,

    chegarás por certo à pátria do Espírito,

    submisso ao sopro obsessivo do silêncio.

    Olha com mais atenção

    o chão que sonhas,

    o céu que lavras.

    recomeça!

    Conquista o espaço

    onde a palavra cresça

    longe do ruído das palavras!

    António Couto


  • 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13; Salmo 23; Efésios 5,8-14; João 9,1-41

    1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, batizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do batismo [= execução do programa filial batismal] para os batizados, preparação para o batismo por parte dos catecúmenos (Sacrosanctum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma, Domingo da dádiva da Luz, os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

    2. O Evangelho, imenso e de extraordinária riqueza, narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Compõem este Evangelho, imenso e rico, sete cenas ou cenários em que vão entrando diferentes atores: a primeira cena (vv. 1-7) traz-nos o encontro de Jesus e dos discípulos com um cego de nascença, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego; a segunda cena (vv. 8-12) mostra-nos a reação e discussão estéril que se gera entre os vizinhos e conhecidos, atónitos e confusos, quando veem agora aquele que antes era cego e pedinte, e que agora vê; a terceira cena (vv. 13-17) traz para a liça os fariseus, que também discutem o assunto, também não o entendem nem se entendem, apenas se detendo de forma legalista sobre o facto de aquele homem ter sido curado em dia de sábado; a quarta cena (vv. 18-23) mostra-nos a reação dos pais do cego que agora vê, e que não se querem comprometer, dando sobre o caso apenas respostas evasivas; a quinta cena (vv. 24-34) dá lugar a um interrogatório a que os fariseus submetem o cego curado, dando-nos acesso às assertivas e interessantíssimas respostas deste; a sexta cena (vv. 35-38) mostra-nos de novo a presença de Jesus, que até aqui esteve ausente, e que tem um último encontro com o cego curado, abrindo-lhe agora os olhos para a fé, com o cego a responder prostrando-se diante de Jesus; a sétima e última cena (vv. 39-41) põe Jesus em confronto com os fariseus, com Jesus a apresentar, por assim dizer, a chave de leitura do inteiro episódio e da sua missão, afirmando: «Foi para um julgamento que Eu vim a este mundo: para que aqueles que não veem, vejam, e aqueles que veem se tornem cegos», deixando assim os fariseus cada vez mais às escuras.

    3. Voltemos ao princípio. Logo a abrir a primeira cena, o texto mostra-nos Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (v. 1), e executando a «obra» daquele que o enviou (v. 4). Nesta sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença (v. 1), e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado-doença», e por detrás do encadeado «pecado-doença» viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição», em que a doença é fruto do pecado. A pergunta que fazem a Jesus é elucidativa: «Mestre, quem pecou, ele ou os seus pais, para que tivesse nascido cego?» (v. 2). Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira um castigo de Deus; viu, antes, que «era preciso» (deî) (v. 4) aquele cego «para que se manifestassem nele as obras (tà erga) de Deus» (v. 3). Digamos as coisas de outra maneira: Jesus viu um cego, e como que disse: preciso deste cego, para que Deus se manifeste nele e através dele! E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (v. 4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença, que será depois acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto batismal espantoso, que aqui me permito recordar: «É, na verdade, impossível que àqueles que foram iluminados uma vez, tendo saboreado o dom celeste e feitos participantes do Espírito Santo, e tendo saboreado a Palavra de Deus e a força (dýnamis) do mundo futuro…». Atente-se bem que o cego de nascença recebeu de Jesus o dom da vista da luz do dia, e receberá depois, na sexta cena, o dom batismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas (vv. 35-38). Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

    4. Significativamente, o cego de nascença recupera a vista e recebe o dom da Luz, lavando-se na «piscina de Siloé» (v. 7). Faço notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte batismal». E Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi batizado em Cristo». A «fonte batismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. Ninguém pediu ou intercedeu para que este cego fosse curado. É obra criadora de Jesus, das ações simbólicas operadas por Jesus (vv. 6.11.14.15), mas também da ação do cego que vai lavar-se à piscina de Siloé, no seguimento da Palavra poderosa de Jesus. O cego chega rapidamente à luz do dia. A luz da fé, essa é gradual e supõe um percurso a fazer, marcado por diferentes etapas, verificáveis nos sucessivos dizeres do cego curado acerca de Jesus: «não sei» (v. 12); «é um profeta» (v. 17); «vem de Deus» (v. 33); «eu creio, Senhor» (v. 38).

    5. A segunda cena (vv. 8-12) mostra-nos os vizinhos e conhecedores do cego agora curado numa discussão que roça o ridículo, pondo em causa a própria identidade do cego curado, tanto que uns diziam: «É ele!»; outros diziam: «Não é ele, mas é outro parecido com ele»; e o próprio cego afirmava: «Sou eu!», todos estes dizeres amontoados no v. 9. Finalmente, resolvem dirigir-se ao cego e perguntam-lhe: «Como é que te foram abertos os olhos?» (v. 10), ao que o cego responde com notável clareza: «O homem que se chama Jesus fez lodo, aplicou-mo nos olhos, e disse-me: “Vai a Siloé, e lava-te!”. Eu fui, lavei-me e recobrei a vista» (v. 11). O cego curado sabe dizer tudo o que Jesus lhe fez e lhe ordenou, mas não sabe dizer quem é Jesus, nem onde esteja (v. 12). Não conseguindo compreender o incompreensível, e, na tentativa de se fazer mais luz, levaram o cego aos fariseus, e aí está já a terceira cena (vv. 13-17). Instado de novo a descrever como tinha sido curado, o cego repetiu o que já tinha dito antes. Entretanto, sabendo que Jesus tinha feito lodo em dia de sábado, também os fariseus se dividiram entre si, dizendo uns que um homem que trabalha em dia de sábado não pode estar em relação com Deus, porque é um pecador, enquanto outros se interrogavam, dizendo: «Mas como pode um pecador fazer coisas assim?». Acabaram por perguntar ao cego o que pensava do homem que lhe abriu os olhos, e ele respondeu: «É um profeta!». Os fariseus não podem acreditar que aquele homem fosse cego e que tenha recobrado a vista. É por isso que chamam os seus pais, abrindo-se aqui a quarta cena (vv. 18-23), e lhes perguntam se aquele era o seu filho, que se diz que terá nascido cego, e como é que ele passou a ver? Os pais respondem que sim, que aquele é seu filho, e que nasceu cego. Mas negam saber o modo como foi curado, e negam igualmente saber quem o curou. Estes pais não se querem comprometer, não querem problemas, pois sabem que, se dissessem a verdade, teriam de enfrentar a hostilidade das autoridades, e teriam de viver isolados social e religiosamente. É mais fácil fechar os olhos para não verem a luz.

    6. A quinta cena (vv. 24-34) leva outra vez os judeus e fariseus ao encontro do cego curado. Também porque os pais, para evitar problemas, tinham saído da cena anterior, dizendo aos fariseus mais ou menos isto: «Ora essa, perguntai-lho a ele, que já tem idade para responder». Os fariseus começaram com uma afirmação: «Nós sabemos que esse homem é um pecador». O cego curado atalhou de pronto: «Se é pecador, não sei. Mas uma coisa sei: eu era cego, e agora vejo». Insistiram então que lhes contasse o que fez e como fez o homem que o curou, ao que o cego respondeu: «Já vo-lo disse, e não prestastes atenção; por que quereis ouvi-lo outra vez?». E avançou uma forte insinuação: «Quereis, porventura, tornar-vos também seus discípulos?». Ouvindo isto, insultaram-no, dizendo: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! E sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse não sabemos de onde (póthen) é» (v. 29), ao que o cego respondeu com penetrante clarividência e fina ironia, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso (tò thaumastón): vós não sabeis de onde (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (v. 30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Ou então: só um cego é que não vê! A sexta cena (vv. 35-38) traz-nos de novo a presença e a iniciativa de Jesus, que esteve ausente desde a primeira cena, em que também tomou a iniciativa de abrir os olhos do cego à luz do dia. Estando embora ausente nas cenas 2, 3, 4 e 5, foi sempre dele que se falou, e foi sempre face a Ele que os diferentes grupos foram tomando posição. Aparece agora outra vez na sexta cena, iniciativa sua para um último encontro com o cego de nascença a quem tinha aberto os olhos para a luz do dia. Jesus aparece agora para lhe abrir os olhos para a luz da fé. E também o cego curado reage, prostrando-se em adoração diante de Jesus, último gesto seu, e que se faz unicamente diante de Deus. E deixa no sétimo e último cenário (vv. 39-41) a chave de leitura do inteiro episódio e da sua missão, afirmando, de modo a que os fariseus possam ouvir: «Foi para um julgamento que Eu vim a este mundo: para que aqueles que não veem, vejam, e aqueles que veem se tornem cegos», deixando assim os fariseus cada vez mais às escuras.

    7. Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os batizados receberam como ele o dom batismal da Luz para ver e ouvir, viver e celebrar a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus, como os discípulos na primeira cena. Ou os vizinhos, os fariseus, os pais… Importa que a nossa conduta seja a do cego, que segue as indicações de Jesus e que, cena após cena, vai dando testemunho de Jesus.

    8. O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto delicioso em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a avivar-lhe a memória, perguntando a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos, encerrando aí a contagem e a apresentação, e de não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?», pergunta Samuel (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que, afinal, ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, estava Jessé longe de pensar que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Para que brilhe mesmo a Luz de Deus, e não a nossa (2 Coríntios 4,6).

    9. Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5), que é um dos termos técnicos de «divinização», e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

    10. Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

    António Couto


  • O caminho da Quaresma leva-nos à cripta,

    ao miolo,

    àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro,

    onde eu sou verdadeiro,

    sem dolo

    nem tijolo

    nem roupeiro.

    Chegar lá implica desfazer-se do barulho

    e do entulho,

    arredar a caliça e o reboco,

    aprender com os pássaros do céu,

    com os lírios do campo,

    ir até ao fundo,

    até ao toco,

    e deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço,

    onde só Ele sabe semear semente santa,

    que depois há de florir e dar fruto

    a seu tempo e a seu campo.

    Que rebento pode brotar de um toco seco?

    Que sucesso pode ter uma semente

    na aridez do deserto semeada?

    É mesmo só com Deus essa empreitada.

    E Jesus explica bem,

    no meio do sermão da montanha,

    que são também assim a esmola,

    a oração e o jejum,

    frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

    A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas

    por mim e ao meu jeito,

    e para mim e em meu proveito,

    nas ruas,

    nas praças,

    nas igrejas,

    só para que as pessoas vejam e aplaudam.

    A Quaresma é tempo de deixar Deus

    fazer nascer

    dentro de mim

    um jardim,

    uma maneira nova de viver.

    António Couto


  • Temos meia Quaresma já andada.

    E enquanto,

    no caminho ou no campo,

    nos alegramos por ver a tua messe amadurar,

    também olhamos e vemos,

    cada vez com mais encanto,

    aquela árvore seca

    a olhar para nós e a sangrar.

    Árvore seca e comovida,

    toco seco a rebentar em flor,

    é a tua Cruz, Senhor,

    a irrigar de amor a nossa vida.

    Ela lá está,

    sempre à nossa frente,

    plantada no chão árido e seco.

    Mas, para nosso maior espanto e admiração,

    eis que a tua Cruz, Senhor, se levanta do chão,

    e se planta no nosso coração.

    Por tanto amor, Senhor,

    recebe a nossa gratidão,

    enche os nossos pés de prontidão,

    as nossas mãos de paz,

    os nossos lábios de oração,

    os nossos gestos de perdão.

    E caminha connosco

    no que falta cumprir desta procissão.

    António Couto


  • Era por volta do meio-dia,

    e Jesus sentava-se com tempo à beira do poço de Jacob,

    à espera que chegasse a mulher da Samaria.

    O meio-dia é a hora da Luz e da Revelação,

    coisa que Nicodemos não sabia,

    e a mulher da Samaria vem ao poço buscar água e Luz,

    vem buscar Jesus,

    para beber e para viver.

    Jesus, que a esperava, desceu ao nível dela,

    fez-se pedinte, e disse-lhe: «Dá-me de beber!».

    Mas o seu intuito era

    transformar em pedinte a mulher,

    que pouco depois pede a Jesus:

    «Dá-me Tu dessa água viva, Senhor!».

    E foi depois chamar os samaritanos,

    que também vieram ver o poço novo aberto em Siquém.

    Todos beberam da água viva,

    e descobriram-se irmanados na alegria

    daquele meio-dia.

    Vem, Senhor Jesus,

    senta-te à nossa beira,

    e ensina aos teus irmãos

    o segredo

    e o enredo

    daquela nova ceifa e daquela sementeira.

    António Couto


  • Êxodo 17,3-7; Salmo 95; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-42

    1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade. Em ordem a uma melhor compreensão integrada dos Domingos da Quaresma, e particularmente do Domingo III que hoje nos ocupa, tenha-se sempre presente a linha dos Evangelhos: Cristo batizado, tentado no deserto na sua condição de batizado, e Vitorioso, assumindo a história do seu povo e salvando-a (Domingo I), confirmado na sua missão filial batismal com a Transfiguração, lição para os discípulos, igualmente confirmados para a sua missão futura (Domingo II), promete a Água da Vida (Domingo III), dá a Luz (Domingo IV), dá a Ressurreição (Domingo V). A linha cristológica torna-se também «antropológica». A «obra» divina na Humanidade do Filho dirige-se, nesta mesma Humanidade, com amor, aos homens. Água, Luz, Ressurreição, são os elementos batismais primários (simbologia batismal da Quaresma) quer para os batizados quer para os catecúmenos.

    2. O Evangelho deste Domingo III da Quaresma oferece-nos o grande diálogo de Jesus com a samaritana (João 4,5-42). A meticulosa preparação da cena (João 4,1-6) mostra-nos Jesus a fazer a viagem da Judeia para a Galileia, com o narrador a anotar que «era preciso (édei) passar pela Samaria» (v. 4). Aquilo que parece óbvio à primeira vista, na verdade não o é. Quem, no tempo de Jesus, fazia essa viagem, evitava mesmo passar pela Samaria: desde logo porque o caminho era montanhoso, mas também porque eram hostis as relações entre judeus e samaritanos. Os judeus de Jerusalém consideravam os samaritanos uma população mista, semipagã (cf. 2 Reis 17,24-41), tendo-os impedido de participar na reconstrução do Templo de Jerusalém depois do exílio (cf. Esdras 4,1-24), e catalogavam-nos com desprezo como «o estúpido povo que habita em Siquém» (Ben Sira 50,26). Por tudo isto, a viagem habitual fazia-se, descendo de Jerusalém para Jericó, atravessando depois o Jordão para Oriente, junto de Damyiah, percorrendo então por terra plana o Além-Jordão (atual Jordânia) sempre junto do rio Jordão, para voltar depois a atravessar o Jordão, agora para Ocidente, junto de Bêt-Shean, um pouco a sul do Mar da Galileia. E estava-se na Galileia. Evitava-se assim a estrada montanhosa da Samaria, bem como eventuais hostilidades e confrontos com os samaritanos. Se o narrador coloca Jesus a calcorrear o caminho montanhoso da Samaria, não o faz por motivos geográficos, mas teológicos, explicitados, de resto, naquele «era preciso»: trata-se de revestir Jesus dos traços do mensageiro de Isaías 52,7: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que leva boas novas a Sião», e do noivo do Cântico dos Cânticos 2,8, de quem a noiva diz: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». O que faz correr sobre os montes é, pois, uma grande notícia ou um grande amor. As duas realidades movem Jesus.

    3. O texto refere ainda que Jesus, afatigado (kekopiakôs: part. perf. de kopiáô) da caminhada, se sentava com tempo (ekathízeto: imperfeito que implica duração) junto do poço-fonte de Jacob (v. 6). Não se deve esquecer que o verbo «afadigar-se» (kopiáô) (vv. 6.38) designa nas primeiras comunidades o trabalho missionário. E é também sabido, desde o Antigo Testamento, que o poço-fonte (pêgê) é visto como um cenário de noivado. É assim em Génesis 24, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Isaac com Rebeca; é assim em Génesis 29, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Jacob com Raquel; é assim em Êxodo 2, onde, junto de um poço, se prepara o casamento de Moisés com Séfora. Um grande amor e grandes e belas notícias movem Jesus, na sua viagem «necessária» sobre os montes da Samaria. Fazendo-o sentar com tempo junto do poço-fonte, são cenários de noivado que o narrador evoca e cuidadosamente prepara. Ao anotar, outra vez com tinta teológica, que «era por volta do meio-dia [= hora sexta]» (v. 6), o narrador evoca outra vez a hora do Noivo dos Cântico dos Cânticos 1,7, mas deixa-nos também expostos à máxima e irresistível revelação com que Paulo é atingido em pleno meio-dia (Atos 22,6; 26,13). O meio-dia representa a luz a pique, penetrante, como uma espada de dois gumes (cf. Hebreus 4,12). Em contraponto, procurar Jesus de noite, como fez Nicodemos na página anterior (João 3,2) é começar e acabar por não entender nada, como os discípulos que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como a Madalena que vai de madrugada, ainda escuro, ao túmulo de Jesus, e nada entende (João 20,1), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas, com os guardas, e sem Jesus (João 18,17-18).

    4. Eis então Jesus sentado, com tempo, junto do poço-fonte à hora do meio-dia. E aí vem a noiva, a mulher da Samaria. E Jesus desce pedagogicamente ao nível da mulher que vinha buscar água, com aquele pedido direto: «Dá-me de beber!» (v. 7), com que se abre o maior diálogo de todo o Novo Testamento (sete intervenções de Jesus; seis da mulher da Samaria). Salta à vista que Jesus se transforma em pedinte com o intuito de transformar em pedinte a mulher: a maravilhosa delicadeza de um Deus que pede para dar! De facto, pedagogicamente conduzida por Jesus, no final do diálogo sobre a água do poço-fonte que apenas mata a sede momentânea e a água que dá a vida eterna, (zôê aiônios) é a mulher que diz para Jesus: «Senhor, dá-me dessa água…» (v. 15). É fácil compreender que a melhor água que bebemos não pode manter-nos senão na vida que já temos, mas não pode salvar-nos da morte e dar-nos a vida eterna.

    5. Neste ponto preciso, Jesus imprime um novo ritmo ao diálogo, dizendo agora à mulher: «Vai, chama o teu marido, e vem aqui» (v. 16). Ao que a mulher responde: «Não tenho marido!» (v. 17). Quem tem o ouvido sintonizado na onda finíssima que percorre o Evangelho de João, começa já a aperceber-se do verdadeiro efeito retórico deste «não tenho», e para onde nos leva este não ter. Na verdade, pouco antes, em plenas bodas de Caná, Maria tinha anotado para Jesus: «Não têm vinho!» (João 2,3). E a verdade é que vão ter vinho em excesso! Em João 5,7, anota-se o caso do doente que não é curado, porque não tem ninguém que o lance à água. Mas vai ter cura, e cura em excesso por ação de Jesus! É ainda o caso dos discípulos que, à pergunta de Jesus: «Filhinhos (paidía), não tendes alguma coisa para comer, pois não?», respondem: «Não!» (João 21,5). Também já se sabe que irão ter peixe em excesso! É, portanto, de suspeitar, por parte do leitor atento de João, que a mulher da Samaria, que não tem marido, vá encontrar o esposo definitivo, o próprio Deus, cumprindo Isaías 62,5: «Como um jovem desposa uma virgem, assim te desposará o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, assim o teu Deus se alegrará em ti».

    6. E aí está Jesus, o conhecedor que nos conhece, e a quem nós ainda não conhecemos, a entrar dentro da mulher da Samaria e de nós mesmos, dizendo: «Disseste bem: “Não tenho marido”. Na Verdade tiveste cinco maridos, e o que tens agora [= sexto] não é teu marido”» (vv. 17-18). Abre-se aqui outra janela de luz e de sentido. Olhando através dela, podemos ver uma mulher atónita, a olhar para Jesus com redobrado espanto, e a dizer consigo mesma: «Mas como é que este desconhecido sabe tanta coisa acerca de mim? Como é que este desconhecido conhece a minha vida toda?». E que experiência será esta de nos sentirmos ditos, adivinhados, conhecidos? Não será o conhecimento conhecido, obra de Deus em nós, de que fala Paulo em 1 Coríntios 13,12? Seguramente que a mulher experimenta a estranha sensação de estar perante o saber que a ultrapassa de alguém que a conhece perfeitamente, e a quem ela ainda não conhece, mas começa a suspeitar. Começou por ver nele um simples judeu (v. 9). Mas agora já vê que é um profeta (v. 19), e pouco depois dirá que sabe que virá o Cristo, que explicará tudo (v. 25), e como tal o irá apresentar na Samaria (v. 29). Apercebendo-se que está perante um «homem de Deus», a mulher aproveita para colocar um problema de lugar de culto: «é em Jerusalém ou no monte Garizim que se deve adorar?» (v. 20). A questão não é sobre rezar, mas adorar Deus, reconhecê-lo como Criador e Senhor, que implica a ação de a pessoa se ajoelhar e beijar o chão (cf. Apocalipse 4,9-11; 7,11-12). Jesus responde que não se trata mais do lugar onde adorar, mas do modo de adorar (vv. 21-24).

    7. No que se refere à técnica da «antecipação» ou «adivinhação» pode ver-se noutras passagens do IV Evangelho, pelo que, se a mulher é completamente surpreendida, o leitor competente não o é. De facto, a mesma estratégia narrativa já foi encontrada em João 1,45-49, quando Jesus se adianta a Natanael, dizendo dele: «Eis um verdadeiro israelita!» (João 1,47), ao que Natanael reage com espanto: «De onde me conheces?» (João 1,48). Ver-se-á também em João 20,15, quando aquele que, aos olhos da Madalena, era um simples jardineiro, se adianta a ela, atravessando-a com uma pergunta penetrante: «Mulher, por que choras? A quem procuras?» (João 20,15a). Se a primeira pergunta («Por que choras?») parece óbvia (porque a Madalena estava, de facto, a chorar), a segunda («A quem procuras?») apanha a Madalena completamente de surpresa. Na verdade, pensará a Madalena, «Quem será este que sabe que eu procuro alguém neste jardim?». E se sabe que eu procuro alguém, seguramente saberá também quem eu procuro. Por isso, porque se sentiu adivinhada e pressente que ele sabe bem quem ela procura, responde-lhe em código, usando pronomes, e nunca dizendo o nome: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João 20,15b). Jesus responde: «Maria!» (v. 16). Esta estratégia pode ver-se ainda, pouco depois, na manifestação de Jesus Ressuscitado a Tomé. Na verdade, depois de Tomé ter dito aos outros discípulos que afirmaram diante dele terem visto o Senhor (João 20,25), que não acreditaria se ele próprio não visse nas suas mãos a marca dos cravos, e se não metesse o seu dedo na marca dos cravos e a sua mão no seu lado (João 20,25), surge Jesus, dirige-se logo a Tomé e diz-lhe: «Traz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Tomé já não vai investigar nada e, certamente atónito, porque adivinhado (como é que Jesus tomou conhecimento das condições que ele tinha posto?!), responde de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), a mais alta confissão de fé no plano narrativo do IV Evangelho.

    8. E quanto às contas feitas com os maridos, o leitor atento, mas que ainda não atingiu o nível de leitor modelo, contentar-se-á, talvez, com a simples aritmética, mas se conseguisse fazer as operações mentais e afetivas reclamadas pelo texto (a que só o leitor modelo tem acesso), seria então levado a compreender que aquela mulher da Samaria, que agora não tem marido, que já teve cinco, e que o que tem agora, e que é o sexto, não é seu marido… Em resumo: teve cinco, o que tem agora e que não é seu marido, é o sexto. Compreende-se então que aquela mulher já vai no sexto marido provisório, sendo seis um número imperfeito. Mas o sexto, enquanto provisório e imperfeito, aponta para o definitivo e perfeito. Em boa gramática simbólica, aponta para o sétimo, que está ali mesmo à beira, que está aqui mesmo à beira, e é Jesus! É por isso que Jesus diz à mulher: «… e vem aqui» (v. 16), porque é ele o noivo, aquele que vem, trazendo o tempo novo da alegria nova e definitiva, a alegria grande da Páscoa, o Messias suspeitado (v. 25) e confesso: «EU SOU (egô eimi), o que estou a FALAR contigo (ho lalôn soi)!» (v. 26), verdadeiro clímax narrativo e da revelação neste imenso texto. E a samaritana, encontrada pelo Noivo novo definitivo esperado, procede, de facto, como as mulheres na manhã de Páscoa: abandona o cântaro antigo e provisório (v. 28), que servia apenas para recolher a água antiga e provisória tirada do poço antigo e provisório (v. 11), e correu à cidade para dizer a todos… (v. 28). Notável movimento Batismal Pascal!

    9. Mas o que é que diz a mulher aos homens da Samaria? Diz: «Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?» (v. 29). Note-se o importante dizer reticente e pedagógico, mas também cristológico, da mulher da Samaria. Dizendo como diz, a mulher da Samaria evita dizer «judeu» e «messias», duas realidades que provocariam nos samaritanos uma reação de hostilidade, e não os mobilizariam para irem ao encontro de Jesus. Usando, porém, o título de «Homem», aqui dado a Jesus pela primeira vez no Evangelho de João, mas que o atravessa completamente (cf. 4,29; 5,12; 7,46; 8,40; 9,11.16.24; 10,33; 11,47.50; 18,14.17.29; 19,15), e mesmo a inteira Escritura desde o Génesis 1,26-30, é a singular humanidade de Jesus que se salienta, o seu saber penetrante, bem como a sua palavra mansa e dialógica. E a interrogação: «Não será ele o Cristo?» não é expressão de dúvida acerca da identidade de Jesus, mas uma finíssima e deliciosa interrogação pedagógica, que provoca nos samaritanos a curiosidade e acende neles o desejo de fazerem a experiência, de irem ver Jesus. Muitas vezes, uma afirmação põe fim a um processo de pesquisa. A interrogação, ao contrário, mobiliza e desperta. Foi assim que os samaritanos foram ver e ouvir a voz do Noivo, Aquele-que-Vem, e chegaram à fé em Jesus, confessando que Ele é verdadeiramente «o Salvador do mundo» (v. 42). O definitivo.

    10. É estranho, mas também pedagógico e ilustrativo, que enquanto Jesus dialoga com a samaritana, circulando entre os dois o verbo «dar», os seus discípulos andem pelo shopping a «comprar»! É ainda mais estranho que, mal Jesus inicia o diálogo com a samaritana, pedindo: «Dá-me de beber!» (v. 7), o narrador nos informe que os seus discípulos tinham ido à cidade comprar. Por lá andam o tempo todo. Regressam no v. 27, quando Jesus tinha acabado de fechar o diálogo no v. 26, com aquele solene: «Eu Sou…». É ainda estranho e nada edificante que estes discípulos de Jesus, ao regressar do shopping, tenham ficado admirados ao ver Jesus a falar com uma mulher, mas evitem fazer a Jesus qualquer pergunta sobre o assunto (vv. 27-28). Em vez disso, convidam Jesus a comer alguma coisa, e ouvem de Jesus um dizer espantoso: «Tenho para comer um alimento que vós não conheceis» (v. 32). Nós, que assistimos ao crescendo das reações da samaritana às propostas de Jesus, achamos agora estranhíssimo que estes discípulos não digam a Jesus: «Dá-nos então também desse alimento!», e que nem sequer formulem a pergunta: «Então que alimento novo é esse?». Em vez disso, diz-nos o narrador, que perguntavam, não a Jesus, de quem, pelos vistos, não querem mesmo ouvir nada, mas uns aos outros: «Porventura alguém lhe terá trazido alguma coisa de comer?» (v. 33). Estranhos discípulos desacertados de Jesus e do seu tempo novo. Descompassados e descompensados. Andam ainda no tempo do inverno e da sementeira: «Não dizeis vós que faltam ainda quatro meses para a ceifa?», pergunta Jesus (v. 35a). Eles não querem ouvir, mas Jesus abre diante deles um tempo novo: «Levantai os olhos e vede os campos: estão brancos para a ceifa!» (João 4,35b). Sim, o tempo que Jesus abre diante deles e de nós é o tempo novo da ceifa e da alegria (cf. Salmo 126,6).

    11. O relato do Livro do Êxodo (17,3-7) mostra-nos hoje que o Senhor está sempre no meio de nós e sacia a nossa sede no deserto da caminhada da vida. Então a sua «obra» nova não consiste também em fazer jorrar a água no deserto? (Isaías 35,6-7; 41,18; 43,19-20). Deus é muitas vezes, por 33 vezes, designado no Antigo Testamento, sobretudo nos Salmos, como a Rocha ouo Rochedo da nossa salvação. Por isso, é da Rocha, do Rochedo, que jorra a água que mata a sede do povo de Israel, e a nossa, no deserto. Como sempre, o Antigo Testamento aponta para o Novo: no Evangelho de hoje, Jesus, o Filho de Deus, oferece a Água Viva (zôn) que mata a nossa sede para sempre. E Paulo, encontrado pelo Senhor Ressuscitado (Filipenses 3,12), que é quem dá a Água da Vida que é o Espírito Santo, pode agora dizer, relendo o Antigo Testamento, que aquela Rocha donde jorrava a água no deserto é Cristo (1 Coríntios 10,4).

    12. A Rocha, o Poço e a Água viva. Deixo aqui a bela interpretação que os targûmîm (paráfrases aramaicas) fizeram da passagem do Livro dos Números 21,16-18: «Foi então que Israel cantou este poema de louvor, no momento em que voltou o poço que lhes tinha sido dado por mérito de Miriam, depois de ter estado escondido: “Sobe, poço! Sobe, poço!”, assim cantavam. E ele subia. O poço que tinham escavado os patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob, os príncipes de outrora, os chefes do povo, Moisés e Aarão, perfuraram-no os dirigentes de Israel, mediram-no com as suas varas. E, depois do deserto, deu-se a eles como um dom. E depois de se dar a eles como um dom, pôs-se a subir com eles pelas altas montanhas, a descer com eles pelos vales. Passando por todo o território de Israel, dava-lhes de beber a todos e a cada um à entrada da sua tenda». Um poço que acompanha o povo por todo o lado, por montes e vales, e que dá de beber ao povo. Bela metáfora que pode traduzir também o Jesus de João 4, que vai à nossa procura e sacia a nossa sede mais profunda.

    13. Na Carta aos Romanos (5,1-2.5-8), Paulo dá testemunho do acontecimento central da sua e da nossa vida. Dá testemunho do Evangelho. Cristo morreu por nós, dando-nos a Água da Vida que é o Espírito Santo (de novo Atos 2,32-33; João 19,30.34 decifrado por João 7,38-39). O Espírito Santo dado(Romanos 5,5) como selo (Efésios 4,30) para a vida eterna ensina-nos tudo sobre o Pai – em nós clama: Abbá (Gálatas 4,6); nele clamamos: Abbá (Romanos 8,15) – e sobre o Filho: «ninguém pode dizer “Senhor é Jesus” a não ser no Espírito Santo» (1 Coríntios 12,3). É ele que derrama o amor de Deus no nosso coração: unidos a Deus até à vida eterna (Romanos 8,16-17; 1 Coríntios 12).

    14. Sim, não nos é permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou à mulher da Samaria e todos os dias mostrou e mostra aos seus discípulos.

    António Couto


  • A Quaresma tem o aroma da terra lavrada,

    das primeiras chuvas,

    das únicas chuvas verdadeiras,

    aquelas que do céu descem,

    e para o céu sobem,

    depois de terem regado a terra lavrada do nosso coração.

    A Quaresma tem o rosto da Palavra e da escuta infinita,

    tem o cheiro fresco do sabão,

    a força do perdão,

    e o sabor do pão.

    A Quaresma faz-nos nascer de novo

    como erva verde,

    como água pura,

    como o maná de mil sabores,

    com que os pastores do deserto

    alimentam as ovelhas.

    É assim que a Quaresma nos faz ver melhor o Bom Pastor,

    que nos conduz,

    e à sombra da sua Cruz

    nos faz repousar

    e nos ensina a amar.

    Faz-nos, Senhor,

    Bom e belo Pastor,

    seguir sempre os rumos que a tua voz de amor nos indicar.

    António Couto


  • A quaresma é uma estrada

    entrecortada

    por estações de serviço de paz e de perdão.

    Uma avenida

    florida

    de oração.

    Uma praça

    de graça

    e contemplação.

    A quaresma é uma escada,

    que do céu desce,

    trazendo até nós a mão de Deus,

    e ao céu se eleva,

    levando até Deus a nossa prece.

    A quaresma é um caminho

    direitinho

    ao coração.

    É preciso limpá-lo

    de todo o lixo acumulado.

    É preciso entregá-lo a Deus,

    limpo e cultivado.

    Senhor desta estrada deserta,

    que vai de Jerusalém a Gaza,

    mantém o meu coração alerta,

    conduz nesta viagem os meus passos,

    pegada a pegada,

    até ao limiar da tua casa

    iluminada.

    António Couto


  • Génesis 12,1-4a; Salmo 33; 2 Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9

    1. Batizado no Jordão, tentado no deserto como Israel, mas Vitorioso, após o jejum preambular de preparação para o início da sua missão na Galileia, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa, e imediatamente depois do anúncio da sua Paixão, Morte e Ressurreição, dados não compreendidos e contestados por Pedro e pelos outros discípulos (Mateus 16), aí está Hoje, Domingo II da Quaresma, o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9) – Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada, e confirma também os discípulos, ainda confusos e perplexos, em ordem à sua missão futura. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa dada por Jesus aos seus discípulos ao descer do monte: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

    2. Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical, pausa e bemol. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor antes da Ressurreição do Senhor, ou fora dela. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Atos dos Apóstolos, com Pedro a explicar assim o Pentecostes à multidão: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir no Evangelho segundo João no final da Festa das Tendas: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Portanto, é urgente esperar! Toda a atenção ainda, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com/ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20). Portanto, antes e fora da Ressurreição do Senhor, antes e fora do Espírito Santo sobre nós derramado, nós não podemos nem sabemos dizer sobre Jesus seja o que for que faça algum sentido na ordem do divino. Apenas podemos debitar alguns dados da ordem da história, da geografia, da sociologia…

    3. O famoso texto de Mateus 17, que traz até nós o episódio da Transfiguração de Jesus, começa assim: «Seis dias depois, Jesus toma consigo Pedro e Tiago e João, seu irmão, e leva-os, à parte, a um monte alto» (17,1). O uso aqui do presente histórico dá o tom enfático apropriado para vincular o episódio da Transfiguração (17,1-9) ao Capítulo 16, que o precede imediatamente. A presença do artigo antes do nome de Pedro (tòn Pétron), mas não antes dos nomes de Tiago e João, serve para pôr em destaque o papel de Pedro desde o Capítulo anterior, a que se ajusta também a ligação cronológica «seis dias depois». Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (16,16), mas opõe-se energicamente às palavras de Jesus (16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Marcos 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre si sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de ter eles pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam, isso sim, que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

    4. É tendo tudo isto em conta, sobretudo o desarranjo e incompreensão de Pedro (16,22) e o desconsolo e tristeza dos discípulos (17,23), que Jesus «toma consigo» um grupo seleto de discípulos, e os (autoús) faz subir consigo, e é transfigurado diante deles (autôn); é a eles (autoîs) que aparecem Moisés e Elias; a nuvem luminosa envolveu-os (autoús), e a voz que sai da nuvem dirige-se a eles diretamente, pois fala de Jesus em 3.ª pessoa, e apela a que o escutem; amedrontados e caídos por terra, é Jesus que os (autôn) toca, e os manda levantar, e lhes (autoîs) ordena que nada digam acerca desta visão antes de Ele ressuscitar dos mortos. Pela coleta de dados que acabámos de fazer (referimo-nos aos pronomes), é fácil compreender que são os discípulos que estão no centro da cena, e que tudo é feito para eles. Na verdade, dada a sua incompreensão e enérgica reação no Capítulo anterior, torna-se necessário clarificar com eles sobretudo três aspetos: 1) contribuir para que possam vir a ter uma noção mais concreta acerca da ressurreição, vendo Jesus na sua glória celeste falando com personagens celestes; 2) ouvir e aprender do próprio Deus que Jesus é o seu Filho, o Amado; 3) predispor-se a escutar Jesus sem reservas, o que significa, entre outras realidades, escutar as palavras de Jesus acerca do seu sofrimento e morte, e não opor-se a elas.

    5. A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca por assonância a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (17,2). O branco é a cor divina e celeste. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer solene do Salmo 104,2: «Vestido de Luz como de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9). No contexto da Transfiguração de Jesus, é importante a aparição de Moisés e Elias, cuja morte se verificou há muito tempo, não estando por isso acessíveis à visão humana comum. Só podem ser vistos se aparecerem, se se fizerem ver, se se apresentarem aos homens a partir da sua existência em Deus. Os discípulos veem que estas figuras celestes falam com Jesus transfigurado, e podem começar a descobrir a realidade que pode estar por detrás das palavras antes incompreensíveis de Jesus quando Ele anuncia a sua Ressurreição. E mais uma vez Pedro se equivoca, pois sugere tendas terrenas para figuras celestes!

    6. Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que Pedro, ao fazer semelhante sugestão, «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado e confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue. Antes ainda desse final, Pedro recorda o privilégio de terem sido testemunhas oculares da Glória de Jesus sobre o monte santo, e que ouviram aí a voz vinda do Céu, do Pai, a declarar Jesus «o Filho meu, o Amado meu» (2 Pedro 1,16-18). A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados e confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração do Senhor: a Divinização.

    7. A lição do Livro do Génesis (12,1-4) abre diante de nós o caminho novo já apontado no Evangelho: «VAI para ti (lek-leka), do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que Eu te farei ver» (Génesis 12,1). Com este imperativo, Deus põe em marcha Abraão e a inteira história da salvação que se lhe segue. «E Abraão partiu» (Génesis 12,4). Com este gesto esplendorosamente mudo, Abraão comprometeu-se e comprometeu-nos a nós também. Abraão arrasta consigo a história toda. Ele parte (e a história com ele) em direção a Jesus Cristo, que é a sua verdadeira descendência (Gálatas 3,16). Abraão viu-O e saudou-O de longe (Hebreus 11,13), cheio de alegria (João 8,56). A sua meta é clara e define e alumia a sua estrada que até lá conduz e em que caminha Abraão, fazendo assim dele também antecipadamente «filho da Luz». Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. São tão simples, tão novos e tão decididos os gestos e os passos de Abraão! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Isaías 51,2). E partir com ele DAQUI, do provisório, do preliminar, do penúltimo, ao encontro de Jesus Cristo Ressuscitado.

    8. Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata apenas de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É sobretudo da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «VAI (lek) do teu país», mas «VAI para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

    9. É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). «Hebreu» (‘ibrî) reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem da «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, ativo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo. Viajante transitivo e intransitivo.

    10. E o Apóstolo testemunha (2 Timóteo 1,8-10) que o mesmo Deus que chamou Abraão, também nos chamou a nós (2 Timóteo 1,9). Por pura graça. Para dar testemunho do Evangelho e participar na sua vida. Por isso, tal como Abraão, também Paulo saiu do passado e correu para o futuro (Filipenses 3,13). E quer agora empenhar nesta «corrida» o seu discípulo Timóteo. E a nós também. Contra a contínua tentação de querermos ficar AQUI, no provisório, no preliminar, no penúltimo, como Pedro (Evangelho) e todos os discípulos (Atos dos Apóstolos 1,11).

    11. Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

    António Couto


  • Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,

    devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos

    intransitivos do nosso coração,

    isto é, de limpar as mentiras, ódios, raivas, violências, banalidades,

    que tantas vezes preenchem os nossos dias.

    A Quaresma é tempo de nos expormos

    ao vendaval criador e purificador do Espírito,

    sem termos a pretensão de o querer transformar em ar condicionado.

    Toma em tuas mãos, Senhor,

    a nossa terra ardida.

    Beija-a.

    Sopra nela outra vez o teu alento,

    a tua aragem,

    e veremos nela outra vez impressa a tua imagem.

    Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis.

    Mas contigo por perto,

    seremos fortes e ágeis,

    capazes de abrir estradas no deserto,

    a céu aberto.

    E, quem sabe, talvez nasça aí um mundo novo,

    de tal modo novo,

    que ninguém pode dizer que já sabia.

    E por estranho que pareça,

    para que esse mundo novo aconteça,

    para que esse mundo novo nasça

    e rasgue a crosta da nossa apistía,

    basta que a Tua vontade se faça,

    e se reparta o pão nosso de cada dia.

    António Couto


  • Génesis 2,7-9; 3,1-7; Salmo 51; Romanos 5,12.17-19; Mateus 4,1-11

    1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico, portanto, também a Quaresma e os seus Domingos, estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja, e cada um de nós, pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os batizados são chamados a refazer com Cristo bati­zado o seu programa batismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Batismo no Jordão, passando pela Trans­figuração no Tabor, até à Cruz eà Glória da Ressurreição (Batismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Atos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático). Por sua vez, os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã. Assim, a Igreja Santa, toda Batizada e Crismada, sabe bem que é dali, daquela Cruz Santa e Gloriosa, e da enxurrada de Vida Nova, Ressuscitada, e da dádiva do Espírito que dela jorra, que nos é oferecida a «consumação» (teleíôsis) (cf. João 19,28-30), o cumprimento, a chegada à perfeição da nossa vida, deste segmento de tempo que, por graça, nos é dado viver.

    2. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o episódio das Tentações de Jesus, conforme o relato de Mateus 4,1-11. Note-se bem que o episódio imediatamente anterior (Mateus 3,13-17) nos apresenta Jesus que vem da Galileia ao Jordão, à região de Bêthabarah, [= Casa da Passagem] (João 1,28), um pouco a norte de Jericó, para ser batizado por João, que a esse ato pretende opor-se, dado que, no seu entender, é ele, João, que deve ser batizado por Jesus, e não o contrário. Aceita, no entanto, a explicação dada por Jesus de que assim deve ser para ser cumprida toda a justiça, isto é, para ser feita ou cumprida a vontade de Deus. Ao sair da água, Jesus vê o Espírito de Deus descer sobre Ele, e ouve-se uma voz vinda do Céu, de Deus, do Pai, que faz uma declaração pública: «Este é (houtós estin) o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo» (Mateus 3,17). É importante apercebermo-nos de que, em Mateus, este dizer do Pai se dirige a nós, revelação ou proclamação a nós feita, pois a voz do Céu faz-se ouvir em 3.ª pessoa: «Este é o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo». De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai dirige-se a Jesus, pois a voz do Céu faz-se ouvir em 2.ª pessoa: «Tu és (sy eî) o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo» (Marcos 1,11; Lucas 3,22). Importa, pois, salientar desde já esta vinculação do Pai e do Filho, bem como a sua proximidade e intimidade. Do Pai, que apresenta o seu Filho e declara o seu amor e comprazimento nele. Do Filho, que não age por conta própria, mas faz a vontade do Pai.

    3. Bem vistas as coisas, Jesus vem da Galileia ao Jordão para ser batizado por João (Mateus 3,13-17), e regressa pouco depois à Galileia para dar início à sua vida pública (Mateus 4,12-17). Entre a vinda da Galileia e o regresso à Galileia, Mateus introduz o chamado episódio das «tentações» de Jesus (Mateus 4,1-11). O texto começa por dizer que Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado (peirázô) pelo diabo (diábolos), e acrescenta que Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e que no fim teve fome (Mateus 4,1-2). Ao contrário do que se possa pensar, este início do texto não tem carga negativa. Basta pensar que Jesus é conduzido pelo Espírito. Ir para o deserto, ser tentado e ter fome são modos de dizer que Jesus faz sua a história de Israel. No deserto, o povo de Israel sucumbiu à tentação e à fome. Indo ao deserto, Jesus assume a história do seu povo, mas vence onde Israel sucumbiu. E ao mesmo tempo prepara com o jejum a missão que está para iniciar na Galileia. Voltemos ao facto da fome de Jesus, pois é neste ponto preciso que se aproxima «o Tentador» (ho peirázôn). Este vocábulo só é usado aqui e em 1 Tessalonicenses 3,5, e define a função específica do diabo, o seu ofício ou afazer, que não consiste em pôr os homens à prova, mas em incitá-los ao pecado, que consiste em retirar a Deus a condução da ação para a atribuir ao diabo. No caso de Jesus, o Filho Amado de Deus, a tentação do diabo consiste, portanto, em procurar desfazer o nó do Amor mútuo que une o Pai e o Filho, em desvincular Jesus de fazer a vontade do Pai, de obedecer ao Pai, atitude própria da sua vocação de Filho obediente, para usar a sua autoridade de Filho e passar a agir por conta própria. A tentação é subtil, e pretende insinuar que Jesus pode prover à sua própria existência, de forma autónoma, sem precisar de depender exclusivamente do Pai. Jesus, o Filho de Deus, tem fome. De que estás à espera, diz o diabo, e sugere: «Se és o Filho de Deus, diz que estas pedras se transformem em pão» (Mateus 4,3). Vê-se a subtileza da tentação: transformar pedras em pão não é uma tentação para qualquer um; é uma tentação apenas para alguém que pode fazer isso! Jesus recusa a tentação diabólica. E fá-lo, não respondendo de forma autónoma, mas citando a Palavra de Deus, que se encontra na Escritura: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Deuteronómio 8,3). Com esta resposta, Jesus mostra-se como Filho de Deus, mas também como filho da Escritura.

    4. Na segunda vaga da tentação, parece que o diabo leva a sério a resposta de Jesus, faz também ele uso da Palavra de Deus expressa na Escritura, e sugere mais ou menos isto: «Uma vez que queres viver da Palavra de Deus, e te abandonas na sua providência, então mostra lá que levas a sério a Palavra de Deus que diz que os anjos te seguram nas suas mãos, e atira-te daqui abaixo». O diabo citou o Salmo 91,11-12, mas interpreta erradamente as palavras citadas, como se alguém fosse pôr propositadamente a sua vida em risco, e ao mesmo tempo exigisse a Deus que o salvasse! Pura provocação. Por isso, Jesus responde de forma liminar: «Não tentarás o Senhor, teu Deus», citando o Deuteronómio 6,16. O diabo faz um uso literalista do Salmo 91. Jesus responde-lhe com um procedimento que podemos chamar exegese teológica: claro que é bom confiar em Deus, mas é preciso vigiar para que esta confiança não seja pervertida pela tentação de se poder pôr o poder de Deus ao serviço da ambição religiosa do homem.

    5. Na terceira tentação, o Tentador renuncia à Escritura, deixa de chamar a Jesus «Filho de Deus», abandona todos os disfarces, e mostra-se tal como é: o «príncipe deste mundo» (João 12,31; 14,30; 16,11) ou o «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4), e promete «todos os reinos do mundo e a sua glória» (Mateus 4,8). O preço a pagar é prostrar-se diante do Tentador e adorá-lo (Mateus 4,9). Esta terceira tentação não provém de nenhuma necessidade fundamental do homem (como a primeira), nem de uma falsa visão de Deus (como a segunda). A tentação abdica completamente de Deus, corta radicalmente com Deus, e tem em conta apenas o que este mundo fechado pode oferecer: poder, influência, sucesso, riqueza. Completo fechamento a Deus. A resposta de Jesus é taxativa, citando agora Deuteronómio 6,13: «Ao Senhor, teu Deus, adorarás; só a Ele prestarás culto» (Mateus 4,10).

    6. É fácil agora compreender que todas as tentações diabólicas (as duas primeiras explicitamente) pretendem atingir Jesus na sua condição filial batismal de «Filho de Deus», tentando separá-lo de Deus e dos irmãos, não fosse o diabo, diá-bolos, o máximo «divisor» ou «separador» comum. É, portanto, na sua condição de batizado, isto é, de Filho de Deus, que Jesus é tentado. Na verdade, todas as tentações, as de Jesus como as nossas, começam sempre da mesma maneira: «Se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mt 27,39-44), também por três vezes, em três vagas sucessivas, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes com os escribas e os anciãos, e depois os ladrões crucificados com Jesus. Portanto, sempre. Do Batismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e da sua providência, e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31; 14,30; 16,11). Veja-se a última oferta do «Tentador» do Evangelho de hoje: «todos os reinos deste mundo» em troca do afastamento de Deus, de um mundo sem Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta contundente de Jesus: «Vai-te, Satanás!» (Mateus 4,10). Jesus, o Filho de Deus, permanece sempre vinculado ao Pai, nunca deixando de fazer a vontade do Pai. Mesmo quando responde ao «Tentador», não o faz com palavras próprias, mas unicamente com a Palavra de Deus expressa na Escritura, que cita sempre a propósito. Filho de Deus e filho da Escritura.

    7. Este episódio começa com Jesus a ser conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Com esta ida ao deserto, lugar exposto à tentação, Jesus reclama como sua a história de Israel. Com duas diferenças: 1) na história de Israel, o Jordão vem depois do deserto; na história de Jesus, o deserto vem depois do Jordão; 2) no deserto, Israel cai em inúmeras tentações; Jesus, porém, vai sair vitorioso das tentações. O deserto é sempre um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, mas onde se está «a céu aberto» com Deus, e se pode começar a ver surgir a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Lugar ideal, também com a nota do jejum, para Jesus preparar a missão que está para iniciar na Galileia. No deserto não há pontos de referência nem marcos de sinalização. Só podemos prosseguir a viagem, se tivermos um bom guia. E o andamento do texto lembra outra vez Israel, mas também Moisés e Elias, que experimentaram no deserto a condução de Deus. Este deserto é então também uma metáfora da nossa vida como lugar onde estamos sujeitos à tentação, mas onde devemos saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler o mapa da sua Palavra. Como Jesus, o Filho de Deus e filho da Escritura.

    8. Leem-se também hoje dois bocadinhos do Livro do Génesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, nós também, modelado pelas mãos puras de Deus e acariciado com um «beijo de Deus» – é assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (Génesis 2,7) –, cedeu à tentação, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos «deuses deste mundo», aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente à terra ou por dentro da terra, a grande deusa-mãe, comungando da vitalidade da terra, e tornando-se a cobra, por isso, em símbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o Médio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os painéis que assinalam as portas das farmácias, ostentando uma cobra enrolada numa árvore verde! Está diante de nós o orgulho, a hýbris, do homem de todos os tempos, que não quer ser dependente e contingente, que é a condição da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser autónomo e independente, senhor tirânico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopotâmicos ou gregos. Admirável contraponto do Evangelho de hoje.

    9. No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos rever em Adão como em um espelho. De acordo com a personalidade corporativa que envolve o povo bíblico, Adam éao mesmo tempo um nome singular e coletivo, que pode ser traduzido por Adão ou por Humanidade. É um nome singular, epónimo da humanidade, e é ao mesmo tempo a Humanidade que se revê no seu epónimo. Mas agora, insiste Paulo, é tempo de vermos a nossa vida à luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para não nos perdermos no caminho filial, fraternal, batismal. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. É esta a Sabedoria que Paulo nos transmite.

    10. Cantamos hoje o Salmo 51, a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear esta melodia que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, de qualquer tempo, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

    António Couto


  • O caminho da Quaresma leva-nos à cripta, ao miolo, àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro, onde eu sou verdadeiro, sem dolo nem tijolo nem roupeiro. Chegar lá implica desfazer-se do barulho e do entulho, arredar a caliça e o reboco, aprender com os pássaros do céu, com os lírios do campo, ir até ao fundo, até ao toco, e deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço, onde só Ele sabe semear semente santa, que depois há de florir e dar fruto a seu tempo e a seu campo. Que rebento pode brotar de um toco seco? Que sucesso pode ter uma semente na aridez do deserto semeada? É mesmo só com Deus essa empreitada. E Jesus explica bem, no meio do sermão da montanha, que são também assim a esmola, a oração e o jejum, frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

    A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas por mim e ao meu jeito, e para mim e em meu proveito, nas ruas, nas praças, nas igrejas, só para que as pessoas vejam e aplaudam. A Quaresma é tempo de deixar Deus fazer nascer dentro de mim um jardim, uma maneira nova de viver.

    António Couto


  • Fixemos a nossa atenção na oração do «Pai nosso» que é, sem dúvida, um dos mais privilegiados acessos ao Deus «Pai» da Bíblia.

    Já sabemos que os Evangelhos nos oferecem duas versões dessa oração: Mateus 6,9-13 e Lucas 11,2-4. Começamos pela versão de Lucas, que pode muito bem trazer-nos o contexto original. Nesta versão, a oração ao Pai compõe-se de cinco pedidos. Jesus aparece ao fundo da cena, a rezar sozinho ao Pai, totalmente voltado para o seio do Pai (João 1,18), completamente ocupado nas Realidades do Pai (Lucas 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos veem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Veem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos – também em nosso nome –, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Batista ensinou a rezar os seus discípulos!».

    E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem, devem estar sempre voltados o nosso coração, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda.

    E disse: «Quando rezardes, dizei: “Pai (páter), santifica o teu Nome (1), venha o teu Reino (2),  dá-nos o pão nosso (árton hêmôn) de cada dia (3), perdoa os nossos pecados (4), não nos deixes cair na tentação”» (5) (Lucas 11,2-4).

    Todos sabemos bem que não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência.

    Na versão de S. Mateus, a oração do «Pai nosso» compõe-se de sete pedidos, está integrada de forma redacional no contexto amplo do grande «Sermão da Montanha» (Mateus 5-7), de que ocupa o centro da composição dos três Capítulos, como se pode ver no seguinte diagrama: Mateus 5,1-2 = Audiência: discípulos e multidões (A); Mateus 5,3-16 = Introdução: Felicitações e Declarações (B); Mateus 5,17-19 = A Lei e os Profetas (C); Mateus 5,20-48 = Seis antíteses (D); Mateus 6,1-4 = Esmola (E); Mateus 6,5-15 = PAI NOSSO (F); Mateus 6,16-18 = Jejum (E’); Mateus 6,19-7,11 = Entesourar, inquietar-se, julgar, pedir (D’); Mateus 7,12 = A Lei e os Profetas (C’); Mateus 7,13-27 = Conclusão: Exortações (B’); Mateus 7,28-29 = Audiência: reação das multidões: ensino com autoridade (A’).

    O seu contexto restrito são os ensinamentos acerca da esmola (eleêmosýnê) no segredo (en tô kryptô) (6,1-4), da oração no segredo (6,5-6) e do jejum no segredo (6,16-18). Vê-se bem que, neste contexto restrito das três práticas fundamentais da piedade judaica e cristã, a oração aparece interposta entre a esmola e o jejum, isto é, em termos retóricos, ocupa o lugar privilegiado: o centro. No que se refere àquela insistência «no segredo», salta à vista que a prática da piedade judaica e cristã, com a oração em destaque, é posta no seguimento do grande Salmo 51,8: «Eis que de verdade Tu te comprazes no íntimo (tuhôt = o que está debaixo do reboco),/ e no segredo (satum TM; tà krýphia LXX) a sabedoria Tu me fazes conhecer». Rezar, que é ousar pôr-se, não diante dos homens, mas diante de Deus, faz-se, portanto, «no segredo», na cripta, no íntimo, debaixo do reboco, sem fingimento, sem máscaras, sem qualquer verniz social, cultural, económico, religioso. Rezar é um ato de verdade, sem defesa, sem reboco. O reboco é a caliça que esconde a verdade da parede. Podemos viver caiados, mascarados, betumados, rebocados. Rezar é tudo por debaixo disso. Desde a medula dos ossos ou desde o coração. «Portanto, rezai assim: “Pai nosso (páter hêmôn) que estás nos Céus, santifica o teu Nome (1), venha o teu Reino (2), faça-se a tua Vontade (3), Dá-nos hoje o pão nosso (árton hêmôn) deste dia (4), perdoa os nossos pecados (5), não nos deixes cair na tentação (6), livra-nos do mal”» (7) (Mateus 6,9-13). 

    É convicção assente entre os especialistas que o contexto de Lucas é de preferir ao de Mateus, que é claramente redacional. Mas também o texto mais curto de Lucas parece ser em geral mais primitivo, a começar pela invocação, que é simplesmente «Pai». Em Mateus soa: «Pai nosso que estás nos Céus». A passagem de cinco para sete pedidos resulta do acrescento de dois pedidos, um no final da primeira parte, outro no final da segunda. Cinco ou sete pedidos que Jesus nos ensinou a dirigir ao Pai. Sim, antes de mais, Jesus ensinou-nos a estar perante Deus com total confiança, simplicidade e verdade, tal como uma criancinha com o seu «papá» (’abba’) ou com a sua «mamã» (’imma’), em quem a criancinha vê a única direção da sua vida, a proteção e a defesa, o socorro e o sustento, a confidência que nunca engana. De acordo com os Evangelhos, sempre que Jesus se dirige a Deus, emprega a expressão «meu Pai», exceto num único caso, que é o grito na Cruz: «meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Marcos 15,34), que é uma citação do Salmo 22,2. Mas Joachim Jeremias faz-nos ver ainda que sempre que Jesus, na sua oração, se dirigia a Deus como ao seu Pai, se servia do termo aramaico ’abba’ (Marcos 14,36), termo que chegou, de resto, na língua aramaica, a tomar o sentido de «o pai» e «meu pai», e a substituir de vez em quando «seu pai» e «nosso pai». Esta invocação, que ressoa ainda nas primeiras comunidades cristãs (Romanos 8,15; Gálatas 4,6) traduz a total liberdade e confiança (parrêsía) de quem reza. Por isso, Jesus não quis que invocássemos a Deus apenas com o nome adulto de «Pai», título institucional que podia deixar perceber alguma frieza, distância, respeito e autoridade. Como já acontece no Antigo Testamento e nos textos judaicos, os hebreus e judeus piedosos, com imenso respeito e adoração, falavam de Deus ou a Deus com o nome de «Pai». Jesus, porém, queria dizer uma realidade nova, e por isso recorreu ao aramaico ’Abba’ [= Papá], linguagem hipocorística [= Ab-bá / im-má // pap-pá / mam-mã], uma Lallwort de intolerável confiança, que nunca encontramos no Antigo Testamento nem nas inúmeras orações judaicas. Era impensável para um judeu chamar a Deus ’Abba’, termo que pertence à linguagem infantil familiar. Ao adotar esta invocação sem precedentes na piedade de Israel, dirigindo-se a Deus como uma criança ao seu papá, sem qualquer distância ou temor – digamos mesmo sem nenhum respeito! –, mas com imensa ternura e carinho, Jesus desvela o verdadeiro Rosto de Deus, ao mesmo tempo que mostra a sua (e a nossa) inaudita confiança n’Ele. Por isso, basta «o pão de um dia!». Neste particular, é de preferir o texto de Mateus («dá-nos hoje o pão deste dia») ao de Lucas («dá-nos o pão de cada dia»). O pedido «Dá-nos hoje o pão deste dia» acentua a nossa radical confiança em Deus e dependência de Deus. O imperativo aor2 dós (de dídômí) concerne um ato único, com a precisão do «hoje» (sêmeron), ao contrário do imperativo presente dídou, de Lucas, que é iterativo, traduzindo atos repetidos de dar, e do kath’ êméran (cada dia). De acordo com o texto de Mateus, uma sentença do rabino Eleazar de Modim (séc. II) diz: «Aquele que tem que comer hoje e diz: “Que comerei amanhã?”, é um homem de pouca fé».

    De notar ainda que, não obstante os pedidos serem 5 em Lucas e 7 em Mateus, o pedido do meio (n.º 3 em Lucas; n.º 4 em Mateus), que é o que estrutura ou concentra a oração, permanece o mesmo: «Dá-nos o pão deste dia»! O pão de um dia! (cf. Êxodo 16,4). É ainda importante notar que este pedido central é o único que se coaduna com a invocação «Pai nosso» ou «Pai», pois o pai é, por natureza, aquele que dá o pão. Se é sobre este pedido que se concentra toda a oração, então ele define a verdadeira atitude com que se pode rezar a inteira oração dos 5 pedidos ou dos 7 pedidos diante de Deus. Ora, acontece que a maioria de nós já não tem jeito nenhum para fazer um pedido assim, que é pedir pão. Quem sabe pedir pão com verdade e simplicidade, sem truques, são as criancinhas. E é, de facto, a única atitude correta para se «tratar» com o «papá» ou com a «mamã». Total abandono e confiança.

    Em última análise, é esta atitude que identifica a fé bíblica, que é, segundo a DV, n.º 5, a entrega total e livre do homem a Deus. É uma atitude pessoal, psicobiológica, de total abandono em Deus, única realidade a que nos podemos agarrar para estarmos «seguros», «firmes». «Fé» ou «fidelidade» diz-se em hebraico emunah. emunah deriva do verbo ’aman (= segurar, firmar) que pode assentar numa etimologia tipicamente maternal: ʼem, ’omen. ʼem significa mãe. ’omen pode ser a mãe, ou a «ama» que transporta uma criancinha (’amûn: ainda a mesma etimologia) nos braços (Números 11,12) ou o pedagogo que a educa. A criancinha agarra-se [= segura-se] com todas as suas forças à sua «mamã», única verdadeira direção da sua vida, única segurança que conhece (nada sabe da polícia ou do dinheiro…). E o mesmo se passa do lado da «mamã» em relação à criancinha que transporta nos braços. Por nada deste mundo a abandona. E se a abandonar, o Senhor a acolherá (Salmo 27,10). É esta segurança de pessoalíssima confiança que é a fé bíblica, de que o «Pai nosso» é expressão privilegiada, deixando-nos entrever em contraluz um Deus que nos ama entranhada e carinhosamente (e é isto a «compaixão» bíblica = rahamîm) e que sorri para nós com um sorriso condescendente enquanto nos embala nos seus braços paternais e maternais (e é isto a «graça» bíblica = hen).

    Conhecemos todos a fórmula introdutória do «Pai nosso» na liturgia romana: «Fiéis aos ensinamentos do Salvador, ousamos dizer: “Pai nosso…”». A fórmula introdutória na liturgia grega é ainda mais expressiva: «Torna-nos dignos, Senhor, de ousar com confiança (parrêsía) e sem incorrer na tua reprovação, invocar-te como Pai, a ti, o Deus do céu, e dizer: “Pai nosso”». Ousar dizer «Pai nosso» é diferente de dizer «Pai meu». Ousar dizer «Pai nosso», e não apenas «Pai meu», com toda a verdade, confiança e liberdade, implica, portanto, que o orante tenha à sua volta um mundo de irmãos. Um mundo só de irmãos. E, portanto, evangelicamente, «se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta» (Mateus 5,23-24). Verdadeiramente, ousar dizer «Pai nosso» implica toda uma revolução na vida. Implica um coração puro, solidário, fraternal, filial. E do «Pai nosso» ao «Pão nosso» é apenas um pequeno passo. Ou um grande passo.

    António Couto


  • Ensina-me, Senhor, a subir mais alto,

    como os lírios do campo,

    como os passarinhos.

    Ensina-me a ser santo

    como os pequeninos.

    Só sendo assim me posso sentar à tua mesa,

    onde se come e se reza,

    e o ambiente é familiar e quente

    como uma lareira acesa.

    Até as aves do céu vêm abrigar-se em tua casa,

    comer à tua mesa,

    beber no teu ribeiro manso.

    Aqui fazem os passarinhos os seus ninhos,

    e até os bandos de estorninhos

    encontram aqui o seu descanso.

    Dá-nos, Senhor,

    em cada dia

    da nossa vida,

    às vezes sombria,

    às vezes escura,

    a água pura da tua luz e alegria,

    que nos enche de paz e de ternura.

    António Couto


  • Ben Sira 15,16-21; Salmo 119; 1 Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37

    1. Continuamos a escutar, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime Discurso da Montanha, hoje as quatro primeiras das famosas «seis antíteses» (Mateus 5,17-48), cujos temas são: o homicídio (1), o adultério (2), o divórcio (3), o perjúrio (4), a lei de talião (5), o amor ao próximo (6). Ouviremos então, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime dizer de Jesus sobre os primeiros quatro temas: homicídio, adultério, divórcio e perjúrio (Mateus 5,17-37). Os últimos dois importantes temas: a lei de talião e o amor que a todos devemos (Mateus 5,38-48) seriam escutados no Domingo VII do Tempo Comum, o que não acontecerá no ano litúrgico em curso, por entrarmos, entretanto, no Tempo da Quaresma, da Paixão e da Páscoa. Regressaremos aos Domingos do Tempo Comum apenas em 07 de junho, e já estaremos então no Domingo X do Tempo Comum, com o Evangelho de Mateus 9,9-13, bem fora do Discurso da Montanha.

    2. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa S. João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte [2001], n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, S. João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

    3. Cada uma das «seis antíteses» abre com as palavras de Jesus: «Ouvistes o que foi dito […]; porém, eu digo-vos», fazendo-nos compreender, com o uso desta locução, que fala com a autoridade de Deus. Em termos formais, Jesus usa a técnica de contraponto, e não quer que se desperdice nada do Antigo Testamento; quer antes enchê-lo (plêróô), levar quanto aí é dito, que é Palavra de Deus, ao seu ponto mais fundo e mais alto. Por exemplo, quando ouvimos o que foi dito: «Não matarás!» (Mateus 5,21), para cumprirmos este mandamento, não basta determo-nos no limiar do assassínio, como manda a letra, de acordo com uma leitura literalista e legalista da Palavra de Deus. É preciso ir mais fundo e mais alto: mondar todas as raízes da ira, do ciúme, da inveja, do ódio, desprezo e desamor, e encher todos os regos e cicatrizes de mais amor, mais amor, mais amor, só amor. Não se trata apenas de travar a fundo no último momento, evitando o acidente; trata-se de viver permanentemente a nova cultura do amor. Neste sentido, escreve S. João, com ponta fina de diamante, não na pedra ou no papiro ou no papel, mas no nosso coração meio embotado e engessado: «Quem não ama o seu irmão, é homicida» (1 João 3,15).

    4. «Não matarás!». Palavra fortíssima e de extrema mansidão, inscrita no Rosto ou viso nu do Outro, de qualquer outro, pobre e nu e senhor, pobre porque nu, e senhor porque pobre e nu, que de improviso te visita e te elege, e te ordena, de forma imperativa e não optativa [soa: «Não me matarás!», e não: «se quiseres, podes não me matar!»], entregando-te uma palavra que é um mandamento, que não te deixa em estado de decisão, que não se dirige, portanto, à tua liberdade de escolha, mas à tua responsabilidade, pois te manda responder a ele e por ele, pela sua vida, resposta que não podes adiar nem delegar. Na verdade, foi a ti que ele elegeu, é a ti que ele dirige o seu mandamento: «Não matarás!», obrigando-te, portanto, a responder, e não te dando a possibilidade de não responder. Reclama a tua responsabilidade: por muito que te custe compreender, trata-se de uma responsabilidade anterior à liberdade! Coisa simples, que só não compreendes se não quiseres. É o “bom dia” antes do cogito. Devemos estar atentos, porque o rosto pobre e nu do outro é o único soberano que existe. Pode estar em coma à beira da estrada, na soleira da tua porta, na cama de um hospital. Não tem nenhum poder (não te aponta uma arma, não tem dinheiro para te seduzir ou para te pagar…), e, todavia, obriga-te, sem te obrigar, a debruçares-te sobre ele. Quando dás por ti, estás debruçado sobre ele a prestar-lhe todos os cuidados. Vês, então, como ele é soberano? É o único que te pode libertar dos cadeados da tua Sinngebung (da tua capacidade de produção de sentido subjetivo). Os que têm espingardas e dinheiro, na verdade, pouco podem fazer por ti: apenas te podem escravizar! Não te podem libertar! São tiranos e prepotentes. Não são soberanos! Seguem as leis da natureza. Não sabem fazer milagres!

    5. E assim também o adultério, o divórcio, o perjúrio. Qualquer destes pontos representa o fim de um amor, que é sempre um acontecimento dramático. Veja-se atentamente, neste mundo cinzento e insípido, sem sol e sem sal, em que vivemos, o drama imenso que cada divórcio comporta. Digo-o em termos de sociedade e de humanidade. E o estranho é que, no meio deste nevoeiro de «compromissos enlatados» ou «relações de bolso», ainda haja gente perversa ou simplesmente imersa na piscina da banalidade a contar os divórcios com imensa volúpia, pensando de forma sarcástica e mordaz que é a Igreja Católica que está em perda e a afundar-se. Nem imaginam que o terreno também lhes está a fugir de debaixo dos pés! Mas, para encher de sentido o «porém, eu digo-vos» de Jesus sobre estes pontos precisos, também não basta viver uma vida cinzenta e mentirosa e evitar em cima da linha chegar ao adultério, ao divórcio ou ao perjúrio. É necessário encher a vida inteira de amor, de mais amor, só de amor. É preciso verificar tudo o que está antes da ação má que estamos para fazer. É fácil de ver que não basta, no limite, «cortar a mão direita» ou «arrancar o olho direito». Já se sabe que estas expressões não são para tomar à letra. Na verdade, não é o olho que peca, mas o homem. E mesmo que se arrancasse o olho, bem sabemos que ainda lá ficam a imaginação, a fantasia e a doentia vontade do homem.

    6. Para todas as situações de desentendimento, Jesus propõe, não apenas que se impeça que se chegue a fazer mal a alguém, mas que, por todos os meios e modos, primeiro, primeiro, primeiro (prôton), se chegue à «reconciliação» (diallássô). Jesus vê aqui um remédio ou um «sal» tão importante que, por causa dele, é lícito interromper o próprio culto a Deus (Mateus 5,24). A reconciliação aparece como uma condição indispensável para se poder prestar culto a Deus. E nem é preciso que saibas e sintas que és tu que tens alguma coisa contra o teu irmão. Basta que te recordes que «o teu irmão tem alguma coisa contra ti» (Mateus 5,23). Mesmo que penses que é o teu irmão que tem alguma coisa contra ti, não podes pensar que não é nada contigo. Tens de te pôr a caminho para sanar a situação. Já se sabe que este comportamento passa por cima dos códigos de boas maneiras. Mas o Evangelho requer de ti esta atitude, e não te deixa ficar tranquilamente à espera. Por aqui se vê que é requerido um paladar apurado e uma sensibilidade afinadíssima nas nossas relações fraternas para nos apercebermos quando alguma coisa não está bem. Não se fala sequer de haver culpas. O que aparece como decisivo e necessário é estarmos em fraternas relações com os irmãos, para nos podermos aproximar de Deus. Compreende-se a prioridade de Jesus neste relacionamento fraterno, pois, se este não estiver assegurado, como é que podemos ainda voltar-nos para Deus, Nosso Pai, e rezar em boa consciência a oração do «Pai Nosso», que está no centro do Sermão da Montanha, isto é, no coração dos ensinamentos de Jesus? Sim, é óbvio que, para rezarmos com verdade a Deus, a quem Jesus nos ensina a chamar, não apenas Pai, mas «Pai Nosso», precisamos mesmo de estar em fraterna sintonia com todos os nossos irmãos. Se assim não for, é claro que a nossa oração é mentirosa e o nosso culto vazio. Vê-se que é preciso pôr sal na vida, não deixar que o nosso coração se torne pesado e insípido, para que possamos permanecer no cimo da Montanha, e nos deixemos deslumbrar, como as multidões, com este novíssimo, em conteúdo e método, ensinamento de Jesus (Mateus 7,28-29).

    7. O belo Livro de Jesus Ben Sira, de que hoje recebemos a deliciosa lição de 15,16-21, lembra-nos que os mandamentos de Deus estão sempre cheios apenas de bondade. Serve essa fortíssima afirmação para nos advertir que a nenhum de nós foi dada licença para pecar, nem sequer para produzirmos coisas vãs e ocas, sem ponta de sal ou de sentido. Vale ainda saber que este livro delicioso, de tom edificante, terá sido escrito por Jesus Ben Sira em hebraico no primeiro quartel do século II a.C., aí por volta do ano 180, tendo sido depois lido e muito apreciado por um seu neto, no Egito, parece que no ano 132 a.C. Tanto o neto apreciou o texto do seu avô, que resolveu traduzi-lo para grego, para possibilitar que muitos outros o pudessem ler também com proveito. Bela também esta ligação entre as gerações. E é assim que hoje temos acesso a ele.

    8. S. Paulo fala-nos na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios (2,6-10) da Sabedoria de Deus. E lembra-nos que a Sabedoria de Deus não está à venda em nenhum mercado deste mundo, nem está na posse dos senhores deste mundo. E precisa ainda que a sabedoria dos senhores deste mundo, que é sempre a sabedoria orgulhosa e arrogante que nos pode fazer senhores do mundo, mas nos conduz sempre fatalmente para a ruína. A verdadeira sabedoria, a de Deus, é depositada no nosso coração pelo Espírito de Deus, dando-nos assim acesso, por graça, às insondáveis riquezas divinas que Deus, desde sempre, tem preparadas para nós. Em vez da ruína, fica aberta diante de nós uma maneira nova de viver e de morrer. Chama-se santidade, «medida alta» da vida cristã ordinária.

    9. À nossa frente estão sempre os caminhos do Senhor, que devemos calcorrear com alegria e felicidade recebida e dada, enquanto cantamos a imensa partitura do Salmo 119, admirável composição de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus que alumia a nossa vida. O grande pensador francês Blaise Pascal (1623-1662), de quem o Papa Francisco já anunciou querer abrir o processo de beatificação, recitava este Salmo todos os dias.

    António Couto


  • Se se enchessem os mares de tinta,

    se se transformassem em pena todos os fios de erva,

    se o mundo inteiro fosse um pergaminho,

    e cada homem um escriba de profissão,

    para descrever o amor de Deus e a sua sabedoria,

    não bastaria a tinta do oceano,

    nem o podia conter o pergaminho,

    mesmo que se estendesse de céu a céu.

    Os Santos irmãos Cirilo e Metódio,

    Padroeiros da Europa,

    cuja Festa celebraremos jubilosamente no próximo sábado,

    ousaram, em pleno século IX,

    viver, pregar e traduzir em língua eslava

    o espírito e a letra do Amor de Deus.

    Ousemos nós hoje também dizer Deus aos nossos irmãos.

    S. Cirilo e S. Metódio, rogai por nós!

    António Couto


  • Se o Senhor não construir a casa,

    em vão trabalham os que a constroem.

    Se o Senhor não guardar a cidade,

    em vão vigiam as sentinelas.

    Não se pode esconder uma cidade

    situada no cimo de um monte,

    ou sobre a linha do horizonte,

    porque alumia, alumia, alumia,

    irradia, irradia, irradia,

    de noite e de dia.

    Cidade de alto-a-baixo erguida,

    como um manto de orvalho caída,

    como uma ermida,

    uma jazida

    de luz

    e de Jesus.

    Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,

    lançai os fundamentos no céu,

    construí desde o cume,

    sobre o gume da Palavra

    que de Deus vem

    iluminar

    e salgar os nossos destemperados corações.

    António Couto


  • Isaías 58,7-10; Salmo 112; 1 Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16

    1. Entrámos no Domingo passado (IV do Tempo Comum) no Sermão da Montanha, e fomos logo felicitados por aquele encantatório rol de felicitações, em que por nove vezes se repetia a palavra FELIZES (makárioi), sendo as oito primeiras formuladas na terceira pessoa do plural, e a última, a nona, formulada na segunda pessoa do plural, que aqui recuperamos: «FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal por causa de mim (héneken emoû)» (Mateus 5,11). Não, não se trata de acentuar qualquer conduta moral, mas de acentuar a total adesão a Cristo, tudo pela causa de Cristo. Nas primeiras oito felicitações, é Deus que dá os parabéns aos pobres e desqualificados, aos últimos da sociedade, àqueles que não estão habituados a receber parabéns de ninguém, mas que não tiram os olhos de Deus nem deixam de para Ele levantar as mãos. O uso da terceira pessoa dá a estas felicitações uma forma generalizada, escolar e abstrata. Ao passar a formulação para a segunda pessoa do plural [«Felizes sois vós…»], é àquela audiência concreta, ali presente, que Jesus se dirige, vinculando-a a si [«por causa de mim»], mas expondo-a também face a um mundo adverso e perseguidor. Todavia, estes pobres, perseguidos pelos homens, são felicitados por Deus. O seu mundo não é esquizofrénico: não se separam de Deus, mas tão-pouco se separam do mundo que tudo faz para os ver separados.

    2. O Evangelho deste Domingo V do Tempo Comum (Mateus 5,13-16) continua a glosar as notas da nona Felicitação, e mantém acesa a clave do «Vós sois» [uns-com-os-outros e uns-para-os-outros, e não uns-sem-os-outros ou uns-contra-os-outros], sem qualquer cedência a esquizofrenias nem ao moderno individualismo ocidental, e, nos tempos que correm, praticamente mundial, em que se podem contar cerca de oito biliões de solidões alérgicas. Hoje começamos por estender o texto do Evangelho diante dos nossos olhos, para melhor lhe podermos captar a importância de que se reveste, mas também o sabor e a sabedoria, sem descurar a forma direta de que se reveste no seguimento do v. 11.

    «Vós sois (hymeîs este) o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que o salgaremos? Não serve para nada, senão para se deitar fora e ser calcado pelos homens. Vós sois (hymeîs este) a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus».

    3. Aquele «Vós sois» (hymeîs este) a abrir os vv. 13 e 14 dá ênfase ao «Felizes sois» (makárioí este) que introduz o v. 11, e ajuda-nos a identificar como SAL e LUZ aqueles que são perseguidos «por causa de Jesus», isto é, aqueles cuja vida está fundada sobre a presença e a atividade de Jesus. Aqui são luminosas as palavras de S. Paulo: «Ninguém pode pôr outro fundamento diferente do que já está posto, que é Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre o fundamento do ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um tornar-se-á manifesta» (1 Coríntios 3,11-13). Acabámos de ouvir acordes como estes: «Vós sois o SAL da terra» (Mateus 5,13); «Vós sois a LUZ do mundo» (Mateus 5,14). O SAL dá sabor. A LUZ alumia. O mundo inteiro por horizonte. É, portanto, necessário abrir os horizontes. O mundo é a nossa casa. Compreenda-se já que o SAL e a LUZ são belíssimas metáforas das OBRAS boas e saborosas que devemos fazer: «Assim brilhe a vossa LUZ diante dos homens, para que vejam as vossas BOAS OBRAS» (Mateus 5,16). Mas entenda-se também de imediato que «as nossas OBRAS BOAS» não são do domínio das nossas mãos (a LUZ escapa-nos das mãos), mas do domínio da Graça de Deus que, como em Maria, também em nós «faz grandes coisas» (Lucas 1,49). São mesmo as OBRAS que se devem ler no cone de luminosidade da LUZ e do SAL. De resto, é sabido que, quimicamente falando, o SAL não pode perder o seu sabor. Mas um homem sem OBRAS BOAS é insípido e inútil. O SAL só é inútil enquanto está retido no saleiro. E a LUZ enquanto está impedida de brilhar. E nós, quando nos blindamos dentro das portas e das janelas do nosso egoísmo e comodismo. É assim que nos tornamos insípidos e deixamos apagar a nossa luz. O verbo grego môraínô, que aparece no texto para dizer que o sal «se torna insípido» (v. 13), é usado mais habitualmente para dizer o homem que «se torna estúpido». Podemos estar perante um daqueles duplos sentidos que tantas vezes encontramos na expressão escrita. E pode bem ser disso que se trata, dado que, em hebraico e aramaico, o verbo tapel significa ao mesmo tempo «ser insípido» e «ser estúpido». E não faltam indicadores rabínicos a referir que, com a vinda do Messias, «a sabedoria dos escribas se há de tornar insípida». Que é o que as multidões dizem de Jesus no final do Sermão da Montanha: «ensina com autoridade, e não como os escribas» (Mateus 7,29).

    4. É ainda necessário dar um passo em frente, e entender bem que aquele plural «Vós sois» (hymeîs este) se reveste seguramente de significado comunitário, como é usual em Mateus, que nunca perde de vista a comunidade eclesial. Assim, sois vós, em comunidade, que sois a Luz do mundo, que sois o Sal da terra, e não cada um por si, isoladamente. O texto diz com clareza: «Vós sois a Luz do mundo», e não as luzes do mundo! As luzes são outra coisa bem diferente, e já se apagaram há muito tempo! As luzes tinham a ver com o homem orgulhoso, só, e sem Deus. A Luz é de outra proveniência. Nas páginas da Bíblia, não há Luz senão na relação com Deus e na sua dependência. Este belo dito pode ser uma alusão às lâmpadas que as mães de família acendiam em cada lar hebreu quando caía a noite, e simbolizavam os mandamentos de Deus (Provérbios 6,23) e, mais tarde, a própria alma humana (Provérbios 20,27). A lâmpada que a mãe de família acendia era para alumiar todos os que estavam na casa. No texto de Mateus é para alumiar toda a comunidade da família de Deus. E o sal, «o sal da aliança» (ála diathêkês kyríou) (Levítico 2,13), está lá também para dar o autêntico sabor da aliança a «toda a oferta» (pân dôron) feita pela comunidade a Deus (Êxodo 30,35; Levítico 2,13), e a todo o recém-nascido a nós dado por Deus e por nós a Deus oferecido (Ezequiel 16,4). Assim, o Sal deve andar sempre em nós (Marcos 9,50), e com ele devemos temperar tudo o que fazemos e dizemos (cf. Colossenses 4,6).

    5. Bem se vê que o SAL e a LUZ são metáforas que mostram a comunidade reunida com Jesus na Montanha e as BOAS OBRAS que deve realizar. Finalidade: para que seja glorificado «o vosso Pai que está nos Céus». Entenda-se: glorificar Deus é reconhecê-lo como o único Deus verdadeiro. Ao contrário da mentalidade moderna, a mentalidade judaica ignora qualquer conhecimento de Deus prévio à sua glorificação. Conhece-se Deus, glorificando-o. A expressão «o vosso Pai que está nos Céus» é usada por Mateus apenas no Sermão da Montanha. Assim, percebemos melhor que estamos em casa, e que temos de aprender a ser filhos e irmãos.

    6. O Livro do Deuteronómio atira-se contra a nossa tranquila indiferença: «Se houver no meio de ti qualquer irmão necessitado, não endureças o teu coração e não feches a tua mão» (Deuteronómio 15,7). Precisamos, hoje mais do que nunca, de viver ao estilo de Jesus, Bom Pastor, e ao estilo do Bom Samaritano, com «um coração que vê», para usar a expressão feliz de Bento XVI (Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n.º 31).

    7. É assim que Isaías 58,10 nos desafia literalmente (aí está o sabor das traduções literais!) a «oferecer ao faminto a tua alma (nefesh),/ e saciar a alma (nefesh) do oprimido». Trata-se de muito mais do que uma simples ajuda material. É um abraço entre duas almas, entre duas vidas, entre dois intensos desejos de viver, entre dois alentos de vida! Portanto, com o Deus criador e providente sempre por perto.

    8. Só entende esta intensidade quem sabe que a sua LUZ é reflexa, porque a recebe de Deus. É assim, com «um coração que vê» à flor da pele ou da alma, que S. Paulo não se apresenta no meio de nós ou da comunidade de Corinto com fortes argumentos da sabedoria humana, conforme a sua lição de hoje (1 Coríntios 2,1-5). Ele quer que nós compreendamos bem que a nossa fé assenta em Cristo e no seu poder, e não em qualquer humano raciocínio e respetiva força. «A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Coríntios 1,25). E «quando eu sou fraco, então é que eu sou forte» (2 Coríntios 12,10). Portanto, Paulo não se apresentou em Corinto cheio de si, mas cheio de Deus. Não se anunciou (kêrýssô) a si mesmo, mas a Cristo Jesus (2 Coríntios 4,5). Sim, é a Luz que devemos saber levar em vasos de barro, para que se veja bem que esse tesouro e esse poder (dýnamis) vêm de Deus, e não de nós (2 Coríntios 4,7). É o poder (dýnamis) de Deus que move Paulo (1 Coríntios 2,5), e que nos deve mover também a nós.

    9. Com tanto Sal na mão e tanta Luz a alumiar o coração, o nosso tempo é sempre tempo dado para nos questionarmos de verdade, pondo em causa os nossos egoísmos e as nossas portas fechadas à graça de Deus e aos irmãos que Ele nos deu. Com base no sentido do SAL e da LUZ, pode abrir-se diante de nós um tempo de verificação: cheio de mim ou cheio de Ti? Estou no centro das atenções ou sei orientar todos os olhares para Ti? Conheço-Te e celebro-Te e dou testemunho da Tua Ressurreição? Os meus atos anunciam a tua Vinda, isto é, revelam e desvelam a tua presença permanente? Ou será que o meu olhar é mau porque Tu és Bom? (Mateus 20,15; cf. Ben Sira 14,9-10). Por que é que eu tenho tão poucos (ou nenhuns) encontros CONTIGO marcados na minha agenda? O que faço eu com o relógio e o telemóvel na mão o dia inteiro? Por que corro tanto e para onde corro tanto? Debruço-me com amor, e com tempo, sobre os meus irmãos abandonados à beira do caminho ou postos ali mesmo à entrada da minha porta? A minha casa está construída sobre a rocha ou sobre a areia? E a LUZ alumia ou está apagada? E o SAL dá sabor à minha vida e à vida dos outros?

    10. O Salmo 112 é irmão gémeo do Salmo 111. Neste é Deus o sujeito. Naquele o homem justo, «imitador de Deus». O Salmo de hoje conta apenas 77 palavras divididas por dez versículos, em nove dos quais se desenha o homem justo, de coração e mãos largas para dar com abundância. Ao ímpio é reservado apenas um versículo, e é retratado só para ver o sucesso do justo e para se roer de raiva e de inveja até se atolar na ruína. O justo é uma casa iluminada. O ímpio desaparece nas trevas.

    António Couto


  • Hoje é Dia de Santa Águeda, Virgem e Mártir.

    Ainda muito jovem, deu a sua vida por Cristo

    em meados do século III, durante a perseguição de Décio.

    Diz-nos o Evangelho de São João

    que, após a crucifixão de Jesus,

    quatro soldados dividiram entre si as coisas de Jesus.

    Mas não dividiram a túnica,

    porque era tecida de Alto-a-baixo como um todo.

    Quem costura assim senão as mãos de Deus,

    aquelas mãos que com terra e saliva fazem lodo,

    que cura a nossa vista e o nosso corpo todo,

    as mesmas mãos que, com ternura,

    no cenário da criação,

    do pó da terra modelaram o nosso humano coração!

    São João diz-nos ainda que, depois dos quatro soldados,

    anónimos e atentos só às coisas,

    vieram quatro mulheres que se abraçaram à Cruz de Jesus,

    que se abraçaram a Jesus.

    Das mulheres diz-nos São João quem são:

    a sua Mãe,/ a irmã de sua mãe,/ Maria de Cléofas/ e Maria Madalena.

    Juntemos nós hoje uma quinta mulher,

    a Senhora deste dia 5 de fevereiro,

    Santa Águeda.

    Santa Águeda, Virgem e Mártir,

    padroeira dos seios e das intempéries,

    roga por nós ao Senhor das Misericórdias.

    António Couto


  • Toda a vida consagrada

    é uma vida com dedicatória

    obrigatória

    ao autor de cada madrugada

    perfumada,

    Senhor de mim

    e do meu sim.

    Desde sempre pensado e amado,

    é-me dado um segmento de tempo

    para responder ao Amor,

    e a eternidade inteira

    para viver à tua beira,

    à tua maneira.

    Ó mar imenso do Amor,

    a que eu chamo Senhor,

    obrigado por olhares por mim e para mim,

    tão humano e pequenino,

    e por me dares por destino

    o teu coração divino.

    Que eu seja, então, mais e mais Amor em cada dia,

    sempre ao teu dispor,

    Senhor da minha alegria.

    António Couto


  • Malaquias 3,1-4; Salmo 24; Hebreus 2,14-18; Lucas 2,22-40

    1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana. Também connosco.

    2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus e a Deus deve ser consagrado, conforme se diz no Livro do Êxodo: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu» (Êxodo 13,2). Mas ver também o belo cesto de razões apresentado em Êxodo 13,11-16. E acrescente-se que também os primeiros frutos dos campos serão consagrados ao Senhor (Deuteronómio 26,1-10).

    3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

    4. O Evangelho a escutar, amar e admirar é Lucas 2,22-40. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com extremosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem sequer a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, passe o paradoxo, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, o nunc dimittis, um dos mais belos cantos que a Bíblia regista: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

    5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa» (prophêtis), isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.

    6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), nesta sociedade sem Deus, os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho de Deus no mundo, e deste Dom maravilhoso de uma vida a Ele consagrada.

    7. Por isso e para isso é que Ele vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro. Hebreus 2,17 é o primeiro texto em absoluto do Novo Testamento a atribuir a Jesus o título de sumo sacerdote. Novidade nova em contraponto e contracorrente com quanto vem antes. Foi preciso alisar o caminho, aplaná-lo, para ser possível assegurar este título a Jesus. Os sumo sacerdotes do AT e do judaísmo estariam, porventura, perto de Deus (a tanto os obrigavam as normas legais e rituais), mas estavam bem distantes dos homens, seus irmãos. Portanto, o título não se ajustava a Jesus.

    8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a subir e a descer a escadaria do coração.

    9. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No último andamento deste Salmo (vv. 7-10), justamente a parte Hoje cantada, as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro, é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo, é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro, é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

    António Couto


  • Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

    na companhia dos pobres, dos famintos, deserdados,

    pacificadores, misericordiosos, descartados,

    e proclamou-os felizes, bem-aventurados,

    pioneiros de um mundo novo,

    que abrem caminhos puros e seguros,

    sem muros nem escuros nem arames farpados.

    Na verdade, Jesus distribui diplomas de alegria,

    não a quem acaba de cortar a meta com sucesso,

    mas àqueles que se preparam para partir,

    e descobrir caminhos nunca andados,

    novos e belos, limpos, aplanados, sem tropeço.

    Os pobres sabem quebrar o gelo e o gesso,

    sabem onde nasce a esperança,

    a bem-aventurança,

    e são os melhores professores

    das mais belas melodias que conheço.

    Obrigado, Senhor, por teres felicitado os pobres,

    e por me teres ensinado

    que para o vinho que tu serves

    são mesmo precisos odres novos.

    António Couto


  • Sofonias 2,3; 3,12-13; Salmol 146; 1 Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a

    1. Vimos no Evangelho do Domingo passado (Mateus 4,12-23), Domingo III do Tempo Comum que, tendo partido do Sul para o Norte da terra de Israel, Jesus alumia logo com a sua presença e pregação a sombria região da morte, que é como aparece descrita a região da Galileia. E aí, no coração de Neftali, que é Cafarnaum, passando junto do mar, imperativamente Jesus ordena a quatro pescadores de peixes que o sigam, com a indicação de vir a fazer deles pescadores de homens. Entendendo ou não o significado das palavras de Jesus, aqueles pescadores de peixes largaram logo tudo e imediatamente o seguiram. O texto fechava com a anotação de que Jesus percorria toda a Galileia ensinando, pregando e curando (v. 23). Nos dois versículos seguintes (vv. 24-25), que fecham Mateus 4, e que não foram objeto da nossa atenção no Domingo passado por não fazerem parte do Evangelho então proclamado, dizia-se que a sua fama se espalhou por toda a Síria (v. 24), e finalmente que «o seguiam multidões numerosas (óchloi polloí) vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia» (v. 25). Com esta maneira de reunir à sua volta multidões oriundas de toda a parte, e pregando, ensinando e curando, Jesus ilustra bem a natureza da pesca de homens para a qual tinha chamado aqueles simples pescadores de peixes.

    2. Entramos agora na lição do Evangelho do Domingo IV do Tempo Comum, em que continuamos a seguir (seguimento imediato do Domingo passado) o Evangelho de Mateus (5,1-12a). Já sabemos que esta perícope de Mateus é conhecida por «BEM-AVENTURANÇAS», que abre o chamado «Discurso da MONTANHA», que preenche o terreno literário de Mateus 5-7. É o primeiro de cinco grandes Discursos proferidos por Jesus, que constituem a espinha dorsal do Evangelho de Mateus, e que aqui explicitamos para uma melhor compreensão do leitor: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão ou marcador: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

    3. Voltando atrás e fazendo as contas, no final de Mateus 4, seguem Jesus quatro pescadores, e também as multidões assinaladas na cena anterior. O texto que se segue imediatamente (Mateus 5,1-2), que introduz o Discurso programático de Jesus na Montanha, diz assim:

    «Vendo então as multidões (óchloí) subiu à montanha, e tendo-se sentado, vieram ter com Ele os seus discípulos (hoi mathêtaí autoû). Abrindo então a sua boca, ensinava-os (edídasken autoús), dizendo».

    Não espanta que Jesus veja as multidões, pois já foi dito que o seguiam desde o último versículo do Capítulo anterior (4,25). Deve admirar-nos mais a presença dos discípulos, pois até é a primeira vez que Mateus emprega este nome no seu Evangelho. Na cena anterior (4,18-22), Jesus chamou quatro pescadores de peixes, a quem indicou uma nova missão, mas não lhes foi aplicada a qualificação de discípulos. E a próxima vez em que o nome aparecer, estaremos já em Mateus 10,1, falando-se aí de «os seus doze discípulos», de quem se indicam os nomes (10,2-4). E o certo é que, entre os doze, estão lá os nomes dos quatro pescadores, e também o nome de Mateus, entretanto chamado por Jesus em Mateus 9,9, sem que receba aí a qualificação de discípulo. Mesmo sem sabermos como se passou de quatro para doze, e dada a presença do nome discípulos em 5,1 e 10,1, é de supor que em 5,1, com o nome discípulos, se tenha em vista os doze discípulos, até pela importância do ensinamento que Jesus vai fazer na Montanha, e que se destina em primeiro lugar aos seus discípulos, pois é dito que vieram ter com Ele, e que os ensinava (edídasken autoús), estando o pronome claramente em vez do nome discípulos, e o verbo no imperfeito, que implica duração, ensino continuado. Os discípulos formam, portanto, o primeiro círculo do ensinamento de Jesus. A anotação da presença das multidões (óchloi) é importante. E é também a elas, como que num segundo círculo, que se dirige o ensinamento de Jesus. De tal modo que, no final do inteiro Discurso da MONTANHA, em 7,28-29, é-nos mesmo dada a conhecer a reação das multidões que «estavam maravilhadas pelo seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os seus escribas». Não convém perdermos já as multidões de vista, pois é dito numa passagem idêntica, em 9,36, que «vendo as multidões (óchloi), sentiu compaixão (esplagchnístê) delas», que soa ao contrário de 8,18, em que se lê: «vendo uma multidão (óchlos), ordenou que partissem para a outra margem». «Vendo uma multidão» motiva separação. «Vendo as multidões» motiva compaixão por elas. É seguramente o caso das multidões que seguem Jesus desde 4,25, e que estão agora, em 5,1, debaixo da vista dele a escutar os seus ensinamentos. É também Jesus a ensinar os seus discípulos como pescar homens.

    4. Está a acontecer o Evangelho. Jesus as multidões, sobe à montanha, os seus discípulos dirigem-se para Ele, Ele senta-se, abre a sua boca, e ensina demoradamente. Tudo expressões que indicam a postura de Mestre Judaico, e também a solenidade deste início do ensinamento público de Jesus. Seja qual for a Montanha, ela aparece determinada com artigo definido (tò óros), o que deixa entender que se trata de uma Montanha concreta e conhecida (a tradição indica o monte Tabor), o que interessa é verificar a altura, a qualidade, a tonalidade e a intensidade que há que colocar no desempenho deste novo ministério de pescar homens. É dessa altitude, dessa MONTANHA, que Jesus diz a rapsódia mais bela e encantatória e revolucionária das «FELICITAÇÕES» ou «BEM-AVENTURANÇAS». É verdade. Há certas maravilhas que só se podem dizer nas alturas e compreender nas alturas, perto do céu, como que à altura e velocidade de cruzeiro. Destas FELICITAÇÕES envolve-nos, de facto, a sua cadência encantatória ainda antes dos seus conteúdos. Para entrar no coração destas fragrâncias, é preciso levantar o coração (sursum corda), e ir com os pássaros que Deus alimenta em pleno voo.

    5. É por nove vezes que se ouve a palavra FELIZES (makárioi). Felizes, felizes, felizes, declaração por nove vezes ouvida, aí está a tonalidade encantatória destas felicitações! Sintomático é que estas Felicitações não se destinem aos triunfadores, aos ricos e aos bem-sucedidos, mas aos pobres (1), aos aflitos (2), aos mansos (3), aos que clamam por justiça (4), aos misericordiosos (5), aos puros de coração (6), aos fazedores da paz (7), aos perseguidos (8) e aos amaldiçoados por causa de seguirem Jesus (9). À primeira vista, parece que Jesus está a ler o mundo ao contrário. Mas não. Trata-se de uma retórica estupenda para nos fazer ver que somos nós que andamos virados do avesso! Nós, quem? Nós, os importantes, os ricos, os poderosos, os senhores do mundo! Sendo nove as Felicitações, reparar-se-á que no centro (n.º 5) está a MISERICÓRDIA. Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS: aos misericordiosos (eleêmones), será feita misericórdia (eleêthêsontai) (Mateus 5,7). Entenda-se: aos que fazem misericórdia, será feita misericórdia por Deus! De notar ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «FELIZES» ou «BEM-AVENTURADOS» se diz ’ashrê, termo que qualifica, não os beatos e os tranquilos, mas os pioneiros, aqueles que lutam e abrem caminhos novos e bons e belos e de vida nova e boa e bela para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Ao longo da história, foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos e belos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente, anestesiado e medicado, e tantas vezes violento, em que vivemos. Quanto lodo é preciso retirar do coração humano! Ou, dito de outra maneira, quanta pedra é preciso partir, pois são muitos os corações de pedra, para usar a metáfora de Ezequiel 36,26.

    6. Os pobres no espírito (ptôchoì tô pneúmati), dativo de relação, aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência nem simplesmente de bens económicos, mas são pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é baixa de rûah (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23) ou abatida de rûah (dake՚ê-rûah) (Salmo 34,19; Is 57,15), isto é, sem espaço físico, económico, social, cultural ou psicológico. Não são pobres por fora. São pobres por dentro. Não precisam de se afirmar. Sentem-se os últimos da sociedade. Todavia, na sua humildade e pobreza interior (daí o dativo de relação: no espírito), desafiam a sociedade, pois os ptochoí tô pneúmati ou tapeinoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, arrogante, e estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação, comodidade e arrogância. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Apouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O Povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados entre paredes douradas, num círculo restrito de amigos, mas somos nós todos unidos e reunidos numa imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie. Não são os que vivem em paz, mas os que fazem a paz (v. 9). Habitam debaixo do teto da casa de Deus, abertos a Deus, de quem sabem e sentem que recebem tudo. Não sabem o que é a autossuficiência ou a auto referencialidade. Só sabem o que é a auto insuficiência.

    7. A profecia de Sofonias [= YHWH protege] (2,3; 3,12-13) faz ressonância desta nova e bela maneira de viver, trazendo para primeiro plano os pobres e humildes, que não cometem iniquidade nem andam no caminho da injustiça e da mentira, aqueles que dão lugar a Deus, que estão abertos à ação de Deus, que tudo recebem de Deus, e em Deus encontram refúgio, sossego e felicidade, entrando assim na rota de cruzeiro das FELICITAÇÕES!

    8. E São Paulo, na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios (1,26-31), faz-nos voltar completamente para Deus, para sabermos quem somos: «Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que fostes chamados por Deus» (1 Coríntios 1,26). Se não ouvirmos Deus a chamar por nós, se não ouvirmos Deus a dizer o nosso nome, isto é, a criar-nos e a cuidar de nós, se não formos filhos e irmãos, é certo que não sabemos quem somos, não sabemos qual é a nossa identidade!

    9. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

    António Couto


  • 1. Com a Carta Apostólica Aperuit IllisAbriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras» (Lc 24,45)], sob a forma de Motu próprio, datada de 30 de setembro de 2019, memória litúrgica de São Jerónimo, e abertura da celebração do 1600.º aniversário da sua morte (30 de setembro do ano 420), O Papa Francisco instituiu o Domingo da Palavra de Deus, a celebrar anualmente no Domingo III do Tempo Comum.

    2. Oportunidade para toda a Igreja se debruçar com veneração sobre a Palavra de Deus, que deve escutar com amor e diligência, e da mesma maneira viver e anunciar, dado que a Palavra de Deus constitui para o cristão alimento indispensável. S. Jerónimo dedicou-lhe toda a sua vida e atenção. Aqui deixo, pois, um extrato significativo dos seus Comentários ao Salmo 147, que pode ser para nós inspirador, hoje e em qualquer tempo. É claro que veneramos a Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Cristo. Mas adverte-nos S. Jerónimo que igual veneração nos deve merecer a Escritura Santa, que é também Corpo e Sangue de Cristo. Prestemos-lhe atenção:

    3. «Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as Santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e beber o meu sangue” (João 6,53), embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?».

    António Couto


  • Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,

    caminha pelas nossas estradas,

    percorre as nossas praias,

    visita as nossas casas,

    vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

    Jesus é Deus que passa, ama e chama.

    Mas não nos chama a responder a um inquérito,

    a preencher uma ficha,

    responder a uma entrevista,

    fazer uma inscrição,

    pagar a matrícula,

    aprender uma doutrina.

    Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.

    Nem sequer nos entrega um projeto de vida,

    uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.

    Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:

    «Vinde atrás de Mim!», é o desafio,

    e partilha logo ali connosco a sua vida toda,

    como uma dança de roda,

    como uma boda.

    Não nos põe primeiro a fazer um teste,

    não nos ama nem chama à condição,

    não tem lista de espera,

    não nos põe num estágio,

    num estado,

    num estrado,

    numa estante,

    mas num caminho!

    E um dia mais tarde,

    ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!»,

    novo e imenso desafio.

    É sempre no caminho que nos deixa,

    mas não nos deixa sós,

    vai sempre connosco,

    acompanha-nos,

    não apresenta queixa,

    não paga ao fim do mês,

    não paga a prestações,

    não paga,

    pede e dá tudo de uma vez.

    Vem, Senhor Jesus!

    Vem e ama!

    Vem e chama por mim outra vez!

    António Couto


  • Isaías 8,23-9,3; Salmo 27; 1 Coríntios 1,10-13.17; Mateus 4,12-23

    1. Domingo III do Tempo Comum. Cruzamento e entrelaçamento de textos num facho de intensa luz, vinda de fora, como a aurora. É assim que o Evangelho de Mateus 4,15-16 recolhe Isaías 8,23-9,1. O profeta tinha diante dos olhos uma luz grande que havia de brilhar naquela Galileia devastada. Ventos de morte tinham varrido a Galileia nos anos 733-732 a.C., quando o imperador assírio Tiglat-Falasar III, na sua expansão para ocidente, e no seguimento da guerra siro-efraimita, invadiu e reduziu estes territórios da Galileia a três províncias assírias: Galaad, Meguido e Dor, levando para o exílio muitos dos seus habitantes judeus e transferindo para ali povos pagãos de outros credos, raças e culturas, para impedir que um Israel com identidade própria e religiosidade judaica pudesse ainda vingar e prosperar naquela região. Era assim que a Assíria tratava os seus vassalos rebeldes: matava-lhes o corpo e a alma. Mateus, que bem conhecia a realidade da Galileia, e que também seguiu os caminhos de Jesus, gravou no seu Evangelho que essa luz que Isaías vislumbrou é Jesus que, com a sua presença e pregação, alumia agora a sombria região da Galileia.

    2. O Evangelho de hoje (Mateus 4,12-23) refere com precisão que, «quando Jesus soube que João Batista tinha sido preso, retirou-se (anechôrêsen) para a Galileia» (Mateus 4,12), e, «desde então, começou a pregar» (Mateus 4,17a). Uma prolepse e uma surpresa, podemos dizer mesmo um escândalo. A prolepse: ao anotar a prisão de João Batista, o narrador está a registar um facto histórico, mas, mais do que isso, está já a desvendar aquilo que um dia acontecerá também a Jesus. E já se começa a notar, pois é dito que Jesus, ao ter conhecimento da prisão de João Batista, se retirou para a Galileia. O uso do verbo grego anachôréô [= retirar-se] indica geralmente em Mateus a fuga de um lugar que se revelava perigoso e hostil para outro mais tranquilo (cf. Mateus 2,12.13.14; 4,12; 12,15; 14,13; 15,21). De resto, em caso de perseguição, Jesus aconselha os seus discípulos a fugirem para outra cidade (Mateus 10,23), ainda que neste texto use um verbo diferente. A surpresa e o escândalo: era do sentir comum que o anúncio messiânico fosse feito no coração do judaísmo, em Jerusalém e na Judeia, e não numa região periférica, desprezada e contaminada pelo paganismo, como era esta «Galileia dos pagãos» (Mateus 4,15). Curiosamente, Jesus tinha vindo de Norte para Sul, da Galileia para a Judeia, ao encontro de João Batista, para ser por ele batizado (Mateus 3,13), e ei-lo que faz agora a viagem ao contrário, de Sul para Norte, da Judeia para a Galileia (Mateus 4,12), e é aí, em Cafarnaum, que começa a pregar o Evangelho (Mateus 4,17). Regresso forçado, como vimos, pelos acontecimentos hostis verificados no Sul, e que levaram à prisão de João Batista. É para justificar e iluminar este estranho e inesperado começo, que Mateus se vê como que obrigado a citar por inteiro a passagem apropriada de Isaías 8,23-9,1, que põe o povo humilhado da tribo de Zabulon, de que fazia parte Nazaré, e da tribo de Neftali, de que fazia parte Cafarnaum, a ser visitado por uma grande Luz, que rasgava a noite e a morte semeadas pela guerra e o desprezo (Mateus 4,13-16).

    3. Esta Luz é Jesus. Luz de Jesus que vem iluminar a noite da Galileia. Voz de Jesus a romper aquele espesso manto de silêncio: «Convertei-vos, porque se fez próximo (êggiken) o Reino dos Céus!» (Mateus 4,17b). É assim, com estas palavras, que Jesus começa a pregar na Galileia. É fácil verificar que são exatamente as mesmas palavras com que João Batista abria a sua pregação no Sul: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2). Conversão, isto é, mudança de mentalidade (metanoéô LXX), mas sobretudo de caminho e de direção [voltar-me, não para mim mesmo, mas para o Deus pessoal da aliança] (shûb TM), e responder à sua Palavra sempre primeira. A exigência da conversão é motivada pela proximidade e continuidade do Reino de Deus entre nós. O uso do verbo grego eggízô no perfeito [êggiken = fez-se próximo] ensina-nos que o Reino de Deus não está apenas perto ou próximo de nós ou a caminho, que está para chegar, mas que já veio para ficar sempre próximo de nós, no meio de nós. Não está em vias de acontecer num futuro mais ou menos próximo, mas está agora a acontecer. É agora (cf. Mateus 26,45-46). Esplêndida Luz, esplêndida Voz, esplêndido Amor de Deus, esplêndida surpresa divina! Ainda antes de nos interpelar a que nos interessemos por Deus, a Bíblia mostra que é Deus que se interessa primeiro por nós, tomando a iniciativa de percorrer as nossas estradas poeirentas para nos vir visitar a nossas casas! E não apenas visitar, mas ficar connosco! É esta a maravilha desconcertante do Evangelho! Evangelho no duplo sentido: objetivo e subjetivo. O Evangelho é Jesus, a pessoa de Jesus (sentido objetivo). O Evangelho é a ação de evangelização desencadeada por Jesus (sentido subjetivo). Jesus é, portanto, o Evangelho e o Evangelizador.

    4. É o que constatamos no velho texto de Mateus e nas nossas estradas de hoje. Verificação: Jesus caminha ao longo das praias do Mar da Galileia, e vê dois irmãos, Simão e André, ocupados nas lides da pesca, e diz-lhes: «Vinde atrás de mim (deûte opísô mou)» (Mateus 4,19). Bem vistas as condições de trabalho em que os dois estavam envolvidos, e a importância da pesca no mundo pobre da Galileia, a ordem de Jesus parece completamente disruptiva. Mas a resposta dos dois é excessiva, imediata e radical: «Deixaram logo (euthéôs) as redes, e seguiram-no!» (Mateus 4,20). Note-se, no entanto, que aquele «Vinde atrás de mim» não é um convite; é uma exigência. E não se trata tanto do dizer de um Mestre, mas de um Profeta, ao jeito do chamamento de Elias a Eliseu (cf. 1 Reis 19,19-21). É normal os discípulos seguirem o Mestre, «atrás do Mestre», mas já não é usual ser o Mestre a chamá-los; são os discípulos que devem procurar um Mestre. Por outro lado, ainda, a atividade própria do Mestre é ensinar, mas no caso deste chamamento, Jesus parece ter em vista uma estranha atividade de pesca: «farei de vós pescadores de homens». Compreende-se a metáfora da pesca no seguimento da ocupação acabada de descrever daqueles dois chamados, mas fica em aberto a natureza da nova pesca acenada por Jesus: de quê e para quê pescar pessoas? Jeremias 16,16 põe Deus a falar e a dizer: «Enviarei muitos pescadores para a pesca, e pescá-los-ão».

    5. É a mesma metáfora da pesca, mas trata-se aqui de reunir os pecadores para o julgamento. É aqui que encaixa a pesca proposta por Jesus face à Vinda do Reino de Deus. Daí também a exigência da conversão ordenada por Jesus. E a força daquele chamamento feito por Jesus àqueles pescadores. Lendo outra vez as palavras de Jesus, percebemos que não se trata de convidar, mas de exigir, método de Profeta, e não de Mestre. E falar de «pescadores para pescar homens» é também linguagem profética e tem em vista o julgamento de Deus. E andando um pouco mais, viu outros dois irmãos, Tiago e João, que, com o pai, Zebedeu, remendavam (katartízontas) as redes na barca. Também os chamou. E também eles deixaram logo (euthéôs) a barca e o pai, e seguiram-no (Mt 4,21-22). Porquê este chamamento disruptivo e a resposta radical destes pescadores? A resposta reside na urgência criada pela proximidade do Reino de Deus, a que nada se deve antepor. Nada é primeiro em relação ao Reino de Deus: nem sepultar o próprio pai ou despedir-se dos familiares (Lucas 9,59-61). «Quem lança as mãos ao arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus» (Lucas 9,62). E o Reino de Deus não tem fronteiras, nem bandeiras, nem moeda própria. Não está aqui ou ali. Não é deste mundo. O Reino de Deus é o próprio Jesus Cristo com o Espírito Santo. Ele é o Reino em pessoa (hê autobasileía), conforme o belo dizer de Orígenes. É, então, face a Ele que nos devemos converter. É a voz dele que temos de ouvir. É o seu caminho que temos de seguir. O Reino de Deus, Jesus, põe-nos em cheque e em causa. Daí a urgência da conversão, daquele chamamento e daquela resposta.

    6. É então urgente compreender que Jesus, que é o Reino de Deus em pessoa, desce ao nosso mundo, caminha pelas nossas estradas e vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho. E é aí que nos chama e nos põe em estado de urgência e de conversão. Não espera por nós apenas no cenário sagrado das nossas Igrejas! Não nos obriga a fazer uma inscrição, a preencher uma ficha, a aprender uma doutrina, nem sequer nos entrega um projeto de vida, um guião, uma regra, não pede a nossa opinião. Não nos convida a segui-lo, mas exige que o sigamos, não para nos ensinar, mas para nos enviar como pescadores de homens para o julgamento decisivo do Reino de Deus. A sua voz é mais de Profeta do que de Mestre. Tudo o que Jesus diz e faz é exigente, decisivo e urgente. É face a Ele que devemos saber queimar a nossa palha. É a isso que se chama pôr a nossa vida em estado urgente, mas permanente, de conversão. Jesus não nos põe a fazer uma espécie de estágio, para que um dia nos tornemos Mestres. Já sabemos que permaneceremos sempre irmãos, e um só é o nosso Mestre (cf. Mateus 23,8). Não nos coloca num estágio, num estado, num estrado, numa estante, mas num caminho! E um dia mais tarde, ouvi-lo-emos ainda dizer: «Ide!» (Mateus 28,19). É sempre no caminho que nos deixa. Mas sempre atrás d’Ele.

    7. A toada do Evangelho de hoje, com Jesus a chamar por nós, pode levar-nos a casa de Carl Gustav Jung (1875-1961), um dos pais da psicanálise. Carl Jung mandou esculpir sobre a porta da sua casa, em Küsnacht, na Suíça, esta frase: «Chamado ou não chamado, Deus estará sempre presente. Nunca se vai embora. Fica sempre por perto, à espera de nos abraçar».

    8. Mas voltemos a Isaías 8,23-9,3, hoje, como já vimos, entrançado com o sublime Evangelho de Mateus 4,12-23. Visita de Deus. Luz grande para os abandonados. É a passagem das nossas trevas para a luz refulgente que vem de Deus. É o habitual link editorial dos profetas que sabem sobrepor ou justapor a promessa de redenção com o desastre, mostrando que dentro do desastre já germina a esperança, das entranhas das trevas já começa a despontar a luz, nova criação, milagre sem explicação. Deus em ação. As trevas podem surgir quando falta a luz; mas em caso algum podem produzir luz. Vê-se ainda a vida a borbotar das feridas infligidas pelas espadas. Alegria a desenhar a estação das ceifas. As nossas mãos em concha a recolher os dias dados. Deus primeiro e antes. Deus basta. O dia de Madiã é o dia em que Gedeão enfrenta e desbarata as tropas de Madiã com trezentos homens que sabem que a água é um dom de Deus (cf. Juízes 7). E estiveram lá junto da fonte mais trinta e um mil e setecentos candidatos que apenas exibiam a própria força e que pensavam que estavam ali por mero acaso! Estavam a mais. Foram naturalmente mandados embora. Como já tinham sido outros dez mil antes deles.

    9. Continuamos a saborear a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, servida hoje no extrato entrecortado de 1,10-13.17. Sem cedências de qualquer espécie, Paulo aponta à comunidade cristã de Corinto as divisões e rixas que nela se instalaram, e os grupinhos de pertença em que as pessoas se agrupam e reveem. E Paulo propõe aos Coríntios e a nós que, em vez de nos ocuparmos com divisões ou cismas (schísmata), nos tornemos «remendadores» (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (1,10), que é sintomaticamente o mesmo verbo em que se ocupavam os discípulos hoje chamados, que estavam a remendar (katartízontas: part. presente de katartízô) as redes (Mateus 4,21). Aí está um novo e belo ministério: «remendadores» da comunidade, isto é, fazedores de pontes, estradas, braços e abraços, para que as pessoas, em vez de se separarem e dividirem, se unam e reúnam. E porque circulava também em Corinto uma certa conceção de batismo que criava especiais laços de pertença do batizando em relação a quem o batiza, Paulo adianta bem que a sua missão não é batizar, mas evangelizar!

    10. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar atento e carinhoso de Deus.

    11. Este Domingo é também, por vontade do Papa Francisco, o Domingo da Palavra de Deus. O Domingo da Palavra de Deus foi instituído pela Carta Apostólica sob a forma de motu proprio Aperuit illis, de 30 de setembro de 2019, e começou a celebrar-se desde 2020 no Domingo III do Tempo Comum. Portanto, deixemo-nos invadir performativamente, e não apenas informativamente, pela torrente da Palavra de Deus. E deixemos que a Palavra de Deus rasgue em nós novas avenidas férteis e floridas, onde despontem novos e adequados comportamentos.

    António Couto


  • 1. Neste dia dedicado a São Sebastião, Padroeiro principal da nossa Diocese de Lamego, quero saudar todos os filhos da nossa Diocese, espalhados por todas as paróquias, por todos os recantos de Portugal e também em países de imigração, sobretudo os mais fragilizados, os doentes, os reclusos, os que perderam Deus e a esperança. A todos entrego à solícita proteção de São Sebastião que, ao longo dos séculos, tem sempre sabido defender quem dele implora pronto-socorro em situações difíceis de fome, de peste e de guerra. Quero saudar de modo particular o Sr. D. Jacinto, meu irmão no Episcopado, que hoje celebra o 30.º aniversário da sua Ordenação Episcopal, que teve lugar nesta Catedral no dia 20 de janeiro de 1996.

    2. Portanto, a nossa Igreja de Lamego está hoje em festa. A razão fundamental é porque celebramos hoje o nosso Padroeiro principal, São Sebastião, de quem recebemos a implorada e desejada proteção e a suprema lição, que não passa por um sermão, mas pela doação da própria vida. A nós, que aqui nos reunimos hoje, interessa-nos saber que foi Jesus Cristo a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. Foi intensa a sua LUZ, imenso e notório o seu TESTEMUNHO no meio de uma cidade ensonada e às escuras.

    3. No meio da cidade pestilenta e decadente de Roma, São Sebastião representa uma fonte de vida e um ponto de luz. Há a cidade dormente e sonolenta. E há, em contraponto, a cidade alumiada e atenta, que não se pode esconder sobre um monte. Não se pode apagar o horizonte. Não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição que desencadeou contra os cristãos nos primeiros anos do século IV. O tirano, Diocleciano, fez o que podia fazer. Mas era pouco e tarde demais. Mandou quebrar o frasco cheio de perfume. Mas não se apercebeu que, ao quebrar-se o frasco, se soltaria o perfume, que nem o estrume de Roma podia apagar. E foi assim que o perfume intenso daquele amor imenso se espalhou por Roma e pelo mundo inteiro. Já sabemos que chegou também a Lamego esse aroma intenso e perfumado, que sanava a fome, a peste e a guerra, mas também o frio, e sobretudo o vazio do coração e da alma, a descrença e a indiferença, a maior doença que corrói a sociedade.

    4. Um documento manuscrito guardado na Biblioteca Nacional reporta uma grande peste em Lisboa e Alcácer do Sal em 1569 e 1570, que provocou muitas dezenas de milhar de mortos. O vocabulário é semelhante ao que nós usamos hoje: «cercas sanitárias», «isolamento», «quarentenas». Lê-se ainda, nesse documento que, no dia 22 de agosto de 1569, de uma imagem de São Sebastião escorreram grossas gotas de água claríssima que, recolhidas em lenços, curaram então muitas pessoas.

    5. Acabados também nós de sair de um tempo de pandemia, eis-nos já entrados num tempo de guerras brutais como há muito não se via, em que já se contam centenas de milhares de mortos, milhões de vidas humanas truncadas, atiradas ao lamaçal da sorte, a um vale de lágrimas, ao desalento e ao sofrimento. Tempo de imunda insensatez. Não é pensável que um ser humano sensato ocupe o seu tempo a pensar como pode matar mais e mais depressa. Seguramente não falta dinheiro a este mundo. Falta amor a este mundo. Falta Deus a este mundo. É por isso que faltam irmãos, e sobram inimigos.

    6. Jesus não veio trazer-nos uma definição de Deus. Veio trazer-nos Deus, e mostrar-nos que somos filhos e irmãos, amados e não abandonados. Não nos ensinou montes de orações. Só nos ensinou a rezar o Pai Nosso e a perceber o alcance das palavras que dizemos. E, portanto, ouvimos no Evangelho de hoje (Mateus 10,28-33): Tende confiança! Valeis mais do que muitos passarinhos. Se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não semeiam nem ceifam, com quanto mais carinhos cuidará de nós, seus filhos queridos! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tão segura que está mesmo retratada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16).

    7. Portanto, Igreja de Lamego, tem confiança. Aprende outra vez a rezar o Pai Nosso. Levanta-te e vai com os passarinhos, que não semeiam nem ceifam, mas voam e cantam os louvores do nosso Pai, que está nos Céus. Levanta-te e vai com São Sebastião, e enche este mundo de perfume e de unção, de oração, de comunhão e de paixão. Enche este chão bendito de estradas de Jericó, onde passa o próprio Deus, e se debruça sobre o teu pó, e o levanta e o beija.

    8. Vem, Senhor Jesus! Ensina-nos outra vez a rezar o Pai Nosso, e isso nos basta. Nós vo-lo pedimos por intercessão do Mártir S. Sebastião. Amém.

    António Couto


  • Deus fiel,

    fiável,

    sim irrevogável.

    Matriz fidedigna,

    maternal amor preveniente,

    permanente,

    paciente.

    Palavra primeira e confidente,

    providente,

    eficiente,

    a dizer-se sempre

    e para sempre dita.

    Rochedo firme,

    abrigo seguro,

    alcofa para o nascituro,

    luz no escuro,

    amor forte,

    sem medo da morte

    e do futuro.

    Deus fiel e confidente,

    fala,

    que o teu servo escuta atentamente.

    Nada do que dizes cairá por terra.                      

    A tua palavra à minha mesa,

    minha habitação,

    minha alegria,

    minha exultação,

    energia do meu coração,

    luz que me guia e que me alumia.

    A minha luz é reflexa,

    a minha palavra é lalação,

    de ti decorre,

    para ti corre a minha vida,

    dita,

    dada,

    recebida

    e oferecida.

    António Couto


  • Neste dia 17 de janeiro, a Igreja faz memória de Santo Antão, pai do monaquismo do Ocidente. Segundo a tradição, viveu mais de cem anos. Terá nascido no Egito em 251, ocorrendo a sua morte em 17 de janeiro do ano 356.

    Era rico. Ainda jovem, por volta dos vinte anos, durante uma celebração litúrgica, ouviu o texto de Mateus 19,21, em que Jesus diz ao jovem rico: «Se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-me».

    Chegado aqui, o jovem rico do Evangelho foi-se embora muito triste, como sabemos, porque possuía muitos bens e não estava disposto a desfazer-se deles. Mas o jovem Antão levou o Evangelho à letra, distribuiu, com alegria, os seus muitos haveres pelos pobres, e fez-se seguidor dos passos de Cristo no deserto do Egito, onde muitos o seguiram também.

    Atenção, meu irmão deste dia 17 de janeiro! A rajada de verbos que virou do avesso a vida do jovem Antão pode virar também a tua. Não esqueças: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!».

    Deixo ainda uma questão fundamental: por que razão os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza, por sermos ricos e importantes?

    Santo Antão, roga por nós.

    António Couto


  • Isaías 49,1-6; Salmo 40; 1 Coríntios 1,1-3; João 1,29-34

    1. Estamos já no Domingo II do Tempo Comum, e escutamos o Evangelho de João 1,29-34. E à nossa frente está outra vez João Batista, a figura do umbral ou do limiar, que está sempre ali, à porta, para acolher quem vier, fazer as apresentações e dar as indicações necessárias. É dito, em João 1,28, que João Batista estava «em Betânia» (Bêthanía), de beyt ՚aniyyah [= «Casa da barca»] ou de ՙeynon beyt [= «Casa da fonte»], «do outro lado do Jordão (péran toû Iordánou), e que era aí que batizava». Em termos de crítica textual, o nome «Betânia» é o que reúne mais consenso, sendo, portanto, o melhor estabelecido por aparecer na maioria dos manuscritos maiúsculos e minúsculos. Há, porém, outras possibilidades de leitura, de que destacamos Bêthabarah, de beyt ՙabarah [= «Casa da passagem»]. Esta última denominação remonta a Orígenes que, no séc. III, visitou a região e não encontrou o topónimo «Betânia», mas encontrou Bêthabarâ. No seguimento de Orígenes, também Eusébio de Cesareia, Jerónimo e vários manuscritos assumem esta leitura. Portanto, segundo a crítica textual, o nome do lugar pode mudar. O que não muda é a locução «do outro lado do Jordão» que, no Evangelho de João, aparece sempre relacionada com João Batista (João 1,28; cf. 3,26; 10,40). João Batista coloca-se, portanto, estrategicamente «do outro lado do Jordão», onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). Era então «do outro lado do Jordão» que João Batista batizava (baptizôn). Este particípio indica duração, fazendo da atividade de João Batista uma missão continuada e duradoura. Pode mudar-se o lugar, que não se muda o significado, seja ele «Casa da barca», «Casa da fonte» ou «Casa da passagem». Mas este dado «do outro lado do Jordão» não pode deixar-se cair, dado o valor simbólico que indica, e que, em si, é já um discurso. É preciso voltar atrás, ao «outro lado do Jordão» para se poder entrar agora com o pé direito na Terra Prometida.

    2. Dado que estamos a lidar com o início do Evangelho de João, talvez valha a pena olhar para a forma como está organizado. Aperceber-nos-emos logo que este início do Evangelho de João (1,19-2,12) distribui as ações por dias, organizados em dois blocos de 4 + 3. No primeiro dia (1,19-28), João Batista, postado no umbral de Betânia ou Bêthabara, é interrogado pelas autoridades acerca da sua identidade. No segundo dia (1,29-34), João Batista acolhe Jesus e apresenta-o, sem que seja dito a quem, a todos nós com certeza. No terceiro dia (1,35-42), alguns discípulos de João Batista seguem Jesus, e Simão recebe o nome de Cefas [= Kêphâs] (1,42), única vez nos Evangelhos, que significa Pedra esburacada, acolhedora e protetora. No quarto dia (1,43-51), Jesus chama Filipe e revela-se a Natanael e aos outros discípulos. Estes quatro dias representam em crescendo a preparação remota para a manifestação da Glória de Jesus. Correspondem à primeira parte da preparação para a Festa do Dom da Lei, que os judeus celebravam na Festa das Semanas ou Pentecostes. Depois destes quatro dias, salta-se logo para o «3.º Dia» (2,1-12), que é o 7.º do esquema 4 + 3, e que tem a ver com a manifestação da Glória de Jesus (2,11), que corresponde ao 3.º Dia da manifestação da Glória de Deus no Sinai (Êxodo 19,10-20), para o qual se requerem dois dias de intensa preparação (Êxodo 19,10-11). Se os quatro primeiros dias constituem a preparação remota, os dois seguintes são a preparação próxima para este 3.º Dia! Este era o esquema da preparação do povo para a Festa do Dom da Lei de Deus que se celebrava no Pentecostes.

    3. O Evangelho de João hoje proclamado e escutado (1,29-34) põe diante de nós o 2.º dia dos primeiros quatro de preparação a que atrás aludimos. João Batista permanece parado, imóvel e sereno e atento, desde João 1,28, em Betânia ou Bêthabarâ, nomes que indicam claramente que se trata de um lugar de passagem e de água. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, entre o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. É desse lugar de passagem, mas em que está parado e atento como um guarda ou sentinela vigilante, a observar, que João Batista vê bem, «vê por dentro», como indica o verbo grego emblépô, Jesus a passar (peripatoûntos) (1,36) e a VIR (erchómenos) ao seu encontro (1,29). Esta é a primeira vez que Jesus surge em cena no Evangelho de João. E João Batista é assim o primeiro a ver Jesus, que VEM ao seu encontro, como Deus VEM ao nosso encontro, verificando-se e cumprindo-se assim quanto dito em Isaías 40,10: «O Senhor VEM». Recolhendo, em analepse, as vozes proféticas do passado, mas desenhando também já, em prolepse, os passos futuros, o Batista apresenta Jesus como «o CORDEIRO de DEUS, que tira o pecado do mundo» (1,29). Apresenta-o a nós, pois não é dito que mais alguém esteja lá. Riquíssima apresentação de Jesus, que lembra o cordeiro pascal (Êxodo 12), o servo de Isaías que carrega os nossos pecados (Isaías 53), enfim, o cordeiro vitorioso do Apocalipse. Mas é preciso ter presente ainda que Cordeiro se diz na língua aramaica, língua comum então falada, thalya’. Mas thalya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Tantos fios fecundos, tantas sementes, tantos frutos, a recolher e já também a lançar aos campos que se desenham diante dos nossos olhos. Aí está bem delineada a identidade de Jesus. CORDEIRO de DEUS diz ainda, numa linguagem bem nossa conhecida, que este CORDEIRO é de DEUS, pertence a Deus: é Deus o seu pastor. Mas o Batista diz ainda de Jesus, CORDEIRO de DEUS, que é Ele «que tira o pecado do mundo». Com esta locução não parece que estejam em vista apenas os pecados individuais, mas o fim do domínio do pecado, avistando-se já um mundo novo, esvaziado do mal e cheio do conhecimento de Deus (Isaías 11,9), verdadeira plantação de Deus (Isaías 61,3; 1 Coríntios 3,9). O verbo aírô [= tirar], quando relacionado com pecado (hamartía) diz o mesmo que aphíêmi [= perdoar], que é obra só de Deus, que se vai repetindo nos sacrifícios pelo pecado realizados no Templo.

    4. Nesta passagem do Evangelho de João trata-se de eliminar o pecado todo, de fechar o tempo do pecado com uma única ação, e não do perdão pontual de um determinado pecado individual, a que era necessário acorrer muitas vezes. Os leitores e ouvintes mais habituados a lidar com os textos bíblicos já certamente repararam na vizinhança entre «tirar (aírô) o pecado do mundo» e «tirai (aírô) tudo isto daqui, e não façais da casa do meu Pai casa de comércio» (2,16). Espaço e modo relacional novo. Eis, portanto, que Jesus VEM ao encontro de João, e é por este apresentado como o Messias, Aquele que VEM pôr fim à longa espera de Israel, e estabelece uma nova etapa na relação que une Deus com a humanidade. E talvez não seja por acaso que João Batista exerce o seu ministério «no outro lado do Jordão», fora das instituições do Templo. E ao ver o Espírito descer como uma pomba sobre Jesus e nele permanecer (1,32), João Batista está a ver o nascimento do novo Israel, inaugurado com Jesus, que é o que batiza com o Espírito Santo (1,33), novo nascimento, portanto. A pomba no judaísmo antigo representa Israel. O Espírito que desce sob a forma de pomba anuncia a geração e o nascimento do novo Israel inaugurado com Jesus, e constitui o fruto maduro da vinda do Espírito para o meio dos homens. Uma coisa é o que se vê, do que João Batista vê; outra é o significado do que vê, que não é fruto das suas ideias ou inspiração própria, mas obra da revelação de Deus, daquele que o enviou a batizar com água (1,33).

    5. O Espírito de Deus entra na nossa história, descendo e permanecendo na humanidade de Jesus (1,33). A humanidade de Jesus é a porta por onde entra em nossa casa o Espírito de Deus. É esta novidade que, do seu posto de sentinela, João Batista está também a ver (heôraka, verbo no perfeito grego), e dela dá testemunho (memartýrêka, verbo no perfeito grego) (1,34). O perfeito grego indica continuidade: vi e continuo a ver; testemunhei e continuo a testemunhar. Entenda-se bem: João Batista dá testemunho, não porque viu e agora já não vê, mas porque viu e continua a ver, exatamente como as testemunhas de Jesus Ressuscitado (20,18.25). O Filho de Deus feito Homem, sobre quem desce e permanece o Espírito de Deus, Vem ao nosso encontro em Betânia ou Bêthabarâ, mas sempre no «outro lado do Jordão», margem esquerda, para nos fazer entrar em Casa, na Terra Prometida, novo espaço, tempo e modo relacional com Deus.

    6. Cordeiro, Servo, Filho, Pão: eis Jesus, manso e dócil, nosso irmão e nosso alimento. O «Segundo Canto do Servo do Senhor» (Isaías 49,1-6), em que Hoje se espelha o Evangelho, já mostra este Servo de Deus, libertado do serviço entre os povos estrangeiros, para se colocar exclusivamente ao serviço do Senhor, que, por isso e para isso, o pode chamar «meu Servo» (Isaías 49,3 e 6). A sua missão será reconduzir Israel para Deus, de quem se tinha afastado física, moral e espiritualmente (Isaías 49,5). Fica, todavia, logo claro que não é suficiente proceder à reunião dos filhos de Abraão. É necessário ir mais longe e refazer o mundo dos filhos de Adam. É necessário ser a Luz das nações, como Jesus (Lucas 2,32). E assim devem ser também todos os seus escolhidos e enviados.

    7. Veja-se Paulo, que faz sua a missão do Servo Israel de ser Luz das nações até aos confins da terra (Atos 13,47). É nesse rastro de Luz que chega um dia a Corinto para lá acender a Luz de Cristo, Senhor Nosso, e velar por essa Luz que arde nas entranhas. É por isso que hoje escutamos também o princípio da correspondência que Paulo estabelece com a comunidade de Corinto (1 Coríntios 1,1-3).

    8. Cantamos hoje o primeiro andamento do Salmo 40, repetindo o refrão: «Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade!» (vv. 7-8). É o cântico novo que ecoa hoje na nossa boca (v. 4), e que se vai ouvindo já por toda a terra. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos e modos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, que põe em cena João Batista, o grande indicador de caminhos, e, sobretudo, do Caminho, que é Jesus, e em sintonia também com a lição do Servo de Deus de Isaías 49, que vem para levar Deus e a sua Luz às nações e aos corações. Como Paulo faz desde Damasco até Corinto, até Roma. Para tanto, todo o Servo de Deus tem de ter os ouvidos escavados (v. 7) e o coração incendiado.

    António Couto


  • Ain Karem ou Fonte do Jardim, a uns 8 km a sudoeste de Jerusalém, é apontado como o lugar tradicional do nascimento de João Batista. Mas o verdadeiro lugar da sua vida é o deserto da escuta infinita e do sentido a transbordar que abre caminhos nunca andados e opera corações empedernidos e embotados. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Tal como a escuta infinita e o sentido a transbordar, também os gafanhotos e o mel silvestre são alimento para o coração, e não para o estômago. Como a verdade, a fidelidade, a felicidade, a paz, a alegria e o amor.

    Sempre em contraponto, João pregava no deserto, e não na Trafalgar Square. No deserto, João estava a sós com Deus. Não havia distrações. E quem o queria ouvir, e muitos eram, tinham de sair de casa, das praças, do barulho da cidade. E já sabiam que iam ouvir uma palavra diferente, que caía no coração, e aí crescia como uma semente.

    Também Jesus veio lá da Galileia, fez 150 km para ficar tu-a-tu com João e a céu aberto com Deus. A água do Jordão lava o coração. O batismo de João é como um sismo que abala, não o chão, mas o coração.

    António Couto


  • O Filho e o Espírito Santo são,

    no dizer de Santo Ireneu de Lião,

    as duas mãos do Pai

    enviadas em missão

    para junto dos seus filhos de adoção.

    À semelhança, claro,

    daquelas mãos de amor,

    que, no alvor da Criação,

    modelaram da terra pura o nosso coração,

    e de misericórdia o vestiram.

    Filhos no Filho, divina hyiothesía,

    hemorragia de graça e de alegria:

    Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

    e dá-nos em herança a sua divina filiação.

    E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

    divina comunhão, sem confusão,

    toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

    e faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

    a mais bela lalação que há,

    o nome novo Ab-ba!

    António Couto


  • Isaías 42,1-4.6-7; Salmo 29; Atos 10,34-38; Mateus 3,13-17

    1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

    2. Esta apresentação só é possível porque em cada um dos Anos Litúrgicos é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano A, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como «o Evangelho da Igreja», dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja nascente, sobretudo devido à clareza e riqueza temáticas dos longos, solenes e pausados Discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja. Na verdade, o leitor ou ouvinte encontra no Evangelho segundo Mateus uma longa e bela sinfonia dos ensinamentos fundamentais de Jesus, organizada em cinco andamentos à volta de cinco imensos Discursos de Jesus: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

    3. No umbral do «Tempo Comum» está sempre o episódio do Batismo de Jesus no Jordão, este ano servido pelo Evangelho segundo Mateus 3,13-17. Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Mateus: 1) em primeiro lugar, é-nos dito que Jesus veio da Galileia ao encontro de João para ser por ele batizado no Jordão (Mateus 3,13); 2) quando vê Jesus que vem no meio da multidão como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com o seu povo e assumindo as suas faltas, João Batista fica confuso; na verdade, esperava um Juiz acima do povo, para julgar o povo (cf. Mateus 3,7.10-12), e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 3) além disso, e contra todas as expectativas de João Batista, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado, solidário com o povo (Mateus 3,11.13-14); 4) o diálogo travado entre João Batista e Jesus, em que João manifesta o seu desconforto em ser ele a batizar Jesus, e não o contrário (Mateus 3,14-15), é um exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve); 5) são de notar as primeiras palavras, em absoluto, ditas por Jesus no Evangelho segundo Mateus: «É conveniente para nós cumprir toda a justiça» (Mateus 3,15); neste Evangelho, o termo «justiça» (dikaiosýnê) indica o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade [= obediência] a esse plano, e faz-se ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32) contra uma única vez em Lucas (1,75) e nenhuma em Marcos; o seu uso é modelar e programático (traduz a postura obediente de Jesus e apela à nossa obediência); 6) o verbo «cumprir» (plêróô), que Mateus usa por dezasseis vezes, aponta para o cumprimento da Escritura em Jesus, mas desafia também o discípulo de Jesus e o ouvinte ou leitor da Escritura; 7) a abertura dos céus na forma passiva (êneôchthêsan), passivo divino (sujeito Deus), e a descida do Espírito como uma pomba (Mateus 3,16) evoca e cumpre Isaías 63,19: «Ah, se rasgasses os céus e descesses!», sem esquecer que a pomba representa nas fontes judaicas o Espírito de Deus que pairava sobre as águas (Talmude da Babilónia, Hagîgah 15a), mas evoca também a «voz da pomba» (Ct 2,12) que os Targûmîm traduzem com «a voz do Espírito de salvação»; 8) a voz vinda do céu também deve merecer a atenção do discípulo, do ouvinte e/ou do leitor, porque, ao contrário do que acontece nos outros Evangelhos sinóticos, a proclamação não aparece formulada na segunda pessoa [Marcos 1,11: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»; Lucas 3,22: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»), mas na terceira pessoa: «Este é o meu Filho, o Amado, em quem pus o meu enlevo» (Mateus 3,17]; não é, portanto, uma revelação dirigida a Jesus, mas a nós, salientando desde o princípio a perspetiva eclesial de Mateus, e o quanto devemos estar atentos e implicados em tudo o que vemos acontecer em Jesus.

    4. Diante dos olhos atónitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, connosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser connosco batizado. Extraordinária a epígrafe que Pedro, na lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-38), põe sobre a vida de Jesus: «Passou fazendo o bem e curando todos» (Atos 10,38). Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. É aqui que o rio Jordão nos pode trazer, não apenas água, mas também alguma luz e sentido. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. Rasga, de alto-a-baixo, a terra de Israel, mas atravessa também as páginas dos dois Testamentos! Desce do sopé do Hermon e vai desaguar no Mar Morto, fazendo um percurso sinuoso de mais de 300 km [104 km em linha reta], e o seu nome ouve-se por 179 vezes nas páginas do Antigo Testamento e 15 vezes no Novo Testamento. As suas águas curam (2 Reis 5,14: Naamã) e dão acesso à vida nova: é atravessando-o que o Povo entra na Terra Prometida (Josué 3,14-4,24). É ainda belo ver que, depois de um percurso de mais de 300 km, o Jordão entra no Mar Morto, onde, através de uma intensa evaporação, parece subir ao céu, lembrando Elias que sobe ao céu desde o leito do Jordão (2 Reis 2,8-11). É lembrando estes cenários, sobretudo o do Batismo que também cura e dá acesso à vida nova, que muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» ao canal que conduz a água para a fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

    5. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

    6. Há ainda a registar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz» (Isaías 42,2). Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, então é porque a faz ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, impostos, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Está bom de ver que Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão. De resto, Mateus diz-nos expressamente que Jesus vem cumprir a missão do Servo de Isaías 42,1-4, texto que este Evangelho cita por inteiro em Mateus 12,18-21.

    7. No seu discurso em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, segundo a lição do Livro dos Atos 10,34-38, que hoje temos também a graça de escutar, Pedro dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de todos nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, de acordo com o percurso e o jeito de Jesus que, após o Batismo no Jordão, diz Pedro, passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas (Atos 10,38). É este o programa de vida de todos os cristãos batizados e crismados.

    8. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos amados que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que a nós se dirige, apresentando e revelando o Filho no Batismo do Jordão, e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

    António Couto


  • 1. «O homem é um animal racional», têm repetido tranquilamente os livros e os homens, ao longo dos séculos, desde Aristóteles. Dizer que o homem é um animal, ainda que racional, é definir o homem por baixo, dado que o termo de comparação é o animal.

    2. De forma diferente de todos os outros livros, a Bíblia ousa dizer e repetir que o homem é «imagem de Deus», definindo assim o homem, não por baixo, a partir do animal, mas por cima, a partir de Deus.

    3. E ao mesmo tempo que define o homem como «imagem de Deus», a Bíblia define também claramente qual deve ser a relação do homem com o animal. Refere, de facto, o primeiro Capítulo do Livro do Génesis que o homem deve saber dominar o animal, a animalidade (Gn 1,26 e 28), e mostra logo que, quando tal não acontece, surge naturalmente a desgraça. É assim que Caim se tornará assassino: por não ter sabido dominar o animal, deixando-se antes dominar por ele, ser à imagem dele e não à imagem de Deus. Em boa verdade, o homem violento é aquele que deixa que o animal ou a animalidade o domine. Dominado, então, pelo instinto do pecado à sua porta deitado (Gn 4,7), como se de um leão se tratasse (Sir 27,10), Caim trucida o seu irmão, não lhe dando qualquer espaço: nem sequer o estreito espaço da palavra!

    4. Refere, de forma penetrante, a versão original do Livro do Génesis: «Disse Caim para Abel, seu irmão» (Gn 4,8a). Mas é em vão que ficamos à espera de ouvir ou de ler o anunciado dizer de Caim. De facto, ele não dirá mesmo nada. A narrativa deixa-nos perante um silêncio cortante. Omitindo qualquer palavra, o relato prossegue logo referindo que «Caim se lançou sobre o seu irmão Abel, e matou-o» (Gn 4,8b). É tão gritante este não dizer de Caim depois do seu dizer anunciado, que as versões posteriores, pensando tratar-se de uma omissão, se esforçaram por preencher essa lacuna, colocando lá uma locução do género: «Saiamos para o campo». Mas o texto original não tem lá nada. Apenas um gritante e intencional vazio.

    5. Bem o compreendeu Judas, irmão de Tiago, quando, na sua Carta, diz certeiramente que «aqueles que seguem o caminho de Caim» são «como os animais sem palavra» (Jd 10-11). De facto, a besta que há em Caim não fala, mas grita e trucida e come o outro! Ao grito basta-lhe o instante. A palavra precisa de tempo. A palavra verdadeira é desejo de outra palavra: da palavra do outro. A palavra verdadeira dá a palavra e pede a palavra. Estreito espaço sobre o qual há que vigiar constantemente.

    6. É bom que tomemos consciência de que quando usamos tons que não admitem resposta, quando somos categóricos e intolerantes, quando falamos sem dar atenção às palavras do outro ou sem ter presente que é o outro que está à nossa frente, então somos, de facto, como Caim: gritamos sem dizer nada e preparamo-nos apenas para o ódio, para a violência, para o homicídio que, na Bíblia, é sempre um fratricídio.

    7. Escrever, como falar, é não dizer tudo. É a arte de lidar com as palavras como se cada palavra, para ser admitida à passagem estreita pela qual se apresenta depois de uma palavra e antes de outra palavra, tivesse que produzir uma declaração atestando que não está contaminada pela totalidade ou pestilência da morte. Escrever é um ato de fragilidade e de liberdade.

    8. Que a palavra escrita, ou dita, que nos une, seja sempre frágil e aberta.

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, 2024, pp. 33-35.


  • Vem pelo cais uma criança a correr

    Traz uma pomba branca pela mão

    Uma criança não tem onde morrer

    O seu único haver é o coração.

    1. Sobre esta terra térrea e escura há de haver sempre uma fonte de água pura, uma mulher «no seu ventre concebendo» o céu (Lc 1,31; 2,21), fruto maduro, acorde seguro, das entranhas misericordiosas do nosso Deus (Lc 1,78), Luz nova no céu se alevantando (Lc 1,78; cf. Nm 24,17; Is 60,1-2; Ml 3,20), Rebento tenro na terra germinando (Jr 23,5; 33,15; Zc 3,8; 6,12), luminosa sinfonia de Deus e de Maria, o céu ao léu, enchendo de luz os nossos corações duros e escuros como o breu.

    2. «Conceber no ventre» é um pleonasmo evidente, mas é dito duas vezes de Maria, e apenas de Maria. Certamente para a mostrar dependente das entranhas misericordiosas do nosso Deus Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente, causa da Luz que nas alturas se alevanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na terra germina, que a terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria.

    3. E tem de ser dito agora que, na Escritura Santa, aquela Luz que no céu se alevanta e o Rebento que na nossa terra germina são ditos com o mesmo nome grego: anatolê (forma verbal: anatéllô), que é como quem diz ainda que a Luz germina e o Rebento ilumina, orientando os nossos passos para os braços de Deus e de Maria, causa da nossa alegria.

    4. A nossa terra sombria precisa de Deus e de Maria, e dessa Luz que suavemente Rebenta e Orienta, aquece e alumia o nosso dia-a-dia. Conceber no ventre, «compor no coração as palavras que acontecem e não esquecem» (Lc 2,19), estender a mão de irmão à inteira criação, olhar com ternura para cada criatura, por cada criatura, em cada partitura. É assim que Deus faz a Bênção e a Paz (Nm 6,22-27).

    5. Chegou, meu irmão, a hora de acordar do sono, de encher de amor cada buraco de ozono. Põe fim ao fumo e ao consumo. Dia Mundial da Paz. Dia de Paz. Alarga o coração. Saúda a criação. Leva uma criança a passear com uma pomba branca pela mão!

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, pp. 12-13.


  • Chega uma criança

    À madrugada

    Desarmada

    Traz mãos e pés e uns olhos tão bonitos

    Traz um rasto de lume e de esperança

    E uma espada

    Apontada

    À raiz dos nossos conflitos.

    1. É assim que vem Jesus em filigrana pura, em contraluz coada de alegria, e atravessa ao colo de Maria as páginas arenosas da Escritura. Ei-lo que vem rosado de ternura, acorda, esfrega os olhos azulados de lonjura, salta para o chão, vê-se que procura a minha mão, sabe o meu nome e o de toda a criatura.

    2. Conta-me histórias, a dele e a minha, mas conta também as estrelas uma a uma, apresenta-me Abraão, Moisés, David, demora-se um pouco no caminho com Elias, Isaías, Miqueias, Jeremias, recebe os pastores dos campos de Belém, canta com eles, acena aos anjos nas alturas, fica longamente extasiado a abrir os presentes trazidos pelos magos.

    3. O espaço que habita é um curral que os animais gratuitamente acederam partilhar com ele, com ele brincam, vê-se que sabem de cor a partitura de Génesis um e de Isaías onze.

    4. Maria e José também conhecem e jogam esse jogo, esfuziante corre-corre de alegria, até eu dou por mim a fazer casinhas num prato de aletria, mas na sala ao lado há gente a dormir longe dali, anestesiada e dormente, indiferente, trocando a luz do dia pela romaria.

    5. Ó humanidade sem sal, sem sol e sem sonho, só com sono, acorda que já a luz desponta, todo o tempo é pouco porque o tempo é graça, não fiques atolada na desgraça, desconsolada e triste, como quem tem sempre que pagar a conta.

    6. Olha em redor e vê que já nasceu o dia, e há de andar por aí uma roda de alegria. Se não souberes a letra, a música ou a dança, não te admires, porque tudo é novo. Olha com mais atenção. Se mesmo assim ainda nada vires, então olha com os olhos fechados, olha apenas com o coração, que há de bater à tua porta uma criança. Deixa-a entrar. Faz-lhe uma carícia. É ela que traz a música e a letra da canção. Ela é a Notícia.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 28-29.


  • Há dois mil anos Deus sonhou

    E foi

    Natal em Belém.

    Sonha também.

    Se o jumento corou

    E o boi se ajoelhou,

    Não deixes tu de orar também.

    1. A notícia ecoou nos campos de Belém. Com o celeste recital que ali se deu, o céu ficou ao léu, a terra emudeceu de espanto, e os pastores dançaram tanto, tanto, que até os mansos animais entraram nesse canto.

    2. Isaías 1,3 antecipou a cena, e gravou com o fulgor da sua pena o manso boi e o pacífico jumento comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao Lume, e bafejando depois suavemente o Menino de perfume. Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono, o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

    3. Nos campos lavrados passeiam cotovias, ondulam os trigais, e vê-se Rute a respigar o trigo ao lado dos pardais. Que estação é esta que reúne as estações e os anais? Abre-se ali num instante um caminho novo. Vê-se que passam Maria e José e o Menino, que salta logo do colo e suja as mãos na terra, tira da sacola estrelas todas de oiro, e semeia-as na terra com carinho.

    4. Anda à sua volta um bando de boieiras, leves e ledas companheiras, correndo no mesmo chão de oiro semeado. E nós continuamos a passar ali ao lado daquela sementeira toda de oiro, que o Menino pobre acaricia, e logo se transforma em trigo loiro. Mas ninguém para, ninguém acredita que o Menino pode ser dono de um tal tesoiro. 5. Vem, Menino! E quando vieres para a tua doirada sementeira que logo cresce e se faz messe (João 4,35), quando assobiares às boieiras, chama também por mim, diz bem alto o meu nome, vamos os dois para o campo e para a eira, e enche-me de fome de um amor como o teu, pequenino e enorme.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.


  • Do Oriente veio em procissão de esperança

    o melhor da nossa humanidade.

    Os magos caminharam à luz de uma estrela nova,

    recém-nascida,

    mansa,

    como uma criança.

    A procissão faz-se em passos de dança,

    e a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

    de cristal,

    com alma enternecida,

    e coração de natal.

    Por isso,

    não a viu Herodes,

    não a viram os guardas,

    não a viram os sábios,

    que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

    Viram-na os magos,

    pegaram nela à mão,

    levaram-na aos lábios,

    deitaram-na no coração.

    Vem, Senhor Jesus.

    O mundo precisa tanto da tua Luz.

    1. Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta de Jacob, um cetro se levanta de Israel (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, oriundo das margens do Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7), terra da sabedoria maior do que Salomão, de onde vêm os sábios e a burra de Balaão.

    2. Balaão habita o coração da luz, escuta Deus, sabe que só pode dizer de Deus o que Deus disser, sai de entre as fragas frias e escarpadas, caminha por caminhos estreitos e murados, tem por companhia uma burra fiel e astuta, que escuta e vê Deus melhor que o dono, que corre atordoado pela pressa e pelo sono. Mas a burra trava de repente a correria, e atira Balaão ao chão, que se zanga e fustiga sem razão a astuta burra, que fez o que fez porque viu um anjo parado no meio do caminho, com a espada na mão desembainhada a fazer stop. Não o viu Balaão, viu-o a burra. Fustigada pelo dono uma e outra vez, travou-se a burra de razões, e pediu satisfações ao dono: «Que te fiz eu, para me bateres assim?» (Números 22,28), protesta a burra, fazendo coro com Miqueias 6,3 e os impropérios postos na boca de Jesus, enquanto se beija a Cruz em Sexta-Feira Santa.

    3. Habituado a ler as estrelas, Balaão via à distância, e à distância viu Jesus. Mas a burra viu-o de perto, no caminho, viu-o bem, e ajoelhou-se logo ali, como se fosse ali o presépio de Belém. Quando Balaão se apercebeu e se levantou do chão, meteu a mão no bornal, e encontrou numa folha de jornal uma bênção que pronunciou sobre José, o Menino, e Maria, sua Mãe. E a burra de Balaão ofereceu-se logo ali para levar Jesus ao Egito, e o trazer de volta também.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 53-54.


  • Isaías 60,1-6; Salmo 72; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12

    1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob,/ um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

    2. Do Oriente são também os Magos (mágoi), que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho revelador (2,12), a estrela e o sonho indicadores de caminhos novos, belos, insuspeitados, nunca andados. Os Magos, neste contexto, não devem ser entendidos como «bruxos» ou «charlatães». Trata-se, antes, de um termo que remonta ao nome de uma tribo da Média que desempenhava, na religião persa, funções sacerdotais e se ocupava também de astronomia e astrologia. O Evangelho hebraico de Mateus, de Shem Tov, traduz o termo por «videntes nas estrelas», e, em diversos textos antigos, o termo «mago» é posto em relação com clarividência, interpretação de sonhos, profecia, e os magos de Mateus não devem ser uma exceção.

    3. Mas o texto de Mateus 2,6, com a citação de Miqueias 5,1, encarrega-se de clarificar que a leitura das estrelas não é suficiente para o sucesso da busca dos Magos. É preciso o conhecimento das Escrituras, que lhes chega através dos chefes dos sacerdotes e dos escribas do povo. É só com a interpretação extraída da leitura de Miqueias 5,1, que os Magos conseguirão encontrar o Menino. Estrelas, sonhos, Escritura. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego do Livro dos Números e de Mateus diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn) (Números 23,7; Mateus 2,1). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular (2,2 e 9), pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural e das estrelas da moda mais brilhantes e atraentes.

    4. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do MESSIAS e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e ilumina e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô) (Mateus 2,2.11). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

    5. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil e cansado controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem tudo acerca do Messias, mas não se comprometem com ele, não dão um passo de saudação e acolhimento em direção a ele (Mateus 2,4-6). Dá-lo-ão mais tarde. Mas aí é tarde, e é contra ele (Mateus 26,57.59). A informação que retiram da leitura da Escritura será útil apenas para os Magos.

    6. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento de Jesus. Já sabemos que se trata de dons preciosos, e, porque são enumerados três, antigas representações da adoração dos Magos mostram também três figuras: um jovem, um homem de meia-idade e um velho, representando um asiático, um europeu e um africano. Claro que estas indicações não estão na letra do texto, mas estão no espírito do Evangelho, que pretende dizer a todos nós que a adoração deste Menino, reconhecido como Rei e Senhor, deve mobilizar gente de todas as idades e de todos os continentes. Afinal, a Epifania é a manifestação de Deus a todas as nações e a todos os corações.

    7. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a.C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Também se pode fazer destes dados uma leitura simbólica e popular que indica um nascimento real, porventura do Messias, Rei dos Judeus, dado que Júpiter é um planeta real e Saturno é a estrela do sábado, portanto, dos Judeus, e a constelação de Peixes representa o fim dos tempos. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela que faz levantar os Magos e os põe em movimento é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam os Magos, certamente, se soubessem que nós indagamos a abóbada celeste com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. Talvez seja por isso que, enquanto nós nos ocupamos e distraímos com tantas luzes mais ou menos inúteis e estéreis, «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos céus» (Mateus 8,11). E nós, que gastámos tanto tempo e dinheiro e esfregámos os olhos a indagar as Escrituras sem lhes descortinarmos o verdadeiro fio de ouro (Mateus 2,4-6), e sem as transpormos para a nossa vida, sem as pormos em prática, corremos o risco de ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29). Os de fora são os estrangeiros como Balaão, como os Magos, que vêm e veem de longe, com o olhar puro, sem esquadrias ou sistemas ou ideologias. Estrangeiros que nada possuem: nem propriedades nem verdades nem pessoas.

    8. Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Não é só para despistar Herodes. Sim, quem viu o que os Magos viram, quem viu como os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se simplesmente a continuar seja o que for. Tudo tem mesmo de ser novo. Também os olhos e o coração. Até para casa precisamos de aprender o caminho!

    9. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

    10. Também os versos sublimes do Salmo 72, um Salmo Real, cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

    11. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

    12. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que são as crianças a ensinar-nos que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação. Há apenas entreajuda, compreensão e partilha do pão.

    13. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças que nos podem ensinar esta maravilhosa lição.

    António Couto


  • 1. Mãe de Deus, Senhora da alegria, Mãe igual ao dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

    2. De ti pouco sabemos, singular mulher! Mas esse «sim» que te saiu dos lábios abriu um grande rombo no silêncio. De Bezetha[1], mas sempre de Bethesda[2]: não é o amor o que fica das colinas, das colinas, das palavras e de nós? Bezetha, Nazareth, Ayin Karem[3], Betlehem[4]: estivesses onde estivesses, estavas decerto permanentemente à escuta, e estremecias, inundada de alegria, sob a palavra que sobre ti descia em ondas sucessivas de emoção.

    3. Uma palavra, depois outra, depois outra: caía sobre ti tanto silêncio, que necessariamente havia de ganhar corpo no teu corpo o corpo que atravessa em contraluz toda a Escritura. Mulher, grande mulher, mulher messiânica, mulher entre todas única, Mulher!, aeì parthénos[5], sempre virgem, ao mesmo tempo esposa, ao mesmo tempo mãe: mulher de estrelas coroada, ou solar rapariguinha na solene procissão saltando à corda, ou moreninha enamorada saltando, soltando pelos montes a enleante melodia do shîr hashîrîm[6].

    4. Shalôm[7], disseste, shalôm: oh imensa, divina saudação, clarão de Deus nos céus de orini[8], no ventre de Isabel, na dança de João: incontrolável rebentação, intraduzível lalação. Era de paz a voz dos anjos, era de paz, como sempre foi a voz de Deus.

    5. Menina de Deus bendita! Sossegada e livre e firme, levas os teus filhos pela mão, salvo-conduto para a esperança, Mulher de todas as esperas. O tempo em que vamos é semelhante ao de Herodes, tu sabe-lo bem, atravessado por tanta tirania e prepotência, batido por tantas vagas de poder e ambição.

    6. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria.

    7. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre a olhar por Deus, sempre sob o olhar de Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste sempre que Deus também é pequenino! Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»!

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, pp. 9-11.


    [1] Lugar tradicional do nascimento de Maria, na colina junto da porta Probática e da piscina gémea do mesmo nome, a norte da esplanada do Templo de Jerusalém.

    [2] Significa «casa do amor».

    [3] Cidade de Isabel e João Batista, situada no meio da região montanhosa de Orini, a cerca de 8 km a sudoeste de Jerusalém.

    [4] Nome hebraico de Belém [= «casa do pão»].

    [5] Expressão grega que significa «sempre virgem».

    [6] Expressão hebraica que significa «Cântico dos Cânticos», nome de um livro da Bíblia, poema de amor que canta o amor do noivo e da noiva, do esposo e da esposa, o amor de Deus pelo seu povo.

    [7] Habitual saudação hebraica, que significa «paz», «felicidade».

    [8] Nome geográfico da região montanhosa cujo centro é Ain Karem, cidade de Isabel e João Batista.


  • Que Deus nos abençoe e nos guarde,

    que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

    que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

    cheios de amor, de paz e de alegria,

    que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

    e nos ponha nos caminhos de Maria.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

    num amor maior do que um letreiro,

    um amor que rompe as trevas e o nevoeiro.

    Vela por nós, Maria, em cada dia

    deste ano inteiro,

    para que levemos a cada enfermaria,

    a cada periferia,

    um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

    Santa Maria da Paz,

    ensina-nos como se faz.

    António Couto


  • Números 6,22-27; Salmo 67; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21

    1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», irmanando assim a Páscoa e o Natal, eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2026, sendo o primeiro dia do ano tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

    2. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre (na riqueza espiritual que o termo contém), com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus enviou o seu Filho, nascido (genómenon) de mulher, nascido (genómenon) sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Duplo nascimento: nascido de mulher, isto é, como todos nós, nosso irmão em humanidade; nascido sujeito à Lei, isto é, membro do povo hebreu, a quem Deus tinha dado a sua Lei. Nesta linha breve e densa e, todavia, com uma repetição vocabular só aparentemente desnecessária, aparece compendiado o mistério da Encarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Ela é a Mãe do Filho de Deus e filho seu. Para falar do nascimento de João, refere o texto, de forma um tanto ou quanto indeterminada, que Isabel «deu à luz um filho» (egénnêsen hyión) (Lucas 1,57). Mas para falar do nascimento de Jesus, o texto diz, de um modo todo particular, que Maria deu à luz «o seu filho o primogénito» (tòn hyiòn autês tòn prôtótokon) (Lucas 2,7). O facto desta designação de Jesus como «o primogénito» não significa que Maria tenha tido outros filhos depois dele, mas revela tão-só a sua singular consagração a Deus, como vinha referido no Livro do Êxodo 13,2: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu». É por isso que ao episódio do Evangelho de hoje (Lucas 2,16-21) se segue imediatamente o episódio da «apresentação ao Senhor» (Lucas 2,21-22). Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza. Vem-lhe do facto de ser a Mãe deste Filho, seu e de Deus.

    3. O Evangelho deste Dia de Maria guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio, na escuta qualificada e na contemplação. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica uma atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. Como quando o povo de Deus reza confiante: «Guardai-nos e defendei-nos como coisa própria vossa».

    4. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar todas estas palavras e acontecimentos, para melhor entender, e para melhor dar a entender. É como quem, com aquelas Palavras e acontecimentos, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida inteira a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). De Isabel apenas se diz que «concebeu» (syllambánô) (Lucas 1,24). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre das misericórdias do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome de Jesus, Nome vindo de Deus através do anúncio de Gabriel (Lucas 1,31). Nome vindo de Deus, dado por Deus. Em Lucas 1,31, Gabriel dizia para Maria: «Chamarás o nome dele Jesus» (kaléseis tò ónoma autoû Iêsoûn). Mas no texto que estamos a ler (Lucas 2,21), Maria desaparece da cena, e lê-se na forma passiva: «Foi chamado o nome dele Jesus» (eklêthê tò ónoma autoû Iêsoûs). Deus por detrás de tudo. Na Escritura Santa, a Luz que no céu nasce e irradia, como uma Estrela, e o Rebento tenro, que na nossa terra germina, apontam e são figura do Messias, e dizem-se com o mesmo vocábulo grego, anatolê (hebraico, tsemah).

    5. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 59.º Dia Mundial da Paz que se celebra, a que o Papa Leão XIV, em contraponto com os inúmeros conflitos e guerras absurdas que assolam violentamente o nosso mundo, apôs o lema «Uma paz desarmada e desarmante». Guerras absurdas, porque não se trata de guerras entre dois exércitos para tal preparados e armados. Trata-se de um despejo da nojenta estupidez que nos habita sobre uma população humana pacífica, normal e sensata, que nada tem a ver com tamanha, incomensurável e incompreensível cegueira, que envergonha a inteira humanidade. Neste contexto, o suspiro humano pela paz transformou-se num grito imenso que há de com certeza atingir o céu. A paz é mais, muito mais do que a ausência de guerras. A paz é uma refeição saborosa, servida por Deus aos seus filhos.

    6. Na verdade, não temos sabido gerir como filhos e irmãos o pão nosso de cada dia, que em cada dia nos é dado. Daí que, do meio da guerra que a todos nos atinge, se levante outra vez este grito dorido e lacrimado pela paz, verdadeira sementeira de lágrimas (Salmo 126). As lágrimas também dão fruto como a semente. E é bom que não deitemos a perder esta oportunidade que Deus nos dá para tomarmos consciência de que estamos doentes e nos temos vindo a arrastar no lamaçal da banalidade, da indiferença e da equivalência, em que vale tudo e tudo vale o mesmo, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sem fontes e sem horizontes. Na verdade, nesta «noite do mundo», em que domina a escuridão, literal na Ucrânia, e a nefasta atração pela morte, palpável nas guerras, mas também nas já consideradas conquistas da liberdade, como sejam a interrupção voluntária da gravidez e a eutanásia, tudo nos aparece sem Deus, sem rosto e sem rumo, só com fumo, sem irmão, sem irmã, sem pai, sem mãe, tudo à medida sem medida da hipertrofia do «eu», que julga poder dispor de uma soberania e autonomia ilimitadas, sem sequer nos apercebermos do número cada vez mais elevado de deserdados, abandonados, refugiados e velhinhos que já perderam a soberania e a quem já roubámos a autonomia e a liberdade, e que continuamos a atirar com disfarçada subtileza para o sótão das inutilidades. Em poucas palavras, a Paz do Dia Mundial da Paz não é a «paz romana», que se conquista pelas armas; também não é a «paz do judaísmo palestinense», que se obtém por acordos. É tão somente a Paz que vem de Deus, dom de Deus, puro dom de Deus.

    7. Ao contrário, de Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir e gravar no coração outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

    8. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «que Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos os povos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

    9. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

    10. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Amém!

    António Couto


  • Neste Natal aposta na paz

    Limpa o teu olhar de traves e de medos

    De torpedos

    Deita fora as velhas espingardas

    Despede os guardas

    Sê simples e frontal

    Feliz Natal!

    1. Correm pelas colinas as mansas ovelhinhas como novelos de lã, de cá para lá, de lá para cá, sem nenhum afã que perturbe o seu olhar meigo e puro. Nada sabem as ovelhinhas mansas do passado e do futuro. A água que bebem é de um furo aberto no céu, que faz também germinar do chão a erva verde e a mansidão. Mas também o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, a vaca e o urso, o boi e o leão habitam e partilham a paz desta mansão, e é um menino o pastor desta visão.

    2. Os homens, sim, são os homens que cruzam espadas, espingardas, mísseis, drones, desencadeiam ciclones, fecham os céus, brincam ao número de baixas e de balas, e deixam o chão cravado de valas e putrefação.

    3. Escuridão anterior à criação. Sem rosto de irmã ou de irmão. Só Deus pode dissipar este apagão e fazer refulgir uma luz, um clarão, como nas terras pisadas pelas guerras de Zabulão e Neftali, Estrada do mar, Galileia dos gentios. Também ali a luz rompeu tempos sombrios, e se instalou o júbilo e a alegria, e talvez também a feira e o mercado, porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, e é sobre os seus ombros que repousa a soberania e a alegria.

    4. Isto disse o profeta Isaías, que viu a escuridão da guerra assolar a Galileia. Mas, por uma brecha, ou por uma brecha e meia, entreviu a luz que incendiou a guerra e encheu de alegria a terra inteira. Foi por uma brecha, ou por uma brecha e meia, que entreviu a luz e anteviu Jesus, o menino para nós nascido em Belém da Judeia, um menino com divina soberania, filho de Deus e de Maria, que começou na Galileia a acender a mecha da alegria.

    5. Mas nem por isso os homens deixaram de construir castelos na areia, e de disparar disparates de todas as ameias. Valham-nos as ovelhinhas mansas, as doces abelhas que constroem casulos e colmeias, os passarinhos que admiravelmente constroem os seus ninhos, as operosas formiguinhas que constroem os seus celeiros, muito melhor do que os melhores arquitetos e engenheiros. Valha-nos Deus que preparou o seu berço numa manjedoura, e nos ensinou a fazer das nossas espadas relhas de arado e outros instrumentos de lavoura.

    6. Começámos a ensaiar. E anda já pelo ar um aroma a céu acabado de lavrar.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 50-51.


  • À nossa volta parece tudo escuro:

    espingardas, mentiras, raivas, ódios,

    Herodes a mais, Belém a menos,

    Belém outra vez sem paz e sem meninos,

    sem alegria, só com sangue e choro,

    sem coro e decoro de Natal.

    É como se o tempo corresse para trás,

    e para trás corresse também a água das fontes,

    o sopé dos montes,

    a linha que define os horizontes.

    Onde estamos, afinal? Onde chegamos?

    Quem somos? Para onde vamos?

    Não somos nós a humanidade por Deus criada?

    O que é feito da nossa liberdade e responsabilidade?

    Não partilhou connosco Deus

    o seu poder omnipotente,

    a sua ciência omnisciente,

    a sua presença omnipresente,

    a sua vida vivente?

    Para que servem os túneis, os paióis,

    os mísseis, os muros, as trincheiras?

    Por que investimos tão pouco em presépios,

    em presentes,

    em abraços, em flores, em sementes?

    Vem, Senhor Jesus,

    o mundo precisa tanto da tua Luz.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, p. 52.


  • Santa Maria de um amor maior,

    Do tamanho do Menino que levas ao colo,

    Diante de ti me ajoelho e esmolo

    A graça de um lar unido ao teu redor.

    Protege, Senhora, as nossas famílias,

    Todos os casais, os filhos e os pais,

    E enche de alegria, mais e mais e mais,

    Todos os seus dias, manhãs, tardes, noites e vigílias.

    Vela, Senhora, por cada criança,

    Por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,

    A todos os velhinhos, Senhora, dá a mão,

    E deixa em cada rosto um afago de esperança.

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, p. 14.


  • Ben Sira 3,2-6.12-14; Salmo 128; Colossenses 3,12-21; Mateus 2,13-15.19-23

    1. Atravessamos ainda a Solenidade do Natal do Senhor, dado que esta Solenidade se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro Dia de Janeiro.

    2. O Natal do Senhor põe diante do nosso olhar contemplativo uma Família humilde e bela, Jesus, Maria e José, mas traz também consigo uma forte sensibilidade Familiar, tornando-se o tempo forte da reunião festiva das nossas Famílias. Estes dois acertos são importantes para se compreender a razão pela qual, no Domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebre a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. Quando não existe nenhum Domingo entre o Natal e o Ano Novo, o que acontece quando o Natal e o Ano Novo caiem ao Domingo, a Festa da Sagrada Família celebra-se no dia 30 de dezembro.

    3. Os textos da Liturgia são outra vez preciosos. O Evangelho põe no nosso coração os últimos episódios do Evangelho da Infância segundo S. Mateus (2,13-15.19-23), habitualmente conhecidos por «Fuga para o Egito» e «Regresso do Egito à Terra de Israel». Na inteireza do texto que Hoje, por graça, nos é dado ler e escutar, vemos e ouvimos por cinco vezes a extraordinária e significativa locução «o Menino e a sua Mãe» (tò paidíon kaì tên mêtéra autoû) (Mateus 2,11.13.14.20.21), mostrando entre os dois uma unidade inseparável. A expressão, fortíssima, surge no contexto de uma missão por duas vezes confiada em sonhos a José pelo Anjo do Senhor, para que «tome consigo o Menino e a sua Mãe» e procure refúgio no Egito, ou que do Egito volte para a Terra de Israel, o que José executa pronta e silenciosamente, «tomando consigo o Menino e a sua Mãe», e encaminhando-se diligentemente para os destinos indicados. Esta forte vinculação do Menino à sua Mãe, e dos dois a José, que os deve tomar consigo e a seu cargo (paralambánô) traduz bem a união familiar que hoje, Dia da Sagrada Família, se celebra.

    4. Mas o texto de Mateus guarda muitos outros tesouros. Desde logo, o facto de vermos Jesus a refazer a história de Israel e a nossa história também, tornando-se assim verdadeiro filho de Israel e da nossa humanidade dorida, hoje com a Ucrânia e tantas situações no mundo em que a violência vem à tona e ocupa o primeiro plano. Desde pequenino, Jesus desce ao nosso chão e ao nosso coração, sofre as nossas raivas e violências, conhece a perseguição, o mundo dos exilados e dos refugiados, vive como clandestino e «descartado», como tantos dos nossos concidadãos de hoje e de todos os tempos. Como aqueles irmãos nossos que da África partem para a Europa sem documentação e atravessando o Mediterrâneo em frágeis e sobrelotadas embarcações, em condições subumanas, e que, se escaparem da intempérie marítima, são retidos na fronteira e atirados para a fome e para a miséria, ou simplesmente para o lixo. Assemelha-se ainda a quantos da Europa de Leste, dos países da Ásia abaixo do limiar da pobreza e do Terceiro Mundo entram no Ocidente, e conhecem todos os cantos e esquinas da clandestinidade, da rejeição e da indiferença humana. Assim Jesus entra na nossa história dorida e na história do seu Povo, Israel, fazendo a experiência fundamental do Êxodo, descendo ao Egito e saindo do Egito, para entrar na Terra de Israel. O quadro, convenhamos, está longe do tom romântico pintado por Murillo. O jumento, que a cultura popular associou a este episódio, pode provir de idêntico quadro e idêntica linguagem, do Livro do Êxodo 4,20.

    5. Vê-se bem que não é um Deus de luxo e de uma família de luxo que se trata. Planta a sua tenda nos campos dos refugiados, e conhece a miséria total. Será, como é sabido, rejeitado na sua terra e crucificado fora dos muros da cidade dos homens, que se quer sempre tranquila e serena e não contaminada. É assim que Jesus absorve e absolve as nossas páginas mais doridas. É assim, profunda e subtil, a sua presença em solo ucraniano, na faixa de Gaza e nos países onde reina a violência.

    6. Aqui estão sempre as linhas entrelaçadas da perseguição e da libertação, com Deus sempre subtilmente por detrás. Revivendo a experiência fundamental da perseguição e do Êxodo, Jesus torna-se um verdadeiro filho de Israel. E, com a anotação precisa de que ENTROU na TERRA DE ISRAEL (Mateus 2,21), Jesus reúne e dá cumprimento a vários fios perdidos e dispersos na história bíblica. Desde logo, vai ao encontro de Moisés, que tinha ficado fora da Terra da Promessa (Deuteronómio 4,21-22; 32,51-52; 34,4), mas reúne também os exilados que, provindos do Exílio na Babilónia, não entraram na Terra de Israel, como refere com precisão  o profeta Ezequiel (20,38). Em nome de todos, a todos reunindo, Jesus cumpre agora o ingresso integral e definitivo nessa Terra.

    7. E no versículo que se segue imediatamente no texto de Mateus (2,22), nós lemos que, uma vez mais guiado em sonhos, isto é, por Deus, José não ficou em Jerusalém ou na Judeia, e foi para a região da GALILEIA. Com esta menção da região da GALILEIA, trata-se de estabelecer uma ponte para a Terra sombria, mas que será iluminada, de Isaías 8,23-9,1. Jesus é a grande LUZ que alumia essa região queimada e humilhada por sucessivos desastres históricos e calcada por muitas botas militares. Mas abre também uma ponte para o início do anúncio do Evangelho por parte de Jesus, referido em Mateus 4,12-17, que cita, de resto, na íntegra, a anterior passagem de Isaías, deixando a claro a missão de Jesus. Mas é também o final do Evangelho de Mateus que fica iluminado, pois é na Galileia que Jesus precede sempre os seus discípulos-irmãos (Mateus 28,7 e 10); é para lá que eles se dirigem (Mateus 28,16), e é de lá que são enviados a levar o Evangelho a todos os corações (Mateus 28,18-20).

    8. Em voz-off, mediante o sonho e através de citações da Escritura Santa, Deus guia esta Família, que assim é perseguida e rejeitada pelos homens, mas está sempre nas mãos de Deus. A primeira citação, «Do Egito chamei o meu filho», é de Oseias 11,1, e a segunda, «Será chamado Nazareu», sem provir de um lugar explícito, reúne preciosos fios de significado. Evoca Nazaré, uma pequena povoação desconhecida, que nunca é mencionada no Antigo Testamento, e que, no tempo de Jesus, não contaria mais de 500 habitantes, mas aponta ainda para Nazîr [= Consagrado] e Netser [= Rebento], termos densos de religiosidade, e o segundo de cariz claramente messiânico (Isaías 11,1).

    9. Dentro da temática da Família, o Antigo Testamento traz-nos hoje um extrato sapiencial retirado do Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico) 3,2-6.12-14, e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais sempre, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade. Importa ainda considerar, em termos familiares, que este belo Livro Bíblico foi escrito em hebraico por um velho pai de família, que o deixou guardado na gaveta, aí pelo ano 180 a.C. E, por lá ficou esquecido, até que, aí pelo ano 130 a.C., um seu neto o descobriu, o leu e admirou, e achou cheio de tanta riqueza que o traduziu para grego, para que muito mais gente pudesse ter acesso aos tesouros de sabedoria nele contidos. Sublime admiração e comunhão familiar entre as gerações.

    10. O Salmo 128 é a música suave, de teor didático sapiencial, que canta uma família feliz e nos mostra a fonte dessa felicidade: a bênção paternal do Senhor. «Felizes os que esperam no Senhor,/ e seguem os seus caminhos», é a bela litania em que o refrão de hoje nos faz entrar.

    11. Finalmente, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses 3,12-21, exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que música devemos encher o nosso coração. Salta à vista que a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor, o perdão, são vestidos importantes para a festa, mas não se compram nem se vendem por aí em nenhum pronto-a-vestir. Nesta época de bastante consumismo, convém que nunca nos esqueçamos de Deus, pois é Ele, e só Ele, que veste carinhosamente o coração dos seus filhos.

    António Couto


  • Há dois mil anos Deus sonhou

    e foi

    Natal em Belém.

    Sonha também.

    Se o jumento corou

    e o boi se ajoelhou,

    não deixes tu de orar também.

    A notícia ecoou nos campos de Belém.

    Com o celeste recital que ali se deu,

    o céu ficou ao léu,

    a terra emudeceu de espanto,

    e os pastores dançaram tanto, tanto,

    que até os mansos animais entraram nesse canto.

    Isaías 1,3 antecipou a cena,

    e gravou com o fulgor da sua pena

    o manso boi e o pacífico jumento

    comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,

    e bafejando depois suavemente o Menino de perfume.

    Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,

    o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

    Vem, Menino!

    E quando vieres para a tua doirada sementeira,

    que logo cresce e se faz messe (João 4,35),

    quando assobiares às boieiras,

    chama também por mim,

    diz bem alto o meu nome,

    vamos os dois para o campo e para a eira,

    e enche-me de fome de um amor como o teu,

    pequenino e enorme.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.


  • Hoje é Dia de Natal.

    É Dia de Jesus.

    O Natal é um imenso caudal

    de luz

    e de alegria:

    hemorragia

    de Jesus.

    Há quem pense amansá-lo e enlatá-lo,

    domesticá-lo,

    e depois tomá-lo em pequenos comprimidos,

    mais ou menos à razão de um por dia.

    Mas o Natal não se pode comprá-lo

    ou aviá-lo por receita.

    Nem cumprimentá-lo,

    quer com a mão esquerda quer com a direita.

    O Natal não tem regra ou etiqueta.

    Não se pode semeá-lo

    na jeira ali ao lado.

    Não se pode trocá-lo

    por qualquer bugiganga à venda no mercado.

    Este vendaval,

    que se chama Natal,

    só podemos deixá-lo entrar por nós adentro aos borbotões,

    até que rebentem os portões,

    e caiam um a um do nosso fraque todos os botões.

    Também o mofo e o verdete que há nos corações

    serão levados na torrente,

    e também tudo o que apenas é corrente,

    banal ou indiferente.

    Só ficaremos mesmo eu e tu, menino,

    só mesmo nós os dois,

    lado-a-lado ou frente-a-frente.

    António Couto


  • Noite: Is 9,1-6; Sl 96; Tt 2,11-14; Lc 2,1-14

    Aurora: Is 62,11-12; Sl 97; Tt 3,4-7; Lc 2,15-20

    Dia: Is 52,7-10; Sl 98; Hb 1,1-6; Jo 1,1-18

    1. «Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador», é a Antífona do Cântico de Entrada da Missa da Noite, que dá o devido tom de exultação a esta Solenidade, magnífico pórtico para este intenso feixe de Luz, Mistério de Jesus, fazendo logo ver o Natal à Luz da Páscoa, «a Páscoa do Natal», assim o diz significativamente a liturgia oriental. A Antífona da Missa da Aurora prossegue a mesma sintonia, conjugando Isaías 9,1 e Lucas 2,11, e soa assim: «Hoje sobre nós resplandece uma Luz: nasceu o Senhor». A Antífona da Missa do Dia continua a indicar o «para nós» deste Filho e do seu Mistério, trazendo ao de cima outra vez a pauta luminosa de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9,6).

    2. A linha dos Evangelhos deste Dia é de excecional riqueza, e desenvolve-se em quatro andamentos: o acontecimento, o anúncio, o acolhimento e a revelação do Verbo feito carne. Começa com Lucas 2,1-14 (Noite), e continua com Lucas 2,15-20 (Aurora), que nos trazem o quadro histórico-geográfico do nascimento de Jesus (Lucas 2,1-7), o seu anúncio (Lucas 2,8-14) e acolhimento (Lucas 2,15-20), e culmina com o prólogo de João 1,1-18 (Dia), que nos mostra a Luz fulgurante do Verbo de Deus feito carne, o Único que nos pode dizer Deus. O nascimento de Jesus, na sua nudez, aparece narrado três vezes, nos três andamentos do texto lucano (Lucas 2,7.12.16). Ele é claramente o centro. Aparece logo situado no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria (Lucas 2,1-2). O reinado de Augusto estende-se por muitos anos (27 a.C.-14 d.C.), mas Pôncio Sulpício Quirino foi prefeito da Síria apenas no ano 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande, e anexa definitivamente a Judeia ao Império Romano. O leitor menos prevenido dirá logo que há aqui uma imprecisão histórica. Acrescento então que este recenseamento foi iniciado em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino, prefeito da Síria durante os anos 9-6 a.C. É sabido, de resto, que a era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI, em 525, pelo monge xiita, de origem egípcia, Dionísio o Pequeno, com um pequeno erro de cálculo que resultou no atraso de 6 ou 7 anos em relação ao nascimento de Jesus. Portanto, Jesus terá nascido 6 ou 7 anos antes do início da era cristã fixada pelo monge Dionísio. E aí está então tudo em dia: Jesus nasce quando Sêncio Saturnino dá início ao recenseamento. Dirá outra vez o leitor incauto: se assim foi, por que é que Lucas fala de Quirino, e não de Saturnino? Se repararmos bem, Lucas faz exatamente como nós fazemos hoje. Nas placas que colocamos nos edifícios públicos que inauguramos constam os nomes das autoridades que os terminam e inauguram, e não daqueles que os iniciam. O mesmo se diga da promulgação de leis e tratados.

    3. É ainda no quadro deste recenseamento que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se fica a dever ao facto de José ser da descendência de David (Lucas 2,3-4). O próximo passo refere que, quando chegaram (José e Maria), não havia lugar para eles na sala (Lucas 2,7). Note-se que o texto refere, de forma clara, sala, grego katályma, e não hospedaria, como se lê em muitas e preconceituosas traduções. Na verdade, Lucas sabe bem dizer hospedaria, como faz na passagem do bom samaritano (Lucas 10,34), em que usa o termo grego pandocheîon. Katályma não significa hospedaria. Significa sala. Pode ser a sala do andar superior (Lucas 22,11), que ficou conhecida como Cenáculo, onde Jesus comerá a Ceia da Páscoa com os seus discípulos. No episódio de Belém, que estamos a ler, pode tratar-se de uma sala destinada a hóspedes que a arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Judeia do tempo de Jesus. Esta sala apresenta forma quadrangular ou retangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. A sala tinha uma única porta de entrada, por onde entravam as pessoas com os seus animais de transporte. Ao fundo da sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais, depois de descarregarem os seus bens. É neste estábulo anexo à sala destinada aos hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura (Lucas 2,7 e 12).

    4. Vem depois a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos da sociedade, e não entram nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, David, não entra nas contas já encerradas de seu pai (1 Samuel 16,10-11), mas entra nas contas de Deus (1 Samuel 16,11-12). O mesmo acontece com os pastores de Belém, a quem o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento de um Salvador para todo o povo, Hoje nascido em Belém (Lucas 2,8-11). E, deste acontecimento, o mensageiro celeste dá um sinal (sêmeîon) aos pastores e a nós: «encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura» (Lucas 2,12). E, depois daquele celestial e humano Gloria in excelsis Deo e Paz na terra aos homens que Ele ama (Lucas 2,14), aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista de pessoas dignas de consideração, aí vão eles apressadamente (Lucas 2,16), como Maria (Lucas 1,39), verificar (ideîn) os acontecimentos a eles dados a conhecer por Deus (Lucas 2,15), e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar, e devem dar também a conhecer a todos (Lucas 2,17). Note-se o aroma desta Paz diferente, que não é obra das armas, como no mundo romano, nem de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense, mas dom de Deus!

    5. Cena sublime e suprema ironia. Os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados, mas saem logo de cena, para dar lugar aos pastores, que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. Os senhores do mundo ocupam um único versículo cada um (Lucas 2,1 e 2). Os pastores enchem treze versículos (Lucas 2,8-20). Também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos Anjos e dos pastores. Mas Maria é estupendamente retratada a «guardar todas aquelas palavras, compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,19). Note-se ainda o sinal dado aos pastores e a nós, leitores: um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. É preciso também começar a ver já aqui a Luz da Páscoa, a «Páscoa do Natal», com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro (Lucas 23,53). Mas também a sala (katályma) onde não havia lugar para eles (Lucas 2,7) reclama já a sala (katályma) para comer a Páscoa (Lucas 22,11), onde haverá lugar para Jesus e para nós! O Evangelho do Dia, o prólogo do Evangelho de João 1,1-18, deixa-nos de joelhos em contemplação: «E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) entre nós, e nós contemplámos (theáomai) a sua glória» (João 1,14). Mas também: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Leitura sublime do presépio, da falta de lugar para Jesus, e a sua rejeição já desde então encenada e em prolepse acenada.

    6. Mas é imperioso ler este extraordinário texto até ao fim. E, no final, no v. 18, lemos: «Deus (theón), ninguém (oudeís) viu (heôraken: perf. de horáô) nunca (pôpote); o Monogénito Deus (monogenês theós), Aquele-que-é (ho ôn) para o seio do Pai (heis tòn kólpon toû patrós), Ele (ekeînos) fez exegese (exêgêsato)» (Jo 1,18). Este texto imenso introduz a afirmação da revelação pelo Filho Monogénito e marca bem a invisibilidade de Deus por nós, que exclui toda a espécie de “visão” humana, quer física quer intelectual. Revelação exclusiva: nenhum ser humano atinge diretamente Deus. E gratuita: note-se a mudança de sujeito: não nós, mas o Filho Monogénito trouxe a revelação. É sobre esta nova dimensão da revelação de Deus a cargo do Verbo, na parte final do v. 18, que recai o acento do inteiro versículo. Este texto traz, portanto, um dado novo: a exclusividade do agente da revelação. Só o Filho Único de Deus (monogenês designa o Filho e exprime a sua relação única, que não se pode comparar a nenhuma outra, com Deus), voltado para o seio do Pai, para a sua Origem, para o seio em que é eternamente gerado, verdadeira «cátedra» divina, pode explicar-nos o Deus que nunca ninguém viu (heôraken). Não é que a tese seja a invisibilidade de Deus. O texto, imenso, não tem vocação metafísica. Com o recurso ao verbo no tempo perfeito (heôraken), que cobre o passado e o presente, e ao advérbio temporal pôpote [= nunca], que exclui a história humana, o texto pretende colocar-nos perante o momento decisivo da história entre Deus e a humanidade. E é Jesus o centro dessa história.

    7. Este Filho em Belém e na Cruz nascido, totalmente voltado para o seio do Pai, e que é eternamente consciente de receber do Pai todo o seu ser filial, é o único capaz de nos trazer a revelação. Sendo o revelador definido pela sua relação filial e intradivina, podemos então esperar que o ato de revelação e o seu conteúdo sejam constituídos por esta relação filial. Neste sentido, podemos agora notar com atenção meticulosa como o termo theós [= Deus], que abre o v. 18, vem a ser intencionalmente substituído no fecho, em 18b, pelo termo patrós [= Pai]. Na verdade, esta relação divina, inefável oceano da Divindade Única, é, sem mediação temporal, coextensivamente e coeternamente, in eterno, o Gerar paterno e o Ser-gerado filial: um único Gerar, um único Ser-gerado. Seguindo a preciosa formulação de S. Gregório de Nazianzo (329-389), que mereceu o título de «O teólogo» (ho theólogos), desta relação intradivina única entre o Pai e o Filho, o Pai, Arquétipo divino paterno, que é eternamente, «Aquele que é sem princípio» (ánarchos), e o Filho Monogénito, que é eternamente gerado, «Aquele que é gerado sem princípio» (ánarchôs gennêthéntes), Imagem divina filial, nada saberíamos, se o Verbo Único do Pai, Imagem eterna do Pai, e em si mesmo, como Deus, invisível por definição, não se tivesse feito, filialmente, também Imagem espacial e temporal do Pai, através da Incarnação, também esplendidamente afirmada e formulada no prólogo joanino (v. 14), que aqui inserimos novamente: «E o Verbo fez-se (egéneto) carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) no meio de nós, e nós contemplámos (etheasámmetha) a sua Glória (dóxa), Glória do Monogénito do Pai, Cheio de graça e de verdade» (João 1,14).

    8. Fica assim a claro a vinculação e unidade entre os v. 14 e 18, entre a invisibilidade de Deus (v. 18) e a visibilidade da Glória do Verbo Incarnado (v. 14), que podemos demorada e intensamente contemplar, como sugere o uso do verbo theáomai, um olhar prolongado que se abre à contemplação e interioridade. O Verbo Único de Deus, Deus Ele mesmo, sem deixar de ser o que eternamente é junto do Pai, com o Espírito Santo, fez-se também a nossa carne humana, e cumpriu o Êxodo histórico juntamente connosco ao pôr a sua tenda no deserto da vida humana, «entre nós, em nós», connosco. Há que acentuar aquele «fez-se» (egéneto), que põe em relação a divindade com a carne, associação que é absolutamente estranha e incompreensível para a mentalidade grega, segundo a qual a essência divina é por definição imutável e impassível, excluindo a ousía divina qualquer alteração, que seria “geração e corrução”. Outra vez a feliz formulação de S. Gregório de Nazianzo: «O que era, manteve; e o que não era, assumiu. Antes, era sem causa (anaitíôs), pois a causa (aitía) de Deus, qual é? Mais tarde, nasceu devido a uma causa (di’ aitían), para que tu fosses salvo, tu, que o insultaste; tu, que desprezaste a divindade, por ela ter acolhido a tua baixeza». Oh insondável mistério do amor de Deus!

    9. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem Hoje para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único Templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou à razia dos Persas de Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efectuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

    10. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à já mencionada sala de hóspedes. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, riqueza, poder, ódio, ostentação, tirania. Na tua casa e na tua sala há lugar para quem e para quê, meu irmão deste Dia de Natal?

    António Couto


  • Que o céu se abra,

    e que o orvalho desça

    sobre esta terra dura e seca,

    com as mãos em prece,

    pois vê-se que carece

    de paz

    e de ternura.

    Que o Teu orvalho desça,

    mas desce Tu também,

    Menino de Belém,

    por essa escada

    rendilhada

    de água pura.

    E não Te esqueças

    de que está na altura

    de vires nascer em Belém

    e aqui também.

    Por isso Te espero

    com a alma acesa,

    o pão na mesa,

    os pés ao borralho.

    Não te percas às voltas

    na circunvalação,

    mete pelo atalho

    do presépio de cascalho,

    que com oração e trabalho,

    abri no coração,

    neste tempo do Advento.

    Vem, Senhor Jesus,

    e enche de luz o nosso tempo,

    segundo a segundo,

    momento a momento.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 41-42.


  • 1. Foi no século II, e com intenções sincréticas, que o gnóstico egípcio Basílides e seus discípulos introduzem a celebração da Epifania, em que celebravam o Batismo de Jesus (para eles, o Verbo de Deus veio sobre o homem Jesus no Batismo e não no Nascimento), a verdadeira manifestação de Deus no mundo. A festa gnóstica da Epifania foi colocada em 6 de janeiro, pois nessa data já se celebravam diversas festas pagãs em honra de Adónis, Dionísio e Osíris. Às festas pagãs, os gnósticos contrapõem a manifestação de Cristo nas águas do Jordão.

    2. Em princípios do século IV, a festa da Epifania de Jesus consta já no calendário da Grande Igreja, que junta, no entanto, à celebração do Batismo de Jesus também a celebração do seu Nascimento. Assim, a noite de 5 para 6 de janeiro era particularmente reservada à celebração do Nascimento de Jesus, celebrando-se o Batismo no dia 6.

    3. A celebração do Nascimento de Jesus em 25 de dezembro, dissociada da Epifania em 6 de janeiro, verifica-se pela primeira vez em Roma, provavelmente entre os anos 325 e 354: a primeira menção regista-se na Chronographia de Philocalus (1.ª ed. em 336?). Para a dissociação do Nascimento de Jesus do âmbito da Epifania, e para a sua celebração como Festa independente, muito contribuiu a necessidade de acentuar, contra gnósticos e docetas, que Deus se fez homem no Nascimento de Jesus. Para que esta Festa do Natal se passasse a realizar em 25 de dezembro, terá contribuído o facto de os romanos celebrarem em 25 de dezembro a Festa do Sol ou Natal do Sol (solstício de Inverno), em que o dia começa a ganhar terreno à noite. Ao facto não será também alheia a posição do imperador Constantino, fervoroso adepto do culto do Sol e simpatizante do cristianismo (na verdade, só renegou o paganismo, batizando-se, no leito de morte), que via com bons olhos os dividendos políticos que lhe poderiam advir de um tal sincretismo religioso. Neste sentido, tinha já Constantino oficializado o descanso dominical, no ano 321, numa altura em que o «Dia do Senhor» era já conhecido por «Dia do Sol». A mistura entre os dois cultos da luz, a luz do Sol e a «Luz verdadeira que vem a este mundo e alumia todo o homem» (João 1,9), que é Cristo, continuou pelos séculos fora. Em meados do século V, o Papa S. Leão Magno verbera a duplicidade dos cristãos de Roma que, nas festas natalícias, antes de entrarem na Basílica de S. Pedro, se prostravam nos degraus que lhe dão acesso, com o rosto voltado para o sol nascente.

    4. Grande impacto no mundo cristão teve o Natal de 1223. O responsável foi Francisco de Assis que fez construir um presépio numa colina de Greccio (Itália), fazendo de Greccio a nova Belém, para todos espelho de simplicidade, pobreza e humildade, e tornando o Menino de Belém inesquecível no coração de muitos que já o tinham esquecido. O presépio de Greccio era um presépio especial: não tinha a figura de Maria, nem a figura de José, nem sequer o Menino Jesus! Francisco tinha pedido aos camponeses que pusessem lá apenas uma manjedoura, e que trouxessem um burro e um boi, e os colocassem um de cada lado da manjedoura. E que pusessem muito feno na manjedoura, para que os animais pudessem comer em abundância. O presépio não tinha Maria nem José… nem o Menino Jesus! A ideia genial de Francisco era expor nessa noite toda a verdade do Natal. Por isso, em vez de pedir que se colocasse a imagem do Menino Jesus na manjedoura, como fazemos nós ainda hoje, feito o presépio como atrás referido, procedeu-se à celebração da Eucaristia, tendo a manjedoura como altar, e, então sim, aí se faria presente o próprio Jesus, para ser por todos adorado.

    5. O Filho de Deus em Belém e na Cruz nascido, totalmente voltado para o seio do Pai, e que é eternamente consciente de receber do Pai todo o seu ser filial, é o único capaz de nos trazer a revelação. Sendo o revelador definido pela sua relação filial e intradivina, podemos então esperar que o ato de revelação e o seu conteúdo sejam constituídos por esta relação filial. Neste sentido, podemos agora notar com atenção meticulosa como o termo theós [= Deus], que abre João 1,18, vem a ser intencionalmente substituído no fecho, em 18b, pelo termo patrós [= Pai]. Na verdade, esta relação divina, inefável oceano da Divindade Única, é, sem mediação temporal, coextensivamente e coeternamente, in eterno, o Gerar paterno e o Ser-gerado filial: um único Gerar, um único Ser-gerado. Seguindo a preciosa formulação de S. Gregório de Nazianzo (329-389), que mereceu o título de «O teólogo» (ho theólogos), desta relação intradivina única entre o Pai e o Filho, o Pai, Arquétipo divino paterno, que é eternamente, «Aquele que é sem princípio» (ánarchos), e o Filho Monogénito, que é eternamente gerado, «Aquele que é gerado sem princípio» (ánarchôs gennêthéntes), Imagem divina filial, nada saberíamos, se o Verbo Único do Pai, Imagem eterna do Pai, e em si mesmo, como Deus, invisível por definição, não se tivesse feito, filialmente, também Imagem espacial e temporal do Pai, através da Incarnação, também esplendidamente afirmada e formulada no prólogo joanino (João 1,14), que aqui inserimos: «E o Verbo fez-se (egéneto) carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) no meio de nós, e nós contemplámos (etheasámmetha) a sua Glória (dóxa), Glória do Monogénito do Pai, Cheio de graça e de verdade» (João 1,14).

    6. Fica assim a claro a vinculação e unidade entre os vv. 14 e 18 do prólogo do IV Evangelho, entre a invisibilidade de Deus (v. 18) e a visibilidade da Glória do Verbo Incarnado (v. 14), que podemos demorada e intensamente contemplar, como sugere o uso do verbo theáomai, um olhar prolongado que se abre à contemplação e interioridade. O Verbo Único de Deus, Deus Ele mesmo, sem deixar de ser o que eternamente é junto do Pai, com o Espírito Santo, fez-se também a nossa carne humana, e cumpriu o Êxodo histórico juntamente connosco ao pôr a sua tenda no deserto da vida humana, «entre nós, em nós», connosco. Há que acentuar aquele «fez-se» (egéneto), que põe em relação a divindade com a carne, associação que é absolutamente estranha e incompreensível para a mentalidade grega, segundo a qual a essência divina é por definição imutável e impassível, excluindo a ousía divina qualquer alteração, que seria «geração e corrução». Outra vez a feliz formulação de S. Gregório de Nazianzo: «O que era, manteve; e o que não era, assumiu. Antes, era sem causa (anaitíôs), pois a causa (aitía) de Deus, qual é? Mais tarde, nasceu devido a uma causa (di’ aitían), para que tu fosses salvo, tu, que o insultaste; tu, que desprezaste a divindade, por ela ter acolhido a tua baixeza». Ó insondável mistério do amor de Deus!

    7. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem no dia de Natal para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único Templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou à razia dos Persas de Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efetuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

    8. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à sala de hóspedes de uma casa da Judeia, certamente pertença da família de José, como abaixo indicamos. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, poder, ódio, ambição, ostentação, tirania.

    9. Muitas foram as considerações astronómico-simbólicas arranjadas para situar e explicar o nascimento de Jesus em 25 de dezembro ou noutras datas. Todas sem fundamento sólido. Os indícios mais seguros de que dispomos continuam a ser os que constam nos Evangelhos da Infância de Mateus 1-2 e Lucas 1-2. Os dados sóbrios que aí encontramos, permitem-nos situar com muita probabilidade o Nascimento de Jesus nos anos 7-6 a.C., num estábulo anexo à «sala de hóspedes» superlotada de uma casa de Belém de Judá, certamente pertença da família de José. De notar que Lucas tem em vista mesmo uma «sala» (grego katályma: Lucas 2,7; cf. 22,11), e não uma «hospedaria», como é vulgar dizer-se. Lucas fala de uma «hospedaria» no contexto da parábola do bom samaritano, mas usa o termo grego pandocheíon (Lucas 10,34). A arqueologia mostrou que o traçado das casas da Judeia contemplava muitas vezes no plano térreo uma sala de hóspedes, que apresentava um simples banco rochoso a toda a volta, para facultar o descanso das pessoas em trânsito, abrindo ao fundo para um estábulo, onde se guardavam os animais, que atravessavam, para o efeito, a sala de hóspedes.

    10. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos e historiadores se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a.C. Esta última está registrada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). O quadro histórico desta estrela e a normal curiosidade dos sábios por ocasião desse extraordinário acontecimento astronómico, são aproveitados redacionalmente por Mateus para a construção do cenário do Natal, o que é coisa perfeitamente aceitável e verosímil.

    11. Igualmente verosímil é o aproveitamento redacional feito por Lucas do quadro histórico do recenseamento do mundo romano, ordenado por César Augusto (27 a.C.-14 d.C.), sendo Pôncio Sulpício Quirino prefeito romano da Síria. É sabido que Quirino ocupa o cargo de prefeito da Síria apenas durante 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande (37 a.C.-4 a.C.), anexando definitivamente a Judeia ao Império Romano. Porém, o recenseamento tinha sido iniciado, qual «descriptio prima» em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino (9-6 a.C.). Se se fala apenas em Quirino, é porque o recenseamento fica normalmente conhecido pelo nome daquele que o levou a cumprimento em 6 d.C., e não daquele que o iniciou em 7-6 a.C.

    12. De quanto fica dito no referente aos caixilhos históricos aproveitados por Mateus e Lucas, podemos adiantar como data provável para o Nascimento de Jesus os anos 7-6 a.C.

    13. A era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita Dionísio o Pequeno com um pequeno erro de cálculo de 6-7 anos. O monge Dionísio não o podia saber então, mas nós sabemos hoje com rigor que a morte de Herodes o Grande ocorreu em abril do ano 4 a.C. nas suas termas de Jericó. Jesus teria então 2-3 anos, e teria nascido nos anos 7 ou 6 a.C. Note-se que 7 ou 6 a.C. não significa 6 ou 7 antes do Nascimento de Cristo, o que seria absurdo, mas 6 ou 7 anos antes da era cristã fixada pelo monge Dionísio.

    14. É seguro que Jesus nasceu no nosso mundo, e nele enxertou a mais poderosa carga de amor que se possa imaginar. Tão forte que mudou a história. É esta a verdade lancinante do Natal. O comércio, esse chegou muito depois!

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 8-15.


  • Aqui estamos, Senhor, à beirinha do Natal,

    que és Tu que vens de mansinho bater à nossa porta,

    visitar a nossa casa,

    comer à nossa mesa,

    sentar-Te à nossa beira.

    E enquanto te aqueces à lareira,

    e começas a contar a tua história,

    é como se se abrisse uma clareira,

    e tanta coisa me passa na memória.

    Vejo-te aqui sentado ao meu lado.

    Faço contas:

    éramos tantos ao princípio,

    entusiasmados,

    a ouvir e a repetir as tuas histórias,

    aqueles pedaços de Evangelho

    que não nos deixavam pregar olho

    naquelas velhas enxergas de folhelho.

    E então quando o Natal se aproximava,

    e corríamos à procura de musgo pelos montes,

    e também de uns pinheirinhos mansos,

    com cheiro a verde e a resina,

    que alegria ardia nos meus olhos,

    que, sem o saber, bebia as fontes,

    entrava pelas chaminés,

    construía pontes,

    contava de um a dez,

    rasgava horizontes.

    Vem, Senhor Jesus.

    E vindo, não te esqueças de bater à minha porta,

    entrar em minha casa,

    comer à minha mesa,

    onde já arde uma lareira acesa

    e se sente o odor do vinho e do pão.

    Falta apenas o calor da tua mão.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 16-17.


  • Se o Senhor não construir a casa,

    em vão trabalham os que a constroem.

    Se o Senhor não guardar a cidade,

    em vão vigiam as sentinelas.

    Não se pode esconder uma cidade situada no cimo de um monte,

    ou sobre a linha do horizonte,

    porque alumia, alumia, alumia,

    irradia, irradia, irradia,

    de noite e de dia.

    Cidade de alto-a-baixo erguida,

    como um manto de orvalho caída,

    como uma ermida,

    uma jazida de luz

    e de Jesus.

    Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,

    lançai os fundamentos no céu,

    construí desde o cume,

    sobre o gume da Palavra

    que de Deus vem

    nascer em Belém

    e aqui também.

    Vem, Senhor Jesus!

    Vem, vem, que Te esperamos!

    António Couto


  • Isaías 7,10-14; Salmo 24; Romanos 1,1-7; Mateus 1,18-24

    1. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação, que é a divina surpresa, e a adequação da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Neste Evangelho, os discípulos de Jesus nunca são ditos «justos», mas são chamados à «justiça», isto é, a andar no «caminho da justiça», auto destituindo-se, isto é, libertando-se dos seus projetos autorreferenciais, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: «não te metas com esse justo»), o que não deixa de ser uma nota significativa.

    2. Fica então diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade com Deus (Mateus 1,18-24). A cena abre com a notícia acerca da origem (génesis) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e não nascimento. Se fosse nascimento, o texto grego assinalá-lo-ia com génnêsis. A cena remete essa origem para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria não provinha de José nem de uma possível infidelidade de Maria, mas do Espírito Santo (ek pneúmatos hagíou) (Mateus 1,19b). É assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa grávida durante o noivado, a que os hebreus chamam ՚arûsîn, antes da fase propriamente conjugal ou de coabitação, a que os hebreus chamam nîssû՚în, e não sabendo disso a razão, mas desconfiando, dado que o seu matrimónio com Maria era seguramente, não em ordem à procriação, mas de proteção mútua e de total dedicação a Deus.

    3. Pode, de facto, ler-se este matrimónio de Maria e de José pelo estatuto dos chamados matrimónios putativos ou de proteção ou espirituais, a que não será alheia a locução «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê), que se lê em Lucas 1,27. O matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, é difícil de explicar no quadro habitual de um matrimónio em ordem à procriação, mas é possível explicá-lo mais, muito mais, no quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus, protegendo-se mutuamente. Neste quadro religioso, jurídico, social, Maria é apresentada como «desposada» (emnêsteuménê) (Mateus 1,18; Lucas 2,5), «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27), ou simplesmente como «a sua esposa» (hê gynê autoû) (Mateus 1,24), sendo José «o esposo de Maria» (ho anêr Marías) (Mateus 1,16) ou «o seu esposo» (hoanêrautês) (Mateus 1,19). A não ser este o estatuto do matrimónio de Maria e José, não se compreende que, posta perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), Maria avance logo a objeção concreta: «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34).

    4. É também mais fácil compreender que, no quadro de um matrimónio habitual em mundo judaico, esta objeção não faria sentido, pois mais dia menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho, que era o ideal de qualquer casal judaico. Parece óbvio que não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter filhos. Faço notar que este estatuto matrimonial era conhecido no judaísmo, como se pode ver no tratado Niddah, da Mishnah judaica, e no cristianismo primitivo (ver as anotações precisas de Ireneu de Lião [130-202], Tertuliano de Cartago [160-220], Gregório de Niza [330-395] e Jerónimo [347-420]). Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que, no dizer de Gabriel, muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos (Lucas 1,13).

     5. José nada sabia daquela gravidez de Maria, sua esposa, mas não duvidava da sua retidão (temîmût) e fidelidade a Deus. Suspeitava de Deus, mas guardava tudo para si, no silêncio do seu coração, como é dito também de Maria (Lucas 2,19.51). Evita cenas públicas. Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, «em um sonho» (kat’ ónar) (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, entenda-se, surpresas, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas antigas da Escritura Santa (cf. Isaías 60,1.4-5; 62,4-5). A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como se vê em Mateus 1,18-24, é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José» como se pode ver comparando o relato do encontro de Gabriel com Maria (Lucas 1,26-38) e o relato deste encontro de um anjo com José (Mateus 1,18-24). E esta cumplicidade mansa, em sonhos, entre Deus e S. José, sempre com Deus a conduzir a cena, continua a ver-se aquando da procura de refúgio no Egito, devido à raiva assassina de Herodes (cf. Mateus 2,13), aquando do regresso do refúgio do Egito à terra de Israel, após a morte de Herodes (cf. Mateus 2,19-20), e na ida para a Galileia, para Nazaré porque, aquando do regresso do refúgio do Egito, reinava na Judeia Arquelau, filho de Herodes, que não era melhor do que o seu pai (cf. Mateus 2,22-23).

    6. Sempre em bicos de pés e no limiar do silêncio, e lendo bem os acontecimentos à luz de Deus, o «justo» José passa discretamente da possível ideia de expor Maria à difamação pública (deigmatízô) para a ideia de ele próprio sair de cena em segredo (láthra) (Mateus 1,19), entregando assim a cena toda a Deus, imitando desse modo a leitura do seu homónimo José (do Egito)!

    7. Em boa verdade, este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!), não deixa de lembrar o outro José, «o homem dos sonhos» (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime.

    8. A missão esponsal de José, declarado «justo» (Mateus 1,19), fica logo clarificada pelo anjo que o incumbe de receber Maria como sua esposa (Mateus 1,20). Mas José, também pelo anjo chamado «filho de David» (Mateus 1,20), expressão fora deste passo só usada acerca de Jesus, mostra bem a importância de José para incorporar Jesus na linhagem davídica, e explica a razão pela qual José é incumbido pelo anjo da sua particular missão paternal em relação ao filho que a sua esposa Maria vai dar à luz. É preciso ter em conta que Mateus toma todos os cuidados, já no v. 16, para precisar que Jesus é filho de Maria, esposa de José, mas que não é filho de José, afirmando depois, nos vv. 18 e 20, que a conceção de Maria é obra do Espírito Santo. Esta afirmação, retirando José da conceção de Jesus, tornaria inútil a inteira linha genealógica cuidadosamente traçada por Mateus em 1,1-16 com o intuito de integrar Jesus na descendência de David. Em termos da linha do sangue resulta de facto impossível, dado que Jesus é filho de Maria, mas não de José. Então, o que é impossível pela via do sangue, vai tornar-se possível pela via da adoção. O primeiro ato da missão paternal de José, a quem o anjo se dirige chamando-o propositadamente «filho de David» (v. 20), consistirá então, também por indicação do anjo, na adoção formal do filho que vai nascer de Maria, dando-lhe o nome de Jesus (v. 21). Modo de fazer também de Deus, que diz de Israel: «Chamei-te pelo teu nome; tu és meu» (Isaías 43,1). Ao dar-lhe o nome de Jesus, indicado pelo anjo (vv. 21 e 24), José assume o estatuto de pai legal de Jesus, que assim se torna seu filho e herdeiro e fica inserido na linha dinástica de David. O nome «Jesus» surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (v. 21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida da SALVAÇÃO e do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem conta, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice na ceia pascal: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (Mateus 26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

    9. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é Emanuel, «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, sorve, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão, contemporâneo e companheiro, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos juntos a dar-lhe o nome de Emanuel, Deus connosco. Mateus faz aqui uma citação de Isaías 7,14 que, por graça, também hoje é objeto de leitura para nós. Mas Mateus faz uma alteração literária e teológica fundamental. Em Isaías lia-se no texto hebraico: «E ela [a jovem mãe] chamará o nome dele Emanuel». O verbo hebraico weqaraʼt [«chamar-lhe-á»] aparece aqui na 3.ª pessoa do singular feminino. Na versão grega dos LXX lemos kaléseis [«chamar-lhe-ás»] na 2.ª pessoa do singular masculino.  Mas Mateus altera o sujeito e a forma verbal e escreve assim: «E eles chamar-lhe-ão (kalésousin) Emanuel» (Mateus 1,23). Com esta mudança de sujeito e forma verbal do singular para o plural, Mateus faz de Jesus, não apenas o sinal de salvação dado a um povo, mas sinal de salvação para todos os povos! E a dádiva do nome por todos, por nós também, implica-nos a todos com este Jesus, Emanuel, Deus connosco. Sempre.

    10. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva pela mão o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»] (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pequeno pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como para-vento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade de quem reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

    11. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abi, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abi, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» dado fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus, como, por graça, nos é dado ouvir no Evangelho de hoje (Mateus 1,18-24). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734, se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

    12. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que vem a acontecer, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926 a.C., data da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

    13. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Isaías 9,1-6 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

    14. Temos também hoje a graça de receber o início da Carta de S. Paulo aos Romanos (1,1-7), em que podemos identificar a apresentação ou titulatio [«Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado apóstolo, separado para o Evangelho de Deus»] (v. 1), seguida de um longo parêntesis cristológico (vv. 2-6), o endereço ou adscriptio [«a todos os que estão em Roma, amados de Deus, aos chamados santos»] (v. 7a), e a saudação ou salutatio [«Graça a vós e Paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo»] (v. 7b). Notemos que a locução «Graça e Paz» abre todas as Cartas de S. Paulo, e «A Graça» está em todas as saudações finais, fechando todas as Cartas. Mas é ainda grandemente sintomático que, depois deste início, a Carta aos Romanos prossiga assim: «Primeiro, dou Graças ao meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por todos vós…» (Romanos 1,8). Aqui está o mesmo olhar de bondade e de beleza, ícone de Paulo em oração sem fim. Na verdade, depois daquele «primeiro», ficamos à espera de encontrar um «segundo» ou um «depois», que, todavia, nunca mais aparecerá. A Graça e a Ação da Graça estão antes de tudo e preenchem tudo. Nesse sentido, é bom e justo que tomemos consciência de que não é mais suficiente um cristianismo convencional, marcado pela ação social. É hoje igualmente insuficiente a espiritualidade da militância, que persegue a causa nobre de uma Igreja viva e participada e da construção de um mundo melhor. Um serviço pastoral que se reduza a «coisas que fazer» está gasto. Passou o tempo dos cristãos meramente «praticantes». Hoje são necessários cristãos enamorados, à maneira de Paulo.

    15. Vem, Senhor Jesus. Só um amor como o teu transformará este mundo e salvará o nosso engessado coração! O «justo» José pode ensinar-nos como te ensinou a andar, menino, a dar os primeiros passos, e também como tu, menino, lhe ensinaste a ele a andar no «caminho da justiça».

    16. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e nosso Salvador que vem na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No primeiro andamento deste Salmo (vv. 1-6), justamente a parte Hoje cantada, somos convidados a acolher este Senhor com as mãos limpas e o coração purificado. O teólogo luterano alemão Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

    António Couto


  • Se não fosse Domingo, a Igreja celebraria hoje, 14 de dezembro, a memória de São João da Cruz, místico de olhos abertos, cravados em Jesus, que foi sempre o seu tesouro e a sua luz, a música e a letra do seu Cântico Espiritual. Na noite, por vezes escura, da sua vida, sempre encontrou em Jesus doçura bastante para seguir adiante, sabendo-se e sentindo-se sempre iluminado pelo olhar intenso de Jesus, que assim expressou de forma bela:

    «Quando Tu me olhavas,

    A sua graça em mim os Teus olhos imprimiam:

    Por isso me amavas,

    E nisso mereciam

    Os meus olhos adorar o que em Ti viam».

    São João da Cruz, roga por nós, e indica-nos hoje, no teu dia, o caminho luminoso de Jesus. Amen.

    António Couto


  • Hoje, 13 de dezembro, é dia de Santa Luzia, Virgem e Mártir. Ainda muito jovem, com pouco mais de vinte anos, deu a sua vida por Cristo. Aconteceu nos primeiros anos do século IV, durante a perseguição de Diocleciano.

    Diz-nos o Evangelho de São João que, após a crucifixão de Jesus, quatro soldados dividiram entre si as coisas de Jesus. Mas não dividiram a túnica, porque era tecida de Alto-a-baixo como um todo (João 19,23-24).

    Quem costura assim, de Alto-a-baixo, senão as mãos de Deus, aquelas mãos que com terra e saliva fazem lodo, que curam a nossa vista e o nosso corpo todo (João 9,6), as mesmas mãos que, com ternura, no cenário da criação, do pó da terra modelaram o nosso humano coração? (Génesis 2,7).

    São João diz-nos ainda que, depois dos quatro soldados, vieram quatro mulheres que se abraçaram à Cruz de Jesus (João 19,25). Das mulheres diz-nos quem são: a sua Mãe,/ a irmã de sua mãe,/ Maria de Cléofas/ e Maria Madalena.

    Os quatro soldados preferem as coisas de Jesus. As quatro mulheres preferem Jesus, ficam abraçadas a Jesus.

    Juntemos hoje uma quinta mulher, a Senhora deste dia 13 de dezembro: Santa Luzia.

    Santa Luzia, Virgem e Mártir, Padroeira dos olhos e da visão do coração, roga por nós ao Senhor da Luz e da Alegria!

    António Couto


  • São estes os caminhos do Advento,

    cheiinhos do vento do Espírito,

    que derruba as folhas secas das árvores,

    e nos faz ver

    que somos todos como a erva,

    e a nossa glória não é mais do que a flor da erva.

    Mas seca a erva e murcha a flor,

    e nós passamos.

    Sim, estamos de passagem.

    Mas sentimos no rosto,

    ou talvez no coração,

    a tua aragem mansa,

    que nos enche de paz e confiança.

    O Advento é uma escola de esperança

    e de oração,

    de coragem e de alento.

    O Advento é uma viagem

    até ao nascimento

    do menino de Belém,

    lá,

    e dentro de nós também.

    António Couto


  • Isaías 35,1-6a.10; Salmo 146; Tiago 5,7-10; Mateus 11,2-11

    1. «Tendo João ouvido na prisão as obras de Cristo, por meio dos seus discípulos, mandou dizer-lhe: “És TU Aquele-que-vem, ou esperamos outro?” E respondendo, Jesus disse-lhes: “INDO (poreuthéntes), ANUNCIAI (apaggeílate) a João o que ouvis e vedes: os cegos veem e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”» (Mateus 11,2-5).

    2. João Batista não tem dúvidas de que Jesus é o Cristo, o Messias esperado. Se não tem dúvidas, então por que é que pergunta: «És TU Aquele-que-vem, ou não»? Pergunta ou manda perguntar, não porque ignore ou duvide que Jesus é o Messias-que-vem, mas porque Jesus vem revestido de um messianismo que não corresponde às ideias messiânicas de João Batista e do judaísmo em geral. E porque, nestas condições, embora reconhecendo e indicando em Jesus o Messias, João Batista não está apto a compreender e dizer este messianismo novo, é com exemplar clarividência que João manda os seus discípulos pôr aquela pergunta a Jesus, dando assim a Jesus a oportunidade de se dizer, de se auto apresentar. João Batista representa o velho: «Todos os profetas e a Lei profetizaram até João» (Mateus 11,13). E Lucas acrescenta: «Daí para a frente é evangelizar o Reino de Deus» (Lucas 16,16). João Batista chegou ao limiar do Novo Testamento, e indicou em Jesus o Messias sem hesitação. Indica-o, mas não o sabe dizer, porque Jesus, o Messias que João vê vir ao seu encontro, não vem ao seu encontro segundo os moldes previstos pelo judaísmo. Na verdade, vem por outros caminhos e de outra maneira. Assume outra postura, e João, que representa o velho, não está apto a dizer o Novo. Equivoca-se até quando se adianta e começa a dizer alguma coisa antes do tempo, como vimos no Domingo passado, quando começou a dizer que Ele vinha com o machado e com a pá de joeirar (Mateus 3,10 e 12): tudo somado, vinha para cortar as árvores estéreis, que não dão fruto, e para separar o cereal da palha, para operar uma separação nítida entre as pessoas, entre justos e pecadores, portanto. Mas rapidamente se apercebeu do seu equívoco. O velho não sabe dizer o novo. Falta-lhe vocabulário e conceitos adequados, não reúne competência para poder dizer o Novo, que é Jesus, o Cristo, o Messias-que-vem. E, porque não o sabe dizer, opta então por dar a Jesus a oportunidade de ser Ele próprio a fazer a sua apresentação. A pergunta de João é, portanto, um sinal de sabedoria e de exemplar clarividência.

    3. E a resposta de Jesus, acima transcrita, é clara, mas mais performativa do que informativa. De acordo com este belo e transformante dizer de Jesus, é o caudal da evangelização que chega até João. Que o mesmo é dizer: João é evangelizado! Ele é o primeiro «pobre», perseguido pelos poderosos, e, por esse motivo, metido na prisão de Maqueronte por Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, e tetrarca da Galileia (4 a.C-39 d.C.), responsável pela prisão e decapitação de João Batista (Lucas 3,20; 9,9). João denunciou abertamente os erros de Herodes Antipas, e este meteu-o na prisão. João não era um «cão mudo, que já não ladra» (cf. Isaías 56,10), «embriagado à beira da estrada» (cf. Isaías 56,12). No escuro das paredes da prisão de Maqueronte, João recebe a «boa notícia» que abre os seus olhos. Permanecendo embora no escuro cárcere, João Batista recebe a vista de Jesus através da boa notícia que os seus discípulos lhe transmitem: ele é o primeiro «cego» que recebe a vista, o primeiro «preso» que é libertado, o primeiro «pobre» que é evangelizado!

    4. Mas a resposta de Jesus vai ainda mais longe, e envolve desde já os mensageiros enviados por João em verdadeiros mensageiros do Evangelho, que requer de todos nós uma nova, exigente e envolvente metodologia. Ao empregar o verbo «anunciar» ou «narrar» (grego apaggélô, hebraico higgîd) na missão que lhes confia: «INDO (poreuthéntes), ANUNCIAI (apaggeílate) a João o que ouvis e vedes: os cegos veem e os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem e os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados», tudo no presente, Jesus está a dizer àqueles mensageiros que o Evangelho não se enuncia no passado, não é acerca de algo que já aconteceu, de alguém que já por cá passou. Não é coisa velha, enferrujada e requentada e já de cor sabida. O Evangelho é Jesus, que está no meio de nós, e nunca se anuncia ou enuncia no passado. Com este procedimento, Jesus está a dizer-nos que não podemos anunciar o Evangelho com os verbos no passado, sem nos comprometermos a fazê-lo acontecer Hoje, a apresentar Jesus Hoje, nosso irmão, companheiro e contemporâneo. O Evangelho, que é Jesus, conta-se, anuncia-se e enuncia-se no presente. Envolve-nos e revolve-nos e implica-nos em fazer acontecer Aquele que vamos anunciar, narrar e apresentar. Só assim é verdadeiro o testemunho do mensageiro, que se envolve em fazer acontecer o Evangelho, que é Jesus, o Cristo, o Messias-que-vem; só assim o destinatário pode ser igualmente envolvido, revolvido e implicado na mensagem que o atinge, com Jesus a bater já à porta do seu coração.

    5. Depois de os mensageiros de João Batista terem encetado a viagem de regresso, Jesus fala de João às multidões, mostrando a verdadeira identidade de João. Diz Jesus: «Este é aquele de quem está escrito: “Eis que Eu envio o meu mensageiro diante de ti, o qual preparará o teu caminho diante de ti”» (Mateus 11,10). A ninguém passará despercebido que se trata de uma citação do profeta Malaquias 3,1. Malaquias põe Deus a falar em primeira pessoa desta maneira (salientamos os pronomes, pondo-os em itálico): «Eis que Eu envio o meu mensageiro, e ele preparará o meu caminho diante de mim…». O próprio Malaquias dirá mais à frente (3,23) que este mensageiro que vem adiante de Deus, preparando-lhe o caminho, é Elias, e Jesus acrescenta e atualiza que João «é o Elias que estava para vir» (Mateus 11,14). Voltemos então às palavras de Jesus, citando Malaquias, para falar de João Batista às multidões (reparemos nos pronomes agora também colocados em itálico): «Eis que Eu envio o meu mensageiro diante de ti, o qual preparará o teu caminho diante de ti». Vê-se bem que continua a ser o mensageiro de Deus (meu) que é enviado; é enviado, porém, não diante de Deus, mas diante de Jesus (ti), para preparar o caminho de Jesus (teu), adiante de Jesus (ti). É fácil perceber que o mensageiro é agora João Batista (que aparece no lugar de Elias). Mas também salta à vista que Jesus é Deus, pois, na citação atualizada de Malaquias, aparece no lugar de Deus. Aí está então em plenitude a resposta de Jesus para João Batista e para todos.

    6. «Orvalho de luz» (Isaías 26,19) ou de lume, palha incendiada, vida nova a rebentar dos quatro cantos do nosso mundo inerte, em que os vivos quase já não chegam para sepultar os mortos (cf. Sabedoria 18,12). Luzes e vozes de alegria que abrem olhos engessados, rompem ouvidos rombos, entupidos por mato e por silvas, levantam paralíticos que saltam como filhotes de gazela (Isaías 35,6), desatam línguas de mudos e nós cegos que asfixiam corações! Tantos caminhos que se abrem para os deserdados que não têm caminhos, nem luz, nem uma mão ou voz amiga, nem música de dança para ouvir. Mais do que caminhos, são passadeiras floridas, jardins e avenidas (Sabedoria 19,3), tanto sonho, tanta água, tanta luz a irromper pela aridez do deserto, oh Isaías 35,1-6!

    7. A avenida florida é no deserto, engenharia divina, que transporta os seus filhos queridos da escuridão da Babilónia para a luz em flor de Jerusalém. «Ele mesmo, Deus, andará por essa estrada» (Isaías 35,8), esse caminho, essa avenida. Estrada santa, passadeira de luz e de sentido, engenharia divina!

    8. Arrisca um passo nessa estrada divina, nessa estrada de luz e de graça, meu irmão do Advento. Encontrarás com certeza alguém que te levará até Belém. É importante que essa estrada de Amor, de Perdão, de Bondade, de Justiça e de Paz chegue à tua porta, à tua casa, ao teu coração. Do coração de Deus ao teu coração. Do teu coração ao coração do teu irmão.

    9. Com paciência, persistência, humildade e amor. Sê como o camponês, que acaricia a semente, lavra a terra, visita o campo para ver crescer devagarinho a plantação. Vela também sobre o teu coração, para que não se torne duro e pesado. Vigia com amor, como quem está sempre à espera de alguém que ama, à espera do Senhor-que-vem. E pode vir na pessoa de um irmão. Não digais mal uns dos outros. Grande lição de Tiago 5,7-10.

    10. Vê-se bem que o melhor e mais belo que anda por aí não é obra nossa. É engenharia de Deus a inundar de Luz este Domingo da Alegria! A nós compete-nos deixar entrar em nós esta torrente de Evangelho, e começar então a ver, sentir e dizer bem, belo e bom. Ajustar a esquadria do nosso coração por essa divina engenharia.

    11. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas diletas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

    António Couto


  • Senhora de dezembro,

    Maria, minha Mãe,

    passa hoje o dia

    da tua Imaculada Conceição.

    …..

    Senhora de dezembro,

    dos dias frios e frágeis,

    dos passos firmes e ágeis,

    do coração que velava

    à espera de quem te amava.

    …..

    Assim te entregaste a Deus,

    de coração inteiro,

    como um tinteiro

    todo derramado numa página.

    …..

    Tu és a mais bela página de Deus,

    a Deus doada, apresentada, dedicada,

    Mãe da vida consagrada,

    Imaculada,

    ensina-me a tua tabuada,

    a tua nova alegria,

    a luz do Evangelho que te aquece e alumia.

    …..

    Eu te saúdo, Maria,

    neste dia da tua Imaculada Conceição.

    Ave-Maria.

    …..

    António Couto


  • Génesis 3,9-15.20; Salmo 98; Efésios 1,3-6.11-12; Lucas 1,26-38

    1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobre bendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras hebraicas da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), e o Verbo Incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19). Aí está a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos corações! As partituras desta música divina vêm hoje de Lucas 1,26-38, Génesis 3,9-15.20, Efésios 1,3-6.11-12 e do Salmo 98.

    2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

    3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação» ou «Evangelização», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, ecoar em nós um cântico novo.

    4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta (Génesis 3,9). «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados (Génesis 3,10). A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus» (Génesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer daquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto, e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

    5. Sim, esta história tem sempre a ver connosco. Basta ler este relato rabínico: estando o Rabino Shneur Zalman (1745-1812) preso em S. Petersburgo, entrou na sua cela o comandante da guarda, e pôs-se a conversar com ele sobre assuntos diversos. No final, perguntou: «Como se deve interpretar que Deus Omnisciente pergunte a Adam: “Onde estás?”». «Você acredita, respondeu o Rabino, que a Escritura é eterna e que diz respeito a todos os tempos, a todas as gerações e a todas as pessoas?». «Sim, acredito», disse o comandante da guarda. «Então, respondeu o Rabino, em cada tempo Deus pergunta a cada homem: “Onde estás no teu mundo? Dos dias e dos anos que te foram atribuídos, já passaram muitos: entretanto, até onde é que tu chegaste no teu mundo?”. Deus disse, por exemplo: “Vê, já há 46 anos que andas aqui. Onde te encontras?”». Ao ouvir o número exato dos seus anos, o comandante sentiu dificuldade em controlar-se, pôs a mão no ombro do Rabino, e exclamou: «Bravo!». Mas o seu coração tremia.

    6. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

    7. Cantemos, pois, com o Salmo 98, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôfar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

    8. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4) e para nos dar, através de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Efésios 1,5; Romanos 8,14.16-17; Gálatas 4,6-7), que nos faz «membros da família de Deus» (Efésios 2,19), «filhos de Deus» (1 João 3,2), «filhos no Filho», unidos no mesmo amor, unidos na ordem do amor, logo irmãos. Não somos, portanto, simples continuadores de Jesus Cristo, mas seus contemporâneos e seus irmãos. Entrando assim, por graça, na casa de Deus (Efésios 4,19), andaremos sempre na sua presença. Ele é o Deus Santo que nos santifica.

    9. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria, no grande texto da Anunciação (Lucas 1,26-38). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, solidamente documentada por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

    10. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo» (Mateus 28,5 e 9). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

    11. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

    12. Memorial da beleza incandescente desta página é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa S. Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

    13. Foi o Concílio de Basileia (1439) que sugeriu a definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamado depois por Pio IX em 08 de dezembro de 1854, através da bula Ineffabilis Deus. Note-se que o termo «conceção», na linguagem bíblica, indica a totalidade da existência. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospectivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: «Sobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe» (Salmo 71,6). Assim também, a existência de Maria está, desde o seu início, sob a proteção de Deus, marcada com o selo de Deus, não estando nunca sob o selo do pecado original, que mostra a existência humana marcada por um projeto alternativo ao de Deus, em que cada existência humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecerão sobre a face da terra, queremos ser por nossas próprias forças «como deus, conhecedores do bem e mal» (Génesis 3,5).

    14. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado e muito medicado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

    António Couto


  • O Senhor do Advento

    é Aquele-que-Vem

    nascer em Belém,

    bater à nossa porta,

    pedir ao nosso coração

    um bocadinho de pão.

    Tão pouco e tanto

    nos pede Jesus,

    e para nosso espanto,

    e encanto nosso,

    o Filho de Maria

    vem vestido de irmão nosso

    de cada dia.

    Ele anda por aí,

    ao frio e ao calor,

    rico e pobrezinho,

    Nosso Senhor,

    Vem, Menino,

    Senhor do mundo,

    do sol e da lua,

    bate à minha porta,

    entra em minha casa,

    e que, por graça,

    entre eu também na tua.

    António Couto


  • Domingo II Advento

    Isaías 11,1-10; Salmo 72; Romanos 15,4-9; Mateus 3,1-12

    1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes que reclamam a nossa atenção. 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2; cf. Mateus 4,17). 2) O ministério de ambos é colocado com referência a belas e indicativas paisagens textuais de Isaías: «Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”», é o lema do ministério de João Batista, como se pode ver em Mateus 3,3, citando Isaías 40,3. Por sua vez, «Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, região de além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que jazia nas trevas viu uma grande luz…», é o lema do ministério de Jesus, como se pode ver em Mateus 4,14-16, cumprindo Isaías 8,23-9,1. 3) Ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egito, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica (cf. Mateus 24,26): em todos os casos, o deserto evoca a proximidade com Deus, o povo «a céu aberto» com Deus. 4) A indumentária de João Batista (Mateus 3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8). Em toda a Escritura, só os dois se vestem de pêlos de camelo com um cinturão de couro. De resto, também Jesus identifica João Batista com Elias (Mateus 11,14; 17,12-13). De notar ainda que, na interpretação de Malaquias 3,23, o ministério de Elias não tem a ver com a vinda de outro profeta, mas com a Vinda do próprio Deus. Sem equívocos então: em Jesus não se trata da vinda de outro profeta, mas da Vinda do próprio Deus!

    2. É para esta Vinda de Deus em Jesus que todos se devem preparar. E é porque esta Vinda é vista como importante e decisiva, que é requerida uma preparação. A Vinda d’Aquele-que-Vem é tão importante, que não basta ficar tranquilamente à espera d’Ele. É preciso preparar-se para essa Vinda. Fazer com que todas as pessoas se preparem para esta Vinda, eis a missão de João Batista, que assume traços específicos. De modo estranhamente diferente dos outros profetas, João Batista não vai pregar para as cidades e aldeias ao encontro das pessoas, mas vai para o deserto, e são as pessoas que têm de ir ter com ele. E não são apenas algumas. São todas. O texto diz expressamente «toda a Judeia» e «toda a região à volta do Jordão» (v. 5). É ainda de salientar que, para se deslocarem ao deserto, as pessoas têm de deixar os seus afazeres habituais. Deixar tudo para trás e ir para o deserto, lugar que evoca, de muitos modos, a proximidade de Deus, como já mostrámos atrás em 1.3). É esta realidade que exige adequada preparação. Para ter acesso à Presença de Deus e ao seu serviço, impõe-se que se tenha um coração puro (Salmo 24,3-5), pelo que é necessário fazer as necessárias imersões ou abluções com água pura. Não é que a água lave o coração, mas é disso um indicador. Estas purificações rituais com água pura, banhos e outras abluções, eram feitas pelas próprias pessoas. Mas agora estamos perante um facto novo. Não são as pessoas que se purificam na água. É João Batista que as introduz na água. E para significar e implicar a necessária purificação, não apenas exterior, mas sobretudo interior, João exige das pessoas a confissão dos pecados e a conversão, bem como a imersão ou batismo nas águas do Jordão, que traz à memória a travessia operada pelo povo de Israel, vindo do deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Josué 3). E é também o rio que Elias atravessa antes de ser arrebatado para o céu (2 Reis 2,1-18). Ao rio Jordão anda, pois, associada a aproximação a Deus, à sua Vida, e aos seus dons.

    3. E que significado atribuir à anotação da incompetência (ikanós) de João para «retirar» ou descalçar as sandálias d’Aquele-que-Vem (v. 11)? Será simplesmente uma confissão de humildade por parte de João face a Alguém que lhe é incomparavelmente superior? Esta tonalidade está certamente presente, mas não esgota a metáfora das sandálias. Trata-se, desde logo, de um dizer importante, pois encontramo-lo por cinco vezes no Novo Testamento: Mateus 3,11; Marcos 1,7; Lucas 3,16; João 1,27; Atos dos Apóstolos 13,25. Num célebre artigo, intitulado «As sandálias do Messias Noivo», um dos mais ilustres biblistas do século XX, o jesuíta espanhol Luís Alonso-Schökel (1920-1998), levou este dizer e esta metáfora para o domínio da esponsalidade do Messias. De acordo com o referido nos Salmos 60,10 e 108,9, «pôr a sandália sobre» significa «tomar posse»; é, portanto, linguagem jurídica de posse. No Livro do Deuteronómio 25,5-9, o não cumprimento da lei do levirato implica que seja «retirada» a sandália ao cunhado não cumpridor da lei, gesto que garante a sua perda de posse no domínio matrimonial. Aqui já se trata de direito matrimonial. Em Rute 4,7-10, temos um caso jurídico concreto em que o que tem o direito de resgatar o património e de desposar Rute prescinde desse direito. Para o dizer juridicamente, em reunião pública realizada à porta da cidade (Rute 4,1), o homem em causa «retira» a sandália e entrega-a a Booz, que fica assim com o direito de resgatar o património e de desposar Rute. A metáfora da sandália em Mateus 4,11 e nos demais dizeres do Novo Testamento que anotámos significa que é Jesus o noivo, a quem assiste o direito de desposar Israel, e que a João não assiste esse direito ou competência.

    4. Se é evocada a continuidade dos ministérios de João e de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado, por outro lado, o confronto entre os dois, pois têm esquemas messiânicos diferentes. 1) Vê-se bem que João Batista anuncia um Messias-Juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), ao passo que Jesus assume a figura de Servo-do-Senhor manso e humilde (12,17-21). 2) O apelo à conversão que João faz não é dirigido apenas aos pagãos e aos pecadores, mas também aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias-Juiz-que-Vem, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé. 3) A conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…). 4) A conversão, aqui expressa pelo verbo grego metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade. Seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados. Ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas endireitar-se e orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida no mundo grego. 5) À vista de Jesus-que-Vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo-do-Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso. Na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado, como indica o facto de Jesus vir no meio do povo a este batismo de penitência. 6) Além disso, e contra todas as expetativas de João, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (3,11.13-14). 7) O diálogo travado neste lugar entre João Batista e Jesus (3,14-15), que nenhum outro Evangelho descreve, e em que João mostra o seu desacordo com o facto de ter de ser ele a batizar Jesus e não o contrário, é ultrapassado por Jesus que profere aqui as suas primeiras palavras neste Evangelho: «é bom que seja cumprida toda a justiça» (v. 15). A justiça, termo muito em uso neste Evangelho em que se faz ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), traduz o plano divino de salvação, que é a divina surpresa, e requer a adequação da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Sendo as primeiras palavras de Jesus, e por isso importantes e analépticas, rasgam uma avenida de sentido que Jesus seguirá até à Cruz: obediência ao Pai e solidariedade com o povo pecador. Rutura clara com a esperança messiânica de João e do mundo judaico desse tempo, mas sintonia com o significado verdadeiro das Escrituras. A conversão a que João e o judaísmo e cada um de nós somos convidados é um regresso à sintonia com a Palavra de Deus. Pelo que o verdadeiro judeu e o verdadeiro homem é aquele que se faz cristão. Torna-se então notório o sonho de um Deus que desce ao nosso mundo, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco e caminhar no meio de nós.

    5. Isaías 11,1-10, que serve de ressonância ao Evangelho de hoje, mostra muito mais o tom manso e suave do Servo-do-Senhor que Jesus incarna do que o martelo do Juiz que João Batista prenuncia. Isaías abre diante de nós um mundo novo, tenro e terno, que, visto desde este nosso mundo escuro e tantas vezes desumano e violento, soa a sonho. Ei-lo desenhado nestes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro,/ o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

    6. Avista-se daqui o Menino de Belém. Uma paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno! Vê-se bem que este mundo belo e manso não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino pequeno poderia governar um mundo assim! E o problema que nos assalta não está no menino; está neste nosso mundo mentiroso, fraudulento e violento.

    7. Contra este mundo empedrado e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem outra vez: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados e equivocados. É por isso que somos convidados à conversão.

    8. O mundo novo e saboroso que emerge dos textos de hoje é também sublinhado por S. Paulo nas exortações que nos dirige na Carta endereçada aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6). Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

    9. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva, e a que só Deus pode responder.

    António Couto


  • 1. A Igreja Arquidiocesana de Braga celebra no dia 22 de Outubro, com superlativa alegria, a solenidade do seu principal Padroeiro, S. Martinho de Dume. A Igreja em Portugal celebra a sua memória no dia 05 de dezembro, amanhã, portanto, juntamente com S. Frutuoso e S. Geraldo. Natural de outras terras, Martinho de Dume foi feito por graça cidadão dos céus, e partiu da Panónia, atual território da Hungria, para Oriente e para Ocidente. Peregrino do Homem e de Deus, viu bem e de perto Cristo nos pobres e estrangeiros, e com eles soube repartir o pão do corpo e do espírito, a roupa que vestia, a alegria do bom e belo Cristo que servia.

    2. Vindo de fora, agora para Ocidente, ao jeito de Abraão, do Oriente para o Ocidente, incondicionalmente abençoado e com o objetivo único de abençoar, passou por Tours, onde outro Martinho, seu conterrâneo tinha semeado e colhido, dois séculos antes, a fina flor do trigo do Evangelho. E foi assim que chegou até ao extremo Ocidente das dumienses e bracarenses terras que pisamos. O seu dizer simples, são e sábio sabia a sal e sol e luz. Nele ardia a Luz e exalava o suave odor do incenso e do louvor. Quem o encontrava, encontrava Jesus sempre a dizer: «Vós sois o sal da terra!… Vós sois a luz do mundo!» Nasciam assim os novos sabores da Paz, do Amor, da Alegria, do Evangelho. Novas luzes se acendiam nas alturas e nas planuras. «Não se pode esconder uma cidade iluminada!» Sim, que cidade é a vossa, assim tão escura e tão cinzenta?, bem poderia perguntar-nos hoje S. Martinho de Dume, Padroeiro principal da Arquidiocese de Braga. E que coração é o vosso, tão insensível e tão pouco fraterno?, pergunta-nos outra vez hoje S. Martinho. Naquele tempo ainda o amor doía, o moinho moía, o insonso não existia, e parece que nem a indiferença, a insensatez, a anestesia. S. Martinho de Dume é do tempo da alegria, da beleza do lírios do campo, do tempo em que os pássaros comiam à mesa dos meninos.

    3. «Cristo no meio de vós!», assim dizia Paulo, e assim fazia. «Cristo no meio de vós!», assim dizia Martinho, e assim acontecia. «Nada temo,/ porque Tu estás comigo!», repetia o povo rude que começava a saber o sabor da bondade e da alegria e da boa companhia. Bom Pastor, Cristo ou Martinho, Martinho ou Cristo, quem os distinguia?, cuidava com carinho das ovelhas, com o seu braço forte reunia os cordeirinhos no regaço, tratava-lhes as feridas com óleo e vinho. Pastor Bom: sabia o caminho, mostrava o caminho, abria o caminho. O Bom Pastor é Cristo e é Martinho. Martinho configurado com Cristo, transfigurado por Cristo, missionário de Cristo, veio de longe acender na Luz de Cristo a nossa vida.

    4. Na sua mensagem para o 84.º Dia Missionário Mundial, que a Igreja inteira celebrou no Domingo, dia 24 de Outubro de 2010, o Papa Bento XVI escreveu de forma exemplar e luminosa: «O mês de Outubro, com a celebração do Dia Mundial das Missões, oferece às comunidades diocesanas e paroquiais, aos Institutos de Vida Consagrada, aos Movimentos Eclesiais e a todo o Povo de Deus uma ocasião para renovar o compromisso de anunciar o Evangelho». E na Mensagem para o Dia Missionário Mundial do ano imediatamente anterior, que ocorreu no dia 18 de Outubro de 2009, escreveu Bento XVI: «Às Igrejas antigas com às de recente fundação recordo que são constituídas pelo Senhor como sal da terra e luz do mundo, chamadas a irradiar Cristo, luz do mundo, até aos extremos confins da terra». Tempo de verificação: como tudo isto é verdade em S. Martinho de Dume! Como deixou a sua terra, e veio até aos confins do mundo para nos trazer, a nós, a Luz de Cristo! E será que esta Luz de Cristo arde em nós, ainda hoje? A exemplo de S. Martinho, a minha alegria consiste em levar ao meu irmão a Luz de Cristo? E a exemplo de Martinho, sei o caminho, mostro o caminho, abro caminhos?

    5. A estas sólidas mobilizações do Evangelho – «Vós sois o sal da terra!… Vós sois a luz do mundo!» – e do Papa Bento XVI, que nos recordou que «todas as Igrejas são constituídas como sal da terra e Luz do mundo, para irradiar a Luz de Cristo até aos extremos confins do mundo», o Papa ousou ainda acrescentar esta fortíssima indicação programática: «A missão ad gentes deve ser a prioridade dos planos pastorais de todas as Igrejas!» O que o Papa ousou dizer é que ser missionário, para um batizado, não é facultativo. É de fundo. E se ser missionário deve ser a prioridade de todas as Igrejas, portanto também da Igreja de hoje onde quer que esteja estabelecida, então, meus irmãos, teremos mesmo de mudar o coração e de o revestir ou investir com novos sentimentos, novas decisões, novas paixões, novas ações, novas missões.

    6. E bem vistas as coisas, este amor maior não é senão o tesouro que nos trouxe de longe e nos legou o missionário, S. Martinho de Dume. S. Martinho de Dume, continua a proteger e a abençoar a Igreja de Dume e de Braga e todas as Igrejas, para que arda nos nossos corações a Luz de Cristo. De ti, Martinho, invocamos a tua proteção. A Ele, a Cristo, seja dada glória para sempre. Ámen.

    António Couto


  • 1. A Igreja celebra no dia 03 de dezembro com alegria a memória litúrgica de S. Francisco Xavier, que nasceu no Castelo de Xavier, em Navarra, na Espanha, em 07 de abril de 1506, e morreu na Ilha de Sanchoão, às portas da China, na madrugada do dia 03 de dezembro de 1552.

    2. Ao todo, viveu sobre esta terra 46 anos de Graça. Havia no Castelo de Xavier um belo Cristo Crucificado que ostenta um sorriso nos lábios. Por isso lhe chamam «El Cristo de la Sonrisa». Muitas vezes, na sua infância e juventude, Xavier contemplou esse Cristo e foi por Ele contemplado, de tal maneira que passou a haver uma grande cumplicidade entre os dois. São, de facto, muitas as testemunhas que descrevem Francisco Xavier «com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus» (Monumenta Xaveriana, tomo 2, Madrid, 1912, pp. 291 e 306).

    3. Tornou-se companheiro de Santo Inácio de Loyola. Ardia em Xavier um amor imenso por Cristo e pelo Evangelho. Embarcou em Lisboa no dia 07 de abril de 1541, dia em que completava 35 anos de idade, para uma viagem de 20.000 km, rumo a Goa, onde desembarcou mais de um ano depois, em 06 de maio de 1542, após paragem de quase meio ano (setembro de 1541 até fevereiro de 1542) na Ilha de Moçambique para o restabelecimento dos doentes, enquanto se esperava por ventos favoráveis à navegação.

    4. Desde que desembarcou em Goa, em 06 de maio de 1542, até à sua morte, em 03 de dezembro de 1552, vão 10 anos e quase 07 meses de desmedida dedicação aos outros, sobretudo aos pobres e doentes, enchendo de Evangelho os caminhos do Oriente. Pio XII proclamou-o «Padroeiro Universal das Missões», e S. João Paulo II proclamou-o «o maior missionário da era moderna».

    5. É também de salientar a sua ilimitada Confiança em Deus, como transparece de uma sua carta, datada de 05 de novembro de 1549, escrita de Kagoshima, no Japão, e dirigida aos seus companheiros de Goa:

    Sei de uma pessoa a quem Deus concedeu muitas graças, que se ocupava muitas vezes, tanto nos perigos como fora deles, em pôr toda a sua Esperança e Confiança n’Ele, e o proveito que daí lhe adveio levaria muito tempo a descrever.

    6. Aquele «Sei de uma pessoa» lembra Paulo (2 Cor 12,2). Pôr toda a sua confiança em Deus é firmar-se em Deus, viver de Deus e desde Deus. A tanto nos desafia também a nós, hoje, este missionário intenso e dedicado. E aquele Sorriso nos lábios do Crucificado e de Xavier é outro impressionante desafio para nós. Sem esta cumplicidade com Cristo, sem esta Confiança e Alegria, que Evangelho podemos nós viver e testemunhar?

    7. Obrigado, amigo Francisco. Celebrarei gozosamente a tua Festa, a que me associo com particular alegria desde 03 de dezembro de 1980.

    António Couto


  • O texto da Carta aos Romanos que lemos hoje, no Domingo I do Advento, também Santo Agostinho o leu, e ficou virado do avesso! Agostinho é um dos Santos mais queridos e conhecidos de todos nós. Vejamos a história de uma vida e de uma conversão. Nascido em Tagaste, norte de África, no longínquo ano de 354, experimentou, na sua juventude, as futilidades da vida. Mas nada disso, nem riquezas, nem prazeres, nem académicas discussões, lhe enchiam a alma. Agostinho não procurava qualquer coisa, qualquer simples remedeio. Procurava a Verdade, e correu o mundo à procura da verdade. Foi assim que chegou a Milão, e se pôs a ouvir as catequeses de Santo Ambrósio. E foi assim que, conta ele mesmo nas suas “Confissões”, Livro VIII, Capítulo 12, em finais do verão do ano 386, não conseguindo dormir, veio para o jardim anexo à casa onde residia, e, envolto em lágrimas, deitou-se debaixo de uma figueira. E eis que, conta ele, saída de uma casa vizinha, começou a ouvir a voz de uma criança que cantarolava repetidamente uma canção, cuja letra era: “Toma e lê! Toma e lê! Toma e lê! Toma e lê!”, e assim continuava. Foi então que Agostinho se apercebeu de que uma criança não costuma trautear uma letra assim, e foi por isso levado a pensar que devia ser um recado para ele. Subiu logo ao quarto, onde tinha sobre a mesa um rolo das Cartas de São Paulo, desenrolou à sorte, também à sorte pôs o dedo, e leu: «Não em orgias e bebedeiras,/ não em devassidão e libertinagem,/ não em rixas e ciúmes,/ mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo». Agostinho acabava de ler a Carta aos Romanos, Capítulo 13, versículos 13-14. Estava ali tudo: a sua vida passada, mas também o futuro que se lhe abria diante dos olhos: revesti-vos do Senhor Jesus Cristo. No ano seguinte, 387, foi batizado por Santo Ambrósio, e veio a ser depois eleito bispo de Hipona, norte de África, dando um imenso testemunho de Cristo, com a sua vida vivida e escrita. Morreu no ano 430.

    Neste tempo de tantas futilidades e procuras, Santo Agostinho, roga por nós!

    António Couto


  • Como é fácil, Senhor Jesus,

    daqui, de ao pé da tua Cruz,

    contemplar a paisagem do Advento,

    compreender-lhe a mensagem,

    respirar-lhe o alento.

    Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

    sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

    mais alto e mais profundo,

    vê-se bem, com toda a claridade,

    que a lonjura do Advento não é horizontal.

    Eleva-se em altura.

    Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

    vertical,

    e sem costura.

    Tu vens do Alto, Senhor.

    Tu vens de Deus.

    Tu és Deus.

    Tu és o Justo

    que chove das alturas

    sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

    Vem, Senhor Jesus,

    alumia e rega a nossa terra dura,

    acaricia o nosso humilde chão

    e modela com as tuas mãos de amor

    em cada um de nós

    um novo coração

    capaz de ver.

    Capaz de Te ver

    nascer

    em cada irmão.

    António Couto


  • Isaías 2,1-5; Salmo 122; Romanos 13,11-14; Mateus 24,37-44

    1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, a mesma «subida» espiritual é cantada com esfuziante alegria no Salmo Responsorial (122). Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «Vigiai», «Compreendei», «Estai preparados», «Sabei o dia», «Não aconteça que não deis por nada!» (Mateus 24,37-44). Vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

    2. Faz parte da sabedoria popular acumulada, saber de experiência feito, que os rumos da vida de cada um e da inteira história da humanidade dependem em partes não iguais das nossas decisões e dos determinismos da natureza ou do destino, como é usual dizer-se. Deriva daqui a ideia corrente de que as coisas continuarão a funcionar mais ou menos como tem vindo a acontecer até aqui, a menos que surja alguma catástrofe provocada pelo homem ou pela natureza ou pelo destino que deixe o nosso mundo intransitável e completamente fora de controlo. É nestes carris da sonolência e aparente normalidade que Jesus traz hoje à colação, neste primeiro Domingo ou carruagem do comboio do Advento e do Ano Litúrgico, os dias de Noé, antes do dilúvio, em que as pessoas passavam os seus dias, comendo e bebendo, casando, negociando, trabalhando, até serem completamente surpreendidas pelo dilúvio que a todos dizimou (Mateus 24,37-39).

    3. Em claro contraponto com esta maneira acomodada de pensar e de viver, em que o andamento do mundo decorre de acordo com os nossos hábitos de sempre e segundo as elementares leis da natureza, em que dificilmente surge ou se detecta uma surpresa, Jesus anuncia um Acontecimento Novo e Determinante que é a Vinda do Reino dos Céus (Mateus 4,17), que se há de verificar na Vinda do Filho do Homem com poder e glória (Mateus 24,30). E tratar-se-á, não de um acontecimento circunscrito, constatável apenas «aqui» ou «ali», mas universal, que afetará de maneira decisiva toda a existência humana, que aí receberá o seu sentido último. No dizer novo de Jesus, o nosso mundo não é então mais um mundo redondo e fechado em que o velho comboio continua a circular como sempre segundo as mesmas regras e cumprindo os mesmos rumos e tabelas. Jesus anuncia um acontecimento novo, que é a Vinda de Deus ao nosso mundo, que rompe os determinismos do nosso mundo fechado e habituado, e inaugura modos de vida até agora insuspeitados. Note-se bem: nem se trata de uma nossa ida ou viagem para Deus. Ao contrário e ainda mais surpreendente: é Deus que Vem!

    4. O Evangelho hoje proclamado (Mateus 24,37-44) insere-se na II Parte do Discurso Escatológico deste Evangelho de Mateus, que abre em 24,36 e fecha em 25,13, encontrando-se a abrir e a fechar a afirmação: «ninguém conhece o dia nem a hora». E, como se não bastasse, ouve-se ainda a mesma afirmação mais três vezes ao longo da perícope (24,42.44.50). Já se sabe que este insistente não conhecimento do dia e da hora não se refere a um qualquer fenómeno mais ou menos espetacular. Refere-se à Vinda do Filho do Homem, de que fala o texto do Evangelho de hoje por três vezes (24,37.39.44). Bem se entende que a Vinda do Filho do Homem é a Vinda do Senhor Jesus (24,42). Torna-se então claro que uma tão acentuada ignorância do «quando» da Vinda do Senhor por parte dos habitantes da terra deve determinar neles, não a sonolência e a dormência, mas uma atitude de permanente atenção e vigilância.

    5. Para avivar esta necessidade de vigilância, Jesus faz-nos ver que ninguém viaja seguro neste comboio dos anos, dos dias e das horas. E clarifica: «dois homens estarão a trabalhar no campo: um será tomado, e o outro deixado» (Mateus 24,40); «e duas mulheres estarão a moer no moinho em casa: uma será tomada, e a outra deixada» (Mateus 24,41). Não é explicada a razão de a situação de uns e de outros ser diferente. Não é sequer dito que a divisão tenha a ver com a maldade de uns e a bondade de outros. Tem então apenas a ver com o Senhor-Que-Vem. Se o Senhor Vem, e é certo que o Senhor Vem, então não podemos deixar-nos embalar e enredar tranquilamente nos habituais afazeres do quotidiano. Sejam eles quais forem. É preciso estarmos vigilantes. E mesmo que comecemos já, neste primeiro Domingo do Advento, a pensar no presépio que vamos fazer, é imperioso que não nos esqueçamos de que a vigilância é o caminho da Cruz: o caminho da doação, e não o caminho da conservação. Uma advertência solene: «Recordai-vos da mulher de Lot. Quem procurar salvar a sua vida, vai perdê-la, e quem a perder, salvá-la-á» (Lucas 17,32-33). Portanto, desde o primeiro Domingo do Advento e do Ano Litúrgico, requer-se o olhar fixo na Cruz, e nada de olhar para trás!

    6. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

    7. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

    8. E aí está S. Paulo, no final da sua carreira, a escrever desde Corinto aos Romanos (13,11-14). E aí está também o buscador Agostinho. Na sua intensa busca da verdade, foi de Tagaste para Cartago, para Milão. Homem inquieto, no polo oposto do coktail da tranquilidade e consolo, servido pela New Age ou Next Age, e de acordo com a advertência de Julien Green: «Enquanto estivermos inquietos, podemos estar tranquilos». No princípio do Outono de 386, angustiado e inquieto, Agostinho (Confissões, Livro VIII, 12) sai para o jardim da casa de um amigo, em Milão, e chora amargamente, sentado debaixo de uma figueira. Ouve então uma criança que, na casa vizinha, cantarolava uma estranha melodia com uma letra ainda mais estranha: «Toma e lê!», «toma e lê!». Agostinho apercebeu-se de que não era normal uma criança trautear uma canção com uma letra assim. Foi, por isso, levado a compreender que bem podia ser um recado de Deus para ele. Levantou-se do jardim, entrou em casa, desenrolou à sorte as Cartas de S. Paulo que tinha sobre a mesa, e leu: «Não em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência» (Romanos 13,13b-14).

    9. Nesse dia e nessa hora, nasceu Santo Agostinho. Hoje podes nascer tu também, meu irmão do tempo novo do Advento. Mãos à obra, e conta sempre com a graça de Deus: «Segundo a graça que Deus me deu, como bom arquiteto, lancei o fundamento, mas é outro que constrói por cima. Mas cada um veja como constrói. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diferente do que foi posto: Jesus Cristo. Se alguém, sobre esse fundamento, constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência» (1 Coríntios 3,10-13).

    10. Enfim, ressoa Hoje a voz do imenso Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Trata-se, de facto, de um imenso canto de espanto, emoção, comoção, amor, que junta a cidade com as pessoas, tudo e todos envoltos num manto de extraordinária beleza. O Salmo tem um início de teor cinematográfico, acostando admiravelmente dois extremos: o anúncio da partida (v. 1), logo seguido da chegada (v. 2), a alegria da partida e o êxtase da chegada, que provoca uma paragem extática no limiar daquelas portas, descrita nos pés extasiados dos peregrinos (!), tantas são as coisas a contemplar e a amar naquela cidade querida, de que se amam (ratsah) até as pedras e se acaricia (hanan) o pó (ʽaphar) (cf. Salmo 102,15). Há quatro palavras que se repetem três vezes, num especialíssimo 4×3: Jerusalém (2b.3a.6a), Senhor (1b.4d.9a), Casa (1b.5b.9a), Paz (6a.7a.8b). Este «trishágion» constitui como que a espinha dorsal do Salmo e define a alta qualidade da vida na cidade. Um imenso desejo instintivo e visceral de paz, felicidade, fraternidade, atravessa o Salmo e constitui como que a energia, a magia e o magnetismo de Jerusalém, que atrai os peregrinos e os povos, como se vê no Salmo 87, em Isaías 2,1-3 e Miqueias 4,1-2, e como se vê ainda hoje com peregrinações provenientes do mundo inteiro, e como se sentiu recentemente, em 1996, aquando da celebração do seu aniversário trimilenar. Tal como se encontra tecido, o Salmo pode parecer uma paranomásia do nome Jerusalém, recurso muito ao gosto dos autores bíblicos, e muito em uso em culturas de elevado teor oral e auditivo, que joga sobre efeitos sonoros. É conhecida a etimologia mais provável de yerûshalaim, yerûshalayim ou yerûshalam, que será «fundação de Shalem», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. O que passa, todavia, é a etimologia popular que vê nela a «cidade da paz», tomando ye, não como uma forma do verbo yarah [= fundar], mas por ʽîr [= cidade], e tomando shalaim por shalôm [= paz]. O desdobramento destes dois nomes, cidade e paz, como que se verifica no próprio corpo do Salmo, assim apresentado: vv. 1-2: introdução; vv. 3-5: a harmonia da cidade; vv. 6-9: a paz que envolve a vida na cidade. Tenha-se presente como a locução bêt-YHWH [= Casa do Senhor, Templo] faz de envelope ao Salmo inteiro, fazendo-se notar nos vv. 1 e 9, ficando no centro, no v. 5, a bêt-David [= Casa de David]. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (thôb), com que franciscanamente se saúdam!

    António Couto


  • 1. O Capítulo II do Livro de Daniel traz-nos a história de um sonho, mais pesadelo do que sonho, que transtornou Nabucodonosor, rei da Babilónia, no segundo ano do seu reinado, ou seja, em 604 a.C. A história do andamento deste pesadelo de Nabucodonosor pode ler-se em  Daniel 2,1-45.

    2. Acossado por um sonho, que se tornou, na verdade, um pesadelo, Nabucodonosor ficou de tal modo perturbado que já não conseguia dormir nem viver em paz. Para tentar ver-se livre do stress e das insónias, Nabucodonosor precisava de saber o que significava o pesadelo que lhe tinha caído em cima. Como não via, para isso, nenhuma clareira, e como cada vez se sentia pior, decidiu convocar para o seu palácio todos os sábios, adivinhos, bruxos e magos e astrólogos, que pululavam na Babilónia, para que interpretassem o seu sonho.

    3. Eles compareceram, e apresentaram-se diante do rei. O rei disse-lhes: «Tive um sonho, e o meu espírito está stress até que lhe compreenda o significado». Disseram eles: «Conta o teu sonho aos teus servos, e nós te daremos a interpretação». Mas o rei disse-lhes: «Eis a minha decisão: se não adivinhardes o sonho que eu tive, e não me derdes a sua interpretação, sereis feitos em pedaços, e as vossas casas ficarão reduzidas a escombros. Ao contrário, se descobrirdes o sonho e a sua interpretação, recebereis de mim riquezas, presentes e honrarias. Portanto, relatai-me o sonho e a sua interpretação». Eles insistiram: «Queira o rei contar o sonho aos seus servos, e nós dar-lhe-emos a interpretação».

    4. Mas o rei continuou: «Vejo que quereis ganhar tempo, sabendo que a minha decisão está tomada. Se não me dais a conhecer o sonho, uma só sentença vos espera. Vejo que estais combinados para inventar explicações falsas e funestas diante de mim, enquanto o tempo vai passando. Portanto, relatai-me o sonho, e ficarei a saber que me podereis dar também a interpretação».  Responderam-lhe: «Não há homem algum sobre a terra que possa descobrir o segredo do rei. Por isso, nenhum rei, governador ou chefe propôs algum dia tal problema a um bruxo, mago ou adivinho. O problema que o rei propõe, homem algum o pode resolver; só os deuses». A essas palavras, o rei encolerizou-se e mandar trucidar todos os sábios da Babilónia. Promulgou o decreto de execução, procurando também Daniel e os seus companheiros, para os executar.

    5. Ao ter conhecimento do decreto do rei, Daniel dirigiu-se a Arioc, chefe da guarda real, que tinha saído para executar os sábios da Babilónia. Daniel perguntou a Arioc: «Por que motivo promulgou o rei uma sentença tão premente?» Arioc explicou o caso a Daniel, que foi imediatamente ter com o rei, e pediu-lhe que lhe desse um prazo, que ele mesmo daria ao rei a interpretação do seu sonho. Daniel voltou para casa, comunicou o problema aos seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, pedindo-lhes que implorassem de Deus a resolução deste mistério, a fim de não perecerem também eles juntamente com os outros sábios da Babilónia. E o mistério foi revelado a Daniel numa visão noturna. Daniel foi logo ter com Arioc, dizendo-lhe que suspendesse a ordem de matar os sábios da Babilónia, e que o fizesse comparecer diante do rei, que ele mesmo lhe daria a interpretação do sonho.

    6. Arioc apressou-se a fazer Daniel comparecer diante do rei, a quem disse: «Encontrei, entre os deportados de Judá, um homem que dará ao rei a interpretação desejada». O rei dirigiu-se então a Daniel, e perguntou-lhe: «És realmente capaz de me dar a conhecer o sonho que tive, e a sua interpretação?» Daniel respondeu: «O mistério que o rei procura desvendar, nem os sábios, nem os adivinhos, nem os magos, nem os bruxos, nem os astrólogos podem dá-lo a conhecer ao rei. Mas há um Deus no céu que dá a conhecer os mistérios do que vai acontecer. Eu não tenho mais sabedoria do que os outros, mas Deus deu-me a conhecer o teu sonho e a sua interpretação, para que tu possas conhecer os pensamentos do teu coração».

    7. O teu sonho, ó rei, ei-lo aqui. Tu viste, ó rei, uma estátua enorme, que se erguia diante de ti, uma estátua grande e terrível. A cabeça da estátua era de ouro, os braços e o peito de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e os pés uma mistura de ferro e barro. Estavas tu olhando, ó rei, quando uma pedrinha, sem intervenção de mão humana, rolou pela colina e veio embater contra os pés de barro da estátua, que logo se pulverizaram. E logo se pulverizaram também o ferro, o bronze, a prata e o ouro, que ficaram como palha miúda na eira, que o vento levou, sem deixar rasto. E, entretanto, a pedrinha que embateu na estátua tornou-se uma grande montanha que ocupou a terra inteira. Este foi o teu sonho, ó rei.

    8. Eis agora a sua interpretação. Tu, ó rei, tu és a cabeça de ouro daquela estátua. Depois de ti, levantar-se-á outro reino, inferior ao teu, simbolizado no peito e nos braços de prata daquela estátua. Virá depois um terceiro reino que dominará a terra inteira, e que está representado no ventre e nas coxas de bronze da estátua. Haverá ainda um quarto reino, simbolizado nas pernas de ferro daquela estátua. Os pés de ferro e barro que viste, ó rei, representam um reino dividido. Entretanto, ó rei, virá um reino novo que destruirá todos os outros e que não será destruído. Está representado na pedrinha que viste, que fez em pó os elementos daquela estátua, e cresceu, cresceu, cresceu, transformando-se numa montanha.

    9. Para bom leitor e intérprete, nestes metais estão representados os impérios babilónio, medo, persa e grego. Este último, à morte de Alexandre Magno, será dividido entre os seus generais, dando depois origem aos Selêucidas da Síria e aos Lágidas do Egito. Lição: todos os impérios caem, os grandes, os pequenos, os meus e os teus. Neste sentido, pode ver-se ainda mais: a cabeça de ouro representa o poder, a ambição, a importância, o orgulho, a opulência, o dinheiro, o lucro; o peito e os braços de prata representam a sedução, o luxo, o prazer, a vaidade; o bronze e o ferro representam a guerra e a violência; os pés de barro significam que a estátua inteira, embora manifeste brilho e esplendor, é inútil, não serve para nada. Não anda.

    10. Impõe-se, por isso, uma mudança radical da nossa vida, da cabeça aos pés. Uma cabeça de ouro, de facto, não serve para nada. O que é que vamos lá pôr? Proponho: bom senso, grandes ideais, olhos, ouvidos, nariz, boca. O peito e os braços de prata também não servem para nada. O peito não tem coração; os braços nada podem fazer. O que é que vamos lá pôr? Proponho: um coração sensível, uns braços que sejam capazes de levantar uma criança, umas mãos abertas. Um ventre e umas coxas de bronze e umas pernas de ferro também não servem para nada. O que é que vamos lá pôr? Proponho: retirar todas as armaduras, e colocar lá um ventre maternal, que é lugar misericórdia. Com uns pés de barro, esta estátua não anda, ninguém pode andar. O que é que vamos lá pôr? Proponho: os pés do mensageiro de Isaías, que leva boas novas a Jerusalém (52,7), ou os pés do noivo do Cântico dos Cânticos, que correm por amor (2,8).

    António Couto


  • A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, faz-nos ver em Jesus um Messias, Rei e Senhor, que não comunga da nossa atração sádica pelo espetáculo ávido de sangue, mas vem revestido da mansidão do Servo do Senhor, de Isaías 42,1-4, que é, por sinal e de forma significativa, a mais longa citação do Antigo Testamento que o Evangelho de Mateus faz em 12,18-21, retratando com ela Jesus, o Rei manso e novo que desconcerta João Batista e a nós também. O referido texto de Isaías 42,2 diz do Servo do Senhor que «não fará ouvir desde fora a sua voz». Fica então claro que, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas, salvando as pessoas. Jesus, Rei manso e novo, vai assumir por inteiro a identidade deste Servo e vai cumprir a sua missão.

    Reina, Senhor Jesus, no nosso coração e no coração deste mundo dominado por guerras, ambições e violências.

    António Couto


  • 2 Samuel 5,1-3; Salmo 122; Colossensesl 1,12-20; Lucas 23,35-43

    1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

    2. Antes de mais, o título de Rei, com que hoje celebramos o único Senhor da nossa vida. Pode parecer um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que poria Jesus ao nível dos senhores ricos e poderosos deste mundo. Para não resvalarmos para equívocos e terrenos movediços, convém anotar desde já a descrição que o próprio Jesus faz dos Reis: «Os Reis das nações, diz Jesus, dominam sobre elas» (Lucas 22,25). E a sua advertência: «Não seja assim entre vós» (Lucas 22,26). E, todavia, Jesus diz-se Rei, confirmando, neste domínio, as suspeitas de Pilatos (Marcos 15,2; João 18,37).

    3. Para sabermos o que é que Jesus tem em vista quando se afirma como Rei, é preciso saber como é que a Escritura traça o perfil do Rei. É como quem pinta um quadro, ou melhor, dois: um díptico. No primeiro quadro, o Rei é alguém muito próximo de Deus, completamente nas mãos de Deus, sempre atento à sua Palavra, de modo que deve ter, para seu uso pessoal, uma cópia da Lei de Deus, feita pela sua própria mão, isto é, com a sua letra, para não poder dizer que não entende a letra, e deve lê-la todos os dias, nada fazendo por sua conta, mas sempre e só de acordo com a Palavra de Deus (cf. Deuteronómio 17,18-19). No segundo quadro, que completa o primeiro, formando um díptico, o Rei é alguém muito próximo do seu povo, sempre atento ao seu povo, em ordem a poder levar-lhe a prosperidade, o bem-estar, a saúde, a paz, a alegria, a felicidade, a salvação. Aí está, então, o retrato completo de Jesus Cristo como Rei: sempre pertinho de Deus, sempre pertinho de nós.

    4. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), ele mesmo símbolo da confusão e do mal, que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

    5. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

    6. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a, e, portanto, dissolvendo-a e absorvendo-a, e é só assim que a absolve. É assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira e da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

    7. Aí está a página divina deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Lucas 23,35-43. Texto espantoso. É preciso vir um pouco atrás buscar o fio de sentido deste imenso texto. Diz, na verdade, Lucas 23,32 que «Eram conduzidos também com Ele outros dois malfeitores para serem executados». Sim, o texto diz, com espantosa precisão teológica, «outros dois malfeitores» (héteroi kakoûrgoi dýo). Ao dizer «outros dois malfeitores», o texto está a dizer que Jesus, o Justo, é também um malfeitor! Aí está o Livro a abrir-se perante os nossos olhos atónitos! O quarto Canto do Servo do Senhor já dizia que o Servo Justo «Foi contado entre os malfeitores» (Isaías 53,12). Sim, Ele é um de nós! Não passa ao nosso lado ou por cima de nós, mas desce ao nosso chão, abraça-nos e absorve os nossos males.

    8. Ouve-se depois um tema por três vezes repetido e martelado: «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), na boca dos chefes, dos soldados, de um dos malfeitores. Os chefes veem um falso deus, os soldados um falso rei, o malfeitor um falso messias. Tudo ídolos que vamos usando a nosso bel-prazer, sem sequer repararmos nisso. O critério destes maldizentes é o critério da auto salvação. Face ao fim à vista previsível, todos concluem pela exclusão da dignidade messiânica e real de Jesus. Mas o leitor atento é levado a ver como «o povo que estava lá de pé a ver (theôrôn)» (Lucas 23,35a), com um ver que dá que pensar (theôréô), a continuidade do plano de Deus: tal como Deus libertou o orante perseguido (cf. Salmo 22), do mesmo modo está agora a agir em relação a Jesus. O outro malfeitor é o primeiro teólogo da Cruz. Não interroga aquela Cruz; deixa-se interrogar por ela. E avança um pedido imenso: «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino!» (Lucas 23,42). De notar que estas palavras imensas, que devíamos repetir muitas vezes, são cantadas pelo povo no momento da Comunhão, no Rito grego. E Jesus responde, para imenso espanto nosso: «Hoje estarás comigo no paraíso» (Lucas 23,43). Aos sarcásticos interrogadores da Cruz, Jesus não deu qualquer resposta. Mas a este pedido, respondeu. Este Hoje entala-nos no tempo, sendo uma permanente provocação que nos faz o Evangelho de Lucas. Este é o décimo primeiro e último Hoje que encontramos neste Evangelho. Eis a sequência: Lucas 2,11; 4,21; 5,26; 12,28; 13,32; 13,33; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43.

    9. Vale a pena, neste momento, dar a palavra a um dos grandes pregadores dos primeiros séculos cristãos, São João Crisóstomo (349-407). Disse ele: «Este ladrão roubou o paraíso. Ninguém antes dele ouviu uma promessa semelhante: nem Abraão nem Isaac nem Jacob nem Moisés nem os profetas nem os apóstolos. O ladrão entrou à frente deles todos. Mas também a sua fé ultrapassou a deles. Ele viu Jesus atormentado, e adorou-o como se estivesse na glória. Viu-o pregado a uma cruz, e suplicou-lhe como se o tivesse visto no trono. Viu-o condenado, e pediu-lhe uma graça como se faz a um rei. Ó admirável malfeitor! Viste um homem crucificado, e proclamaste-o Deus!».

    10. Entenda-se ainda que este tempo escandaloso da Cruz é o tempo da Graça deixado em suspenso em Lucas 4,13b, no final do grande texto das tentações de Jesus na sua condição filial, batismal, em que o diabo, também por três vezes, ia dizendo: «Se és o Filho de Deus…». O narrador termina o episódio, dizendo que «o diabo se afastou dele até ao kairós, o tempo estabelecido» por Deus. Sem equívocos agora: o kairós de Deus, a torrente da Palavra de Deus que solicita a nossa resposta, e a torna imperiosa, sob pena de afogamento, é a Cruz!

    11. Entenda-se melhor. Um «malfeitor» é alguém cuja profissão é, como o nome diz, «fazer o mal». Uma sociedade em que o usual é «fazer o mal» é uma sociedade malvada e violenta. E numa sociedade assente sobre a malvadez e a violência, a alternativa é: vencer ou ser vencido, matar ou ser morto. Neste tipo de sociedade, todos nós escolhemos preventivamente a primeira opção. Nem sequer será por mal, mas para nos salvarmos a nós mesmos, cada um de nós faz preventivamente o mal que pode: o ladrão e o banqueiro, o comerciante e o operário, o médico e o barbeiro, o patrão e o empregado, o padre e o assaltante, o benfeitor e o delinquente. Cada um, com os meios que tem, pensa e põe em primeiro lugar o seu caso particular. Mas vai saltando à vista que, se Jesus seguisse a nossa lógica de se salvar a si mesmo, a auto salvação, não nos salvaria a nós, porque teria, não de assumir, abraçar, sorver e sofrer a nossa violência e o nosso pecado, mas de se ver livre de nós!

    12. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras da calçada do nosso empedrado coração. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta brava que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro (cf. Génesis 4,8). Bem visto por Judas na sua pequena Carta, infelizmente pouco lida e meditada. Escreveu ele: «Aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais sem palavra» (Judas 10-11).

    13. «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino».

    14. Ilumina o Evangelho de hoje a página de 2 Samuel 5,1-3. Depois de ter sido ungido Rei no Hebron sobre Judá, pelos homens de Judá (2 Samuel 2,4), David é agora ungido Rei também sobre Israel, pelos anciãos de Israel que, para o efeito, se deslocam ao Hebron (2 Samuel 5,3). Não sem que antes o tenham reconhecido como membro da sua família: «Vê! Nós somos teus ossos e tua carne» (v. 1), e tenham lembrado que era desígnio de Deus que ele reinasse sobre Israel e sobre Judá (v. 2; cf. 2 Samuel 3,10). Tudo isto tem a ver com Cristo. Antes de mais, é o novo David, que reúne todo o povo e sobre ele Reina. Mas, para isso, fez-se também igual a nós, é membro da nossa família.

    15. Temos Hoje também a graça de poder escutar um antigo hino sobre o primado de Jesus, provavelmente de língua aramaica, que Paulo incrustou na sua Carta aos Colossenses (1,15-20), mas que tem como prólogo os vv. 12-14, a inteireza da lição de Hoje. O hino é belo, teológico, denso, produzido com rima e metro, como é normal nos hinos antigos. Tudo começa com o convite à ação de graças, isto é, a fazer eucaristia ao Pai por nos ter dado a herança dos santos na luz (v. 12), arrancando-nos do poder das trevas, e transportando-nos para o Reino do «Filho do seu amor» (hyiós tês agápês autoû) (v. 13), em quem temos a redenção, a remissão dos pecados (v. 14). Este Filho do seu amor é Jesus Cristo, «Imagem (eikôn) do Deus invisível», «Primogénito (prôtótokos) de toda a criatura» (v. 15) e também «Primogénito dos mortos» e «Cabeça do corpo que é a Igreja» (v. 18). E é «n’Ele» (en autô), «através d’Ele» (di’ autoû) e «para Ele» (eis autón) que tudo foi criado (v. 16). Ele, o Senhor Jesus, é absolutamente o centro de tudo e o primeiro em tudo, desde a criação, à propiciação pelo sangue da sua Cruz (v. 20), à vida da Igreja, à Ressurreição. É sempre n’Ele e através d’Ele e para Ele, que tudo quanto existe encontra o seu caminho, sentido, enlevo (eudokía) e plenitude (plêrôma).

    16. Enfim, ressoa Hoje a voz do Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Desdobra-se em três vagas: a primeira, vv. 1-2), reúne a alegria incontida da partida e a emoção intensa da chegada; a segunda, vv. 3-5, entoa o louvor de Sião, passeia os olhos pela bela arquitetura dos seus edifícios, mas sobretudo vê Jerusalém como polo de atração e de união das tribos para louvar a pessoa (o Nome) de Deus no seu Templo; a terceira, vv. 6-9, estende uma toalha branca de paz (shalôm), três vezes dita, como vê os seus quatro ângulos, sobre a mais bela cidade, Jerusalém, yerûshalaim, popularmente interpretada como «cidade da paz (shalôm)», ainda que o seu nome signifique «Shalem a edificou», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (thôb), com que franciscanamente se saúdam!

    António Couto


  • Senhora de novembro,

    Maria, minha Mãe,

    Passa hoje o dia da tua apresentação ao Senhor,

    Que desde o seio materno já te conhecia,

    Senhora da dedicação.

    Senhora de novembro,

    Dos dias frios e frágeis,

    Dos passos firmes e ágeis,

    Do coração que velava

    À espera de quem te amava.

    Assim te entregaste a Deus,

    De coração inteiro,

    Como um tinteiro

    Todo derramado numa página.

    Sim, tu és a mais bela página de Deus,

    A Deus doada, apresentada, dedicada,

    Mãe da vida consagrada,

    Ensina-me a tua tabuada,

    A tua nova alegria,

    A luz do Evangelho que te aquece e alumia

    O coração.

    Eu te saúdo, Maria,

    Neste dia

    Da tua apresentação.

    António Couto


  • Ainda a palavra me não chegou à língua,

    e já Tu, Senhor, a conheces toda.

    Também não admira,

    pois a Palavra é sempre tua,

    desde a origem até que respira

    na música da harpa e da lira.

    De Ti saiu,

    no meu coração caiu,

    é lá que comigo se entretece,

    alumia e aquece,

    como uma fogueira a arder.

    É lá que a escuto,

    é lá que rasga o meu ser,

    como uma espada de dois gumes,

    como um bisturi

    manuseado por Ti.

    Primeiro, é preciso escutar.

    E escutar é deixar-se dizer, cortar, sangrar.

    Só depois aparece a palavra à porta dos meus lábios,

    depurada e limpa,

    pronta para eu a dizer.

    Mas o meu dizer não é senão redizer,

    orar, cantar, saborear o teu dizer.

    Que seja assim, Senhor,

    a tempo inteiro

    contigo e comigo a condizer.

    António Couto


  • No meio da bruma e da esperança

    que envolve os passos de tanta gente

    nestes dias toldados de novembro,

    há sempre uma mãozinha que se sente,

    uma luzinha que se acende,

    nos alumia, nos acolhe e nos atende.

    Guia-me sempre, Luz amável,

    no meio do nevoeiro que me envolve:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    A noite é escura,

    a casa é distante:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    Guarda Tu os meus passos!

    Eu não peço para ver o horizonte distante:

    um passo de cada vez

    é para mim o bastante.

    Obrigado, Senhor Jesus!

    Tu és a Luz que me alumia

    a cada instante!

    Alumia também

    cada viandante,

    que na penumbra dos dias,

    tenha perdido a fé ou o volante.

    António Couto