• Solenidade da Santíssima Trindade

    Êxodo 34,4b-6.8-9; Daniel 3; 2 Coríntios 13,11-13; João 3,16-18

    1. A oração e a bênção «em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» pressupõem o anúncio de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, bem como a fé nesse Deus. O Nome de Deus é posto em relação com o conhecimento que temos dele. Deus manifesta o seu Nome, para que possamos conhecê-lo, para que nos possamos dirigir a ele e entrar em relação com ele. Jesus deu-nos a conhecer Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e é este o núcleo mais profundo da sua mensagem. Na verdade, Jesus dá-nos a conhecer Deus de uma forma não acessível antes dele. O Antigo Testamento conhecia o Deus Criador do céu e da terra, que tem diante de si apenas criaturas, infinitamente diferentes dele, e em que não se entrevê nenhum digno interlocutor de Deus. No plano divino, este Deus parece estar sozinho consigo mesmo habitando uma sublime solidão. Mas Jesus anuncia e manifesta um Deus que, no plano divino, tem um interlocutor de pleno valor: o Deus de Jesus não está sozinho, mas vive em comunhão. Diante do Pai está o Filho, ambos unidos entre si, conhecem-se, compreendem-se e amam-se reciprocamente na plenitude e perfeição divinas, por meio do Espírito Santo.

    2. Dando um passo em frente, vê-se então que o Deus de Jesus, enquanto dádiva suprema fundante, princípio da doação, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, termo da doação, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita recepção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. Dizer que Deus é também Filho parece escandaloso! Mas é, ao invés, maravilhoso: o facto de Deus se revelar, não apenas como Pai que dá a vida, mas também como Filho que a recebe e acolhe, e vem partilhar connosco, abre imensas e preciosas perspectivas para a nossa vida humana e espiritual. Levantando uma vez mais o olhar para Deus, Pai que se dá e Filho que se recebe, verificamos então que esta comunhão-comunicação-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado, para o dizer com a bela expressão de S. João Paulo II na Carta Encíclica Dominum et vivificantem [1986].

    3. Deus faz-se ver nos interstícios do nosso humilde chão quotidiano. Foi quanto Nicodemos pôde depreender ao ver os sinais (sêmeîa) que Jesus fazia (cf. João 3,2b-3). Todavia, daqui para a frente, não há passo racional, nosso, que possamos dar. Não resta a Nicodemos outra via (não Tomista) que não seja ir ao encontro de Jesus (cf. João 3,2a), não na sua condição de «o mestre de Israel» (ho didáscalos toû Israêl) (João 3,10), mas do discípulo que sabe depor as suas armas de mestre aos pés de Jesus, «o Mestre que veio de Deus» (apò theoû elêlythas didáskalos) (João 3,2b), o Mestre que não estudou em nenhuma das nossas escolas, como dizem e repetem, admirados, os insuspeitos Judeus (cf. João 7,15). As pequenas mãos de Nicodemos, e as nossas também, não dispõem de nenhum argumento ou instrumento de acesso que nos permita ir além da gélida impassibilidade das leis da natureza. Ora, naquele Jesus que Nicodemos via, havia claros sinais de que «Deus estava com Ele» (ho theòs met’ autoû) (João 3,2b). Em Jesus, era então visível um acesso à vida divina e eterna (zôê aiônios). E foi isso que levou Nicodemos a sair tremulamente do seu estudado quotidiano de «mestre de Israel», para ir ao encontro de Jesus, o Mestre que veio de Deus, e que não estudou em nenhuma das nossas escolas.

    4. Chegado junto de Jesus – «o Mestre que veio de Deus» –, Nicodemos – «o mestre de Israel» – tropeça logo nos seus limites. De facto, ouve de Jesus que, para ter acesso à vida divina e eterna (Reino de Deus muitas vezes nos Sinóticos; em João só em 3,3.5), é preciso nascer de novo (ánôthen: «de novo», «do alto», «do princípio» (João 3,3.5.7). Fica completamente baralhado Nicodemos, de tal modo que chega a perguntar a Jesus se está a sugerir que «se pode entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer» (João 3,4). Jesus, que «fala do que sabe» (cf. João 3,11), explica que este novo início não pode ser uma repetição (seria uma contradição), nem o podemos alcançar pelos nossos meios. Não está nas nossas mãos poder chegar a ele. É dom de Deus. É-nos dado no batismo pelo poder criador de Deus. Mas Jesus esclarece ainda que, embora esta vida nova seja dom de Deus, dado por Deus, tal não significa, no que a nós diz respeito, que devemos ficar de braços cruzados, assumindo uma atitude meramente passiva. Na verdade, este início de vida nova, dom de Deus, dado por Deus, requer de nós que acreditemos no Filho Monogénito de Deus (João 3,16). A conexão entre nascer de Deus e acreditar no seu Filho está claramente afirmada em 1 João 5,1: «Todo aquele que acredita que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus (ek toû theoû gegénnêtai)».

    5. Daqui para a frente é todo o dizer do Evangelho deste dia (João 3,16-18). É, portanto, Jesus que se diz a Nicodemos. Não é a história ou a narrativa de um dizer livresco, amarelecido e anódino. É o Mestre que vem de Deus para dizer Deus a Nicodemos, a mim e a ti. Jesus não diz coisas; diz Deus. Não ensina conteúdos para aprender; dá-nos Deus que nos ama, e que, por amor, nos entrega o seu Filho Monogénito, Jesus, para acreditar, e muitos irmãos para amar. Portanto, Nicodemos fica sem jeito: não lhe compete apenas aprender o que Jesus lhe pode ensinar; compete-lhe receber Jesus, que Deus lhe entrega por amor. E compete-lhe ainda saber que esta enchente de amor, que vem de Deus, é para todos, e não apenas para ele, pelo que, responder a esta enxurrada de amor, passará sempre por amar também, no quotidiano, os seus irmãos.

    6. Sim, é tal a grandeza do amor de Deus por nós que, por amor de nós, entrega até o seu Filho Monogénito para assumir e absorver os nossos erros, saldar as nossas dívidas, suportar os nossos maus tratos e a nossa violência, poder ter mesmo que entregar a sua vida nas nossas mãos violentas e assassinas, sem deixar de nos amar, para nos salvar.

    7. A afirmação de Jesus é absolutamente assombrosa, impensável, desarmante: «Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho Monogénito» (João 3,16), o Filho do seu amor. Para que não nos passe ao lado a força do que acabámos de ouvir, talvez possamos perguntar: Quem é o pai ou a mãe (aqui presente) que está disposto a entregar o seu filho ou filha a um grupo de malvados para, com esse gesto de extrema ousadia, tentar retirar do mal aqueles malvados? Penso que não haverá (aqui) ninguém que se atreva a fazer uma coisa destas. O que nós não somos capazes de fazer, fê-lo Deus por nós, que não somos grande coisa! Entregou-nos o seu Filho querido, e nós cravámo-lo naquela Cruz!

    8. O texto do Antigo Testamento que faz equilíbrio com o Evangelho deste Dia Solene da Santíssima Trindade é a chamada magna charta do amor de Deus, que hoje podemos ler no Livro do Êxodo 34,4-9. A primeira frase [«E passou (ʽabar) o Senhor diante dele (Moisés), e proclamou/invocou (qaraʼ): “Senhor, Senhor”»], é de ligação, mas reveste-se de grande importância. A ação de «passar», por parte de Deus, significa, por um lado, a sua presença livre, boa e bela, e, por outro lado, que nós não podemos pôr sobre Ele a nossa mão, controlá-lo, nossa permanente tentação. «E passou o Senhor» (Êxodo 34,6) cumpre a promessa boa de Deus a Moisés, feita em Êxodo 33,19, de fazer passar diante de Moisés toda a sua bondade e beleza (kol-thûbî). E que esta «passagem» é boa e bela vê-se em contraponto com as visões do Livro de Amós, em que Deus declara: «Veio o fim (qets) para o meu povo, Israel; não continuarei a passar para ele (loʼʽabar lô)» (Amós 8,2; cf. 7,8). E o facto de o Senhor aparecer a proclamar/invocar (qaraʼ) o seu próprio Nome é coisa única, única vez em toda a Escritura em que o Senhor é sujeito do verbo qaraʼ, na expressão qaraʼ beshem, «proclamar/invocar o Nome». Por norma, a locução qaraʼ beshem YHWH encontra-se nos lábios dos adoradores e suplicantes, e significa aí «invocar o Nome de YHWH». Posta na boca do próprio Deus, a locução há de significar, em primeiro lugar, proclamar, mas sem anular a beleza e a surpresa de o próprio Deus invocar também o seu Nome, a sua plenitude de Amor, de que todos recebemos graça sobre graça (cf. João 1,16). A exegese costuma, neste lugar, acentuar o «proclamar», deixando de lado o «invocar», querendo quase explicar que Deus não pode invocar o seu próprio Nome, isto é, rezar. Mas só este duplo dizer de Deus, de revelação e de oração, constitui a verdadeira revelação de Deus, e assenta as bases para que o crente possa invocar proclamando, ou proclamar invocando, anunciando, rezando, com doçura e estremecimento, este Nome, esta Presença Amante e Fiel. Tão extraordinária maneira de dizer deixa-nos, pois, não no domínio da metafísica, mas no domínio da revelação, da anunciação, da oração, da adoração, ato fundador e modelar da nossa oração, contemplação e ação.

    9. Não será, neste contexto, de estranhar que, nesta exposição de Deus, Deus exposto diante de Moisés com toda a sua bondade e beleza, como acontece em Êxodo 34,6-7, e que não pode deixar de lembrar Jesus Cristo exposto (proétheto) na Cruz (cf. Romanos 3,25), «exposto por escrito (proegráphê) diante dos nossos olhos» (Gálatas 3,1), Moisés se tenha «apressado a responder ajoelhando-se (qadad) no chão e prostrando-se em adoração (hishtahawah, forma hitpael de shahah), e dizendo: “Por favor, se encontrei graça aos teus olhos (՚im-na՚ matsa՚tî hen beՙênêka), Senhor, vem, por favor, Senhor, para o meio de nós, que somos um povo de dura cerviz, e perdoa (salah) a nossa culpa e o nosso pecado”» (Êxodo 34,8-9).

    10. Entre esta necessária aproximação teofânica centrada no essencial, e o essencial é sempre pessoal, que é a passagem boa e bela de Deus (Êxodo 34,6a), exposição de Deus, e a oração e adoração humana por ela provocada (Êxodo 34,8-9), sem os fenómenos exteriores habituais, como relâmpagos, trovões, tremores de terra, fogo devorador (cf. Êxodo 19,16 e 18), aí está, dentro do caixilho, o quadro central, que abre com a repetição do Nome «Senhor, Senhor», única vez em toda a Escritura, duplicação certamente com valor enfático, mas também litúrgico, orante, adorante. Deus diz-se a Si mesmo como nos diz a nós: «Moisés, Moisés» (Êxodo 3,4), «Samuel, Samuel» (1 Samuel 3,4), «Saulo, Saulo» (Atos 22,7), com Amor imenso e intenso, orante, comovido, exposto! Convenhamos que, neste tremendo dizer, não conta apenas o facto de Deus se dizer a Si mesmo. Conta também, e talvez sobretudo, o modo como Deus se diz a Si mesmo.

    11. O Apóstolo traz-nos hoje, no final da sua correspondência com a comunidade de Corinto (2 Coríntios 13,11-13), a fórmula trinitária com que abrimos a nossa Eucaristia: «A graça do Senhor Jesus Cristo e o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós». É, de facto, em clave trinitária que vivemos e rezamos. É esta a vida eterna (zôê aiônios) a que, por graça, somos chamados e destinados: viver na graça de Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

    António Couto


  • 1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio II do Vaticano, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

    2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se Fé.

    3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico ʼemûnah. ʼEmûnah deriva do verbo ʼaman, cujo significado primeiro e material é «segurar», «firmar», mas, traduzido em termos interpessoais, significa «fiar-se», «confiar», «ser fiel». É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

    4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo ʼaman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal, pois pode derivar de ʼem, que significa mãe, e está em consonância com ʼomen, que significa mãe ou ama, e com ʼamûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado de qualquer mãe que o seja de verdade, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

    5. Significativamente foi a esta relação interpessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança, simplicidade e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

    6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternais e paternais, mais maternais que paternais: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

    7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternais.

    António Couto


  • A bíblica «verdade», hebraico ʼemet, não é apenas a conformidade entre as coisas e a mente, como ensinam Aristóteles e Tomás de Aquino. A bíblica verdade (ʼemet) deriva de ʼem, que é como se diz «mãe» na língua materna de Jesus. A verdade bíblica não é, portanto, da ordem das ideias, mas da ordem pessoal, maternal. E é de ʼem também que deriva ʼemûnah, que significa «fé», «fidelidade», «firmeza». Em mundo bíblico, a verdade, como a fé, não são, portanto, da ordem das ideias, mas da ordem pessoal, maternal. A verdade e a fé são, na Bíblia, como uma «mãe», figura que inspira e gera firmeza e confiança, que ternamente segura e carinhosamente cuida do seu bebé, e que, por nada deste mundo, o deixa cair ao chão. É assim também a nossa relação com Deus, a que nos agarramos, e que, por nada deste mundo, nos deixa cair. Atravessamos, como sabemos, o mês de maio, que é o mês de Maria, o mês da mãe de Deus e nossa mãe, o mês da «verdade» e da «fé», o mês de uma «verdade» e de uma «fé» que se chamam confiança e fidelidade, e que reclamam uns braços ternos e firmes, que nos seguram sempre.

    Neste mês que te é dedicado, Maria, nós te saudamos com filial ternura, e te pedimos que nos ensines a viver com verdade e fé, isto é, com confiança, segurança, simplicidade, fidelidade e felicidade. Dá-nos, Senhora da Alegria, umas mãos suaves e firmes como as tuas, uns pés ágeis para correr sobre as montanhas, uns olhos mansos que encham este mundo de paz e de beleza, e um coração maternal que palpite de amor e dedicação, sem engano nem engodo. Mãe de maio, vela por nós!

    António Couto


  • Todas as tuas criaturas, Senhor,

    respiram, vivem, sorriem,

    cantam,

    por causa do teu alento criador.

    O teu pão de mil sabores

    sacia todas as fomes e todas as dores,

    a tua Palavra bela e plena de harmonia

    a todos envolve e alumia,

    irmana, aconchega e alivia.

    Por isso,

    qinda que espalhados pelos quatro cantos do mundo,

    continuamos todos reunidos no Cenáculo,

    a primeira Catedral da Igreja nascente,

    mas com ramificações em todas as casas,

    em todos os corações,

    bem assente em quatro colunas:

    o ensino dos Apóstolos,

    a comunhão fraterna,

    a fração do pão

    e a oração.

    Com a boca cheia de louvor,

    os olhos de graça,

    as mãos de paz e de pão,

    as entranhas de misericórdia e de perdão,

    a comunidade bela crescia, crescia, crescia.

    Não admira.

    era tão jovem, leve e bela,

    que as pessoas lutavam por entrar nela!

    Envia, Senhor,

    sobre nós,

    o teu vento,

    o teu alento,

    o teu Espírito,

    e renova por favor,

    renova por amor

    a nossa face

    e a face da terra.

    António Couto


  • O medo não habita a nossa casa.

    O medo transforma a nossa casa em fortaleza,

    tranca portas e janelas,

    esconde-se debaixo da mesa.

    Mas vem Jesus e senta-nos à mesa.

    Começa a contar histórias e estrelas,

    leva-nos até ao colo de Abraão,

    até à Criação,

    sopra sobre nós um vento novo,

    rasga uma estrada direitinha ao coração:

    chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.

    Varrido para o canto da casa pelo vento,

    rapidamente todo o medo arde.

    Ardem também bolsas, portas e paredes,

    e surge um lume novo a arder dentro de nós,

    mas esse não nos queima nem o podemos apagar.

    Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,

    com esse vento, com esse fogo dentro,

    portugueses, ucranianos, russos e chineses,

    começamos a falar e tão bem nos entendemos,

    que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.

    E afinal não temos.

    Vendo melhor,

    maternais mãos invisíveis nos embalam,

    nos sustentam.

    Sentimos que estamos a nascer de novo,

    percebemos que somos irmãos,

    filhos renascidos deste vento, deste lume.

    E não é verdade que falamos,

    mas que alguém dentro de nós fala por nós,

    chama por Deus,

    como um menino pelo Pai.

    António Couto


  • Domingo de Pentecostes

    Atos 2,1-11; Salmo 104; 1 Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23

    1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num lugar, tolhidos e sedados pelo medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!» Claro que não é a paz feita pelas armas, como no mundo romano, nem a paz que é fruto de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense. Esta Paz que Jesus insiste em dar tem um aroma diferente: é dom de Deus! Jesus mostra-lhes então, não o rosto, mas as mãos e o lado, bilhete de identidade de Jesus, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, Vida dada por amor, para sempre e para todos, e vincula os seus discípulos à sua missão de dar a vida por amor: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô: tempo presente)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo que os envolvia foi dissipado) ao verem a identidade (idóntes: part. aor2 de horáô) do Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles veem com um olhar histórico e a renovar todos os dias (indicações do tempo aoristo) a identidade do Senhor.

    2. «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. A missão de Jesus não nasce das suas ideias e jeito pessoal, nem é determinada pela sua própria vontade, mas sim pela vontade do Pai: tem o seu fundamento no Pai. Em tudo o que fez e disse, sempre Jesus manifestou, de forma clara, que era a sua comunhão com o Pai a nascente da sua missão. Portanto, assim como Jesus estava em tudo em comunhão com o Pai, também os discípulos devem estar em tudo em comunhão com Jesus. Decorre daqui que os discípulos enviados em missão não se devem apresentar em nome próprio nem agir segundo o próprio modo de pensar, fiando-se nas suas capacidades. Devem, antes, apresentar-se em nome de Jesus e sempre vinculados à missão que dele receberam. Devem ainda, como Jesus, para que a sua mensagem não soe a falso, identificar-se completamente com a mensagem proclamada. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este vento, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

    3. O texto luminoso do Livro dos Atos dos Apóstolos 2,1-11, que enche e dá o tom ao dia de hoje, merece ser estendido diante de nós, e por nós bem entendido. Ei-lo: «Ao ser completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. E veio de improviso, do céu, um ruído como de uma ventania impetuosa, que encheu toda a CASA onde estavam sentados. Fizeram-se ver a eles línguas como de fogo, que se dividiram, e sentou-se uma sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, como o Espírito dava a eles de se exprimir. Estavam então em JERUSALÉM judeus residentes, homens piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu. Tendo vindo, então, este som, convergiu a multidão e ficou perplexa, porque ouviam, cada um na própria língua, aqueles que falavam. Estavam fora de si e maravilhavam-se, dizendo: “Não são galileus todos estes que estão a falar? E como é, então, que nós ouvimos, cada um na nossa própria língua em que nascemos? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia vizinhas de Cirene, romanos residentes, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los falar nas nossas línguas as maravilhas de Deus!”».

    4. É fácil verificar que o texto se articula em duas vagas sucessivas: a primeira agrupa os vv. 1-4, e a segunda os vv. 5-11. Um único lugar no tempo, um único dia, o 50.º da Páscoa, marca as duas vagas, mas são dois os lugares no espaço que ocupam: a CASA, a sala alta do Cenáculo (vv. 1-4), e a CIDADE aberta ao mundo (vv. 5-12), que empresta à cena uma ressonância mundial. As duas vagas estão marcadas, logo a abrir (vv. 2 e 6), pelo verbo grego gínomai, que é o verbo típico de um acontecimento que não podemos deduzir nem produzir, mas apenas constatar e descrever. Exatamente o contrário de uma doutrina, que se situa na esfera da demonstração e dedução. Qual é o acontecimento? O vento forte e o fogo que, vindos do céu, caem de improviso sobre todos os que estão sentados na casa, irrompendo depois para as praças e ruas da cidade.

    5. Lá estamos nós, como se vê e era hábito, todos reunidos no Cenáculo. Mas somos logo varridos e recriados pelo vento impetuoso e incontrolável do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, Mestre novo dos tempos novos, que orienta e guia a nossa vida, a nossa mente, coração, entranhas, mãos, pés… É o cumprimento da segunda das cinco promessas acerca da Vinda do Espírito feitas por Jesus no Evangelho de João: «Ensinar-vos-á todas as coisas e recordar-vos-á tudo o que Eu vos disse» (João 14,26). Realização em casa, no Cenáculo (Atos 2,1-4). Verificação na cidade e no mundo (Atos 2,5-11): eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna. Mas a nossa língua materna não é simplesmente o português ou o francês ou o inglês ou o chinês, mas aquele perfeito entendimento que existe entre nós e a nossa mãe, quando somos bebés, do tempo da palavra antes das palavras, divina e humana lalação, que passa por sons e intuições, que não precisam de gramática nem sintaxe nem dicionário. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Claro que não são as outras linguagens do Pentecostes ou do Espírito, em que todos entendem tudo tão bem! E em que todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

    6. É esta divina lalação (stenagmòs alálêtos) (Romanos 8,26) do Espírito, única menção desta locução no Novo Testamento, que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que «Deus é Pai» (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros, para que nasça e cresça a comunidade (1 Coríntios 10,23-24).

    7. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira (Lucas 22,12), do último serão de Jesus com os seus discípulos (Lucas 22,21-38), da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos (Lucas 24,36), da eleição de Matias (Atos 1,26), da descida do Espírito Santo no Pentecostes (Atos 2,1-4), enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Atos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo cristão, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica da Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

    8. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Atos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

    9. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão. Maravilhoso saber que nos assemelha a Deus, que sabe e cuida de nós (Êxodo 2,25), e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Génesis 4,9), e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mateus 26,70.72.74).

    10. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas diretamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afeta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

    11. Esta torrente de vida nova e não programada ou programável, esta ventania incontrolável, este fogo manso abalroa primeiro aquela casa e logo a seguir a cidade inteira, inunda sem aviso cada coração e move inteligências e vontades. Em plena cidade e a plenos pulmões, São Pedro traduz assim este vendaval manso: «Este Jesus, Deus o ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou-o sobre vós, e é isto o que vós vedes e ouvis» (Atos 2,32-33). Em pleno acordo com o dizer de Jesus em João 7,37-39: «Quem tem sede, venha a mim e beba. O que acredita em mim, como diz a Escritura, do seu seio jorrarão rios de água viva». E o narrador comenta com rigorosa precisão: «Isto dizia do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado nele, pois não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado». Sim, o Espírito Santo vem para nós da Humanidade glorificada do Senhor Jesus. Daí o importante inciso no início do cânon da Solenidade da Ascensão do Senhor, que refere esse dia como «O dia santíssimo em que Jesus Cristo, vosso Filho Unigénito, colocou à direita da vossa glória a nossa frágil natureza humana unida à sua divindade». Imprescindível. É desta humanidade glorificada do Senhor que vem o Espírito Santo para nós.

    12. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

    13. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós»: «Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo» (Atos 5,32); «O Espírito Santo e nós decidimos…» (Atos 15,28).

    14. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

    António Couto


  • O mês de maio

    traz-nos sempre

    Maria pela mão.

    E, talvez possamos mesmo dizer,

    com maior exatidão,

    que é Maria

    que nos leva pela mão

    em cada dia

    deste mês de maio.

    Confesso

    que vou pela vida muitas vezes distraído,

    de tal modo que tropeço

    como um catraio,

    e às vezes caio,

    e até desmaio,

    e fico sem saber bem

    se entro ou se saio.

    Mas sei bem,

    isso sei bem,

    que tu, Mãe,

    estás sempre lá à porta,

    à minha espera.

    Sei lá se entro ou se saio,

    se caio,

    se desmaio.

    O que sei bem

    é que tu, Mãe,

    estás sempre lá à porta,

    à minha espera,

    Senhora ao pé-da-porta,

    ao pé-da-noite,

    ao pé-do-dia,

    ao pé-da-luz,

    minha Mãe e Mãe de Jesus.

    Sei lá se entro ou se saio,

    se caio,

    se desmaio.

    Se caio é nos teus braços,

    e adormeço.

    Mas só sei que adormeço,

    porque depois desperto

    ainda no teu colo,

    ou contigo por perto.

    Minha Mãe de maio,

    Senhora da Alegria,

    vela por mim sempre,

    de noite e de dia.

    António Couto


  • Maio chega sempre contigo pela mão.

    Nós te damos graças, Senhor,

    pelas muitas maravilhas

    que continuamente realizas no meio de nós,

    e nos falam de Ti e do teu amor por nós.

    Nós te damos graças por Maria,

    causa da nossa alegria,

    feliz porque acreditou

    em Ti e na tua palavra,

    e tudo Te entregou,

    ficando sem nada,

    como uma escrava.

    Isabel abriu esse grito de felicitação,

    que rapidamente se tornou em canto coral

    até hoje prolongado de geração em geração.

    Sim, uma escrava nada é, nada tem.

    Tudo é do seu Senhor.

    Não tem idade nem identidade,

    nem sol nem luar,

    nem noite nem dia.

    É Deus que a alumia.

    Assim é Maria, nossa Mãe.

    Assim devem ser os seus filhos também.

    António Couto


  • Com a sua Ressurreição e Ascensão aos Céus,

    é glorificada a humanidade do Filho de Deus e de Maria,

    Jesus,

    e é desta humanidade glorificada,

    à direita de Deus sentada,

    que vem o Espírito Santo para nós.

    É, portanto, do vosso interesse, diz Jesus, que Eu vá,

    pois se Eu não for,

    o Espírito Santo não virá para vós.

    Com a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes,

    celebramos, pois, a humanidade glorificada de Jesus,

    da qual,

    por contágio sacramental,

    recebemos o Dom de Deus, o Espírito Santo.

    Senhor Jesus,

    enche a nossa frágil humanidade da riqueza da tua divindade,

    e derrama no nosso humano coração

    o Espírito da consolação,

    da paz e da alegria.

    António Couto


  • Solenidade da Ascensão do Senhor

    Atos 1,1-11; Salmo 47; Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20

    1. A Ascensão do Senhor ao Céu põe diante de nós o «Senhor sem limites», Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, Exaltado à direita do Pai e à sua direita Sentado: aí está exposta diante de nós a Humanidade Glorificada de Jesus, única fonte do Espírito Santo para nós (cf. João 7,39; 19,30; Atos 2,32-34). Embora em Deus tudo seja simultâneo e coeterno, no nosso discurso sobre Deus entende-se que a Ascensão precede o Pentecostes, e que não pode haver Pentecostes sem Ascensão: «É do vosso interesse que Eu vá; se Eu não for, o Espírito não virá para vós», diz Jesus (João 16,7). «Pois não havia ainda Espírito (para nós), porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). O Espírito vem para nós apenas da humanidade glorificada de Jesus. Daí, a necessidade da Ascensão. Na dinâmica da «economia» divina, foi necessário esperar a vinda deste terceiro tempo, ou tempo do Espírito, para sermos conduzidos à «verdade toda inteira» (João 16,13; cf. 14,26), que é precisamente a do Pai e do Filho. E é desta Díade divina com o Espírito, que é possível, a partir da letra da Escritura Santa, inferir a relação de consubstancialidade unida, mas não confusa, como se lê em João 10,30: «Eu e o Pai somos Um», não uma pessoa, mas uma realidade ou substância, como deriva do numeral neutro (hén), logo seguido por Mateus 28,19, com o batismo de todas as nações «no Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo», Único Nome indicando a substância pessoal comum dos Três Unidos, o Único Deus, Três hypóstasis em plena e permanente synousía. É fácil perceber que esta ordem diacrónica, ou narrativa, é a ordem do nosso Credo. De facto, o caminho trinitário da Bíblia é o da sucessão, dito «económico», das três Pessoas divinas. Neste sentido, diz bem S. Gregório de Nazianzo (329-389), conhecido como «o Teólogo» (ho teólogos): «O Antigo Testamento proclamava manifestamente o Pai, o Filho de forma mais obscura. O Novo manifestou o Filho, e deixou entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito tem direito de cidadania (empoliteúetai) entre nós, e dá-nos uma visão mais clara de si mesmo».

    2. Mateus 28,16-20 é a última página do Evangelho de Mateus, e é hoje, na Solenidade da Ascensão do Senhor, solenemente proclamada para nós. Encerra o Evangelho de Mateus, condensa-o e resume-o, e abre aos Discípulos e Irmãos do Ressuscitado novos e insuspeitados horizontes. Hoje vale a pena visitar atentamente o texto: «Então os Onze Discípulos partiram para a Galileia, para o monte que lhes tinha ordenado Jesus. E vendo-o, adoraram-no (proskynéô); alguns deles, porém, duvidaram. E aproximando-se, Jesus falou-lhes (laléô), dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade (exousía) no céu e na terra. Indo (poreuthéntes), pois, fazei discípulos (mathêteúsate) de todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que Eu convosco Sou (egô meth’ hymôn eimi) todos os dias até ao fim do mundo”» (Mateus 28,16-20).

    3. Algumas notas surpreendentes enchem a página, o pátio, o átrio sempre entreaberto do Evangelho para o mundo: 1) a autoridade soberana e nova de Jesus [«Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra»], assente, não na distância, mas na proximidade e familiaridade; 2) a missão universal confiada a uma Igreja discipular, toda reunida à volta de um único Mestre e Senhor; 3) só nesta página é dito que os Discípulos devem, por sua vez, ensinar, não se tornando, todavia, Mestres, mas permanecendo Discípulos; 4) não ensinam, por isso, nada de próprio nem por conta própria, mas apenas «tudo o que Ele ordenou», como Jesus, o Filho, que só diz o que ouviu dizer (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e só faz o que viu fazer (João 5,19; 17,4), e como o Espírito Santo, que não falará de si mesmo, mas apenas o que tiver ouvido (João 16,13); 5) a Presença nova e permanente [= «todos os dias»] do Ressuscitado na comunidade discipular; 6) este é o tempo novo e cheio, pleno, plenificado, a transbordar de plenitude e universalidade, que abarca a totalidade, fazendo de Jesus «o Senhor sem limites»: daí a repetição por quatro vezes do adjetivo todo (pãs): foi-me dada toda a autoridade, fazei discípulos de todas as nações, ensinando-os a observar todas as coisas, convosco sou todos os dias.

    4. A soberania nova, próxima e familiar, é já preparada pela cena anterior em que o anjo reorienta os passos das mulheres do túmulo para a Galileia, dizendo-lhes: «Indo depressa, dizei aos seus discípulos (toîs mathêtaîs autoû) que Ele ressuscitou dos mortos e vos precede (proágei hymâs) na Galileia» (Mateus 28,7). De forma grandemente significativa, o próprio Jesus surpreende as mulheres no caminho, e reformula assim o dizer do anjo: «Ide e anunciai aos meus irmãos (toîs adelphoîs mou) que partam para a Galileia, e lá me verão» (Mateus 28,10). Aí está a nascer a nova e indestrutível familiaridade: meus irmãos, diz Jesus, o Ressuscitado, apontando para nós e envolvendo-nos num imenso abraço fraternal. E chegados à Galileia, de acordo com o dizer de Jesus, e ao monte indicado por Jesus (Mateus 28,16), é ainda Jesus que toma a dianteira e se aproxima deles e de nós (Mateus 28,18). É sempre d’Ele a iniciativa. O monte lembra e reúne em analepse todos os montes que atravessam o Evangelho de Mateus: o monte da tentação (Mateus 4,8), o das bem-aventuranças (Mateus 5,1), o da oração (Mateus 14,23), o das curas (Mateus 15,29-31) e o da Transfiguração (Mateus 17,1), em que é sempre Ele que abraça e abre caminhos novos à nossa frágil humanidade.

    5. Aquele «Indo, fazei discípulos de todas as nações» (Mateus 28,19) é a missão sem fim que é colocada diante dos nossos olhos, pois todas as nações são todos os corações. E «Indo» é não ficar aqui ou ali à espera. Implica mudança de lugar e de modo: não ficar aqui ou ali e não ficar assim, preparando já as palavras inteiras de S. João Paulo II na preparação do Grande Jubileu do ano 2000, e que Bento XVI evocou em 2005: «Paróquia, procura-te a ti mesma e encontra-te a ti mesma fora de ti mesma». É a estrada sem medida de Abraão que se abre à nossa frente. E se medida tem é a medida sem medida da eleição, da bênção e da missão. Mas não estamos sozinhos nessa estrada. Ele está connosco todos os dias. Aquele «Indo» (poreuthéntes), particípio aoristo, implica, pois, a nossa participação diária n’Ele e na missão d’Ele. O seu nome, a sua identidade, é estar connosco. É assim a terminar o Evangelho: «Eu convosco Sou todos os dias até ao fim dos tempos» (Mateus 28,20). Note-se a intensidade e a beleza da sanduíche: «Eu [convosco] Sou» (Egô [meth’ hymôn] eimi). É assim também a abrir o Evangelho: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-lo-ão (kalésousin) Emanuel, que se traduz: “connosco Deus”» (Mateus 1,23). Connosco a abrir. Connosco a fechar. Então é assim todo o Evangelho, como indica a figura da inclusão literária. Mas a inclusão literária em paralelismo ou em confronto vai ainda da Galileia para onde se dirige Jesus (Mateus 4,12-17) à Galileia para onde se dirigem os Discípulos (Mateus 28,16), da visão do Menino pelos Magos (Mateus 2,11) à visão do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), da adoração do Menino pelos Magos (Mateus 2,2 e 11) à adoração do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), do (algum) poder deste mundo prometido pelo diabo a Jesus (Mateus 4,9) ao (todo) o poder sobre o céu e a terra dado por Deus ao Ressuscitado (Mateus 28,18). Sim, o Senhor sempre no meio de nós, Deus sempre connosco. Não apenas com alguns. Mas com todos. Note-se como o narrador, que está a citar Isaías 7,14 a partir da versão grega dos LXX, atualizou para a 3.ª pessoa do plural a forma verbal: de «chamá-lo-ás» (kaléseis LXX), 2.ª pessoa do singular, para chamá-lo-ão (kalésousin). O texto hebraico de Isaías 7,14 tem «chamar-lhe-á» (weqaraʼt), 3.ª pessoa do singular feminino.

    6. E aquele «ensinando» (didáskontes) discipular, e não magistral, apela mais à nossa fidelidade do que à nossa autoridade, iniciativa e capacidade. De resto, para evitar dúvidas e deixar tudo claro, lá está bem expresso o conteúdo deste ensinamento novo: «tudo o que Eu vos ordenei» (Mateus 28,20). Este «tudo» exclui qualquer acrescento a nosso gosto. É só permanecendo Discípulos fiéis que se pode ensinar. Discípulo define o estilo de vida de quem segue com fidelidade o Senhor que nos preside e nos precede sempre (Mateus 28,7). Portanto, «Vós, não vos façais chamar por Rabbî [literalmente «meu maior»], pois um só é o vosso Mestre (didáskalos), e vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8). Irmãos e pequeninos. Tornemo-nos, pois, imitadores de Paulo, por sua vez imitador de Cristo (1 Coríntios 11,1): «Tornámo-nos crianças (nêpioi) no meio de vós, como uma mãe (trophós) que acalenta (thálpê) os próprios filhos (heautês tékna) (1 Tessalonicenses 2,7); «fiz-me escravo de todos», «fiz-me tudo para todos»; «tudo faço por causa do Evangelho» (1 Coríntios 9,19.22.23). Disse bem S. João Paulo II: «Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-l’O para si; tem de O anunciar» (Novo Millennio Ineunte [2001], n.º 40).

    7. É esta imensa, impenetrável notícia que os Discípulos de Jesus devem saber levar e semear de mansinho no subtilíssimo segredo de cada humano coração. Jesus Cristo, o Ressuscitado, vem visitar os seus Irmãos. Não. Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada.

    8. O Livro dos Atos dos Apóstolos 1,1-11 retoma esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê), e uma nuvem O subtraiu (hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Atos 1,9-11). Entenda-se ainda bem que o Livro dos Atos é dedicado a Teófilo (Theóphilos), «amigo de Deus», e, por isso, Teófilo permanece de pé, com os olhos fixos no céu. Aí está o retrato do leitor e testemunha destes acontecimentos, não dobrado sobre si, incurvatus in se, como refere Lutero, amigo de si mesmo (phílautos), conforme o retrato em negativo que encontramos em 2 Timóteo 3,2.

    9. Tanto VER. Da panóplia de verbos registados (blépô, atenízô, horáô, emblépô, theáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus. Mas mais ainda do que o que se vê, estes verbos acentuam o modo como se vê. É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Atos 1,11). Ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. É, pois, importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espetacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.

    10. Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ATO propriamente dito dos Atos dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Atos 3,1-10: «Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona [= 15h00]. E um certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os dias diante da Porta do Templo, dita a Bela, para pedir esmola àqueles que entravam no Templo. Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para receber. Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós” (blépson eis hemâs). Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma coisa. Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha. E, tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. Com um salto, pôs-se em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a Deus. E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. E reconheciam que era aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Atos 3,1-10).

    11. Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáô, atenízô, blépô, epéchô. Atenízô desenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépô retrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos. Significativo agrafo: estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Atos dos Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Atos 1,9-10). De resto, blépô conhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Atos dos Apóstolos: duas no relato da vocação de Paulo (Atos 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,41; cit. de Habacuc 1,5), e a quarta e última no decurso da viagem marítima de Paulo para Roma (Atos 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e veem-no semelhante a um anjo (Atos 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e JESUS, de pé, à direita de Deus (Atos 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do Senhor, que o interpela (Atos 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu, dos animais impuros (Atos 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre, para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Atos 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando testemunho de JESUS (Atos 23,1).

    12. É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Atos 3,6), que se fixa sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira. Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver, a Terra Prometida: «a terra que Eu te farei Ver» (Génesis 12,1), «que o Senhor lhe fez Ver» (Deuteronómio 34,1), «Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Deuteronómio 34,4). O narrador anota mais à frente que o coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Atos 4,22), tipologia do povo perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida. Como o homem doente havia 38 anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (João 5,1-9).

    13. É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que preenche por inteiro o primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos, com realce para Pedro. Mas é ainda grandemente sintomático que o primeiro ATO de Paulo, descrito em Atos 14,8-10, que é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie o primeiro ATO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os dois grandes Apóstolos e os dois tempos da missão. Eis o texto referido de Atos 14,8-10: «E em Listra um homem estava sentado, sem força nos pés, coxo desde o ventre da sua mãe, e que nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, o qual, tendo fixado os olhos (atenísas) nele, e tendo visto que tinha fé para ser salvo, diz com voz forte: “Levanta-te direito sobre os teus pés!” E ele deu um salto e caminhava» (Atos 14,8-10). Aqui temos o mesmo coxo de nascença, o mesmo Olhar significativo e diaconal, sem poder, sem ouro nem prata, Ver JESUS, o mesmo levantamento do coxo. E também aqui, na sequência do texto, temos o aceno à multidão que disperdia o olhar, vendo em Paulo e Barnabé deuses em forma humana, e a mesma correção, feita por Paulo, apontando JESUS (Atos 14,11-18).

    14. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Os olhos do coração iluminados, como diz o Apóstolo à comunidade mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!

    15. Ponhamos tudo isto em imagem, como convém neste Domingo em que a Igreja celebra o Dia das Comunicações Sociais, instituição que tem as suas raízes diretamente no Concílio II do Vaticano (Decreto Inter Mirifica, n.º 18), e que foi celebrado pela primeira vez, com mensagem de Paulo VI, em 7 de maio de 1967. Eis então diante de nós, no cume do Monte das Oliveiras, um pequeno Templo, arredondado, chamado Imbomon [= «sobre o cume»], grecização do hebraico bamah [= «lugar alto»], a 818 metros de altitude, um pouco acima da Ecclesia in Eleona [= «no Olival»], que remonta a Santa Helena, hoje Pater Noster, e a curta distância de Jerusalém, a distância do caminho de um sábado (Atos 1,12), que é de 1892 metros. As construções cristãs do Imbomon remontam ao longínquo ano de 376, com reconstrução dos Cruzados em 1152, ocupadas depois, em 1187, pelos muçulmanos. A construção dos Cruzados, que respeitava a primitiva construção, tinha no centro um tambor encimado por uma cúpula aberta no centro, justamente para servir de suporte à imagem da Ascensão patente em Atos 1,9-11. Em 1200, os muçulmanos fecharam esse ponto de luz com uma cúpula de estilo árabe, escondendo assim a visão de Atos 1,11: «Porque estais aí a olhar para o céu?».

    16. O texto de hoje da Carta aos Efésios 1,17-23 completa maravilhosamente as passagens da Escritura que já vimos. Depois do grande hino (vv. 3-14), em que se bendiz o Pai, mediante o Filho, no Espírito Santo a nós dado, cantamos agora, guiados sempre por São Paulo, o primado da Humanidade do Senhor, obra admirável do Pai, para proveito nosso. E começamos com a epiclese ao Pai para que nos dê o dom do Espírito, que é a Sabedoria divina, o «conhecimento profundo» (epígnôsis) das Realidades divinas (v. 17). Tudo provém do único e omnipotente Acontecimento divino: Jesus Cristo Ressuscitado e Sentado à direita nos Céus (vv. 19-20). É assim que, da sua Humanidade glorificada vem para nós, por graça, o Espírito Santo, a verdadeira plenitude (v. 23).

    17. O Salmo 47 é um Salmo da realeza de YHWH, que canta, com grande energia, a soberania de Deus sobre todos os povos (vv. 1-3.7-10), sem deixar também de particularizar Israel (vv. 4-5), «a mais bela entre todas as nações» (Ezequiel 20,6). Ajusta-se também perfeitamente, no mundo católico, à Festa da Ascensão de Cristo, sobretudo por causa do v. 6, em que lemos que «Deus se eleva por entre aclamações». Devido ao seu tom geral, Israel canta este Salmo sete vezes antes de soar o toque do shôfar para assinalar a entrada do Ano Novo.

    António Couto


  • Atravessar o mês de maio,

    de perfumes e flores

    e de cores

    é também encontrar Maria,

    causa da nossa alegria

    e dos nossos amores.

    Lembro-me de quando era criança,

    e íamos, ao cair da noite,

    em passo manso e ligeiro,

    rezar o terço à capela do Outeiro.

    Lembro-me da música dos grilos,

    que enchia a pradaria

    de terna e intensa melodia,

    e da mágica luz dos pirilampos,

    que, sem arder, ardia,

    e enchia de cor e fantasia

    os meus olhos, os quelhos e os campos.

    Como são belos os caminhos de maio,

    belos e pequeninos,

    cheios de peregrinos,

    minha Mãe de maio!

    Vela por nós, Senhora da Alegria,

    hoje, nesta hora, em cada dia,

    Ave-Maria!

    António Couto


  • Treze de maio de dois mil e vinte e seis,

    ano da Graça, da Misericórdia e da Alegria,

    hoje todos os caminhos vão dar a Fátima,

    à Cova da Iria,

    a Maria.

    Titubeantes ou firmes,

    à chuva e ao frio,

    vão os teus filhos,

    desfiando o rosário,

    como se fosse o abecedário

    das suas vidas doridas.

    Vão ter contigo, Mãe,

    alívio das suas dores,

    atiram-te flores

    com gestos de ternura.

    Sabem que acolhes com doçura

    as suas preces tecidas de lã pura,

    à mistura

    com uma lágrima de amor

    na despedida.

    Abençoa, Senhora e Mãe querida,

    estes teus filhos e filhas,

    e recolhe-os no manto

    branco

    das tuas maravilhas.

    Roga por nós, Senhora de Fátima.

    António Couto


  • 1. Vivemos numa sociedade de consumismo. Também de consumismo verbal, líquido e volátil, em que as palavras e as palmas levitam e voam. O Papa Francisco apareceu em Fátima, sóbrio e simples, debilitado, estreme, essencial. Um homem de fé, um homem de pé, diante de Maria, a Mãe, que Isabel já tinha definido como «aquela que acreditou». «Mãe» é também uma figura essencial, um termo essencial, que não precisa de ser explicado, para se perceber o seu peso específico e o seu significado, como sucede, de resto, com outros termos essenciais que atravessam o Evangelho, como «casa», «porta», «pão», «água», «luz», «pastor», «caminho», «vida», «videira».

    2. Em 12 de maio de 2007, no Santuário de Aparecida, no Brasil, Bento XVI recorreu ao termo, igualmente estreme e essencial, «casa», para desenhar a fisionomia bela da Igreja: «A Igreja é a nossa casa! Esta é a nossa casa!», insistiu. Em 13 de maio de 2017, no Santuário de Fátima, o Papa Francisco encheu a casa de ternura e de alegria com a figura da Mãe: «Temos Mãe! Temos Mãe!», repetiu. Homem de fé, homem de pé, em casa, diante da Mãe, simples, debilitado, estreme, essencial, sem excessos nem retóricas. «Acreditei, por isso falei» (2 Coríntios 4,13), é a razão de São Paulo ser como é. «Acreditei, por isso falei», é a razão de Francisco ser como é.

    3. Por tudo, demos graças a Deus, e peçamos à Sua e nossa Mãe que nos acolha como filhos, simplesmente como filhos, sem alaridos, na sua casa de graça iluminada!

    António Couto


  • 1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio II do Vaticano, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

    2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se Fé.

    3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico ʼemunah. ʼEmunah deriva do verbo ʼaman, cujo significado primeiro e material é «segurar», «firmar», mas, traduzido em termos interpessoais, significa «fiar-se», «confiar», «ser fiel». É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

    4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo ʼaman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal, pois pode derivar de ʼem, que significa mãe, e está em consonância com ʼomen, que significa mãe ou ama, e com ʼamûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado de qualquer mãe que o seja de verdade, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

    5. Significativamente foi a esta relação interpessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança, simplicidade e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

    6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternos e paternos, mais maternos que paternos: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

    7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternais.

    António Couto


  • O Filho e o Espírito Santo são,

    no dizer de Santo Ireneu de Lião,

    as duas mãos do Pai,

    enviadas em missão

    para junto dos seus filhos de adoção.

    À semelhança, claro,

    daquelas mãos de amor,

    que, no alvor da Criação,

    modelaram da terra pura o nosso coração,

    e de misericórdia o vestiram.

    Filhos no Filho, divina hyiothesía,

    hemorragia de graça e de alegria:

    Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

    e dá-nos em herança a sua divina filiação.

    E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

    divina comunhão, sem confusão,

    toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

    e faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

    a mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

    António Couto


  • Domingo VI da Páscoa

    Atos 8,5-8.14-17; Salmo 66; 1 Pedro 3,15-18; João 14,15-21 

    1. O texto que o Evangelho deste Domingo VI da Páscoa (João 14,15-21) nos oferece enquadra-se naquele monumental Testamento que, no IV Evangelho, Jesus pronuncia, em ondas sucessivas, após a Ceia com os seus Discípulos (João 13,12-17,26). Neste imenso texto, cujas linhas temáticas vêm e refluem e voltam a vir e a refluir, à maneira das ondas do mar que vêm sobre a praia, refluem e voltam, assistimos hoje ao primeiro dos cinco dizeres de Jesus, no IV Evangelho, relativos à Vinda do Espírito Santo, Paráclito (paráklêtos), isto é, Defensor [Advogado de defesa], Consolador e Intérprete. Este último significado deriva do aramaico paráklita, dos rabinos, que não tem o significado usual do grego (Defensor e Consolador), mas Intérprete, aquele que traduz Deus para nós e nós para Deus, fonte e ponte permanente de comunicação, compreensão e comunhão. O Espírito Paráclito é assim o grande construtor de pontes, comunhão e hifenização entre nós uns com os outros e com Deus. É, por isso, que Ele é o Amor, porque destrói todos os muros, preconceitos, ódios, divisões, incompreensões, asperezas, e faz nascer harmonia, amor, paz, comunhão, comunicação. Eis os cinco mencionados dizeres de Jesus, no IV Evangelho, sobre a Vinda do Espírito Santo, sempre dita no futuro: João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15.

    2. O texto de hoje põe Jesus a dizer que, a seu pedido, o Pai nos dará outro Paráclito (állon paráklêton) (João 14,16). Outro. Este outro é o Espírito Santo. Mas o facto de Jesus dizer «outro Paráclito» faz-nos entender que Ele é também Paráclito, portanto, que é também nosso Defensor, Consolador e Intérprete, como de resto surge afirmado com todas as letras na Primeira Carta de S. João 2,1: «Temos um Defensor (paráklêtos) junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo».

    3. O primeiro enviado do Pai é então o seu Filho, Jesus, que cumpre e revela o conteúdo da própria missão. O segundo enviado é o Espírito Paráclito. O Filho e o Espírito são, no dizer do grande bispo e teólogo Ireneu de Lião (130-202), as duas mãos do Pai amorosamente estendidas e enviadas em missão à humanidade. O Pai é, em relação aos dois, o enviante; o Filho e o Espírito são, em relação ao Pai, ambos enviados. Confrontando os textos, vemos que há semelhança da relação entre o Pai e o Paráclito com a relação entre o Pai e o Filho: ambas são expressas pelo mesmo verbo «enviar» (pémpô). Mas, juntamente com a semelhança, deparamos também com diferenças. A primeira diferença está no facto de, em relação ao Filho, o verbo enviar estar no passado, encontrando-se no futuro em relação ao Paráclito. O envio de Jesus pelo Pai já se realizou, bem patente nas expressões: «O Pai que me enviou» (João 5,23.37; 6,44; 8,16.18; 12,49; 14,24) e «Aquele que me enviou» (João 4,34; 5,24.30; 6,38.39.40; 7,16.28.33; 8,26.29; 9,4; 12,44-45; 13,20; 15,21; 16,5). De modo diferente, o envio do Paráclito é anunciado, mas deve ainda realizar-se no futuro, como se verifica na expressão: «O Pai enviá-lo-á no meu nome» (João 14,26), do mesmo modo, que a sua tarefa de «ensinar» e «recordar» aparece igualmente enunciada no futuro (João 14,26). A segunda diferença reside no facto de o envio de Jesus ser feito diretamente pelo Pai, sem intermediários, enquanto que o envio do Espírito Paráclito é feito pelo Pai mediante a intervenção de Jesus, traduzida pela expressão «no meu nome» (João 14,26). E em duas das demais passagens relativas ao envio do Paráclito, é mesmo referido que o próprio Jesus é o sujeito direto do verbo enviar: «Eu enviá-lo-ei de junto do Pai» (João 15,26); «Quando eu for, enviá-lo-ei para junto de vós» (João 16,7). Este envio do Paráclito por Jesus encontra-se também nos textos lucanos, em que é Jesus que derrama o Espírito recebido do Pai (Lc 24,49; At 2,33). E o que se passa com o verbo «enviar» em termos de passado e futuro, passa-se também com o verbo «dar» (dídômi): «Deus (ho theós)… deu (édôken) o seu Filho unigénito» (João 3,16), e «dará (dôsei) a vós outro Paráclito» (João 14,16).

    4. Sente-se, no monumental Testamento de Jesus, apresentado após a Ceia, em João 13,12-17,26, que a dor da separação física, provocada pela partida de Jesus, atravessa o coração dos discípulos de então. Se virmos bem, também no coração dos discípulos de hoje pode vir ao de cima a percepção de que Jesus está ausente, invisível, pouco perceptível e dificilmente acessível. É verdade que a separação física, anunciada por Jesus, provoca nos seus discípulos de então uma dor difícil de ultrapassar. Mas é igualmente verdade que esta dor da separação revela o grande amor que une os discípulos a Jesus. As lágrimas e o amor traduzem a estreita ligação entre os discípulos e Jesus. Ao contrário dos discípulos, o Evangelho apresenta o mundo (ho kósmos), que não conhece Jesus, e, por isso, não o ama nem chora nem se apercebe de qualquer separação (João 14,19).

    5. Mas Jesus diz-nos ainda que esta sua ida para o Pai, não só não redunda em prejuízo para nós, mas constitui até proveito e lucro, «pois se Ele não for, o Espírito não virá para nós» (João 16,7). E Jesus explica bem que também Ele nos ama e, por isso, não nos pode deixar abandonados e sós, como órfãos (orphanoí), mas virá outra vez para junto de nós (João 14,18), e ousa tratar-nos carinhosamente por filhinhos (teknía) (João 13,33). É verdade que agora Jesus se encaminha para a morte e morre de facto, mas não desaparece na morte. Vem e fica connosco na sua condição de Ressuscitado, para se fazer ver a nós e nos comunicar a sua própria vida nova e eterna (zôê), o Espírito Consolador, que vem para nós do seu Corpo Glorificado (João 7,39; Atos 2,33). Sim, com a sua morte, Ele desaparece aos olhos do mundo, que não o conhece, e que apenas sabe que Ele morreu numa Cruz. O mundo conhece apenas a morte, e nada sabe da vida verdadeira e eterna (zôê aiônios) (João 14,19). Eis toda a sabedoria do mundo, que só leva em conta o que se vê, como a natureza, onde tudo nasce, cresce, envelhece, perece, desaparece e esquece. Outra coisa é o Deus Pessoal, Criador e Redentor. É sabido que também aqueles discípulos não superarão por si sós a prova ou o teste da Paixão e Morte de Jesus. Por isso, quando viram que a morte era o destino de Jesus, todos o abandonaram e fugiram (Mateus 26,56; Marcos 14,50). Será Jesus, será sempre Jesus, Amor e Vida permanente e dissolvente, que reparará esta brecha, chamando de novo estes discípulos reprovados e desistentes (Mateus 28,7.10.16; Marcos 16,7). E eles, como nós, levando consigo toda a sua história anterior de amor e rutura, mas também de milagrosa cura, voltam para a Galileia, para um encontro novo com o Ressuscitado, de quem, agora sim, nunca mais se separarão.

    6. O cúmulo. Filipe, «o Evangelista» (ho euaggelistês) (Atos dos Apóstolos 21,8), leva a Palavra de Deus à Samaria, exatamente àquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben Sira 50,26), e houve por lá também grande alegria (Atos dos Apóstolos 8,5-8). Sim! Os pobres são evangelizados! Bendito seja Deus que nos surpreende sempre. Quando eu lá chego, às portas da cidade ou do coração do meu irmão, constato com espanto que Tu, Espírito de Amor, já lá estás há muito tempo, e já derrubaste portas e muralhas! Tu chegas sempre primeiro e já preparaste tudo! Escreveu o filósofo e poeta dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) num belo poema: «Falamos de Ti/ como se Tu nos tivesses amado primeiro uma só vez./ É, porém, dia após dia, a vida inteira,/ que Tu nos amas primeiro./ Quando acordo pela manhã e elevo para Ti a minha alma,/ Tu és o primeiro,/ Tu amas-me primeiro./ Se pela madrugada me levanto,/ e logo/ para Ti a minha alma e a minha oração elevo,/ Tu precedes-me,/ Tu já me amaste primeiro./ É sempre assim./ E nós, ingratos,/ Falamos como se Tu nos tivesses amado primeiro/ uma só vez…».

    7. E, portanto, aí está a lição que São Pedro (3,15-18) aprendeu e viveu e hoje nos comunica: «estai sempre sempre prontos [atentos, preparados] para dar convictamente a quem vos pedir a razão da esperança que há em vós» (hétoimoi aeì pròs apologían pantì tô aitoûnti hymãs lógon perì tês en hymîn elpídos) (cf. 1 Pedro 3,15). Como se vê no texto grego, não se trata de «razões»; trata-se da «razão», do lógos. A razão, o lógos, não é aqui um terreno intelectual ou um objeto do pensamento, um arrazoado, mas uma pessoa: Jesus Cristo. Em termos neotestamentários, é Ele a razão, o lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Então, Ele habita e enche o universo inteiro e a nossa vida também. «É n’Ele que vivemos, nos movemos e existimos», diz Paulo em Atenas (Atos dos Apóstolos 17,28). Nós com Ele, e Ele em nós, santuários vivos do Deus vivo. De forma intensa, como sempre, grita S. Paulo aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é Santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). Sem equívocos agora: estar prontos a dar a razão da esperança que há em nós é estar prontos a dar o lógos, isto é, Jesus, a razão de fundo da vida de Pedro e da nossa; a razão não são as razões, arrazoados; é a pessoa de Jesus. É Ele o lógos, o Verbo de Deus [kaì ho lógos sarx egéneto = «e o Verbo se fez carne»] (João 1,14). Estar prontos a dar a razão é estar prontos a dar a mão, isto é, o pão, compreensão, amor, esperança e confiança, sentido. Em suma, face a este mundo em desconstrução, semelhante ao navio de Hans Blummenberg, não podemos mais ficar na praia simplesmente a ver, mas temos de ser engenheiros de um mundo novo, verdadeiro, credível, transparente. E como este trabalho é urgente!

    8. Diz, de forma absolutamente maravilhosa, o velho comentário rabínico aos Salmos, dito Midrash Tehillîm, que, quando Israel estava no Sinai para fazer aliança com Deus, «o ventre das mulheres grávidas se tornou transparente como vidro, para que os embriões pudessem ver Deus e conversar com Ele». Oh admirável mundo novo!

    9. O Espírito Santo faz nascer em nós esta transparência luminosa e maravilhosa. Luz que alumia, e não engana, Amor, só Amor, nada mais que Amor. Vem, Espírito de Luz, construtor e Senhor das mais belas transparências e vivências. Precisamos tanto de Ti nesta calçada enlameada e escura e escorregadia em que andamos. Esquecemo-nos tantas vezes de que é em ti que «vivemos, nos movemos e existimos».

    10. Missão nossa será então cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (vv. 13-20).

    António Couto


  • 1. «A liberdade é o poder de fazer tudo aquilo que não prejudique os outros». É esta a formulação exemplar que encontramos na famosa «Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão» (Art.º 4), saída da Revolução Francesa (1789), depois muitas vezes traduzida e divulgada no aforismo: «A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro».

    2. É em nome deste princípio, que se diz habitualmente que a Europa é a terra natal dos direitos do homem. Porém, se não formos míopes, teremos de acrescentar logo que esse nascimento foi muito ambíguo e esses direitos muito restritivos, pois não afetam por igual todos os homens. Por exemplo, aquele «um homem (e todos aqueles que ele representa) que descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes que, depois de o roubarem e espancarem, se foram embora deixando-o meio morto», da conhecida parábola do bom samaritano (Lc 10,30-37), ficaria excluído desses direitos.

    3. De facto, roubado e em estado de coma, aquele homem não é sujeito de nenhum poder nem de nenhum fazer. Ora, a fórmula exemplar da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atrás referida, assenta, como vimos, no «poder fazer» aquilo que não prejudique os outros. Visto por este prisma, o homem da referida parábola fica duplamente excluído: primeiro, porque não é sujeito de nenhum poder e de nenhum fazer: nada «pode fazer», portanto; segundo, porque, ainda que porventura tivesse o «poder de pedir» auxílio – o que parece que nem é o caso –, é preciso ver que um tal gesto não teria, de facto, qualquer força de direito, pois se dirigiria a liberdades cuja essência consiste, como vimos, em «não prejudicar». Mas se o exercício da liberdade consiste em «não prejudicar», então basta abster-se de fazer o que quer que seja para se cumprir o articulado. É o que fazem, na parábola narrada, o sacerdote e o levita, que, tendo visto o homem em causa, passam simplesmente pelo outro lado da estrada, não se incomodando nem o incomodando.

    4. Ironia da história: a sociedade laica nasce imitando, inconscientemente com certeza, o comportamento das duas figuras clericais (o sacerdote e o levita) da parábola, bem agarradas à sua autonomia e soberania. Nasce assim como novo culto o culto do «eu» como «poder fazer», o culto do «eu» como senhor mais ou menos civilizado, engravatado, que não prejudica diretamente os outros por palavras ou por obras, dado que se limita a passar simplesmente ao lado deles. Daqueles que já perderam autonomia e soberania!

    5. É fácil de ver que este culto laico do «eu» é hoje uma religião com muitos praticantes, todos de bem com a sua consciência. A única obrigação que este culto impõe aos seus crentes é não fazer mal aos outros. É fácil de praticar: basta não se importar com eles. Mas hoje temos todos os dias à nossa porta e à beira das nossas estradas pessoas caídas, doentes, fragilizadas, abandonadas. Será que podemos passar por elas com a consciência tranquila, cientes de que passamos por elas sem as prejudicar?

    6. Talvez tenhamos outra vez de voltar à escola. Desde que ainda haja quem ensine (o que não é um dado adquirido), e nós estejamos dispostos a aprender pelo menos a soletrar humanidade e cidadania (o que também não é de todo seguro). E já agora, porque pode já não haver quem saiba ensinar, deixo aqui escrito que é urgente substituir o velho aforismo burguês e anestesiante, segundo o qual «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro», pelo implicativo e sempre inquietante «a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro».

    7. Em vez de continuares a passar tranquilamente e de boa consciência ao lado do outro, experimenta aproximar-te dele. Deixa-te incomodar por ele.

    António Couto


  • 1. As páginas de maio passam entre nós suavemente, por entre cânticos e flores, e alguns dissabores. Mas ser cristão, em Mossul, é não ter nada na mão e uma dor sem fim no coração.

    2. Há quarenta anos que uma família cristã vive lado a lado com uma família muçulmana. Dão-se bem. Sempre se deram bem. Mas agora, diz o muçulmano para o cristão: «Tens 24 horas para te pores a andar daqui para fora; se te volto a ver, mato-te, pois tenho direito a ficar com a tua casa, e com tudo o que é teu».

    3. No dia seguinte, este cristão preparou-se para partir com a sua família, mas, antes de o fazer, ainda bateu à porta do seu amigo muçulmano.

    4. «Ainda estás aqui? Não te disse que te matava se te voltasse a ver?», gritou o muçulmano. «Sim, amigo, bem sei, mas somos vizinhos há quarenta anos. Como podia partir sem me despedir?», disse o cristão.

    5. Ao ouvir isto, o muçulmano comoveu-se, abraçou o cristão, e disse-lhe: «Bem o sinto, não te vás embora, proteger-te-ei; não te vai acontecer nada de mal, nem a ti nem à tua família».

    6. «Tarde demais», respondeu o cristão; rompeu-se a confiança; já não há lugar em Mossul para os cristãos; vamos embora».

    7. Dói saber que, pela primeira vez desde o século III, não há um único cristão em Mossul.

    8. Nossa Senhora de maio, da paz e da confiança, vela por estes teus filhos, que fogem da tempestade, à procura da bonança.

    António Couto


  • Como criança sossegada no colo da sua mãe,

    assim

    está em mim

    a minha alma,

    sossegada e calma,

    como criança no colo da sua mãe.

    É desse lugar sereno e seguro,

    desse lugar suave e puro,

    que olho o mundo todo ao redor:

    o céu azul claro acabado de lavrar

    e o chão a ressoar um rumor de rosas brancas

    e um aroma de futuro,

    um mar de mariposas

    e um ror de boieiras a chegar,

    a aprender a amar,

    e a brindar com um grão de trigo maduro.

    Apuro o olhar.

    Daqui,

    deste lugar,

    não vejo ódios

    nem raivas

    nem guerras

    nem desdém.

    Vejo apenas um lugar

    chamado mãe.

    António Couto


  • «O lugar para onde Eu vou,

    vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.

    «Nós não sabemos para onde vais,

    como podemos saber o caminho para lá?»,

    retorquiu Tomé.

    Tomé é como nós:

    não sabe trabalhar sem metas e objetivos.

    E é em função das metas e objetivos,

    que escolhe caminhos e metodologia.

    Deus disse a Abraão: «Vai do teu país

    para o país que Eu te farei ver».

    E o narrador diz-nos que «Abraão foi».

    Para onde? Para qual país?

    Não interessa.

    Interessa é saber que uma mão segura nos guia,

    e que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

    É assim que faz Jesus também.

    Não nos indica no mapa o lugar do destino,

    mas mostra-nos o caminho para chegar lá.

    Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

    É assim a procissão e a peregrinação.

    Ele vai connosco e à nossa frente.

    Ele é o caminho,

    a mão segura,

    a água pura,

    o pão de trigo.

    Ensina-nos, Senhor,

    a caminhar contigo.

    António Couto


  • Mãe de maio

    Senhora da alegria

    Mãe igual ao dia

    Maria

    Canto para ti

    Ao correr da pena

    A tinta é de açucena

    A minha mão pequena

    Pega em mim ao colo

    Minha mãe de maio

    Olha que desmaio

    E caio

    Pega em mim ao colo

    O meu rosto afaga

    Depois apaga a luz

    Sou eu ou jesus?

    António Couto


  • Domingo V da Páscoa

    Atos 6,1-7; Salmo 34; 1 Pedro 2,4-9; João 14,1-12

    1. Os nomes JESUS e PAI juntam-se para entretecer uma rede finíssima que atravessa e extravasa o corpo do inteiro IV Evangelho, onde se ouvem respetivamente por 237 vezes e 124 vezes. Só no Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 14,1-12), pode contar-se o nome PAI (ho patêr) por doze vezes, onze das quais na boca de JESUS! Entenda-se: a vida de JESUS está completamente nas mãos do PAI, dele provém e para ele se orienta totalmente, de modo a JESUS poder dizer com verdade: «EU (egô) e (kaí) o PAI (ho patêr) somos um (hén esmen)» (João 10,30). A locução é audaz, mas clara e de extrema precisão. Não serve para indicar uma só pessoa (hypóstasis): são claramente duas, uma indicada pelo pronome EU (egô), e outra pelo nome masculino PAI (patêr). Duas pessoas distintas, não confusas, e que tão-pouco estão divididas e separadas. Indica esta não-divisão e não-separação a partícula copulativa «e» (kaì), a forma verbal plural «somos» (esmen) e o numeral neutro «um» (hén). O numeral neutro «um» (hén) indica uma realidade, e não uma pessoa, o que pediria a forma masculina do numeral «um» (heîs). Portanto, entre o PAI e o FILHO Monogénito há uma subsistência comum (ousía), indivisa, inseparável e, todavia, distinta e não confusa, relação vital interpessoal contínua. É desta «unidade» e «unicidade» de essência e subsistência concreta entre o PAI e o FILHO que decorre, no nosso texto, aquele límpido dizer de Jesus, dirigido a Filipe: «Quem ME vê, vê o PAI» (João 14,9). Esta plena comunhão de vida entre JESUS e o PAI fica bem expressa nas repetidas fórmulas de «imanência recíproca» ou de «unidade» do PAI e do FILHO, que soam: «Eu estou no PAI e o PAI está em MIM» (João 14,10.11).

    2. Estabelecida esta perfeita unidade entre o PAI e JESUS, pode JESUS reclamar dos seus discípulos que acreditem nele (João 14,1b.11.12) como acreditam em Deus (ho theós) (João 14,1a), isto é, no PAI. Theós com artigo (ho theós), no NT, é reservado ao PAI. «Acreditar» conserva aqui a aceção fundamental que já vem do AT, e que significa «apoiar-se firmemente em alguém» (Isaías 7,9; 28,16) que nos possa salvar. E é claro que a salvação de que aqui falamos consiste na nossa união com Deus, em apoiar-nos em Deus, único arrimo seguro de salvação. O problema consiste agora no nosso acesso a Deus em quem reside a salvação (cf. Isaías 12,2).

    3. E JESUS explica aos seus discípulos, nesta hora de despedida, que só há um acesso disponível: Ele próprio, dado que ELE está no PAI, e o PAI está nele. E usando agora a fórmula de apresentação ou de revelação, afirma: «Eu sou (egô eimi) o caminho e a verdade e a vida», a que acrescenta: «Ninguém vem ao PAI senão por MIM» (João 14,6). Claro que Jesus não é um caminho de terra batida ou uma estrada de alcatrão. É um caminho pessoal, uma maneira de viver, com entranhas, pés, mãos e coração. É preciso, portanto, atravessar esta maneira de viver, viver esta maneira de viver, para chegar ao PAI. Jesus também não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa (adequatio rei et intellectus). Não é uma coisa. A verdade bíblica [hebraico ʼemet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (cf. João 18,38), mas à pergunta inédita e surpreendente: «QUEM é a VERDADE?» De facto, ʼemet deriva de ʼem [= mãe] e de ʼaman [= firmar, confiar], e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se vive. É aquela verdade que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar, que em caso algum a vai deixar cair ao chão, como bem refere a filósofa, de origem judaica, Edith Stein, depois Santa Teresa Benedita da Cruz. A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE, realidade bem patente na etimologia, dado que ʼemet [= verdade] deriva de ʼem [= mãe]. Não engana, portanto. É assim que JESUS, o FILHO, é também a VIDA (zôê) toda recebida (do PAI), vida divina, vida filial do FILHO de Deus, vida toda a nós dada. A Vida que Jesus é e que Jesus nos dá, o maior dom que Ele nos dá, não é a nossa vida terrena, o segmento de tempo que nos é dado viver, e que se diz bíos ou psychê. É zôê, que é a vida eterna, a vida divina, a vida que há em Deus.

    4. Diz Jesus para os seus discípulos: «Para onde (ópou) EU vou, vós conheceis o caminho» (João 14,4), mas muda logo o lugar pela pessoa: «EU vou para o PAI» (João 14,12). Pelo meio, cruza-se a incompreensão ou incompetência expressa de dois dos seus discípulos: Tomé e Filipe, que o mesmo é dizer, a nossa incompreensão e incompetência. Tomé, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»], não sabe para onde vai JESUS; logo, não sabe o caminho para lá (João 14,5), e Filipe recebe de Jesus uma repreensão que também nos atinge a nós, pois é proferida no plural, e soa assim: «Há tanto tempo que estou convosco, e não ME conheces, Filipe?» (João 14,9).

    5. Tomé é bem Gémeo nosso, nosso irmão gémeo, muito parecido connosco, nesta passagem e em muitas outras. E Filipe, que significa «amigo dos cavalos», único nome verdadeiramente grego entre os Apóstolos de Jesus, também se manifesta muito semelhante a nós aqui e em outros lugares, como, por exemplo, João 6,5-7, onde é literalmente posto à prova por Jesus, e chumba claramente no teste. Na verdade, Jesus pergunta-lhe, para o pôr à prova: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). E Filipe põe-se a contar o dinheiro, dizendo onde põe a sua confiança, e responde que não há nada a fazer, porque não há dinheiro que baste (João 6,7). Filipe, talvez como nós, ainda não sabia que o onde (póthen) a que Jesus se refere não é o shopping, mas é o PAI. Ainda não sabia a Escritura, e não conhecia Isaías 55,1-2, em que Deus nos convida a comprar a Ele pão, sem gastar qualquer dinheiro: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).

    6. Filipe anda, de facto, bastante distraído, e tem dificuldade em sintonizar a onda de compreensão de Jesus, isto é, o PAI. À pergunta formulada por Jesus em João 6,5, Filipe responde literalmente: «Duzentos denários de pães não bastam (ouk arkoûsin) para que cada um receba uma migalhinha» (João 6,7). E no nosso texto de hoje, logo depois de Jesus ter afirmado: «Se ME tivésseis conhecido, também conheceríeis o meu PAI, e desde agora já O conheceis e já O vistes» (João 14,7), Filipe ainda ousa retorquir: «Senhor, mostra-nos o PAI, e basta (kaì arkeî) para nós» (João 14,8). Não deixa de ser sintomático que este verbo bastar (arkéô) só apareça duas vezes no NT, e as duas vezes apareça nos lábios de Filipe (João 6,7; 14,8). E é ainda mais sintomático que, após ter vivido o grande sinal dos pães e dos peixes realizado por Jesus, ainda não lhe baste agora a revelação de Jesus, mas pareça requerer uma revelação espetacular à maneira das manifestações de Deus no AT.

    7. É assim também, maternalmente, que se entende a jovem e bela comunidade cristã nascente, atenta, outra vez como uma mãe, aos seus filhos que necessitam de assistência (Atos dos Apóstolos 6,1-7). Como é belo ver crescer, e cresce mesmo, uma comunidade de rosto maternal, de braços sempre abertos para acolher e abraçar, de mãos sempre abertas para receber, dar e acariciar. Tudo tão ao jeito e ao estilo de Jesus. Total dedicação à oração e ao serviço (diakonía) da Palavra de Deus (6,4). Total dedicação ao serviço (diakonía) da caridade. Atenção, porém: Filipe não aparece com o título de diácono (diákonos). O seu trabalho é evangelizar (Atos 8,26-40), e, se algum título lhe é atribuído, é o de «o evangelista» (ho euaggelistês), como se pode ver em Atos 21,8.

    8. É claro, diz S. Pedro (1 Pedro 2,4-9), que Jesus é a pedra viva, base de um novo tipo de edifício, que nenhum arquiteto sabe desenhar ou projetar. É, na verdade, um edifício espiritual, feito de pedras vivas (!). E nós somos essas pedras vivas, esse Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos, pés e coração.

    9. Enfim, o Salmo 34, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração com a música do amor misericordioso que nos vem de Deus. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

    10. Passa hoje também, neste Domingo V da Páscoa, o Dia da Mãe, que nos ajuda, com certeza, a entender melhor o Deus de Jesus e o Jesus de Deus da liturgia de hoje. Sobre esta terra exangue, fustigada pelos mísseis, pelos drones, e pela insensatez, uma Mãe verdadeira ainda é o ícone mais belo do amor imenso e sem pauta nem medida, que não é meu, nem é teu, nem é nosso, que é de Deus, que atravessa os textos da liturgia de hoje, e se vê a palpitar em tantas páginas indescritíveis destes tempos ácidos e nebulosos. Nós sabemos isso. Mas uma Mãe sabe isso melhor. É por isso que é fácil, neste Dia da Mãe, ver cair pelo rosto de cada Mãe uma lágrima de tristeza ou de alegria! Melhor assim, Mulher e Mãe: sentirás a mão carinhosa de Deus a afagar o teu rosto e a enxugar essa lágrima, de acordo com a lição do Livro do Apocalipse 21,4.

    António Couto


  • 1. A maioria dos nossos contemporâneos pensa tranquilamente que a questão de saber se há um Deus ou não, se o mundo é o único ser ou não, é uma questão que pertence à fé, que o mesmo é dizer, sempre segundo os nossos tranquilos contemporâneos, que pertence à ordem arbitrária da afetividade e do sentimento, mas não à ordem da razão e do conhecimento. É o chamado fideísmo, segundo o qual a fé não é um assentimento da razão, mas apenas do sentimento.

    2. Nesta ordem de ideias, continuam a pensar tranquilamente os nossos contemporâneos, que a Bíblia, o judaísmo e o cristianismo não têm conteúdos que seja necessário estudar. São apenas da ordem do sentimento. E, nesse sentido, sempre segundo os nossos tranquilos contemporâneos, essas «coisas da fé», que são da ordem do sentimento, ou se têm ou não se têm, sentem-se ou não se sentem. Ponto final.

    3. E, todavia, quando os nossos ilustrados contemporâneos repetem tranquilamente que o universo físico é o único ser, não é seguramente pela razão e pelo conhecimento que o fazem. É bom que se saiba que é uma afirmação puramente gratuita, arbitrária e sentimental. Da ordem da razão é o passo que se segue: se o universo físico é o único ser, então tem de ser eterno, já que é impossível que a totalidade do ser tenha saído do nada, em virtude do princípio, que permanece firme desde Parménides (510-445 a.C.), de que «do nada, nada vem». Se o universo físico é o único ser, é então da ordem da razão que seja eterno. Mas é também da ordem da razão que seja sem evolução nem entropia. Vale aqui a pergunta que deixou Empédocles (495-430 a.C.), no seu fragmento 17: «de quem receberia o crescimento, se é o único ser?» E Melisso de Samos (470-442 a.C.) explicita bem que, se o universo é o único ser, então tem de ser «eterno, infinito, uno e absolutamente idêntico. Não pode perecer nem crescer; não pode ter sofrimento nem penas. Porque se tal acontecesse, já não seria uno, uma vez que se veria alterado e não seria idêntico a si mesmo, já que o sofrimento, por exemplo, que antes não existia no seu seio, teria chegado a existir… Por isso, se algo mudasse, mesmo que fosse um só cabelo ao longo de dez mil anos, pereceria completamente através do tempo». De facto, depois de se ter afirmado completamente a priori que o universo é o único ser, e depois de se ter admitido, como deriva necessária nesse contexto, a eternidade do universo, se se admite agora que ele se consome, então é óbvio que já se deveria ter consumido há uma eternidade.

    4. Afirmar que o universo físico é o único ser é uma afirmação completamente arbitrária. Que seja eterno e imutável é mesmo refutável pela ciência moderna e pelo bom senso do olhar da minha avó. Apenas se mantém o princípio de que «do nada, nada vem». Afinal, é o ateísmo que é fideísta. A Bíblia, o judaísmo e o cristianismo contêm um pensamento bem mais exigente e fundamentado: o ser não é único nem unívoco; é análogo, isto é, há duas classes de ser: o ser criado, finito e relativo, e o ser incriado, eterno e absoluto; o universo físico não é o único ser nem o ser absoluto, eterno e imutável; o ser absoluto, eterno e imutável, é o Deus criador, e o universo físico foi criado e mantém-se em estado de criação pelo Deus criador. A vida e o pensamento não vêm do nada, isto é, da não-vida e do não-pensamento. Vêm do Deus criador, Vida e Pensamento ele mesmo. O nascimento e a morte não são meras aparências ou ilusões no seio do único ser imutável. São verdadeiros acontecimentos que remetem para o Deus criador.

    5. O nascimento como Dom entra-nos em casa a toda a hora. A morte como Dom também nos visita a toda a hora. Os defuntos não são simplesmente aqueles que já morreram, isto é, aqueles que já não veem nem ouvem nem têm memória, como pensamos nós, pagãos modernos, muitas vezes, na esteira do que pensavam os gregos, que remetiam os mortos para o Hades [= lugar onde não se vê], mas aqueles que, sem perder a sua identidade pessoal e as marcas da sua história pessoal concreta, foram assumidos, por graça, a viver a Vida grande do Deus criador.

    António Couto


  • Viver a fé é nunca se deixar abaular,

    ter sempre pé em terra firme,

    nunca perder o céu de vista,

    ter sempre Deus na nossa lista

    de amigos,

    e abrir essa lista também aos inimigos.

    Acreditar é amar até ao fim do mundo,

    sem pé e sem fundo,

    ter sempre Cristo à mão

    do coração,

    e uma multidão de irmãos

    a bater à nossa porta.

    A entrada é pela aorta,

    e vêm sentar-se à volta da fogueira

    da Ressurreição.

    É Cristo o anfitrião,

    o irmão, o pão e a lição.

    Está aberta a inscrição.

    António Couto


  • Senhor Jesus Cristo,

    único Senhor da minha vida,

    bom Pastor dos meus passos inseguros

    e do silêncio inquieto do meu coração,

    cheio de sonhos, anseios, dúvidas, inquietações.

    Senhor Jesus,

    faz ressoar em mim a tua voz de paz e de ternura.

    Eu sei que pronuncias o meu nome com doçura,

    e me envias ao encontro daquele meu irmão que Te procura.

    Fico contigo sentado junto ao poço.

    Alumia o meu pobre coração.

    Vejo que, de toda a parte,

    chega gente de cântaro na mão.

    Dispõe de mim, Senhor,

    nesta hora de Nova Evangelização.

    Que eu saiba, Senhor,

    interpretar bem a tua melodia.

    Que eu saiba, Senhor,

    dizer sempre SIM como Maria.

    António Couto


  • Domingo IV da Páscoa

    Atos 2,14a.36-41; Salmo 23; 1 Pedro 2,20b-25; João 10,1-10

    1. Domingo IV da Páscoa. Domingo do Bom, Belo, Perfeito e Verdadeiro Pastor. É este o significado largo do adjetivo grego kalós e do hebraico thôb, que qualifica o nome «Pastor». É o mesmo adjetivo, hebraico e grego, que qualifica o sentido que Deus dá repetidamente, por sete vezes, à sua Criação (Génesis 1,1-31). De notar que o Domingo IV da Páscoa, Domingo do Bom Pastor, é sempre também Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E da mesa da Escritura deste Domingo transbordam tonalidades e sabores intensos, harmoniosos e deliciosos. Música encantatória. Água pura. Óleo perfumado. Verde pradaria em festa. Proximidade. Ternura. Confiança. Beleza em flor e fruto. Vida a transbordar. Tudo da ordem do sublime.

    2. O Evangelho que marca o ritmo deste Dia Grande é João 10,1-10, que não deve ser visto apenas como um texto isolado, embora tenha sentido em si mesmo, mas sai enriquecido quando inserido no duplo enquadramento que lhe serve de contexto. Por um lado, situa-se no seguimento imediato de João 9,1-43, que analisámos no Domingo IV da Quaresma, e que trata da cura física e espiritual por Jesus de um cego de nascença. Por outro lado, devemos ter presente que o texto de João 10 tem o seu lugar no decurso da Festa judaica anual da Dedicação do Templo, como resulta da anotação de João 10,22.

    3. Comecemos por olhar para o texto de João 10 no seguimento imediato de João 9, que trata da cura física e espiritual do cego de nascença. Esta cura, operada em dia de sábado, dá lugar a um confronto com os fariseus, que tudo fazem para desacreditar Jesus. O resultado é que, enquanto o cego vê cada vez melhor, os fariseus se vão tornando cada vez mais cegos. É com eles que Jesus fala no final, pondo à vista a sua acentuada cegueira (João 9,39-41). E é com eles que Jesus continua a falar em João 10, e é para eles que Jesus conta a parábola do rebanho e das ovelhas, que traz para a cena a figura do pastor em contraponto com a figura do ladrão ou salteador ou mercenário. Neste contexto, diz-lhes Jesus que as ovelhas ouvem e conhecem a voz do pastor, e seguem-no, mas não conhecem a voz do ladrão, e fogem dele. Está bom de ver que foi assim que fez o cego de João 9, que foi seguindo cada vez mais de perto Jesus, ao mesmo tempo que se foi afastando cada vez mais dos fariseus. A colocação de João 10, não à parte, mas no seguimento imediato de João 9 resulta, como se vê, grandemente esclarecedora, tornando-se mesmo obrigatório fazer esta ligação.

    4. A figura do Pastor Bom enche muitas das páginas do Antigo Testamento, e traduz habitualmente a atitude cuidadosa e carinhosa de Deus, que é o Pastor Bom, para com as suas ovelhas, metáfora do seu Povo, quase sempre em confronto com os maus pastores, que esbulham e tratam em proveito próprio as ovelhas. Basta ver os textos de Ezequiel 34,1-23; Jeremias 23,1-4; Isaías 40,11; Salmo 23. Na página de João 10,1-10, ao dizer «Eu sou», Jesus assume a identidade e a atitude do Pastor Bom, que é Deus, e deixa aos fariseus o desempenho do papel de pastores maus ou ladrões ou mercenários. Ao dizer «Eu sou», Jesus está, em simultâneo, a dizer «vós sois» ou «vós não sois». Está a dizer «vós sois» para as suas ovelhas: está, portanto, a estabelecer uma relação pessoal, direta, de proximidade, confiança e intimidade com as suas ovelhas, relação bem expressa, de resto, pelos verbos «chamar pelo nome», «conhecer», «ouvir a voz», «conduzir», «caminhar à frente de», «seguir», «dar a vida». Mas está também a dizer «vós não sois» para os fariseus, colocados a conjugar os verbos «roubar», «matar», «destruir». Como esta página antiga e sempre nova de João 10,1-10 lê e desvenda «aqueles tempos» e os tempos de hoje!

    5. Mas o texto grandioso de João 10,1-10 passa também mensagens intemporais que, em cada tempo e lugar, devem interpelar a comunidade cristã. Assim, quando Jesus diz: «Eu sou a porta» (João 10,7.9), não está a usar uma linguagem da ordem da arquitetura e da carpintaria. É de uma porta pessoal que se trata. E esta porta pessoal tem um nome e um rosto: Jesus de Nazaré, Jesus de Deus. E esta porta serve para «entrar e sair». «Entrar e sair» é um merisma [= figura literária que diz o todo acostando duas extremidades] que traduz a nossa vida toda, que se passa, toda ela, a entrar e sair. É a nossa vida toda sempre em referência a Jesus Cristo. Entende-se, não com a atual criação industrial de gado, em que os animais estão quase sempre em clausura e o pasto lhes é fornecido em manjedouras apropriadas e a horas certas, visando sempre uma maior produtividade, mas com os «apriscos» [= mais abrir do que fechar, como indica o étimo latino aprire] antigos, em que os animais se recolhiam apenas para se protegerem do frio da noite e dos assaltos das feras ou dos ladrões, e procuravam fora o seu alimento durante o dia todo, sempre conduzidos e sob a atenção vigilante do pastor.

    6. Note-se ainda que os Evangelhos falam sempre de rebanho e de ovelhas, e não de ovelhas separadas. Quando falam de uma ovelha sozinha, é para descrever a situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida ou tresmalhada, que se perdeu do rebanho ou da comunidade, e deixou de seguir o pastor e de ouvir a sua voz. Note-se ainda que as ovelhas «entram pela porta», mas não é para ficarem descansadas e recolhidas, fechadas sobre si mesmas, hoje diríamos «confinadas». É para sair, pois é fora que encontrarão pastagem. Lição para a comunidade dos discípulos de Jesus de hoje e de sempre: o trabalho belo que nos alimenta e nos mantém saudáveis espera-nos lá fora! Que Deus nos dê então sempre um grande apetite! A messe ondulante está à espera de ceifeiros que saibam cantar (Salmo 126,5-6), porque também sabem que é Deus o Senhor da messe.

    7. Situemo-nos agora no âmbito da festa anual da Dedicação do Templo (cf. João 10,22), habitat da parábola do Bom Pastor, apresentada por Jesus (João 10,1-10). O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Este acontecimento remonta ao ano 167 a.C. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, três anos depois, no ano 164 a.C., Judas Macabeu conseguiu afastar os selêucidas, e procedeu à Purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. É este importante acontecimento que deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir do dia 25 do mês de Kisleu, que, no ano civil de 2026, no nosso calendário, terá lugar de 05 a 12 de dezembro.

    8. A Festa da Dedicação, em hebraico hanukkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmude que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder permanentemente no Templo, diante do Deus Vivo, isto é, diante do Santo dos Santos. Todavia, cálculos feitos, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula, que daria apenas para um dia, durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiyyah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente, uma luz por dia, até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respetivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial, cultural e todos os ambientes e situações. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente, uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro cultural), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz. Mais Luz. Mais Luz. Mais Luz. Mais Dedicação. Mais Dedicação. Mais Dedicação!

    9. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece desconstruir-se e reduzir-se a fragmentos soltos e à deriva, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E é ainda necessário que esta Luz saia para fora: uma «igreja em saída», como gostava de dizer o Papa Francisco! E está em maravilhosa sintonia com a Luz Grande que deve alumiar este Domingo do Bom Pastor, que é Jesus, verdadeira Luz do mundo, Dom do Amor de Deus ao nosso coração. Atear esta Luz de Jesus no nosso coração é também o segredo maior deste 63.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

    10. A cristalina melodia do Salmo 23, que hoje cantamos, entranha-se suavemente em nós, fazendo-nos experimentar os mil sabores da paz, do pão e da alegria que em cada dia recebemos do Pastor belo e bom que amorosamente nos guia. Ele é o companheiro para quem as horas do seu rebanho são também as suas, corre os mesmos riscos, experimenta a mesma fome e a mesma sede, o sol que cai sobre o rebanho cai também sobre ele. Deixemo-nos, portanto, conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelas suas pradarias muito verdes, cheias de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu azul claro a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Como é importante recitar e saborear esta alegria e mansidão pessoal que nos traz o Pastor belo e bom que nos chama e nos inebria. Confessou o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), prémio Nobel de literatura (1927): «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

    11. E, em sintonia com tudo o que vem de trás, aí está outra vez Pedro a exortar-nos na manhã de Pentecostes: «Salvai-vos desta geração perversa» (Atos 2,40). «Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora regressastes para o pastor e supervisor (epískopos) das vossas almas» (1 Pedro 2,25). «Segui, pois, os seus passos» (1 Pedro 2,21).

    12. Concede-nos, Senhor, Belo e Bom Pastor, que nunca nos tresmalhemos do teu imenso amor, e que saibamos sempre levar o tom e o sabor da tua voz, que chama e ama cada irmão perdido em casa ou numa estrada de lama.

    António Couto


  • Todos os dias

    Te encontramos

    no caminho.

    Mas muitos reconhecer-Te-ão

    apenas

    quando

    repartires connosco

    o Teu pão.

    Quem sabe?

    Talvez

    no último entardecer.

    Poema escrito em diversas línguas nas paredes interiores da basílica de Emaús


  • Tristes, desanimados, pesarosos,

    trilhamos um caminho apenas de regresso,

    de insucesso,

    confinamento,

    esvaziamento,

    em que não se vê nenhum acesso,

    nenhum ingresso.

    Nenhuma luz

    se vê lá para os lados de Emaús

    Vem Jesus

    e começa a caminhar connosco,

    vai connosco.

    não se apresenta,

    mas faz perguntas,

    corrige as respostas,

    abre as Escrituras,

    cura as fraturas,

    põe-nos a arder o coração,

    reparte o pão,

    parece que desaparece,

    mas fica afinal mais presente do que nunca,

    e vê-se que transparece

    na nossa vida,

    antes caída,

    agora erguida,

    desconfinada,

    como uma estrada iluminada

    pela intensa Luz

    que brota daquela Cruz florida.

    E pode recomeçar tudo aqui,

    pode recomeçar tudo aí,

    em Emaús,

    em casa e à mesa,

    ou mesmo na estrada,

    com Jesus.

    António Couto


  • Domingo III da Páscoa

    Atos 2,14.22-33; Salmo 16; 1 Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35

    1. O Evangelho deste III Domingo da Páscoa convida-nos a fazer aquela que pode ser considerada a mais bela viagem de doze quilómetros de toda a Escritura. Doze quilómetros vezes dois, dado que será uma viagem de ida e volta. A viagem que nos leva de Jerusalém a Emaús, atual aldeia palestiniana de nome El-Kubèibeh, que guarda a memória deste maravilhoso episódio de Lucas 24,13-35. Segue-se, todavia, a viagem de regresso a Jerusalém.

    2. Aperceber-nos-emos, porém, rapidamente que se trata menos de uma viagem transitiva sobre o mapa, e mais, muito mais, de uma viagem intransitiva nas estradas poeirentas do nosso embotado coração. É assim que «dois deles» (dýo ex autôn) – e está aqui assinalada uma ruptura destes dois com a comunidade reunida em Jerusalém – saem da comunidade, passam a ser ex-membros da comunidade. O texto retrata-os bem: estão em dissensão com a comunidade, pelo caminho conversam familiarmente (homiléô) sobre as coisas acontecidas em Jerusalém (Lucas 24,14 e 15), mas também debatem (syzêtéô) (Lucas 24,15), e entram mesmo em dissensão um com o outro, opondo argumentos (antibállô) (Lucas 24,17). Esperaram até ao limite da esperança (três dias), mas deixaram-se vencer pela desilusão. Distanciam-se, pois, da esperança e de Jerusalém, mas não se conseguem distanciar do passado vivido com Jesus, que os encheu de tanta esperança, até que tudo se derreteu naquela cruz.

    3. Desistiram então da esperança, e vão-se embora desiludidos, desencantados, desconcertados, dissentidos. Estando assim as coisas, narra o texto que um terceiro viandante, que é Jesus – informa-nos o narrador –, se aproximou deles e caminhava com eles (syneporeúeto autoîs), mas os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto) de o reconhecer (Lucas 24,15-16). Neste ponto preciso, impõem-se duas pequenas observações. Primeira: Jesus é sempre aquele que caminha com, faz conjunção, onde nós, e quando nós, estamos em disjunção. E não caminha connosco apenas algum tempo. Caminha connosco de forma continuada, pois o verbo grego está no imperfeito de duração (syneporeúeto): caminhava com. Segunda: não é a incapacidade deles ou a nossa que nos impede de reconhecer Jesus. Na verdade, o texto diz, na sua crueza gramatical, que os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto). A forma verbal grega está num imperfeito passivo. Entenda-se então corretamente: é Deus que impede os nossos olhos de o reconhecerem agora. É, portanto, Deus que conduz a ação. Esta preciosa indicação desperta a nossa atenção, e deixa-nos alerta para o momento em que Deus vai desimpedir os nossos olhos para o reconhecermos.

    4. Este terceiro viandante, que caminha sempre connosco, e que faz conjunção resolvendo as nossas disjunções, é também aquele que conduz o nosso caminho. Ele é o Presidente. Preside sempre. Por isso, vem ao nosso encontro, intromete-se no meio de nós, não se apresenta, começa a fazer perguntas estranhas, que habitualmente nós não permitimos a um desconhecido que se intromete no meio de nós, sem sequer se apresentar: «Que são estas palavras que opondes entre vós enquanto caminhais?» (Lucas 24,17). Ele é o Mestre que nos faz perguntas pedagógicas, para nós nos dizermos, e manifestarmos os nossos pontos de vista, e também o ponto de vida em que estamos. A primeira consequência em nós desta pergunta certeira é fazer com que digamos a nossa tristeza e desilusão: «E eles pararam com o rosto triste» (Lucas 24,17). E depois, atónitos, perguntamos: «Tu és o único (mónos) estrangeiro residente (pároikos) em Jerusalém que não conheces as coisas que nela aconteceram nestes dias?» (Lucas 24,18). E ele pergunta outra vez teimosa e pedagogicamente: «O que foi?» (Lucas 24,19). Duas anotações. Primeira: sem o sabermos, fazemos uma afirmação correta: de facto, ele é o único que não conhece as coisas como nós, mas as conhece de outra maneira. Segunda: quando ele pergunta: «O que foi?», os dois nada estranham porque não sabem quem é aquele que os está a interrogar, mas o leitor, que já sabe, até se sente incomodado, porque bem sabe que se há alguém que sabe o que lá se passou, é Jesus. Então se sabe, por que é que pergunta? Pergunta, não porque não saiba e queira saber, mas para nos levar a dizer a desilusão e o sem sentido que nos habita. Ele é o Mestre que faz as perguntas, para depois poder corrigir as nossas respostas (Lucas 24,25-27). E nós lá dizemos que, pois, Jesus era com certeza um grande profeta, e que teve a sorte dos profetas: foi assassinado (cf. Lucas 11,50-51). Mas quanto a ser o Messias que nós esperávamos, não, não pode ser, porque um homem que foi crucificado e morto não pode ser o Messias, pois este, estando em plena comunhão com Deus e possuindo a vida em plenitude, não só não vinha para sofrer e morrer, como vinha mesmo para nos libertar do sofrimento e da morte (Lucas 24,22-23). Jesus ouve os nossos lamentos, e mostra a insensatez que nos habita por desconhecermos os caminhos da Escritura! Se os conhecêssemos, diz Jesus, saberíamos que era preciso o Messias passar por tudo isto para entrar na glória de Deus. E a partir das Escrituras (Moisés e todos os profetas) explicou-lhes, a eles e a nós, ponto por ponto, o que a Ele dizia respeito (cf. Lucas 24,25-27). O caminho de Emaús é, afinal, o caminho das Escrituras! Levará o seu tempo até compreenderem que Jesus é o Messias exatamente enquanto Crucificado, que a Cruz não é a manifestação do seu fracasso, mas da sua incondicional fidelidade à vontade do Pai.

    5. Enquanto assim falavam entre a esperança e a desilusão, estranhamente guiados por um terceiro desconhecido, parece que o caminho se encurtou. Ei-los que estão em Emaús. E, chegados aí, Jesus fez como se (prosepoiêsato: aor. de prospoiéomai) fosse caminhar para mais longe (Lucas 24,28). «Fez como se»: trata-se de uma finta pedagógica. O texto não diz que ele ia caminhar para mais longe. Diz que Ele «fez como se fosse…». Finta pedagógica, que provoca logo ali a nossa oração: «Fica connosco…» (Lucas 24,29). Atenção, portanto: também a nossa oração não é produção nossa; é provocada por Ele. Ele é o Mestre, o Presidente. O grito «fica connosco!» é profunda e entranhadamente verdadeiro. Mas as razões invocadas são superficiais e simuladas. Será, de facto, verdade que os dois de Emaús gritam «fica connosco!», pela simples razão de que «se faz tarde e o dia já está a declinar?» (Lucas 24,29). Por outras palavras: será o medo da noite exterior o que os preocupa, e o cumprimento do preceito sagrado da hospitalidade o que têm em mente? Absolutamente não. Do que eles têm medo é do escuro interior, do vazio da alma, do sem sentido da vida que experimentaram com aquela morte ilegível de Jesus.

    6. A necessária analepse: era assim, vazios, desanimados, desiludidos, dissentidos e em dissensão, que caminhavam de Jerusalém para Emaús. E foi então que, sem saberem bem como, se viram alcançados, tal como Paulo no caminho de Damasco (Filipenses 3,12: katelêmphthên), por um terceiro que caminhava com eles, lhes fazia perguntas, lhes corrigia as respostas, lhes abria e interpretava as Escrituras, lhes fazia ver as coisas com olhos diferentes, com um coração novo. E, acompanhados e conduzidos assim por ele, sempre sem saberem bem como ou porquê, eis que começaram outra vez a sentir subir dentro de si os indicadores da esperança. É esta luzinha interior acesa no caminho, e o caminho é um dos lugares da graça no Evangelho de Lucas, que eles não querem agora perder. Por isso, logo que pressentem que o companheiro desconhecido se apresta para os deixar, gritam/rezam do fundo das entranhas: «Fica connosco»!

    7. No seguimento deste pedido, ele entra para ficar com eles, connosco. Não, porém, apenas algum tempo, como fazemos nós quando visitamos os amigos. Ele entra para ficar connosco sempre, para presidir à nossa vida toda. Há quem estranhe que, entrando em casa alheia, ele se ponha a presidir à mesa, ato que competiria ao dono da casa. Quem assim pensa esquece-se de que, afinal, foi ele que presidiu ao caminho todo, foi ele que fez as perguntas, foi ele que corrigiu as respostas, foi ele que abriu a Escritura, foi ele que, com uma simulação pedagógica, provocou a nossa oração. Ele é, portanto, o Presidente, e é, nessa condição, que preside também à nossa mesa: recebe o pão, bendiz a Deus, parte o pão e dava (epedídou: imperf. de epidídômi), imperfeito de duração. Atitude que continua ainda hoje a verificar-se. É aqui que são abertos (por Deus) os nossos olhos, antes impedidos por Deus de reconhecer Jesus. Decifração da Cruz. Ele está vivo e presente. A sua vida é uma vida a nós dada. Sempre a ser a nós dada. É por isso que Ele desaparece da nossa vista (Lucas 24,31), mas não da nossa vida, em que fica mais presente do que nunca, presente para sempre, sem sombra de ausência. Na verdade, se dar reclama a presença do dom que o doador ao donatário, dar-se reclama a presença do doador ao donatário. Novidade imensa. Dando-se a nós, o Crucificado-Ressuscitado transparece em nós, passa para nós a suprema dignidade da sua manifestação: passamos a ser nós os mostradores da Vida Nova do Ressuscitado. Suprema dignidade. Alegria imensa. Responsabilidade imensa. É agora, e daqui, e deste modo, que vemos a luzinha que Ele acendeu já no nosso coração, no caminho… Não é o escuro da noite exterior que nos mete medo. O que nos mete medo é o escuro interior. Ei-los que partem em plena noite, em plena luz, para Jerusalém. Viagem da conjunção, fazendo o caminho inverso da primeira viagem da disjunção.

    8. Afinal, não era mesmo o medo da noite exterior que preocupava os dois de Emaús. A prova: ei-los que imediatamente se levantam e partem a caminho de Jerusalém (Lucas 24,33). Não o fariam se fosse a noite a assustá-los. Era o escuro interior que os tolhia. Dissipado esse escuro disjuntivo, disruptivo e dissentivo daquela morte ilegível de Jesus, agora compreendida como auto destituição por auto doação a nós e por nós num amor subversivo, eis que se inicia o movimento contrário de conjunção e comunhão. Voltam para Jerusalém (eis Ierousalêm), dizem os dois um para o outro (pròs allêlous), ao mesmo tempo, a mesma coisa: «Não estava a arder (kaioménê) em nós o nosso coração, quando nos falava no caminho, quando nos abria as Escrituras?» (Lucas 24,32). Na verdade, relatam a mesma história, nascem, portanto, como irmãos: o mesmo coração aceso por Deus, as Escrituras abertas (com o mesmo verbo da abertura dos seus olhos). Olhos abertos, Escrituras abertas, coração aceso.

    9. Ainda hoje é bom e salutar fazer esta viagem no mapa e no coração a Emaús (El-Kubèibeh). O peregrino encontra nesta aldeia palestiniana uma igreja à guarda dos Padres Franciscanos da Custódia da Terra Santa, que guarda e recorda os acontecimentos narrados no sublime episódio de Lucas 24, que acabámos de visitar. A atual igreja é uma construção de inícios do século XX, estilo românico-gótico de transição, que respeita as linhas e integra algumas pedras de uma igreja construída pelos Cruzados no século XII. Esta igreja encontrava-se ainda de pé no século XIV, mas estava já em ruínas no século XV, de acordo com o testemunho de peregrinos qualificados. A construção dos Cruzados enquadra aquilo que se pensa serem os fundamentos da casa de Cléofas, um dos dois que, naquele primeiro dia da semana (Lucas 24,1 e 13) se dirigiam para uma aldeia, chamada Emaús, que distava 60 estádios (11-12 km) de Jerusalém.

    10. Nas paredes interiores da igreja que hoje pode ser visitada, que data de princípios do sáculo XX, pode ler-se em várias línguas um belo e significativo poema, que aqui passa também a conhecer a versão portuguesa: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

    11. E o poeta inglês Thomas S. Eliot (1888-1965) faz esta evocação da cena de Emaús: «Quem é o terceiro, que vai sempre ao teu lado? Se me ponho a contar, juntos vamos apenas eu e tu. Porém, se olho à minha frente sobre a estrada branca, vejo sempre outro que caminha ao teu lado. Quem é esse que vai sempre do outro lado?».

    12. É o Senhor, que vós entregastes à morte, mas que Deus ressuscitou, responde Pedro, falando ao povo no dia de Pentecostes (Atos 2,14.22-33). Reside aqui, não apenas o essencial do anúncio, mas o anúncio essencial, sem glosas e sem filtros, que somos chamados a fazer, com alegria e determinação (Atos 2,23-24). Este veio fundamental percorre, como verdadeira filigrana, o Livro dos Atos dos Apóstolos: 2,23-24.32.36; 3,15-16; 4,10; 5,30-31; 10,39-40; 13,28-30; 17,31; 25,19. Chamemos-lhe «primeiro anúncio», ou, como já se diz hoje, nesta sociedade que já recebeu o «primeiro anúncio», mas que vive distante da seiva do Evangelho, «segundo (primeiro) anúncio». Anunciar outra vez. Sim, falamos desse Jesus, por vós crucificado, por Deus ressuscitado, à direita de Deus sentado na sua humanidade glorificada, de onde transborda o Espírito sobre nós derramado. É o que vemos e ouvimos, e devemos fazer ver e ouvir.

    13. Pedro continua a ensinar-nos que vivemos aqui como «estrangeiros e hóspedes», isto é, como «paroquianos» (pároikoi, paroikía), mas que, como Jesus e à sua maneira, somos também filhos e chamamos a Deus «nosso Pai». E é neste Senhor Jesus que, conforme desígnio eterno do Pai, deu a sua vida terrena por nós, mas deu-nos também a vida eterna, que o seu maior dom, temos posta a nossa fé e a nossa esperança, muito para além das coisas corruptíveis, como prata e oiro, e de tudo o que se avalia, mede ou pesa (1 Pedro 1,17-21). É-nos pedida, portanto, vida nova de acordo com o estatuto por graça concedido, por graça recebido.

    14. Portanto, «o Senhor sempre diante de mim», cantamos hoje com o Salmo 16,8. Só Ele nos pode guiar no caminho da vida. Na verdade, as pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão, não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). E nós também cantamos no nosso Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

    António Couto


  • Páscoa significa passagem. É passagem. Transitiva e intransitiva. No mapa e no coração. Do inverno para a primavera, como os antigos pastores beduínos seminómadas, nas origens de Israel, e como registam os calendários dos modernos sedentários. Da escravidão para a liberdade, como os hebreus do Egito para a Terra Prometida. Da morte para a vida, como Jesus Cristo, que assume, atravessa e transfigura todas as nossas Páscoas ou passagens. A Páscoa és Tu, Senhor, que passas e nos chamas a seguir-te, e a estar contigo, para depois nos enviares em missão. «Vinde atrás de mim» (Mateus 4,19). «Vinde ver» onde moro (João 1,39). «Ide por todo o mundo» (Mateus 28,19).

    Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti, voltam a sair de ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o vinho, o pão, o peixe. Tu és a Páscoa verdadeira. Seguindo-te de perto no caminho, nós aprendemos e «sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Onde a habitual trajetória que seguimos parece levar-nos inexoravelmente da vida para a morte, tu vens ensinar-nos um caminho novo que faz passar da morte para a vida. E que esse caminho é o amor.

    A Páscoa é também o tempo social, usual entre nós, de limpar as casas e os caminhos, e de os alindar com flores. Mas a Páscoa é sobretudo o tempo interior da máxima exposição ao amor e à palavra que nos lava os pés e a alma, e que nos limpa o coração: «Vós já estais limpos, por causa da palavra que ouvistes de mim» (João 15,3). A Páscoa é então o tempo intenso de nos deixarmos operar pelo bisturi da palavra, que penetra até às pregas mais recônditas do nosso engessado coração (Hebreus 4,12). A Páscoa é a luz fulgurante que acende a nossa vida, e nos leva a passar essa luz, que é Jesus Ressuscitado, de mão em mão, de coração a coração. A Páscoa é Missão.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

    Mas quando dizem que Te querem ver,

    não é para Te conhecer.

    É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

    a tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

    Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

    Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

    quando Te dás a conhecer a nós,

    não mostras o rosto,

    uma fotografia,

    o cartão de cidadão.

    Se fosse assim,

    mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

    E o facto é que,

    quando surges no meio deles,

    não Te reconhecem.

    E em vez do rosto,

    são, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

    Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

    Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

    é dar a mão e o coração.

    É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

    Senhor, dá-nos sempre desse pão!

    António Couto


  • Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia

    Atos 2,42-47; Salmo 118; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31

    1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), que o Papa S. João Paulo II, em 30 de Abril do ano 2000, consagrou como «Domingo da Divina Misericórdia». Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência e da Precedência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua vida e à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. João Batista tinha apresentado Jesus como Aquele que batiza com o Espírito Santo (João 1,33), que é a vida de Deus, a Dýnamis, o poder de Deus, imperecível, que só Deus pode comunicar. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

    2. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo, quando Ele por graça se faz ver, não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Não se capta deste lado, seja qual for a técnica aplicada. É-nos dado por graça reconhecê-lo. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz, de onde jorra também a dádiva do Espírito (João 19,34; cf. 7,37-39; Atos 2,33). Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, fazendo-nos ao mesmo tempo reconhecer que Ele ultrapassou a morte, vencendo-a. As mãos e o lado são sinais abertos para podermos entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus Ressuscitado, soprando sobre nós o alento do Espírito, da Vida, da Paz e do Perdão. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

    3. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

    4. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele deve ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, por assim dizer, rasteirado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Confessa de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo, fé e confiança, adesão no tempo da história, e no dia-a-dia renovada. Esta felicitação é para nós.

    5. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entrando dentro dele, precedendo-o e presidindo-o, rendeu-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

    6. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47, mas ver também 4,32-35 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

    7. Vem em nosso auxílio também a Primeira Carta de Pedro 1,3-9, que nos apresenta uma síntese feliz da visão nova da fé e da obra da misericórdia de Deus em nós, os dois grandes temas deste Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia. Filhos renascidos da grande misericórdia do nosso Deus, verificada pela Ressurreição de Jesus Cristo (1 Pedro 1,3), exultamos de alegria. E repetem-se temas importantes acerca da visão da fé na Ressurreição de Jesus, em que a expressão gramatical é outra vez importante. Não o tendo visto na história (ouk idóntes: part. aor2 de horáô), nós o amamos agora, e não o vendo agora com os nossos olhos (mê horôntes: part. pres. de horáô), acreditamos agora (pisteúontes: part. pres. de pisteúô) (cf. 1 Pedro 1,8).

    8. Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa [«Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24], e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘ozzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

    António Couto


  • 1. Em 12 de Janeiro de 2010, às 16h53, um violento sismo abalou o Haiti e abalou o coração do mundo, desencadeando por toda a parte uma gigantesca onda de solidariedade e compaixão.

    2. «Merci, Seigneur», [= «Obrigado, Senhor»], rezavam vozes jovens logo nos primeiros dias resgatadas dos escombros. Vozes saídas do milagre. Oração saída das entranhas.

    3. Naquela tarde do dia 12 de Janeiro, Ena Zizi, uma senhora de 69 anos, estava na missa quando viu a igreja cair-lhe em cima. Continuou a rezar, e, ao sétimo dia, chegou o auxílio. E Ena saiu a cantar de debaixo dos escombros. Contou uma socorrista mexicana: «Ela agarrou a minha mão com tanta força, que pensei que era Deus que me estava a tocar».

    4. «Deus ajudou-me», respondeu Kiki, aquele menino de sete anos, feliz, de sorriso largo e de braços abertos, quando lhe perguntaram: «Como conseguiste sobreviver sete dias debaixo dos escombros»?

    5. Isabel Jossaint, uma bebé de 15 dias, foi resgatada ao oitavo dia, quando já até os seus pais estavam conformados com a sua morte. Estava sossegada debaixo da mobília da casa. Tinha passado metade da sua vida debaixo dos escombros! Disse o avô: «Todos sabiam que a menina estava morta, menos Deus!».

    6. Emmanuel Buso, um jovem de 21 anos, esteve soterrado nos escombros da sua casa durante dez dias. Foi bebendo a própria urina para não se desidratar. Deitado agora na cama do hospital, afirma: «Só estou aqui, porque Deus assim o quis».

    7. «Rezei a Deus», respondeu a menina, de 14 anos, resgatada catorze dias depois da catástrofe, quando lhe perguntaram: «O que fizeste durante este tempo todo?»

    8. São histórias vivas, densas, encharcadas de dor, de Deus e de amor. Corações a bater, orações a arder, lições a doer para este mundo sonolento, violento, insípido, amortalhado em vida, esse sim soterrado nos escombros de um egocentrismo sem saída.

    9. O Apóstolo Paulo aponta-nos o AMOR como o CAMINHO HIPERBÓLICO (kath’ hyperbolèn hodón) (1 Cor 12,31), portanto, excessivo e belo e maravilhoso. E dirá na Carta aos Colossenses que o AMOR é o vínculo (sýndesmos) (Cl 3,14), portanto, a fita, o fio, o cíngulo, o cinto que aperta e ajusta as vestes e os corações. E a Carta aos Hebreus vai até ao ponto de nos exortar a estar atentos uns aos outros «até ao paroxismo do AMOR» (eis paroxysmòn agápês) (Hb 10,24).

    10. Tristemente célebre e tragicamente verdadeira é a transcrição que George Orwell (1903-1950) fez do grande texto do «Hino ao Amor» que o Apóstolo Paulo nos deixou em 1 Coríntios 13, substituindo o AMOR pelo DINHEIRO. Escreveu assim George Orwell: «Ainda que falasse todas as línguas, se não tiver dinheiro, sou como um bronze que retine… Se não tiver dinheiro, nada sou… O dinheiro tudo crê, tudo espera, tudo suporta…».

    11. Não anda longe de Orwell esta sociedade em que vivemos. E aqueles que mandam no mundo, ou que pensam que mandam. Mas os pobres, que não têm dinheiro nem poder, continuam a dar-nos lições de amor. Como estas, vindas do Haiti. Merci, Seigneur!

    António Couto


  • 1. «Do SENHOR veio isto:/ isto é MARAVILHOSO (niphla’t TM / thaumastê LXX) aos nossos olhos! ESTE-O-DIA que fez o SENHOR:/ exultemos e alegremo-nos nele!» (Sl 118,23-24).

    2. Não é um dia cíclico, um dia entre outros dias, o dia que o salmista aclama! Os dias, de resto, fê-los todos o SENHOR (Gn 1,1-2,3). Trata-se aqui de um DIA novo, e sem série (cf. Sir 33,7-9). É o profético «DIA do SENHOR», aqui totalmente cheio da ação benfazeja do SENHOR!

    3. Os Evangelhos documentam esta alegria grande e nova e esta ESTUPEFAÇÃO MARAVILHOSA a abrir o nascimento de JESUS e o DIA novo da sua Ressurreição. Alegria grande (chará megálê) evangelizada (euaggelízomai) aos pastores, mas que é para todo o povo (Lc 2,10). De facto, todos quantos escutaram os pastores ficaram MARAVILHADOS (thaumázô) (Lc 2,18). Em estado de MARAVILHA (thaumázôn: particípio presente) ficou Pedro quando leu os sinais do túmulo de Jesus aberto (Lc 24,12), e depois os Onze e os outros com eles, movidos pela alegria (chará) e pela MARAVILHA (thaumázontes: particípio presente) (Lc 24,41), um versículo sobrecarregado com as notas da alegria incontida e da esfuziante MARAVILHA.

    4. Só assim, em estado de MARAVILHA permanente, Maria Madalena pode ir anunciar: «VI (heôraka) o SENHOR!» (Jo 20,18), e os Dez podem dizer a Tomé, chamado Gémeo, irmão gémeo, talvez nosso: «VIMOS (heôrákamen) o SENHOR!» (Jo 20,25). Os dois verbos «ver» estão no tempo perfeito, pelo que, de facto, significam: «VI e continuo a VER», «VIMOS e continuamos a VER». Um VER perfeito. Sempre pleno. Completo.

    5. Lendo muito bem o mistério de Cristo, o Papa S. João Paulo II, no início do seu Pontificado, deixou escrito, com palavras luminosas, na Encíclica Redemptor hominis, n.º 10, de 04 de março de 1979, que o homem deve «apropriar-se e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção para se encontrar a si mesmo», e ficar assim «MARAVILHADO face a si mesmo», «ESTUPEFACTO perante o seu valor e dignidade». E acrescenta ainda que é «a esta ESTUPEFAÇÃO que se chama Evangelho ou Boa Nova».

    6. Os missionários cultivam a alegria, o espanto e a MARAVILHA, e compete-lhes colocar este mundo em estado de MARAVILHA, ou não fôssemos nós também testemunhas destas coisas (cf. Lc 24,48; At 2,32). E, portanto, somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste! Nós tornámo-nos desistentes, apoderou-se de nós o desânimo e a frustração, fomos embora. E como é que estamos agora aqui, indómitas testemunhas, prontos a dar a vida por Jesus?

    7. A Páscoa só pode ser cheia de CRISTO RESSUSCITADO, MARAVILHA do SENHOR aos nossos olhos!

    António Couto


  • 1. As mais antigas raízes da festa da Páscoa [= «passagem»] remontam certamente aos antigos pastores seminómadas do Próximo Oriente Antigo, que se deslocavam, com os seus rebanhos, ao longo de uma estreita faixa de terra, situada entre as terras cultivadas e o deserto. Não entravam nas terras cultivadas: se o fizessem iriam arranjar problemas com as populações sedentárias; não entravam no deserto: se o fizessem, o gado miúdo sucumbiria rapidamente.

    2. A festa da Páscoa teria a ver inicialmente com os ritos apotropaicos [de apo-trépô = afastar de, conjurar] levados a cabo por estes pastores seminómadas, ritos que seriam em tudo análogos aos sacrifícios realizados entre os beduínos árabes pré-islâmicos, no decurso da primeira noite de lua cheia (antigo shabbat ou sábado) da Primavera [= primeiro Verão], mês de Radjab ou de Abib ou de Nisân, antes da transumância estival, e que se destinavam a afastar as doenças dos rebanhos, sobretudo as que podiam afetar as crias jovens, particularmente nesta época de transumância, e, portanto, de «passagem».

    3. Tratava-se de uma festa noturna, realizada à luz da lua. É a lua, de resto, que comanda o suceder dos dias no Próximo Oriente, onde o dia começa, não com o nascer do sol, mas com o nascer da lua. A escolha para uma noite de festa recai, portanto, naturalmente na noite de lua cheia, por causa do luar. De resto, o intenso calor no limiar do deserto não permitia que tais ritos festivos se realizassem durante o dia. Nessa época de «passagem» para a Primavera e para novas pastagens, era costume imolar um animal do rebanho, provavelmente um cabrito desleitado, de um ano de idade, dito «filho de um ano». Só mais tarde se fala em imolar um cordeiro. Nos sacrifícios da Primavera dos árabes antigos, o cabrito é referido mais vezes do que o cordeiro. É também o cabrito desleitado, «filho de um ano», que é mencionado no texto ritual antigo do Livro do Êxodo 34,26. A carne do animal imolado era comida juntamente com o bolo folhado de pão não levedado, próprio dos pastores seminómadas, que o assavam sobre as pedras escaldadas pelo sol, condimentando-o com ervas do deserto. O pão ázimo cozido no forno e comido com ervas amargas tiradas da horta representa a fase sedentária, e, portanto, posterior, dos ázimos.

    4. A antiga descrição da Páscoa no Egito, referida em Êxodo 12,21-23, recolhe as antigas tradições atrás referidas acerca dos sacrifícios apotropaicos dos pastores seminómadas efetuados na primeira noite de lua cheia da Primavera para afastar os golpes do «exterminador» (Êxodo 12,23), e sedentariza-as. Fala-se, portanto, de casas (Êxodo 12,22.23), e não de tendas. E localiza-as no Egito. Continua a privilegiar a noite e a lua cheia, como vinha da antiga tradição seminómada. Situa, por isso, a festa da Páscoa na noite do décimo quinto dia (Êxodo 12,6-8) do mês de Abib ou de Nisân, primeiro mês do ano (Êxodo 12,2), que começava com a Primavera. Mas aqui já não se trata de transumância com a «passagem» do gado para novas pastagens, nem tão pouco da «passagem» para o tempo primaveril, mas da «passagem» do povo de Israel da escravidão para a liberdade.

    5. A Páscoa de Cristo retoma tudo o que vem de trás: o cordeiro, o pão ázimo, as ervas amargas, o carácter noturno (patente ainda hoje na Ceia Pascal hebraica e na Vigília Pascal cristã), a lua cheia (a Páscoa é uma festa móvel, porque acompanha, ano após ano, a primeira lua cheia da Primavera). Mantém-se também o sentido de «passagem», ainda que cada vez mais alargado e aprofundado: passagem tranquila para novas pastagens, passagem para um tempo novo, passagem da escravidão para a liberdade, passagem da morte para a vida verdadeira, que é o verdadeiro sentido da Páscoa de Cristo, que se apresenta a si mesmo como o passageiro deste mundo para o Pai (João 13,1).

    António Couto


  • O ser humano, criança, jovem ou adulto, merece sempre o melhor de nós. Em todas as circunstâncias, e seja qual for o seu lugar no mapa. Parecemos, por vezes, mais ocupados com o alcatrão e as estátuas. Tempo perdido, pois é sabido que nenhuma música inebria as estátuas de alegria. O essencial do ser humano não se vê nas praças ou nas ruas. O melhor do ser humano é intransitivo. O mapa desenrola-se por dentro. Alta tensão. Toda a atenção no coração. Só o Amor pode dissolver este nevão. Só o Bem pode vencer o mal. O Bem não combate. Se combatesse, já não seria Bem. Seria mal. Mais mal, portanto, adviria. Só o Bem pode vencer, sem combater, este combate. Só o Amor. O Amor ama também o mal. É aí que o vence.

    Foi assim que Jesus atravessou e abraçou a nossa cegueira e violência. Até à Cruz e à Luz da Ressurreição. Vem sempre, Senhor Jesus. Vem e chama por nós outra vez. Ainda agora vieste para reanimar a nossa esperança. Não nos deixes ficar aqui, tranquilos, a consertar bolsas ou redes, quando há tanto Amor para semear, tanta paz para ativar.

    António Couto


  • Tu, Senhor, Tu falas

    e um caminho novo se abre a nossos pés,

    uma luz nova em nossos olhos arde,

    átrio de luminosidade,

    pão

    de trigo e de liberdade,

    claridade que se ateia ao coração.

    Lume novo,

    lareira acesa na cidade,

    és Tu, Senhor, o clarão da tarde,

    a notícia, a carícia, a ressurreição.

    Passa outra vez, Senhor,

    dá-nos a mão,

    levanta-nos,

    não nos deixes ociosos nas praças,

    sentados à beira dos caminhos,

    sonolentos,

    desavindos,

    a remendar bolsas ou redes.

    Sacia-nos.

    Envia-nos, Senhor,

    e partiremos

    o pão,

    o perdão,

    até que em cada um de nós nasça um irmão.

    António Couto


  • Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

    At 10,34a.37-43; Sl 118; Cl 3,1-4 (1 Cor 5,6b-8); Jo 20,1-9

    1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mt 27,46 e Mc 15,34, citando apenas o início: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Rm 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (Jo 19,34; Ef 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a caminhada quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Ef 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Rm 16,25‑26; 1 Cor 2,7‑10; Ef 3,3‑11; Cl 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Ef 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos com a Chará, a Alegria grande da Páscoa, pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Sl 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mt 28,1; Mc 16,2 e 9; Lc 24,1; Jo 20,1 e 19; At 20,7; 1 Cor 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (At 2,20; Ap 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico inteiro, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte!), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde jorra continuamente a vida e a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

    2. O Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de Jo 20,1-9, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Mc 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mt 28,2): impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Mc 16,4); dois homens com vestes fulgurantes (Lc 24,4); as faixas de linho no chão e o sudário enrolado em outro lugar (Jo 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram o abandono das vestes da morte e deixam entrever uma forma de vida nova que somos chamados a identificar.

    3. O texto imenso de João 20,1-9 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não.

    4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê (blépei), com um olhar normal (verbo grego blépô), um olhar que até causa aflição, a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus(Jo 20,1), tal é o significado imposto pela forma verbal êrménos, particípio perfeito passivo do verbo aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável (ação de Deus!) como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece um claro contraponto com a pedra por algum tempo retirada pelos homens do túmulo de Lázaro. Chegado ao túmulo de Lázaro, Jesus manda retirar (árate: impv. aor. de aírô) a pedra (cf. Jo 11,39), e mãos humanas retiraram-na (êran: aoristo de aírô) (cf. 11,41) por algum tempo, pois Lázaro, trazido da morte por Jesus a esta vida terrena, vai naturalmente voltar a morrer. No que se refere ao túmulo de Jesus, a Madalena, cega pelos seus preconceitos, falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada e baralhada, a levar uma notícia falsa: «Retiraram (êran: aoristo do verbo aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (Jo 20,2). O que a Madalena diz, trocando o perfeito pass. pelo aoristo simples, é que mãos humanas retiraram (ato histórico pontual) o Senhor do túmulo. Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (Jo 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende, e nada do que faça dá bom resultado. A oposição luz-trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (Jo 1,9). Sem esta Luz, que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompetência, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (Jo 3,2) e nada entende, como os discípulos que nada pescam de noite (Jo 21,3), e no meio do escuro andam perdidos (Jo 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (Jo 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido no pátio da noite e no meio dos guardas (Jo 18,17-18).

    5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e «o outro discípulo». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos empregados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e (blépei) a pedra(da morte) retirada. 2) «O outro discípulo», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e (blépei) as faixas de linho no chão, mas não entra. 3) Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em Jo 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (Jo 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim, até à Cruz e ao túmulo! Digamos, à nossa maneira, que deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, «o outro discípulo» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR «o outro discípulo», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

    6. Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que «o outro discípulo» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se Jo 13,24 e 21,7), e (theôreî, ind. presente do verbo theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. Jo 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada com tanta ordem, aprumo e esmero! Por isso, Pedro com o olhar de quem fica a pensar no que terá acontecido… Olhando para trás, pode comparar-se com o que se passou com Lázaro. Por ordem de Jesus, mãos humanas retiraram por algum tempo a pedra que tapava o túmulo de Lázaro (cf. Jo 11,41). Por ordem de Jesus, Lázaro saiu do túmulo com as vestes da morte, com as faixas da morte a prenderem-lhe os pés e as mãos e o sudário a tapar-lhe o rosto (cf. Jo 11,44a). Foi mesmo necessária uma nova ordem de Jesus para que o libertassem e o deixassem ir (cf. Jo 11,44b). Em contraponto, a pedra agora da morte retirada para sempre e por Deus faz ver que o poder da morte não tem ali mais qualquer domínio. E a indicação preciosa de que as faixas da morte estavam estendidas no chão, inutilizadas, e que o sudário se apresentava cuidadosamente dobrado fazem ver a Pedro que o que ali aconteceu não foi obra de ladrões, mas Pedro ainda não está apto para compreender o que fazem ali as vestes da morte deixadas para trás (Jo 20,6-7).

    7. «O outro discípulo» entrou depois de Pedro no túmulo, viu a mesma coisa, mas com olhos diferentes e de forma diferente. Viu por dentro, viu a identidade. O verbo empregado já não é o de Pedro, que era o verbo theôréô, que indica que quem vê, fica a pensar no significado do que vê. «O outro discípulo» entrou no túmulo, e viu de modo absoluto (eîden: ind. aoristo de horáô), com o olhar próprio de quem vê a identidade. Por isso, «o outro discípulo» deu um passo em frente: viu e acreditou de modo absoluto (Jo 20,8). Todavia, o narrador fecha a cena dizendo que «ainda não tinham entendido a Escritura, que dizia que Ele devia (deî) ressuscitar dos mortos» (Jo 20,9). A capacidade de compreensão dos discípulos habilitava-os a entender o que podiam entender: que o final da vida terrena de Jesus estava ali, naquela morte na cruz e naquele túmulo, onde ele jazia envolvido nas faixas da morte (cf. Jo 19,40). Agora já sabem que as faixas no chão estendidas e o sudário cuidadosamente dobrado são sinais, que ainda terão de aprender a ler; como terão também de aprender a ler a Cruz de Jesus como «Obra do Senhor» (Sl 22,32), bem como outros sinais que Jesus recomendou, para evitar equívocos, que apenas fossem falados depois de o Filho do Homem ressuscitar dos mortos (Mc 9,9). Será, portanto, o encontro com o Senhor Ressuscitado que habilitará os discípulos de todos os tempos a compreenderem a Escritura (cf. Jo 2,22) e a interpretarem tudo o que ela diz sobre Jesus (At 2,24-31; 13,32-37).

    8. É verdade que à pergunta fundamental de Jesus aos seus discípulos, estrategicamente colocada no centro do Evangelho: «Quem dizeis vós que Eu Sou?», Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16). Mas opõe-se logo energicamente às palavras de Jesus (Mt 16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (Mt 16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Mc 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre eles sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de eles certamente ter pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

    9. O que não compreendem agora, compreendê-lo-ão mais tarde, quando souberem a Escritura e experimentarem a força (dýnamis) da Ressurreição de Cristo (Fl 3,10-11). Reconhecerão então em Jesus Aquele que veio do outro lado do nosso mundo de sofrimento e de morte, Aquele que veio de Deus, para trazer à humanidade, na sua pessoa, a vida de Deus e a plena comunhão com Ele. Verdadeiramente, a vida, a vida mesmo, é união e comunhão com Deus. E esta vida divina, dada por Jesus à humanidade, atravessa a morte, mas não se extingue nem se apaga na morte. A união e comunhão com Deus, a nós dada por Jesus, não conhece fim nem decaimento nem qualquer tipo de parêntesis. O verdadeiro dom que Jesus nos traz não consiste numa vida terrena que se prolonga sempre, digamos uma vida terrena sem morte terrena, mas na vida em comunhão com Deus, esta sim, inextinguível.

    10. Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e , agora também (como Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza, do luto. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (Jo 19,38), daquele Rei por mãos humanas retirado (Jo 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do túmulo de Lázaro (Jo 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de Jo 20,1. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram» (Jo 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

    11. Voltando-se para o jardim, , outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (Jo 20,15).

    12. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar em aramaico o nome dela: «Maria!» (Jo 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para Jo 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (Jo 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (Jo 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

    É o amor, ainda que imperfeito,

    é o amor, ainda que com defeito,

    é o amor que faz correr a Madalena.

    É o amor, ainda que imperfeito,

    é o amor, ainda que com defeito,

    é o amor que faz chorar a Madalena.

    Mas tu sabes, meu irmão da páscoa plena,

    tu sabes que há outro amor em cena,

    e é esse amor que faz amar a Madalena.

    13. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco ortodoxa, a romano católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

    14. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jr 31,34; Is 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ez 34,16; Dn 9,24. Ver depois Jo 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

    15. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

    16. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Cor 5,7 e Lc 22,15, esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Cor 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; é comido em família. O Sacrifício da Páscoa realizava-se a seguir à ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Ex 29,38-42 e Nm 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Depois deste sacrifício quotidiano, procedia-se então, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Dt 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Cor 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

    17. A música do Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), levanta-se do meio da alegria própria da Festa: «Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!» (v. 24) é o refrão que hoje cantaremos. Este Salmo eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘ozzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Ex 15,2 e Is 12,2. YAH está por YHWH. A récita das maravilhas do Senhor enche a nossa vida de alegria, e deixa mesmo os nossos olhos encantados a contemplar a ação surpreendente de Deus entre nós, que põe como pedra angular a pedra por nós rejeitada (v. 22).

    António Couto


  • Acabámos de entrar no país da Páscoa.

    Os pátios dos sacerdotes e de Pilatos

    ficaram para trás.

    Para trás ficou também o canto do galo,

    os gritos dos guardas e das multidões,

    a febre das traições.

    O que se ouve agora é o anúncio do Anjo,

    a alegria das mulheres,

    a Plenitude da Vida a transbordar

    das páginas da Escritura Santa e da Cruz de Jesus,

    o rumor do Amor,

    de um Amor novo e subversivo,

    que vence óbitos e ódios,

    raivas e violências,

    a raiz de um mundo novo a germinar

    daquela noite de Luz

    e a entregar Jesus

    a quem o queira receber.

    Veem-se mulheres e homens a correr,

    belos e leves

    sobre os montes,

    sem qualquer bagagem a estorvar,

    sem nada a entorpecer,

    como quem acaba agora de nascer.

    Move-os apenas a Notícia do Ressuscitado,

    a Carícia que acaba de chegar,

    e que é preciso levar

    à pressa a todo o lado.

    Vem, Senhor Jesus Ressuscitado,

    fica connosco,

    vai connosco,

    que precisamos de ter o coração habitado,

    iluminado,

    e incendiado.

    António Couto


  • Gn 1,1-2,4a; Sl 104;/ Gn 22,1-18; Sl 16;/ Ex 14,15-15,1; Ex 15,1-6.17-18;/

    Is 54,5-14; Sl 30;/ Is 55,1-11; Is 12,2-6;/ Br 3,9-15.32-4,4; Sl 19;/

    Ez 36,16-1a.18-28; Sl 42;/ Rm 6,3-11; Sl 118;/ Mt 28,1-10

    1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3).

    2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo e belo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado, todos irmãos, todos contemporâneos. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não». Tudo céu azul claro acabado de lavrar. Nenhuma parcela de chão envenenado. Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não. «E viu Deus que era Bom!», eis o selo do sentido que, por sete vezes, plenitude, Deus apôs à sua Criação, e assim a entregou ao homem para que dela cuidasse com desvelo e devoção.

    3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Abraão, sim, confiou em ti, e tomou o rumo da liberdade, ao ritmo da tua Palavra, para Te oferecer em holocausto o seu filho único, que ele amava tanto, única riqueza da sua vida, depois de deixar para trás a sua terra, a sua parentela e a casa do seu pai (Génesis 12,1). Ao terceiro dia, Abraão avistou ao longe o monte do holocausto, «viu o meu dia, e encheu-se de alegria», dirá Jesus acerca de Abraão (João 8,56), e Abraão prosseguiu o caminho até lá, deixando para trás e à espera os seus dois criados, como testemunhas de quanto iria acontecer. Na verdade, Abraão diz-lhes antes de partir: «Ficai aqui com o jumento. Eu e o menino iremos ao alto daquele monte adorar o Senhor, e voltaremos para junto de vós» (Génesis 22,5). Isaac carregava a lenha. Abraão levava o fogo e o cutelo. «Temos o fogo e a lenha», observa Isaac, «mas onde está o cordeiro para o holocausto?», pergunta Isaac (Génesis 22,7). Abraão respondeu: «Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho» (Génesis 22,8). Chegados ao lugar, Abraão preparava-se para oferecer em holocausto o seu filho único, que ele amava tanto. Mas Deus segurou a mão de Abraão, impedindo o cutelo de cumprir a sua missão. Assim Deus mediu a confiança de Abraão. E, afinal, não foi oferecido um cordeiro (seh), mas um carneiro (ʼayil) que estava ali preso no silvado (Génesis 22,13). Portanto, não foi o cordeiro, o filho, que foi oferecido; foi o carneiro, o pai, que assim ofereceu a Deus a sua vontade paterna de possuir o seu filho como sua propriedade. Os criados, que tinham ficado à espera, são testemunhas desta oferta a Deus da paternidade de Abraão. Na verdade, o texto diz bem que Abraão regressou para junto deles (Génesis 22,19). Os dois criados viram que Abraão subiu com o menino; e constatam agora que Abraão regressa sozinho. Abraão ofereceu a Deus a sua posse mais profunda. Nós somos filhos e herdeiros desta imensa confiança e doação plena de Abraão.

    4. Visitámos depois o Egito possessivo e opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «pradaria verdejante» (Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

    5. Com Isaías, Jerusalém é trazida para o centro da cena, verdadeiro lugar teológico. Por pouco tempo abandonada e desfilhada, mas logo amada e desposada, rodeada de filhos como se fossem pedras preciosas, ajustadas com argamassa negra, dita em hebraico pûk (Isaías 54,11), entenda-se embelezadas, adornadas e sombreadas com rímel, que é também o significado do hebraico pûk, como se de pedras vivas ou pessoas se tratasse. E, na verdade, vendo mais fundo, belo e bom, como Deus vê (Génesis 1), não se trata de pedras (ʼabanîm), mas de filhos (banîm). Metáfora sublime: Jerusalém, esposa e mãe, vê chegar os seus filhos de longe, do exílio, e vê também, em sobreposição, as muralhas da cidade a serem reconstruídas! Tudo isto vem de Deus que ama a sua cidade, esposa e mãe embevecida, de novo visitada pela alegria e encharcada pela chuva fecunda da Palavra de Deus (Isaías 55,10-11), que irriga o coração e oferece um alimento novo e literalmente «de graça» àqueles que chegam de longe, do exílio, sem nada. Sim, com Isaías e Ezequiel, recordámos as paisagens tristes e sombrias dos nossos exílios, mas também da tua admirável presença e proteção, Senhor. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas também e sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas! Vós, que não tendes dinheiro, vinde! Comprai cereal e comei! Comprai cereal sem dinheiro e, sem pagar, vinho e leite. […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti… e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e protetora, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, quebraste o nosso coração de pedra e deste-nos um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 36,26).

    6. Tanta gratidão te é devida, Senhor! Com Baruc aprendemos a sentar-nos junto de Ti, Senhor, e a rezar para recebermos a Vida que vem de Ti. Dá-nos, Senhor, um coração capaz de compreender e de se comover, capaz de escutar a tua Palavra; dá-nos, Senhor, a Sabedoria que se senta junto de Ti, que são os teus Mandamentos, a tua Instrução, o Livro da Vida das Escrituras Santas, que quiseste que fosse também a nossa bússola. É lá que está a Vida verdadeira.  Por isso, desejar ler bem as Escrituras é desejar o divino. E é ainda por isso que é preciso rezar para ler bem as Escrituras. O que é divino obtém-se pela oração. Se o pudéssemos obter com a nossa mão, não haveria nenhuma razão para o chamar divino. Seria então simplesmente humano. Mas o Livro das Escrituras Santas, que é o Livro dos teus Mandamentos, que é o Livro da tua Sabedoria, ensina-nos a viver de outra maneira, ensina-nos a fazer em cada momento o que devemos fazer, e a fazê-lo, não por dever, mas por amor.

    7. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, ó milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino depositado na manjedoura, o Crucificado depositado no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

    8. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de pergaminho ou de papel, elevando a nossa humana vida e a inteira Escritura Santa à sua Plenitude. Mal aparecem as primeiras três estrelas no firmamento, que acendem o Primeiro Dia da semana (tê epiphôskoúsê eis mían sabbátôn) (Mateus 28,1a), Maria Madalena e a outra Maria vêm ver (theôréô) o túmulo com atenção e carinho (Mateus 28,1b). Já antes estavam lá a ver (theôréô) da mesma maneira (Mateus 27,55) a Cruz de Jesus e a sua Morte e tudo quanto, vindo de Deus, ali aconteceu. O verbo theôréô não significa um simples e anódino ver, mas um ver atento que faz estremecer, que dá que pensar, únicas duas menções deste verbo no Evangelho de Mateus. E traduz o ver diferente das mulheres junto da Cruz e junto do túmulo de Jesus. Note-se que, nesta página admirável de Mateus, as mulheres não conseguem dormir, não esperam pela madrugada do primeiro dia da semana para saírem de casa, mas vão ver o túmulo de Jesus logo que termina o sábado, pouco depois do pôr-do-sol de sábado e de aparecerem as primeiras três estrelas no céu de Domingo! É esse o sinal de que acabou o sábado e se acende para sempre um dia novo, o primeiro dia da semana, o DOMINGO.

    9. Além desta saída apressada das mulheres mal termina o sábado e se acende a Luz nova de Domingo, note-se outra particularidade desta página sublime de Mateus. Neste Evangelho, as mulheres vão simplesmente ver o túmulo de Jesus. Não se ocupam a preparar e  a levar perfumes, não as move qualquer intenção de ungir com aromas o corpo de Jesus, não pensam em entrar no túmulo, não estão preocupadas com a pedra que fecha a entrada do túmulo como referem Marcos e Lucas. No Evangelho de Mateus, as mulheres vão simplesmente ver o túmulo. Mas acabam por ver muito mais. Aconteceu um grande terramoto, e um Anjo do Senhor desceu do céu como um relâmpago, aproximou-se, rolou a pedra do túmulo, e sentou-se (ekáthêto: imperf. de káthêmai) soberanamente sobre (epánô) ela (Mateus 28,2-3). O sentar-se do Anjo sobre a pedra da morte indica domínio sobre a morte; é como estar sentado sobre um trono (cf. Mateus 23,22). Acabou-se o domínio da morte. Perante um tal esplendor e domínio fulminante, os guardas de serviço, que vigiavam um eventual furto do cadáver de Jesus, ficaram cheios de medo, e caíram por terra como mortos (Mateus 28,4). Já não poderão testemunhar o dizer do Anjo. Às mulheres que tinham ido, desarmadas, simplesmente para ver o túmulo, o Anjo do Senhor diz para não terem medo, e desvenda o que elas sentem e pensam: «Sei que procurais Jesus, o Crucificado» (Mateus 28,5), e entrega-lhes um novo e inaudito saber: «Não está aqui; foi Ressuscitado», e convida-as a mudarem de olhar e a irem, não ver ou identificar (ideîn) um corpo morto, mas ver o lugar onde jazia (Mateus 28,6).

    10. A pedra retirada do sepulcro e o facto de o Anjo se sentar sobre ela indica o fim do domínio da morte. A pedra não é retirada para Jesus sair, mas para que as mulheres possam entrar e verificar a ausência do corpo de Jesus. E a ausência do corpo de Jesus aqui, neste lugar, como bem sabiam Maria Madalena e a outra Maria, que estiveram lá sentadas em frente do túmulo (Mateus 27,61), mostra que a Ressurreição de Jesus não é menos real do que a sua morte. Não é, todavia, suficiente que as mulheres vejam o túmulo aberto e a ausência nele do corpo de Jesus; é necessário o anúncio da Ressurreição feito pelo Anjo do Senhor. E é ainda o Anjo do Senhor que as faz dar um novo passo em frente, incumbindo-as de uma imensa missão: «Ide dizer aos seus discípulos que Ele foi ressuscitado dos mortos e vos precede na Galileia» (Mateus 28,7). E elas partiram imediatamente e, com alegria grande, correram a levar a notícia (Mateus 28,8). Mas pelo caminho são ainda surpreendidas pelo próprio Jesus Ressuscitado, que as convida à alegria e a não terem medo, e reformula, de forma maravilhosa, o último dizer do Anjo: «Ide dizer aos meus Irmãos…» (Mateus 28,9-10).

    11. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição de Jesus antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.

    12. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como os discípulos de Emaús, que sentiam o coração a arder. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado deverá levar para sempre a arder dentro de si este Lume Novo.

    13. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

    António Couto


  • Sexta-Feira Santa. Celebração da Paixão do Senhor

    Isaías 52,13-53,12; Salmo 31; Hebreus 4,14-16; 5,7-9; João 18,1-19,42

    1. Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.

    2. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cédron e entrámos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas – mísero sucedâneo da LUZ – e com armas (João 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, referem os relatos de Mateus e de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Mateus 26,56; Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados, unidos e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).

    3. Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Marcos 14,72; João 18,1-27). Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que, depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o relato do anunciador. É o relato que serve de base ao futuro anunciador do Evangelho, que não pode limitar-se a atirar para o ar a Notícia do Crucificado Ressuscitado, sem nela se envolver e comprometer. Terá de credibilizar a incrível Notícia que anuncia, contando a sua história de desistente e dissidente, ensonado e renegado, mas recuperado e perdoado e transformado pelo Ressuscitado! Sim. Pedro renegou Jesus e foi-se embora, certamente destroçado com aquela paixão e morte de Jesus. O que se esperava do Messias não é que viesse para sofrer e morrer. Não só não vinha para sofrer e morrer, mas vinha para nos libertar a nós do sofrimento e da morte, assim pensava o judaísmo fiel.

    4. Fica assim bem à vista que, se Pedro voltar à cena, não o fará por algum resto de esperança que ainda permaneça aceso nele. Pedro desceu ao fundo. Se ainda emergir, então é porque Jesus é o Vivente e pegou em Pedro e nos outros e em nós. É esta a história da sua vida que Pedro agora vive e terá de contar para credibilizar o anúncio do Ressuscitado. «Conhecer a Páscoa significa, para quem verdadeiramente a conhece, estar implicado nos acontecimentos de Sexta-Feira Santa» (Karl Barth). Percebe-se que só assim é credível o anúncio de Pedro, como o dos restantes Apóstolos, igualmente desistentes e dissidentes e renegados! Como o de Paulo, completamente virado do avesso pela força nova do Ressuscitado! A Igreja está fundada sobre Pedro, mas Pedro está fundado sobre o seu pecado perdoado! Assim Pedro, assim Paulo, assim nós também! O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Génesis 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já antes disso, logo desde os primeiros séculos, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos.

    5. Mas vejamos ainda melhor a qualidade ou falta dela do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (João 18,19-21). Impressionante verificarmos que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio do Sumo Sacerdote, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (João 18,17.25-27).

    6. Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, em três vagas sucessivas, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espetáculo da morte! A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Salmo 35,19; 69,5; João 15,25). Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 João 4,19), quando éramos ainda pecadores (Romanos 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Isaías 2,2-4; Miqueias 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gálatas 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Colossenses 2,14).

    7. Ainda vamos a tempo de ver que, sob o olhar do Crucificado, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (João 19,23). O contraponto, belo, de inexcedível beleza, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus (parà tô staurô) (João 19,25). A expressão grega parà tô staurô, tradução literal «junto da Cruz», é de quem vê a Cruz como uma pessoa (é essa a força daquele dativo: tô staurô); se a Cruz fosse vista como um objeto, teríamos a expressão em acusativo: tòn staurón. Portanto, elas, as mulheres, abraçam a pessoa de Jesus e levam consigo o amor de Jesus!

    8. As pessoas mais ligadas a Jesus, neste IV Evangelho, são seguramente Maria, sua Mãe, e João Evangelista, aquele que se reclina sobre o peito de Jesus (João 13,25). É espantoso, mas ao longo de todo o Evangelho, o Evangelista nunca se refere a Maria e a João pelo seu nome, mas pela sua relação com Jesus. Assim, não se fala de Maria, mas da mãe de Jesus, da sua mãe; não se fala de João, mas do outro discípulo, aquele que Jesus amava! Fica claro: a nossa identidade está, não no nosso nome, mas na nossa relação com Jesus!

    9. Na Cruz, Jesus reza o salmo 22, todo, desde «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Salmo 22,2), até «Esta é a obra do Senhor!» (Salmo 22,32), que são as últimas palavras do Salmo 22, que deixam a claro que é de Deus a obra da Cruz! É assim, nos braços do Pai, que Jesus morre, sendo depois o seu corpo descido da Cruz e carinhosamente envolvido em panos de linho literalmente encharcados com 32 quilos e 800 gramas de perfume! (João 19,39), à imagem do Rei messiânico cantado no Salmo 45,9, que tinha os vestidos encharcados de perfume! Foi sepultado no jardim, num sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido sepultado (João 19,41). O Rei é sempre o primeiro em tudo. Vem depois aquela madrugada da Ressurreição.

    10. Por isso, depois disso, por causa disso, os primeiros cristãos rapidamente fizeram deste Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. O Imperador Adriano (117-135) soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de afastar os cristãos: no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis ou da Ressurreição, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

    11. Adoremos nós também, com amor, caríssimos irmãos e irmãs, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida.

    António Couto


  • Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a Deus,

    sabe a pão,

    sabe a alegria,

    sabe a Eucaristia!

    Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a amor,

    a dádiva da vida,

    a uma lágrima em flor,

    sossegada e comovida.

    Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a Ceia

    e a Jesus,

    luz grande que incendeia

    as trevas do coração,

    e põe a mesa cheia

    de amor e comunhão.

    António Couto


  • Quinta-Feira Santa, Missa da Ceia do Senhor

    Êxodo 12,1-8.11-14; Salmo 116; 1 Coríntios 11,23-26; João 13,1-15

    1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Vésperas II do Domingo da Ressurreição), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.

    2. Neste Dia Santíssimo, é-nos dada a graça de poder escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor: «O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Coríntios 11,23-26).

    3. Atravessado o relato, deparamo-nos com uma sequência verbal riquíssima, que mostra bem como a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro, desde o coração, sístole e diástole, ao mesmo tempo sangue e amor a circular nas nossas veias! Vida nova que vem de Deus, como quando o Espírito impele Sansão, os profetas, Paulo ou Jesus. O verbo hebraico para dizer este impulso do Espírito é paՙam. Sim, o Espírito impele-nos e empurra-nos pela estrada fora, mas esta sua ação forte e suave faz-se também sentir por dentro e desde dentro, movendo o coração e as suas avenidas, pois a família etimológica que de paՙam se desprende também serve para dizer o bater do coração (paՙam) e a pulsação (poՙam), e estende-se ainda ao soar do sino e da campainha (paՙamon), cujo som festivo ouvimos há pouco, e se calou, para voltar a soar na noite da Vigília Pascal, e queremos que se oiça bem alto no Domingo da Ressurreição do Senhor. É a voz do Espírito, é a força (dýnamis) irresistível do Espírito. Portanto, o Espírito de Deus que invocamos sobre este pão e sobre este vinho, impele-nos, empurra-nos, impulsiona-nos desde fora, mas move também a nossa vida desde dentro, dando-nos um coração novo, capaz de conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,/ PARTILHAR e DAR,/ COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

    4. Receber é um verbo fundamental, é a base da nossa vida, do pão e do vinho, vocação e missão sempre de Deus recebidas. Deus antes de nós; Deus para nós. Começamos a Eucaristia de mãos abertas para Deus, grande atitude bíblica e cristã. Dar graças. É só reconhecendo e sabendo e sentindo que a Graça tomou conta de nós, que podemos e sabemos dar graças, outra grande atitude que transforma a nossa vida. Partir, partilhar o pão. Grande atitude a de saber que nada é só meu, nem sequer a minha vida. Tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos e irmãs. Sim, à minha volta há só irmãos e irmãs, e à minha frente há sempre uma mesa posta com lugar para todos. Em memória de Jesus. Sim, amados irmãos e irmãs, nunca podemos esquecer aquele jeito de Jesus. Ele no centro da nossa vida e das nossas atitudes, municiando-as. Anunciar a morte do Senhor. Não se trata de chorar ou de vestir de luto, como quem diz que Jesus morreu e desapareceu. Não é essa a vocação cristã. Trata-se, antes, de saber ver e ler bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus, da sua Morte e Ressurreição. Jesus não morreu para desaparecer. Morreu para viver em plenitude e dar aos seus irmãos essa vida nova, transbordante e transformante. Sim, trata-se de anunciar que Jesus viveu e morreu para dar a vida por amor, para sempre e para todos. E é nessa atitude que continua vivo e presente no meio de nós.

    5. Tivemos Hoje também a graça de ouvir o colorido relato da Páscoa primeira, celebrada pelo Povo hebreu no Egito, conforme o relato do Êxodo 12,1-14. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens e de vida nova. Com os hebreus, no Egito, sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e fomos levados, por graça, a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, fomos, também por graça, levados a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos «filhos no Filho», aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que, paradoxalmente, nos serviu primeiro a nós.

    6. É aí que estamos todos, meus irmãos. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é aí que Jesus se dirige a Pedro e a cada um de nós, e diz: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8). Isto é, não participarás da minha vida por amor Dada e Recebida (cf. João 10,17-18). «Ter parte com» Cristo é «participar» no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos. Está aí, na participação na vida nova de Jesus, no modo novo de viver de Jesus, a fonte do nosso sacerdócio ministerial, mas também do sacerdócio comum dos fiéis.

    7. É à Mesa que estamos, meus irmãos, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8).

    8. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer de revelação ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o «como» se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.

    9. O Salmo 116, que hoje cantamos, é o quarto canto do chamado «Hallel Pascal», que reúne os Salmos 113-118. O Salmo 116 enche de música e de cor a Ceia Pascal hebraica. Na verdade, neste Salmo, canta-se a liberdade e a alegria confiante de vermos a nossa vida segura nas mãos de Deus, que nos retira do esquecimento do túmulo, e reacende a chama que se extingue. Entre os admiradores deste Salmo conta-se, com algum espanto nosso, o filósofo francês Voltaire (1694-1778), que privilegiava o v. 12: «Como restituirei (heshîb) ao Senhor por todos os seus benefícios (gemûlôt) que me deu?». O Salmo fornece logo a seguir a resposta: «O cálice da salvação erguerei,/ e o Nome do Senhor invocarei./ Os meus votos ao Senhor cumprirei,/ diante de todo o seu povo» (v. 13-14). Este cálice erguido e partilhado assinala, no ritual (seder) da Ceia Pascal hebraica, o momento em que ia passando entre os comensais a terceira taça de vinho, a da Ação de Graças. De resto, o orante sabe bem que não pode «restituir» a Deus. Por isso, no Saltério, o sujeito do verbo «restituir» (heshîb: hiphil de shûb) é, por norma, Deus (21 sobre 28 vezes). Mas o orante pode sempre agradecer a Deus e anunciar a todos que Deus atua em favor do seu povo, ação de evangelização.

    10. Que o Senhor da nossa vida nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

    António Couto


  • Quinta-Feira Santa, Missa Crismal

    Isaías 61,1-3a.6a.8b-9; Salmo 89; Apocalipse 1,5-8; Lucas 4,16-21

    1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou para dar um evangelho aos pobres»: assim se exprime alguém, que se apresenta em primeira pessoa, no texto de Isaías 61, dizendo-se investido pelo Espírito de Deus, ungido por Deus e enviado por Deus para levar um evangelho aos pobres, aos aflitos, aos deserdados, aos injustiçados, aos enlutados. Quem é este alguém que aqui se apresenta tão cheio de Deus e com o seu evangelho para anunciar aos pobres e descartados? Durante mais de cem anos, desde o contributo de Berhnard Duhm (1892) aos estudos do Livro de Isaías, foi-se pacificamente pensando que este alguém que aqui se exprime em primeira pessoa seria o profeta anónimo, autor dos últimos Capítulos (56-66) do Livro de Isaías, a que se convencionou chamar “Trito-Isaías”. E este texto de Isaías 61 seria o seu programa vocacional.

    2. Hoje já ninguém, ou muito poucos, pensarão assim. Qualquer profeta pode ser impelido pelo Espírito do Senhor e dedicar-se ao anúncio do evangelho, mas não consta que algum profeta tenha sido ungido. A figura escondida nos interstícios do texto, mas que nele emerge em claro relevo, é, sem dúvida o Messias, o verdadeiro Ungido do Senhor, em quem todos os atributos assentam à maravilha (cf. Isaías 11,1-5).

     3. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou, repete Jesus, lendo Isaías na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18), e assumindo sobre si a unção e a missão do evangelho, que acabou de ler no Livro de Isaías. Jesus levantou-se para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô), e sentou-se para fazer a homilia. E «Os olhos de todos», informa o narrador, «estavam fixos (verbo atenízô) nele!», num misto de espanto, de encanto e de esperança (Lucas 4,20). Registado fica o início da homilia de Jesus, que começa assim: «Hoje cumpriu-se (peplêrôtai: perf. pass. de plêróô) esta Escritura nos vossos ouvidos!» (Lucas 4,21). Nesta sua primeira apresentação pública, Jesus não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor atento e conhecedor da Escritura por dentro: lê os Profetas, concretamente Isaías, e pede-lhe emprestadas as Palavras, e, na sua homilia, reclama o nosso ouvido como pátria para a Palavra Hoje, aponta para a Lei de Deus, concretamente para o Deuteronómio, que é o Livro do «Escuta, Israel!», e em que o Hoje se faz ouvir por mais de 70 vezes!

    4. Nunca ninguém terá iniciado uma homilia de forma tão performativa. E nunca nenhum homileta terá tido uma assembleia tão atenta: todos tinham os olhos espetados nele. Sem sucesso, porém. As palavras entram pelos ouvidos, e não pelos olhos! Se tivessem sido ouvidas, tinham entalado a assembleia. Como o «Hoje» nos entala no tempo. É hoje. Nem é ontem nem é amanhã. Não é por acaso que o Evangelho de Lucas traz o «Hoje» para a boca da cena por onze vezes! «Cumpriu-se» (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) hoje. A gramática grega diz-nos que estamos perante um perfeito passivo, ou seja um passivo divino ou teológico. Deus em ação, portanto. Deus está aí, em ação, e nós tão distraídos!

    5. Condensação e hipérbole do tempo e da Escritura. O tempo deixa de ser o fio tecido e a tecer de chrónos, o fio dos dias e dos anos a fio, para se concentrar neste único «Hoje» (sêmeron), termo técnico, clássico, nas homilias dos Padres gregos, em que cai sobre nós, como um relâmpago, uma vertigem, a Palavra toda de Deus, não nos deixando também senão este único «Hoje» para responder! Tudo Hoje e Aqui. É este vinco na página, esta dobra, esta mão-cheia de tempo, apenas esta mão-cheia de tempo, que se chama kairós, tempo da graça. Se repararmos bem, se tivermos os olhos bem abertos, veremos então que, na intensa homilia de Jesus, a Palavra salta da folha plana de papiro ou de pergaminho ou de papel, e começa a ganhar relevo, forma-se um corpo, desenha-se um rosto, pulsa um coração, ouve-se uma voz. Mas também a tinta irrompe da página selada e alisada, e entra-nos, aos borbotões, pelos olhos adentro, como o ribombar do trovão e o rumor de muitas águas (Ezequiel 1,24; 43,2; Apocalipse 1,15; 14,2; 19,6)! E o sentido rebenta como uma enxurrada, corre pelos caminhos, embate contra portas e janelas, amontoa-se no seu termo, que ele não pode ultrapassar, que é a morte, mas rebenta-o e deixa-nos inundadas a casa e a alma!

    6. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu». É assim que nós Hoje, submersos pelo Espírito, reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro ou de pergaminho ou de papel. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade diaconal, e não patronal. É mesmo a única maneira de nós podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isaías e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres.

    7. «Encontrei o meu Servo David, e ungi-o com o meu óleo santo», cantávamos com o Salmo 89,21. Encontro e unção do rei segundo o coração de Deus (1 Samuel 13,14). Mas também o sacerdote era ungido com o azeite santo, como é dito de Aarão num belo poema artisticamente construído em cascata: «Como é bom,/ como é belo,/ viverem unidos os irmãos.// É como azeite do bom sobre a cabeça,/ descendo pela barba,/ a barba de Aarão,/ descendo sobre a boca das suas vestes» (Salmo 133,1-2).

    8. Olhamos para o texto, e vemos o azeite de oliveira, perfumado com mirra, cinamomo, cálamo e cássia (Êxodo 30,22-33), a encharcar a cabeça e o cabelo de Aarão, a descer pela barba, e sobre a boca das vestes… A escrita é meticulosa e quer que se veja o azeite, não a descer pelo pescoço, mas por fora, encharcando o humeral (ʼephod), uma espécie de roquete que desce sobre os ombros, e, descendo sempre, encharca depois o peitoral (hoshen), bolsa quadrada, com 25 cm de lado, aplicada sobre o humeral, cobrindo o peito. Sim, quem escreve interessa-se que o azeite encharque o tecido que está sobre os ombros e sobre o peito do sacerdote. Sim, porque nas duas fitas do humeral que estão sobre os ombros, traz o sacerdote incrustadas duas pedras de ónix, uma sobre cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das doze tribos de Israel (Êxodo 28,1-14). E, sobre o peito, no peitoral, traz o sacerdote doze pedras preciosas diferentes, e em cada uma delas está gravado o nome de uma das doze tribos de Israel (Êxodo 28,15-30), irmanadas, como se fosse uma joia familiar em unidade harmónica. Extraordinária simbologia! O sacerdote carrega aos ombros (Êxodo 28,12) e leva sobre o coração (Êxodo 28,29) todos e cada um dos filhos de Israel! É assim que se vê bem a missão do sacerdote. Mas vê-se igualmente bem que se trata de um povo todo ungido, todo sacerdotal e aromático.

    9. Dizia bem a lição de hoje do Livro do Apocalipse: «Graça e paz […] da parte de Jesus Cristo, Aquele que nos ama, que nos libertou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um Reino de Sacerdotes» (Apocalipse 1,4-6), respondendo e cumprindo a lição do Livro do Êxodo 19,6, em que Deus dizia, com o verbo no futuro: «Farei de vós um Reino de Sacerdotes».

    10. Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes. Sim, somos um presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, em aramaico Meshîhâ, em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bemóis, porque Deus estava com Ele (Atos 10,37-38). Se o Ungido é Cristo, então nós somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, então a referência da nossa maneira de viver terá de ser também sempre Cristo. Temos, então, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; Gálatas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal.

    11. Mas também vós, Fiéis Leigos, batizados e crismados, sois, na verdade inteira, outros Cristos, porque fostes também Ungidos com o óleo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo. Cristo significa Ungido. Crisma significa Unção. Também vós, amados Fiéis Leigos, fostes Ungidos na fronte, com o óleo do Crisma, no Batismo e na Confirmação. Além de Ungidos na fronte, no Batismo e na Confirmação, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas mãos com o mesmo óleo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabeça. Também as igrejas e os altares são ungidos com o óleo do Crisma no dia da sua Dedicação.

    12. Mas não podemos ficar só pelo exterior – a fronte, as mãos, a cabeça –, e pelo pouco óleo, tão pouco que mal se vê e mal se sente, com que costumamos fazer esta unção. Quando lemos, na Bíblia, relatos de Unção com óleo, por exemplo, quando Samuel unge Saul (1 Samuel 10,1) ou David (1 Samuel 16,13), ou quando admiramos a bela cascata do Salmo 133, que canta a unção sacerdotal, constatamos logo que anda ali demasiado óleo perfumado, de modo a encharcar os cabelos e os vestidos, e a regar ainda o próprio chão. Somos então levados a perguntar: porquê tanto óleo, se acaba por escorrer e se perder no chão? E a resposta é: derramando tanto óleo na cabeça, vê-se que ficam empapados os cabelos, os vestidos, e acaba por escorrer para o chão. Mas o povo bíblico vê ou compreende ainda mais, muito mais, e é para este «mais» que é preciso chamar ainda a atenção. O povo bíblico compreende ainda que desse muito óleo em grande quantidade derramado na cabeça, uma parte entra para dentro da cabeça, e vai banhar o interior do homem, vai banhar o coração, a alma e as entranhas.

    13. Aí está então a verdade da Unção com o óleo do Crisma que fazemos na fronte, nas mãos ou na cabeça. Na verdade, é no coração que somos Ungidos. E se a Unção feita na fronte, nas mãos ou na cabeça pode sempre ser lavada com um pouco de água e sabão, a Unção feita no coração é indelével, imprime carácter, não pode mais ser apagada. É assim, amados irmãos Ungidos no coração, que não podemos mais deixar de ser quem somos, outros Cristos: eu, bispo; vós, sacerdotes; vós, diáconos; vós, fiéis leigos.

    14. É este óleo do Crisma, com que todos somos ungidos no coração, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confecionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e cooperação dos Sacerdotes. Vão igualmente ser benzidos o óleo dos enfermos, destinado a servir de remédio e de alívio aos doentes, e o óleo dos catecúmenos, destinado a preparar e dispor os catecúmenos para o Batismo.

    15. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós. A messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Ámen.

    António Couto


  • O mundo belo e sete vezes bom que Deus nos deu mostra-se hoje desfigurado, irreconhecível, maltratado, fruto das nossas desmedidas ambições, que envenenam o céu e o chão, e enchem os nossos dias de sangue e de guerras e de fomes e os esvaziam de amor, de pão, de paz e de perdão. O desvario que atravessa e varre de lés a lés o nosso mundo físico e mental impõe-se a uma velocidade supersónica semelhante aos mísseis e aos drones que diabolizam as vidas de tantos irmãos nossos. Nestas circunstâncias de crescente insensatez, não há como saber saudar com o coração aberto, ainda que dorido, esta oportunidade, esta estação de Graça, estes Dias Santos, esta Semana Santa, que Deus nos dá para rezar, para pensar, para contemplar. Neste sentido, a Semana Santa é um convite e um desafio a que saibamos transformar a nossa cidade exterior e interior num grande átrio de fraternidade, de oração e de paz. É por isso e para isso que as nossas igrejas têm ao seu redor um adro, um átrio, são um adro, um átrio, para todos irmos aprendendo a trocar impressões com Deus e uns com os outros. E já sabemos que, em cada Semana Santa, no centro deste grande adro ou átrio, que se deve expandir em círculos cada vez mais amplos até ocupar toda a cidade e todos os corações, deve estar a Cruz do Senhor, que traduz e assume as nossas dores, mas também o Senhor da Cruz, que dá sentido aos nossos sofrimentos e nos aponta o rumo da Ressurreição.

    Contemplemos, então, demoradamente a Cruz do Senhor, e encontremo-nos com o Senhor da Cruz!

    António Couto


  • O Concílio II do Vaticano usa reiteradamente a expressão «Mistério Pascal» para designar a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e o seu significado para nós. Este «para nós» do Mistério Pascal tem de ser sempre fortemente acentuado, uma vez que Cristo – refere o texto conciliar e cantamos nós no Prefácio da Vigília Pascal – «morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando restaurou a nossa vida». É deste CUME que nasce a Igreja e os sacramentos, nomeadamente o batismo e a eucaristia (SC 5.6.47); é neste LUME NOVO que se acende a celebração do inteiro ano litúrgico, cujo centro é sempre o Domingo e a Páscoa Anual (SC 102.106s.); é esta FONTE que anima todo o quotidiano cristão, devendo informar, desde a raiz, tudo o que fazemos, todas as nossas atividades, todos os nossos comportamentos; mas é ainda neste cume, neste lume e nesta água viva que cada homem de boa vontade, crente ou não crente, será sempre contado, encontrado e conhecido (1 Cor 13,12; Gl 4,9; Fl 3,12) – saiba-o ou não, Deus o sabe (cf. 2 Cor 12,2.3) – para que possa receber ânimo e sentido para a vida e para a morte (GS 22).

    A caminhada quaresmal conduz-nos à Semana que nós dizemos «Santa», e que as Igrejas do Oriente dizem «Grande» ou «dos Mistérios». É então verdade que caminhamos para a Páscoa do Senhor, mas é igualmente verdade que é de lá que vimos, pois foi lá que nascemos, e é depois dela e por causa dela que vivemos e celebramos intensamente estes Dias Santos. Vivamos então intensamente todos os instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo nesta caminhada é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

    António Couto


  • Nós sabemos que Deus cuida de nós com desmesurado carinho, mais do que uma mãe faz com o seu filho pequenino. E talvez seja por isso que tantas vezes nos sentamos à beira do caminho, com os pés e as mãos dormentes, e o coração adormecido. E chegamos mesmo a pensar que isso é rezar. Mas viver em «modo de oração» não é viver em «modo de avião», olhando tranquilamente o céu e o chão. Viver em «modo de oração» não é sossegar o coração. É pôr o coração a caminho. Não há Providência para o sentadinho. Apenas sonolência. A Providência de Deus acompanha apenas o homem a caminho.

    A Quaresma é uma estrada de montanha, difícil e estreita, com curvas apertadas à esquerda e à direita. Toda a atenção aos sinais viários, para não nos transformarmos em funcionários. Senhor Jesus, Tu que és o caminho e a verdade, ensina-nos o pão e o vinho e a caridade.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    serenos e seguros no caminho da vida e da paixão,

    da ressurreição.

    Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    sossegados e firmes,

    resolutos,

    até à porta do meu coração.

    Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos,

    dos meus e dos teus,

    finalmente harmonizados,

    finalmente lado a lado:

    os meus, imprecisos, indecisos,

    atravessados pelo teu perdão;

    os teus, sossegados e firmes,

    sincronizados pelo pulsar do meu coração.

    Sim,

    eu sei que foi por mim que desceste a este chão

    pesado, íngreme, irregular,

    de longilíneas lajes em que é fácil escorregar.

    Mas os teus braços sempre abertos ajudam-me a levantar.

    Senhor Jesus,

    deixa-me chegar um pouco mais junto de ti,

    chega-te tu também mais junto de mim.

    Segura-me.

    Dá-me a tua mão firme e corajosa.

    Agarro-me.

    Sinto sulcos gravados nessa mão.

    Sigo-os com o dedo devagar.

    Percebo que são as letras do meu nome.

    Foi então por mim que desceste a este chão.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    Senhora das Dores, Maria, minha Mãe,

    que seguiste até ao fim os passos do teu Filho,

    acompanha e protege os meus passos também.

    Obrigado, Senhor Jesus,

    meu Senhor, meu Irmão e Companheiro.

    António Couto


  • Mateus 21,1-11; Isaías 50,4-7; Salmo 22; Filipenses 2,6-11; Mateus 26,14-27,66

    1. Batizado com o Espírito Santo no Jordão, confirmado com o Espírito Santo no Tabor, Jesus realizou a sua missão filial batismal anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas «obras». A sua «viagem» chega agora ao fim, na Judeia, em Jerusalém, onde o seu Batismo deve (plano divino) ser consumado (ainda Lucas 12,49-50) na sua Morte-Ressurreição Gloriosa: única Fonte do Espírito Santo para nós, porque única Fonte da Vida Eterna verdadeiramente Dada (sempre Atos 2,32-33; João 19,30 e 34; 7,38-39), pois não se alcança através da nossa programação ou planificação. As coisas supremas não são planificáveis. Já estão prontas para receber. A missão filial batismal do Filho de Deus finalmente consumada! É que nós fomos, de facto, batizados na sua Morte (Romanos 6,3-4) e, com Ele, fomos , para usar a vigorosa linguagem paulina, «com-sepultados», «com-ressuscitados», «com-vivificados» e «com-sentados» na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13: tudo verbos cunhados por Paulo e postos em aoristo (passado) histórico!). Formamos, por isso, «a Igreja que Ele amou» (Efésios 5,25). A este grande amor de Cristo pela Igreja chama Paulo «o mistério grande» (Efésios 5,32). Nós, a Igreja do amor de Cristo, somos, portanto, a Esposa bela, a nova Jerusalém (Apocalipse 19,7-9; 21,2.9-14) que, juntamente com o Espírito, diz ao Senhor Jesus: Vem! (Apocalipse 22,17).

    2. Embora o Evangelho deste Domingo de Ramos seja a Paixão segundo S. Mateus 26,14-27,66, o tom deste Domingo de Ramos é dado pela bela página de Mateus 21,1-11, que nos mostra o Rei messiânico a tomar posse da sua Cidade, a «Cidade do Grande Rei» (Salmo 45,5; 47,2-3; Tobias 13,11; Mateus 5,35), a Esposa bela que nascerá do seu Sangue: Esposa cúmplice da Morte do Esposo, e beneficiária da Morte do Esposo! Esposa, portanto, e no entanto! Que ao encontro do Esposo desce em vestido de noiva, não de viúva! (Apocalipse 21,2).

    3. Começamos então por Mateus 21,1-11, que dá o tom a este Domingo. O Rei messiânico toma posse da sua Cidade, a Filha de Sião, a Esposa, e fá-lo de forma invulgar e surpreendente. Até aqui, Jesus andou sempre a pé por toda a parte, ou de barco, quando atravessava o mar da Galileia. E foi também a pé que fez o caminho da Galileia para Jerusalém, como fazem habitualmente os peregrinos que para lá se dirigem. Todavia, depois de ter subido o Wadi el-Kelt, vinte e sete quilómetros de íngreme e difícil subida, que ligam o oásis de Jericó à cidade de Jerusalém, ao chegar perto da aldeiazinha de Betfagé, Jesus faz uma paragem e dá a dois dos seus discípulos indicações muito precisas para irem à povoação em frente, onde encontrarão logo uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Jesus ordena que lhos tragam. E adianta que, se alguém disser alguma coisa, responderão que o Senhor precisa deles, mas que logo os devolverá (cf. Mateus 21,2-3). Neste ponto da narrativa, o narrador refere, em parte em prolepse, que «isto aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta: dizei à Filha de Sião: eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado numa jumenta, num jumentinho, filho de uma jumenta» (Mateus 21,4-5). O profeta referido é Zacarias 9,9-10 (ver abaixo). E é dito, depois deste importante parêntesis, que os discípulos fizeram como o Senhor lhes ordenara, e trouxeram a jumenta e o jumentinho, e ainda que puseram sobre eles os seus mantos, tendo-se Jesus sentado sobre eles. É dito também que a numerosa multidão estendia os seus mantos no caminho, e outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos no caminho (Mateus 21,6-8), procedimento usual quando um novo rei subia ao trono (cf. 2 Reis 9,13). Enquanto isso, a multidão que acompanhava Jesus gritava: «Hossana, Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hossana no mais alto dos céus!» (Mateus 21,9). «Hossana» é um grito de júbilo, que significa «Salva, por favor!» (Salmo 118,5), usado para saudar o Rei-que-Vem, «Aquele-que-Vem» (título divino) (Salmo 118,26), com o Reino de David, o novo David, que vem no Nome do Senhor! Foi assim que Jesus fez o caminho de Betfagé até Jerusalém, descendo o Monte das Oliveiras. Ao entrar em Jerusalém, somos ainda informados que a cidade inteira se agitou e perguntava: «Quem é este?», ao que a multidão respondia: «Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia» (Mateus 21,10-11).

    4. Deduz-se dos preciosismos da descrição dos acontecimentos e da sua realização como cumprimento de um dizer profético, que o que está a acontecer não é por mero acaso, mas obedece à vontade de Deus, expressa na Escritura Santa. Também por isso, Jesus não vai dizer mais nada. Terão de ser os acontecimentos, iluminados pela Escritura, a falar por si. E vê-se logo que Jesus não vai entrar em Jerusalém como um vulgar peregrino nem como tem feito até aqui calcorreando os caminhos da Galileia. Jesus vai entrar em Jerusalém como um rei, no dia em que solenemente entra na sua capital e é entronizado. Mas salta também à vista que, ao fazer como faz, Jesus se apresenta como rei de um modo singular e único, novo, totalmente diferente dos reis terrenos até então conhecidos. Jesus vem montado num jumentinho, criteriosamente selecionado (Mateus 21,2), e não sobre cavalos de guerra, como era usual. Além disso, tudo aqui é provisório e pobre: o jumento nem sequer tem uma sela; Jesus senta-se sobre os mantos dos seus discípulos. O jumento não é pertença de Jesus; é emprestado com a promessa de ser rapidamente restituído, o que quer dizer que Jesus voltará em breve a andar a pé. Além disso, nesta sua entrada em Jerusalém só Jesus vai montado, ainda que num jumento. A multidão que o acompanha vai a pé. Não há nenhum cortejo ou guarda de honra de soldados montados a cavalo e carros de combate devidamente engalanados. Jerusalém é a cidade de David, e para lá convergem todos os olhares e todas as esperanças. Sendo os acontecimentos apresentados como realização profética, temos de reparar então na forma criteriosa como o jumento é escolhido. E repararemos então que, quer no caso do jumento, quer em tudo o que Jesus faz e no modo como o faz, é realizada à letra a profecia de Zacarias 9,9-10, que aqui deixo referida na íntegra: «Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém. O arco de guerra será eliminado. Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar, e do Rio às extremidades da terra». O profeta Zacarias pôde ver, no último terço do século IV a.C., o imponente espetáculo militar do grande Alexandre Magno, talvez o maior imperador que a história conheceu, descendo a costa palestinense para conquistar o Egito. Gravou-se certamente no seu espírito profético esse cenário majestoso, e Zacarias terá vislumbrado então, em claro contraponto, esta deslumbrante imagem messiânica de um Rei diferente, pobre, manso e humilde, não como senhor da guerra, mas como Senhor da Paz!

    5. Ainda hoje, no domingo de Ramos, não obstante o ambiente abertamente hostil aos cristãos que se respira, é costume fazer-se, desde Betfagé [= «Casa dos figos»], hoje uma pequena aldeia totalmente muçulmana com um pequeno santuário à guarda dos Franciscanos, uma impressionante procissão e manifestação de fé que, descendo o Monte das Oliveiras, termina na Igreja de Santa Ana, junto da porta de Santo Estêvão (ou dos Leões), onde se faz a celebração alusiva ao Dia.

    6. Como já deixámos escrito logo no princípio, o Evangelho que enche este Domingo de Ramos na Paixão do Senhor é o imenso e impressionante relato da Paixão de Mateus 26,14-27,66, que marca o ritmo celebrativo da nossa «Semana Santa», que as Igrejas Orientais chamam «Semana Grande», e que o antigo rito da Igreja de Milão conhecia por «Semana Autêntica». Somos nós, portanto, carregando os nossos ódios, raivas, mentiras, invejas e violências, seguindo a par e passo o Rei manso e obediente que a nós e por nós se entrega por amor, absorvendo, absolvendo e dissolvendo assim o nosso lado sombrio e pecaminoso. O rei assume, no seu perfil, duas valências fundamentais: 1) pôr-se totalmente nas mãos de Deus, escutando diariamente a sua Palavra e cumprindo-a; 2) pôr-se totalmente ao serviço do seu povo, a quem deve fazer chegar a prosperidade e o bem-estar, a plenitude dos bens espirituais e materiais.

    7. O que esta Semana Santa nos oferece são, pois, momentos e tonalidades intensos e decisivos, em que a Esposa bela, tornada bela, segue o Rei-Esposo passo a passo, gesto a gesto: a unção para a sepultura em Betânia, a venda de Jesus por Judas, como se de um objeto se tratasse, a Ceia Primeira (e não última!) na mesa da intimidade, que deixa ver melhor as traições e as negações que já se desenham no horizonte, a afirmação solene de Pedro e de todos os discípulos de que estão dispostos a morrer por Jesus, mas nunca a negá-lo, o abismo do Getsémani, onde Cristo, sendo embora o Filho de Deus, Deus Ele mesmo, treme perante a morte, mas aceita-a, submetendo a sua vontade humana à sua Vontade divina, que é a mesma Vontade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, a oração de Jesus e o sono pesado dos discípulos (uma, duas, três vezes!), Judas que vem prender Jesus com um beijo (a traição num gesto de intimidade!), acompanhado de outros que trazem espadas e varapaus que não usam, mas é um dos que estão com Jesus que puxa da espada e a usa (!), a prisão de Jesus «segundo as Escrituras» (Mateus 26,54 e 56), altura em que todos o abandonam e fogem (Mateus 26,56), deixando Jesus sozinho como verdadeiro «Resto de Israel!», os processos e a condenação [Jesus afirma-se como «o Cristo», «o Filho de Deus», «o Filho do Homem-que-Vem-na-sua-Glória», «o Rei»], Pilatos que «lava as mãos» como quem nada quer ter a ver com o assunto (Mateus 27,24) – gesto que só Mateus relata –, a entrega à morte de cruz por Pilatos (Mateus 27,26) e por Judas (Mateus 26,15-16.21-25; 27,3), mas na verdade por Deus (1 Coríntios 11,23: paredídeto: passivo divino ou teológico!), a coroa de espinhos, Pedro disposto a morrer com Jesus (Mateus 26,35), mas negando-O logo de seguida com aquele triplo «não sei!» (Mateus 26,70.72.74), a Cruz Santa e Gloriosa, as três tentações por parte dos transeuntes, dos chefes dos sacerdotes juntamente com os escribas e os anciãos, dos ladrões: «salva-te a ti mesmo», «desce da cruz» (Mateus 27,39-44), a oração do Salmo 22 (todo): começa «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», e termina «Esta é a obra do Senhor!», a agonia e a Morte precedida do «grande grito» (Mateus 27,46 e 49), que indica que Jesus continua a ser o sujeito ativo de todos os seus atos, mas indica também a Vitória de Deus… Proclamação da máxima Obra de Deus no mundo, a indizível Economia divina na vida terrena do Filho de Deus! Segue-se a sepultura num túmulo novo (Mateus 27,60), como convém ao Rei, sempre o primeiro em tudo, as mulheres à distância do recolhimento, observando tudo com atenção (verbo grego theôréô) (Mateus 27,55), como farão depois na sua visita ao túmulo (Mateus 28,1), os únicos dois lugares em que Mateus usa o verbo grego theôréô, que não consiste num simples «ver», mas num «ver que dá que pensar». Depois de morto, ainda é tratado por «impostor» por ter dito que, três dias depois de morto, ressuscitaria, o que, segundo os judeus, poderia levar os seus discípulos a virem de noite roubar o seu corpo, para depois, com uma nova impostura, virem dizer que tinha ressuscitado (Mateus 27,63-64). Esta lenda do roubo do seu corpo pelos discípulos (só lembrada por Mateus) leva à guarda do túmulo reclamada pelos judeus, e pode costurar-se ainda com as páginas iniciais do Génesis, que relatam a história de um fruto e a lenda de um furto (cf. Génesis 1,29 vs. 3,1-6). A proclamação deste imenso texto deve seguir-se com a conversão no coração, e, sobretudo, com o louvor no coração.

    8. Para quem queira seguir mais de perto os passos de Jesus, deixo aqui registadas, segundo a agenda de Marcos, as suas últimas e decisivas vinte e quatro horas, desde as 15h00 de Quinta-Feira Santa até perto das 18h00 de Sexta-Feira Santa: 15h00 = Preparação da Ceia; 18h00 = Ceia Primeira; 21h00 = Getsémani; 24h00 = Prisão de Jesus; 03h00 = Pedro nega e o galo canta; 06h00 = Jesus diante de Pilatos; 09h00 = Crucifixão de Jesus; 12h00 = As trevas em vez da Luz; 15h00 = Morte de Jesus; 18h00 = Sepultamento de Jesus.

    9. Note-se que, na cronologia dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), esta Quinta-Feira é o dia da Preparação da Páscoa, comendo-se a Ceia Pascal logo após o pôr-do-sol (no calendário religioso hebraico já é Sexta-Feira, dado que o dia começa com o pôr-do-sol). Como se constata, esta cronologia vê na Ceia de Jesus com os seus Discípulos uma Ceia Pascal. Também de acordo com esta cronologia, Jesus seria preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado em Sexta-Feira, Dia da Páscoa dos judeus, o que seria completamente estranho! O Evangelho de S. João apresenta outra cronologia, hoje defendida pela maioria dos estudiosos, segundo a qual Jesus terá comido uma Ceia, a sua Ceia Primeira em Quinta-Feira logo após o pôr-do-sol (no calendário religioso hebraico já é Sexta-Feira, dado que o dia começa com o pôr-do-sol), mas não a Ceia ritual da Páscoa dos judeus, e foi preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado em Sexta-Feira, dia da Preparação da Páscoa (João 18,28; 19,14.31.42), antes da Ceia ritual da Páscoa dos judeus, que teria lugar logo após o pôr-do-sol de Sexta-Feira, já dia de Sábado. João informa que os judeus não entram no pretório de Pilatos, terra pagã, para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa (João 18,28). No seu Último Livro sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI defende também esta cronologia joanina. As Igrejas do Ocidente seguem a cronologia dos Sinóticos: por isso, a nossa Eucaristia é celebrada com pão Ázimo, derivado do ritual da Ceia da Páscoa dos judeus. Por seu lado, as Igrejas do Oriente seguem a cronologia joanina, sendo a sua Eucaristia celebrada com pão comum, dado não derivar do ritual da Páscoa dos judeus.

    10. O Antigo Testamento serve-nos hoje o chamado «terceiro canto do Servo» (Isaías 50,4-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» é um Discípulo a quem Deus abre os ouvidos até ao coração, para ouvir bem a música de Deus, e poder levar uma palavra de consolo aos dela necessitados. «Tornando o seu rosto duro como uma pedra» (Isaías 50,7), apresenta-se como um Servo, não insensível e indiferente, mas decidido a levar até ao fim a missão que lhe é confiada. A mesma expressão será dita acerca de Jesus em Lucas 9,51. O Novo Testamento passa por aqui!

    11. Em claro paralelismo com o «Servo», cantado por Isaías, aí está Jesus apresentado por Paulo aos Filipenses (2,6-11). Mas aqui, o «Servo» tem um Rosto e um Nome: Jesus recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. O sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

    12. Voltamos à música do Salmo 22, uma oração que nasce na Paixão e termina na Páscoa! É belo tomarmos consciência de que Jesus nos pediu estas palavras emprestadas, para no-las devolver a transbordar de sentido. Já se sabe que aquele «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», que Jesus reza na Cruz, e que são as primeiras palavras do Salmo, implica, segundo a praxe judaica, a recitação do Salmo inteiro, que tem uma primeira parte de fortíssima lamentação (vv. 2-22), passando logo para uma segunda parte que expressa consolação por ver Deus ao nosso lado, tão próximo de nós (vv. 23-27), e terminando em verdadeira exultação (vv. 28-32). O grande pregador francês Jacques Bossuet (1627-1704) declarava bem-aventurados aqueles que, recitando este Salmo, se encontram com Jesus, tão santamente tristes e tão divinamente felizes!

    António Couto


  • Senhora da Anunciação

    e da Visitação,

    que corres ligeira sobre os montes,

    vela por nós,

    fica à nossa beira.

    É bom ter a esperança como companheira.

    Contigo rezamos ao Senhor:

    dá-nos, Senhor,

    um coração sensível e fraterno,

    capaz de escutar

    e de recomeçar.

    Mantém-nos reunidos, Senhor,

    à volta do pão e da palavra.

    Ajuda-nos a discernir

    os rumos a seguir

    nos caminhos sinuosos deste tempo,

    por Ti semeado e por Ti redimido.

    Ensina-nos a tornar a tua Igreja toda missionária,

    e a fazer de cada paróquia,

    que é a Igreja a residir

    no meio das casas dos teus filhos e das tuas filhas,

    uma Casa grande, aberta e feliz,

    átrio de fraternidade,

    de onde se possa sempre ver o céu,

    e o céu nos possa sempre ver a nós.

    António Couto


  • Isaías 7,10-14; 8,10; Salmo 40; Hebreus 10,4-10; Lucas 1,26-38

    1. Dia 25 de Março, Dia grande, Dia solene, que reúne a Igreja inteira, Oriente e Ocidente, em celebração compacta ao seu Único Senhor, venerando a sua Mãe, na Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, que aponta já para o Natal do Senhor. Ainda que, de facto, separados, hoje os irmãos estão todos unidos e reunidos à volta mesma mesa da Graça. Demos, por isso, graças a Deus. No Oriente, a Anunciação do Senhor permanece um Mistério tão central que, nas rubricas do calendário litúrgico, apenas cede à Sexta-Feira Santa. No rito bizantino, a própria Vigília Pascal, caso caia no dia 25 de março, reparte a celebração, uma parte do cânon Pascal, outra parte do cânon da Euaggelismós [= Evangelização], nome que este acontecimento recebe no Oriente.

    2. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). Aí está outra vez a harmonia da Escritura Santa. E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

    3. O centro da cena neste dia é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra da Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus a sua vida toda e a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver em matrimónio está, porém solidamente documentada, e impõe-se mesmo que assim a compreendamos no texto da Anunciação. O matrimónio de Maria e de José, como se pode entrever em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será tanto o quadro habitual do matrimónio em ordem à procriação, mas será mais o quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus. Neste quadro religioso, jurídico, social, não é de estranhar que Maria seja apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27; 2,5) que, perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), avança a objeção concreta: «Como pode ser isso, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34). Faço notar que, no quadro de um matrimónio habitual, esta objeção não faria sentido, pois se se tratasse de um matrimónio habitual, mais dia, menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho. Claramente, não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter um filho. Faço notar que este estatuto é conhecido no judaísmo [(tratado Niddah 1,4 da Mishnah judaica, e ver também as anotações precisas de Ireneu de Lião (130-202), Adv. Haer. III, 22,4, de Tertuliano de Cartago (160-220), De Virg. XI,2; Exhort. ad Cast. XII,2,  Gregório de Niza (330-395), in PG 46, 1140s., e Jerónimo (347-420), De Perp. Virg. 19]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos, no dizer de Gabriel (Lucas 1,13).

    4. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver o matrimónio, além de estar documentada no judaísmo, é a que melhor explica a objeção de Maria ao anjo (de outro modo, no contexto de um matrimónio habitual, mais dia, menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho). Ao contrário do homem de Génesis 3 e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

    5. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1, 28 e 30). Não se trata de uma simples saudação, de uma espécie de «Olá», como pode deixar entender a tradução latina, mas de uma condensação de inúmeras páginas do Antigo Testamento, de uma enxurrada de «Evangelização», como, de resto, é chamado o episódio entre os nossos irmãos Orientais.

    6. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Em toda a Escritura Santa, nenhuma mulher, exceto Maria, aparece chamada «a serva do Senhor». Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

    7. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

    8. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante, que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»], pela mão (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como paravento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade que reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

    9. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus (Mateus 1,18-25). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734 a.C., se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

    10. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora invasores e agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926, data provável da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

    11. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

    12. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com esta avenida de sentido que atravessa a Escritura Santa. Travessia que jamais fazemos sozinhos, porque Ele está connosco sempre, e é Ele que abre a Escritura para nós nela podermos entrar (Lucas 24,32). Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram,/ mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7). E o texto, notável, da Carta aos Hebreus cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste,/ mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). E é assim, que vem ao nosso mundo, nascendo de Maria, para, no seu corpo e com o seu corpo, mãos, pés, entranhas, coração, inteligência, fazer a vontade de Deus (Hebreus 10,7 e 9; cf. Salmo 40,9), como está escrito acerca d’Ele no rolo antigo (Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8). Assim é ultrapassada a Economia antiga dos muitos sacrifícios e ofertas pela Economia nova em que somos santificados por meio da oferta (minhah) do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas (epáphax) (Hebreus 10,10).

    António Couto


  • Concede-nos, Senhor Jesus,

    que neste tempo de dor e desalento,

    nos refugiemos aqui,

    nos ajoelhemos aqui,

    ao pé da tua Cruz,

    à espera de encontrar algum alento.

    Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

    sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

    mais alto e mais profundo,

    vê-se bem, com toda a claridade,

    que a lonjura do tempo não é horizontal.

    Eleva-se em altura,

    como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

    vertical,

    e sem costura.

    Tu vens do Alto, Senhor.

    Tu vens de Deus.

    Tu és Deus.

    Tu és o Justo

    que chove das alturas

    sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

    Vem, Senhor Jesus,

    alumia e rega a nossa terra dura,

    acaricia o nosso humilde chão,

    limpa as nossas lágrimas,

    e modela com as tuas mãos de amor

    em cada um de nós

    um novo coração,

    capaz de ver,

    desde al-Azariye,

    a alegria do teu terceiro dia

    e a força nova

    da tua Ressurreição.

    António Couto


  • Domingo V da Quaresma

    Ezequiel 37,12-14; Salmo 130; Romanos 8,8-11; João 11,1-45

    1. A «caminhada» quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), batizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Atos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39, textos que mutuamente se explicam e clarificam). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma, Domingo da dádiva da Ressurreição, os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Batismal.

    2. Segundo a maioria dos estudiosos deste Evangelho de João, o episódio da chamada «ressurreição» de Lázaro (João 11,1-45) constitui o 7.º dos sete «sinais» que, neste Evangelho, vão revelando e descodificando o Mistério de Cristo. Depois das bodas de Caná (João 2,1-12) (1.º), da cura do filho do oficial em Cafarnaum (João 4,46b-54) (2.º), da cura do paralítico na «piscina probática» (João 5,1-47) (3.º), da multiplicação dos pães e dos peixes (João 6,1-14) (4.º), de Jesus a caminhar sobre o mar (João 6,16-21) (5.º) e da Iluminação do cego de nascença (João 9,1-41) (6.º). O episódio da chamada «ressurreição» de Lázaro apresenta-se como a charneira deste Evangelho, fechando, por assim dizer, a primeira Parte, mas abrindo também a segunda, que culmina no Grande Último Primeiro «Sinal» que é a própria Ressurreição do Senhor, «o Sinal da Santa Cruz», decifrado pelo Espírito Santo, com que todos fomos (somos) marcados para sempre (Efésios 1,13; 4,30). Esta página, colocada no centro do Evangelho, constitui um verdadeiro «tornado», destacando-se pelo número das pessoas envolvidas, pela extensão e magnitude do texto, pela sua intensidade dramática, pela forma como expõe diante de nós o mistério de Jesus com tão grande clareza, como Aquele-que-Vem-de-Deus para nos libertar das cadeias da morte.

    3. Em boa verdade, o episódio da morte e «ressurreição» de Lázaro remete de forma clara para a Morte e Ressurreição do Senhor. O tempo que marca a narrativa não é o tempo de Lázaro (da sua doença, da sua morte, do seu sepultamento). O tempo que marca a narrativa é o tempo (a hora) de Jesus, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem sempre, passageiro total, pascal, amigo íntimo (phílos) de Lázaro (João 11,3.11.36), e que amava com amor novo e divino (agápê) Lázaro, Marta e Maria (João 11,5). Meu amigo íntimo, que me ama. Teu amigo íntimo, que te ama. Nosso amigo íntimo, que nos ama. Por isso, quando recebe a notícia da doença do seu amigo Lázaro, Jesus, que tinha acabado de escapar das pedras das mãos dos Judeus e se tinha refugiado no outro lado do Jordão, na margem esquerda do Jordão, na outra Betânia ou Bêthabarah (João 10,39-40; cf. 1,28), deixa passar propositadamente dois dias (João 11,6), e é ao terceiro dia que se encaminha para a Judeia (João 11,7), e é ao terceiro dia que chama Lázaro da morte (João 11,43). Pouco importa que Lázaro já esteja sepultado há quatro dias! (João 11,17.39). Verdadeiramente importante e decisiva é a hora-que-vem (!), agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus (João 5,25.28), Aquele-que-faz-viver (zôopoiéô) (João 5,21; 1 Coríntios 15,45), esplendoroso Rio de Luz e de Sentido a inundar a terra inteira, enchendo-a de Vida e de Saúde (Ezequiel 47,1-12; Apocalipse 22,1-2). Verdadeiramente importante é este terceiro dia em que o Filho de Deus é glorificado (v. 4), e suscita a fé de todos os intervenientes na cena: dos discípulos (João 11,15), de Marta (João 11,27), de Maria (João 11,29.32), da multidão (João 11,42), de muitos Judeus (João 11,45).

    4. Transcorridos os dois dias acima assinalados (João 11,6), Jesus diz de modo convincente aos seus discípulos: «Vamos de novo para a Judeia» (João 11,7). Os discípulos tentam explicar a Jesus que não é prudente voltar para a Judeia, dado que ainda há pouco de lá tinham sido forçados a sair porque os Judeus se dispunham a apedrejá-lo (João 11,8; cf. 10,31-39). Jesus diz-lhes então que Lázaro está a dormir, e que vai acordá-lo (João 11,11). Os discípulos replicam que, se Lázaro está a dormir, não haverá problema (João 11,12). Intromete-se o narrador para explicar que os discípulos não entenderam que Jesus jogava com a dualidade ou anfibologia semântica do termo dormir, querendo, na verdade, referir-se, não ao sono, mas à morte (João 11,13). Então Jesus diz abertamente: «Lázaro morreu» (João 11,14), e acrescentou que se alegrava por não ter estado lá, para que agora os discípulos pudessem acreditar (João 11,15). É verdade que Jesus jogou com a dualidade semântica do sono de Lázaro, de modo a deixar confusos os seus discípulos. Mas também é verdade que os discípulos de Jesus jogam em dois teclados, começando por considerar, não a morte de Lázaro, mas o seu sono, não tanto a morte de Lázaro, mas a morte de Jesus, adiantando que a ida de Jesus para a Judeia era a sua entrega à morte (João 11,8), e começam a vislumbrar até o significado Batismal dessa morte, uma vez que manifestam o desejo de morrer com Ele (João 11,16), isto é, querem Viver aquela morte! Como bons catecúmenos que seguiram fielmente o Mestre, aprenderam já que a Vida verdadeira brota daquela morte na qual verdadeiramente somos batizados (Romanos 6,3-4), com-sepultados (syntaphéntes), com-ressuscitados (synêgérthête), com-vivificados (synexôopoíêsen), com-sentados na Glória celeste! (synekáthisen en toîs epouraníois) (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13). Fantástico aglomerado de aoristos passivos e históricos com que Paulo pretende dizer o inaudito: a obra de Deus já realizada em nós!

    5. Deixando para trás a Betânia da vida, eis que Jesus já está a chegar à Betânia da morte. Lázaro, diz-nos o narrador, já está sepultado havia quatro dias (João 11,17), e Marta, quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saltou do lugar em que estava sentada e correu ao seu encontro, e disse-lhe: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido» (João 11,21), palavras que Maria dirá também a Jesus um pouco mais à frente (João 11,32). Com estas palavras, as duas irmãs, cada uma por sua vez, expressam a sua fé de que Jesus podia curar os doentes, mas mostram também a sua desilusão por Ele não ter chegado a tempo! A troca de palavras que se segue entre Jesus e Marta é sublime e imperdível: «Diz-lhe Jesus: “O teu irmão ressuscitará”. Diz-lhe Marta: “Eu sei (oìda) que ressuscitará na ressurreição no último dia”. Disse-lhe Jesus: “Eu Sou (egô eimi) a ressurreição (hê anástasis) e a vida (kai hê zôê); quem acredita em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim, não morrerá para sempre. Acreditas nisto?” Diz-lhe: “Sim, Senhor, eu acredito (pepísteuka: perf. de pisteúô) que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, Aquele-que-vem-ao-mundo”» (João 11,23-27). O que acabámos de ouvir é de um alcance excecional. O fio da esperança messiânica que em filigrana atravessa a Escritura Santa, que é toda a esperança judaica confessada por Marta, quando refere que o seu irmão ressuscitará na ressurreição no último dia (João 11,24), conhece aqui o seu fim, pois a sua realização acontece já, agora, na pessoa de Jesus, traduzida nas suas palavras: «Eu Sou a ressurreição e a vida; quem acredita em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim, não morrerá para sempre» (João 11,25-26), e confessada por Marta na sua agora altíssima profissão de fé cristã: «Sim, Senhor, eu acredito (pepísteuka: perf. de pisteúô) que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem-ao-mundo» (João 11,27). Marta reconhece em Jesus aquele que veio, não simplesmente do outro lado do Jordão, mas mais radicalmente do outro lado do nosso mundo de sofrimento e de morte, de Deus, para trazer à humanidade, na sua pessoa, a vida de Deus e a comunhão com Ele. Verdadeiramente, a vida, a vida mesmo, é união e comunhão com Deus. E esta vida divina, dada por Jesus à humanidade, atravessa a morte, mas não se extingue nem se apaga na morte. A união e comunhão com Deus, a nós dada por Jesus, não conhece fim nem decaimento nem qualquer tipo de parêntesis. O verdadeiro dom que Jesus nos traz não consiste numa vida terrena que se pode prolongar sempre, digamos uma vida terrena sem morte terrena, mas na vida em comunhão com Deus, esta sim, inextinguível.

    6. Depois destes sublimes dizeres de Jesus e depois desta altíssima profissão de fé cristã de Marta (expressa no tempo perfeito grego, que significa, não um ato de fé pontual, mas a atitude de fé permanente), Marta sai de cena e vai chamar a sua irmã Maria (João 11,28), que imediatamente se levanta e vai também ao encontro de Jesus, ainda que os Judeus que estavam com ela, a confortá-la, ao ver tanta pressa e emoção em Maria tenham sido levados a pensar que ela iria ao túmulo para chorar. Mas tiveram que a seguir, afinal, até Jesus. Jesus viu Maria a chorar (verbo klaíô) e viu também a chorar (verbo klaíô) os Judeus que a acompanhavam (João 11,33). E o narrador acrescenta que Jesus chorou (verbo dakrýô) (João 11,35). Belo, belo, belo este Jesus que vem ao nosso encontro, sente as nossas dores, se comove connosco, chora connosco e também por nós. É difícil, se não mesmo impossível, ficar indiferente face a uma pessoa que chora. São quatro as menções do verbo chorar, duas por parte de Maria (João 11,31.33), uma por parte dos Judeus (João 11,33), outra por parte de Jesus (João 11,35). O verbo grego empregado é, nos três casos de Maria [2 vezes] e dos Judeus, o verbo klaíô. No caso de Jesus, é o verbo dakrýô. Verificando então que Jesus chora porque nos vê chorar, podemos perceber que Jesus chora connosco, misturando as suas lágrimas com as nossas nesta situação dolorosa. Mas devemos notar ainda que o narrador põe Jesus a chorar com um verbo diferente do que usou para nós nas três vezes anteriores. Nós choramos com o verbo klaíô. Jesus chora com o verbo dakrýô. Com este procedimento, talvez o narrador nos queira dizer que, além de chorar connosco, Jesus chora também por nós, ao ver a nossa incredulidade.

    7. Depois desta cena das lágrimas, Jesus, sempre comovido, aproxima-se do túmulo de Lázaro, que era uma gruta fechada por uma pedra (João 11,38). Jesus diz: «Retirai (árate: imperativo aor. de aírô) a pedra», e Marta refere então a Jesus a inutilidade, mesmo o desconforto, o mau cheiro de uma tal ação, dado que já lá vão quatro dias desde que Lázaro morreu (João 11,39). Marta continua a pensar que Jesus chegou atrasado, e ainda não compreendeu que não é o tempo de Lázaro (4.º dia) que conta, mas sim o tempo de Jesus (3.º Dia). Por ordem de Jesus, mãos humanas «retiraram (êran: aoristo de aírô) então a pedra» (João 11,41). Assinala-se neste momento a primeira vez, neste Evangelho, que Jesus reza ao Pai (não o tendo feito em nenhum dos sinais até agora realizados), agradecendo ao Pai por o ter ouvido, e dizendo que o fez para que a multidão acredite que foi o Pai que o enviou (João 11,41-42). Só depois da oração ao Pai, Jesus levanta a voz e grita: «Lázaro, vem para fora!» (João 11,43). E Lázaro saiu ligado com as faixas e o rosto envolvido num sudário (João 11,43-44). É preciso ainda uma nova ordem de Jesus à multidão para que Lázaro seja libertado das faixas que o prendem na morte e do sudário da morte que lhe tapa o rosto (João 11,44).

    8. Como tudo isto é sublime e grandioso e aponta, em luminoso contraponto, para a ressurreição de Jesus! Aqui, no caso de Lázaro, a pedra é mandada retirar (árate) e é por mãos humanas por algum tempo retirada (êran). O verbo aírô [= retirar] aparece nos dois casos na forma ativa e no tempo aoristo, que traduz uma ação no tempo. Entenda-se: por mãos humanas e por algum tempo, dado que Lázaro, regressado a esta vida terrena, voltará naturalmente a morrer. Mas, para o leitor atento e competente, toda a ação remete já para o cenário da Ressurreição de Jesus. E então, quando se tratar do túmulo de Jesus, o leitor não pode deixar de reparar que a pedra já se apresenta retirada (êrménon: part. perf. passivo), na forma passiva e no tempo perfeito (João 20,1). Oh sublime gramática divina! Entenda-se então: pedra retirada por Deus e para sempre! É o inefável que se abre diante dos nossos olhos! E também as faixas não prendem, e o sudário não encobre! As faixas estão no chão, e o sudário cuidadosamente enrolado em um lugar (João 20,6-7). Tudo está feito, e bem feito, ao jeito do Criador (cf. Génesis 1). Nenhuma ação de libertação é necessária, como o foi para Lázaro em João 11,41.44.

    9. A vida cristã, no seu todo, a nossa vida toda, decorre daquele 3.º Dia de Jesus, como decorre também da voz de Jesus, e daquela única mão que nos salva e nos liberta dos vales onde vamos caindo mortos. Ele é a nossa Vida. Ainda hoje, em Betânia, atual al-Azariye, aldeiazinha situada na colina oriental que desce do monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém, se pode visitar, descendo 24 degraus, o túmulo que a tradição popular atribui a Lázaro. Ao lado está a igreja franciscana, dita «da amizade», levantada pelo famoso arquiteto Barluzzi, em 1952-1953.

    10. O imenso texto de Ezequiel 37,12-14 é uma belíssima metáfora plantada no meio da Escritura, uma lampadazinha (2 Pedro 1,19) que aponta já para a Luz nova e grande de Jesus. A metáfora mostra-nos que os exilados na Babilónia são como ossos ressequidos e sem nenhuma esperança. Eles estão na morte e na humilhação. O seu discurso não deixa dúvidas: «Os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; para nós está tudo acabado» (Ezequiel 37,11). Mas a Palavra de Deus manda também na morte. Apontando para o Novo Testamento, Deus chama os mortos dos seus túmulos, e fá-los reviver. Jesus que passa no Evangelho de Hoje «grita com voz forte» (João 11,43), e Lázaro, morto, saiu do túmulo.

    11. Paulo não se cansa de nos lembrar a vida nova que habita os filhos de Deus (Romanos 8,8-11). «Viver em Cristo» ou «no Espírito» são fórmulas batismais intensas que indicam a vida nova do batizado: com o dom da Iluminação, marcado pelo Espírito até à Vida eterna. Mas agora é tempo de passar, como Jesus, ao estilo de Jesus, dando um testemunho credível da nossa condição nova de filhos de Deus, deixando o fruto do Espírito iluminar a nossa vida. E «o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

    12. Sim, o Salmo 130 é um grito desde o abismo profundo em que jazemos atolados. São apenas 52 palavras hebraicas que atiramos a Deus, Senhor do Amor fiel (hesed) da Redenção (pedût). Cada orante que grita este Salmo sabe em que grau ou degrau de profundidade está. Sim, este é um dos 15 Salmos graduais ou das subidas ou das peregrinações (120-134). É uma voz que se levanta e sobe até àquele Senhor que não desprezou as nossas profundezas, mas até elas desceu, e até elas desce, para nos ajudar a subir!

    António Couto


  • São José,

    Esposo e Pai,

    Esposo e Pai como Deus,

    Em vez de Deus,

    Administrador fiel da casa de Deus,

    Homem justo e piedoso,

    Silencioso,

    Habitante do país do silêncio habitado,

    Não coagulado

    Ou congelado.

    Homem manso,

    Escutador atento,

    Escuta e age e sente,

    De forma surpreendente,

    Eloquente,

    Diligente,

    E fala sem dizer palavra,

    Palavra fecunda,

    Como a semente.

    A sua oração

    São nuvens de algodão,

    Atravessa os céus,

    Sabe a pão,

    Suavíssima paixão de esposo e pai.

    Como Moisés,

    Sabe manter a porta entreaberta,

    Para Deus entrar

    Quando quiser

    E se venha sentar

    No seu lugar,

    No meio de nós.

    António Couto


  • 2 Samuel 7,4-5.12-14.16; Salmo 89; Romanos 4,13.16-18.22; Mateus 1,16.18-21.24

    1. Celebramos hoje, dia 19 de março, a Solenidade de S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus, hoje proclamado aos nossos ouvidos (Mateus 1,16-24), qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade à vontade salvífica de Deus. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça» (Mateus 21,32), auto destituindo-se, libertando-se dos seus próprios projetos, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta, andando nos seus caminhos. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19, na pena do narrador) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: «que não haja nada entre ti e esse justo»), o que não deixa de ser uma nota significativa.

    2. A cena abre com a notícia acerca da origem (génesis) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e não nascimento. Se fosse nascimento, o texto grego assinalá-lo-ia com génnêsis. A cena remete essa origem para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria não provinha de José nem de uma possível infidelidade de Maria, mas do Espírito Santo (ek pneúmatos hagíou) (Mateus 1,19b). É assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa grávida durante o noivado, a que os hebreus chamam ՚arûsîn, antes da fase propriamente conjugal ou de coabitação, a que os hebreus chamam nîssû՚în, e não sabendo disso a razão, mas desconfiando, dado que o seu matrimónio com Maria era seguramente, não em ordem à procriação, mas de proteção mútua e de total dedicação a Deus.

    3. É oportuno introduzir aqui o estatuto dos chamados matrimónios putativos ou de proteção ou espirituais, a que não será alheia a locução «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê), que se ouve em Lucas 1,27. Parece cada vez mais razoável que o matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será explicável no quadro habitual de um matrimónio em ordem à procriação, mas será explicável mais, muito mais, no quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus, protegendo-se mutuamente. Neste quadro religioso, jurídico, social, Maria é apresentada como «desposada» (emnêsteuménê) (Mateus 1,18; Lucas 2,5), «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27), ou simplesmente como «a sua esposa» (hê gynê autoû) (Mateus 1,24), sendo José «o esposo de Maria» (ho anêr Marías) (Mateus 1,16) ou «o seu esposo» (hoanêrautês) (Mateus 1,19). A não ser este o estatuto do matrimónio de Maria e José, não se compreende que, posta perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), Maria avance logo a objeção concreta: «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34).

    4. Eu entendo e entenda quem puder que, no quadro de um matrimónio habitual em mundo judaico, esta objeção não faria sentido, pois mais dia menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho. Sem equívocos: não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter filhos. Faço notar que este estatuto matrimonial era conhecido no judaísmo, como se pode ver no tratado Niddah, da Mishnah judaica, e no cristianismo primitivo (ver as anotações precisas de Ireneu de Lião [130-202], Tertuliano de Cartago [160-220], Gregório de Niza [330-395] e Jerónimo [347-420]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que, no dizer do Anjo Gabriel, muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos (Lucas 1,13).

    5. Voltamos agora ao texto do Evangelho de hoje. Depois de se referir à origem de Jesus Cristo (Mateus 1,18a), acrescenta logo que Maria se encontrava grávida por obra do Espírito Santo (Mateus 1,18b). José nada sabia daquela gravidez de Maria, sua esposa, mas não duvidava da sua retidão (temîmût) e fidelidade (ʼemûnah) a Deus. Suspeitava de Deus, mas guardava tudo para si, no silêncio do seu coração (Mateus 1,19), como é dito de Maria (Lucas 2,19.51). Evita cenas públicas. Está a pensar em abandonar Maria em segredo (láthra) (Mateus 1,19). Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, «em um sonho» (kat’ ónar) (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas antigas da Escritura Santa (cf. Isaías 60,1.4-5; 62,4-5). A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como podemos ver em Mateus 1,18-25, é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José». E esta cumplicidade mansa, em sonhos, entre Deus e S. José, sempre com Deus a conduzir a cena, continua a ver-se aquando da procura de refúgio no Egito, devido à raiva assassina de Herodes (cf. Mateus 2,13), aquando do regresso do Egito à terra de Israel, após a morte de Herodes (cf. Mateus 2,19-20), e na ida para a Galileia, para Nazaré porque, aquando do regresso do Egito, reinava na Judeia Arquelau, filho de Herodes, que não era melhor do que o pai (cf. Mateus 2,22-23).

    6. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (Mateus 1,19), preparando-se mesmo para sair de cena, não tanto para não expor Maria, sua esposa, a uma situação embaraçosa, mas para expor Deus a toda a luz, entregando a Deus a cena toda!

    7. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime. Em que ficamos: foram os irmãos que despacharam José para o Egito, para se verem livres dele por inveja e ciúmes, ou foi Deus que por amor o enviou para o Egito? No teclado da história empírica, é verdade que foram os ciumentos irmãos de José que o despacharam para o Egito… Mas, no outro teclado de Deus, de acordo com a boa leitura de José, foi Deus que o enviou para o Egito para uma missão de salvação!

    8. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria (Mateus 1,21.25). O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice da Ceia da Páscoa: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

    9. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, sorve, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão e contemporâneo, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos juntos a dar-lhe o nome de Emanuel. Por isso, o verbo que, em Isaías 7,14, na versão grega dos LXX, aparece na 2.ª pessoa do singular: kaléseis [chamar-lhe-ás], no texto hebraico aparece na 3.ª pessoa do singular feminino: weqaraʼt [chamar-lhe-á], e aparece agora, no dizer do anjo a José, na 3.ª pessoa do plural: kalésousin [chamar-lhe-ão] Emanuel (Mateus 1,23). Todos os povos envolvidos e implicados neste nome.

    10. A lição do Segundo Livro de Samuel 7,4-16 mostra-nos Deus a prometer a David, através do profeta Natan, que construirá uma ponte de bênção e de paz, pura graça, entre David e o filho que lhe suceder, Salomão. Mas Deus acaba por relançar a sua promessa para sempre, indo, portanto, esta ponte de graça muito para além de Salomão, de filho em filho, até ao filho que será também filho de Deus: «Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um filho» (2 Samuel 7,14). Anda por aqui o «Filho de David», que atravessa as Escrituras. Anda por aqui Jesus. É a boa interpretação que Paulo faz na sinagoga de Antioquia da Pisídia: «Da sua descendência [de David] é que Deus, conforme prometera, fez sair para Israel um Salvador, Jesus» (Atos 13,23). A tanto conduz o desejo intenso de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

    11. S. Paulo escreve aos Romanos (4,13-22) e retrata a figura de Abraão, constituído herdeiro pela fé, e não pela lei. Pela fé, e não pela lei, para que a herança fosse vista como dom de Deus para todos, e não apenas para alguns. Por isso, todos nos sentimos na senda de Abraão e agradecidos a Deus. Sim, Jesus veio para todos. Para nós também.

    12. É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor, sobretudo a sua fidelidade à promessa feita a David. O Salmo 89 insinua-se nas pregas do nosso coração, e não nos deixa parar de cantar. O Salmo 89 é um Salmo Real, que amplifica a promessa feita a David em 2 Samuel 7, cantando Deus e o seu Messias, e o Reino maravilhoso do seu amor já estabelecido no meio de nós.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    serenos e seguros no caminho da vida e da Paixão,

    da ressurreição.

    Senhor Jesus,

    Senhor dos Passos

    sossegados e firmes,

    resolutos,

    até à porta do meu coração.

    Sim,

    eu sei que foi por mim que desceste a este chão

    pesado, íngreme, irregular,

    de longilíneas lajes em que é fácil escorregar.

    Mas os teus braços sempre abertos ajudam-me a levantar.

    Senhor Jesus,

    deixa-me chegar um pouco mais junto de ti,

    caminharemos juntos nesta terra escura e arenosa.

    É dura a caminhada.

    Segura-me.

    Dá-me a tua mão firme e corajosa.

    Agarro-me.

    Sinto sulcos gravados nessa mão.

    Sigo-os com o dedo devagar.

    Percebo que são as letras do meu nome.

    Foi então por mim que desceste a este chão.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    Senhora das Dores, Maria, minha Mãe,

    que seguiste até ao fim os passos do teu Filho,

    acompanha e protege os meus passos também.

    Obrigado, Senhor Jesus,

    meu Senhor, meu Irmão e companheiro.

    António Couto


  • Vai adiantado o tempo da Quaresma,

    e eu continuo ainda aqui parado

    nesta página em branco da calçada.

    Sei bem que foste tu que me puseste em movimento,

    que teceste o meu ser,

    que me deste a vida e de comer,

    que me acolheste e me acolhes sempre em tua casa.

    Como é que estou então aqui parado na berma desta estrada,

    pensando que fui eu que me pus no ser,

    que sou dono de mim,

    que esta vida é minha,

    minha é esta casa,

    este pedaço de chão,

    este naco de pão

    e até este coração?

    Não fiques aí parado, meu irmão.

    Ergue-te e vai pelos nós do vento,

    chegarás por certo à pátria do Espírito,

    submisso ao sopro obsessivo do silêncio.

    Olha com mais atenção

    o chão que sonhas,

    o céu que lavras.

    recomeça!

    Conquista o espaço

    onde a palavra cresça

    longe do ruído das palavras!

    António Couto


  • 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13; Salmo 23; Efésios 5,8-14; João 9,1-41

    1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, batizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do batismo [= execução do programa filial batismal] para os batizados, preparação para o batismo por parte dos catecúmenos (Sacrosanctum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma, Domingo da dádiva da Luz, os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

    2. O Evangelho, imenso e de extraordinária riqueza, narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Compõem este Evangelho, imenso e rico, sete cenas ou cenários em que vão entrando diferentes atores: a primeira cena (vv. 1-7) traz-nos o encontro de Jesus e dos discípulos com um cego de nascença, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego; a segunda cena (vv. 8-12) mostra-nos a reação e discussão estéril que se gera entre os vizinhos e conhecidos, atónitos e confusos, quando veem agora aquele que antes era cego e pedinte, e que agora vê; a terceira cena (vv. 13-17) traz para a liça os fariseus, que também discutem o assunto, também não o entendem nem se entendem, apenas se detendo de forma legalista sobre o facto de aquele homem ter sido curado em dia de sábado; a quarta cena (vv. 18-23) mostra-nos a reação dos pais do cego que agora vê, e que não se querem comprometer, dando sobre o caso apenas respostas evasivas; a quinta cena (vv. 24-34) dá lugar a um interrogatório a que os fariseus submetem o cego curado, dando-nos acesso às assertivas e interessantíssimas respostas deste; a sexta cena (vv. 35-38) mostra-nos de novo a presença de Jesus, que até aqui esteve ausente, e que tem um último encontro com o cego curado, abrindo-lhe agora os olhos para a fé, com o cego a responder prostrando-se diante de Jesus; a sétima e última cena (vv. 39-41) põe Jesus em confronto com os fariseus, com Jesus a apresentar, por assim dizer, a chave de leitura do inteiro episódio e da sua missão, afirmando: «Foi para um julgamento que Eu vim a este mundo: para que aqueles que não veem, vejam, e aqueles que veem se tornem cegos», deixando assim os fariseus cada vez mais às escuras.

    3. Voltemos ao princípio. Logo a abrir a primeira cena, o texto mostra-nos Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (v. 1), e executando a «obra» daquele que o enviou (v. 4). Nesta sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença (v. 1), e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado-doença», e por detrás do encadeado «pecado-doença» viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição», em que a doença é fruto do pecado. A pergunta que fazem a Jesus é elucidativa: «Mestre, quem pecou, ele ou os seus pais, para que tivesse nascido cego?» (v. 2). Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira um castigo de Deus; viu, antes, que «era preciso» (deî) (v. 4) aquele cego «para que se manifestassem nele as obras (tà erga) de Deus» (v. 3). Digamos as coisas de outra maneira: Jesus viu um cego, e como que disse: preciso deste cego, para que Deus se manifeste nele e através dele! E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (v. 4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença, que será depois acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto batismal espantoso, que aqui me permito recordar: «É, na verdade, impossível que àqueles que foram iluminados uma vez, tendo saboreado o dom celeste e feitos participantes do Espírito Santo, e tendo saboreado a Palavra de Deus e a força (dýnamis) do mundo futuro…». Atente-se bem que o cego de nascença recebeu de Jesus o dom da vista da luz do dia, e receberá depois, na sexta cena, o dom batismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas (vv. 35-38). Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

    4. Significativamente, o cego de nascença recupera a vista e recebe o dom da Luz, lavando-se na «piscina de Siloé» (v. 7). Faço notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte batismal». E Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi batizado em Cristo». A «fonte batismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. Ninguém pediu ou intercedeu para que este cego fosse curado. É obra criadora de Jesus, das ações simbólicas operadas por Jesus (vv. 6.11.14.15), mas também da ação do cego que vai lavar-se à piscina de Siloé, no seguimento da Palavra poderosa de Jesus. O cego chega rapidamente à luz do dia. A luz da fé, essa é gradual e supõe um percurso a fazer, marcado por diferentes etapas, verificáveis nos sucessivos dizeres do cego curado acerca de Jesus: «não sei» (v. 12); «é um profeta» (v. 17); «vem de Deus» (v. 33); «eu creio, Senhor» (v. 38).

    5. A segunda cena (vv. 8-12) mostra-nos os vizinhos e conhecedores do cego agora curado numa discussão que roça o ridículo, pondo em causa a própria identidade do cego curado, tanto que uns diziam: «É ele!»; outros diziam: «Não é ele, mas é outro parecido com ele»; e o próprio cego afirmava: «Sou eu!», todos estes dizeres amontoados no v. 9. Finalmente, resolvem dirigir-se ao cego e perguntam-lhe: «Como é que te foram abertos os olhos?» (v. 10), ao que o cego responde com notável clareza: «O homem que se chama Jesus fez lodo, aplicou-mo nos olhos, e disse-me: “Vai a Siloé, e lava-te!”. Eu fui, lavei-me e recobrei a vista» (v. 11). O cego curado sabe dizer tudo o que Jesus lhe fez e lhe ordenou, mas não sabe dizer quem é Jesus, nem onde esteja (v. 12). Não conseguindo compreender o incompreensível, e, na tentativa de se fazer mais luz, levaram o cego aos fariseus, e aí está já a terceira cena (vv. 13-17). Instado de novo a descrever como tinha sido curado, o cego repetiu o que já tinha dito antes. Entretanto, sabendo que Jesus tinha feito lodo em dia de sábado, também os fariseus se dividiram entre si, dizendo uns que um homem que trabalha em dia de sábado não pode estar em relação com Deus, porque é um pecador, enquanto outros se interrogavam, dizendo: «Mas como pode um pecador fazer coisas assim?». Acabaram por perguntar ao cego o que pensava do homem que lhe abriu os olhos, e ele respondeu: «É um profeta!». Os fariseus não podem acreditar que aquele homem fosse cego e que tenha recobrado a vista. É por isso que chamam os seus pais, abrindo-se aqui a quarta cena (vv. 18-23), e lhes perguntam se aquele era o seu filho, que se diz que terá nascido cego, e como é que ele passou a ver? Os pais respondem que sim, que aquele é seu filho, e que nasceu cego. Mas negam saber o modo como foi curado, e negam igualmente saber quem o curou. Estes pais não se querem comprometer, não querem problemas, pois sabem que, se dissessem a verdade, teriam de enfrentar a hostilidade das autoridades, e teriam de viver isolados social e religiosamente. É mais fácil fechar os olhos para não verem a luz.

    6. A quinta cena (vv. 24-34) leva outra vez os judeus e fariseus ao encontro do cego curado. Também porque os pais, para evitar problemas, tinham saído da cena anterior, dizendo aos fariseus mais ou menos isto: «Ora essa, perguntai-lho a ele, que já tem idade para responder». Os fariseus começaram com uma afirmação: «Nós sabemos que esse homem é um pecador». O cego curado atalhou de pronto: «Se é pecador, não sei. Mas uma coisa sei: eu era cego, e agora vejo». Insistiram então que lhes contasse o que fez e como fez o homem que o curou, ao que o cego respondeu: «Já vo-lo disse, e não prestastes atenção; por que quereis ouvi-lo outra vez?». E avançou uma forte insinuação: «Quereis, porventura, tornar-vos também seus discípulos?». Ouvindo isto, insultaram-no, dizendo: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! E sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse não sabemos de onde (póthen) é» (v. 29), ao que o cego respondeu com penetrante clarividência e fina ironia, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso (tò thaumastón): vós não sabeis de onde (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (v. 30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Ou então: só um cego é que não vê! A sexta cena (vv. 35-38) traz-nos de novo a presença e a iniciativa de Jesus, que esteve ausente desde a primeira cena, em que também tomou a iniciativa de abrir os olhos do cego à luz do dia. Estando embora ausente nas cenas 2, 3, 4 e 5, foi sempre dele que se falou, e foi sempre face a Ele que os diferentes grupos foram tomando posição. Aparece agora outra vez na sexta cena, iniciativa sua para um último encontro com o cego de nascença a quem tinha aberto os olhos para a luz do dia. Jesus aparece agora para lhe abrir os olhos para a luz da fé. E também o cego curado reage, prostrando-se em adoração diante de Jesus, último gesto seu, e que se faz unicamente diante de Deus. E deixa no sétimo e último cenário (vv. 39-41) a chave de leitura do inteiro episódio e da sua missão, afirmando, de modo a que os fariseus possam ouvir: «Foi para um julgamento que Eu vim a este mundo: para que aqueles que não veem, vejam, e aqueles que veem se tornem cegos», deixando assim os fariseus cada vez mais às escuras.

    7. Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os batizados receberam como ele o dom batismal da Luz para ver e ouvir, viver e celebrar a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus, como os discípulos na primeira cena. Ou os vizinhos, os fariseus, os pais… Importa que a nossa conduta seja a do cego, que segue as indicações de Jesus e que, cena após cena, vai dando testemunho de Jesus.

    8. O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto delicioso em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a avivar-lhe a memória, perguntando a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos, encerrando aí a contagem e a apresentação, e de não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?», pergunta Samuel (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que, afinal, ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, estava Jessé longe de pensar que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Para que brilhe mesmo a Luz de Deus, e não a nossa (2 Coríntios 4,6).

    9. Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5), que é um dos termos técnicos de «divinização», e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

    10. Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

    António Couto


  • O caminho da Quaresma leva-nos à cripta,

    ao miolo,

    àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro,

    onde eu sou verdadeiro,

    sem dolo

    nem tijolo

    nem roupeiro.

    Chegar lá implica desfazer-se do barulho

    e do entulho,

    arredar a caliça e o reboco,

    aprender com os pássaros do céu,

    com os lírios do campo,

    ir até ao fundo,

    até ao toco,

    e deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço,

    onde só Ele sabe semear semente santa,

    que depois há de florir e dar fruto

    a seu tempo e a seu campo.

    Que rebento pode brotar de um toco seco?

    Que sucesso pode ter uma semente

    na aridez do deserto semeada?

    É mesmo só com Deus essa empreitada.

    E Jesus explica bem,

    no meio do sermão da montanha,

    que são também assim a esmola,

    a oração e o jejum,

    frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

    A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas

    por mim e ao meu jeito,

    e para mim e em meu proveito,

    nas ruas,

    nas praças,

    nas igrejas,

    só para que as pessoas vejam e aplaudam.

    A Quaresma é tempo de deixar Deus

    fazer nascer

    dentro de mim

    um jardim,

    uma maneira nova de viver.

    António Couto


  • Temos meia Quaresma já andada.

    E enquanto,

    no caminho ou no campo,

    nos alegramos por ver a tua messe amadurar,

    também olhamos e vemos,

    cada vez com mais encanto,

    aquela árvore seca

    a olhar para nós e a sangrar.

    Árvore seca e comovida,

    toco seco a rebentar em flor,

    é a tua Cruz, Senhor,

    a irrigar de amor a nossa vida.

    Ela lá está,

    sempre à nossa frente,

    plantada no chão árido e seco.

    Mas, para nosso maior espanto e admiração,

    eis que a tua Cruz, Senhor, se levanta do chão,

    e se planta no nosso coração.

    Por tanto amor, Senhor,

    recebe a nossa gratidão,

    enche os nossos pés de prontidão,

    as nossas mãos de paz,

    os nossos lábios de oração,

    os nossos gestos de perdão.

    E caminha connosco

    no que falta cumprir desta procissão.

    António Couto


  • Era por volta do meio-dia,

    e Jesus sentava-se com tempo à beira do poço de Jacob,

    à espera que chegasse a mulher da Samaria.

    O meio-dia é a hora da Luz e da Revelação,

    coisa que Nicodemos não sabia,

    e a mulher da Samaria vem ao poço buscar água e Luz,

    vem buscar Jesus,

    para beber e para viver.

    Jesus, que a esperava, desceu ao nível dela,

    fez-se pedinte, e disse-lhe: «Dá-me de beber!».

    Mas o seu intuito era

    transformar em pedinte a mulher,

    que pouco depois pede a Jesus:

    «Dá-me Tu dessa água viva, Senhor!».

    E foi depois chamar os samaritanos,

    que também vieram ver o poço novo aberto em Siquém.

    Todos beberam da água viva,

    e descobriram-se irmanados na alegria

    daquele meio-dia.

    Vem, Senhor Jesus,

    senta-te à nossa beira,

    e ensina aos teus irmãos

    o segredo

    e o enredo

    daquela nova ceifa e daquela sementeira.

    António Couto


  • Êxodo 17,3-7; Salmo 95; Romanos 5,1-2.5-8; João 4,5-42

    1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade. Em ordem a uma melhor compreensão integrada dos Domingos da Quaresma, e particularmente do Domingo III que hoje nos ocupa, tenha-se sempre presente a linha dos Evangelhos: Cristo batizado, tentado no deserto na sua condição de batizado, e Vitorioso, assumindo a história do seu povo e salvando-a (Domingo I), confirmado na sua missão filial batismal com a Transfiguração, lição para os discípulos, igualmente confirmados para a sua missão futura (Domingo II), promete a Água da Vida (Domingo III), dá a Luz (Domingo IV), dá a Ressurreição (Domingo V). A linha cristológica torna-se também «antropológica». A «obra» divina na Humanidade do Filho dirige-se, nesta mesma Humanidade, com amor, aos homens. Água, Luz, Ressurreição, são os elementos batismais primários (simbologia batismal da Quaresma) quer para os batizados quer para os catecúmenos.

    2. O Evangelho deste Domingo III da Quaresma oferece-nos o grande diálogo de Jesus com a samaritana (João 4,5-42). A meticulosa preparação da cena (João 4,1-6) mostra-nos Jesus a fazer a viagem da Judeia para a Galileia, com o narrador a anotar que «era preciso (édei) passar pela Samaria» (v. 4). Aquilo que parece óbvio à primeira vista, na verdade não o é. Quem, no tempo de Jesus, fazia essa viagem, evitava mesmo passar pela Samaria: desde logo porque o caminho era montanhoso, mas também porque eram hostis as relações entre judeus e samaritanos. Os judeus de Jerusalém consideravam os samaritanos uma população mista, semipagã (cf. 2 Reis 17,24-41), tendo-os impedido de participar na reconstrução do Templo de Jerusalém depois do exílio (cf. Esdras 4,1-24), e catalogavam-nos com desprezo como «o estúpido povo que habita em Siquém» (Ben Sira 50,26). Por tudo isto, a viagem habitual fazia-se, descendo de Jerusalém para Jericó, atravessando depois o Jordão para Oriente, junto de Damyiah, percorrendo então por terra plana o Além-Jordão (atual Jordânia) sempre junto do rio Jordão, para voltar depois a atravessar o Jordão, agora para Ocidente, junto de Bêt-Shean, um pouco a sul do Mar da Galileia. E estava-se na Galileia. Evitava-se assim a estrada montanhosa da Samaria, bem como eventuais hostilidades e confrontos com os samaritanos. Se o narrador coloca Jesus a calcorrear o caminho montanhoso da Samaria, não o faz por motivos geográficos, mas teológicos, explicitados, de resto, naquele «era preciso»: trata-se de revestir Jesus dos traços do mensageiro de Isaías 52,7: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que leva boas novas a Sião», e do noivo do Cântico dos Cânticos 2,8, de quem a noiva diz: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». O que faz correr sobre os montes é, pois, uma grande notícia ou um grande amor. As duas realidades movem Jesus.

    3. O texto refere ainda que Jesus, afatigado (kekopiakôs: part. perf. de kopiáô) da caminhada, se sentava com tempo (ekathízeto: imperfeito que implica duração) junto do poço-fonte de Jacob (v. 6). Não se deve esquecer que o verbo «afadigar-se» (kopiáô) (vv. 6.38) designa nas primeiras comunidades o trabalho missionário. E é também sabido, desde o Antigo Testamento, que o poço-fonte (pêgê) é visto como um cenário de noivado. É assim em Génesis 24, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Isaac com Rebeca; é assim em Génesis 29, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Jacob com Raquel; é assim em Êxodo 2, onde, junto de um poço, se prepara o casamento de Moisés com Séfora. Um grande amor e grandes e belas notícias movem Jesus, na sua viagem «necessária» sobre os montes da Samaria. Fazendo-o sentar com tempo junto do poço-fonte, são cenários de noivado que o narrador evoca e cuidadosamente prepara. Ao anotar, outra vez com tinta teológica, que «era por volta do meio-dia [= hora sexta]» (v. 6), o narrador evoca outra vez a hora do Noivo dos Cântico dos Cânticos 1,7, mas deixa-nos também expostos à máxima e irresistível revelação com que Paulo é atingido em pleno meio-dia (Atos 22,6; 26,13). O meio-dia representa a luz a pique, penetrante, como uma espada de dois gumes (cf. Hebreus 4,12). Em contraponto, procurar Jesus de noite, como fez Nicodemos na página anterior (João 3,2) é começar e acabar por não entender nada, como os discípulos que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como a Madalena que vai de madrugada, ainda escuro, ao túmulo de Jesus, e nada entende (João 20,1), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas, com os guardas, e sem Jesus (João 18,17-18).

    4. Eis então Jesus sentado, com tempo, junto do poço-fonte à hora do meio-dia. E aí vem a noiva, a mulher da Samaria. E Jesus desce pedagogicamente ao nível da mulher que vinha buscar água, com aquele pedido direto: «Dá-me de beber!» (v. 7), com que se abre o maior diálogo de todo o Novo Testamento (sete intervenções de Jesus; seis da mulher da Samaria). Salta à vista que Jesus se transforma em pedinte com o intuito de transformar em pedinte a mulher: a maravilhosa delicadeza de um Deus que pede para dar! De facto, pedagogicamente conduzida por Jesus, no final do diálogo sobre a água do poço-fonte que apenas mata a sede momentânea e a água que dá a vida eterna, (zôê aiônios) é a mulher que diz para Jesus: «Senhor, dá-me dessa água…» (v. 15). É fácil compreender que a melhor água que bebemos não pode manter-nos senão na vida que já temos, mas não pode salvar-nos da morte e dar-nos a vida eterna.

    5. Neste ponto preciso, Jesus imprime um novo ritmo ao diálogo, dizendo agora à mulher: «Vai, chama o teu marido, e vem aqui» (v. 16). Ao que a mulher responde: «Não tenho marido!» (v. 17). Quem tem o ouvido sintonizado na onda finíssima que percorre o Evangelho de João, começa já a aperceber-se do verdadeiro efeito retórico deste «não tenho», e para onde nos leva este não ter. Na verdade, pouco antes, em plenas bodas de Caná, Maria tinha anotado para Jesus: «Não têm vinho!» (João 2,3). E a verdade é que vão ter vinho em excesso! Em João 5,7, anota-se o caso do doente que não é curado, porque não tem ninguém que o lance à água. Mas vai ter cura, e cura em excesso por ação de Jesus! É ainda o caso dos discípulos que, à pergunta de Jesus: «Filhinhos (paidía), não tendes alguma coisa para comer, pois não?», respondem: «Não!» (João 21,5). Também já se sabe que irão ter peixe em excesso! É, portanto, de suspeitar, por parte do leitor atento de João, que a mulher da Samaria, que não tem marido, vá encontrar o esposo definitivo, o próprio Deus, cumprindo Isaías 62,5: «Como um jovem desposa uma virgem, assim te desposará o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, assim o teu Deus se alegrará em ti».

    6. E aí está Jesus, o conhecedor que nos conhece, e a quem nós ainda não conhecemos, a entrar dentro da mulher da Samaria e de nós mesmos, dizendo: «Disseste bem: “Não tenho marido”. Na Verdade tiveste cinco maridos, e o que tens agora [= sexto] não é teu marido”» (vv. 17-18). Abre-se aqui outra janela de luz e de sentido. Olhando através dela, podemos ver uma mulher atónita, a olhar para Jesus com redobrado espanto, e a dizer consigo mesma: «Mas como é que este desconhecido sabe tanta coisa acerca de mim? Como é que este desconhecido conhece a minha vida toda?». E que experiência será esta de nos sentirmos ditos, adivinhados, conhecidos? Não será o conhecimento conhecido, obra de Deus em nós, de que fala Paulo em 1 Coríntios 13,12? Seguramente que a mulher experimenta a estranha sensação de estar perante o saber que a ultrapassa de alguém que a conhece perfeitamente, e a quem ela ainda não conhece, mas começa a suspeitar. Começou por ver nele um simples judeu (v. 9). Mas agora já vê que é um profeta (v. 19), e pouco depois dirá que sabe que virá o Cristo, que explicará tudo (v. 25), e como tal o irá apresentar na Samaria (v. 29). Apercebendo-se que está perante um «homem de Deus», a mulher aproveita para colocar um problema de lugar de culto: «é em Jerusalém ou no monte Garizim que se deve adorar?» (v. 20). A questão não é sobre rezar, mas adorar Deus, reconhecê-lo como Criador e Senhor, que implica a ação de a pessoa se ajoelhar e beijar o chão (cf. Apocalipse 4,9-11; 7,11-12). Jesus responde que não se trata mais do lugar onde adorar, mas do modo de adorar (vv. 21-24).

    7. No que se refere à técnica da «antecipação» ou «adivinhação» pode ver-se noutras passagens do IV Evangelho, pelo que, se a mulher é completamente surpreendida, o leitor competente não o é. De facto, a mesma estratégia narrativa já foi encontrada em João 1,45-49, quando Jesus se adianta a Natanael, dizendo dele: «Eis um verdadeiro israelita!» (João 1,47), ao que Natanael reage com espanto: «De onde me conheces?» (João 1,48). Ver-se-á também em João 20,15, quando aquele que, aos olhos da Madalena, era um simples jardineiro, se adianta a ela, atravessando-a com uma pergunta penetrante: «Mulher, por que choras? A quem procuras?» (João 20,15a). Se a primeira pergunta («Por que choras?») parece óbvia (porque a Madalena estava, de facto, a chorar), a segunda («A quem procuras?») apanha a Madalena completamente de surpresa. Na verdade, pensará a Madalena, «Quem será este que sabe que eu procuro alguém neste jardim?». E se sabe que eu procuro alguém, seguramente saberá também quem eu procuro. Por isso, porque se sentiu adivinhada e pressente que ele sabe bem quem ela procura, responde-lhe em código, usando pronomes, e nunca dizendo o nome: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João 20,15b). Jesus responde: «Maria!» (v. 16). Esta estratégia pode ver-se ainda, pouco depois, na manifestação de Jesus Ressuscitado a Tomé. Na verdade, depois de Tomé ter dito aos outros discípulos que afirmaram diante dele terem visto o Senhor (João 20,25), que não acreditaria se ele próprio não visse nas suas mãos a marca dos cravos, e se não metesse o seu dedo na marca dos cravos e a sua mão no seu lado (João 20,25), surge Jesus, dirige-se logo a Tomé e diz-lhe: «Traz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Tomé já não vai investigar nada e, certamente atónito, porque adivinhado (como é que Jesus tomou conhecimento das condições que ele tinha posto?!), responde de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), a mais alta confissão de fé no plano narrativo do IV Evangelho.

    8. E quanto às contas feitas com os maridos, o leitor atento, mas que ainda não atingiu o nível de leitor modelo, contentar-se-á, talvez, com a simples aritmética, mas se conseguisse fazer as operações mentais e afetivas reclamadas pelo texto (a que só o leitor modelo tem acesso), seria então levado a compreender que aquela mulher da Samaria, que agora não tem marido, que já teve cinco, e que o que tem agora, e que é o sexto, não é seu marido… Em resumo: teve cinco, o que tem agora e que não é seu marido, é o sexto. Compreende-se então que aquela mulher já vai no sexto marido provisório, sendo seis um número imperfeito. Mas o sexto, enquanto provisório e imperfeito, aponta para o definitivo e perfeito. Em boa gramática simbólica, aponta para o sétimo, que está ali mesmo à beira, que está aqui mesmo à beira, e é Jesus! É por isso que Jesus diz à mulher: «… e vem aqui» (v. 16), porque é ele o noivo, aquele que vem, trazendo o tempo novo da alegria nova e definitiva, a alegria grande da Páscoa, o Messias suspeitado (v. 25) e confesso: «EU SOU (egô eimi), o que estou a FALAR contigo (ho lalôn soi)!» (v. 26), verdadeiro clímax narrativo e da revelação neste imenso texto. E a samaritana, encontrada pelo Noivo novo definitivo esperado, procede, de facto, como as mulheres na manhã de Páscoa: abandona o cântaro antigo e provisório (v. 28), que servia apenas para recolher a água antiga e provisória tirada do poço antigo e provisório (v. 11), e correu à cidade para dizer a todos… (v. 28). Notável movimento Batismal Pascal!

    9. Mas o que é que diz a mulher aos homens da Samaria? Diz: «Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?» (v. 29). Note-se o importante dizer reticente e pedagógico, mas também cristológico, da mulher da Samaria. Dizendo como diz, a mulher da Samaria evita dizer «judeu» e «messias», duas realidades que provocariam nos samaritanos uma reação de hostilidade, e não os mobilizariam para irem ao encontro de Jesus. Usando, porém, o título de «Homem», aqui dado a Jesus pela primeira vez no Evangelho de João, mas que o atravessa completamente (cf. 4,29; 5,12; 7,46; 8,40; 9,11.16.24; 10,33; 11,47.50; 18,14.17.29; 19,15), e mesmo a inteira Escritura desde o Génesis 1,26-30, é a singular humanidade de Jesus que se salienta, o seu saber penetrante, bem como a sua palavra mansa e dialógica. E a interrogação: «Não será ele o Cristo?» não é expressão de dúvida acerca da identidade de Jesus, mas uma finíssima e deliciosa interrogação pedagógica, que provoca nos samaritanos a curiosidade e acende neles o desejo de fazerem a experiência, de irem ver Jesus. Muitas vezes, uma afirmação põe fim a um processo de pesquisa. A interrogação, ao contrário, mobiliza e desperta. Foi assim que os samaritanos foram ver e ouvir a voz do Noivo, Aquele-que-Vem, e chegaram à fé em Jesus, confessando que Ele é verdadeiramente «o Salvador do mundo» (v. 42). O definitivo.

    10. É estranho, mas também pedagógico e ilustrativo, que enquanto Jesus dialoga com a samaritana, circulando entre os dois o verbo «dar», os seus discípulos andem pelo shopping a «comprar»! É ainda mais estranho que, mal Jesus inicia o diálogo com a samaritana, pedindo: «Dá-me de beber!» (v. 7), o narrador nos informe que os seus discípulos tinham ido à cidade comprar. Por lá andam o tempo todo. Regressam no v. 27, quando Jesus tinha acabado de fechar o diálogo no v. 26, com aquele solene: «Eu Sou…». É ainda estranho e nada edificante que estes discípulos de Jesus, ao regressar do shopping, tenham ficado admirados ao ver Jesus a falar com uma mulher, mas evitem fazer a Jesus qualquer pergunta sobre o assunto (vv. 27-28). Em vez disso, convidam Jesus a comer alguma coisa, e ouvem de Jesus um dizer espantoso: «Tenho para comer um alimento que vós não conheceis» (v. 32). Nós, que assistimos ao crescendo das reações da samaritana às propostas de Jesus, achamos agora estranhíssimo que estes discípulos não digam a Jesus: «Dá-nos então também desse alimento!», e que nem sequer formulem a pergunta: «Então que alimento novo é esse?». Em vez disso, diz-nos o narrador, que perguntavam, não a Jesus, de quem, pelos vistos, não querem mesmo ouvir nada, mas uns aos outros: «Porventura alguém lhe terá trazido alguma coisa de comer?» (v. 33). Estranhos discípulos desacertados de Jesus e do seu tempo novo. Descompassados e descompensados. Andam ainda no tempo do inverno e da sementeira: «Não dizeis vós que faltam ainda quatro meses para a ceifa?», pergunta Jesus (v. 35a). Eles não querem ouvir, mas Jesus abre diante deles um tempo novo: «Levantai os olhos e vede os campos: estão brancos para a ceifa!» (João 4,35b). Sim, o tempo que Jesus abre diante deles e de nós é o tempo novo da ceifa e da alegria (cf. Salmo 126,6).

    11. O relato do Livro do Êxodo (17,3-7) mostra-nos hoje que o Senhor está sempre no meio de nós e sacia a nossa sede no deserto da caminhada da vida. Então a sua «obra» nova não consiste também em fazer jorrar a água no deserto? (Isaías 35,6-7; 41,18; 43,19-20). Deus é muitas vezes, por 33 vezes, designado no Antigo Testamento, sobretudo nos Salmos, como a Rocha ouo Rochedo da nossa salvação. Por isso, é da Rocha, do Rochedo, que jorra a água que mata a sede do povo de Israel, e a nossa, no deserto. Como sempre, o Antigo Testamento aponta para o Novo: no Evangelho de hoje, Jesus, o Filho de Deus, oferece a Água Viva (zôn) que mata a nossa sede para sempre. E Paulo, encontrado pelo Senhor Ressuscitado (Filipenses 3,12), que é quem dá a Água da Vida que é o Espírito Santo, pode agora dizer, relendo o Antigo Testamento, que aquela Rocha donde jorrava a água no deserto é Cristo (1 Coríntios 10,4).

    12. A Rocha, o Poço e a Água viva. Deixo aqui a bela interpretação que os targûmîm (paráfrases aramaicas) fizeram da passagem do Livro dos Números 21,16-18: «Foi então que Israel cantou este poema de louvor, no momento em que voltou o poço que lhes tinha sido dado por mérito de Miriam, depois de ter estado escondido: “Sobe, poço! Sobe, poço!”, assim cantavam. E ele subia. O poço que tinham escavado os patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob, os príncipes de outrora, os chefes do povo, Moisés e Aarão, perfuraram-no os dirigentes de Israel, mediram-no com as suas varas. E, depois do deserto, deu-se a eles como um dom. E depois de se dar a eles como um dom, pôs-se a subir com eles pelas altas montanhas, a descer com eles pelos vales. Passando por todo o território de Israel, dava-lhes de beber a todos e a cada um à entrada da sua tenda». Um poço que acompanha o povo por todo o lado, por montes e vales, e que dá de beber ao povo. Bela metáfora que pode traduzir também o Jesus de João 4, que vai à nossa procura e sacia a nossa sede mais profunda.

    13. Na Carta aos Romanos (5,1-2.5-8), Paulo dá testemunho do acontecimento central da sua e da nossa vida. Dá testemunho do Evangelho. Cristo morreu por nós, dando-nos a Água da Vida que é o Espírito Santo (de novo Atos 2,32-33; João 19,30.34 decifrado por João 7,38-39). O Espírito Santo dado(Romanos 5,5) como selo (Efésios 4,30) para a vida eterna ensina-nos tudo sobre o Pai – em nós clama: Abbá (Gálatas 4,6); nele clamamos: Abbá (Romanos 8,15) – e sobre o Filho: «ninguém pode dizer “Senhor é Jesus” a não ser no Espírito Santo» (1 Coríntios 12,3). É ele que derrama o amor de Deus no nosso coração: unidos a Deus até à vida eterna (Romanos 8,16-17; 1 Coríntios 12).

    14. Sim, não nos é permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou à mulher da Samaria e todos os dias mostrou e mostra aos seus discípulos.

    António Couto


  • A Quaresma tem o aroma da terra lavrada,

    das primeiras chuvas,

    das únicas chuvas verdadeiras,

    aquelas que do céu descem,

    e para o céu sobem,

    depois de terem regado a terra lavrada do nosso coração.

    A Quaresma tem o rosto da Palavra e da escuta infinita,

    tem o cheiro fresco do sabão,

    a força do perdão,

    e o sabor do pão.

    A Quaresma faz-nos nascer de novo

    como erva verde,

    como água pura,

    como o maná de mil sabores,

    com que os pastores do deserto

    alimentam as ovelhas.

    É assim que a Quaresma nos faz ver melhor o Bom Pastor,

    que nos conduz,

    e à sombra da sua Cruz

    nos faz repousar

    e nos ensina a amar.

    Faz-nos, Senhor,

    Bom e belo Pastor,

    seguir sempre os rumos que a tua voz de amor nos indicar.

    António Couto


  • A quaresma é uma estrada

    entrecortada

    por estações de serviço de paz e de perdão.

    Uma avenida

    florida

    de oração.

    Uma praça

    de graça

    e contemplação.

    A quaresma é uma escada,

    que do céu desce,

    trazendo até nós a mão de Deus,

    e ao céu se eleva,

    levando até Deus a nossa prece.

    A quaresma é um caminho

    direitinho

    ao coração.

    É preciso limpá-lo

    de todo o lixo acumulado.

    É preciso entregá-lo a Deus,

    limpo e cultivado.

    Senhor desta estrada deserta,

    que vai de Jerusalém a Gaza,

    mantém o meu coração alerta,

    conduz nesta viagem os meus passos,

    pegada a pegada,

    até ao limiar da tua casa

    iluminada.

    António Couto


  • Génesis 12,1-4a; Salmo 33; 2 Timóteo 1,8b-10; Mateus 17,1-9

    1. Batizado no Jordão, tentado no deserto como Israel, mas Vitorioso, após o jejum preambular de preparação para o início da sua missão na Galileia, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa, e imediatamente depois do anúncio da sua Paixão, Morte e Ressurreição, dados não compreendidos e contestados por Pedro e pelos outros discípulos (Mateus 16), aí está Hoje, Domingo II da Quaresma, o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9) – Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada, e confirma também os discípulos, ainda confusos e perplexos, em ordem à sua missão futura. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa dada por Jesus aos seus discípulos ao descer do monte: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

    2. Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical, pausa e bemol. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor antes da Ressurreição do Senhor, ou fora dela. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Atos dos Apóstolos, com Pedro a explicar assim o Pentecostes à multidão: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir no Evangelho segundo João no final da Festa das Tendas: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Portanto, é urgente esperar! Toda a atenção ainda, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com/ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20). Portanto, antes e fora da Ressurreição do Senhor, antes e fora do Espírito Santo sobre nós derramado, nós não podemos nem sabemos dizer sobre Jesus seja o que for que faça algum sentido na ordem do divino. Apenas podemos debitar alguns dados da ordem da história, da geografia, da sociologia…

    3. O famoso texto de Mateus 17, que traz até nós o episódio da Transfiguração de Jesus, começa assim: «Seis dias depois, Jesus toma consigo Pedro e Tiago e João, seu irmão, e leva-os, à parte, a um monte alto» (17,1). O uso aqui do presente histórico dá o tom enfático apropriado para vincular o episódio da Transfiguração (17,1-9) ao Capítulo 16, que o precede imediatamente. A presença do artigo antes do nome de Pedro (tòn Pétron), mas não antes dos nomes de Tiago e João, serve para pôr em destaque o papel de Pedro desde o Capítulo anterior, a que se ajusta também a ligação cronológica «seis dias depois». Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (16,16), mas opõe-se energicamente às palavras de Jesus (16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Marcos 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre si sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de ter eles pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam, isso sim, que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

    4. É tendo tudo isto em conta, sobretudo o desarranjo e incompreensão de Pedro (16,22) e o desconsolo e tristeza dos discípulos (17,23), que Jesus «toma consigo» um grupo seleto de discípulos, e os (autoús) faz subir consigo, e é transfigurado diante deles (autôn); é a eles (autoîs) que aparecem Moisés e Elias; a nuvem luminosa envolveu-os (autoús), e a voz que sai da nuvem dirige-se a eles diretamente, pois fala de Jesus em 3.ª pessoa, e apela a que o escutem; amedrontados e caídos por terra, é Jesus que os (autôn) toca, e os manda levantar, e lhes (autoîs) ordena que nada digam acerca desta visão antes de Ele ressuscitar dos mortos. Pela coleta de dados que acabámos de fazer (referimo-nos aos pronomes), é fácil compreender que são os discípulos que estão no centro da cena, e que tudo é feito para eles. Na verdade, dada a sua incompreensão e enérgica reação no Capítulo anterior, torna-se necessário clarificar com eles sobretudo três aspetos: 1) contribuir para que possam vir a ter uma noção mais concreta acerca da ressurreição, vendo Jesus na sua glória celeste falando com personagens celestes; 2) ouvir e aprender do próprio Deus que Jesus é o seu Filho, o Amado; 3) predispor-se a escutar Jesus sem reservas, o que significa, entre outras realidades, escutar as palavras de Jesus acerca do seu sofrimento e morte, e não opor-se a elas.

    5. A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca por assonância a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (17,2). O branco é a cor divina e celeste. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer solene do Salmo 104,2: «Vestido de Luz como de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9). No contexto da Transfiguração de Jesus, é importante a aparição de Moisés e Elias, cuja morte se verificou há muito tempo, não estando por isso acessíveis à visão humana comum. Só podem ser vistos se aparecerem, se se fizerem ver, se se apresentarem aos homens a partir da sua existência em Deus. Os discípulos veem que estas figuras celestes falam com Jesus transfigurado, e podem começar a descobrir a realidade que pode estar por detrás das palavras antes incompreensíveis de Jesus quando Ele anuncia a sua Ressurreição. E mais uma vez Pedro se equivoca, pois sugere tendas terrenas para figuras celestes!

    6. Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que Pedro, ao fazer semelhante sugestão, «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado e confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue. Antes ainda desse final, Pedro recorda o privilégio de terem sido testemunhas oculares da Glória de Jesus sobre o monte santo, e que ouviram aí a voz vinda do Céu, do Pai, a declarar Jesus «o Filho meu, o Amado meu» (2 Pedro 1,16-18). A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados e confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração do Senhor: a Divinização.

    7. A lição do Livro do Génesis (12,1-4) abre diante de nós o caminho novo já apontado no Evangelho: «VAI para ti (lek-leka), do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que Eu te farei ver» (Génesis 12,1). Com este imperativo, Deus põe em marcha Abraão e a inteira história da salvação que se lhe segue. «E Abraão partiu» (Génesis 12,4). Com este gesto esplendorosamente mudo, Abraão comprometeu-se e comprometeu-nos a nós também. Abraão arrasta consigo a história toda. Ele parte (e a história com ele) em direção a Jesus Cristo, que é a sua verdadeira descendência (Gálatas 3,16). Abraão viu-O e saudou-O de longe (Hebreus 11,13), cheio de alegria (João 8,56). A sua meta é clara e define e alumia a sua estrada que até lá conduz e em que caminha Abraão, fazendo assim dele também antecipadamente «filho da Luz». Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. São tão simples, tão novos e tão decididos os gestos e os passos de Abraão! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Isaías 51,2). E partir com ele DAQUI, do provisório, do preliminar, do penúltimo, ao encontro de Jesus Cristo Ressuscitado.

    8. Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata apenas de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É sobretudo da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «VAI (lek) do teu país», mas «VAI para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

    9. É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). «Hebreu» (‘ibrî) reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem da «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, ativo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo. Viajante transitivo e intransitivo.

    10. E o Apóstolo testemunha (2 Timóteo 1,8-10) que o mesmo Deus que chamou Abraão, também nos chamou a nós (2 Timóteo 1,9). Por pura graça. Para dar testemunho do Evangelho e participar na sua vida. Por isso, tal como Abraão, também Paulo saiu do passado e correu para o futuro (Filipenses 3,13). E quer agora empenhar nesta «corrida» o seu discípulo Timóteo. E a nós também. Contra a contínua tentação de querermos ficar AQUI, no provisório, no preliminar, no penúltimo, como Pedro (Evangelho) e todos os discípulos (Atos dos Apóstolos 1,11).

    11. Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

    António Couto


  • Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,

    devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos

    intransitivos do nosso coração,

    isto é, de limpar as mentiras, ódios, raivas, violências, banalidades,

    que tantas vezes preenchem os nossos dias.

    A Quaresma é tempo de nos expormos

    ao vendaval criador e purificador do Espírito,

    sem termos a pretensão de o querer transformar em ar condicionado.

    Toma em tuas mãos, Senhor,

    a nossa terra ardida.

    Beija-a.

    Sopra nela outra vez o teu alento,

    a tua aragem,

    e veremos nela outra vez impressa a tua imagem.

    Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis.

    Mas contigo por perto,

    seremos fortes e ágeis,

    capazes de abrir estradas no deserto,

    a céu aberto.

    E, quem sabe, talvez nasça aí um mundo novo,

    de tal modo novo,

    que ninguém pode dizer que já sabia.

    E por estranho que pareça,

    para que esse mundo novo aconteça,

    para que esse mundo novo nasça

    e rasgue a crosta da nossa apistía,

    basta que a Tua vontade se faça,

    e se reparta o pão nosso de cada dia.

    António Couto


  • Génesis 2,7-9; 3,1-7; Salmo 51; Romanos 5,12.17-19; Mateus 4,1-11

    1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico, portanto, também a Quaresma e os seus Domingos, estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja, e cada um de nós, pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os batizados são chamados a refazer com Cristo bati­zado o seu programa batismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Batismo no Jordão, passando pela Trans­figuração no Tabor, até à Cruz eà Glória da Ressurreição (Batismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Atos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático). Por sua vez, os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã. Assim, a Igreja Santa, toda Batizada e Crismada, sabe bem que é dali, daquela Cruz Santa e Gloriosa, e da enxurrada de Vida Nova, Ressuscitada, e da dádiva do Espírito que dela jorra, que nos é oferecida a «consumação» (teleíôsis) (cf. João 19,28-30), o cumprimento, a chegada à perfeição da nossa vida, deste segmento de tempo que, por graça, nos é dado viver.

    2. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o episódio das Tentações de Jesus, conforme o relato de Mateus 4,1-11. Note-se bem que o episódio imediatamente anterior (Mateus 3,13-17) nos apresenta Jesus que vem da Galileia ao Jordão, à região de Bêthabarah, [= Casa da Passagem] (João 1,28), um pouco a norte de Jericó, para ser batizado por João, que a esse ato pretende opor-se, dado que, no seu entender, é ele, João, que deve ser batizado por Jesus, e não o contrário. Aceita, no entanto, a explicação dada por Jesus de que assim deve ser para ser cumprida toda a justiça, isto é, para ser feita ou cumprida a vontade de Deus. Ao sair da água, Jesus vê o Espírito de Deus descer sobre Ele, e ouve-se uma voz vinda do Céu, de Deus, do Pai, que faz uma declaração pública: «Este é (houtós estin) o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo» (Mateus 3,17). É importante apercebermo-nos de que, em Mateus, este dizer do Pai se dirige a nós, revelação ou proclamação a nós feita, pois a voz do Céu faz-se ouvir em 3.ª pessoa: «Este é o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo». De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai dirige-se a Jesus, pois a voz do Céu faz-se ouvir em 2.ª pessoa: «Tu és (sy eî) o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo» (Marcos 1,11; Lucas 3,22). Importa, pois, salientar desde já esta vinculação do Pai e do Filho, bem como a sua proximidade e intimidade. Do Pai, que apresenta o seu Filho e declara o seu amor e comprazimento nele. Do Filho, que não age por conta própria, mas faz a vontade do Pai.

    3. Bem vistas as coisas, Jesus vem da Galileia ao Jordão para ser batizado por João (Mateus 3,13-17), e regressa pouco depois à Galileia para dar início à sua vida pública (Mateus 4,12-17). Entre a vinda da Galileia e o regresso à Galileia, Mateus introduz o chamado episódio das «tentações» de Jesus (Mateus 4,1-11). O texto começa por dizer que Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado (peirázô) pelo diabo (diábolos), e acrescenta que Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e que no fim teve fome (Mateus 4,1-2). Ao contrário do que se possa pensar, este início do texto não tem carga negativa. Basta pensar que Jesus é conduzido pelo Espírito. Ir para o deserto, ser tentado e ter fome são modos de dizer que Jesus faz sua a história de Israel. No deserto, o povo de Israel sucumbiu à tentação e à fome. Indo ao deserto, Jesus assume a história do seu povo, mas vence onde Israel sucumbiu. E ao mesmo tempo prepara com o jejum a missão que está para iniciar na Galileia. Voltemos ao facto da fome de Jesus, pois é neste ponto preciso que se aproxima «o Tentador» (ho peirázôn). Este vocábulo só é usado aqui e em 1 Tessalonicenses 3,5, e define a função específica do diabo, o seu ofício ou afazer, que não consiste em pôr os homens à prova, mas em incitá-los ao pecado, que consiste em retirar a Deus a condução da ação para a atribuir ao diabo. No caso de Jesus, o Filho Amado de Deus, a tentação do diabo consiste, portanto, em procurar desfazer o nó do Amor mútuo que une o Pai e o Filho, em desvincular Jesus de fazer a vontade do Pai, de obedecer ao Pai, atitude própria da sua vocação de Filho obediente, para usar a sua autoridade de Filho e passar a agir por conta própria. A tentação é subtil, e pretende insinuar que Jesus pode prover à sua própria existência, de forma autónoma, sem precisar de depender exclusivamente do Pai. Jesus, o Filho de Deus, tem fome. De que estás à espera, diz o diabo, e sugere: «Se és o Filho de Deus, diz que estas pedras se transformem em pão» (Mateus 4,3). Vê-se a subtileza da tentação: transformar pedras em pão não é uma tentação para qualquer um; é uma tentação apenas para alguém que pode fazer isso! Jesus recusa a tentação diabólica. E fá-lo, não respondendo de forma autónoma, mas citando a Palavra de Deus, que se encontra na Escritura: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Deuteronómio 8,3). Com esta resposta, Jesus mostra-se como Filho de Deus, mas também como filho da Escritura.

    4. Na segunda vaga da tentação, parece que o diabo leva a sério a resposta de Jesus, faz também ele uso da Palavra de Deus expressa na Escritura, e sugere mais ou menos isto: «Uma vez que queres viver da Palavra de Deus, e te abandonas na sua providência, então mostra lá que levas a sério a Palavra de Deus que diz que os anjos te seguram nas suas mãos, e atira-te daqui abaixo». O diabo citou o Salmo 91,11-12, mas interpreta erradamente as palavras citadas, como se alguém fosse pôr propositadamente a sua vida em risco, e ao mesmo tempo exigisse a Deus que o salvasse! Pura provocação. Por isso, Jesus responde de forma liminar: «Não tentarás o Senhor, teu Deus», citando o Deuteronómio 6,16. O diabo faz um uso literalista do Salmo 91. Jesus responde-lhe com um procedimento que podemos chamar exegese teológica: claro que é bom confiar em Deus, mas é preciso vigiar para que esta confiança não seja pervertida pela tentação de se poder pôr o poder de Deus ao serviço da ambição religiosa do homem.

    5. Na terceira tentação, o Tentador renuncia à Escritura, deixa de chamar a Jesus «Filho de Deus», abandona todos os disfarces, e mostra-se tal como é: o «príncipe deste mundo» (João 12,31; 14,30; 16,11) ou o «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4), e promete «todos os reinos do mundo e a sua glória» (Mateus 4,8). O preço a pagar é prostrar-se diante do Tentador e adorá-lo (Mateus 4,9). Esta terceira tentação não provém de nenhuma necessidade fundamental do homem (como a primeira), nem de uma falsa visão de Deus (como a segunda). A tentação abdica completamente de Deus, corta radicalmente com Deus, e tem em conta apenas o que este mundo fechado pode oferecer: poder, influência, sucesso, riqueza. Completo fechamento a Deus. A resposta de Jesus é taxativa, citando agora Deuteronómio 6,13: «Ao Senhor, teu Deus, adorarás; só a Ele prestarás culto» (Mateus 4,10).

    6. É fácil agora compreender que todas as tentações diabólicas (as duas primeiras explicitamente) pretendem atingir Jesus na sua condição filial batismal de «Filho de Deus», tentando separá-lo de Deus e dos irmãos, não fosse o diabo, diá-bolos, o máximo «divisor» ou «separador» comum. É, portanto, na sua condição de batizado, isto é, de Filho de Deus, que Jesus é tentado. Na verdade, todas as tentações, as de Jesus como as nossas, começam sempre da mesma maneira: «Se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mt 27,39-44), também por três vezes, em três vagas sucessivas, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes com os escribas e os anciãos, e depois os ladrões crucificados com Jesus. Portanto, sempre. Do Batismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e da sua providência, e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31; 14,30; 16,11). Veja-se a última oferta do «Tentador» do Evangelho de hoje: «todos os reinos deste mundo» em troca do afastamento de Deus, de um mundo sem Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta contundente de Jesus: «Vai-te, Satanás!» (Mateus 4,10). Jesus, o Filho de Deus, permanece sempre vinculado ao Pai, nunca deixando de fazer a vontade do Pai. Mesmo quando responde ao «Tentador», não o faz com palavras próprias, mas unicamente com a Palavra de Deus expressa na Escritura, que cita sempre a propósito. Filho de Deus e filho da Escritura.

    7. Este episódio começa com Jesus a ser conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Com esta ida ao deserto, lugar exposto à tentação, Jesus reclama como sua a história de Israel. Com duas diferenças: 1) na história de Israel, o Jordão vem depois do deserto; na história de Jesus, o deserto vem depois do Jordão; 2) no deserto, Israel cai em inúmeras tentações; Jesus, porém, vai sair vitorioso das tentações. O deserto é sempre um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, mas onde se está «a céu aberto» com Deus, e se pode começar a ver surgir a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Lugar ideal, também com a nota do jejum, para Jesus preparar a missão que está para iniciar na Galileia. No deserto não há pontos de referência nem marcos de sinalização. Só podemos prosseguir a viagem, se tivermos um bom guia. E o andamento do texto lembra outra vez Israel, mas também Moisés e Elias, que experimentaram no deserto a condução de Deus. Este deserto é então também uma metáfora da nossa vida como lugar onde estamos sujeitos à tentação, mas onde devemos saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler o mapa da sua Palavra. Como Jesus, o Filho de Deus e filho da Escritura.

    8. Leem-se também hoje dois bocadinhos do Livro do Génesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, nós também, modelado pelas mãos puras de Deus e acariciado com um «beijo de Deus» – é assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (Génesis 2,7) –, cedeu à tentação, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos «deuses deste mundo», aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente à terra ou por dentro da terra, a grande deusa-mãe, comungando da vitalidade da terra, e tornando-se a cobra, por isso, em símbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o Médio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os painéis que assinalam as portas das farmácias, ostentando uma cobra enrolada numa árvore verde! Está diante de nós o orgulho, a hýbris, do homem de todos os tempos, que não quer ser dependente e contingente, que é a condição da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser autónomo e independente, senhor tirânico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopotâmicos ou gregos. Admirável contraponto do Evangelho de hoje.

    9. No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos rever em Adão como em um espelho. De acordo com a personalidade corporativa que envolve o povo bíblico, Adam éao mesmo tempo um nome singular e coletivo, que pode ser traduzido por Adão ou por Humanidade. É um nome singular, epónimo da humanidade, e é ao mesmo tempo a Humanidade que se revê no seu epónimo. Mas agora, insiste Paulo, é tempo de vermos a nossa vida à luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para não nos perdermos no caminho filial, fraternal, batismal. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. É esta a Sabedoria que Paulo nos transmite.

    10. Cantamos hoje o Salmo 51, a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear esta melodia que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, de qualquer tempo, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

    António Couto


  • O caminho da Quaresma leva-nos à cripta, ao miolo, àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro, onde eu sou verdadeiro, sem dolo nem tijolo nem roupeiro. Chegar lá implica desfazer-se do barulho e do entulho, arredar a caliça e o reboco, aprender com os pássaros do céu, com os lírios do campo, ir até ao fundo, até ao toco, e deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço, onde só Ele sabe semear semente santa, que depois há de florir e dar fruto a seu tempo e a seu campo. Que rebento pode brotar de um toco seco? Que sucesso pode ter uma semente na aridez do deserto semeada? É mesmo só com Deus essa empreitada. E Jesus explica bem, no meio do sermão da montanha, que são também assim a esmola, a oração e o jejum, frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

    A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas por mim e ao meu jeito, e para mim e em meu proveito, nas ruas, nas praças, nas igrejas, só para que as pessoas vejam e aplaudam. A Quaresma é tempo de deixar Deus fazer nascer dentro de mim um jardim, uma maneira nova de viver.

    António Couto


  • Fixemos a nossa atenção na oração do «Pai nosso» que é, sem dúvida, um dos mais privilegiados acessos ao Deus «Pai» da Bíblia.

    Já sabemos que os Evangelhos nos oferecem duas versões dessa oração: Mateus 6,9-13 e Lucas 11,2-4. Começamos pela versão de Lucas, que pode muito bem trazer-nos o contexto original. Nesta versão, a oração ao Pai compõe-se de cinco pedidos. Jesus aparece ao fundo da cena, a rezar sozinho ao Pai, totalmente voltado para o seio do Pai (João 1,18), completamente ocupado nas Realidades do Pai (Lucas 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos veem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Veem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos – também em nosso nome –, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Batista ensinou a rezar os seus discípulos!».

    E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem, devem estar sempre voltados o nosso coração, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda.

    E disse: «Quando rezardes, dizei: “Pai (páter), santifica o teu Nome (1), venha o teu Reino (2),  dá-nos o pão nosso (árton hêmôn) de cada dia (3), perdoa os nossos pecados (4), não nos deixes cair na tentação”» (5) (Lucas 11,2-4).

    Todos sabemos bem que não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência.

    Na versão de S. Mateus, a oração do «Pai nosso» compõe-se de sete pedidos, está integrada de forma redacional no contexto amplo do grande «Sermão da Montanha» (Mateus 5-7), de que ocupa o centro da composição dos três Capítulos, como se pode ver no seguinte diagrama: Mateus 5,1-2 = Audiência: discípulos e multidões (A); Mateus 5,3-16 = Introdução: Felicitações e Declarações (B); Mateus 5,17-19 = A Lei e os Profetas (C); Mateus 5,20-48 = Seis antíteses (D); Mateus 6,1-4 = Esmola (E); Mateus 6,5-15 = PAI NOSSO (F); Mateus 6,16-18 = Jejum (E’); Mateus 6,19-7,11 = Entesourar, inquietar-se, julgar, pedir (D’); Mateus 7,12 = A Lei e os Profetas (C’); Mateus 7,13-27 = Conclusão: Exortações (B’); Mateus 7,28-29 = Audiência: reação das multidões: ensino com autoridade (A’).

    O seu contexto restrito são os ensinamentos acerca da esmola (eleêmosýnê) no segredo (en tô kryptô) (6,1-4), da oração no segredo (6,5-6) e do jejum no segredo (6,16-18). Vê-se bem que, neste contexto restrito das três práticas fundamentais da piedade judaica e cristã, a oração aparece interposta entre a esmola e o jejum, isto é, em termos retóricos, ocupa o lugar privilegiado: o centro. No que se refere àquela insistência «no segredo», salta à vista que a prática da piedade judaica e cristã, com a oração em destaque, é posta no seguimento do grande Salmo 51,8: «Eis que de verdade Tu te comprazes no íntimo (tuhôt = o que está debaixo do reboco),/ e no segredo (satum TM; tà krýphia LXX) a sabedoria Tu me fazes conhecer». Rezar, que é ousar pôr-se, não diante dos homens, mas diante de Deus, faz-se, portanto, «no segredo», na cripta, no íntimo, debaixo do reboco, sem fingimento, sem máscaras, sem qualquer verniz social, cultural, económico, religioso. Rezar é um ato de verdade, sem defesa, sem reboco. O reboco é a caliça que esconde a verdade da parede. Podemos viver caiados, mascarados, betumados, rebocados. Rezar é tudo por debaixo disso. Desde a medula dos ossos ou desde o coração. «Portanto, rezai assim: “Pai nosso (páter hêmôn) que estás nos Céus, santifica o teu Nome (1), venha o teu Reino (2), faça-se a tua Vontade (3), Dá-nos hoje o pão nosso (árton hêmôn) deste dia (4), perdoa os nossos pecados (5), não nos deixes cair na tentação (6), livra-nos do mal”» (7) (Mateus 6,9-13). 

    É convicção assente entre os especialistas que o contexto de Lucas é de preferir ao de Mateus, que é claramente redacional. Mas também o texto mais curto de Lucas parece ser em geral mais primitivo, a começar pela invocação, que é simplesmente «Pai». Em Mateus soa: «Pai nosso que estás nos Céus». A passagem de cinco para sete pedidos resulta do acrescento de dois pedidos, um no final da primeira parte, outro no final da segunda. Cinco ou sete pedidos que Jesus nos ensinou a dirigir ao Pai. Sim, antes de mais, Jesus ensinou-nos a estar perante Deus com total confiança, simplicidade e verdade, tal como uma criancinha com o seu «papá» (’abba’) ou com a sua «mamã» (’imma’), em quem a criancinha vê a única direção da sua vida, a proteção e a defesa, o socorro e o sustento, a confidência que nunca engana. De acordo com os Evangelhos, sempre que Jesus se dirige a Deus, emprega a expressão «meu Pai», exceto num único caso, que é o grito na Cruz: «meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Marcos 15,34), que é uma citação do Salmo 22,2. Mas Joachim Jeremias faz-nos ver ainda que sempre que Jesus, na sua oração, se dirigia a Deus como ao seu Pai, se servia do termo aramaico ’abba’ (Marcos 14,36), termo que chegou, de resto, na língua aramaica, a tomar o sentido de «o pai» e «meu pai», e a substituir de vez em quando «seu pai» e «nosso pai». Esta invocação, que ressoa ainda nas primeiras comunidades cristãs (Romanos 8,15; Gálatas 4,6) traduz a total liberdade e confiança (parrêsía) de quem reza. Por isso, Jesus não quis que invocássemos a Deus apenas com o nome adulto de «Pai», título institucional que podia deixar perceber alguma frieza, distância, respeito e autoridade. Como já acontece no Antigo Testamento e nos textos judaicos, os hebreus e judeus piedosos, com imenso respeito e adoração, falavam de Deus ou a Deus com o nome de «Pai». Jesus, porém, queria dizer uma realidade nova, e por isso recorreu ao aramaico ’Abba’ [= Papá], linguagem hipocorística [= Ab-bá / im-má // pap-pá / mam-mã], uma Lallwort de intolerável confiança, que nunca encontramos no Antigo Testamento nem nas inúmeras orações judaicas. Era impensável para um judeu chamar a Deus ’Abba’, termo que pertence à linguagem infantil familiar. Ao adotar esta invocação sem precedentes na piedade de Israel, dirigindo-se a Deus como uma criança ao seu papá, sem qualquer distância ou temor – digamos mesmo sem nenhum respeito! –, mas com imensa ternura e carinho, Jesus desvela o verdadeiro Rosto de Deus, ao mesmo tempo que mostra a sua (e a nossa) inaudita confiança n’Ele. Por isso, basta «o pão de um dia!». Neste particular, é de preferir o texto de Mateus («dá-nos hoje o pão deste dia») ao de Lucas («dá-nos o pão de cada dia»). O pedido «Dá-nos hoje o pão deste dia» acentua a nossa radical confiança em Deus e dependência de Deus. O imperativo aor2 dós (de dídômí) concerne um ato único, com a precisão do «hoje» (sêmeron), ao contrário do imperativo presente dídou, de Lucas, que é iterativo, traduzindo atos repetidos de dar, e do kath’ êméran (cada dia). De acordo com o texto de Mateus, uma sentença do rabino Eleazar de Modim (séc. II) diz: «Aquele que tem que comer hoje e diz: “Que comerei amanhã?”, é um homem de pouca fé».

    De notar ainda que, não obstante os pedidos serem 5 em Lucas e 7 em Mateus, o pedido do meio (n.º 3 em Lucas; n.º 4 em Mateus), que é o que estrutura ou concentra a oração, permanece o mesmo: «Dá-nos o pão deste dia»! O pão de um dia! (cf. Êxodo 16,4). É ainda importante notar que este pedido central é o único que se coaduna com a invocação «Pai nosso» ou «Pai», pois o pai é, por natureza, aquele que dá o pão. Se é sobre este pedido que se concentra toda a oração, então ele define a verdadeira atitude com que se pode rezar a inteira oração dos 5 pedidos ou dos 7 pedidos diante de Deus. Ora, acontece que a maioria de nós já não tem jeito nenhum para fazer um pedido assim, que é pedir pão. Quem sabe pedir pão com verdade e simplicidade, sem truques, são as criancinhas. E é, de facto, a única atitude correta para se «tratar» com o «papá» ou com a «mamã». Total abandono e confiança.

    Em última análise, é esta atitude que identifica a fé bíblica, que é, segundo a DV, n.º 5, a entrega total e livre do homem a Deus. É uma atitude pessoal, psicobiológica, de total abandono em Deus, única realidade a que nos podemos agarrar para estarmos «seguros», «firmes». «Fé» ou «fidelidade» diz-se em hebraico emunah. emunah deriva do verbo ’aman (= segurar, firmar) que pode assentar numa etimologia tipicamente maternal: ʼem, ’omen. ʼem significa mãe. ’omen pode ser a mãe, ou a «ama» que transporta uma criancinha (’amûn: ainda a mesma etimologia) nos braços (Números 11,12) ou o pedagogo que a educa. A criancinha agarra-se [= segura-se] com todas as suas forças à sua «mamã», única verdadeira direção da sua vida, única segurança que conhece (nada sabe da polícia ou do dinheiro…). E o mesmo se passa do lado da «mamã» em relação à criancinha que transporta nos braços. Por nada deste mundo a abandona. E se a abandonar, o Senhor a acolherá (Salmo 27,10). É esta segurança de pessoalíssima confiança que é a fé bíblica, de que o «Pai nosso» é expressão privilegiada, deixando-nos entrever em contraluz um Deus que nos ama entranhada e carinhosamente (e é isto a «compaixão» bíblica = rahamîm) e que sorri para nós com um sorriso condescendente enquanto nos embala nos seus braços paternais e maternais (e é isto a «graça» bíblica = hen).

    Conhecemos todos a fórmula introdutória do «Pai nosso» na liturgia romana: «Fiéis aos ensinamentos do Salvador, ousamos dizer: “Pai nosso…”». A fórmula introdutória na liturgia grega é ainda mais expressiva: «Torna-nos dignos, Senhor, de ousar com confiança (parrêsía) e sem incorrer na tua reprovação, invocar-te como Pai, a ti, o Deus do céu, e dizer: “Pai nosso”». Ousar dizer «Pai nosso» é diferente de dizer «Pai meu». Ousar dizer «Pai nosso», e não apenas «Pai meu», com toda a verdade, confiança e liberdade, implica, portanto, que o orante tenha à sua volta um mundo de irmãos. Um mundo só de irmãos. E, portanto, evangelicamente, «se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta» (Mateus 5,23-24). Verdadeiramente, ousar dizer «Pai nosso» implica toda uma revolução na vida. Implica um coração puro, solidário, fraternal, filial. E do «Pai nosso» ao «Pão nosso» é apenas um pequeno passo. Ou um grande passo.

    António Couto


  • Ensina-me, Senhor, a subir mais alto,

    como os lírios do campo,

    como os passarinhos.

    Ensina-me a ser santo

    como os pequeninos.

    Só sendo assim me posso sentar à tua mesa,

    onde se come e se reza,

    e o ambiente é familiar e quente

    como uma lareira acesa.

    Até as aves do céu vêm abrigar-se em tua casa,

    comer à tua mesa,

    beber no teu ribeiro manso.

    Aqui fazem os passarinhos os seus ninhos,

    e até os bandos de estorninhos

    encontram aqui o seu descanso.

    Dá-nos, Senhor,

    em cada dia

    da nossa vida,

    às vezes sombria,

    às vezes escura,

    a água pura da tua luz e alegria,

    que nos enche de paz e de ternura.

    António Couto


  • Ben Sira 15,16-21; Salmo 119; 1 Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37

    1. Continuamos a escutar, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime Discurso da Montanha, hoje as quatro primeiras das famosas «seis antíteses» (Mateus 5,17-48), cujos temas são: o homicídio (1), o adultério (2), o divórcio (3), o perjúrio (4), a lei de talião (5), o amor ao próximo (6). Ouviremos então, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime dizer de Jesus sobre os primeiros quatro temas: homicídio, adultério, divórcio e perjúrio (Mateus 5,17-37). Os últimos dois importantes temas: a lei de talião e o amor que a todos devemos (Mateus 5,38-48) seriam escutados no Domingo VII do Tempo Comum, o que não acontecerá no ano litúrgico em curso, por entrarmos, entretanto, no Tempo da Quaresma, da Paixão e da Páscoa. Regressaremos aos Domingos do Tempo Comum apenas em 07 de junho, e já estaremos então no Domingo X do Tempo Comum, com o Evangelho de Mateus 9,9-13, bem fora do Discurso da Montanha.

    2. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa S. João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte [2001], n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, S. João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

    3. Cada uma das «seis antíteses» abre com as palavras de Jesus: «Ouvistes o que foi dito […]; porém, eu digo-vos», fazendo-nos compreender, com o uso desta locução, que fala com a autoridade de Deus. Em termos formais, Jesus usa a técnica de contraponto, e não quer que se desperdice nada do Antigo Testamento; quer antes enchê-lo (plêróô), levar quanto aí é dito, que é Palavra de Deus, ao seu ponto mais fundo e mais alto. Por exemplo, quando ouvimos o que foi dito: «Não matarás!» (Mateus 5,21), para cumprirmos este mandamento, não basta determo-nos no limiar do assassínio, como manda a letra, de acordo com uma leitura literalista e legalista da Palavra de Deus. É preciso ir mais fundo e mais alto: mondar todas as raízes da ira, do ciúme, da inveja, do ódio, desprezo e desamor, e encher todos os regos e cicatrizes de mais amor, mais amor, mais amor, só amor. Não se trata apenas de travar a fundo no último momento, evitando o acidente; trata-se de viver permanentemente a nova cultura do amor. Neste sentido, escreve S. João, com ponta fina de diamante, não na pedra ou no papiro ou no papel, mas no nosso coração meio embotado e engessado: «Quem não ama o seu irmão, é homicida» (1 João 3,15).

    4. «Não matarás!». Palavra fortíssima e de extrema mansidão, inscrita no Rosto ou viso nu do Outro, de qualquer outro, pobre e nu e senhor, pobre porque nu, e senhor porque pobre e nu, que de improviso te visita e te elege, e te ordena, de forma imperativa e não optativa [soa: «Não me matarás!», e não: «se quiseres, podes não me matar!»], entregando-te uma palavra que é um mandamento, que não te deixa em estado de decisão, que não se dirige, portanto, à tua liberdade de escolha, mas à tua responsabilidade, pois te manda responder a ele e por ele, pela sua vida, resposta que não podes adiar nem delegar. Na verdade, foi a ti que ele elegeu, é a ti que ele dirige o seu mandamento: «Não matarás!», obrigando-te, portanto, a responder, e não te dando a possibilidade de não responder. Reclama a tua responsabilidade: por muito que te custe compreender, trata-se de uma responsabilidade anterior à liberdade! Coisa simples, que só não compreendes se não quiseres. É o “bom dia” antes do cogito. Devemos estar atentos, porque o rosto pobre e nu do outro é o único soberano que existe. Pode estar em coma à beira da estrada, na soleira da tua porta, na cama de um hospital. Não tem nenhum poder (não te aponta uma arma, não tem dinheiro para te seduzir ou para te pagar…), e, todavia, obriga-te, sem te obrigar, a debruçares-te sobre ele. Quando dás por ti, estás debruçado sobre ele a prestar-lhe todos os cuidados. Vês, então, como ele é soberano? É o único que te pode libertar dos cadeados da tua Sinngebung (da tua capacidade de produção de sentido subjetivo). Os que têm espingardas e dinheiro, na verdade, pouco podem fazer por ti: apenas te podem escravizar! Não te podem libertar! São tiranos e prepotentes. Não são soberanos! Seguem as leis da natureza. Não sabem fazer milagres!

    5. E assim também o adultério, o divórcio, o perjúrio. Qualquer destes pontos representa o fim de um amor, que é sempre um acontecimento dramático. Veja-se atentamente, neste mundo cinzento e insípido, sem sol e sem sal, em que vivemos, o drama imenso que cada divórcio comporta. Digo-o em termos de sociedade e de humanidade. E o estranho é que, no meio deste nevoeiro de «compromissos enlatados» ou «relações de bolso», ainda haja gente perversa ou simplesmente imersa na piscina da banalidade a contar os divórcios com imensa volúpia, pensando de forma sarcástica e mordaz que é a Igreja Católica que está em perda e a afundar-se. Nem imaginam que o terreno também lhes está a fugir de debaixo dos pés! Mas, para encher de sentido o «porém, eu digo-vos» de Jesus sobre estes pontos precisos, também não basta viver uma vida cinzenta e mentirosa e evitar em cima da linha chegar ao adultério, ao divórcio ou ao perjúrio. É necessário encher a vida inteira de amor, de mais amor, só de amor. É preciso verificar tudo o que está antes da ação má que estamos para fazer. É fácil de ver que não basta, no limite, «cortar a mão direita» ou «arrancar o olho direito». Já se sabe que estas expressões não são para tomar à letra. Na verdade, não é o olho que peca, mas o homem. E mesmo que se arrancasse o olho, bem sabemos que ainda lá ficam a imaginação, a fantasia e a doentia vontade do homem.

    6. Para todas as situações de desentendimento, Jesus propõe, não apenas que se impeça que se chegue a fazer mal a alguém, mas que, por todos os meios e modos, primeiro, primeiro, primeiro (prôton), se chegue à «reconciliação» (diallássô). Jesus vê aqui um remédio ou um «sal» tão importante que, por causa dele, é lícito interromper o próprio culto a Deus (Mateus 5,24). A reconciliação aparece como uma condição indispensável para se poder prestar culto a Deus. E nem é preciso que saibas e sintas que és tu que tens alguma coisa contra o teu irmão. Basta que te recordes que «o teu irmão tem alguma coisa contra ti» (Mateus 5,23). Mesmo que penses que é o teu irmão que tem alguma coisa contra ti, não podes pensar que não é nada contigo. Tens de te pôr a caminho para sanar a situação. Já se sabe que este comportamento passa por cima dos códigos de boas maneiras. Mas o Evangelho requer de ti esta atitude, e não te deixa ficar tranquilamente à espera. Por aqui se vê que é requerido um paladar apurado e uma sensibilidade afinadíssima nas nossas relações fraternas para nos apercebermos quando alguma coisa não está bem. Não se fala sequer de haver culpas. O que aparece como decisivo e necessário é estarmos em fraternas relações com os irmãos, para nos podermos aproximar de Deus. Compreende-se a prioridade de Jesus neste relacionamento fraterno, pois, se este não estiver assegurado, como é que podemos ainda voltar-nos para Deus, Nosso Pai, e rezar em boa consciência a oração do «Pai Nosso», que está no centro do Sermão da Montanha, isto é, no coração dos ensinamentos de Jesus? Sim, é óbvio que, para rezarmos com verdade a Deus, a quem Jesus nos ensina a chamar, não apenas Pai, mas «Pai Nosso», precisamos mesmo de estar em fraterna sintonia com todos os nossos irmãos. Se assim não for, é claro que a nossa oração é mentirosa e o nosso culto vazio. Vê-se que é preciso pôr sal na vida, não deixar que o nosso coração se torne pesado e insípido, para que possamos permanecer no cimo da Montanha, e nos deixemos deslumbrar, como as multidões, com este novíssimo, em conteúdo e método, ensinamento de Jesus (Mateus 7,28-29).

    7. O belo Livro de Jesus Ben Sira, de que hoje recebemos a deliciosa lição de 15,16-21, lembra-nos que os mandamentos de Deus estão sempre cheios apenas de bondade. Serve essa fortíssima afirmação para nos advertir que a nenhum de nós foi dada licença para pecar, nem sequer para produzirmos coisas vãs e ocas, sem ponta de sal ou de sentido. Vale ainda saber que este livro delicioso, de tom edificante, terá sido escrito por Jesus Ben Sira em hebraico no primeiro quartel do século II a.C., aí por volta do ano 180, tendo sido depois lido e muito apreciado por um seu neto, no Egito, parece que no ano 132 a.C. Tanto o neto apreciou o texto do seu avô, que resolveu traduzi-lo para grego, para possibilitar que muitos outros o pudessem ler também com proveito. Bela também esta ligação entre as gerações. E é assim que hoje temos acesso a ele.

    8. S. Paulo fala-nos na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios (2,6-10) da Sabedoria de Deus. E lembra-nos que a Sabedoria de Deus não está à venda em nenhum mercado deste mundo, nem está na posse dos senhores deste mundo. E precisa ainda que a sabedoria dos senhores deste mundo, que é sempre a sabedoria orgulhosa e arrogante que nos pode fazer senhores do mundo, mas nos conduz sempre fatalmente para a ruína. A verdadeira sabedoria, a de Deus, é depositada no nosso coração pelo Espírito de Deus, dando-nos assim acesso, por graça, às insondáveis riquezas divinas que Deus, desde sempre, tem preparadas para nós. Em vez da ruína, fica aberta diante de nós uma maneira nova de viver e de morrer. Chama-se santidade, «medida alta» da vida cristã ordinária.

    9. À nossa frente estão sempre os caminhos do Senhor, que devemos calcorrear com alegria e felicidade recebida e dada, enquanto cantamos a imensa partitura do Salmo 119, admirável composição de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus que alumia a nossa vida. O grande pensador francês Blaise Pascal (1623-1662), de quem o Papa Francisco já anunciou querer abrir o processo de beatificação, recitava este Salmo todos os dias.

    António Couto


  • Se se enchessem os mares de tinta,

    se se transformassem em pena todos os fios de erva,

    se o mundo inteiro fosse um pergaminho,

    e cada homem um escriba de profissão,

    para descrever o amor de Deus e a sua sabedoria,

    não bastaria a tinta do oceano,

    nem o podia conter o pergaminho,

    mesmo que se estendesse de céu a céu.

    Os Santos irmãos Cirilo e Metódio,

    Padroeiros da Europa,

    cuja Festa celebraremos jubilosamente no próximo sábado,

    ousaram, em pleno século IX,

    viver, pregar e traduzir em língua eslava

    o espírito e a letra do Amor de Deus.

    Ousemos nós hoje também dizer Deus aos nossos irmãos.

    S. Cirilo e S. Metódio, rogai por nós!

    António Couto


  • Se o Senhor não construir a casa,

    em vão trabalham os que a constroem.

    Se o Senhor não guardar a cidade,

    em vão vigiam as sentinelas.

    Não se pode esconder uma cidade

    situada no cimo de um monte,

    ou sobre a linha do horizonte,

    porque alumia, alumia, alumia,

    irradia, irradia, irradia,

    de noite e de dia.

    Cidade de alto-a-baixo erguida,

    como um manto de orvalho caída,

    como uma ermida,

    uma jazida

    de luz

    e de Jesus.

    Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,

    lançai os fundamentos no céu,

    construí desde o cume,

    sobre o gume da Palavra

    que de Deus vem

    iluminar

    e salgar os nossos destemperados corações.

    António Couto


  • Isaías 58,7-10; Salmo 112; 1 Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16

    1. Entrámos no Domingo passado (IV do Tempo Comum) no Sermão da Montanha, e fomos logo felicitados por aquele encantatório rol de felicitações, em que por nove vezes se repetia a palavra FELIZES (makárioi), sendo as oito primeiras formuladas na terceira pessoa do plural, e a última, a nona, formulada na segunda pessoa do plural, que aqui recuperamos: «FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal por causa de mim (héneken emoû)» (Mateus 5,11). Não, não se trata de acentuar qualquer conduta moral, mas de acentuar a total adesão a Cristo, tudo pela causa de Cristo. Nas primeiras oito felicitações, é Deus que dá os parabéns aos pobres e desqualificados, aos últimos da sociedade, àqueles que não estão habituados a receber parabéns de ninguém, mas que não tiram os olhos de Deus nem deixam de para Ele levantar as mãos. O uso da terceira pessoa dá a estas felicitações uma forma generalizada, escolar e abstrata. Ao passar a formulação para a segunda pessoa do plural [«Felizes sois vós…»], é àquela audiência concreta, ali presente, que Jesus se dirige, vinculando-a a si [«por causa de mim»], mas expondo-a também face a um mundo adverso e perseguidor. Todavia, estes pobres, perseguidos pelos homens, são felicitados por Deus. O seu mundo não é esquizofrénico: não se separam de Deus, mas tão-pouco se separam do mundo que tudo faz para os ver separados.

    2. O Evangelho deste Domingo V do Tempo Comum (Mateus 5,13-16) continua a glosar as notas da nona Felicitação, e mantém acesa a clave do «Vós sois» [uns-com-os-outros e uns-para-os-outros, e não uns-sem-os-outros ou uns-contra-os-outros], sem qualquer cedência a esquizofrenias nem ao moderno individualismo ocidental, e, nos tempos que correm, praticamente mundial, em que se podem contar cerca de oito biliões de solidões alérgicas. Hoje começamos por estender o texto do Evangelho diante dos nossos olhos, para melhor lhe podermos captar a importância de que se reveste, mas também o sabor e a sabedoria, sem descurar a forma direta de que se reveste no seguimento do v. 11.

    «Vós sois (hymeîs este) o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que o salgaremos? Não serve para nada, senão para se deitar fora e ser calcado pelos homens. Vós sois (hymeîs este) a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus».

    3. Aquele «Vós sois» (hymeîs este) a abrir os vv. 13 e 14 dá ênfase ao «Felizes sois» (makárioí este) que introduz o v. 11, e ajuda-nos a identificar como SAL e LUZ aqueles que são perseguidos «por causa de Jesus», isto é, aqueles cuja vida está fundada sobre a presença e a atividade de Jesus. Aqui são luminosas as palavras de S. Paulo: «Ninguém pode pôr outro fundamento diferente do que já está posto, que é Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre o fundamento do ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um tornar-se-á manifesta» (1 Coríntios 3,11-13). Acabámos de ouvir acordes como estes: «Vós sois o SAL da terra» (Mateus 5,13); «Vós sois a LUZ do mundo» (Mateus 5,14). O SAL dá sabor. A LUZ alumia. O mundo inteiro por horizonte. É, portanto, necessário abrir os horizontes. O mundo é a nossa casa. Compreenda-se já que o SAL e a LUZ são belíssimas metáforas das OBRAS boas e saborosas que devemos fazer: «Assim brilhe a vossa LUZ diante dos homens, para que vejam as vossas BOAS OBRAS» (Mateus 5,16). Mas entenda-se também de imediato que «as nossas OBRAS BOAS» não são do domínio das nossas mãos (a LUZ escapa-nos das mãos), mas do domínio da Graça de Deus que, como em Maria, também em nós «faz grandes coisas» (Lucas 1,49). São mesmo as OBRAS que se devem ler no cone de luminosidade da LUZ e do SAL. De resto, é sabido que, quimicamente falando, o SAL não pode perder o seu sabor. Mas um homem sem OBRAS BOAS é insípido e inútil. O SAL só é inútil enquanto está retido no saleiro. E a LUZ enquanto está impedida de brilhar. E nós, quando nos blindamos dentro das portas e das janelas do nosso egoísmo e comodismo. É assim que nos tornamos insípidos e deixamos apagar a nossa luz. O verbo grego môraínô, que aparece no texto para dizer que o sal «se torna insípido» (v. 13), é usado mais habitualmente para dizer o homem que «se torna estúpido». Podemos estar perante um daqueles duplos sentidos que tantas vezes encontramos na expressão escrita. E pode bem ser disso que se trata, dado que, em hebraico e aramaico, o verbo tapel significa ao mesmo tempo «ser insípido» e «ser estúpido». E não faltam indicadores rabínicos a referir que, com a vinda do Messias, «a sabedoria dos escribas se há de tornar insípida». Que é o que as multidões dizem de Jesus no final do Sermão da Montanha: «ensina com autoridade, e não como os escribas» (Mateus 7,29).

    4. É ainda necessário dar um passo em frente, e entender bem que aquele plural «Vós sois» (hymeîs este) se reveste seguramente de significado comunitário, como é usual em Mateus, que nunca perde de vista a comunidade eclesial. Assim, sois vós, em comunidade, que sois a Luz do mundo, que sois o Sal da terra, e não cada um por si, isoladamente. O texto diz com clareza: «Vós sois a Luz do mundo», e não as luzes do mundo! As luzes são outra coisa bem diferente, e já se apagaram há muito tempo! As luzes tinham a ver com o homem orgulhoso, só, e sem Deus. A Luz é de outra proveniência. Nas páginas da Bíblia, não há Luz senão na relação com Deus e na sua dependência. Este belo dito pode ser uma alusão às lâmpadas que as mães de família acendiam em cada lar hebreu quando caía a noite, e simbolizavam os mandamentos de Deus (Provérbios 6,23) e, mais tarde, a própria alma humana (Provérbios 20,27). A lâmpada que a mãe de família acendia era para alumiar todos os que estavam na casa. No texto de Mateus é para alumiar toda a comunidade da família de Deus. E o sal, «o sal da aliança» (ála diathêkês kyríou) (Levítico 2,13), está lá também para dar o autêntico sabor da aliança a «toda a oferta» (pân dôron) feita pela comunidade a Deus (Êxodo 30,35; Levítico 2,13), e a todo o recém-nascido a nós dado por Deus e por nós a Deus oferecido (Ezequiel 16,4). Assim, o Sal deve andar sempre em nós (Marcos 9,50), e com ele devemos temperar tudo o que fazemos e dizemos (cf. Colossenses 4,6).

    5. Bem se vê que o SAL e a LUZ são metáforas que mostram a comunidade reunida com Jesus na Montanha e as BOAS OBRAS que deve realizar. Finalidade: para que seja glorificado «o vosso Pai que está nos Céus». Entenda-se: glorificar Deus é reconhecê-lo como o único Deus verdadeiro. Ao contrário da mentalidade moderna, a mentalidade judaica ignora qualquer conhecimento de Deus prévio à sua glorificação. Conhece-se Deus, glorificando-o. A expressão «o vosso Pai que está nos Céus» é usada por Mateus apenas no Sermão da Montanha. Assim, percebemos melhor que estamos em casa, e que temos de aprender a ser filhos e irmãos.

    6. O Livro do Deuteronómio atira-se contra a nossa tranquila indiferença: «Se houver no meio de ti qualquer irmão necessitado, não endureças o teu coração e não feches a tua mão» (Deuteronómio 15,7). Precisamos, hoje mais do que nunca, de viver ao estilo de Jesus, Bom Pastor, e ao estilo do Bom Samaritano, com «um coração que vê», para usar a expressão feliz de Bento XVI (Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n.º 31).

    7. É assim que Isaías 58,10 nos desafia literalmente (aí está o sabor das traduções literais!) a «oferecer ao faminto a tua alma (nefesh),/ e saciar a alma (nefesh) do oprimido». Trata-se de muito mais do que uma simples ajuda material. É um abraço entre duas almas, entre duas vidas, entre dois intensos desejos de viver, entre dois alentos de vida! Portanto, com o Deus criador e providente sempre por perto.

    8. Só entende esta intensidade quem sabe que a sua LUZ é reflexa, porque a recebe de Deus. É assim, com «um coração que vê» à flor da pele ou da alma, que S. Paulo não se apresenta no meio de nós ou da comunidade de Corinto com fortes argumentos da sabedoria humana, conforme a sua lição de hoje (1 Coríntios 2,1-5). Ele quer que nós compreendamos bem que a nossa fé assenta em Cristo e no seu poder, e não em qualquer humano raciocínio e respetiva força. «A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Coríntios 1,25). E «quando eu sou fraco, então é que eu sou forte» (2 Coríntios 12,10). Portanto, Paulo não se apresentou em Corinto cheio de si, mas cheio de Deus. Não se anunciou (kêrýssô) a si mesmo, mas a Cristo Jesus (2 Coríntios 4,5). Sim, é a Luz que devemos saber levar em vasos de barro, para que se veja bem que esse tesouro e esse poder (dýnamis) vêm de Deus, e não de nós (2 Coríntios 4,7). É o poder (dýnamis) de Deus que move Paulo (1 Coríntios 2,5), e que nos deve mover também a nós.

    9. Com tanto Sal na mão e tanta Luz a alumiar o coração, o nosso tempo é sempre tempo dado para nos questionarmos de verdade, pondo em causa os nossos egoísmos e as nossas portas fechadas à graça de Deus e aos irmãos que Ele nos deu. Com base no sentido do SAL e da LUZ, pode abrir-se diante de nós um tempo de verificação: cheio de mim ou cheio de Ti? Estou no centro das atenções ou sei orientar todos os olhares para Ti? Conheço-Te e celebro-Te e dou testemunho da Tua Ressurreição? Os meus atos anunciam a tua Vinda, isto é, revelam e desvelam a tua presença permanente? Ou será que o meu olhar é mau porque Tu és Bom? (Mateus 20,15; cf. Ben Sira 14,9-10). Por que é que eu tenho tão poucos (ou nenhuns) encontros CONTIGO marcados na minha agenda? O que faço eu com o relógio e o telemóvel na mão o dia inteiro? Por que corro tanto e para onde corro tanto? Debruço-me com amor, e com tempo, sobre os meus irmãos abandonados à beira do caminho ou postos ali mesmo à entrada da minha porta? A minha casa está construída sobre a rocha ou sobre a areia? E a LUZ alumia ou está apagada? E o SAL dá sabor à minha vida e à vida dos outros?

    10. O Salmo 112 é irmão gémeo do Salmo 111. Neste é Deus o sujeito. Naquele o homem justo, «imitador de Deus». O Salmo de hoje conta apenas 77 palavras divididas por dez versículos, em nove dos quais se desenha o homem justo, de coração e mãos largas para dar com abundância. Ao ímpio é reservado apenas um versículo, e é retratado só para ver o sucesso do justo e para se roer de raiva e de inveja até se atolar na ruína. O justo é uma casa iluminada. O ímpio desaparece nas trevas.

    António Couto


  • Hoje é Dia de Santa Águeda, Virgem e Mártir.

    Ainda muito jovem, deu a sua vida por Cristo

    em meados do século III, durante a perseguição de Décio.

    Diz-nos o Evangelho de São João

    que, após a crucifixão de Jesus,

    quatro soldados dividiram entre si as coisas de Jesus.

    Mas não dividiram a túnica,

    porque era tecida de Alto-a-baixo como um todo.

    Quem costura assim senão as mãos de Deus,

    aquelas mãos que com terra e saliva fazem lodo,

    que cura a nossa vista e o nosso corpo todo,

    as mesmas mãos que, com ternura,

    no cenário da criação,

    do pó da terra modelaram o nosso humano coração!

    São João diz-nos ainda que, depois dos quatro soldados,

    anónimos e atentos só às coisas,

    vieram quatro mulheres que se abraçaram à Cruz de Jesus,

    que se abraçaram a Jesus.

    Das mulheres diz-nos São João quem são:

    a sua Mãe,/ a irmã de sua mãe,/ Maria de Cléofas/ e Maria Madalena.

    Juntemos nós hoje uma quinta mulher,

    a Senhora deste dia 5 de fevereiro,

    Santa Águeda.

    Santa Águeda, Virgem e Mártir,

    padroeira dos seios e das intempéries,

    roga por nós ao Senhor das Misericórdias.

    António Couto


  • Toda a vida consagrada

    é uma vida com dedicatória

    obrigatória

    ao autor de cada madrugada

    perfumada,

    Senhor de mim

    e do meu sim.

    Desde sempre pensado e amado,

    é-me dado um segmento de tempo

    para responder ao Amor,

    e a eternidade inteira

    para viver à tua beira,

    à tua maneira.

    Ó mar imenso do Amor,

    a que eu chamo Senhor,

    obrigado por olhares por mim e para mim,

    tão humano e pequenino,

    e por me dares por destino

    o teu coração divino.

    Que eu seja, então, mais e mais Amor em cada dia,

    sempre ao teu dispor,

    Senhor da minha alegria.

    António Couto


  • Malaquias 3,1-4; Salmo 24; Hebreus 2,14-18; Lucas 2,22-40

    1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana. Também connosco.

    2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus e a Deus deve ser consagrado, conforme se diz no Livro do Êxodo: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu» (Êxodo 13,2). Mas ver também o belo cesto de razões apresentado em Êxodo 13,11-16. E acrescente-se que também os primeiros frutos dos campos serão consagrados ao Senhor (Deuteronómio 26,1-10).

    3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

    4. O Evangelho a escutar, amar e admirar é Lucas 2,22-40. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com extremosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem sequer a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, passe o paradoxo, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, o nunc dimittis, um dos mais belos cantos que a Bíblia regista: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

    5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa» (prophêtis), isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.

    6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), nesta sociedade sem Deus, os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho de Deus no mundo, e deste Dom maravilhoso de uma vida a Ele consagrada.

    7. Por isso e para isso é que Ele vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro. Hebreus 2,17 é o primeiro texto em absoluto do Novo Testamento a atribuir a Jesus o título de sumo sacerdote. Novidade nova em contraponto e contracorrente com quanto vem antes. Foi preciso alisar o caminho, aplaná-lo, para ser possível assegurar este título a Jesus. Os sumo sacerdotes do AT e do judaísmo estariam, porventura, perto de Deus (a tanto os obrigavam as normas legais e rituais), mas estavam bem distantes dos homens, seus irmãos. Portanto, o título não se ajustava a Jesus.

    8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a subir e a descer a escadaria do coração.

    9. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No último andamento deste Salmo (vv. 7-10), justamente a parte Hoje cantada, as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro, é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo, é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro, é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

    António Couto


  • Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

    na companhia dos pobres, dos famintos, deserdados,

    pacificadores, misericordiosos, descartados,

    e proclamou-os felizes, bem-aventurados,

    pioneiros de um mundo novo,

    que abrem caminhos puros e seguros,

    sem muros nem escuros nem arames farpados.

    Na verdade, Jesus distribui diplomas de alegria,

    não a quem acaba de cortar a meta com sucesso,

    mas àqueles que se preparam para partir,

    e descobrir caminhos nunca andados,

    novos e belos, limpos, aplanados, sem tropeço.

    Os pobres sabem quebrar o gelo e o gesso,

    sabem onde nasce a esperança,

    a bem-aventurança,

    e são os melhores professores

    das mais belas melodias que conheço.

    Obrigado, Senhor, por teres felicitado os pobres,

    e por me teres ensinado

    que para o vinho que tu serves

    são mesmo precisos odres novos.

    António Couto


  • Sofonias 2,3; 3,12-13; Salmol 146; 1 Coríntios 1,26-31; Mateus 5,1-12a

    1. Vimos no Evangelho do Domingo passado (Mateus 4,12-23), Domingo III do Tempo Comum que, tendo partido do Sul para o Norte da terra de Israel, Jesus alumia logo com a sua presença e pregação a sombria região da morte, que é como aparece descrita a região da Galileia. E aí, no coração de Neftali, que é Cafarnaum, passando junto do mar, imperativamente Jesus ordena a quatro pescadores de peixes que o sigam, com a indicação de vir a fazer deles pescadores de homens. Entendendo ou não o significado das palavras de Jesus, aqueles pescadores de peixes largaram logo tudo e imediatamente o seguiram. O texto fechava com a anotação de que Jesus percorria toda a Galileia ensinando, pregando e curando (v. 23). Nos dois versículos seguintes (vv. 24-25), que fecham Mateus 4, e que não foram objeto da nossa atenção no Domingo passado por não fazerem parte do Evangelho então proclamado, dizia-se que a sua fama se espalhou por toda a Síria (v. 24), e finalmente que «o seguiam multidões numerosas (óchloi polloí) vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia» (v. 25). Com esta maneira de reunir à sua volta multidões oriundas de toda a parte, e pregando, ensinando e curando, Jesus ilustra bem a natureza da pesca de homens para a qual tinha chamado aqueles simples pescadores de peixes.

    2. Entramos agora na lição do Evangelho do Domingo IV do Tempo Comum, em que continuamos a seguir (seguimento imediato do Domingo passado) o Evangelho de Mateus (5,1-12a). Já sabemos que esta perícope de Mateus é conhecida por «BEM-AVENTURANÇAS», que abre o chamado «Discurso da MONTANHA», que preenche o terreno literário de Mateus 5-7. É o primeiro de cinco grandes Discursos proferidos por Jesus, que constituem a espinha dorsal do Evangelho de Mateus, e que aqui explicitamos para uma melhor compreensão do leitor: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão ou marcador: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

    3. Voltando atrás e fazendo as contas, no final de Mateus 4, seguem Jesus quatro pescadores, e também as multidões assinaladas na cena anterior. O texto que se segue imediatamente (Mateus 5,1-2), que introduz o Discurso programático de Jesus na Montanha, diz assim:

    «Vendo então as multidões (óchloí) subiu à montanha, e tendo-se sentado, vieram ter com Ele os seus discípulos (hoi mathêtaí autoû). Abrindo então a sua boca, ensinava-os (edídasken autoús), dizendo».

    Não espanta que Jesus veja as multidões, pois já foi dito que o seguiam desde o último versículo do Capítulo anterior (4,25). Deve admirar-nos mais a presença dos discípulos, pois até é a primeira vez que Mateus emprega este nome no seu Evangelho. Na cena anterior (4,18-22), Jesus chamou quatro pescadores de peixes, a quem indicou uma nova missão, mas não lhes foi aplicada a qualificação de discípulos. E a próxima vez em que o nome aparecer, estaremos já em Mateus 10,1, falando-se aí de «os seus doze discípulos», de quem se indicam os nomes (10,2-4). E o certo é que, entre os doze, estão lá os nomes dos quatro pescadores, e também o nome de Mateus, entretanto chamado por Jesus em Mateus 9,9, sem que receba aí a qualificação de discípulo. Mesmo sem sabermos como se passou de quatro para doze, e dada a presença do nome discípulos em 5,1 e 10,1, é de supor que em 5,1, com o nome discípulos, se tenha em vista os doze discípulos, até pela importância do ensinamento que Jesus vai fazer na Montanha, e que se destina em primeiro lugar aos seus discípulos, pois é dito que vieram ter com Ele, e que os ensinava (edídasken autoús), estando o pronome claramente em vez do nome discípulos, e o verbo no imperfeito, que implica duração, ensino continuado. Os discípulos formam, portanto, o primeiro círculo do ensinamento de Jesus. A anotação da presença das multidões (óchloi) é importante. E é também a elas, como que num segundo círculo, que se dirige o ensinamento de Jesus. De tal modo que, no final do inteiro Discurso da MONTANHA, em 7,28-29, é-nos mesmo dada a conhecer a reação das multidões que «estavam maravilhadas pelo seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os seus escribas». Não convém perdermos já as multidões de vista, pois é dito numa passagem idêntica, em 9,36, que «vendo as multidões (óchloi), sentiu compaixão (esplagchnístê) delas», que soa ao contrário de 8,18, em que se lê: «vendo uma multidão (óchlos), ordenou que partissem para a outra margem». «Vendo uma multidão» motiva separação. «Vendo as multidões» motiva compaixão por elas. É seguramente o caso das multidões que seguem Jesus desde 4,25, e que estão agora, em 5,1, debaixo da vista dele a escutar os seus ensinamentos. É também Jesus a ensinar os seus discípulos como pescar homens.

    4. Está a acontecer o Evangelho. Jesus as multidões, sobe à montanha, os seus discípulos dirigem-se para Ele, Ele senta-se, abre a sua boca, e ensina demoradamente. Tudo expressões que indicam a postura de Mestre Judaico, e também a solenidade deste início do ensinamento público de Jesus. Seja qual for a Montanha, ela aparece determinada com artigo definido (tò óros), o que deixa entender que se trata de uma Montanha concreta e conhecida (a tradição indica o monte Tabor), o que interessa é verificar a altura, a qualidade, a tonalidade e a intensidade que há que colocar no desempenho deste novo ministério de pescar homens. É dessa altitude, dessa MONTANHA, que Jesus diz a rapsódia mais bela e encantatória e revolucionária das «FELICITAÇÕES» ou «BEM-AVENTURANÇAS». É verdade. Há certas maravilhas que só se podem dizer nas alturas e compreender nas alturas, perto do céu, como que à altura e velocidade de cruzeiro. Destas FELICITAÇÕES envolve-nos, de facto, a sua cadência encantatória ainda antes dos seus conteúdos. Para entrar no coração destas fragrâncias, é preciso levantar o coração (sursum corda), e ir com os pássaros que Deus alimenta em pleno voo.

    5. É por nove vezes que se ouve a palavra FELIZES (makárioi). Felizes, felizes, felizes, declaração por nove vezes ouvida, aí está a tonalidade encantatória destas felicitações! Sintomático é que estas Felicitações não se destinem aos triunfadores, aos ricos e aos bem-sucedidos, mas aos pobres (1), aos aflitos (2), aos mansos (3), aos que clamam por justiça (4), aos misericordiosos (5), aos puros de coração (6), aos fazedores da paz (7), aos perseguidos (8) e aos amaldiçoados por causa de seguirem Jesus (9). À primeira vista, parece que Jesus está a ler o mundo ao contrário. Mas não. Trata-se de uma retórica estupenda para nos fazer ver que somos nós que andamos virados do avesso! Nós, quem? Nós, os importantes, os ricos, os poderosos, os senhores do mundo! Sendo nove as Felicitações, reparar-se-á que no centro (n.º 5) está a MISERICÓRDIA. Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS: aos misericordiosos (eleêmones), será feita misericórdia (eleêthêsontai) (Mateus 5,7). Entenda-se: aos que fazem misericórdia, será feita misericórdia por Deus! De notar ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «FELIZES» ou «BEM-AVENTURADOS» se diz ’ashrê, termo que qualifica, não os beatos e os tranquilos, mas os pioneiros, aqueles que lutam e abrem caminhos novos e bons e belos e de vida nova e boa e bela para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Ao longo da história, foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos e belos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente, anestesiado e medicado, e tantas vezes violento, em que vivemos. Quanto lodo é preciso retirar do coração humano! Ou, dito de outra maneira, quanta pedra é preciso partir, pois são muitos os corações de pedra, para usar a metáfora de Ezequiel 36,26.

    6. Os pobres no espírito (ptôchoì tô pneúmati), dativo de relação, aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência nem simplesmente de bens económicos, mas são pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é baixa de rûah (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23) ou abatida de rûah (dake՚ê-rûah) (Salmo 34,19; Is 57,15), isto é, sem espaço físico, económico, social, cultural ou psicológico. Não são pobres por fora. São pobres por dentro. Não precisam de se afirmar. Sentem-se os últimos da sociedade. Todavia, na sua humildade e pobreza interior (daí o dativo de relação: no espírito), desafiam a sociedade, pois os ptochoí tô pneúmati ou tapeinoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, arrogante, e estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação, comodidade e arrogância. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Apouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O Povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados entre paredes douradas, num círculo restrito de amigos, mas somos nós todos unidos e reunidos numa imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie. Não são os que vivem em paz, mas os que fazem a paz (v. 9). Habitam debaixo do teto da casa de Deus, abertos a Deus, de quem sabem e sentem que recebem tudo. Não sabem o que é a autossuficiência ou a auto referencialidade. Só sabem o que é a auto insuficiência.

    7. A profecia de Sofonias [= YHWH protege] (2,3; 3,12-13) faz ressonância desta nova e bela maneira de viver, trazendo para primeiro plano os pobres e humildes, que não cometem iniquidade nem andam no caminho da injustiça e da mentira, aqueles que dão lugar a Deus, que estão abertos à ação de Deus, que tudo recebem de Deus, e em Deus encontram refúgio, sossego e felicidade, entrando assim na rota de cruzeiro das FELICITAÇÕES!

    8. E São Paulo, na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios (1,26-31), faz-nos voltar completamente para Deus, para sabermos quem somos: «Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que fostes chamados por Deus» (1 Coríntios 1,26). Se não ouvirmos Deus a chamar por nós, se não ouvirmos Deus a dizer o nosso nome, isto é, a criar-nos e a cuidar de nós, se não formos filhos e irmãos, é certo que não sabemos quem somos, não sabemos qual é a nossa identidade!

    9. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

    António Couto


  • 1. Com a Carta Apostólica Aperuit IllisAbriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras» (Lc 24,45)], sob a forma de Motu próprio, datada de 30 de setembro de 2019, memória litúrgica de São Jerónimo, e abertura da celebração do 1600.º aniversário da sua morte (30 de setembro do ano 420), O Papa Francisco instituiu o Domingo da Palavra de Deus, a celebrar anualmente no Domingo III do Tempo Comum.

    2. Oportunidade para toda a Igreja se debruçar com veneração sobre a Palavra de Deus, que deve escutar com amor e diligência, e da mesma maneira viver e anunciar, dado que a Palavra de Deus constitui para o cristão alimento indispensável. S. Jerónimo dedicou-lhe toda a sua vida e atenção. Aqui deixo, pois, um extrato significativo dos seus Comentários ao Salmo 147, que pode ser para nós inspirador, hoje e em qualquer tempo. É claro que veneramos a Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Cristo. Mas adverte-nos S. Jerónimo que igual veneração nos deve merecer a Escritura Santa, que é também Corpo e Sangue de Cristo. Prestemos-lhe atenção:

    3. «Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as Santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e beber o meu sangue” (João 6,53), embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?».

    António Couto


  • Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,

    caminha pelas nossas estradas,

    percorre as nossas praias,

    visita as nossas casas,

    vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

    Jesus é Deus que passa, ama e chama.

    Mas não nos chama a responder a um inquérito,

    a preencher uma ficha,

    responder a uma entrevista,

    fazer uma inscrição,

    pagar a matrícula,

    aprender uma doutrina.

    Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.

    Nem sequer nos entrega um projeto de vida,

    uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.

    Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:

    «Vinde atrás de Mim!», é o desafio,

    e partilha logo ali connosco a sua vida toda,

    como uma dança de roda,

    como uma boda.

    Não nos põe primeiro a fazer um teste,

    não nos ama nem chama à condição,

    não tem lista de espera,

    não nos põe num estágio,

    num estado,

    num estrado,

    numa estante,

    mas num caminho!

    E um dia mais tarde,

    ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!»,

    novo e imenso desafio.

    É sempre no caminho que nos deixa,

    mas não nos deixa sós,

    vai sempre connosco,

    acompanha-nos,

    não apresenta queixa,

    não paga ao fim do mês,

    não paga a prestações,

    não paga,

    pede e dá tudo de uma vez.

    Vem, Senhor Jesus!

    Vem e ama!

    Vem e chama por mim outra vez!

    António Couto


  • Isaías 8,23-9,3; Salmo 27; 1 Coríntios 1,10-13.17; Mateus 4,12-23

    1. Domingo III do Tempo Comum. Cruzamento e entrelaçamento de textos num facho de intensa luz, vinda de fora, como a aurora. É assim que o Evangelho de Mateus 4,15-16 recolhe Isaías 8,23-9,1. O profeta tinha diante dos olhos uma luz grande que havia de brilhar naquela Galileia devastada. Ventos de morte tinham varrido a Galileia nos anos 733-732 a.C., quando o imperador assírio Tiglat-Falasar III, na sua expansão para ocidente, e no seguimento da guerra siro-efraimita, invadiu e reduziu estes territórios da Galileia a três províncias assírias: Galaad, Meguido e Dor, levando para o exílio muitos dos seus habitantes judeus e transferindo para ali povos pagãos de outros credos, raças e culturas, para impedir que um Israel com identidade própria e religiosidade judaica pudesse ainda vingar e prosperar naquela região. Era assim que a Assíria tratava os seus vassalos rebeldes: matava-lhes o corpo e a alma. Mateus, que bem conhecia a realidade da Galileia, e que também seguiu os caminhos de Jesus, gravou no seu Evangelho que essa luz que Isaías vislumbrou é Jesus que, com a sua presença e pregação, alumia agora a sombria região da Galileia.

    2. O Evangelho de hoje (Mateus 4,12-23) refere com precisão que, «quando Jesus soube que João Batista tinha sido preso, retirou-se (anechôrêsen) para a Galileia» (Mateus 4,12), e, «desde então, começou a pregar» (Mateus 4,17a). Uma prolepse e uma surpresa, podemos dizer mesmo um escândalo. A prolepse: ao anotar a prisão de João Batista, o narrador está a registar um facto histórico, mas, mais do que isso, está já a desvendar aquilo que um dia acontecerá também a Jesus. E já se começa a notar, pois é dito que Jesus, ao ter conhecimento da prisão de João Batista, se retirou para a Galileia. O uso do verbo grego anachôréô [= retirar-se] indica geralmente em Mateus a fuga de um lugar que se revelava perigoso e hostil para outro mais tranquilo (cf. Mateus 2,12.13.14; 4,12; 12,15; 14,13; 15,21). De resto, em caso de perseguição, Jesus aconselha os seus discípulos a fugirem para outra cidade (Mateus 10,23), ainda que neste texto use um verbo diferente. A surpresa e o escândalo: era do sentir comum que o anúncio messiânico fosse feito no coração do judaísmo, em Jerusalém e na Judeia, e não numa região periférica, desprezada e contaminada pelo paganismo, como era esta «Galileia dos pagãos» (Mateus 4,15). Curiosamente, Jesus tinha vindo de Norte para Sul, da Galileia para a Judeia, ao encontro de João Batista, para ser por ele batizado (Mateus 3,13), e ei-lo que faz agora a viagem ao contrário, de Sul para Norte, da Judeia para a Galileia (Mateus 4,12), e é aí, em Cafarnaum, que começa a pregar o Evangelho (Mateus 4,17). Regresso forçado, como vimos, pelos acontecimentos hostis verificados no Sul, e que levaram à prisão de João Batista. É para justificar e iluminar este estranho e inesperado começo, que Mateus se vê como que obrigado a citar por inteiro a passagem apropriada de Isaías 8,23-9,1, que põe o povo humilhado da tribo de Zabulon, de que fazia parte Nazaré, e da tribo de Neftali, de que fazia parte Cafarnaum, a ser visitado por uma grande Luz, que rasgava a noite e a morte semeadas pela guerra e o desprezo (Mateus 4,13-16).

    3. Esta Luz é Jesus. Luz de Jesus que vem iluminar a noite da Galileia. Voz de Jesus a romper aquele espesso manto de silêncio: «Convertei-vos, porque se fez próximo (êggiken) o Reino dos Céus!» (Mateus 4,17b). É assim, com estas palavras, que Jesus começa a pregar na Galileia. É fácil verificar que são exatamente as mesmas palavras com que João Batista abria a sua pregação no Sul: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2). Conversão, isto é, mudança de mentalidade (metanoéô LXX), mas sobretudo de caminho e de direção [voltar-me, não para mim mesmo, mas para o Deus pessoal da aliança] (shûb TM), e responder à sua Palavra sempre primeira. A exigência da conversão é motivada pela proximidade e continuidade do Reino de Deus entre nós. O uso do verbo grego eggízô no perfeito [êggiken = fez-se próximo] ensina-nos que o Reino de Deus não está apenas perto ou próximo de nós ou a caminho, que está para chegar, mas que já veio para ficar sempre próximo de nós, no meio de nós. Não está em vias de acontecer num futuro mais ou menos próximo, mas está agora a acontecer. É agora (cf. Mateus 26,45-46). Esplêndida Luz, esplêndida Voz, esplêndido Amor de Deus, esplêndida surpresa divina! Ainda antes de nos interpelar a que nos interessemos por Deus, a Bíblia mostra que é Deus que se interessa primeiro por nós, tomando a iniciativa de percorrer as nossas estradas poeirentas para nos vir visitar a nossas casas! E não apenas visitar, mas ficar connosco! É esta a maravilha desconcertante do Evangelho! Evangelho no duplo sentido: objetivo e subjetivo. O Evangelho é Jesus, a pessoa de Jesus (sentido objetivo). O Evangelho é a ação de evangelização desencadeada por Jesus (sentido subjetivo). Jesus é, portanto, o Evangelho e o Evangelizador.

    4. É o que constatamos no velho texto de Mateus e nas nossas estradas de hoje. Verificação: Jesus caminha ao longo das praias do Mar da Galileia, e vê dois irmãos, Simão e André, ocupados nas lides da pesca, e diz-lhes: «Vinde atrás de mim (deûte opísô mou)» (Mateus 4,19). Bem vistas as condições de trabalho em que os dois estavam envolvidos, e a importância da pesca no mundo pobre da Galileia, a ordem de Jesus parece completamente disruptiva. Mas a resposta dos dois é excessiva, imediata e radical: «Deixaram logo (euthéôs) as redes, e seguiram-no!» (Mateus 4,20). Note-se, no entanto, que aquele «Vinde atrás de mim» não é um convite; é uma exigência. E não se trata tanto do dizer de um Mestre, mas de um Profeta, ao jeito do chamamento de Elias a Eliseu (cf. 1 Reis 19,19-21). É normal os discípulos seguirem o Mestre, «atrás do Mestre», mas já não é usual ser o Mestre a chamá-los; são os discípulos que devem procurar um Mestre. Por outro lado, ainda, a atividade própria do Mestre é ensinar, mas no caso deste chamamento, Jesus parece ter em vista uma estranha atividade de pesca: «farei de vós pescadores de homens». Compreende-se a metáfora da pesca no seguimento da ocupação acabada de descrever daqueles dois chamados, mas fica em aberto a natureza da nova pesca acenada por Jesus: de quê e para quê pescar pessoas? Jeremias 16,16 põe Deus a falar e a dizer: «Enviarei muitos pescadores para a pesca, e pescá-los-ão».

    5. É a mesma metáfora da pesca, mas trata-se aqui de reunir os pecadores para o julgamento. É aqui que encaixa a pesca proposta por Jesus face à Vinda do Reino de Deus. Daí também a exigência da conversão ordenada por Jesus. E a força daquele chamamento feito por Jesus àqueles pescadores. Lendo outra vez as palavras de Jesus, percebemos que não se trata de convidar, mas de exigir, método de Profeta, e não de Mestre. E falar de «pescadores para pescar homens» é também linguagem profética e tem em vista o julgamento de Deus. E andando um pouco mais, viu outros dois irmãos, Tiago e João, que, com o pai, Zebedeu, remendavam (katartízontas) as redes na barca. Também os chamou. E também eles deixaram logo (euthéôs) a barca e o pai, e seguiram-no (Mt 4,21-22). Porquê este chamamento disruptivo e a resposta radical destes pescadores? A resposta reside na urgência criada pela proximidade do Reino de Deus, a que nada se deve antepor. Nada é primeiro em relação ao Reino de Deus: nem sepultar o próprio pai ou despedir-se dos familiares (Lucas 9,59-61). «Quem lança as mãos ao arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus» (Lucas 9,62). E o Reino de Deus não tem fronteiras, nem bandeiras, nem moeda própria. Não está aqui ou ali. Não é deste mundo. O Reino de Deus é o próprio Jesus Cristo com o Espírito Santo. Ele é o Reino em pessoa (hê autobasileía), conforme o belo dizer de Orígenes. É, então, face a Ele que nos devemos converter. É a voz dele que temos de ouvir. É o seu caminho que temos de seguir. O Reino de Deus, Jesus, põe-nos em cheque e em causa. Daí a urgência da conversão, daquele chamamento e daquela resposta.

    6. É então urgente compreender que Jesus, que é o Reino de Deus em pessoa, desce ao nosso mundo, caminha pelas nossas estradas e vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho. E é aí que nos chama e nos põe em estado de urgência e de conversão. Não espera por nós apenas no cenário sagrado das nossas Igrejas! Não nos obriga a fazer uma inscrição, a preencher uma ficha, a aprender uma doutrina, nem sequer nos entrega um projeto de vida, um guião, uma regra, não pede a nossa opinião. Não nos convida a segui-lo, mas exige que o sigamos, não para nos ensinar, mas para nos enviar como pescadores de homens para o julgamento decisivo do Reino de Deus. A sua voz é mais de Profeta do que de Mestre. Tudo o que Jesus diz e faz é exigente, decisivo e urgente. É face a Ele que devemos saber queimar a nossa palha. É a isso que se chama pôr a nossa vida em estado urgente, mas permanente, de conversão. Jesus não nos põe a fazer uma espécie de estágio, para que um dia nos tornemos Mestres. Já sabemos que permaneceremos sempre irmãos, e um só é o nosso Mestre (cf. Mateus 23,8). Não nos coloca num estágio, num estado, num estrado, numa estante, mas num caminho! E um dia mais tarde, ouvi-lo-emos ainda dizer: «Ide!» (Mateus 28,19). É sempre no caminho que nos deixa. Mas sempre atrás d’Ele.

    7. A toada do Evangelho de hoje, com Jesus a chamar por nós, pode levar-nos a casa de Carl Gustav Jung (1875-1961), um dos pais da psicanálise. Carl Jung mandou esculpir sobre a porta da sua casa, em Küsnacht, na Suíça, esta frase: «Chamado ou não chamado, Deus estará sempre presente. Nunca se vai embora. Fica sempre por perto, à espera de nos abraçar».

    8. Mas voltemos a Isaías 8,23-9,3, hoje, como já vimos, entrançado com o sublime Evangelho de Mateus 4,12-23. Visita de Deus. Luz grande para os abandonados. É a passagem das nossas trevas para a luz refulgente que vem de Deus. É o habitual link editorial dos profetas que sabem sobrepor ou justapor a promessa de redenção com o desastre, mostrando que dentro do desastre já germina a esperança, das entranhas das trevas já começa a despontar a luz, nova criação, milagre sem explicação. Deus em ação. As trevas podem surgir quando falta a luz; mas em caso algum podem produzir luz. Vê-se ainda a vida a borbotar das feridas infligidas pelas espadas. Alegria a desenhar a estação das ceifas. As nossas mãos em concha a recolher os dias dados. Deus primeiro e antes. Deus basta. O dia de Madiã é o dia em que Gedeão enfrenta e desbarata as tropas de Madiã com trezentos homens que sabem que a água é um dom de Deus (cf. Juízes 7). E estiveram lá junto da fonte mais trinta e um mil e setecentos candidatos que apenas exibiam a própria força e que pensavam que estavam ali por mero acaso! Estavam a mais. Foram naturalmente mandados embora. Como já tinham sido outros dez mil antes deles.

    9. Continuamos a saborear a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, servida hoje no extrato entrecortado de 1,10-13.17. Sem cedências de qualquer espécie, Paulo aponta à comunidade cristã de Corinto as divisões e rixas que nela se instalaram, e os grupinhos de pertença em que as pessoas se agrupam e reveem. E Paulo propõe aos Coríntios e a nós que, em vez de nos ocuparmos com divisões ou cismas (schísmata), nos tornemos «remendadores» (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (1,10), que é sintomaticamente o mesmo verbo em que se ocupavam os discípulos hoje chamados, que estavam a remendar (katartízontas: part. presente de katartízô) as redes (Mateus 4,21). Aí está um novo e belo ministério: «remendadores» da comunidade, isto é, fazedores de pontes, estradas, braços e abraços, para que as pessoas, em vez de se separarem e dividirem, se unam e reúnam. E porque circulava também em Corinto uma certa conceção de batismo que criava especiais laços de pertença do batizando em relação a quem o batiza, Paulo adianta bem que a sua missão não é batizar, mas evangelizar!

    10. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar atento e carinhoso de Deus.

    11. Este Domingo é também, por vontade do Papa Francisco, o Domingo da Palavra de Deus. O Domingo da Palavra de Deus foi instituído pela Carta Apostólica sob a forma de motu proprio Aperuit illis, de 30 de setembro de 2019, e começou a celebrar-se desde 2020 no Domingo III do Tempo Comum. Portanto, deixemo-nos invadir performativamente, e não apenas informativamente, pela torrente da Palavra de Deus. E deixemos que a Palavra de Deus rasgue em nós novas avenidas férteis e floridas, onde despontem novos e adequados comportamentos.

    António Couto


  • 1. Neste dia dedicado a São Sebastião, Padroeiro principal da nossa Diocese de Lamego, quero saudar todos os filhos da nossa Diocese, espalhados por todas as paróquias, por todos os recantos de Portugal e também em países de imigração, sobretudo os mais fragilizados, os doentes, os reclusos, os que perderam Deus e a esperança. A todos entrego à solícita proteção de São Sebastião que, ao longo dos séculos, tem sempre sabido defender quem dele implora pronto-socorro em situações difíceis de fome, de peste e de guerra. Quero saudar de modo particular o Sr. D. Jacinto, meu irmão no Episcopado, que hoje celebra o 30.º aniversário da sua Ordenação Episcopal, que teve lugar nesta Catedral no dia 20 de janeiro de 1996.

    2. Portanto, a nossa Igreja de Lamego está hoje em festa. A razão fundamental é porque celebramos hoje o nosso Padroeiro principal, São Sebastião, de quem recebemos a implorada e desejada proteção e a suprema lição, que não passa por um sermão, mas pela doação da própria vida. A nós, que aqui nos reunimos hoje, interessa-nos saber que foi Jesus Cristo a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. Foi intensa a sua LUZ, imenso e notório o seu TESTEMUNHO no meio de uma cidade ensonada e às escuras.

    3. No meio da cidade pestilenta e decadente de Roma, São Sebastião representa uma fonte de vida e um ponto de luz. Há a cidade dormente e sonolenta. E há, em contraponto, a cidade alumiada e atenta, que não se pode esconder sobre um monte. Não se pode apagar o horizonte. Não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição que desencadeou contra os cristãos nos primeiros anos do século IV. O tirano, Diocleciano, fez o que podia fazer. Mas era pouco e tarde demais. Mandou quebrar o frasco cheio de perfume. Mas não se apercebeu que, ao quebrar-se o frasco, se soltaria o perfume, que nem o estrume de Roma podia apagar. E foi assim que o perfume intenso daquele amor imenso se espalhou por Roma e pelo mundo inteiro. Já sabemos que chegou também a Lamego esse aroma intenso e perfumado, que sanava a fome, a peste e a guerra, mas também o frio, e sobretudo o vazio do coração e da alma, a descrença e a indiferença, a maior doença que corrói a sociedade.

    4. Um documento manuscrito guardado na Biblioteca Nacional reporta uma grande peste em Lisboa e Alcácer do Sal em 1569 e 1570, que provocou muitas dezenas de milhar de mortos. O vocabulário é semelhante ao que nós usamos hoje: «cercas sanitárias», «isolamento», «quarentenas». Lê-se ainda, nesse documento que, no dia 22 de agosto de 1569, de uma imagem de São Sebastião escorreram grossas gotas de água claríssima que, recolhidas em lenços, curaram então muitas pessoas.

    5. Acabados também nós de sair de um tempo de pandemia, eis-nos já entrados num tempo de guerras brutais como há muito não se via, em que já se contam centenas de milhares de mortos, milhões de vidas humanas truncadas, atiradas ao lamaçal da sorte, a um vale de lágrimas, ao desalento e ao sofrimento. Tempo de imunda insensatez. Não é pensável que um ser humano sensato ocupe o seu tempo a pensar como pode matar mais e mais depressa. Seguramente não falta dinheiro a este mundo. Falta amor a este mundo. Falta Deus a este mundo. É por isso que faltam irmãos, e sobram inimigos.

    6. Jesus não veio trazer-nos uma definição de Deus. Veio trazer-nos Deus, e mostrar-nos que somos filhos e irmãos, amados e não abandonados. Não nos ensinou montes de orações. Só nos ensinou a rezar o Pai Nosso e a perceber o alcance das palavras que dizemos. E, portanto, ouvimos no Evangelho de hoje (Mateus 10,28-33): Tende confiança! Valeis mais do que muitos passarinhos. Se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não semeiam nem ceifam, com quanto mais carinhos cuidará de nós, seus filhos queridos! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tão segura que está mesmo retratada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16).

    7. Portanto, Igreja de Lamego, tem confiança. Aprende outra vez a rezar o Pai Nosso. Levanta-te e vai com os passarinhos, que não semeiam nem ceifam, mas voam e cantam os louvores do nosso Pai, que está nos Céus. Levanta-te e vai com São Sebastião, e enche este mundo de perfume e de unção, de oração, de comunhão e de paixão. Enche este chão bendito de estradas de Jericó, onde passa o próprio Deus, e se debruça sobre o teu pó, e o levanta e o beija.

    8. Vem, Senhor Jesus! Ensina-nos outra vez a rezar o Pai Nosso, e isso nos basta. Nós vo-lo pedimos por intercessão do Mártir S. Sebastião. Amém.

    António Couto


  • Deus fiel,

    fiável,

    sim irrevogável.

    Matriz fidedigna,

    maternal amor preveniente,

    permanente,

    paciente.

    Palavra primeira e confidente,

    providente,

    eficiente,

    a dizer-se sempre

    e para sempre dita.

    Rochedo firme,

    abrigo seguro,

    alcofa para o nascituro,

    luz no escuro,

    amor forte,

    sem medo da morte

    e do futuro.

    Deus fiel e confidente,

    fala,

    que o teu servo escuta atentamente.

    Nada do que dizes cairá por terra.                      

    A tua palavra à minha mesa,

    minha habitação,

    minha alegria,

    minha exultação,

    energia do meu coração,

    luz que me guia e que me alumia.

    A minha luz é reflexa,

    a minha palavra é lalação,

    de ti decorre,

    para ti corre a minha vida,

    dita,

    dada,

    recebida

    e oferecida.

    António Couto


  • Neste dia 17 de janeiro, a Igreja faz memória de Santo Antão, pai do monaquismo do Ocidente. Segundo a tradição, viveu mais de cem anos. Terá nascido no Egito em 251, ocorrendo a sua morte em 17 de janeiro do ano 356.

    Era rico. Ainda jovem, por volta dos vinte anos, durante uma celebração litúrgica, ouviu o texto de Mateus 19,21, em que Jesus diz ao jovem rico: «Se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-me».

    Chegado aqui, o jovem rico do Evangelho foi-se embora muito triste, como sabemos, porque possuía muitos bens e não estava disposto a desfazer-se deles. Mas o jovem Antão levou o Evangelho à letra, distribuiu, com alegria, os seus muitos haveres pelos pobres, e fez-se seguidor dos passos de Cristo no deserto do Egito, onde muitos o seguiram também.

    Atenção, meu irmão deste dia 17 de janeiro! A rajada de verbos que virou do avesso a vida do jovem Antão pode virar também a tua. Não esqueças: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!».

    Deixo ainda uma questão fundamental: por que razão os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza, por sermos ricos e importantes?

    Santo Antão, roga por nós.

    António Couto


  • Isaías 49,1-6; Salmo 40; 1 Coríntios 1,1-3; João 1,29-34

    1. Estamos já no Domingo II do Tempo Comum, e escutamos o Evangelho de João 1,29-34. E à nossa frente está outra vez João Batista, a figura do umbral ou do limiar, que está sempre ali, à porta, para acolher quem vier, fazer as apresentações e dar as indicações necessárias. É dito, em João 1,28, que João Batista estava «em Betânia» (Bêthanía), de beyt ՚aniyyah [= «Casa da barca»] ou de ՙeynon beyt [= «Casa da fonte»], «do outro lado do Jordão (péran toû Iordánou), e que era aí que batizava». Em termos de crítica textual, o nome «Betânia» é o que reúne mais consenso, sendo, portanto, o melhor estabelecido por aparecer na maioria dos manuscritos maiúsculos e minúsculos. Há, porém, outras possibilidades de leitura, de que destacamos Bêthabarah, de beyt ՙabarah [= «Casa da passagem»]. Esta última denominação remonta a Orígenes que, no séc. III, visitou a região e não encontrou o topónimo «Betânia», mas encontrou Bêthabarâ. No seguimento de Orígenes, também Eusébio de Cesareia, Jerónimo e vários manuscritos assumem esta leitura. Portanto, segundo a crítica textual, o nome do lugar pode mudar. O que não muda é a locução «do outro lado do Jordão» que, no Evangelho de João, aparece sempre relacionada com João Batista (João 1,28; cf. 3,26; 10,40). João Batista coloca-se, portanto, estrategicamente «do outro lado do Jordão», onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). Era então «do outro lado do Jordão» que João Batista batizava (baptizôn). Este particípio indica duração, fazendo da atividade de João Batista uma missão continuada e duradoura. Pode mudar-se o lugar, que não se muda o significado, seja ele «Casa da barca», «Casa da fonte» ou «Casa da passagem». Mas este dado «do outro lado do Jordão» não pode deixar-se cair, dado o valor simbólico que indica, e que, em si, é já um discurso. É preciso voltar atrás, ao «outro lado do Jordão» para se poder entrar agora com o pé direito na Terra Prometida.

    2. Dado que estamos a lidar com o início do Evangelho de João, talvez valha a pena olhar para a forma como está organizado. Aperceber-nos-emos logo que este início do Evangelho de João (1,19-2,12) distribui as ações por dias, organizados em dois blocos de 4 + 3. No primeiro dia (1,19-28), João Batista, postado no umbral de Betânia ou Bêthabara, é interrogado pelas autoridades acerca da sua identidade. No segundo dia (1,29-34), João Batista acolhe Jesus e apresenta-o, sem que seja dito a quem, a todos nós com certeza. No terceiro dia (1,35-42), alguns discípulos de João Batista seguem Jesus, e Simão recebe o nome de Cefas [= Kêphâs] (1,42), única vez nos Evangelhos, que significa Pedra esburacada, acolhedora e protetora. No quarto dia (1,43-51), Jesus chama Filipe e revela-se a Natanael e aos outros discípulos. Estes quatro dias representam em crescendo a preparação remota para a manifestação da Glória de Jesus. Correspondem à primeira parte da preparação para a Festa do Dom da Lei, que os judeus celebravam na Festa das Semanas ou Pentecostes. Depois destes quatro dias, salta-se logo para o «3.º Dia» (2,1-12), que é o 7.º do esquema 4 + 3, e que tem a ver com a manifestação da Glória de Jesus (2,11), que corresponde ao 3.º Dia da manifestação da Glória de Deus no Sinai (Êxodo 19,10-20), para o qual se requerem dois dias de intensa preparação (Êxodo 19,10-11). Se os quatro primeiros dias constituem a preparação remota, os dois seguintes são a preparação próxima para este 3.º Dia! Este era o esquema da preparação do povo para a Festa do Dom da Lei de Deus que se celebrava no Pentecostes.

    3. O Evangelho de João hoje proclamado e escutado (1,29-34) põe diante de nós o 2.º dia dos primeiros quatro de preparação a que atrás aludimos. João Batista permanece parado, imóvel e sereno e atento, desde João 1,28, em Betânia ou Bêthabarâ, nomes que indicam claramente que se trata de um lugar de passagem e de água. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, entre o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. É desse lugar de passagem, mas em que está parado e atento como um guarda ou sentinela vigilante, a observar, que João Batista vê bem, «vê por dentro», como indica o verbo grego emblépô, Jesus a passar (peripatoûntos) (1,36) e a VIR (erchómenos) ao seu encontro (1,29). Esta é a primeira vez que Jesus surge em cena no Evangelho de João. E João Batista é assim o primeiro a ver Jesus, que VEM ao seu encontro, como Deus VEM ao nosso encontro, verificando-se e cumprindo-se assim quanto dito em Isaías 40,10: «O Senhor VEM». Recolhendo, em analepse, as vozes proféticas do passado, mas desenhando também já, em prolepse, os passos futuros, o Batista apresenta Jesus como «o CORDEIRO de DEUS, que tira o pecado do mundo» (1,29). Apresenta-o a nós, pois não é dito que mais alguém esteja lá. Riquíssima apresentação de Jesus, que lembra o cordeiro pascal (Êxodo 12), o servo de Isaías que carrega os nossos pecados (Isaías 53), enfim, o cordeiro vitorioso do Apocalipse. Mas é preciso ter presente ainda que Cordeiro se diz na língua aramaica, língua comum então falada, thalya’. Mas thalya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Tantos fios fecundos, tantas sementes, tantos frutos, a recolher e já também a lançar aos campos que se desenham diante dos nossos olhos. Aí está bem delineada a identidade de Jesus. CORDEIRO de DEUS diz ainda, numa linguagem bem nossa conhecida, que este CORDEIRO é de DEUS, pertence a Deus: é Deus o seu pastor. Mas o Batista diz ainda de Jesus, CORDEIRO de DEUS, que é Ele «que tira o pecado do mundo». Com esta locução não parece que estejam em vista apenas os pecados individuais, mas o fim do domínio do pecado, avistando-se já um mundo novo, esvaziado do mal e cheio do conhecimento de Deus (Isaías 11,9), verdadeira plantação de Deus (Isaías 61,3; 1 Coríntios 3,9). O verbo aírô [= tirar], quando relacionado com pecado (hamartía) diz o mesmo que aphíêmi [= perdoar], que é obra só de Deus, que se vai repetindo nos sacrifícios pelo pecado realizados no Templo.

    4. Nesta passagem do Evangelho de João trata-se de eliminar o pecado todo, de fechar o tempo do pecado com uma única ação, e não do perdão pontual de um determinado pecado individual, a que era necessário acorrer muitas vezes. Os leitores e ouvintes mais habituados a lidar com os textos bíblicos já certamente repararam na vizinhança entre «tirar (aírô) o pecado do mundo» e «tirai (aírô) tudo isto daqui, e não façais da casa do meu Pai casa de comércio» (2,16). Espaço e modo relacional novo. Eis, portanto, que Jesus VEM ao encontro de João, e é por este apresentado como o Messias, Aquele que VEM pôr fim à longa espera de Israel, e estabelece uma nova etapa na relação que une Deus com a humanidade. E talvez não seja por acaso que João Batista exerce o seu ministério «no outro lado do Jordão», fora das instituições do Templo. E ao ver o Espírito descer como uma pomba sobre Jesus e nele permanecer (1,32), João Batista está a ver o nascimento do novo Israel, inaugurado com Jesus, que é o que batiza com o Espírito Santo (1,33), novo nascimento, portanto. A pomba no judaísmo antigo representa Israel. O Espírito que desce sob a forma de pomba anuncia a geração e o nascimento do novo Israel inaugurado com Jesus, e constitui o fruto maduro da vinda do Espírito para o meio dos homens. Uma coisa é o que se vê, do que João Batista vê; outra é o significado do que vê, que não é fruto das suas ideias ou inspiração própria, mas obra da revelação de Deus, daquele que o enviou a batizar com água (1,33).

    5. O Espírito de Deus entra na nossa história, descendo e permanecendo na humanidade de Jesus (1,33). A humanidade de Jesus é a porta por onde entra em nossa casa o Espírito de Deus. É esta novidade que, do seu posto de sentinela, João Batista está também a ver (heôraka, verbo no perfeito grego), e dela dá testemunho (memartýrêka, verbo no perfeito grego) (1,34). O perfeito grego indica continuidade: vi e continuo a ver; testemunhei e continuo a testemunhar. Entenda-se bem: João Batista dá testemunho, não porque viu e agora já não vê, mas porque viu e continua a ver, exatamente como as testemunhas de Jesus Ressuscitado (20,18.25). O Filho de Deus feito Homem, sobre quem desce e permanece o Espírito de Deus, Vem ao nosso encontro em Betânia ou Bêthabarâ, mas sempre no «outro lado do Jordão», margem esquerda, para nos fazer entrar em Casa, na Terra Prometida, novo espaço, tempo e modo relacional com Deus.

    6. Cordeiro, Servo, Filho, Pão: eis Jesus, manso e dócil, nosso irmão e nosso alimento. O «Segundo Canto do Servo do Senhor» (Isaías 49,1-6), em que Hoje se espelha o Evangelho, já mostra este Servo de Deus, libertado do serviço entre os povos estrangeiros, para se colocar exclusivamente ao serviço do Senhor, que, por isso e para isso, o pode chamar «meu Servo» (Isaías 49,3 e 6). A sua missão será reconduzir Israel para Deus, de quem se tinha afastado física, moral e espiritualmente (Isaías 49,5). Fica, todavia, logo claro que não é suficiente proceder à reunião dos filhos de Abraão. É necessário ir mais longe e refazer o mundo dos filhos de Adam. É necessário ser a Luz das nações, como Jesus (Lucas 2,32). E assim devem ser também todos os seus escolhidos e enviados.

    7. Veja-se Paulo, que faz sua a missão do Servo Israel de ser Luz das nações até aos confins da terra (Atos 13,47). É nesse rastro de Luz que chega um dia a Corinto para lá acender a Luz de Cristo, Senhor Nosso, e velar por essa Luz que arde nas entranhas. É por isso que hoje escutamos também o princípio da correspondência que Paulo estabelece com a comunidade de Corinto (1 Coríntios 1,1-3).

    8. Cantamos hoje o primeiro andamento do Salmo 40, repetindo o refrão: «Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade!» (vv. 7-8). É o cântico novo que ecoa hoje na nossa boca (v. 4), e que se vai ouvindo já por toda a terra. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos e modos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, que põe em cena João Batista, o grande indicador de caminhos, e, sobretudo, do Caminho, que é Jesus, e em sintonia também com a lição do Servo de Deus de Isaías 49, que vem para levar Deus e a sua Luz às nações e aos corações. Como Paulo faz desde Damasco até Corinto, até Roma. Para tanto, todo o Servo de Deus tem de ter os ouvidos escavados (v. 7) e o coração incendiado.

    António Couto


  • Ain Karem ou Fonte do Jardim, a uns 8 km a sudoeste de Jerusalém, é apontado como o lugar tradicional do nascimento de João Batista. Mas o verdadeiro lugar da sua vida é o deserto da escuta infinita e do sentido a transbordar que abre caminhos nunca andados e opera corações empedernidos e embotados. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Tal como a escuta infinita e o sentido a transbordar, também os gafanhotos e o mel silvestre são alimento para o coração, e não para o estômago. Como a verdade, a fidelidade, a felicidade, a paz, a alegria e o amor.

    Sempre em contraponto, João pregava no deserto, e não na Trafalgar Square. No deserto, João estava a sós com Deus. Não havia distrações. E quem o queria ouvir, e muitos eram, tinham de sair de casa, das praças, do barulho da cidade. E já sabiam que iam ouvir uma palavra diferente, que caía no coração, e aí crescia como uma semente.

    Também Jesus veio lá da Galileia, fez 150 km para ficar tu-a-tu com João e a céu aberto com Deus. A água do Jordão lava o coração. O batismo de João é como um sismo que abala, não o chão, mas o coração.

    António Couto


  • O Filho e o Espírito Santo são,

    no dizer de Santo Ireneu de Lião,

    as duas mãos do Pai

    enviadas em missão

    para junto dos seus filhos de adoção.

    À semelhança, claro,

    daquelas mãos de amor,

    que, no alvor da Criação,

    modelaram da terra pura o nosso coração,

    e de misericórdia o vestiram.

    Filhos no Filho, divina hyiothesía,

    hemorragia de graça e de alegria:

    Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

    e dá-nos em herança a sua divina filiação.

    E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

    divina comunhão, sem confusão,

    toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

    e faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

    a mais bela lalação que há,

    o nome novo Ab-ba!

    António Couto


  • Isaías 42,1-4.6-7; Salmo 29; Atos 10,34-38; Mateus 3,13-17

    1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

    2. Esta apresentação só é possível porque em cada um dos Anos Litúrgicos é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano A, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como «o Evangelho da Igreja», dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja nascente, sobretudo devido à clareza e riqueza temáticas dos longos, solenes e pausados Discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja. Na verdade, o leitor ou ouvinte encontra no Evangelho segundo Mateus uma longa e bela sinfonia dos ensinamentos fundamentais de Jesus, organizada em cinco andamentos à volta de cinco imensos Discursos de Jesus: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

    3. No umbral do «Tempo Comum» está sempre o episódio do Batismo de Jesus no Jordão, este ano servido pelo Evangelho segundo Mateus 3,13-17. Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Mateus: 1) em primeiro lugar, é-nos dito que Jesus veio da Galileia ao encontro de João para ser por ele batizado no Jordão (Mateus 3,13); 2) quando vê Jesus que vem no meio da multidão como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com o seu povo e assumindo as suas faltas, João Batista fica confuso; na verdade, esperava um Juiz acima do povo, para julgar o povo (cf. Mateus 3,7.10-12), e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 3) além disso, e contra todas as expectativas de João Batista, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado, solidário com o povo (Mateus 3,11.13-14); 4) o diálogo travado entre João Batista e Jesus, em que João manifesta o seu desconforto em ser ele a batizar Jesus, e não o contrário (Mateus 3,14-15), é um exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve); 5) são de notar as primeiras palavras, em absoluto, ditas por Jesus no Evangelho segundo Mateus: «É conveniente para nós cumprir toda a justiça» (Mateus 3,15); neste Evangelho, o termo «justiça» (dikaiosýnê) indica o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade [= obediência] a esse plano, e faz-se ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32) contra uma única vez em Lucas (1,75) e nenhuma em Marcos; o seu uso é modelar e programático (traduz a postura obediente de Jesus e apela à nossa obediência); 6) o verbo «cumprir» (plêróô), que Mateus usa por dezasseis vezes, aponta para o cumprimento da Escritura em Jesus, mas desafia também o discípulo de Jesus e o ouvinte ou leitor da Escritura; 7) a abertura dos céus na forma passiva (êneôchthêsan), passivo divino (sujeito Deus), e a descida do Espírito como uma pomba (Mateus 3,16) evoca e cumpre Isaías 63,19: «Ah, se rasgasses os céus e descesses!», sem esquecer que a pomba representa nas fontes judaicas o Espírito de Deus que pairava sobre as águas (Talmude da Babilónia, Hagîgah 15a), mas evoca também a «voz da pomba» (Ct 2,12) que os Targûmîm traduzem com «a voz do Espírito de salvação»; 8) a voz vinda do céu também deve merecer a atenção do discípulo, do ouvinte e/ou do leitor, porque, ao contrário do que acontece nos outros Evangelhos sinóticos, a proclamação não aparece formulada na segunda pessoa [Marcos 1,11: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»; Lucas 3,22: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»), mas na terceira pessoa: «Este é o meu Filho, o Amado, em quem pus o meu enlevo» (Mateus 3,17]; não é, portanto, uma revelação dirigida a Jesus, mas a nós, salientando desde o princípio a perspetiva eclesial de Mateus, e o quanto devemos estar atentos e implicados em tudo o que vemos acontecer em Jesus.

    4. Diante dos olhos atónitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, connosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser connosco batizado. Extraordinária a epígrafe que Pedro, na lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-38), põe sobre a vida de Jesus: «Passou fazendo o bem e curando todos» (Atos 10,38). Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. É aqui que o rio Jordão nos pode trazer, não apenas água, mas também alguma luz e sentido. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. Rasga, de alto-a-baixo, a terra de Israel, mas atravessa também as páginas dos dois Testamentos! Desce do sopé do Hermon e vai desaguar no Mar Morto, fazendo um percurso sinuoso de mais de 300 km [104 km em linha reta], e o seu nome ouve-se por 179 vezes nas páginas do Antigo Testamento e 15 vezes no Novo Testamento. As suas águas curam (2 Reis 5,14: Naamã) e dão acesso à vida nova: é atravessando-o que o Povo entra na Terra Prometida (Josué 3,14-4,24). É ainda belo ver que, depois de um percurso de mais de 300 km, o Jordão entra no Mar Morto, onde, através de uma intensa evaporação, parece subir ao céu, lembrando Elias que sobe ao céu desde o leito do Jordão (2 Reis 2,8-11). É lembrando estes cenários, sobretudo o do Batismo que também cura e dá acesso à vida nova, que muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» ao canal que conduz a água para a fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

    5. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

    6. Há ainda a registar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz» (Isaías 42,2). Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, então é porque a faz ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, impostos, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Está bom de ver que Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão. De resto, Mateus diz-nos expressamente que Jesus vem cumprir a missão do Servo de Isaías 42,1-4, texto que este Evangelho cita por inteiro em Mateus 12,18-21.

    7. No seu discurso em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, segundo a lição do Livro dos Atos 10,34-38, que hoje temos também a graça de escutar, Pedro dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de todos nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, de acordo com o percurso e o jeito de Jesus que, após o Batismo no Jordão, diz Pedro, passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas (Atos 10,38). É este o programa de vida de todos os cristãos batizados e crismados.

    8. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos amados que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que a nós se dirige, apresentando e revelando o Filho no Batismo do Jordão, e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

    António Couto


  • 1. «O homem é um animal racional», têm repetido tranquilamente os livros e os homens, ao longo dos séculos, desde Aristóteles. Dizer que o homem é um animal, ainda que racional, é definir o homem por baixo, dado que o termo de comparação é o animal.

    2. De forma diferente de todos os outros livros, a Bíblia ousa dizer e repetir que o homem é «imagem de Deus», definindo assim o homem, não por baixo, a partir do animal, mas por cima, a partir de Deus.

    3. E ao mesmo tempo que define o homem como «imagem de Deus», a Bíblia define também claramente qual deve ser a relação do homem com o animal. Refere, de facto, o primeiro Capítulo do Livro do Génesis que o homem deve saber dominar o animal, a animalidade (Gn 1,26 e 28), e mostra logo que, quando tal não acontece, surge naturalmente a desgraça. É assim que Caim se tornará assassino: por não ter sabido dominar o animal, deixando-se antes dominar por ele, ser à imagem dele e não à imagem de Deus. Em boa verdade, o homem violento é aquele que deixa que o animal ou a animalidade o domine. Dominado, então, pelo instinto do pecado à sua porta deitado (Gn 4,7), como se de um leão se tratasse (Sir 27,10), Caim trucida o seu irmão, não lhe dando qualquer espaço: nem sequer o estreito espaço da palavra!

    4. Refere, de forma penetrante, a versão original do Livro do Génesis: «Disse Caim para Abel, seu irmão» (Gn 4,8a). Mas é em vão que ficamos à espera de ouvir ou de ler o anunciado dizer de Caim. De facto, ele não dirá mesmo nada. A narrativa deixa-nos perante um silêncio cortante. Omitindo qualquer palavra, o relato prossegue logo referindo que «Caim se lançou sobre o seu irmão Abel, e matou-o» (Gn 4,8b). É tão gritante este não dizer de Caim depois do seu dizer anunciado, que as versões posteriores, pensando tratar-se de uma omissão, se esforçaram por preencher essa lacuna, colocando lá uma locução do género: «Saiamos para o campo». Mas o texto original não tem lá nada. Apenas um gritante e intencional vazio.

    5. Bem o compreendeu Judas, irmão de Tiago, quando, na sua Carta, diz certeiramente que «aqueles que seguem o caminho de Caim» são «como os animais sem palavra» (Jd 10-11). De facto, a besta que há em Caim não fala, mas grita e trucida e come o outro! Ao grito basta-lhe o instante. A palavra precisa de tempo. A palavra verdadeira é desejo de outra palavra: da palavra do outro. A palavra verdadeira dá a palavra e pede a palavra. Estreito espaço sobre o qual há que vigiar constantemente.

    6. É bom que tomemos consciência de que quando usamos tons que não admitem resposta, quando somos categóricos e intolerantes, quando falamos sem dar atenção às palavras do outro ou sem ter presente que é o outro que está à nossa frente, então somos, de facto, como Caim: gritamos sem dizer nada e preparamo-nos apenas para o ódio, para a violência, para o homicídio que, na Bíblia, é sempre um fratricídio.

    7. Escrever, como falar, é não dizer tudo. É a arte de lidar com as palavras como se cada palavra, para ser admitida à passagem estreita pela qual se apresenta depois de uma palavra e antes de outra palavra, tivesse que produzir uma declaração atestando que não está contaminada pela totalidade ou pestilência da morte. Escrever é um ato de fragilidade e de liberdade.

    8. Que a palavra escrita, ou dita, que nos une, seja sempre frágil e aberta.

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, 2024, pp. 33-35.


  • Vem pelo cais uma criança a correr

    Traz uma pomba branca pela mão

    Uma criança não tem onde morrer

    O seu único haver é o coração.

    1. Sobre esta terra térrea e escura há de haver sempre uma fonte de água pura, uma mulher «no seu ventre concebendo» o céu (Lc 1,31; 2,21), fruto maduro, acorde seguro, das entranhas misericordiosas do nosso Deus (Lc 1,78), Luz nova no céu se alevantando (Lc 1,78; cf. Nm 24,17; Is 60,1-2; Ml 3,20), Rebento tenro na terra germinando (Jr 23,5; 33,15; Zc 3,8; 6,12), luminosa sinfonia de Deus e de Maria, o céu ao léu, enchendo de luz os nossos corações duros e escuros como o breu.

    2. «Conceber no ventre» é um pleonasmo evidente, mas é dito duas vezes de Maria, e apenas de Maria. Certamente para a mostrar dependente das entranhas misericordiosas do nosso Deus Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente, causa da Luz que nas alturas se alevanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na terra germina, que a terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria.

    3. E tem de ser dito agora que, na Escritura Santa, aquela Luz que no céu se alevanta e o Rebento que na nossa terra germina são ditos com o mesmo nome grego: anatolê (forma verbal: anatéllô), que é como quem diz ainda que a Luz germina e o Rebento ilumina, orientando os nossos passos para os braços de Deus e de Maria, causa da nossa alegria.

    4. A nossa terra sombria precisa de Deus e de Maria, e dessa Luz que suavemente Rebenta e Orienta, aquece e alumia o nosso dia-a-dia. Conceber no ventre, «compor no coração as palavras que acontecem e não esquecem» (Lc 2,19), estender a mão de irmão à inteira criação, olhar com ternura para cada criatura, por cada criatura, em cada partitura. É assim que Deus faz a Bênção e a Paz (Nm 6,22-27).

    5. Chegou, meu irmão, a hora de acordar do sono, de encher de amor cada buraco de ozono. Põe fim ao fumo e ao consumo. Dia Mundial da Paz. Dia de Paz. Alarga o coração. Saúda a criação. Leva uma criança a passear com uma pomba branca pela mão!

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, pp. 12-13.


  • Chega uma criança

    À madrugada

    Desarmada

    Traz mãos e pés e uns olhos tão bonitos

    Traz um rasto de lume e de esperança

    E uma espada

    Apontada

    À raiz dos nossos conflitos.

    1. É assim que vem Jesus em filigrana pura, em contraluz coada de alegria, e atravessa ao colo de Maria as páginas arenosas da Escritura. Ei-lo que vem rosado de ternura, acorda, esfrega os olhos azulados de lonjura, salta para o chão, vê-se que procura a minha mão, sabe o meu nome e o de toda a criatura.

    2. Conta-me histórias, a dele e a minha, mas conta também as estrelas uma a uma, apresenta-me Abraão, Moisés, David, demora-se um pouco no caminho com Elias, Isaías, Miqueias, Jeremias, recebe os pastores dos campos de Belém, canta com eles, acena aos anjos nas alturas, fica longamente extasiado a abrir os presentes trazidos pelos magos.

    3. O espaço que habita é um curral que os animais gratuitamente acederam partilhar com ele, com ele brincam, vê-se que sabem de cor a partitura de Génesis um e de Isaías onze.

    4. Maria e José também conhecem e jogam esse jogo, esfuziante corre-corre de alegria, até eu dou por mim a fazer casinhas num prato de aletria, mas na sala ao lado há gente a dormir longe dali, anestesiada e dormente, indiferente, trocando a luz do dia pela romaria.

    5. Ó humanidade sem sal, sem sol e sem sonho, só com sono, acorda que já a luz desponta, todo o tempo é pouco porque o tempo é graça, não fiques atolada na desgraça, desconsolada e triste, como quem tem sempre que pagar a conta.

    6. Olha em redor e vê que já nasceu o dia, e há de andar por aí uma roda de alegria. Se não souberes a letra, a música ou a dança, não te admires, porque tudo é novo. Olha com mais atenção. Se mesmo assim ainda nada vires, então olha com os olhos fechados, olha apenas com o coração, que há de bater à tua porta uma criança. Deixa-a entrar. Faz-lhe uma carícia. É ela que traz a música e a letra da canção. Ela é a Notícia.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 28-29.


  • Há dois mil anos Deus sonhou

    E foi

    Natal em Belém.

    Sonha também.

    Se o jumento corou

    E o boi se ajoelhou,

    Não deixes tu de orar também.

    1. A notícia ecoou nos campos de Belém. Com o celeste recital que ali se deu, o céu ficou ao léu, a terra emudeceu de espanto, e os pastores dançaram tanto, tanto, que até os mansos animais entraram nesse canto.

    2. Isaías 1,3 antecipou a cena, e gravou com o fulgor da sua pena o manso boi e o pacífico jumento comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao Lume, e bafejando depois suavemente o Menino de perfume. Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono, o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

    3. Nos campos lavrados passeiam cotovias, ondulam os trigais, e vê-se Rute a respigar o trigo ao lado dos pardais. Que estação é esta que reúne as estações e os anais? Abre-se ali num instante um caminho novo. Vê-se que passam Maria e José e o Menino, que salta logo do colo e suja as mãos na terra, tira da sacola estrelas todas de oiro, e semeia-as na terra com carinho.

    4. Anda à sua volta um bando de boieiras, leves e ledas companheiras, correndo no mesmo chão de oiro semeado. E nós continuamos a passar ali ao lado daquela sementeira toda de oiro, que o Menino pobre acaricia, e logo se transforma em trigo loiro. Mas ninguém para, ninguém acredita que o Menino pode ser dono de um tal tesoiro. 5. Vem, Menino! E quando vieres para a tua doirada sementeira que logo cresce e se faz messe (João 4,35), quando assobiares às boieiras, chama também por mim, diz bem alto o meu nome, vamos os dois para o campo e para a eira, e enche-me de fome de um amor como o teu, pequenino e enorme.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.


  • Do Oriente veio em procissão de esperança

    o melhor da nossa humanidade.

    Os magos caminharam à luz de uma estrela nova,

    recém-nascida,

    mansa,

    como uma criança.

    A procissão faz-se em passos de dança,

    e a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

    de cristal,

    com alma enternecida,

    e coração de natal.

    Por isso,

    não a viu Herodes,

    não a viram os guardas,

    não a viram os sábios,

    que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

    Viram-na os magos,

    pegaram nela à mão,

    levaram-na aos lábios,

    deitaram-na no coração.

    Vem, Senhor Jesus.

    O mundo precisa tanto da tua Luz.

    1. Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta de Jacob, um cetro se levanta de Israel (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, oriundo das margens do Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7), terra da sabedoria maior do que Salomão, de onde vêm os sábios e a burra de Balaão.

    2. Balaão habita o coração da luz, escuta Deus, sabe que só pode dizer de Deus o que Deus disser, sai de entre as fragas frias e escarpadas, caminha por caminhos estreitos e murados, tem por companhia uma burra fiel e astuta, que escuta e vê Deus melhor que o dono, que corre atordoado pela pressa e pelo sono. Mas a burra trava de repente a correria, e atira Balaão ao chão, que se zanga e fustiga sem razão a astuta burra, que fez o que fez porque viu um anjo parado no meio do caminho, com a espada na mão desembainhada a fazer stop. Não o viu Balaão, viu-o a burra. Fustigada pelo dono uma e outra vez, travou-se a burra de razões, e pediu satisfações ao dono: «Que te fiz eu, para me bateres assim?» (Números 22,28), protesta a burra, fazendo coro com Miqueias 6,3 e os impropérios postos na boca de Jesus, enquanto se beija a Cruz em Sexta-Feira Santa.

    3. Habituado a ler as estrelas, Balaão via à distância, e à distância viu Jesus. Mas a burra viu-o de perto, no caminho, viu-o bem, e ajoelhou-se logo ali, como se fosse ali o presépio de Belém. Quando Balaão se apercebeu e se levantou do chão, meteu a mão no bornal, e encontrou numa folha de jornal uma bênção que pronunciou sobre José, o Menino, e Maria, sua Mãe. E a burra de Balaão ofereceu-se logo ali para levar Jesus ao Egito, e o trazer de volta também.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 53-54.


  • Isaías 60,1-6; Salmo 72; Efésios 3,2-3a.5-6; Mateus 2,1-12

    1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob,/ um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

    2. Do Oriente são também os Magos (mágoi), que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho revelador (2,12), a estrela e o sonho indicadores de caminhos novos, belos, insuspeitados, nunca andados. Os Magos, neste contexto, não devem ser entendidos como «bruxos» ou «charlatães». Trata-se, antes, de um termo que remonta ao nome de uma tribo da Média que desempenhava, na religião persa, funções sacerdotais e se ocupava também de astronomia e astrologia. O Evangelho hebraico de Mateus, de Shem Tov, traduz o termo por «videntes nas estrelas», e, em diversos textos antigos, o termo «mago» é posto em relação com clarividência, interpretação de sonhos, profecia, e os magos de Mateus não devem ser uma exceção.

    3. Mas o texto de Mateus 2,6, com a citação de Miqueias 5,1, encarrega-se de clarificar que a leitura das estrelas não é suficiente para o sucesso da busca dos Magos. É preciso o conhecimento das Escrituras, que lhes chega através dos chefes dos sacerdotes e dos escribas do povo. É só com a interpretação extraída da leitura de Miqueias 5,1, que os Magos conseguirão encontrar o Menino. Estrelas, sonhos, Escritura. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego do Livro dos Números e de Mateus diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn) (Números 23,7; Mateus 2,1). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular (2,2 e 9), pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural e das estrelas da moda mais brilhantes e atraentes.

    4. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do MESSIAS e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e ilumina e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô) (Mateus 2,2.11). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

    5. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil e cansado controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem tudo acerca do Messias, mas não se comprometem com ele, não dão um passo de saudação e acolhimento em direção a ele (Mateus 2,4-6). Dá-lo-ão mais tarde. Mas aí é tarde, e é contra ele (Mateus 26,57.59). A informação que retiram da leitura da Escritura será útil apenas para os Magos.

    6. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento de Jesus. Já sabemos que se trata de dons preciosos, e, porque são enumerados três, antigas representações da adoração dos Magos mostram também três figuras: um jovem, um homem de meia-idade e um velho, representando um asiático, um europeu e um africano. Claro que estas indicações não estão na letra do texto, mas estão no espírito do Evangelho, que pretende dizer a todos nós que a adoração deste Menino, reconhecido como Rei e Senhor, deve mobilizar gente de todas as idades e de todos os continentes. Afinal, a Epifania é a manifestação de Deus a todas as nações e a todos os corações.

    7. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a.C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Também se pode fazer destes dados uma leitura simbólica e popular que indica um nascimento real, porventura do Messias, Rei dos Judeus, dado que Júpiter é um planeta real e Saturno é a estrela do sábado, portanto, dos Judeus, e a constelação de Peixes representa o fim dos tempos. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela que faz levantar os Magos e os põe em movimento é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam os Magos, certamente, se soubessem que nós indagamos a abóbada celeste com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. Talvez seja por isso que, enquanto nós nos ocupamos e distraímos com tantas luzes mais ou menos inúteis e estéreis, «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos céus» (Mateus 8,11). E nós, que gastámos tanto tempo e dinheiro e esfregámos os olhos a indagar as Escrituras sem lhes descortinarmos o verdadeiro fio de ouro (Mateus 2,4-6), e sem as transpormos para a nossa vida, sem as pormos em prática, corremos o risco de ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29). Os de fora são os estrangeiros como Balaão, como os Magos, que vêm e veem de longe, com o olhar puro, sem esquadrias ou sistemas ou ideologias. Estrangeiros que nada possuem: nem propriedades nem verdades nem pessoas.

    8. Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Não é só para despistar Herodes. Sim, quem viu o que os Magos viram, quem viu como os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se simplesmente a continuar seja o que for. Tudo tem mesmo de ser novo. Também os olhos e o coração. Até para casa precisamos de aprender o caminho!

    9. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

    10. Também os versos sublimes do Salmo 72, um Salmo Real, cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

    11. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

    12. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que são as crianças a ensinar-nos que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação. Há apenas entreajuda, compreensão e partilha do pão.

    13. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças que nos podem ensinar esta maravilhosa lição.

    António Couto


  • 1. Mãe de Deus, Senhora da alegria, Mãe igual ao dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

    2. De ti pouco sabemos, singular mulher! Mas esse «sim» que te saiu dos lábios abriu um grande rombo no silêncio. De Bezetha[1], mas sempre de Bethesda[2]: não é o amor o que fica das colinas, das colinas, das palavras e de nós? Bezetha, Nazareth, Ayin Karem[3], Betlehem[4]: estivesses onde estivesses, estavas decerto permanentemente à escuta, e estremecias, inundada de alegria, sob a palavra que sobre ti descia em ondas sucessivas de emoção.

    3. Uma palavra, depois outra, depois outra: caía sobre ti tanto silêncio, que necessariamente havia de ganhar corpo no teu corpo o corpo que atravessa em contraluz toda a Escritura. Mulher, grande mulher, mulher messiânica, mulher entre todas única, Mulher!, aeì parthénos[5], sempre virgem, ao mesmo tempo esposa, ao mesmo tempo mãe: mulher de estrelas coroada, ou solar rapariguinha na solene procissão saltando à corda, ou moreninha enamorada saltando, soltando pelos montes a enleante melodia do shîr hashîrîm[6].

    4. Shalôm[7], disseste, shalôm: oh imensa, divina saudação, clarão de Deus nos céus de orini[8], no ventre de Isabel, na dança de João: incontrolável rebentação, intraduzível lalação. Era de paz a voz dos anjos, era de paz, como sempre foi a voz de Deus.

    5. Menina de Deus bendita! Sossegada e livre e firme, levas os teus filhos pela mão, salvo-conduto para a esperança, Mulher de todas as esperas. O tempo em que vamos é semelhante ao de Herodes, tu sabe-lo bem, atravessado por tanta tirania e prepotência, batido por tantas vagas de poder e ambição.

    6. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria.

    7. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre a olhar por Deus, sempre sob o olhar de Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste sempre que Deus também é pequenino! Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»!

    António Couto, No meu posto de sentinela o dia inteiro, Prior Velho, Paulinas, 2024, pp. 9-11.


    [1] Lugar tradicional do nascimento de Maria, na colina junto da porta Probática e da piscina gémea do mesmo nome, a norte da esplanada do Templo de Jerusalém.

    [2] Significa «casa do amor».

    [3] Cidade de Isabel e João Batista, situada no meio da região montanhosa de Orini, a cerca de 8 km a sudoeste de Jerusalém.

    [4] Nome hebraico de Belém [= «casa do pão»].

    [5] Expressão grega que significa «sempre virgem».

    [6] Expressão hebraica que significa «Cântico dos Cânticos», nome de um livro da Bíblia, poema de amor que canta o amor do noivo e da noiva, do esposo e da esposa, o amor de Deus pelo seu povo.

    [7] Habitual saudação hebraica, que significa «paz», «felicidade».

    [8] Nome geográfico da região montanhosa cujo centro é Ain Karem, cidade de Isabel e João Batista.


  • Que Deus nos abençoe e nos guarde,

    que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

    que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

    cheios de amor, de paz e de alegria,

    que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

    e nos ponha nos caminhos de Maria.

    O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

    O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

    num amor maior do que um letreiro,

    um amor que rompe as trevas e o nevoeiro.

    Vela por nós, Maria, em cada dia

    deste ano inteiro,

    para que levemos a cada enfermaria,

    a cada periferia,

    um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

    Santa Maria da Paz,

    ensina-nos como se faz.

    António Couto


  • Números 6,22-27; Salmo 67; Gálatas 4,4-7; Lucas 2,16-21

    1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», irmanando assim a Páscoa e o Natal, eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2026, sendo o primeiro dia do ano tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

    2. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre (na riqueza espiritual que o termo contém), com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus enviou o seu Filho, nascido (genómenon) de mulher, nascido (genómenon) sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Duplo nascimento: nascido de mulher, isto é, como todos nós, nosso irmão em humanidade; nascido sujeito à Lei, isto é, membro do povo hebreu, a quem Deus tinha dado a sua Lei. Nesta linha breve e densa e, todavia, com uma repetição vocabular só aparentemente desnecessária, aparece compendiado o mistério da Encarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Ela é a Mãe do Filho de Deus e filho seu. Para falar do nascimento de João, refere o texto, de forma um tanto ou quanto indeterminada, que Isabel «deu à luz um filho» (egénnêsen hyión) (Lucas 1,57). Mas para falar do nascimento de Jesus, o texto diz, de um modo todo particular, que Maria deu à luz «o seu filho o primogénito» (tòn hyiòn autês tòn prôtótokon) (Lucas 2,7). O facto desta designação de Jesus como «o primogénito» não significa que Maria tenha tido outros filhos depois dele, mas revela tão-só a sua singular consagração a Deus, como vinha referido no Livro do Êxodo 13,2: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu». É por isso que ao episódio do Evangelho de hoje (Lucas 2,16-21) se segue imediatamente o episódio da «apresentação ao Senhor» (Lucas 2,21-22). Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza. Vem-lhe do facto de ser a Mãe deste Filho, seu e de Deus.

    3. O Evangelho deste Dia de Maria guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio, na escuta qualificada e na contemplação. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica uma atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. Como quando o povo de Deus reza confiante: «Guardai-nos e defendei-nos como coisa própria vossa».

    4. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar todas estas palavras e acontecimentos, para melhor entender, e para melhor dar a entender. É como quem, com aquelas Palavras e acontecimentos, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida inteira a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). De Isabel apenas se diz que «concebeu» (syllambánô) (Lucas 1,24). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre das misericórdias do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome de Jesus, Nome vindo de Deus através do anúncio de Gabriel (Lucas 1,31). Nome vindo de Deus, dado por Deus. Em Lucas 1,31, Gabriel dizia para Maria: «Chamarás o nome dele Jesus» (kaléseis tò ónoma autoû Iêsoûn). Mas no texto que estamos a ler (Lucas 2,21), Maria desaparece da cena, e lê-se na forma passiva: «Foi chamado o nome dele Jesus» (eklêthê tò ónoma autoû Iêsoûs). Deus por detrás de tudo. Na Escritura Santa, a Luz que no céu nasce e irradia, como uma Estrela, e o Rebento tenro, que na nossa terra germina, apontam e são figura do Messias, e dizem-se com o mesmo vocábulo grego, anatolê (hebraico, tsemah).

    5. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 59.º Dia Mundial da Paz que se celebra, a que o Papa Leão XIV, em contraponto com os inúmeros conflitos e guerras absurdas que assolam violentamente o nosso mundo, apôs o lema «Uma paz desarmada e desarmante». Guerras absurdas, porque não se trata de guerras entre dois exércitos para tal preparados e armados. Trata-se de um despejo da nojenta estupidez que nos habita sobre uma população humana pacífica, normal e sensata, que nada tem a ver com tamanha, incomensurável e incompreensível cegueira, que envergonha a inteira humanidade. Neste contexto, o suspiro humano pela paz transformou-se num grito imenso que há de com certeza atingir o céu. A paz é mais, muito mais do que a ausência de guerras. A paz é uma refeição saborosa, servida por Deus aos seus filhos.

    6. Na verdade, não temos sabido gerir como filhos e irmãos o pão nosso de cada dia, que em cada dia nos é dado. Daí que, do meio da guerra que a todos nos atinge, se levante outra vez este grito dorido e lacrimado pela paz, verdadeira sementeira de lágrimas (Salmo 126). As lágrimas também dão fruto como a semente. E é bom que não deitemos a perder esta oportunidade que Deus nos dá para tomarmos consciência de que estamos doentes e nos temos vindo a arrastar no lamaçal da banalidade, da indiferença e da equivalência, em que vale tudo e tudo vale o mesmo, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sem fontes e sem horizontes. Na verdade, nesta «noite do mundo», em que domina a escuridão, literal na Ucrânia, e a nefasta atração pela morte, palpável nas guerras, mas também nas já consideradas conquistas da liberdade, como sejam a interrupção voluntária da gravidez e a eutanásia, tudo nos aparece sem Deus, sem rosto e sem rumo, só com fumo, sem irmão, sem irmã, sem pai, sem mãe, tudo à medida sem medida da hipertrofia do «eu», que julga poder dispor de uma soberania e autonomia ilimitadas, sem sequer nos apercebermos do número cada vez mais elevado de deserdados, abandonados, refugiados e velhinhos que já perderam a soberania e a quem já roubámos a autonomia e a liberdade, e que continuamos a atirar com disfarçada subtileza para o sótão das inutilidades. Em poucas palavras, a Paz do Dia Mundial da Paz não é a «paz romana», que se conquista pelas armas; também não é a «paz do judaísmo palestinense», que se obtém por acordos. É tão somente a Paz que vem de Deus, dom de Deus, puro dom de Deus.

    7. Ao contrário, de Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir e gravar no coração outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

    8. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «que Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos os povos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

    9. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

    10. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Amém!

    António Couto


  • Neste Natal aposta na paz

    Limpa o teu olhar de traves e de medos

    De torpedos

    Deita fora as velhas espingardas

    Despede os guardas

    Sê simples e frontal

    Feliz Natal!

    1. Correm pelas colinas as mansas ovelhinhas como novelos de lã, de cá para lá, de lá para cá, sem nenhum afã que perturbe o seu olhar meigo e puro. Nada sabem as ovelhinhas mansas do passado e do futuro. A água que bebem é de um furo aberto no céu, que faz também germinar do chão a erva verde e a mansidão. Mas também o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, a vaca e o urso, o boi e o leão habitam e partilham a paz desta mansão, e é um menino o pastor desta visão.

    2. Os homens, sim, são os homens que cruzam espadas, espingardas, mísseis, drones, desencadeiam ciclones, fecham os céus, brincam ao número de baixas e de balas, e deixam o chão cravado de valas e putrefação.

    3. Escuridão anterior à criação. Sem rosto de irmã ou de irmão. Só Deus pode dissipar este apagão e fazer refulgir uma luz, um clarão, como nas terras pisadas pelas guerras de Zabulão e Neftali, Estrada do mar, Galileia dos gentios. Também ali a luz rompeu tempos sombrios, e se instalou o júbilo e a alegria, e talvez também a feira e o mercado, porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, e é sobre os seus ombros que repousa a soberania e a alegria.

    4. Isto disse o profeta Isaías, que viu a escuridão da guerra assolar a Galileia. Mas, por uma brecha, ou por uma brecha e meia, entreviu a luz que incendiou a guerra e encheu de alegria a terra inteira. Foi por uma brecha, ou por uma brecha e meia, que entreviu a luz e anteviu Jesus, o menino para nós nascido em Belém da Judeia, um menino com divina soberania, filho de Deus e de Maria, que começou na Galileia a acender a mecha da alegria.

    5. Mas nem por isso os homens deixaram de construir castelos na areia, e de disparar disparates de todas as ameias. Valham-nos as ovelhinhas mansas, as doces abelhas que constroem casulos e colmeias, os passarinhos que admiravelmente constroem os seus ninhos, as operosas formiguinhas que constroem os seus celeiros, muito melhor do que os melhores arquitetos e engenheiros. Valha-nos Deus que preparou o seu berço numa manjedoura, e nos ensinou a fazer das nossas espadas relhas de arado e outros instrumentos de lavoura.

    6. Começámos a ensaiar. E anda já pelo ar um aroma a céu acabado de lavrar.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 50-51.


  • À nossa volta parece tudo escuro:

    espingardas, mentiras, raivas, ódios,

    Herodes a mais, Belém a menos,

    Belém outra vez sem paz e sem meninos,

    sem alegria, só com sangue e choro,

    sem coro e decoro de Natal.

    É como se o tempo corresse para trás,

    e para trás corresse também a água das fontes,

    o sopé dos montes,

    a linha que define os horizontes.

    Onde estamos, afinal? Onde chegamos?

    Quem somos? Para onde vamos?

    Não somos nós a humanidade por Deus criada?

    O que é feito da nossa liberdade e responsabilidade?

    Não partilhou connosco Deus

    o seu poder omnipotente,

    a sua ciência omnisciente,

    a sua presença omnipresente,

    a sua vida vivente?

    Para que servem os túneis, os paióis,

    os mísseis, os muros, as trincheiras?

    Por que investimos tão pouco em presépios,

    em presentes,

    em abraços, em flores, em sementes?

    Vem, Senhor Jesus,

    o mundo precisa tanto da tua Luz.

    António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, p. 52.