• A Igreja celebra hoje, dia 29 de agosto, o Martírio de São João Batista, mandado decapitar por Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, na fortaleza de Maqueronte, território da atual Jordânia, onde estava encarcerado.

    A sua paixão pela verdade levou-o à prisão. Jogos palacianos e levianas intrigas levaram-no à morte por decapitação. Como se fosse normal, no meio de luxuosos banquetes e de danças, apostar a cabeça de alguém!

    Este dia e as circunstâncias que envolvem esta decapitação põem diante de nós, por um lado, a força de uma testemunha da Luz e da Verdade, que é João Batista, e do outro, a leviandade alcoolizada de Herodes Antipas, Herodíade e Salomé, e um bom número de imperturbáveis convidados!

    Ao contrário do que se possa pensar, o martírio não revela o além, mas o aquém: a história humana é revelada de um extremo ao outro. O martírio é a negação do absurdo!

    São João Batista, testemunha da Luz e da Verdade, roga a Deus por nós, que às vezes nos perdemos em coisas tão banais!

    António Couto


  • Domingo XXII do Tempo Comum

    Jeremias 20,7-9; Salmo 63; Romanos 12,1-2; Mateus 16,21-27

    1. O Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Mateus 16,21-27) forma uma unidade de alto-a-baixo com o Evangelho do Domingo passado (XXI), em que escutámos a passagem imediatamente anterior (Mateus 16,13-20), em que o reconhecimento de Jesus como o Messias por parte dos discípulos, com Pedro à cabeça, constituía um importante passo em frente, como tal assinalado com louvor por Jesus. Todavia, o episódio terminava com Jesus a ordenar taxativamente aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias (v. 20). No Domingo passado não nos era dado saber a razão de tão clara proibição. Mas hoje, que ficamos a ter acesso ao texto integral, já não precisamos de ficar parados no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, sem nunca chegarmos a Jerusalém. De facto, hoje ficamos a saber que a conceção de messianismo que os discípulos atribuíam a Jesus diferia substancialmente da conceção messiânica de Jesus. A visão messiânica de Jesus implicava que Ele ia sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (v. 21). Ao passo que a visão messiânica dos discípulos, e do judaísmo em geral, implicava triunfo e sucesso, só triunfo e sucesso, sem sofrimento e sem morte. E foi por isso, para não dar azo a populismos e triunfalismos vãos e fáceis, que Jesus proibiu os seus discípulos de dizerem que Ele era o Messias.  Na verdade, depois de ter dado aos seus discípulos aquela ordem taxativa de não dizerem a ninguém que Ele era o Messias (v. 20), Jesus abre uma página nova logo no versículo seguinte, falando pela primeira vez, de forma explícita, da sua Paixão, Morte e Ressurreição. Assim: «começou a mostrar aos seus discípulos que é necessário (deî) – este deî implica necessidade divina ou teológica – que Ele vá para Jerusalém, que sofra muito da parte dos anciãos e dos sumo-sacerdotes e dos escribas, que seja morto, e que ressuscite ao terceiro dia» (v. 21). Sendo divina e teológica a dimensão deste dizer de Jesus, tal implica que este não deva ser visto como simples leitura ou interpretação dos «sinais dos tempos» (políticos, religiosos e outros), mas antes à luz da convicção que Jesus tinha da sua própria missão.

    2. Ouvindo estes dizeres incríveis de Jesus, Pedro «tomou-o consigo à parte» (proslabómenos autón), e começou a «recriminá-lo» (epitimãn autô), dizendo: «Deus te livre por graça (híleôs soi), Senhor; isso nunca (ou mê) te acontecerá» (v. 22). Que é como quem diz: «Não é esse o programa previsto para o Messias». Aí está como Pedro não viu nem mediu as palavras que disse, quando disse: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (v. 16), como vindas do Pai, por graça, como Jesus salientou na altura, mas como sua produção própria, dentro da sua cultura e religiosidade, colhidas na torrente da tradição religiosa judaica. Para Pedro, tudo normal. Tudo corrente. Tudo dentro do horizonte religioso judaico. Mas atenção que o que aconteceu com Pedro acontece connosco muitas vezes, tantas são as ocasiões em que não chegamos a compreender que anda por ali a graça de Deus e o dedo de Deus! Mas voltemos à atitude e às palavras de recriminação que Pedro dirigiu a Jesus. Salientemos em primeiro lugar que Pedro não enfrenta diretamente Jesus, mas usa de alguma discrição e confidencialidade, chamando-o à parte. Isto no que se refere à atitude, comedida e respeitosa. Prestando agora atenção às palavras de recriminação que Pedro dirige a Jesus, e que abrem com aquele: «Deus te livre por graça (híleôs soi), Senhor», ficamos com a sensação de que Pedro vê o quadro apresentado por Jesus, não tanto como meta a atingir, mas como um desastre a evitar. A expressão «Deus te livre por graça» (híleôs soi), difícil em grego, pode ser a reprodução da locução hebraica halîlah, muito habitual nestas ocasiões, que passa o mesmo sentido de que Deus não há de permitir que aconteça tal desgraça. Este sentido pode sair reforçado por aquela negação forte «isso nunca (ou mê) te acontecerá», com duas negativas acopladas (ou mê) que, por isso, não traduzi por um simples «não», mas por «nunca».

    3. Jesus responde a Pedro com palavras duríssimas e corretivas, violentas mesmo, sem nenhum aceno de diplomacia, visível até se compararmos o movimento corporal de Pedro e de Jesus: Pedro chama Jesus à parte, diríamos com uma certa discrição e confidencialidade, e a recriminação que dirige a Jesus tende a ajudar a amenizar a situação difícil e sem saída que Jesus acaba de expor. Jesus não faz uso de nenhuma diplomacia, volta-se sobre Pedro (strapheís), e diz-lhe publicamente: «Vai para trás de mim, Satanás (hýpage opísô mou, Satanâ)! Pedra de tropeço (skándalon) és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens» (v. 23). Ponto por ponto: 1) salta à vista, sobretudo porque temos antes a atitude diplomática de Pedro, o facto de Jesus se ter voltado para ficar frente-a-frente com Pedro e com todos. 2) «Atrás de mim» é o lugar do discípulo, exatamente o lugar que Pedro deve ocupar e para o qual foi chamado por Jesus: «Vinde atrás de mim» (deûte opísô mou), são estas as palavras que Jesus dirige a Pedro e a André, aquando do seu chamamento (Mateus 4,19). Portanto, Pedro deve seguir atentamente atrás de Jesus, e não postar-se à sua frente para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as suas ideias que colheu acerca do Cristo na torrente da tradição cultural e religiosa judaica, que são ideias de sucesso e de triunfo, e pretenda desligar Jesus do seu caminho duro e ensanguentado da Paixão e da Cruz. 3) Note-se, todavia, que o imperativo deûte, usado no chamamento dos discípulos, tem um colorido adverbial quase exortativo, ao passo que o imperativo hypáge, agora usado por Jesus em relação a Pedro, tem um colorido fortemente exclusivo; basta dizer que se trata do mesmo imperativo usado por Jesus para pôr Satanás fora do seu caminho, no relato das tentações (Mateus 4,10). 4) O apelativo «Satanás» pode ter no caso de Pedro o vulgar significado hebraico de «separador» e «adversário», mas é também claro que lembra o outro «Satanás» de Mateus 4,8-9, «o deus deste mundo» (2 Cor 4,4; Ef 2,1-3), que quer oferecer a Jesus um reino sem Cruz, atulhado de poder e glória, que são os valores deste mundo, e que é taxativamente exorcizado por Jesus, como já vimos (Mateus 4,10). Em nome dos nossos princípios cómodos adquiridos, ignoramos ou não queremos saber da graça de Deus que agora nos indica outros caminhos. 5) «Pedra de tropeço» (skándalon), colocada no caminho, é o sentido primitivo do termo grego skándalon. O sentido é fazer as pessoas tropeçar e cair, e impedi-las de continuar o seu caminho. É claro que Jesus, usando este termo, pretende pôr a claro que Pedro, talvez com boa intenção, lhe quer barrar o caminho do sofrimento e da Cruz e de acesso à Vida verdadeira.  Mas o leitor atento não pode deixar de olhar um pouco para trás e de tropeçar no contraponto: «Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (v. 18). É a exploração do duplo sentido da «pedra» e do nome de Pedro, positivo ou negativo.

    4. E o texto prossegue no mesmo tom determinado, com Jesus a dizer claramente aos seus discípulos que, para o seguirem, é preciso dizer não a si mesmos (aparnéomai), e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar. Semelhante exigência, num mundo em que a vida terrena (psychê) é o maior valor existente (v. 26), só faz sentido se houver a garantia de uma vida maior no horizonte. Dizer não a si mesmos implica entrar pelo caminho da morte terrena e seguir Jesus (v. 24), sabendo que é perdendo esta vida terrena que se ganha a vida em plenitude. Implica pôr em Jesus a sua confiança, e não nos bens, que nos gritam todos os dias: «confiai em nós!» (apólogo judaico de 1700). «Perder a vida por causa de mim» (v. 25), diz Jesus. O que Jesus diz a estes discípulos e a nós, que valorizamos tanto esta vida terrena, é que perdê-la é um pequeno preço para ganhar a vida eterna. Entenda-se: perder esta vida terrena desta maneira é perder-se nos caminhos de Jesus, «imitando-o verdadeiramente, e não segui-lo só com os pés», para o dizer com as palavras sábias de Erasmo de Roterdão (1469-1536). Perder a vida não implica ganho nenhum. É a vida perdida por lealdade a Jesus que garante que se ganhe a verdadeira vida.

    5. Por tudo isto se vê por que razão Jesus ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: «Tu és o Cristo!». Mas, como acabámos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», nela não cabia ainda o sofrimento, a rejeição, a morte, nem a ressurreição, e muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo», a um «Cristo» assim (vv. 21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do judaísmo desde há muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excelência para os judeus, libertando-os dos seus adversários, do sofrimento e da morte. Viria, enfim, pôr fim a todas as necessidades, discórdias e disputas, à guerra, à doença, à velhice e à morte, a tudo aquilo que perturba e diminui os níveis da nossa vida quotidiana. Ele viria trazer a plenitude da vida. É por isto que Pedro e aqueles discípulos seguem Jesus, e não porque andem à procura de novas ideias religiosas, ou queiram aprender alguma oração nova. Portanto, se os discípulos de Jesus fossem dizer que Ele era o Cristo, era isto que iam dizer, e era isto que a sua audiência judaica ia perceber. Gerar-se-ia uma onda de entusiasmo popular, de populismo, que soaria a falso, como quando nós ainda hoje falamos de messianismo.

    6. O que é que nós dizemos quando dizemos Cristo? E a nossa maneira de viver é verdadeiramente a de quem segue Cristo? Não o Cristo da tradição do triunfo e do sucesso, mas o Cristo de Deus? É verdade que o Cristo de Deus vem trazer a plenitude da vida, mas não é como Pedro pensava. Muito menos como hoje, em que são cada vez menos os que ainda veem alguma coisa para além de um buraco e de um monte de terra!

    7. O caminho de Jesus é paradoxal e provocatório. Assim o considerou Pedro, mal ouviu a versão nova de Jesus acerca do seu messianismo. Demorou tempo, equivocou-se várias vezes, ficou parado no caminho, ensonado, dissentido, aqueceu-se a outro lume, mas quando foi atingido em cheio pela graça e pela força do Ressuscitado, seguiu Jesus apaixonadamente até ao sangue, não apenas com os pés, portanto. É neste caminho ardente que se pode inserir mais uma passagem das chamadas «confissões» de Jeremias, hoje Jeremias 20,7-9. Olhando para o rastro da sua vida, Jeremias confessa que foi irresistivelmente seduzido pelo seu Deus, para logo o acusar, no limite da blasfémia, de velhacaria e engano, pois o abandonou à sua sorte, colocando-lhe na boca palavras violentas e deixando-o à mercê dos seus opressores, que zombam dele e o torturam sem descanso. Neste contexto, Jeremias confessa-se desanimado e tentado a abandonar a sua missão de profeta. Mas a Palavra de Deus volta a assaltá-lo como um fogo, uma lava ardente de que não se pode fugir, pois arde dentro de nós (Jeremias 20,9). E como é que se pode fugir de um fogo que arde dentro de nós?

    8. As «confissões» de Jeremias encontram-se em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a meia dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias e subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 586, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá.

    9. Não coisas exteriores a nós, mas nós mesmos em oferta a Deus, eis o «culto lógico» (latreía logikê), isto é, racional, integral, pessoal, que Paulo nos exorta a prestar a Deus, conforme a lição de hoje da Carta aos Romanos 12,1-2, um texto curto, mas imenso. Claro, tudo sempre envolvido na graça preveniente, concomitante e consequente que nos vem de Deus e nos enche de bondade e de beleza, e que faz da nossa vida sacrifício agradável a Deus.

    10. De toda esta intensidade faz eco o Salmo 63, conhecido como «o canto do amor místico», em que o orante descreve a sua sede psicobiológica de Deus. Sem Deus, estiola e morre. Santa Teresa de Ávila, de quem, em 2015, celebrámos o V Centenário do seu nascimento, descreveu assim esta sede, no seu Caminho de perfeição: «A sede exprime o desejo de uma coisa, mas um desejo de tal modo intenso, que morremos se não o saciarmos».

    António Couto


  • A Igreja dedica o dia de hoje, dia 27 de agosto, a Santa Mónica, e dedica o dia de amanhã, 28 de agosto, a Santo Agostinho, mãe e filho. O papel de Santa Mónica ficou um pouco na sombra, devido ao fulgor do seu filho, Agostinho. Mas ninguém pode apagar as lágrimas e a oração de Mónica, que muito chorou e lutou na oração pelo seu filho. E ganhou a luta. Foi, portanto, com alegria imensa que hoje celebrámos esta grande mãe, do mesmo modo que amanhã celebraremos Santo Agostinho, um dos Santos mais ilustres, queridos e conhecidos da Igreja. Nascido em Tagaste, norte de África (atual Argélia), no dia 13 de novembro, Domingo, do longínquo ano de 354, experimentou, na sua juventude, as futilidades da vida. Mas nada disso, nem riquezas, nem prazeres, nem académicas discussões, lhe enchiam a alma. Agostinho não procurava qualquer coisa, qualquer simples remedeio ou acessório. Procurava a Verdade, e correu o mundo à procura da Verdade. Foi assim que um dia chegou a Milão, e se pôs a ouvir as catequeses de Santo Ambrósio. E foi assim que, conta ele mesmo nas suas “Confissões”, Livro VIII, Capítulo 12, em finais do verão do ano 386, não conseguindo dormir, veio para o jardim anexo à casa onde residia, e, envolto em lágrimas, deitou-se debaixo de uma figueira. E eis que, conta ele, saída de uma casa vizinha, começou a ouvir a voz de uma criança que cantarolava repetidamente uma canção, cuja letra era: “Toma e lê! Toma e lê! Toma e lê! Toma e lê!”, e assim continuava. Foi então que Agostinho se apercebeu de que uma criança não costuma trautear uma letra assim, e foi por isso levado a pensar que devia ser um recado para ele. Subiu logo ao quarto, onde tinha sobre a mesa um rolo das Cartas de São Paulo, desenrolou à sorte, também à sorte pôs o dedo, e leu: «Não em orgias e bebedeiras,/ não em devassidão e libertinagem,/ não em rixas e ciúmes,/ mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo». Agostinho acabava de ler a Carta aos Romanos, Capítulo 13, versículos 13-14. Estava ali tudo: a sua vida passada, mas também o futuro que se lhe abria diante dos olhos: revesti-vos do Senhor Jesus Cristo! No ano seguinte, em 24 de abril, Páscoa de 387, foi batizado por Santo Ambrósio na Catedral de Milão, regressou entretanto a África, e veio a ser depois eleito bispo de Hipona, norte de África, dando um imenso testemunho de Cristo, com a sua vida vivida e escrita. Morreu no dia 28 de agosto do ano 430.

    Neste tempo de tantas futilidades e procuras, Santa Mónica e Santo Agostinho, rogai por nós!

    António Couto


  • A Igreja celebra hoje a festa do Apóstolo São Bartolomeu, também conhecido por Natanael, que era de Caná da Galileia. Fosse de onde fosse, era um homem verdadeiro, sem dolo, mentira ou fingimento. Acreditava na esperança. Deitava a cabeça no travesseiro da paz e da alegria. Acreditava que amanhã chegaria o Messias, e que só por isso já valia a pena viver. Foi Filipe que o levou até Jesus. Ao ver este homem reto, sem truques nem reboco nem maquilhagem, Jesus disse logo: «Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento!», o que levou Natanael a retorquir: «De onde me conheces?». Ao que Jesus respondeu: «Antes que Filipe te chamasse, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira!». Deitar-se debaixo da figueira, e alimentar-se dos seus frutos, sem outras preocupações, é um dos sinais da paz messiânica, e dos céus abertos, escada de Jacob a fazer descer Deus e os anjos até nós. Mundo novo, dom de Deus. «Dom de Deus» é o significado do nome «Natanael».

    Bom dia te dê Deus, amigo e irmão. Rezo por ti.

    António Couto


  • No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha.

    Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos.

    O Rei e a Rainha não são, na Escritura Santa, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar, a felicidade e a paz. Mas também para elevar até Deus tantos anseios, sobretudo de Paz, que hoje inundam o coração dorido da humanidade. É esta a função do Rei e da Rainha.

    Entende-se bem, neste sentido, o título de Rainha dado a Maria. Ninguém como ela sente o pulsar do coração de Deus. Ninguém como ela leva os seus filhos pela mão até ao coração de Deus.

    Virgem Santa Maria, Rainha da Paz, vela por nós, nestes tempos turvos em que as armas voltam a falar mais alto do que os intentos de Paz.

    António Couto


  • Quem dizeis vós que Eu sou?,

    pergunta Jesus àqueles

    que há muito seguiam os seus passos

    e devoravam as suas Palavras.

    Note-se que a pergunta de Jesus

    não é acerca do saber,

    mas acerca do dizer.

    O saber não compromete,

    mas o dizer compromete.

    Tu és o Cristo,

    o Filho do Deus vivo!,

    responde Pedro em Cesareia,

    distinguindo bem Jesus

    do deus Pã

    e do imperador César Augusto.

    Portanto,

    Pedro responde

    que Jesus é Único,

    que nada tem a ver

    com a multidão dos deuses pagãos,

    com os imperadores considerados divinos,

    nem sequer com qualquer dos profetas.

    Também tu és único,

    atalha Jesus:

    tu és Pedro,

    e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja!

    Jesus fala em dois teclados:

    Pedro é a pedra firme (pétra),

    alicerce da Igreja,

    mas é também a pedra esburacada (kêfãs),

    como uma gruta,

    berço e guarda dos filhos de Deus.

    António Couto


  • Domingo XXI do Tempo Comum

    Isaías 22,19-23; Salmo 138; Romanos 11,33-36; Mateus 16,13-20

    1. Cesareia de Filipe, antiga Pânias, atual Banyas (nome árabe), na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o Evangelho (Mateus 16,13-20) deste Domingo XXI do Tempo Comum. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Ali construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar em tempos de paz.

    2. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13). Dizem-lhe que o povo pensa que Jesus é um profeta. A resposta não está errada. Jesus é, de facto, um profeta. Mas também não se pode considerar certa. E não se pode considerar certa, porque um profeta é um entre muitos: antes dele apareceram muitos; depois dele, outros poderão aparecer. Mesmo que a resposta fosse que Jesus é, não um profeta, mas «o profeta» (cf. João 6,14), a resposta estaria igualmente errada, uma vez que também não respeitaria a singularidade de Jesus, mas o apresentava em linha com Moisés: seria «o profeta como eu» anunciado por Moisés em Deuteronómio 18,15. O que vem ao de cima é que o povo não vê em Jesus uma pessoa singular e única, ligada a Deus de um modo único. Ouvida esta resposta, Jesus avança, logo de seguida, de forma direta e enfática, com uma nova pergunta, direta e muito mais implicativa: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta nova e diferente, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas», não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai: «não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai, que está nos céus» (Mateus 16,17). Claro que Pedro tinha sido chamado por Jesus (Mateus 4,18-19). Ficamos agora a saber que também tinha sido predestinado pelo Pai (Romanos 8,29-30). Note-se, porém, que esta ligação do dizer de Pedro ao Pai é feita por Jesus, e parece que Pedro não se terá sequer apercebido disso.

    3. De forma diferente do povo, Simão Pedro atinge a singularidade de Jesus. Enquanto «Cristo» ou «Messias», Jesus não é apenas um entre muitos. É único, primeiro e último, definitivo (nunca houve outro, e não haverá outro), enviado por Deus para dar à humanidade a plenitude da vida. E enquanto «Filho do Deus Vivo», Jesus está com o Pai numa relação singular e única de conhecimento, igualdade, vida. Tal como o Pai, que é o Deus Vivo, que tem a Vida em si mesmo, também o Filho é e tem a Vida em si mesmo (João 5,26). Entenda-se bem, no entanto, que Pedro diz o que diz, não devido aos conhecimentos, competência e capacidade adquiridos, mas por graça, por revelação do Pai. É sobre este dizer de Simão Pedro e sobre o Simão Pedro deste dizer, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pedro» – «pedra» (Pétrospétra). Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Igreja ou comunidade messiânica segura. As «portas do Hades» (pýlai hádou), semitismo para dizer «o reino da morte» (e não do Inferno), não prevalecerá contra ela, a Casa da Vida. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

    4. Mas a forma originária para designar a rocha é kef, aramaico kêfa’, que mostra a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaf, palma da mão; kef, rochedo esburacado (grutas); kêfa’ (aramaico), rochedo esburacado; kêfãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kafar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

    5. Note-se bem a precisão da pergunta de Jesus. De facto, Jesus não pede aos seus discípulos que se pronunciem ou deem a sua opinião acerca do Sermão da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus é acerca de Si mesmo, da sua própria identidade, da sua pessoa, e do grau de implicação dos discípulos com Ele. Daí que Jesus pergunte, não sobre o saber, mas sobre o dizer. Pedro diz. Não se trata de pensar ou opinar. Não se trata de saber. O saber não compromete a minha maneira de viver. Trata-se de dizer. Quem diz, compromete-se, dá testemunho. Por isso, face ao dizer de Pedro, Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam uma autoridade própria. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui uma autoridade própria em sede administrativa, jurídica, científica, interpretativa. É nessa perspectiva que o texto de Isaías 22,19-23, que é também lido neste Domingo, fala do «rito das chaves» e da autoridade retirada a Chebna e conferida a Eliaqîm.

    6. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

    7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar-não perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar-não perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, com Pedro, como Pedro, não alijando responsabilidades, mas operante na prática quotidiana do Perdão! A comunidade toda comprometida a desenhar o mapa novo do Perdão, a Praça do Perdão!

    8. O texto do Evangelho de hoje termina registando a ordem taxativa de Jesus aos seus discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo ou o Messias (Mateus 16,20). O texto inteiro deste Evangelho (Mateus 16,13-20) é, então, percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

    9. Para sabermos a razão, temos de esperar pelo próximo Domingo (XXII), pois é aí que escutaremos Mateus 16,21-27, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (Mateus 16,13-20). Na verdade, o texto integral de Mateus 16,13-27, dividido por estes dois Domingos, forma uma unidade incindível.

    10. Entretanto, que o nosso coração esteja cheio do amor primeiro de Deus, e que o louvor que lhe é devido encha os dias da nossa vida. É a bela oração de Paulo na Carta aos Romanos 11,33-36.

    11. À bela oração de Paulo junta-se hoje a voz do orante do Salmo 138 com a sua bela Ação de Graças, que é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

    António Couto


  • Estou aqui parado

    no meio deste mar encapelado,

    de onde nada se avista

    senão densos bancos de nevoeiro,

    nenhum horizonte,

    nenhuma pista.

    Mas é como se estivesse a ver

    aquela mulher e mãe libanesa,

    que se aproxima de Jesus aos gritos,

    e lhe suplica pela sua filhinha,

    cruelmente atropelada

    pelos demónios da guerra.

    À primeira vista,

    Jesus não lhe responde palavra,

    parece não querer saber,

    e continua a seguir o seu caminho

    sem nada lhe doer.

    São os discípulos que lhe imploram:

    “atende-a, Senhor,

    são insuportáveis os seus gritos”.

    Jesus avança então uma resposta duríssima:

    não se dá o pão dos filhos aos cachorrinhos.

    Mas aquela mulher e mãe libanesa

    não se deu por vencida,

    e respondeu

    que também os cachorrinhos comem

    as migalhas

    que caem da mesa dos donos.

    Jesus não podia mais ficar indiferente,

    e profere uma resposta comovente:

    “mulher da grande fé,

    faça-se como queres”.

    Compreende-se que uma mãe

    lute até ao fim pela sua filha,

    e nunca chegue a desistir de Jesus.

    Compreende-se também

    que face a este imenso paradigma,

    Pedro e os discípulos de Jesus

    não cheguem a passar

    de homens da pequena fé.

    António Couto


  • Domingo XX do Tempo Comum

    Isaías 56,1.6-7; Salmo 67; Romanos 11,13-15.29-32; Mateus 15,21-28

    1. O Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum serve-nos uma página absolutamente desarmante, retirada de Mateus 15,21-28. Desarmante e insólita, pois quando se trata de curar doentes, não é normal que Jesus se faça rogado tanto tempo. A norma é curá-los imediatamente. Mas aqui, é só à quarta tentativa (outra vez o esquema 3 + 1), após três tentativas da mulher e uma quarta dos discípulos (na verdade é a segunda), que Jesus se decide a curar a filha desta mulher e mãe libanesa. O extraordinário episódio acontece quando Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, atual Líbano, terra pagã. Na maneira de ver do Antigo Testamento, a região de Tiro e de Sídon, a noroeste da Galileia, sobre a costa do Mediterrânio, era uma terra tipicamente pagã.

    2. Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama da sua filha doente, situação verdadeira ontem como hoje, talvez ainda mais hoje após o drama da recente explosão no porto de Beirute (4 de agosto de 2020) e das muitas explosões que ainda hoje continuam, e que podemos ainda estender à Israel, à Palestina, a Gaza, à Síria, ao Irão, ao Iraque e a tantos outros lugares do Médio Oriente, vem implorar de Jesus, num grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (eléêsón me, kýrie) (v. 22), isto é, que olhe para ela com bondade e ternura, como ela bem sabia, pois «fazer graça» é coisa de mãe que dirige o seu olhar embevecido para o bebé que embala nos seus braços. Atente-se ainda no facto de esta mulher e mãe libanesa se dirigir a Jesus chamando-o «filho de David» (v. 22), aparecendo assim a confessar o messianismo de Jesus ainda antes de Pedro, facto que terá lugar um pouco mais à frente, em 16,16.

    3. A este primeiro pedido da mulher, refere o texto que Jesus nem lhe respondeu (v. 23). Mas a mulher não desiste. Antes, insiste e persiste, e continua a gritar, a gritar, a gritar, de tal modo que agora são até os discípulos que pedem (segundo pedido) a Jesus que a despache, «porque ela vem a gritar atrás de nós» (ópisthen hêmôn), dizem eles (v. 23b). Equívoco deles e nosso. Não é verdade que aquela mulher e mãe «libanesa» venha a gritar atrás deles ou de nós, para eles ou para nós. Está bom de ver que ela grita atrás de Jesus e para Jesus! E, com esta atitude de seguir atrás de Jesus, aqui está ela, sabendo-o ou não, a assumir a posição de discípula! E leva a sua insistência ainda mais longe, prostrando-se (verbo grego proskynéô) agora diante de Jesus, e formulando o seu segundo pedido (terceiro do relato): «Senhor, ajuda-me!» (kýrie, boêthei moi) (v. 25). O gesto da prostração significa orientar a sua vida toda para Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reação de Jesus é de uma dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, dizendo-lhe: «Não está bem (kalón) que se tome o pão dos filhos, para o lançar aos cachorrinhos» (v. 26), catalogando assim aquela pobre mulher e mãe «libanesa» na classe dos cachorros, isto é, dos pagãos, e não dos filhos, isto é, judeus (v. 26). A lição de Marcos 7,27, texto paralelo do nosso texto de Mateus 15,26, é mais clara. Ao pedido instante da mulher e mãe libanesa, Jesus responde: «Deixa que primeiro (prôton) sejam saciados os filhos…». Este «primeiro» reconhece a prioridade de Israel, mas deixa aberto um «segundo», um «depois», uma porta aberta para os pagãos, pois convida a entrever o porvir da missão que há de um dia chegar também a casa desta mulher e mãe libanesa e a todas as casas dos que esperam a hora da realização da sua esperança! Mas esta mulher leva consigo uma necessidade tão urgente, que não pode esperar!

    4. À resposta dura de Jesus, a mulher replica de modo admirável! É a sua terceira intervenção, que carrega o quarto pedido do relato. A resposta daquela mulher e mãe é de tal modo cortante, que deve ser traduzida à letra, para não se perder a sua força. Ela responde: «Mas sim, Senhor (naí kýrie)! É verdade que também os cachorrinhos se alimentam das migalhas que caem da mesa dos seus donos!» (v. 27). Face a este vendaval manso de humildade e de ternura, Jesus replicou: «Ó Mulher, grande é a tua fé!» (ô gýnai, megálê sou hê pístis), e acrescentou: «faça-se como queres!» (v. 28).

    5. Dizendo o que diz e como diz, Jesus aponta esta Mulher como modelo e ilustração da fé. Note-se bem que é a única vez que Jesus fala de «grande fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da «grande fé», note-se também, para que doa mais aos nossos olhos, que Pedro é o homem da «pequena fé» (oligópistos), como vimos no episódio do Domingo passado (cf. Mateus 14,31), do mesmo modo que os discípulos de Jesus são várias vezes apontados como os homens «da pequena fé» (oligópistoi) (cf. Mateus 6,30; 8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres» (genêthêtô hôs théleis), um paralelo exato do que pedimos a Deus na oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (genêthêtô tò thélêmá sou) (Mateus 6,10)!

    6. O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas. Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: de hebraeos ad gentes, dos hebreus para os pagãos! Mas fica também às claras o desmascaramento do ridículo das nossas atitudes falsamente endeusadas, de nós, que nos dizemos discípulos de Jesus, e que às vezes somos levados a pensar que as pessoas vêm «atrás de nós», que temos especiais saberes e poderes, e que até podemos conseguir de Deus especiais favores! Em boa verdade, discípula de Jesus é a pobre mulher e mãe do Evangelho de hoje, que vai «atrás de Jesus», que «se prostra diante dele», que grita para Ele, e que mostra uma fé indomável e inquebrantável!

    7. Enquanto tentamos compreender melhor a ousadia da grande fé desta mulher e mãe «libanesa», que enche claramente este Domingo XX, não deixemos também de contemplar o rumor missionário que se faz ouvir, em perfeita sintonia, nas demais passagens ou paisagens bíblicas de hoje. Em primeiro lugar, e em pura sintonia com a universalidade do Evangelho, aí está a lição igualmente aberta de Isaías 56,1-7, que adscreve mais um belo nome a Jerusalém: «Casa de oração para todos os povos» (Isaías 56,7). Jesus citará este texto de Isaías em Mateus 21,13, Marcos 11,17 e Lucas 19,46. Em Mateus e Lucas, só a primeira parte é referida: «A minha casa será chamada casa de oração». Só em Marcos, a citação aparece por inteiro: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos». Mas Isaías continua a anunciar que os estrangeiros que quiserem servir e amar o Deus Santo e ser fiéis à sua aliança, serão por Ele conduzidos ao Monte Santo, e os seus sacrifícios e holocaustos serão do agrado de Deus (Isaías 56,6-7). Alguns desses estrangeiros serão mesmo escolhidos por Deus para sacerdotes e levitas (Isaías 66,21). Como são insondáveis os caminhos do Senhor! (cf. Romanos 11,33).

    8. Mas este tom de comovida universalidade já se tinha feito ouvir, de forma surpreendente, em Isaías 19,24-25, em que Deus une na mesma bênção o Egito, a Assíria e Israel, sendo o Egito e a Assíria inimigos de Israel. Soa assim o requintado dizer de Deus: «Bendito o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança». O amor de Deus não conhece barreiras. A mesma admirável lição se encontra no Salmo 87,4, um maravilhoso Cântico de Sião: «Recordarei Raab e Babel entre os que me conhecem; eis a Filisteia e Tiro e a Etiópia: este nasceu lá». Eis Deus a escrever no livro anagráfico os nomes dos seus filhos. E aí vemos outra vez inscritos os inimigos de Israel: Raab, que é o Egito (Isaías 30,7), a Babilónia, os Filisteus, e os estrangeiros mais estrangeiros, a Etiópia (do grego aíthô [= acender, queimar], e ôps [= rosto]), que é o país das pessoas de rosto queimado ou de cor negra, o país do fim do mundo, como escreve Homero, no princípio do Canto I da Odisseia.

    9. Vai ainda no sentido da universalidade a lição de hoje da Carta aos Romanos 11,13-15.29-32. São Paulo intitula-se aí «Apóstolo das nações» (v. 13), e diz-nos que Deus usa de misericórdia para com todos (v. 32). É, porém, um facto que o Israel qualificado, entenda-se, a minoria mais fiel e religiosa, não aceitou a visita de Deus mediante o Filho. Foi por esta razão que Paulo foi enviado aos pagãos. Mas os israelitas continuam a ser «amados» (agapêtoí) de Deus (v. 28), e são-no para sempre, tal como o Filho Único é «amado» (agapêtós), pois a Vontade de Deus não muda.

    10. Por isso, bem podemos hoje, com o Salmo 67, juntar as nossas vozes às vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que a todos faz graça e misericórdia. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo 67 recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

    António Couto


  • Nossa Senhora da Assunção,

    Santa Maria do verão,

    ao céu elevada,

    à minha beira sentada,

    com sua roca de linho,

    e um novelo inteiro de carinho.

    Olha por nós,

    Senhora da Assunção,

    não nos deixes sós,

    dá-nos sempre a mão,

    vela pelos velhinhos,

    na hora da sua agonia,

    não nos deixes morrer

    por míngua de oração

    ou de alegria.

    Envolve-nos, Senhora,

    no teu manto,

    no teu manto de luz,

    que nos alumia,

    e mostra-nos Jesus,

    que alivia

    as nossas dores

    e os nossos temores

    nesta hora de dor e de anemia.

    Ave-Maria!

    António Couto


  • Apocalipse 11,19; 12,1-6.10; Salmo 45; 1 Coríntios 15,20-27; Lucas 1,39-56

    1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), prevalecendo no Ocidente a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

    2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio evangélico que o Ocidente conhece por «Visitação» (episkopê) recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Batista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

    3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel, em casa de quem permanece cerca de três meses, e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Batista, dançando ao som dessa música nova e inefável, no ventre de Isabel.

    4. Maria levantou-se e correu apressadamente (Lucas 1,39a). Por isso, corre sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…». Feliz evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida, não por uma pressa qualquer, mas por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» [= «Bendita tu e bendito Deus»], lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde (póthen) me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lucas 1,43) remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Batista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece cerca de três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus, quando recita a ladainha de Nossa Senhora.

    5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?”. Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

    6. Aí está, a descoberto, na lição do Livro do Apocalipse (11,19; 12,1-6.10), a Arca da Aliança, a Mulher messiânica, a Igreja, Maria, grávidas de um Filho que nasceu e foi arrebatado para junto de Deus (v. 5), nascimento e ascensão, nascimento logo seguido da ascensão, fora das pautas habituais, «sinal» para sempre aceso e legível da presença viva e ativa de Deus no meio de nós, como a luz de uma vela, para a celebração festiva dos filhos de Deus reunidos. Avista-se, porém, outro «sinal» de sinal contrário, que serve para nos manter unidos e atentos no meio das dificuldades e perseguições desta vida que, todavia, não devem toldar-nos a vista da salvação e da vitória, claramente a descoberto no horizonte onde brilha a esperança: «Agora cumpriu-se a salvação, a força e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo» (v. 10).

    7. O final da Primeira Carta aos Coríntios (15,20-27) põe um imenso selo de luz e de esperança na celebração luminosa deste Dia. Com a Ressurreição de Cristo salta à vista a poeira de toda a iniquidade e falsidade e morte, e já se vê a «assunção» da nossa frágil humanidade em Cristo e por Cristo até Deus Pai. «Cristo foi ressuscitado (egêgertai: perf. pass. de egeírô) dos mortos, primícias (aparchê) dos que adormeceram» (1 Coríntios 15,20). Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro e primícias, então representa-nos a todos e constitui promessa e certeza para todos. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida de todos os homens.

    8. O belíssimo Canto de Amor, que é o Salmo 45, serve hoje para celebrar a Igreja Esposa e Mãe e Maria Esposa e Mãe. Este belo hino, como o Cântico dos Cânticos, canta o Amor, que é sempre divino e humano. Na verdade, no amor humano pode ler-se o amor revelado por Deus, pelo que, se existe o amor, existe Deus, dado que o amor vem de Deus (1 João 4,7). Não admira, por isso, que este Salmo tenha sido interpretado em clave messiânica quer no judaísmo quer no cristianismo.

    9. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 01 de novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Santa Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus aclama, proclama e vive com amor intenso esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser excepção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

    10. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

    11. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura iluminada como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

    12. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

    António Couto


  • A Igreja celebra no dia 14 de agosto a memória ilustre de São Maximiliano Maria Kolbe, morto com uma injeção letal em Auschwitz a 14 de agosto de 1941, véspera da Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria. Sim, Maximiliano Maria tinha sido, ao longo da sua vida, um incansável apóstolo da Virgem Mãe de Deus, tendo fundado e expandido pelo mundo inteiro a chamada «Milícia da Imaculada», vindo ele a ficar conhecido como «Cavaleiro da Imaculada». Nascido em 1894, e ordenado sacerdote franciscano em 1918, lutou com todas as suas forças e fraquezas, da Europa até ao Japão, para onde partiu como missionário, para implantar um mundo à imagem da grandeza de Jesus e da Virgem Imaculada. Regressado à Polónia, crescia cada vez mais a sua oração e pregação direta e através de jornais, revistas e da rádio. Foi preso pela Gestapo, e libertado. Com invulgar clarividência e inaudita coragem, escreveu então no Cavaleiro da Imaculada, jornal de periodicidade mensal com tiragem superior a um milhão de exemplares: «Ninguém no mundo pode mudar a verdade. O que podemos fazer é procurá-la e servi-la, quando a tivermos encontrado. O conflito real de hoje é um conflito interno. Mais além dos exércitos de ocupação e das hecatombes dos campos de extermínio, há dois inimigos irreconciliáveis no mais profundo de cada alma: o bem e o mal, o pecado e o amor. De que nos adiantam vitórias nos campos de batalha, se somos derrotados no mais profundo das nossas almas?».

    Foi então novamente preso e levado para Auschwitz em fevereiro de 1941. Tendo fugido um prisioneiro, os guardas sortearam dez prisioneiros para morrer à fome e à sede no chamado bunker da morte. A funesta sorte não saiu a Maximiliano. Mas caiu, entre outros, sobre um pobre marido e pai. Sensibilizado, Maximiliano ofereceu-se para morrer em vez dele no bunker da fome. Como ao fim de 15 dias, ainda estava vivo, foi-lhe então aplicada uma injeção letal. Foi canonizado em 1982, com a presença comovida e agradecida em Roma do homem por quem Maximiliano Maria deu a vida.

    São Maximiliano Maria Kolbe, ensina-nos a rezar e a amar até dar a vida. E ensina-nos também, porque, por vezes, andamos muito equivocados que «Ninguém no mundo pode mudar a verdade».

    António Couto


  • Barcas ao largo,

    corações ao alto,

    em pura sintonia com a alegria do Evangelho,

    ide!

    Ide!

    E entrai em cada coração,

    semeai a paz,

    saboreai o pão que houver,

    e que a mão de Deus vos der.

    Não largueis nunca essa mão de amor.

    É ela que vos guia

    rumo à alegria

    da messe e da missão.

    Acolhe, Senhor, a minha prece

    por todos os que continuam a levar o teu amor

    a toda a humanidade

    e a fazer de cada coração

    a casa mais bela da cidade.

    António Couto


  • Elias anda ao sabor de Deus,

    como um moinho ao vento,

    como um pássaro ao relento,

    como a voz de um fino silêncio,

    a amadurar no coração de um grão de trigo

    ou de um amigo.

    Como se pode combater este incêndio,

    apagar esta chama que chama,

    calar a voz deste fino silêncio,

    fugir deste bisturi que levamos cá dentro?

    Jeremias tem outra vez razão:

    é mais fácil enfrentar um furacão.

    Esse, ao menos,

    sabemos de onde vem e para onde vai!

    António Couto


  • A Igreja celebra hoje, dia 8 de agosto, a memória de S. Domingos.

    São Domingos nasceu no Reino de Castela por volta do ano 1170,

    e morreu em Bolonha em 6 de agosto de 1221.

    Os tempos eram então difíceis para a Igreja,

    que se via a braços com múltiplas heresias.

    Uma delas, muito em voga no sul da Europa,

    era a dos Albigenses, que professavam e espalhavam o maniqueísmo.

    A sua forma de viver era, porém, pobre e simples,

    muito ao jeito do Evangelho,

    o que levava as pessoas a aderir em massa.

    Os delegados pontifícios, enviados a combater esta heresia,

    vinham cheios de pompa, luxos, carros e criados,

    e não obtinham qualquer sucesso.

    São Domingos leu bem a situação,

    e fez-se pregador simples e pobre.

    Abraçava o Evangelho, que sabia de cor,

    e falava quase só com Deus e de Deus.

    Falava com Deus: rezava;

    falava de Deus: pregava.

    Muitos o seguiram.

    Em 1206 começou a organizar comunidades de pregadores itinerantes.

    Em 1215, em Toulouse,

    fundou a Ordem dos Pregadores (Dominicanos),

    aprovada pelo Papa Honório III em 1216.

    Dedicavam-se à oração e à pregação.

    São Domingos enviava-os a pregar dois a dois,

    ao jeito do Evangelho.

    Foi canonizado pelo Papa Gregório IX em 1234.

    Como precisamos hoje de voltar a Deus e ao Evangelho

    e à sua simplicidade e alegria nova.

    Nosso Pai São Domingos, rogai por nós!

    António Couto


  • Domingo XIX

    1 Reis 19,9a.11-13a; Salmo 85; Romanos 9,1-5; Mateus 14,22-33

    1. A Igreja primitiva considerava a Barca como figura da Igreja. Tertuliano (150-220) parece ter sido o primeiro a expressar esta temática por escrito (De Baptismo, XII, 7). E é fácil perceber a ligação: a Barca aparece como um dos lugares em que Jesus está no meio dos seus discípulos e a sós com eles. De facto, a Barca demarca um espaço privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus discípulos. Mais ninguém entra nesta Barca. No relato de Mateus, apenas por uma vez, e é o texto que temos a graça de escutar neste Domingo XIX (Mateus 14,22-33; cf. Marcos 6,45-52; João 6,16-21), os discípulos sobem sozinhos, sem Jesus, para a Barca e dirigem-se para a outra margem do Mar da Galileia. Jesus não sobe para a Barca com eles, mas é Ele que os força a subir para a Barca e a fazer a travessia (v. 22). Enquanto os discípulos são forçados a embarcar nesta aventura, Jesus despede a multidão e sobe ao monte para rezar a sós (v. 23). Veio a noite, e a Barca, com os discípulos a bordo, já navegava em pleno Mar. Entretanto, as ondas começaram a agitar a Barca, pois o vento era contrário (v. 24), e é sabido que estas embarcações eram pouco resistentes. A arqueologia pôs a descoberto, na costa ocidental do Mar da Galileia, nas proximidades de Magdala, uma Barca de pesca do tempo de Jesus. Media 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura. Já se vê que se trata de uma embarcação frágil, presa fácil dos ventos e das ondas. A Igreja como a Barca, frágeis as duas, com Jesus por perto e seguindo as suas ordens.

    2. Importa sublinhar e não perder de vista que Jesus está no monte a rezar. E, no Evangelho de Mateus, o monte, muitas vezes referido neste Evangelho, traz consigo a iniciativa de Jesus e mostra-o a abraçar e a abrir caminhos novos para a nossa frágil humanidade. É assim o deserto e o monte da tentação (Mateus 4,8), que prepara o início da pregação pública de Jesus, o monte das bem-aventuranças (Mateus 5,1), o monte da oração (Mateus 14,23), o monte das curas (Mateus 15,29-31), o monte da Transfiguração (Mt 17,1.9) e, finalmente, o monte indicado por Jesus na Galileia (Mateus 28,16), monte do reencontro de Jesus com os seus discípulos e do envio por todo o mundo e todo o tempo a anunciar o Evangelho.

    3. Portanto, do cimo do monte em que reza ao Pai, Jesus não deixa de velar pelos seus discípulos, atarefados a lutar com o escuro da noite, os ventos e as ondas. Esta importante cena de contornos pedagógicos em que os discípulos são, por assim dizer, atirados para a luta por Jesus, serve para fazer compreender aos discípulos que vão encontrar dificuldades e que vão ter de as enfrentar, mas que não vão conseguir resolvê-las sozinhos. Tenhamos sempre presente que esta situação foi preparada por Jesus, que forçou os seus discípulos a subir sozinhos para aquela Barca e a avançar mar adentro para a outra margem. Lição para os discípulos: é Jesus que nos envia, não para um mundo cómodo, feito à medida, mas para um mundo repleto de perseguições e adversidades. E é ainda neste contexto que os discípulos vão fazer a experiência da aparente ausência de Jesus naquela Barca, e que sozinhos não conseguem superar as provas que têm pela frente. No meio dos discípulos, na mente e no coração dos discípulos, tem de ressoar sempre aquela palavra de Jesus: «sem mim, nada podeis fazer» (João 15,5). Aparente ausência. Esta experiência serve também para Jesus ir preparando os seus discípulos para os tempos que se avizinham em que Ele deixará de estar presente fisicamente, mas em que estará presente de modo novo, não visível, palpável e sensível. Mas estará lá sempre com mansidão, sem que sequer nos apercebamos da sua presença! Não podemos é ficar de tal modo atolados nas circunstâncias e nos problemas que deixemos de ver Jesus!

    4. Mas nesta noite, no monte, Jesus reza ao Pai, e não deixa de velar também sobre os seus discípulos e de vir ao seu encontro nas horas mais difíceis ou na hora de acordar. Portanto, ei-lo que vem ao encontro deles caminhando sobre o mar (v. 25). Os relatos de Mateus e de Marcos anotam a hora da chegada de Jesus: quarta vigília da noite, que o mesmo é dizer, entre as três e as seis horas da madrugada, portanto, na parte final da noite. Recordemos que a hora habitual de acordar rondava as seis horas da manhã. «Andar sobre o mar» é claramente um indicador divino, que a Escritura Santa Antiga reserva só a Deus, sendo Deus Aquele «cuja estrada é no meio do mar,/ e o seu caminho sobre as muitas águas» (Salmo 77,20; cf. Job 9,8; Habacuc 3,15). Ao ver um vulto a caminhar sobre o mar, pensaram aqueles discípulos que se tratava de um fantasma (muito em voga na mentalidade popular de então), e os índices do medo, já elevados por causa dos ventos e das ondas, subiram ainda mais face a esta nova ameaça, e gritaram de pavor (v. 26). É então que Jesus intervém, descodificando-se diante deles com uma palavra de revelação (verbo grego laléô): «Coragem! Eu sou! Não tenhais medo!» (v. 27). Sobretudo aquele «Eu sou» (egô eimi), Nome com que Deus se revela a Moisés (Êxodo 3,14) e que atravessa a Escritura Santa Antiga. Sob a proteção de Jesus, não há mais lugar para medos de espécie alguma.

    5. Mateus empresta ainda a este episódio uma tonalidade própria, pois é o único dos Evangelistas a inserir o diálogo de Pedro com Jesus. Também Pedro vai caminhar sobre as águas, a seu pedido, e seguindo a ordem de Jesus: «Vem!» (vv. 28-29). Entenda-se então: Pedro caminha sobre as águas como Jesus, mas não com autoridade própria. O que Pedro faz assenta na Palavra de Jesus e na Fé que o liga a Jesus. Importante lição: Pedro faz o mesmo que faz Jesus enquanto permanecer vinculado a Jesus pela Fé. Esmorecendo a Fé em Jesus, deixando de fixar o olhar em Jesus e colocando a sua atenção apenas em si próprio e nas circunstâncias envolventes, Pedro torna-se presa fácil de outras forças e dá por si a sucumbir no meio da tempestade. Pedro como nós. Mas, sentindo o perigo, Pedro volta-se uma vez mais para Jesus, e grita: «Salva-me, Senhor!» (v. 30). E sente logo a mão de Jesus que o segura, ao mesmo tempo que o repreende: «homem da pequena fé (oligópistos), por que duvidaste?» (v. 31). Nós como Pedro. Nós como Pedro, mas também como os outros discípulos que viram tudo desde a Barca, e sentem agora o vento amainar (v. 32), e se prostram diante de Jesus, expressão cultual, e confessam a sua fé: «Verdadeiramente, Tu és Filho de Deus!» (v. 33).

    6. A outra figura deste Domingo é Elias, «o fugitivo» (1 Reis 19,9-13). «Fugitivo» de si mesmo, dos seus medos, de todos e de tudo. Todos o procuram para o matar, o mundo perdeu o seu encanto e o seu sentido, e até Deus não parece ser mais o mesmo. Como esta lição está cheia de atualidade… E o certo é que este Elias, que surge solto na página, sem pai nem mãe, sem livro anagráfico, apenas com Deus do seu lado (cf. 1 Reis 17,1-24), continua a ser conduzido e comandado por Deus, que o salva da morte no deserto (cf. 1 Reis 19,5-8), e o liberta das suas próprias amarras, fazendo-o sair [SAI!] para fora do escuro e do medo (cf. 1 Reis 19,11), e abrindo à sua frente um caminho novo, tenro e frágil, como o que espera um bebé ao sair do ventre materno. Sair (yatsa’) é o verbo do Êxodo, mas é também o verbo do nascimento! Ouve-se, nesta página imensa por duas vezes: no v. 11, no imperativo: «Sai!», e no v. 13, no indicativo: «Elias saiu».

    7. É assim que o menino Elias, recém-nascido e recém-libertado, assiste no Sinai à sequência teofânica antiga: vento forte, terramoto, fogo! Tudo manifestações desatualizadas e deformadas de Deus. Outra vez a sequência retórica 3 + 1, a fazer apostar toda a atenção no ponto 4! E aqui, depois do vento, do terramoto, do fogo, Elias ouve «a voz de um fino silêncio!» (1 Reis 19,12b). Entenda-se: a voz de um silêncio cortante, voz de Deus que arde e opera dentro de nós. Colagem de figuras: «A tua Palavra ardia no meu coração como um fogo devorador,/ encerrado dentro dos meus ossos», confessa Jeremias 20,9. Já Moisés tinha descoberto aquela chama viva, que ardia no meio da sarça, e que não obedecia às leis da combustão, não queimava,/ mas chamava (cf. Êxodo 3,2-4). Também os dois de Emaús sentiram o coração a arder, devido à Palavra e ao Sentido novo que abria caminhos onde caminhos não havia (Lucas 24,32). Elias encontrou essa Palavra nova na «voz de um fino silêncio» (1 Reis 19,12), escrita fina de Deus,/ com ponta de diamante,/ no coração do homem (cf. Jeremias 17,1; 31,33). E o autor da Carta aos Hebreus compara esse «fino dizer» ou «escrever» a uma espada de dois gumes, ao bisturi da Palavra, que opera dentro de nós e limpa a esclerose do nosso coração (cf. João 15,3) e o zelo estéril, que rasga o âmago do homem e lhe deixa soltas as pregas do coração (cf. Hebreus 4,12; Apocalipse 1,16). É claro que este silêncio suave não é o silêncio que Elias se preparou para fazer. Elias não se preparou para silêncio nenhum. Ele partiu para o Sinai à espera de se encontrar lá com o Deus forte e invencível, Senhor do vento, do terramoto e do fogo, que através desses poderosos elementos se expressava! Não é, portanto, o silêncio que move Elias. Não é Elias que faz silêncio! É o silêncio que faz Elias! É o silêncio que faz nascer Elias! Não sou eu que faço silêncio! É o silêncio que me faz!

    8. Na lição de hoje da Carta aos Romanos, S. Paulo lembra-nos que há um amor maior, que o leva até ao ponto de desejar dar a vida pelos seus irmãos! (Romanos 9,1-5). Vê-se bem que Paulo atingiu a estatura de Cristo! (cf. Efésios 4,13).

    9. Sim, anda por aí um amor maior, que é o tesouro e a pedra preciosíssima de Mateus 13,44-46, que tivemos a graça de escutar no Domingo XVII. Anda por aí a maravilha, e nós continuamos, desfocados pelo medo do vento ou da tempestade, ou à procura de maravilhas, e, sem dar por isso, estamos a perder a capacidade de cantar! Cantemos então, percorrendo as belíssimas avenidas do Salmo 85, que aqui redesenhamos com as palavras do poeta inglês John Milton (1608-1674): «Sim, a Fidelidade e a Justiça, então,/ retornarão ao encontro dos homens,/ envoltas num arco-íris, e, gloriosamente vestida,/ a Bondade sentar-se-á no meio…/ E o céu, como para uma festa,/ escancarará as portas do seu palácio excelso».

    10. Sim, as avenidas são por dentro! É dentro que arde o fogo, que fala o silêncio, que opera o bisturi! Atenção, portanto, ao modo novo, intransitivo, de viver!

    António Couto


  • Quem não reza, não caminha.

    Quem não se ajoelha, tão-pouco pode estar de pé.

    Faz, Senhor, que eu diga sempre Sim:

    contigo não me importo de perder até ao fim.

    Bem se vê que é de amor que falo,

    ou calo.

    Importa ouvir sempre a voz do galo,

    e não perder o rumor dos teus passos no jardim,

    ou já dentro de mim,

    suave Senhor de la Sonrisa,

    fina brisa à flor dos lábios,

    alento,

    encanto.

    Atento!

    Que pode a semente germinar antes do tempo,

    e a espiga amadurar antes do campo!

    António Couto


  • Daniel 7,9-10.13-14 (2 Pedro 1,16-19); Salmo 97; Mateus 17,1-9

    1. A Igreja celebra no dia 6 de agosto a Festa da Transfiguração do Senhor. Batizado no Jordão, tentado no deserto como Israel, mas Vitorioso, após o jejum preambular de preparação para o início da sua missão na Galileia, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa, e imediatamente depois do anúncio da sua Paixão, Morte e Ressurreição, dados não compreendidos e até contestados por Pedro e pelos outros discípulos (Mateus 16), aí está Hoje, nesta Festa do Senhor o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9) – Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada, e confirma também os discípulos, ainda confusos e perplexos, em ordem à sua missão futura. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra neste dia 6 de agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa dada por Jesus aos seus discípulos ao descer do monte: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

    2. Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical, pausa e bemol. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor antes da Ressurreição do Senhor, ou fora dela. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós, que nos ensinará todas as coisas (João 14,26). Veja-se a lição do Livro dos Atos dos Apóstolos, com Pedro a explicar assim o Pentecostes à multidão: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (Atos 2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, portanto, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Portanto, é urgente esperar! Toda a atenção ainda, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com/ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20). Portanto, antes e fora da Ressurreição do Senhor, antes e fora do Espírito Santo sobre nós derramado, nós não podemos nem sabemos dizer sobre Jesus seja o que for que faça algum sentido na ordem do divino. Apenas podemos debitar alguns dados da ordem da história, da geografia, da sociologia…

    3. O famoso texto de Mateus 17, que traz Hoje até nós o episódio da Transfiguração de Jesus, começa assim: «Seis dias depois, Jesus toma consigo Pedro e Tiago e João, seu irmão, e leva-os, à parte, a um monte alto» (17,1). O uso aqui do presente histórico dá o tom enfático apropriado para vincular o episódio da Transfiguração (17,1-9) ao Capítulo 16, que o precede imediatamente. A presença do artigo antes do nome de Pedro (tòn Pétron), mas não antes dos nomes de Tiago e João, serve para pôr em destaque o papel de Pedro desde o Capítulo anterior, a que se ajusta também a ligação cronológica «seis dias depois». Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (16,16), mas opõe-se energicamente às palavras de Jesus (16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Marcos 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre si sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de ter eles pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

    4. É tendo tudo isto em conta, sobretudo o desarranjo e incompreensão de Pedro (16,22) e o desconsolo e tristeza dos discípulos (17,23), que Jesus «toma consigo» um grupo seleto de discípulos, e os (autoús) faz subir consigo, e é transfigurado diante deles (autôn); é a eles (autoîs) que aparecem Moisés e Elias; a nuvem luminosa envolveu-os (autoús), e a voz que sai da nuvem dirige-se a eles diretamente, pois fala de Jesus em 3.ª pessoa, e apela a que o escutem; amedrontados e caídos por terra, é Jesus que os (autôn) toca, e manda levantar, e lhes (autoîs) ordena que nada digam acerca desta visão antes de Ele ressuscitar dos mortos. Pela coleta de dados que acabámos de fazer, é fácil compreender que são os discípulos que estão no centro da cena, e que tudo é feito para eles. Na verdade, dada a sua incompreensão e enérgica reação no Capítulo anterior, torna-se necessário clarificar com eles sobretudo três aspetos: 1) contribuir para que possam vir a ter uma noção mais concreta acerca da ressurreição, vendo Jesus na sua glória celeste falando com personagens celestes; 2) ouvir e aprender do próprio Deus que Jesus é o seu Filho, o Amado; 3) predispor-se a escutar Jesus sem reservas, o que significa, entre outras realidades, escutar as palavras de Jesus acerca do seu sofrimento e morte, e não opor-se a elas.

    5. A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou de Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (17,2). O branco é a cor divina e celeste. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer solene do Salmo 104,2: «Vestido de Luz como de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9). No contexto da Transfiguração de Jesus, é importante, a aparição de Moisés e Elias, não como é usual dizer-se, por se tratar do testemunho da Escritura inteira, aqui representada pela Lei (Moisés) e os Profetas (Elias), mas por se tratar de duas figuras notórias cuja morte se verificou há muito tempo, não estando por isso acessíveis à visão humana comum. Só podem ser vistos se aparecerem, se se fizerem ver, se se apresentarem aos homens a partir da sua existência em Deus. Os discípulos veem que estas figuras celestes falam com Jesus transfigurado, e podem começar a descobrir a realidade que pode estar por detrás das palavras antes incompreensíveis de Jesus quando Ele anuncia a sua Ressurreição. E mais uma vez Pedro se equivoca ao sugerir tendas terrenas para figuras celestes!

    6. Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que Pedro, ao fazer semelhante sugestão, «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado e confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará de Cristo testemunho até ao sangue. Antes ainda desse final, Pedro recorda o privilégio de terem sido testemunhas oculares da Glória de Jesus sobre o monte santo, e que ouviram aí a voz vinda do Céu, do Pai, a declarar Jesus «o Filho meu, o Amado meu» (2 Pedro 1,16-18). A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados e confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração do Senhor: a Divinização.

    7. A lição do Livro de Daniel 7,9-10.13-14 e respetivo contexto imediatamente anterior (7,3-8) e posterior (7,15-27) faz transbordar a indescritível riqueza do nosso Deus, solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes saídas do mar com aspeto terrível, e que têm o aspeto de um leão com asas de águia, de um urso com costelas na boca, de um leopardo alado com quatro cabeças, e de um monstro metálico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura e espezinha. Tinha ainda dez chifres na cabeça, mas nasceu-lhe, entretanto, um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro impérios: babilónio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres são os reis da dinastia Selêucida, e o décimo primeiro é Antíoco IV Epifânio (175-163). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Antíoco, que é morto e destruído. E vê-se então, em contraponto com as bestas que saem do mar, que é símbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele é entregue o reino eterno, não assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14). Fica bem claro que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude mansa do Filho do Homem, que dissolve no Amor, que é o poder manso que lhe é dado para sempre, as nossas raivas, violências e guerras, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, portanto, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7,3), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir quando forem desenhados os novos mapas de um novo céu e de uma nova terra (Apocalipse 21,1).

    8. O domínio novo do Filho do Homem que nos ama (Apocalipse 1,5), o domínio do Amor, é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é desde sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido e enrugado. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater (só pode ser por amor), a nossa tirania e prepotência!

    9. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus, o Filho do Homem, atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a.

    10. Pedro, na sua 2 Carta 1,16-19, coloca-se como Testemunha ocular, quer do poder do amor que Jesus recebeu de Deus Pai, quer da sua manifestação gloriosa no monte santo, que confirma a palavra dos profetas. Pedro exorta-nos a prestar atenção a esta palavra, que é como uma luz que brilha no escuro, até que surja a «Estrela da Manhã», que é Cristo (Apocalipse 22,16).

    11. Canta-se Hoje o Salmo 97, que canta o Senhor na ação de reinar, isto é, de salvar, de justificar, de perdoar, de recriar, de trazer a prosperidade e o bem-estar ao seu povo e aos seus fiéis. Deus, como Rei, manifesta-se circundado pelos seus assistentes cósmicos (nuvens, trevas, fogo, relâmpagos) e históricos (justiça, direito, glória) (vv. 1-6). Face a tão esplendorosa manifestação, os ídolos e idólatras caem por terra (vv. 7-9), e os fiéis exultam de alegria (vv. 10-12). Os fiéis e justos são definidos com sete expressões particularmente significativas: 1) aqueles que amam o Senhor; 2) aqueles que odeiam o mal; 3) aqueles que são fiéis (hasîdîm); 4) aqueles que são justos (tsaddîqîm); 5) os retos de coração; 6) homens de alegria; 7) aqueles que celebram o «memorial da sua santidade» (zeqer qodshô). Comenta bem o Livro dos Mistérios, de Qumran, que perante a manifestação e inauguração deste Reino novo de Deus, «a impiedade recuará diante da justiça, como as trevas recuarão diante da luz; a impiedade desaparecerá para sempre, e a justiça, como o sol, apresentar-se-á como princípio de ordem no mundo» (1Q27, I,5-7).

    12. A Festa que a Igreja hoje celebra é antiga e fortemente impressiva no Oriente. Celebra-se a Imagem de Cristo Transfigurado, e que nos Transfigura. Daí, a importância da Contemplação. O Ocidente conheceu esta Festa tardiamente e celebrou-a esporadicamente, com oscilações locais e de calendário. A Igreja Universal celebra esta Festa apenas desde 1457.

    António Couto


  • Eu sei que o Senhor gerou o seu povo no seu ventre maternal,

    e o deu à luz como seu filho primogénito,

    o fez sair de uma terra estreita e triste,

    e o fez subir através de um chão deserto,

    para o regaço aberto

    de uma terra boa e espaçosa,

    de uma terra que mana leite e mel.

    Esta imensa metáfora maternal,

    que vai do gerar,

    ao dar à luz,

    ao aconchegar e amamentar,

    é um modo intenso e belo de dizer o Êxodo,

    o deserto,

    a terra prometida e dada,

    de dizer o amor de Deus pelo seu povo,

    por nós,

    por ti e por mim.

    Como posso eu retribuir ao Senhor por tanto amor que me deu?

    Vê-se bem que só posso responder amando,

    consolando,

    dando vida,

    e enchendo de alegria

    o dia-a-dia

    de quem sofre dores,

    dissabores

    e injustiças.

    Ai, meu Deus,

    o que vai por esses hospitais:

    como são tratados os teus filhos e filhas!

    Tens de ser outra vez Tu,

    Senhor,

    a servir-nos bilhas

    de leite e favos de mel.

    E que eu não possa nunca mais calar

    o pulsar

    das tuas maravilhas.

    António Couto


  • A Igreja celebra no dia 4 de agosto a memória litúrgica de São João Maria Vianney (1786-1859), que ficou conhecido como Santo Cura d’Ars, o nome da paróquia que lhe foi confiada, e a que se dedicou de corpo inteiro e a tempo inteiro, com inteira dedicação e paixão. Por isso, é proposto como figura de pároco e pastor prudente e diligente, sempre próximo e atento a Deus, sempre próximo e atento ao povo simples da sua paróquia d’Ars, para a todos fazer chegar o grande amor de Deus, que cura todas as feridas do nosso humano e enrugado coração. Não parecendo, à primeira vista, ser dotado de uma inteligência brilhante, era, porém, um pastor próximo e humilde, dotado de uma penetrante intuição, e de grande paciência, bondade e sensatez. Soube sempre encontrar os caminhos certos para acender com grande intensidade, na primeira metade do século XIX, a luz do Evangelho na sua paróquia d’Ars, irradiando daí um pouco por toda a Europa. Quando, em 1818, assumiu a pequena paróquia d’Ars, situada um pouco a norte de Lyon, na França, foi porque nenhum outro sacerdote aceitou tal paróquia, que tinha apenas 230 habitantes, que não entravam na igreja, e eram conhecidos por serem rudes e violentos. Promovendo a devoção eucarística, e dedicando-se à oração, à pregação e ao ministério da reconciliação, o Santo Cura d’Ars foi convertendo aqueles corações rudes e, poucos anos depois, tinha a igreja cheia de fiéis. Foi canonizado pelo Papa Pio XI em 1925, e declarado pelo mesmo Papa Padroeiro Universal dos Párocos poucos anos mais tarde, em 1929. Para celebrar os 150 da sua morte e avivar a beleza do ministério sacerdotal, o Papa Bento XVI promulgou o ano pastoral 2009-2010 como Ano Sacerdotal.

    São João Maria Vianney, ou Santo Cura de Ars, rogai por nós.

    António Couto


  • Louvado sejas, meu Senhor,

    por tantos irmãos e irmãs que me confiaste,

    pela beleza que semeaste nas tuas criaturas,

    que a toda a hora e em todas as alturas

    olham para Ti e olham para mim,

    à espera que delas cuidemos com ternura.

    É assim a irmã terra, nossa casa comum,

    que tantas vezes maltratamos,

    alterando os seus ciclos naturais e a sua felicidade,

    os seus ecossistemas e biodiversidade,

    para mais rapidamente lhe explorarmos os recursos,

    água e minerais, plantas, frutos, florestas, animais.

    Em nome do lucro fácil e rápido,

    acendemos fogueiras de poluição,

    asfixiamos a respiração da nossa terra irmã e mãe,

    somos vorazes, cheios de volúpia e delapidação,

    de “rapidación” ou “rapidação”,

    que é a aceleração dos ritmos naturais de produção

    da casa comum que habitamos.

    Montes de lixo é a marca que deixamos

    na nossa bela terra,

    que geme sob pesados tapetes de asfalto e empedrado.

    Mas geme também a floresta derrubada,

    a fauna dizimada,

    os filhos não nascidos,

    os pedaços de terra abandonados, desertificados,

    e gemem os pobres da nossa bela terra descartados.

    A arte do descarte fez de nós ferozes predadores,

    insensíveis às flores e às lágrimas seja de quem for.

    Nenhum amor move estes senhores.

    Só a posse da riqueza nos fascina e nos ensina,

    não conhecemos outro professor ou professora,

    nada sabemos de «nossa senhora, a santa pobreza».

    Como te estragámos, querida terra, irmã e mãe,

    como te explorámos,

    como te contaminámos

    com as nossas mãos vorazes e dominadoras!

    Como acelerámos a pulsação do teu harmonioso coração!

    Louvado sejas, meu Senhor,

    pela bela, perfumada e colorida irmã terra que nos deste,

    nossa casa comum.

    Ensina-nos, Senhor, a recebê-la de Ti,

    a mantê-la limpa e asseada,

    a respeitá-la como criatura tua e nossa irmã,

    a amá-la por ser tão bela e carinhosa.

    António Couto


  • Bendito o dia em que outra vez rezamos,

    e outra vez sempre de novo.

    Rezar é voltar sempre ao princípio,

    e recitar com mais amor cada uma das tuas maravilhas.

    Assim,

    talvez a oração não tenha fim,

    porque é uma viagem dentro de mim,

    fora de mim,

    enunciando nomes, dores, alegrias, guerras, fomes,

    calcorreando montanhas, vales, avenidas,

    colhendo frutos no coração das árvores,

    partilhá-los com os passarinhos

    na toalha multicolor que estendeste sobre este chão dourado.

    Rezar é saber bem

    que as coisas belas que vemos neste mundo são todas tuas,

    e a mais ninguém pertencem.

    e quem agora as tem na mão deve acariciá-las,

    partilhá-las,

    porque as tem apenas emprestadas.

    Obrigado, Senhor,

    pelo céu e pelo chão,

    pelo vinho e pelo pão,

    e por cada irmão que me deste.

    António Couto


  • Domingo XVIII do Tempo Comum

    Isaías 55,1-3; Salmo 145; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21

    1. O Evangelho deste Domingo XVIII do Tempo Comum (Mateus 14,13-21) é conhecido como a primeira «multiplicação dos pães», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão, condivisão ou partilha.

    2. Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, hospitaleiro, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre (agorázô) de comer para si mesmo (heautoîs)  (Mateus 14,15). Em cena estão duas maneiras opostas de ver e de fazer: a de Jesus e a dos discípulos de Jesus. O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

    JesusDiscípulos
    Misericórdia
    Acolher
    Curar
    Dar
    Partilhar
    Insensibilidade
    Excluir
    Mandar embora
    Comprar
    Cada um para si

    3. Vistas bem as coisas, o comportamento destes discípulos, e, se calhar, o nosso também, opõe-se, ponto por ponto, ao comportamento novo de Jesus. O que Jesus faz à vista dos seus discípulos e em confronto com os seus discípulos parece ser em primeiro lugar para eles, para nós, para baralhar as nossas contas e a nossa esquadria mercantilista. A questão não está, de facto, em produzir mais. A questão está em partilhar mais, de preferência tudo. O que Jesus ensina a estes discípulos de mentalidade consumista é que condividir, partilhar, é a melhor maneira de multiplicar. Não é preciso produzir mais para partilhar mais. A grande operação de sinal : [= dividir] ou x [= multiplicar] é na lousa do coração que se faz. A celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, partindo e repartindo o seu pão (note-se que não se faz nenhuma referência à partilha dos peixes!), reclama de nós que ensaiemos também novas maneiras de fazer! A Eucaristia continua a ser o grande milagre que a Igreja faz ininterruptamente há dois mil anos!

    4. O narrador termina o episódio, informando-nos que aquela multidão de pessoas ficou saciada ou foi saciada, e que ainda «sobraram» doze cestas! (Mateus 14,20). Não se deve perder aquela forma verbal «foram saciados» (echortásthêsan) que, sendo um passivo, indica que foram saciados por Deus, passivo divino, que traduz o dom da saciedade divina, dom messiânico por excelência, que traz da parte de Deus e implica da nossa parte transfiguração e transformação (metamórphôsis), identificação com o doador divino, que nos dá a saciedade divina. Note-se também que o verbo grego usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas e ultrapassadas todas as nossas pequenas medidas! É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestas, símbolo da plenitude transbordante e inesgotável. Quem aprendeu a partilhar a vida sabe bem que ganha sempre mais! A «cesta» de que aqui se fala diz-se em grego kófinos, um recipiente com a capacidade de cerca de dez litros.

    5. De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «condivisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica consumista de produzir mais, vender mais e comprar, bons acionistas e empresários, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso» que toda a dádiva e partilha contêm, a superabundância da graça [«os discípulos encheram doze cestas»]. E tudo isto acontece num deserto! Devia ser mais fácil ver aí exposta sobre a mesa a lição da nossa auto insuficiência!

    6. Em perfeita sintonia com o Evangelho de hoje, a lição de Isaías 55,1-3 é fantástica: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2). Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro. Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra comereis» (Isaías 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes e vos rebelardes, será a espada que vos comerá a vós» (Isaías 1,20). Um Deus bom e Pai convida os seus filhos sedentos e famintos a sentarem-se à sua mesa e a comprar sem dinheiro o bom alimento. Note-se bem o oxímoro (comprar sem dinheiro) que nos deve (des)orientar sempre! Enquanto não entendermos isto, reprovaremos sempre no teste que Jesus fez a Filipe e faz a nós hoje também: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). Era um teste, diz-nos o narrador (João 6,6), e Filipe pôs-se a contar o dinheiro e a pensar no shopping! (João 6,7). Pelos vistos, não conhecia este imenso texto de Isaías, nem o Deus bom e Pai que dá coisas boas aos seus filhos! Nem aquela fantástica articulação do ouvido com o alimento [«Ouvi-me, ouvi-me, e comei!»], que faz da Palavra de Deus o verdadeiro pão dos seus filhos! No meio de fogos e inundações, catástrofes naturais, devia ser mais fácil perceber a nossa auto insuficiência, mas continuamos orgulhosamente a apregoar a nossa autossuficiência!

    7. O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus [«Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!»] (Isaías 55,2), faz nascer novas maneiras de viver, alarga a tenda e o coração, gera fraternidade e comunhão. Também por isso, ainda hoje, os beduínos do deserto não cortam o pão com a faca, e explicam dizendo que «o pão não se mata!». Sim, «o pão não se mata!»: parte-se e reparte-se!

    8. De facto, quando matamos este pão cujo fermento é o amor e a alegria de estarmos reunidos como filhos e irmãos, o que nos resta? Sim, diz bem S. Paulo, na lição de hoje da Carta aos Romanos 8,35-39: «Nada nos pode separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo!».

    9. Por isso, cantemos hoje, com o hino do Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração, e enquanto saboreamos a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9): «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16). Tanta coisa nova para aprender neste Domingo.

    António Couto


  • Santo Inácio de Loiola viveu entre 1491 e 1556. A Igreja celebra no último dia de julho a memória deste santo, cuja alma era maior do que o mundo. Passou a sua juventude em vida palaciana e leviana. Em 1521, tinha ele trinta anos, ficou gravemente ferido na batalha de Pamplona. Foi assim que, para ocupar o tempo, na falta de outros livros mais mundanos, lhe vieram parar às mãos livros como a Vida de Jesus e de alguns santos, nomeadamente de S. Francisco de Assis e de S. Domingos de Gusmão. Ao ler a Vida de Jesus, sentiu-se chamado a partir para Jerusalém, para seguir mais de perto os passos de Jesus. Ao ler a vida de S. Francisco e de S. Domingos, foi levado a pensar que, se eles fizeram o que fizeram, ele também podia fazer. E a vida de Inácio de Loiola começou a mudar. Em setembro de 1523 partiu mesmo para Jerusalém, com o intuito de permanecer na Terra Santa e de se dedicar à conversão das almas, mas foi forçado a regressar pelos franciscanos encarregados da custódia dos Lugares Santos, que temiam que fosse perseguido e, porventura, morto. Regressou ainda em 1523. Depois de alguns estudos e Exercícios Espirituais em Espanha, mas também de alguns problemas com a Inquisição, em 1528 foi estudar teologia para Paris. O seu ideal era fazer-se companheiro de Jesus, não para seu próprio deleite, mas para levar o Evangelho a toda a parte. Reuniu alguns companheiros a quem passou o mesmo ideal e o mesmo zelo. Um deles era Francisco Xavier. Destes companheiros de Jesus, nascerá a Companhia de Jesus, que hoje se encontra espalhada por todo o mundo, e está bem presente em Portugal.

    Santo Inácio de Loiola, rogai por nós.

    António Couto


  • Atravessamos as áridas páginas do verão, e não devemos deixar de louvar o Criador pelo irmão sol, e pelas belas árvores, que o Salmista vê e ouve a gritar de alegria, que nos dão a sua sombra deliciosa, e servem de casa às aves do céu. O Livro do Deuteronómio ensina-nos a olhar para elas com respeito, advertindo que, em caso de guerra, as árvores do inimigo que sitiamos não devem ser cortadas, pois elas não lutam como os soldados. É o respeito pela Criação que este tempo de sol quente de verão deve avivar em nós. Podemos também, nestes dias de calor, cultivar a paciência, cujo vocábulo grego, hypomonê, significa etimologicamente “estar debaixo de”, carregando e suportando o peso que transportamos. Portanto, a paciência remete para sofrimento, mas não se trata de um sofrimento masoquista, que abate quem o sofre, mas que faz de quem sofre o suporte ou o fundamento que segura e mantém de pé o inteiro edifício do universo. Os Santos são os verdadeiros “carregadores” do mundo. A Igreja faz memória neste dia 29 de julho dos Santos Marta, Maria e Lázaro, modelos de hospitalidade, de escuta e de busca de caminhos novos para a sua fé simples e tradicional. Eles sabem que tudo passa por Jesus, que Deus enviou a este mundo, para nos salvar HOJE. Tudo passa por Jesus, que passou por Betânia e continua hoje a passar por nós. Ele quer estar connosco, e é com Ele que nós queremos estar também.

    Senhor da mansidão e da ternura, olha com misericórdia para a humanidade sofrida e à deriva deste princípio de milénio, e ajuda-nos a encontrar o caminho bom e belo da fraternidade, em que todos possamos caminhar como irmãos, sabendo sempre, como Marta, Maria e Lázaro, que Tu estás na nossa casa, no meio de nós.

    António Couto


  • 1. Celebramos hoje o Domingo XVII do Tempo Comum. No Evangelho, Jesus serve aos seus discípulos quatro parábolas: 1) a parábola do tesouro escondido no campo (Mt 13,44); 2) a parábola da pérola de grande valor (Mt 13,45-46); 3) a parábola da rede que, lançada ao mar, se enche de peixes (Mt 13,47-50); 4) a parábola do pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas (Mt 13,51-52).

    2. As duas primeiras pequeninas parábolas, a do tesouro escondido no campo e a da pérola de grande valor, mostram-nos Jesus e ilustram também a forma de viver de quem quer seguir Jesus. Durante muito tempo, pensou-se que estas parábolas transmitiam o apelo a deixar tudo ao jeito do convite que Jesus faz ao jovem rico: «se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens, dá aos pobres, e depois vem e segue-me. Ouvindo isto, o jovem foi-se embora entristecido, pois, na verdade, tinha muitos bens» (Mt 19,16-30). Porém, o acicate das parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor não é a renúncia aos bens temporais. O tema que enche estas duas parábolas e delas transborda é a alegria. É por causa da alegria (apò tês charãs autoû), que o homem que encontrou o tesouro escondido no campo, opera uma mudança radical na sua vida: «vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo» (v. 45). Por causa da alegria. O mesmo se passa com o homem que encontrou a pérola preciosa. Também ele vende tudo o que tem, e compra aquela pérola. Por causa da alegria.

    3. Mas que alegria é esta? Não, não se trata da pequena alegria passageira que tu procuras para ti, e que encontras em ti, talvez ali ao dobrar da esquina. Trata-se da alegria em si mesma, daquela alegria que é uma dádiva que te é concedida, quando tu procuras «alegrar Deus». «A tua alegria acontece quando tu não procuras outra coisa senão a alegria de Deus: nada mais, nada menos do que a alegria em si mesma» (Furio Jesi). Portanto, a alegria em si mesma é um dom que Deus te dá, não para teu proveito exclusivo, mas para repartires com todos os filhos de Deus. Só assim alegrarás Deus. Não esqueças: essa alegria é um dom de Deus. É um dom que Deus te dá, e que deves conservar e partilhar. Imagina que Deus te dá um vaso cheio de alegria. É um dom. E um dom não é para se possuir. É para repartir. Se começares a considerar o vaso como teu, nesse preciso momento, quebra-se o vaso! (Abraham Joshua Heschel).

    4. O tesouro escondido é Jesus. A pérola preciosa é Jesus. Quem ousar encontrar e seguir Jesus, que passa escondido, porque revestido da nossa frágil humanidade, descobrirá n’Ele o Reino de Deus em pessoa ( autobasileía), que é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17). É Ele o tesouro escondido no campo. Quem o encontrar, saboreará uma alegria nova e transbordante. Para o dizer só com o Evangelho de Mateus, foi assim que os magos do Oriente se puseram a escavar o céu e descobriram uma estrela que indicava o nascimento de um Menino diferente, o Rei dos judeus (Mt 2,1-2). Diz o texto que «Quando viram a estrela, experimentaram uma “alegria grande” (chará megálê), e entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe» (Mt 2,10-11). De uma ponta à outra do Evangelho: Maria Madalena e a outra Maria, mal viram terminar o sábado com o despontar das primeiras três estrelas daquela noite daquele Primeiro Dia da Semana, correram ao túmulo de Jesus e viram o Anjo do Senhor a rolar com poder a pedra que fechava o túmulo (Mt 28,2). Ouvem as palavras que o Anjo lhes diz, e «partem a toda a pressa, a tremer, e com “alegria grande” (chará megálê), para levar aos discípulos a notícia da Ressurreição» (Mt 28,8). A alegria verdadeira vem de Deus. É de Deus. E «a alegria de Deus é a vossa fortaleza» (Ne 8,10). Rejoice!

    5. Toda a atenção, portanto, queridos jovens, que o tesouro de Deus não se dá em qualquer campo nem em qualquer céu. São, por isso, necessários novos mapas, novas pautas, novas coordenadas, novas estradas, para se poder procurar e saber encontrar esse tesouro escondido, essa pérola de grande valor, essa rede que, nos Evangelhos, os profissionais da pesca não sabem encher. Só a veem encher por duas vezes, quando Jesus está presente e manda lançar as redes (Lc 5,6-7; Jo 21,6).

    6. E Jesus termina a sua lição com uma última parábola: «Todo o escriba, feito discípulo do Reino dos Céus, é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas» (Mt 13,52). Aí está a imensa sabedoria e alegria do discípulo que deve ser como um pai, que dispõe na sua imensa dispensa de produtos excelentes, novos como o pão fresco, antigos como o vinho velho! Era próprio do escriba transmitir apenas as coisas antigas que vinham na torrente da tradição. Ao escriba não lhe competia inovar. Só lhe competia repetir. Mas aqui está agora, ao dispor do discípulo de Jesus, a Divina dispensa do Novo e do Antigo Testamento, Alimento novo de vida eterna. Note-se bem a ordem do serviço a prestar pelo discípulo de Jesus: coisas novas e coisas velhas! Primeiro as coisas novas!

    7. Depois de teres ouvido nos teus ouvidos estas quatro parábolas de Jesus, atrevo-me a perguntar-te, querido jovem: Qual é a tua identidade? Como te chamas? No IV Evangelho, as pessoas mais ligadas a Jesus são seguramente Maria, sua Mãe, e João Evangelista, aquele que, na Ceia, se reclinou sobre o peito de Jesus (Jo 13,25). É espantoso, mas ao longo de todo o Evangelho, nunca o Evangelista se refere a Maria e a João pelos seus nomes, mas sempre e só pela sua relação com Jesus. Assim, não se fala nunca de Maria, mas da «mãe de Jesus» ou «da sua mãe». Também não se fala nunca de João, mas do «discípulo que Jesus amava» ou do «outro discípulo!». Fica claro: a nossa identidade está, não no nosso nome, mas na nossa relação com Jesus! Começo a pensar, querido jovem, que, na inscrição que fizeste para este Rejoice, te fizeram preencher a ficha errada. Não te esqueças de a preencher agora corretamente. Assinala bem qual a tua relação com Jesus. É essa a tua verdadeira identidade.

    Rejoice, Lamego, 26 de julho de 2026

    António Couto


  • Estas linhas leves e ledas

    com que Jesus se expõe em parábolas

    são como asas

    que guardam o segredo mais inteiro de Jesus,

    o seu tesouro mais profundo,

    a pérola preciosa,

    preciosa e firme,

    porque leve e suave como uma almofada,

    onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça,

    e tranquilamente conduzir,

    dormindo mansamente à popa,

    da nossa barca no meio do mar encapelado

    desta pandemia.

    Nos lábios de Jesus,

    chama-se «Pai» este lugar seguro e manso,

    doce e aprazível,

    que acolhe os pequeninos,

    os senta sobre os seus joelhos,

    lhes conta a sua história mais bela,

    e lhes afaga o rosto com ternura.

    Sim,

    como diz Santo Agostinho,

    «o peso de Cristo é tão leve, que levanta,

    como o peso das asas para os passarinhos».

    António Couto


  • O dia de hoje é de São Tiago, Apóstolo.

    Aquele que estava na barca,

    no mar da Galileia, a consertar as redes,

    com o seu irmão João e o pai Zebedeu.

    …..

    Jesus passou naquela praia e chamou Tiago,

    que imediatamente, sem cálculos nem hesitações,

    deixou o pai, a barca e as redes,

    e seguiu Jesus pela vida fora.

    …..

    Juntamente com o seu irmão, João, e Pedro,

    esteve a sós com Jesus nas horas solenes

    da Transfiguração e do Getsémani.

    …..

    À vista da Cruz, também ele abandonou Jesus e fugiu,

    mas Jesus Ressuscitado não desistiu dele.

    Chamou-o outra vez e enviou-o

    a anunciar o Evangelho a todos os corações.

    …..

    Tiago nunca mais fugiu desta aventura.

    Foi mesmo até ao fim,

    e, nos anos 42-44, em que Herodes Agripa I,

    neto de Herodes o Grande,

    perseguiu ferozmente os cristãos em Jerusalém,

    foi martirizado,

    sendo o primeiro Apóstolo a dar a sua vida por Cristo.

    …..

    É venerado de modo particular em Compostela,

    onde se ergue a basílica a ele dedicada,

    a que acorrem, desde o século nono, peregrinos idos de toda a parte.

    …..

    Apóstolo São Tiago, roga por nós!

    …..

    António Couto


  • Domingo XVII

    1 Reis 3,5.7-12; Salmo 119; Romanos 8,28-30; Mateus 13,44-52

    1. Pelo terceiro Domingo consecutivo, a Igreja Una e Santa escuta com amor, da boca do Senhor Jesus, as belíssimas parábolas do Reino dos Céus guardadas em Mateus 13. Neste Domingo XVII, é-nos dada a graça de escutar nos nossos ouvidos (cf. Mateus 13,43) o final do «Discurso das Parábolas do Reino» (Mateus 13,44-52), em que nos é oferecida uma nova trilogia de parábolas significativas: a parábola do tesouro escondido no campo (Mateus 13,44), a parábola da pérola de grande valor (Mateus 13,45-46) e a parábola da rede que apanha toda a espécie de peixes até ficar cheia e ser então arrastada para a praia onde se processa a separação entre peixes bons e maus, indicando que assim será no fim do mundo, em que serão os anjos a fazer a destrinça, mas mostrando apenas a sorte dos maus (Mateus 13,47-50). Podemos acrescentar ainda uma oitava e última parábola, que diz respeito ao discípulo de Jesus, que é aquele que encontrou o tesouro, que não é para seu uso exclusivo, mas para repartir por todos, como um pai de família (Mateus 13,51-52).

    2. As duas primeiras pequeninas parábolas desta trilogia, a do tesouro escondido no campo e a da pérola de grande valor, ilustram, antes de mais, a forma de viver de Jesus e daqueles que o seguem. Durante muito tempo, foi-se passando a ideia de que estas parábolas transmitiam um fortíssimo convite a deixar tudo ao jeito do convite que Jesus fará um pouco mais à frente ao jovem rico (Mateus 19,16-30). Porém, a tónica destas parábolas não é de modo algum a renúncia aos bens temporais. O tema que enche estas parábolas e delas transborda é a alegria. É por causa da sua alegria (apò tês charãs autoû), que o homem que encontrou o tesouro escondido no campo, opera uma mudança radical na sua vida: «vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo» (v. 45). Por causa da alegria. Não é expressamente dito, mas é suposto, que o mesmo comportamento invade também o homem que encontrou a pérola preciosa. Por causa da alegria. Que alegria é esta? Não, não se trata da pequena alegria passageira que tu procuras para ti, e que encontras em ti, talvez ali ao dobrar da esquina. Trata-se da alegria em si mesma, daquela alegria que é uma dádiva que te é concedida, quando tu procuras «alegrar Deus». «A tua alegria acontece quando tu não procuras outra coisa senão a alegria de Deus: nada mais, nada menos do que a alegria em si mesma» (Furio Jesi). Portanto, a alegria em si mesma é um dom que Deus te dá, não para teu proveito exclusivo, mas para repartires com todos os filhos de Deus. Só assim alegrarás Deus. Não esqueças: essa alegria é um dom de Deus. É um dom que Deus te dá, e que assim deves conservar. Imagina um vaso cheio de alegria que Deus te dá. É um dom. E um dom não é para se possuir. Quebra-se no próprio ato de o começares a considerar como teu (Abraham Joshua Heschel).

    3. Quem ousar seguir Jesus, que passa escondido, revestido da nossa frágil humanidade, descobrirá n’Ele, como diz Orígenes, o Reino de Deus em pessoa ( autobasileía), que é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Romanos 14,17), que é o tesouro escondido no campo, e encontrará uma alegria nova e transbordante. Para o dizer só com o Evangelho de Mateus, foi assim que os magos do Oriente se puseram a escavar o céu e descobriram uma estrela que indicava o nascimento de um Menino diferente, o Rei dos judeus (Mateus 2,1-2). Diz o texto que «Quando viram a estrela, experimentaram uma “alegria grande” (chará megálê), e entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe» (Mateus 2,10-11). De uma ponta à outra do Evangelho: Maria Madalena e a outra Maria, mal viram despontar as três primeiras estrelas daquela noite daquele Primeiro Dia da Semana, correram ao túmulo de Jesus e viram o Anjo do Senhor a rolar com poder a pedra que fechava o túmulo (Mateus 28,2). Ouvem as palavras que o Anjo lhes diz, e «partem a toda a pressa, a tremer, e com “alegria grande” (chará megálê), para levar aos discípulos a notícia da Ressurreição» (Mateus 28,8). A alegria verdadeira vem de Deus. É de Deus. E «a alegria de Deus é a vossa fortaleza» (Neemias 8,10). Rejoice!

    4. Toda a atenção e empenho, portanto, que o tesouro de Deus não se dá em qualquer chão nem em qualquer céu. São, por isso, necessários novos mapas, novas pautas, novas coordenadas, novas estradas, para se poder procurar e saber encontrar esse tesouro escondido, essa pérola de grande valor, essa rede que só a palavra de Jesus sabe encher!

    5. Esta parábola da rede é a que ocupa mais espaço no texto: quatro versículos. Mais do que as duas anteriores juntas. Servindo-se de uma imagem tirada do mundo piscatório, Jesus diz que o Reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanhou toda a espécie de peixes, bons e maus, até se encher, requerendo depois que eles [os pescadores] se sentem na praia para fazer a destrinça entre os peixes bons e os que não prestam. Naturalmente, guardam os bons e deitam fora os que não prestam. A destrinça entre peixes bons e maus não se deve, todavia, à qualidade ou ao tamanho dos peixes. Trata-se da distinção entre o puro e o impuro, o que é considerado kasher e não-kasher. Sobre o assunto, diz o Livro do Levítico, que são puros (kasher) e se podem comer os peixes com barbatanas e escamas (Levítico 11,9), tendo de se deitar fora, como impuros (não-kasher), os peixes sem barbatanas e sem escamas (Levítico 11-10-12).

    6. Este cuidado meticuloso deve-se ao facto de o Mar da Galileia ser muito abundante em peixe e reunir também uma fauna piscícola muito variada e, em alguns casos, original, salientando-se, neste particular, o chamado «peixe de S. Pedro» (chromis Simonis), que possui uma cavidade oral onde conserva os ovos, e, depois as crias, e onde, por vezes, também recolhe pequenos seixos e objetos metálicos, o que pode explicar o episódio da moeda referido em Mateus 17,27.

    7. E tal como na parábola do trigo e da cizânia (ver Domingo XVI), também aqui Jesus difere para o fim do mundo a destrinça entre maus e justos (Mateus 13,49), efetuada ainda assim, não por nós e pelos nossos princípios e preconceitos, mas pelos Anjos. Outra vez pausa e bemol na partitura!

    8. Esta secção das sete ou oito parábolas acerca do Reino dos Céus, contadas por Jesus, fecha com a pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: «Compreendeis todas estas coisas?», a que eles respondem: «Sim!» (Mateus 13,51). Vê-se que esta pergunta e a respetiva resposta correspondem ao dito de Jesus em Marcos 4,13, no final da parábola da semente: «Não entendeis esta parábola? E como entendereis todas as parábolas?».

    9. E Jesus termina com uma espécie de oitava parábola: «Todo o escriba, feito discípulo do Reino dos Céus, é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas» (Mateus 13,52). Aí está a imensa sabedoria e alegria do discípulo que deve ser como um pai, que dispõe na sua imensa dispensa de produtos excelentes, novos, como o pão fresco, antigos, como o vinho velho. Era próprio do escriba transmitir apenas as coisas antigas que vinham de longe na torrente da tradição. Não lhe competia inovar. Só lhe competia repetir. Mas aqui está agora, em Jesus, a Divina dispensa do Novo e Antigo Testamento, Alimento de vida eterna. Note-se também a ordem do serviço: coisas novas e coisas velhas! Primeiro as coisas novas!

    10. Chegados a este ponto, já não devem restar dúvidas de que, contando estas sete ou oito parábolas do Reino dos Céus, Jesus se conta a si mesmo. É Ele a parábola que passa diante de nós, o Reino de Deus em pessoa ( autobasileía) que passa diante de nós. Pequenino como a semente, escondido como o crescente, fecundo e silencioso como a semente e como o crescente, cai à terra ou na farinha e morre (Paixão) para logo viver (Ressurreição) e dar vida (Pão), escondido e precioso como o tesouro ou a pérola, que é preciso procurar apostando tudo: a vida toda, o tempo todo, o dinheiro todo. O Reino dos Céus é também como o campo em que cresce ao mesmo tempo o bom e o mau fruto, ou a rede que recolhe até se encher o bom e o mau peixe. Atenção, porém: a rede só se enche pela Palavra de Jesus!

    11. Pode levantar-se a questão: se, com Jesus e em Jesus, é o Reino de Deus que chega até nós, então por que é que a sua mensagem não é logo recebida por todos sem discussão e com alegria? E por que é que Jesus não se impõe logo com uma autoridade tal que dissipe qualquer dúvida, que ponha de lado logo à partida qualquer pretensão de qualquer possível adversário? E por que é que Jesus não estabelece logo, a talho de foice, claras distinções? Parece tudo ambíguo, embaciado e, todavia, desenha-se aqui um rasto de claridade: ontem como hoje, na situação atual, convivem lado a lado o bom e o mau (até em cada um de nós, dentro de nós, essa convivência é verdadeira), mas esta não é a situação definitiva! Do mesmo modo que, na situação atual, o valor eminente do Reino de Deus e o empenho total que lhe é devido, fica muitas vezes escondido por outras realidades mais reluzentes ou só quotidianas, como a família, a profissão, a posição social, o status, a saúde, o bem-estar, os interesses, os desejos, as paixões… Note-se que um tesouro escondido, por não ser imediatamente acessível, não se impõe por si, e há muitas coisas cujo brilho e luminosidade as torna imediatamente atraentes e apetecíveis! Mas vai-se dando a entender, no chão mesmo das parábolas, que o valor último que valida todos os outros valores é o Reino de Deus e os seus segredos, é afinal o céu que é preciso desvendar. E também convém não esquecer o ensinamento de Jesus: «Toda a planta que não foi plantada por meu Pai será arrancada» (Mateus 15,13). Não é, portanto, de admirar que o trabalho do profeta e de Jesus seja deixar tudo nas mãos de Deus, o único que sabe fazer brotar vida nova de um toco seco (cf. Isaías 6,9).

    12. Outra sabedoria, outro saber, outro sabor. Salomão afinado, avant la lettre, pelo Evangelho. É assim que a lição do Primeiro Livro dos Reis (3,5-12) nos mostra hoje Salomão a pedir a Deus, não coisas, nem riquezas, nem a derrota dos inimigos, mas simplesmente um coração sensível, sensato e inteligente, capaz de escutar e de se sintonizar, em alta fidelidade (hi-fi), com a bondade da Palavra de Deus, muito mais valiosa do que o ouro. Um coração com discernimento (tebûnah), «um coração que saiba distinguir (bîn) entre o bem e o mal» (1 Reis 3,9). A Carta aos Hebreus apresentará, a seu tempo, os cristãos adultos na fé como aqueles que sabem «distinguir (diakrínô) entre o bem e o mal» (Hebreus 5,14). O bem e o mal não são valores no meio de outros valores. O bem é a vida; o mal é a morte. «Vê, ponho hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal…; escolhe, portanto, a vida!» (Deuteronómio 30,15.19). O bem e o mal não são valores iguais aos outros. Distinguir entre o bem e o mal é tão importante como distinguir entre a vida e morte.

    13. Na Carta aos Romanos (8,28-30), S. Paulo conta, aos nossos olhos de crianças deslumbradas, a história verdadeira que o amor de Deus já fez acontecer na nossa vida: já fomos chamados, conhecidos, predestinados, justificados e glorificados por Deus! Por isso, damos graças a Deus! Não se trata de «predestinação» pessoal, como alguns têm interpretado. Trata-se do plano de Deus, o mesmo ontem, hoje e amanhã, que envolve e afeta todos «os muitos irmãos», reunidos e conformados à imagem do seu Filho, «primogénito de toda a criatura» (Colossenses 1,15) e também «primogénito dos mortos» (Colossenses 1,18; Apocalipse 1,5), envolvendo aqui a nossa história inteira desde a Criação à Ressurreição.

    14. O Salmo 119, o mais longo do Saltério, é uma admirável composição de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus, que alumia a nossa vida. Não é uma coisa comprida e chata, mas uma monotonia admirável, como escreveu bem, no seu livro Rezar os Salmos com Cristo, o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, assassinado pelos nazis em 9 de abril de 1945, que aconselhou a quem reza este Salmo «a proceder palavra por palavra, frase por frase, muito lentamente, tranquilamente, pacientemente. E descobriremos então que as aparentes repetições são, na verdade, aspetos novos de uma única realidade, o amor pela Palavra de Deus». O eminente cientista francês Blaise Pascal (1623-1662) recitava este Salmo todos os dias, rosário bíblico que percorre a Palavra de Deus, enunciando todos os seus sinónimos e sabores.

    António Couto


  • A Igreja celebra hoje, dia 22 de julho, Santa Maria Madalena. Por decisão do Papa Francisco, a celebração de Santa Maria Madalena assume, desde 2016, o grau de Festa ao nível das celebrações dos Apóstolos. Na verdade, a Tradição da Igreja, com Rábano Mauro e São Tomás de Aquino à cabeça, a que se juntou São João Paulo II na Exortação Apostólica Mulieris dignitatem, tem dado a Maria Madalena o título nobre de «Apóstola dos Apóstolos», título que se acorda bem com os relatos dos Evangelhos acerca da Ressurreição de Jesus. Na verdade, os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas fazem-nos ver algumas mulheres, entre as quais está sempre Maria Madalena, a irem naquele começo da noite ou naquela madrugada de Domingo ao lugar do túmulo de Jesus, a receberem aí a mensagem da sua Ressurreição, bem como o mandato de levarem essa mensagem aos Apóstolos. Por sua vez, o Evangelho de João dá-lhe ainda maior relevo, pois coloca em cena, naquela madrugada da Ressurreição, apenas Maria Madalena, que é encontrada por Jesus, de quem recebe o mandato de ir anunciar aos Apóstolos que viu e continua a ver o Senhor Ressuscitado. «Vi e continuo a ver». É assim que se traça o perfil da testemunha, com o olhar cheio de Jesus Ressuscitado. Só assim o pode mostrar e anunciar.

    Como precisamos hoje de ti, Maria Madalena! Mostra-nos Jesus, e roga por nós, neste dia luminoso da tua Festa!

    António Couto


  • No dia em que os passarinhos,

    que não semeiam nem ceifam,

    vieram cantar à Catedral,

    rodopiando,

    felizes e contentes,

    lá bem no alto,

    junto aos coloridos tetos de Nasoni,

    indiferentes ao outro canto do coral,

    ou talvez com ele condizentes,

    vi bem que era Deus que os recebia em sua casa,

    coisa que, pelo que vi,

    também eles bem sabiam.

    Era por isso que expressavam a sua alegria.

    Na verdade, reza o Salmo:

    «Na Tua casa,

    ó Deus,

    até o passarinho encontrou abrigo,

    e a andorinha um ninho para os seus filhos».

    Felizes então, Senhor,

    os que moram na Tua casa,

    e se sentam à Tua mesa,

    e se deliciam com a Tua Palavra,

    cheia de esperança,

    como a chuva mansa,

    que rega o chão e faz germinar o pão,

    que rega o coração e faz germinar a conversão.

    Como no dia

    em que os passarinhos vieram cantar à Catedral,

    e receber da Tua mão

    uma migalhinha de pão.

    António Couto


  • Abre esta manhã de dezoito de julho,

    e eu levanto os meus olhos para os montes.

    É da tua mão, Senhor, que vem o meu auxílio,

    como para as aves do céu a água das fontes.

    …..

    Revolve, Senhor, todo o meu entulho,

    e torna-me disponível e atento servidor dos meus irmãos.

    Olho ao redor e vejo

    a figura serena do santo bispo Bartolomeu dos Mártires,

    que tu chamaste de Lisboa para os montes,

    para aí conduzir o teu rebanho.

    …..

    Por toda a parte buscou sempre erva fresca e água pura,

    e nenhuma ovelha morreu à fome ou de secura.

    Ensinou, escreveu, semeou, conciliou, construiu,

    colheu tanto trigo loiro,

    que ainda hoje, mais de quinhentos anos depois do seu nascimento,

    continua aberto na terra o seu celeiro,

    e reluzente no céu o seu tesoiro.

    …..

    São Bartolomeu dos Mártires, roga por nós!

    …..

    António Couto


  • Domingo XVI do Tempo Comum

    Sabedoria 12,13.16-19; Salmo 86; Romanos 8,26-27; Mateus 13,24-43

    1. O Capítulo 13 do Evangelho de Mateus constitui o centro geográfico e teológico deste Evangelho, com as suas sete parábolas do Reino de Deus, postas na boca de Jesus. É o chamado «Discurso das Parábolas do Reino», o terceiro dos cinco grandes Discursos de Jesus neste Evangelho, depois do «Discurso da Montanha» e do «Discurso Missionário». Neste Domingo XVI do Tempo Comum continuamos, pois, a ouvir o Discurso das Parábolas do Reino iniciado por Jesus no Domingo passado, com a primeira parábola, a parábola da semente ou do semeador (Mateus 13,1-23). Hoje ouviremos as três parábolas seguintes – do trigo e da cizânia (13,24-30), do grão de mostarda (13,31-32) e do fermento (13,33) –, a que se segue, a pedido dos discípulos, a explicação de Jesus acerca da parábola do trigo e da cizânia (Mateus 13,36-43).

    2. A parábola da semente (vv. 1-23) é, como vimos no Domingo passado, a mãe de todas as parábolas, porque é, na verdade, a parábola ou a história do próprio Jesus, que se explica a si mesmo e o caminho que vai seguir com esta linguagem: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer, produzirá muito fruto» (João 12,24). Fica então manifesto que o caminho de Jesus é o caminho da semente. E tal como a semente é atirada à terra para morrer e depois desabrochar em frutos novos, também Jesus é lançado à terra, e este extrato diz a Paixão e a Morte. Mas, tal como a semente semeada frutifica, também Jesus frutifica com a sua Ressurreição. Dada esta identificação e analogia, não espanta que Jesus responda aos seus discípulos que, no Evangelho de Marcos, lhe pedem explicações acerca das parábolas logo no final da apresentação da parábola da semente: «Se não entendeis esta parábola, como entendereis todas as parábolas?» (Marcos 4,13), que é como quem diz: “se não entendeis a história da semente, que é a minha história e o meu caminho, que andais vós a fazer como meus discípulos?”. À primeira vista, esta história de escondimento, sofrimento e morte é um rotundo fracasso, que os discípulos de Jesus pretendem evitar a todo o custo. O objetivo deles é o sucesso messiânico imediato de Jesus e deles próprios. Jesus tem de lhes explicar, a sós, recorrendo à lição de Isaías, que Ele é a Semente Santa que vem de Deus, que os homens não podem entender, pois só Deus a pode semear e fazer germinar à sua maneira. Na verdade, só Deus pode tirar vida de um toco seco (Isaías 6,13), de uma raiz que brota de uma terra seca, de uns ossos ressequidos, sem vida e sem ponta de esperança (Ezequiel 37,1-14), do toco seco daquela Cruz de Jesus. Este toco seco, terra seca, ossos ressequidos traduz em primeira instância o povo de Israel exilado, desclassificado e mirrado, sem nenhuma esperança, mas traduz também, em segunda instância, a secura da nossa vida exposta à morte, quando se fecha à vitalidade da iniciativa de Deus e da sua semente santa, que é a sua Palavra, que é o seu Filho Monogénito a nós dado, e que podemos acolher ou recusar.

    3. Aos olhos daqueles discípulos de Jesus é quase escandaloso que Deus escolha o caminho do silêncio, do escondimento e da paciência, em vez de intervir já e em força para pôr ordem num mundo às avessas, em que vingam tantas forças e ideologias contrárias aos mandamentos de Deus, ao bom senso, à retidão e à justiça, e em que os justos e os humildes são tantas vezes vilipendiados e humilhados. Para aqueles discípulos, o caminho da Cruz, que Jesus se propõe seguir, e de que eles nem querem ouvir falar (cf. Marcos 9,32; Lucas 9,45), não só não faz sentido em si, como torna ainda mais difícil acreditar em Deus e confiar nele. É como se Deus não servisse para nada. Raciocínio idêntico pode fazer hoje a comunidade dos crentes, a Igreja, que dá cada vez menos nas vistas, não gera grandes entusiasmos à sua volta, e é muitas vezes acusada pelos altifalantes das ideologias reinantes e da comunicação social de andar vários séculos ou milénios atrasada em relação àquilo que o mundo dito moderno considera sociedade civilizada, e que é a autonomia sem nenhuma heteronomia, a mentira, a corrupção, a indiferença, a equivalência, em suma, viver cada um a seu bel prazer, sem o incómodo da presença dos justos ao seu lado (Sabedoria 2,12-16). Na verdade, o mundo anseia pela grandeza, a importância, a riqueza, mas a Igreja procura caminhar pelo caminho da justiça, da paciência e da pequenez, tal como Jesus, que não se apresenta como um esplêndido vencedor que arrasta tudo e todos atrás de si. Por isso, Jesus explica devagarinho aos seus discípulos que a missão que recebeu do Pai não contempla o triunfo fácil e rápido.

    4. A parábola do trigo e da cizânia (vv. 24-30), que Hoje nos é dado escutar, prossegue a linha já traçado na parábola da semente. Trata-se de uma parábola exclusiva de Mateus, e é também grandemente ilustrativa e fortemente impressiva. O termo «cizânia» deriva do hebraico zunîm, que provém com certeza do verbo zanah [= prostituir-se]. A cizânia é, portanto, erva ruim e danosa no meio do trigo bom. E nós bem vemos o trigo e a cizânia, como vemos o justo e o ímpio. E gostamos de ver as coisas resolvidas já. É a nossa impaciência em esperar por mais tempo a manifestação do Reino de Deus, que queremos que venha depressa e que tudo clarifique e resolva já, que nos leva, na pessoa dos servos da parábola, a propor ao proprietário do campo acerca da cizânia: «Queres, então, que vamos arrancá-la?» (v. 28b). A pergunta está feita para que a resposta seja «Sim». Vai, porém, noutro sentido a resposta do proprietário, que nos deixa desconcertados: «Deixai-os crescer ambos juntos até à colheita» (v. 30a). E mais desconcertados ficamos, quando vimos a saber pouco depois, na explicação da parábola (vv. 36-43), que «a colheita é o fim do mundo» (v. 39b), e que só então será queimada a cizânia (v. 40) e os que praticam a iniquidade (v. 42). No que respeita ao Reino de Deus, a diferença existe, mas a resolução não está no princípio. Está no fim.

    5. De notar que, tal como os servos da parábola, e nós com eles, também João Batista era partidário de um julgamento já e em força, levado a efeito por um Messias justiceiro, sem dó nem piedade. De facto, ele conta-se entre os servos que queriam queimar já a palha e a cizânia. Prestemos atenção aos termos e ao tom da sua pregação:

    «Já o machado está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mateus 3,10);

    «A pá de joeirar está na sua mão: ele purificará completamente a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; a palha, porém, queimá-la-á com fogo inextinguível» (Mateus 3,12).

    6. A mesma linguagem, mas não as mesmas ideias, mostram o contraponto claro e inequívoco do proprietário do campo, e, claro, também de Jesus:

    «Deixai “crescer juntamente” (synauxánomai) ambos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: “Arrancai primeiro a cizânia, e juntai-a em feixes, para ser queimada; quanto ao trigo, recolhei-o no meu celeiro”» (Mateus 13,30).

    Como se vê, próprio de Jesus na sua missão messiânica terrena não é a intolerância e a separação radical, proceder a uma espécie de purga dos ditos maus já e em força. Esta tentação de eliminar o pretenso impuro em nome da raça pura ou superior torna-se infelizmente realidade de vez em quando na história da humanidade através de crimes inqualificáveis. Próprio de Jesus na sua missão messiânica terrena é a mansidão, a compreensão, a convivência, a tolerância e a distensão. Não quer isto dizer que para Jesus valha tudo, e que tudo valha o mesmo (equivalência). Ele afirma claramente a distinção entre o bem que há que fazer e o mal que há que evitar. Mas a separação radical e definitiva entre as duas realidades também é afirmada por Jesus. Mas não é feita no início nem faz parte da sua missão messiânica terrena; será operada por Deus no final. Agora é o tempo da labuta.

    7. Espantoso é ainda o milagre do grão de mostarda (vv. 31-32). Pequenino. Pequenino. Tão pequenino que propriamente nem grão chega a ser. É semelhante, no corpo e na cor, a café moído, uma espécie de pó de cor acastanhada que podemos espalhar na palma da mão. Porém, deitado à terra, dá corpo a uma árvore grande, carregada de passarinhos que dela fazem a sua casa, e a enchem de música e de alegria. Assim é, para espanto nosso, o Reino dos Céus! E o fermento (v. 33), igualmente pequenino, mas que leveda três medidas de farinha, mais ou menos o equivalente a 60 quilos de farinha! Tanta farinha dá para alimentar, não uma família da Palestina, mas umas 150 pessoas! É do banquete do Reino dos Céus que se trata! E aquele «até que tudo fique levedado» traz a Eucaristia para o quotidiano da vida de uma mulher e mãe de família da Palestina, pois lembra o «até que Ele venha» da celebração da Ceia do Senhor (1 Cor 11,26), tal como fazemos nós neste Domingo.

    8. Quando a nossa força é a norma que nos rege e nos domina, como afirmam os ímpios no Livro da Sabedoria (2,11), e a prepotente Assíria em Isaías (10,13), então já não somos livres, mas escravos da força, dominados pela força. Estamos, de resto, habituados a ver como é difícil dominar a força: basta ver as forças militares que os impérios deste mundo põem no terreno, e que depois, mesmo querendo, como é difícil voltar atrás! Mas o nosso Deus é apresentado, na lição de hoje do Livro da Sabedoria (12,13.16-19), como aquele que «domina a força» (Sabedoria 12,18), que cuida de todos com carinho, a todos perdoa, e nos chama a ser amigos.

    9. Assim também o Espírito, diz-nos hoje S. Paulo numa «migalhinha» da Carta aos Romanos (8,26-27), não grita, mas reza em nós e por nós, suavemente, com «gemidos sem palavras» (stenagmoîs alalêtois) (Romanos 8,26). Trata-se, portanto, de uma lalação filial, em que conta e canta a ternura mais do que as palavras. É assim que a «migalhinha» da Carta aos Romanos acomoda à mesma mesa paterna os meninos e os passarinhos que descem dos ramos da árvore da mostarda para habitar na tua casa, Senhor (Salmo 84,4).

    10. Enfim, um grande Salmo (86) toma hoje conta de nós, deixando a ressoar em nós as notas da inteira liturgia, desde logo os atributos do nosso Deus, como um Deus de «misericórdia e de graça» (rahûm wehanûn) (Salmo 86,15), como repetidamente cantaremos no refrão. Deixo aqui um pedacinho do comentário apaixonado de Santo Agostinho: «Sobre a terra, o coração não se corrompe, se o elevarmos para Deus. Se tens grão, vais guardá-lo no celeiro, para que não se estrague. E como poderás, então, deixar apodrecer o teu coração, deixando-o na terra? Leva o teu grão para um plano superior, e eleva o teu coração para o céu!».

    11. Talvez venham abrigar-se nele os pássaros do céu! Talvez haja festa em tua casa!

    António Couto


  • A Palavra de Deus desce, desce, desce,

    atravessa as nuvens,

    como chuva miudinha,

    cai num pedaço de chão,

    ou num pobre coração,

    e adormece

    como o crescente

    no ventre da farinha,

    e cresce, cresce, cresce,

    até voltar a Deus, sua nascente.

    A oração do humilde é pobre e pura,

    mas sobe, sobe, sobe,

    como um passarinho,

    atravessa as nuvens,

    e deita-se de mansinho no coração de Deus,

    que presta atenção e cura

    as nossas penas

    leves e escuras

    e acaricia as nossas alegrias.

    Atende, Senhor, as nossas preces de hoje

    e de todos os dias.

    António Couto


  • O dia onze de julho é dedicado ao patriarca São Bento,

    Padroeiro da Europa,

    que ele mesmo ajudou a sair das cinzas do império romano,

    e a renascer com a alma lavada entre o chão e o céu.

    São Bento nasceu em Núrsia em 480 e estudou em Roma,

    então atolada em degradação.

    Olhou mais alto,

    e foi ao sabor do vento até às montanhas escarpadas de Subiaco,

    sabendo que Deus não abandona os seus filhos.

    Aí se recolheu numa gruta talhada nos rochedos,

    espraiou o olhar pelas deliciosas paisagens circundantes,

    partilhou o pão com os pássaros do céu,

    sentiu bem por perto a mão de Deus.

    Foi Deus, na verdade, que modelou,

    com as suas mãos carinhosas,

    aquelas pedras serenas e austeras,

    aquelas colinas,

    aquelas primaveras,

    aqueles campos verdes,

    aqueles lagos azuis,

    aqueles passarinhos,

    aqueles lírios,

    aqueles irmãos que lhe foi dando.

    Da gruta de Subiaco mudou-se depois para Montecassino,

    ergueu um mosteiro,

    escreveu uma Regra de vida ao ritmo do céu e do chão,

    do pão e da oração,

    com muito Evangelho sempre à mão.

    Juntou muitos irmãos.

    Antes de morrer, em 547,

    já tinha desenhado o rosto da Europa que aí vinha.

    Em 24 de outubro de 1964,

    São Paulo VI proclamou São Bento Padroeiro da Europa.

    São Bento, Padroeiro da Europa, roga por nós.

    Tanto é o nevoeiro em que hoje vivemos atolados.

    António Couto


  • Se o grão de trigo, que cai na terra,

    não morrer de alegria,

    fica sozinho e triste,

    e morre de desgosto

    e solidão

    e fogo posto.

    Mas se morrer de alegria,

    dará muito fruto,

    e verá longos dias,

    cheios de alegrias

    e de novas melodias.

    A nossa mesa encher-se-á de pão,

    e virão

    os pardais e as cotovias

    partilhar a nossa refeição.

    Como é bom, como é belo,

    viverem unidos os irmãos,

    sentados à beira da torrente

    da paz e da alegria,

    à beira da nascente

    de onde nasce o dia.

    Abençoa, Senhor, o nosso coração,

    estende, com a tua mão,

    uma toalha branca à nossa mesa,

    e senta-te connosco,

    à volta da tua lareira sempre acesa.

    Como é bom estarmos aqui, Senhor,

    mesmo sem tendas levantadas,

    basta-nos o teu amor

    e as nossas mãos nas tuas entrançadas.

    António Couto


  • Domingo XV do Tempo Comum

    Isaías 55,10-11; Salmo 65; Romanos 8,18-23; Mateus 13,1-23

    «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto» (Jo 12,24)

    «Não entendeis esta parábola? E como compreendereis todas as parábolas?» (Mc 4,13)

    1. Neste Domingo XV do Tempo Comum, começámos a escutar o Discurso das Parábolas de Jesus, que preenche por inteiro o Capítulo 13 do Evangelho de Mateus, e é considerado o centro deste Evangelho. Formam-no sete parábolas: da «semente» (13,1-23), do «trigo e cizânia» (13,24-30.36-43), do «grão de mostarda» (13,31-32), do «fermento» (13,33), do «tesouro escondido no campo» (13,44), da «pérola de grande valor» (13,45-46) e da «rede lançada ao mar» (13,47-52). Dada a importância deste Discurso, ele será escutado na íntegra ao longo de três Domingos: neste Domingo XV, é-nos dada a graça de escutar a parábola da «semente» (vv. 1-23); no Domingo XVI, escutaremos as parábolas do «trigo e cizânia», do «grão de mostarda» e do «fermento» (vv. 24-43); no Domingo XVII, escutaremos as parábolas do «tesouro escondido no campo», da «pérola de grande valor» e da «rede lançada ao mar» (vv. 44-52). Seguindo a par e passo o ritmo das parábolas, vamos dando conta que vai sendo posta em causa a nossa apetência para decisões rápidas, bem como do nosso gosto de coisas claras e distintas, imponentes e concludentes: veja-se João Batista (cf. Mt 3,10-12), os fariseus, os zelotes, os essénios… Na verdade, o teor das parábolas esbarra contra estes nossos preconceitos, e faz vir ao de cima a lentidão [semente e fermento], a espera, a paciência e a tolerância [semente, trigo e cizânia, e rede], a pequenez [semente, grão de mostarda e fermento], a riqueza diferente, que não se pode trocar por nada deste mundo [tesouro escondido e pérola].

    2. Deus visitou o seu povo, e de tal modo nos amou que nos deu o seu Filho Monogénito (João 3,16), que hoje saiu de casa e desceu à praia, e subiu à cátedra daquela Barca, para nos contar a parábola da semente, toda a parábola da semente, pois não nos é permitido parti-la e servir dela só um bocadinho. Na verdade, a parábola estende-se por 23 versículos, e articula-se em três partes inseparáveis e que emprestam sentido umas às outras, e são: 1) a parábola da semente propriamente dita contada por Jesus ao povo na praia reunido (vv. 1-9); 2) a pergunta em tom recriminatório dos discípulos: «Por que lhes falas em parábolas?», e a resposta a eles dada por Jesus (vv. 10-17); 3) a explicação ou descodificação da parábola da semente feita por Jesus aos seus discípulos (vv. 18-23).

    3. Note-se que só a parábola da semente é apresentada ao povo, tratando-se de uma apresentação extremamente simples e sem qualquer acicate propriamente religioso: simplesmente vamos vendo a semente a cair sucessivamente no caminho (1), no terreno pedregoso (2), entre os espinhos (3) e, finalmente, na terra boa (4). Analisando o mapa das diferentes situações, salta à vista que as três primeiras estão à partida votadas ao fracasso, ficando o sucesso reservado apenas para a quarta e última, dentro do conhecido modelo retórico “3 + 1” recorrente na Bíblia, e que aqui aparece na apresentação da parábola e na sua explicação. As coisas parecem tão óbvias, que Jesus termina, sentenciando: «Quem tem ouvidos, oiça!».

    4. É fácil também verificar que as duas partes seguintes, a segunda (vv. 10-17) e a terceira (vv. 18-23), se passam entre Jesus e os seus discípulos, a sós, sem a presença do povo. São, portanto, uma lição para os discípulos, para aqueles discípulos e para estes discípulos, também para nós. Abeiremo-nos já da terceira parte, aquela em que Jesus explica, descodificando perante os seus discípulos, o que ficou escondido e por dizer na parábola da semente. E fá-lo com duas acessíveis equações: 1) a semente não é uma semente qualquer; é a Palavra de Deus; 2) o terreno não são os campos que semeamos; são as pessoas, que acolhem ou não acolhem a Palavra de Deus. O próprio modelo ou esquema retórico empregado é já, de per si, ilustrativo, duplamente ilustrativo, pois vai colocando diante dos nossos olhos um mapa de situações diferentes e falsas, as três primeiras, para depois, finalmente, expor diante de nós a situação boa e verdadeira. Fazendo este percurso pedagógico, somos ainda obrigados a esperar até ao fim para ver o correto e lento percurso da semente desde a sementeira [novembro/dezembro] até à colheita [abril/maio]. É mesmo dito, na parábola, pedagogicamente, contra a nossa tentação de rapidez, do «pronto-a-vestir», do «pronto-a-comer», do «pronto-a-brincar», etc., que a semente que germina depressa seca depressa:

    «Outras, porém, caíram em terrenos pedregosos, onde não havia muita terra, e brotaram logo (euthéôs) por a terra não ter profundidade; mas, ao nascer o sol, foram queimadas, e, por não terem raiz, secaram» (vv. 5-6).

    A mesma pressa, sublinhada na negativa, soa ainda por duas vezes na explicação dada por Jesus aos seus discípulos:

    «O semeado sobre os terrenos pedregosos é o que escuta a Palavra e logo (euthýs) a recebe com alegria; não tem, porém, raiz em si mesmo. É inconstante. Quando surge uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, logo (euthýs) se escandaliza» (vv. 20-21).

    5. Mas é na segunda parte que está a chave de compreensão da parábola da semente. Lembremo-nos que esta segunda parte abre com a pergunta em tom recriminatório dos discípulos: «Por que lhes falas em parábolas?» (v. 10), que é como quem diz: “Por que é que não lhes falas às claras, abertamente (en parrêsía), coisa que se entenda logo, e que possa gerar um grande movimento messiânico à tua volta?”. Na verdade, os discípulos também não entendem grande coisa; por isso, anota Marcos que, logo após a parábola da semente, quando ficaram sozinhos, «interrogaram Jesus sobre as parábolas» (Marcos 4,10). Aos olhos daqueles discípulos de Jesus é quase escandaloso que Deus escolha o caminho do silêncio, do escondimento e da paciência, e até do sofrimento, em vez de intervir já e em força para pôr ordem num mundo às avessas, em que vingam tantas forças e ideologias contrárias e hostis aos mandamentos de Deus, ao bom senso, à retidão e à justiça, e em que os justos e os humildes são tantas vezes vilipendiados e humilhados. Para aqueles discípulos, o caminho da Cruz, que Jesus se propõe seguir, e de que eles nem querem ouvir falar (cf. Marcos 9,32; Lucas 9,45), não só não faz sentido em si, como torna ainda mais difícil acreditar em Deus e confiar nele. É como se Deus não servisse para nada. Raciocínio idêntico pode fazer hoje a comunidade dos crentes, a Igreja, que dá cada vez menos nas vistas, não gera grandes entusiasmos à sua volta, e é muitas vezes perseguida por forças hostis, e acusada pelos altifalantes das ideologias reinantes e da comunicação social de andar vários séculos ou milénios atrasada em relação àquilo que o mundo dito moderno considera uma sociedade civilizada, e que é a autonomia sem nenhuma heteronomia, a mentira, a corrupção, a indiferença, a equivalência, em suma, viver cada um a seu bel prazer, sem o incómodo da presença dos justos ao seu lado (Sabedoria 2,12-16). Na verdade, o mundo anseia pela grandeza, o sucesso, a importância, a riqueza, mas a Igreja procura caminhar pelo caminho da justiça, da paciência e da pequenez, tal como Jesus, que não se apresenta como um esplêndido vencedor que arrasta tudo e todos atrás de si.

    6. Mas à pergunta: «Por que lhes falas em parábolas?» (v. 10), com que os discípulos condenam o facto de Jesus não dizer abertamente ao que vem, como Messias, Jesus tem ainda coisas sublimes a dizer. Jesus coloca-se do lado de Deus, e explica àqueles discípulos que a forma de proceder de Deus não é igual à nossa: «Porque a vós foi dado (dédotai: perf. passivo de dídômi) conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas a eles não foi dado (ou dédotai)» (v. 11). Na sua resposta, Jesus acentua claramente o contraste entre «vós» e «eles», e, mediante o uso daquele perfeito passivo, também chamado “passivo divino” ou “teológico”: «a vós foi dado; a eles não foi dado», aponta para Deus, a quem compete revelar os mistérios do Reino de Deus numa clara alusão a Daniel 2,28. Esses mistérios estão escondidos e permanecem inacessíveis aos sábios e inteligentes; é Deus que os dá a conhecer aos pequeninos (cf. Mateus 11,25). E Jesus continua a lançar cada vez mais luz sobre o contraste que já vem de trás entre «vós» e «eles»: «Àquele que tem (échei), será dado, e viverá na abundância; mas àquele que não tem (ouk échei), até o que tem lhe será tirado» (v. 12). Entenda-se aqui a clara divisória traçada por Deus entre os pequeninos, que acolhem o Reino de Deus manifestado em Jesus, e os arrogantes, orgulhosos e ignorantes que não acolhem o Reino de Deus manifestado em Jesus. Não o acolhem, nem dele querem saber. Parafraseando o título de um belo livro de Paul Ricoeur, «O Símbolo dá que pensar», também poderíamos dizer que «A parábola dá que pensar». Este aforismo diz duas coisas importantes: 1) o símbolo dá: não sou eu que ponho o sentido; é o símbolo que o oferece; oferece de que pensar, mas o pensamento não se alimenta de si mesmo; 2) a parábola dá: não sou eu que ponho o sentido; é Deus que nos dá o seu Filho Monogénito (cf. João 3,16), para que nós o acolhamos. Jesus abre, portanto, um tempo novo e inédito, que põe em causa as nossas velhas categorias mentais. O mundo passa bem sem Deus. Os discípulos põem os métodos de Deus em causa. Deus põe-nos em causa a nós.

    7. Por isso, Jesus explica devagarinho aos seus discípulos que a missão que recebeu do Pai não contempla o triunfo fácil e rápido. Portanto, se fala ao povo em parábolas, não é para entreter o povo, mas para que todos entendam a maneira de fazer de Deus. Jesus explica então aos seus discípulos que a sua missão não vai pela via do sucesso, mas pela via profética de Isaías, a quem recorre para mostrar a estranha missão que lhe é confiada, e que se destina, contra todas as expectativas de Isaías, a fazer com que o povo «veja sem ver e oiça sem ouvir e sem entender, e não se converta e não seja curado» (Mateus 13,13-15; cf. Isaías 6,9-10). Perante tão estranha missão que lhe é confiada, aparentemente inútil e votada a um completo fracasso, Isaías pergunta: «Até quando, Senhor?», que é como quem diz: “Não há de ser sempre assim; tempos melhores hão de vir”. Todavia, para espanto de Isaías, o Senhor responde:

    «Até que fiquem desertas as cidades, sem habitantes, e as casas sem gente, e a terra deserta e desolada, e o Senhor remova para longe a gente, e haja muita solidão no interior do país. E se ficar nele ainda um décimo, será por sua vez lançado ao fogo, como o carvalho e o terebinto que são abatidos, ficando lá apenas um toco (matstsebet). Semente santa (zera‘ qodesh) é esse toco (matstsebet)”» (Isaías 6,11-13).

    Aquele toco seco, que é uma Semente santa, não significa o abandono de Deus que desbasta a floresta, e mostra um povo dizimado, exilado, desclassificado. É, antes, um sinal de esperança, pois Deus não semeia à superfície, mas em fundura. Ensina bem S. Paulo que «não somos nós que transportamos a raiz, mas é a raiz que nos transporta a nós» (cf. Romanos 11,18), e também: «quando somos fracos, então é que somos fortes!» (cf. 2 Coríntios 12,10). Bem se vê, ou pode ver, então, que não é a nossa energia e a nossa alegria que nos levanta e nos salva. Teremos de aprender com Isaías e Jesus.

    8. Portanto, a abrir a segunda parte, os discípulos recriminaram Jesus por falar ao povo em parábolas, que não davam os resultados por eles esperados. Jesus ensina-lhes, a eles, àqueles discípulos, e a nós, que o sucesso, o populismo, as estatísticas e a pressa não devem ser preocupação nossa. Já na parábola exposta na primeira parte, Jesus tinha deixado claro, mesmo sem entrar no aspeto religioso, que a semente que cresce depressa, seca depressa (vv. 5-6). Única preocupação nossa, única e relevante missão nossa, deve ser deixar tudo nas mãos de Deus, ao sabor de Deus, ao ritmo de Deus. É de Deus a plantação (Isaías 61,3; 1 Coríntios 3,9). E Jesus esclarece: «Toda a planta que não foi plantada por meu Pai será arrancada» (Mateus 15,13). Só Deus pode fazer brotar vida nova e pão novo de um toco seco! É esta a verdadeira parábola da Palavra e do Profeta, profeta desclassificado, porque é «como uma raiz que brota de uma terra seca» (Isaías 53,2b), e de Jesus, igualmente desclassificado, porque abandonado no toco seco daquela Cruz! Como tudo faz sentido. Como vem à luz, nesta semente pequenina e neste toco seco, na Palavra que desponta de mansinho, o inteiro caudal profético e bíblico. Na verdade, todo o discurso profético e bíblico põe a nu os ossos calcinados e o corpo doente, mirrado, definhado e desfigurado de quem não escuta a Palavra de Deus, mostrando também, todavia, em contraponto, o milagre do novo vigor que só a Palavra fatiada de Deus pode produzir nos caminhos pesados, empedrados e asfaltados da nossa vida (cf. Amós 8,12; Ezequiel 37,1-14).

    9. A Parábola da semente é a mãe de todas as parábolas. A parábola da semente caminha lado-a-lado com a parábola de Jesus. Com a parábola que é Jesus. De forma clarividente, Jesus afirma no Evangelho de João: «Se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto» (João 12,24). Vê-se bem que este dito é uma extraordinária leitura condensada da parábola da semente que tivemos a graça de escutar nos nossos ouvidos. Lado-a-lado a semente e Jesus! Paralelismo perfeito. Uma vez caída à terra, a semente dará o grão e depois o pão. Caída à terra, a semente morre para nascer de outra maneira. É a Paixão. Da semente à Paixão e ao Pão: é todo o processo ou parábola de Jesus a passar diante dos nossos olhos atónitos! Como se vê, a parábola da semente é decisiva para entender a parábola de Jesus, toda a história, vida e mensagem de Jesus. E não espanta que, no texto de Marcos, Jesus questione de forma contundente os seus discípulos a propósito da sua não compreensão da parábola da semente: «Não entendeis esta parábola? E como entendereis todas as parábolas?» (Marcos 4,13). Fica tudo transparente: se não entendemos a semente, que traduz o início do processo, como entenderemos o inteiro processo? Como acolheremos Jesus? Como leremos a Cruz? Como poderemos seguir Jesus no seu Caminho?

    10. Tudo anunciado por Deus. Como a chuva rega o chão e faz germinar o pão, assim a Palavra de Deus há de regar o coração e fazer germinar a conversão e a salvação, cumprindo assim a sua missão. É a lição de Deus em Isaías 55,10-11, que, por graça, escutaremos também neste Domingo.

    11. Brotará então dos nossos lábios a bela canção do Salmo 65, em que o nosso coração se veste de festa e de primavera para enaltecer as maravilhas da criação, também ela com rosto, e com rosto tenso, completamente voltado para Deus, porque tudo recebe de Deus, porque se recebe de Deus. A criação com rosto, e com rosto completamente tendido para Deus, quase saindo fora do pescoço, tal a intensidade da espera, é uma imagem cunhada por Paulo com dois belíssimos termos gregos, ambos utilizados na lição deste Domingo da Carta aos Romanos 8,18-23, de que aqui transcrevemos os versículos 18 e 19: «Penso, de facto, que os sofrimentos do tempo presente não têm medida de comparação com a glória que está para ser revelada (apokalyphthênai) em nós. Com efeito, O ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) da criação (tês ktíseos) a revelação (apokálypsis) dos filhos de Deus ESPERA em tensão RECEBER (apekdéchetai: apò + ek + déchomai)» (Romanos 8,18-19).

    12. O primeiro termo é apokaradokía, de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente], que só Paulo usa no Novo Testamento na Carta aos Romanos 8,19 e na Carta aos Filipenses 1,20, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo. Traduz a atitude de quem se coloca em bicos de pés, alongando o pescoço o mais que pode, com ânsia extrema e intensa de tentar ver o que ainda não se vê. É a atitude da esperança. E é esperando assim que se apanha o «tique» da esperança que, na língua hebraica se diz tiqwah! Diz bem o poeta da esperança: «Difícil é esperar, com humildade e paciência. Fácil é desesperar, e é a grande tentação» (Charles Péguy). O segundo termo é o verbo apekdéchomai, de apò-ek-déchomai [= fora de + desde + receber], usado 8 vezes no Novo Testamento, 6 das quais em Paulo (Romanos 8,19.23.25; 1 Coríntios 1,7; Gálatas 5,5; Filipenses 3,20; ver também Hebreus 9,28; 1 Pedro 3,30), e desconhecido nos LXX, implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus – viver de (ek) receber e de se receber (déchomai) de Deus (1 Coríntios 1,7), saindo de si (apó) para se orientar completamente para Deus, tensão para o dom, pois um dom não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos bem que Alguém espera por nós. Espera, não vazia, mas grávida de realização e de confiança: «espera que contém a presença, pergunta que contém a resposta, esperança que contém o cumprimento» (Karl Barth).

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    dá-me um coração puro e transparente

    como uma nascente,

    como uma semente,

    e ensina-me a ser simples e leve

    como aquele pássaro que do céu desce,

    e reza e canta e come e agradece.

    António Couto


  • Domingo XIV do Tempo Comum

    Zacarias 9,9-10; Salmo 145; Romanos 8,9.11-13; Mateus 11,25-30

    1. As poucas linhas do Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinópticos. É o caso, por exemplo, do exegeta britânico Archibald Macbride Hunter (1906-1991). Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos (nêpioi), os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

    2. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor, nenhuma autonomia, radical dependência e heteronomia, realidades tão de fora do mundo moderno, senhor de si e dobrado sobre si, incurvatus in se, para usar a expressão de Lutero, amigo de si mesmo (phílautos) (2 Timóteo 3,2), e não amigo de Deus (theóphilos). Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar (cf. 2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a “um destes meus irmãos, os mais pequeninos” (henì toútôn tôn adelphôn mou tôn elachístôn), foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos da criança batizada: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

    3. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua «História de uma alma», que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamûl). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

    4. Os pequeninos, os nêpioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm um estatuto, um status, que têm um diploma na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, inclusive as do reino dos Céus, que abrimos e fechamos todas as portas, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

    5. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz por três vezes: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança de criança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida dada, recebida e oferecida.

    6. É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi que opera dentro de nós (Hebreus 4,12; Apocalipse 1,16), e de que não podemos fugir. Como aquela «voz de um fino silêncio» (qôl demamah daqqah) (1 Reis 19,12), puro murmúrio que fez estragos nas entranhas de Elias, ou aqueles «gemidos sem palavras» (stenagmoîs alalêtois) (Romanos 8,26), lalação filial, em que conta e canta a ternura do Espírito que em nós soletra ՚Abba՚, ՚Ab-ba՚, Pa-pá (Gálatas 4,6). É como o dizer ardente do Deus vivo que ferve nas entranhas, no coração, na pulsação, nos lábios, nas veias, nos ossos e na alma, como se vê em Jeremias 20,9, em Isaías 6,6-7, em Elias (Ben Sira 48,1), naqueles dois de Emaús (Lucas 24,32) e naqueles que, naquele quinquagésimo dia, estavam em Jerusalém (Atos 2,3): como o fogo os modelou e habilitou para entender e para dizer tudo de novo, de modo novo! Aos Padres Conciliares reunidos no Concílio II do Vaticano foi-lhes confiada esta missão: «Dizer toda a fé de sempre, num modo novo, ajustado ao homem de hoje». Vem-me à memória uma velha história que circulava na África Oriental, e que falava de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do género: «Por quê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?» Mas a mulher lá seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu bem sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único livro que me lê a mim!».

    7. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho ou gorgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Não nos chama a responder a um inquérito, a preencher uma ficha, responder a uma entrevista, fazer uma inscrição, pagar a matrícula, não entrega apontamentos. O seu ensino é pessoal. Apresenta-se e diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dá-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (cf. Mateus 10,8-9). Nenhum acessório ou mero adereço nos faz falta. Dar o acessório, o adereço, o supérfluo, o que sobra, não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), que se entregou por mim (Gálatas 2,20). Como é da nossa humana experiência, o acessório, o adereço, o supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo, se for verdadeiro, afeta a nossa vida, porque é decisivo e incisivo, é para sempre, tem a marca da eternidade, põe-nos no seguimento de Jesus, a par com Jesus, ao ritmo de Jesus, completamente lado-a-lado com Jesus, debaixo do mesmo jugo, fazendo o mesmo caminho.

    8. Esta agenda [AGE + NDA] de Jesus, que fica «connosco todos os dias» (Mateus 28,20), podemos vê-la diariamente na sua maneira feliz, ousada, pobre, despojada, humilde, filial, fraternal, próxima e dedicada de viver, bem ao jeito do Rei novo e fazedor de paz e de felicidade, sonhado por Zacarias (9,9-10) no último quartel do século IV a. C., em claro contraponto com o esplendor militar dos cavalos e pesados carros de combate de Alexandre Magno, que então atravessava a costa palestinense a caminho do Egito. Da agenda de Jesus, faz parte indeclinável a completa orientação da sua vida filial para o Pai, abrindo a este mundo novos rumos e desafios imensos de fraternidade. Não carros e cavalos, glória militar, vanglória do poder. Jesus, o Rei novo, belo e manso, vem montado num jumento, que não é animal que se leve para a guerra! «Estrada bela! É andando nela, que encontraremos repouso para a nossa vida» (Jeremias 6,16).

    9. Aí está de novo S. Paulo, a escrever aos Romanos (8,9-13) e a nós, para nos advertir que não é «na carne» (en sarkí), mas «no Espírito» (en pneúmati), que devemos viver. E ele insiste em dizer como é importante Cristo estar «em vós» (en hymîn), e o Espírito, Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habitar (oikéô) «em vós» (en hymîn). A carne tem a ver com o currículo, o status, a importância, a ganância… Mas podemos sempre socorrer-nos do vasto elenco, sempre atualizado, das «obras da carne», que S. Paulo faz na Carta aos Gálatas: «São manifestas as obras da carne, que são: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, magia, inimizades, rixa, ciúme, iras, ambições, dissensões, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, sobre as quais vos previno, como já preveni, que os que tais coisas fizerem não herdarão o Reino de Deus» (Gálatas 5,19-21). E podemos também ver o confronto que ele faz com os «frutos do Espírito», que são: «amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

    10. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade, usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16).

    António Couto


  • 1. Em 12 de Janeiro de 2010, às 16h53, um violento sismo abalou o Haiti e abalou o coração do mundo, desencadeando por toda a parte uma gigantesca onda de solidariedade e compaixão.

    2. «Merci, Seigneur», [= «Obrigado, Senhor»], rezavam vozes jovens logo nos primeiros dias resgatadas dos escombros. Vozes saídas do milagre. Oração saída das entranhas.

    3. Naquela tarde do dia 12 de Janeiro, Ena Zizi, uma senhora de 69 anos, estava na missa quando viu a igreja cair-lhe em cima. Continuou a rezar, e, ao sétimo dia, chegou o auxílio. E Ena Zizi saiu a cantar de debaixo dos escombros. Contou uma socorrista mexicana: «Ela agarrou a minha mão com tanta força, que pensei que era Deus que me estava a tocar».

    4. «Deus ajudou-me», respondeu Kiki, aquele menino de sete anos, feliz, de sorriso largo e de braços abertos, quando lhe perguntaram: «Como conseguiste sobreviver sete dias debaixo dos escombros»?

    5. Isabel Jossaint, uma bebé de 15 dias, foi resgatada ao oitavo dia, quando já até os seus pais estavam conformados com a sua morte. Estava sossegada debaixo da mobília da casa. Tinha passado metade da sua vida debaixo dos escombros! Disse o avô: «Todos sabiam que a menina estava morta, menos Deus!».

    6. Emmanuel Buso, um jovem de 21 anos, esteve soterrado nos escombros da sua casa durante dez dias. Foi bebendo a própria urina para não se desidratar. Deitado agora na cama do hospital, afirma: «Só estou aqui, porque Deus assim o quis».

    7. «Rezei a Deus», respondeu a menina, de 14 anos, resgatada catorze dias depois da catástrofe, quando lhe perguntaram: «O que fizeste durante este tempo todo?».

    8. São histórias vivas, densas, encharcadas de dor, de Deus e de amor. Corações a bater, orações a arder, lições a doer para este mundo sonolento, violento, insípido, amortalhado em vida, esse sim soterrado nos escombros de um egocentrismo sem saída.

    9. Hoje, Domingo, o Apóstolo Paulo aponta-nos o AMOR como o CAMINHO HIPERBÓLICO (kath’ hyperbolèn hodón) (1 Cor 12,31), portanto, excessivo e belo e maravilhoso. E dirá na Carta aos Colossenses que o AMOR é o vínculo (sýndesmos) (Cl 3,14), portanto, a fita, o fio, o cíngulo, o cinto que aperta e ajusta as vestes e os corações. E a Carta aos Hebreus vai até ao ponto de nos exortar a estar atentos uns aos outros «até ao paroxismo do AMOR» (eis paroxysmòn agápês) (Hb 10,24).

    10. Tristemente célebre e tragicamente verdadeira é a transcrição que George Orwell (1903-1950) fez do grande texto do «Hino ao Amor» que o Apóstolo Paulo nos deixou em 1 Coríntios 13, substituindo o AMOR pelo DINHEIRO. Escreveu assim George Orwell: «Ainda que falasse todas as línguas, se não tiver dinheiro, sou como um bronze que retine… Se não tiver dinheiro, nada sou… O dinheiro tudo crê, tudo espera, tudo suporta…».

    11. Não anda longe de Orwell esta sociedade em que vivemos. E aqueles que mandam no mundo, ou que pensam que mandam. Mas os pobres, que não têm dinheiro nem poder, continuam a dar-nos lições de amor. Como estas, vindas do Haiti. Merci, Seigneur! Todos esperamos, todos rezamos para que lições semelhantes se levantem dos escombros da Venezuela.

    António Couto


  • A Igreja celebra neste dia 29 de junho a Solenidade dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo. Nem só um, nem só outro, mas os dois. Os dois juntos, nas suas semelhanças e diferenças. Cada um à sua maneira, o pescador e o doutor, souberam pôr todas as suas energias ao serviço de Jesus Cristo e da sua Igreja. Um grande amor os unia a Cristo; o mesmo amor de Cristo os seduziu e os conduziu, sem descanso nem desânimo. Calcorrearam os caminhos do mundo até à capital do mundo de então, Roma. Pelos caminhos do mundo, foram semeando a Palavra e o Pão de Cristo, que não pararam mais de crescer e de alimentar tantos e tantos cristãos. Em Roma, deram o mais forte testemunho de Cristo, o seu sangue, a sua vida, dizendo bem alto em quem tinham verdadeiramente acreditado, e a quem tinham confiado a sua vida. Para a Igreja primitiva, Pedro e Paulo eram os dois mestres, iguais na cátedra, e os seus túmulos, ambos em Roma, foram durante muito tempo o único lugar de destino das peregrinações dos cristãos.

    Precisamos tanto hoje de evangelizadores convictos, apaixonados e santos!

    S. Pedro e S. Paulo, unidos a Cristo na mesma fé ardente, rogai por nós!

    António Couto


  • Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, Apóstolos

    Atos 12,1-11; Salmo 34; 2 Timóteo 4,6-8.17-18; Mateus 16,13-19

    1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires serem a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

    2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19, que é também o Evangelho do Domingo XXI do Tempo Comum, e põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

    3. Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

    4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Singular confissão com a qual Pedro diz, não o acessório, mas o essencial de Jesus, reconhecendo que Jesus tem um significado particular para os homens, ao mesmo tempo que aponta a sua relação de todo singular com Deus. Em quanto Cristo ou Messias, Jesus é o único, último e definitivo Rei e Pastor do povo de Israel, enviado por Deus para dar a Israel e a toda a humanidade a plenitude da vida. Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

    5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

    6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica, científica ou de compreensão. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

    7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

    8. Atos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Atos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, calça as sandálias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espetacular ação de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

    9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egito celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egito, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado em Atos 5,18-21.

    10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa. Apercebendo-se de que alguém batia ao portão, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente e, ao mesmo tempo, perplexa que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Atos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

    11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7). De notar que a etimologia de agôn (combate) é a mesma de agápê (amor), sendo, na verdade, o amor verdadeiro uma guerra que requer combates diários. A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Coríntios 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

    12. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (v. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» [«Saboreai e vede que Bom é o Senhor»], em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés».

    António Couto


  • O tempo do Evangelho é um tempo novo,

    de tal modo novo,

    que não nos resta senão estar sempre prontos

    e atentos

    e sedentos,

    sempre vigilantes

    e cientes

    de que pode a semente germinar antes do campo

    e a espiga amadurar antes do tempo.

    É, portanto, necessário

    viver sobre o vau da porta entreaberta,

    sempre alerta,

    como quem está sempre à espera de alguém,

    com um amor imenso e intenso,

    que rasga o nosso tempo acomodado

    a clichés de há muito instalados,

    e nos faz ver

    que é preciso viver todos os instantes,

    como se fosse a primeira vez,

    como se fosse a última vez.

    Tudo no Evangelho é decisivo

    e incisivo.

    O Evangelho é o lugar e o modo

    em que seguindo Jesus

    nos damos conta

    de que estamos sempre a trautear o abecedário.

    E aí, nesse país que nos parece ao contrário,

    vê-se bem que cada passo conta,

    cada gesto conta,

    cada palavra conta,

    cada copo de água conta.

    António Couto


  • Domingo XIII

    2 Reis 4,8-11.14-16a; Salmo 89; Romanos 6,3-4.8-11; Mateus 10,37-42

    1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum, escutaremos o final do Discurso Missionário de Jesus no Evangelho de Mateus (10,37-42), que iniciámos há dois Domingos atrás. O texto desdobra-se em duas vertentes. Primeira: o discípulo enviado por Jesus em missão terá de viver totalmente vinculado a Jesus, totalmente empenhado na causa de Jesus e com Ele totalmente identificado (Mateus 10,37-39), notas insistentemente repetidas ao longo dos Evangelhos. Segunda: específico desta última parte do Discurso Missionário de Jesus é que este Discurso não é dirigido apenas aos missionários, mas sobretudo àqueles que os acolhem. O acolhimento feito aos missionários reveste-se de extrema importância na parte do Discurso hoje escutado, pois é dito que acolher os enviados de Jesus Cristo é acolher o próprio Cristo e Aquele que o enviou (Mateus 10,40). Para tornar este aspeto visível e audível, neste pequeno texto de apenas seis versículos, o verbo «acolher» (déchomai) faz-se notar por seis vezes (Mateus 10,40[4 vezes].41[2 vezes]). «Acolher» é, pois, a palavra-chave do Evangelho de hoje. E a imagem daquele simples copo de água continuará ali sempre, sobre a página ardente do Evangelho, para nos dizer que, nestas contas do rosário do Reino de Deus, teremos de começar sempre pelo abecedário.

    2. A primeira nota de todo o anunciador (kêryx) consiste, não tanto naquilo que anuncia, mas na fidelidade àquele que o envia. São Paulo di-lo com rigorosa precisão: «Como hão de anunciar (kêrýssô), se não forem enviados (apostéllô)?» (Romanos 10,15). O estreitíssimo vínculo que une os anunciadores do Evangelho a Jesus e ao Pai, que o enviou, constitui a força inquebrável e a pérola inegociável dos discípulos de Jesus, por Jesus enviados. Esta força que une a Jesus os seus discípulos é mais forte e valiosa do que a família que nos é mais próxima e querida: o pai, a mãe, o filho, a filha. É mesmo mais forte e valiosa do que a nossa própria vida terrena. Em boa verdade, cada enviado de Jesus é um portador de Deus, um mostrador de Deus. Porque Deus tem de andar ali ao lado de cada enviado de Jesus. De cada enviado de Jesus, nós temos de dizer: «Vê-se Deus daqui!», porque só Deus nos pode pedir tanto! Sim, só Deus me pode pedir que me desprenda da minha família e… da minha própria vida! É assim, e é só assim, que quem me vê, pode ver também Deus perto de mim! Para os missionários do Evangelho o que vale é a vida eterna, a vida divina, a vida vivente, a vida que não morre, que por Deus lhes é dada, e que eles podem e devem oferecer como dom supremo, assim como podem ainda ser também fonte de bênçãos para quem evangelicamente os acolher. É, portanto, inegociável o amor a Jesus, isto é, a nossa ligação e identificação com Jesus. Devíamos ter sempre diante de nós a cena em que Jesus confia a Simão Pedro o cuidado pastoral dos seus próprios cordeiros e ovelhas. Jesus pergunta por três vezes: «Simão, filho de João, tu amas-me?» (João 21,15-17). Salta à vista que entre aquilo de que Pedro tem necessidade imperiosa para levar por diante a missão que lhe é confiada, o seu amor a Jesus terá de ocupar sempre o primeiro lugar. A proximidade e simpatia para com as pessoas têm também a sua importância e lugar, mas fica bem claro que ocupam um patamar mais abaixo.

    3. Acolher os Doze, os Apóstolos, os discípulos de Jesus, os missionários e evangelizadores de todos os tempos, não consiste apenas em recebê-los educadamente em casa. Consiste também, e sobretudo, em expor-se ao anúncio que trazem, ao testemunho que dão. Não consiste apenas em abrir-lhes as portas da casa, embora isso também seja importante para quem deixou tudo, mesmo tudo, por causa de Jesus Cristo (Mateus 10,37-39), e de vez em quando precisa de um quarto de hora de hospitalidade. Mas tem muito mais a ver com abrir o coração à mensagem de que são portadores, sabendo e vendo bem que, por detrás dos anunciadores do Evangelho, está Jesus, que os enviou, e por detrás de Jesus está o Pai, que enviou o seu Filho Monogénito. Portanto, acolher os enviados de Jesus é acolher o próprio Jesus, é acolher Deus! Portanto ainda e insistentemente, acolher os anunciadores do Evangelho, os mensageiros, os profetas, os justos, é abrir a porta a Deus, abrir o coração a Deus. É tomar consciência de que ali acaba o nosso poder, e começa um poder novo. O anúncio de que os anunciadores são portadores implica, da parte destes, total fidelidade e identificação com Jesus, e, da parte de quem acolhe o anúncio, implica decisões e incisões que podem ir até ao sangue, requer uma nova postura pró ou contra Jesus Cristo, uma escolha que não admite compromissos ou soluções retóricas, pode dividir a humanidade, a família, o coração de cada um. Muitas vezes esperamos que os profetas, dada a sua proximidade com Deus, nos ajudem a justificar os nossos compromissos e comportamentos, a nossa maneira de viver assim-assim, e, porventura, que nos possam até ajudar a obter alguma vantagem ou lucro. Mas, nesta matéria, o profeta é intolerante e radical. Não vende nada. Também não se vende. Deixa Deus em nossa casa. E passa a ser tudo novo. Se Somos hóspedes de Deus, é forçoso aprender a conviver com Deus. Em última análise, só sabemos acolher, porque também já fomos acolhidos.

    4. Acolher Jesus ou os seus enviados, «portadores de Jesus», «portadores de Deus», «portadores do Espírito», para usar a bela terminologia de Santo Inácio de Antioquia quando, a caminho do martírio em Roma, escreve aos Efésios (Ad Ephesios 9,2), é aceitar expor-se à cirurgia da Palavra, que divide junturas e medula e julga as disposições e intenções do coração (Hebreus 4,12). Acolher os enviados de Jesus não é como dar uma receção ou organizar uma festa de amigos. É aceitar conviver com um bisturi dentro de si, com um fogo a arder nos ossos e na alma, dentro de si, como se vê em Jeremias 20,9, em Isaías 6,6-7, em Elias (Sir 48,1), naqueles dois de Emaús (Lucas 24,32) e naqueles que, naquele quinquagésimo dia, estavam em Jerusalém (Atos 2,3): como o fogo os modelou e habilitou para entender e para dizer tudo de novo, de modo novo! Ousar andar tão perto de Deus, aproximar-se de Deus, é «empenhar o coração» (ʽarab ʼet-libô), no sentido genuíno de «pôr o coração no prego», numa casa de penhores, como refere de forma exemplar Jeremias 30,21. É como subir a um poste de alta tensão, onde está escrito: «Perigo de morte!». Quem entra no mundo de Deus ou deixa Deus entrar no seu mundo, sabe bem que anda Deus ali por perto, e sabe, por isso, que não andará nunca perdido, e compreende ainda que nem esta vida terrena é o bem maior, nem a morte terrena o maior mal. O valor mais alto é a nossa ligação com Deus e com a sua vontade. É, afinal, tão arriscado como oferecer um copo de água com amor a um missionário. É verdade, diz-nos o Evangelho, que este simples copo de água pode valer a vida eterna! (Mateus 10,42).

    5. A melodia do acolhimento vem de longe. Nove séculos antes de Cristo, lê-se hoje no Segundo Livro dos Reis 4,8-11.14-16, que uma mulher rica de Sunam, uma aldeiazinha situada na planície meridional do monte Carmelo, acolheu em sua casa o profeta Eliseu, em quem ela reconhece um «homem de Deus» (2 Reis 4,9). Eliseu, do hebraico ʼelîshaʽ ou ʼelyashaʽ [= «Deus salvou»], é apresentado como filho de Safat, natural de Abel Mehôlah, no vale do Jordão, e os Livros dos Reis mostram-no como sucessor de Elias e continuador da sua missão profética. Para tal, recebe o manto de Elias (1 Reis 19,19; 2 Reis 2,13) e a dupla porção do seu espírito (2 Reis 2,9), e segue o mestre até ao seu arrebatamento (1 Reis 19,21; 2 Reis 2,1-11). A hospitalidade da mulher de Sunam traduz-se na construção de um pequeno quarto no terraço da casa, equipado com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada (2 Reis 4,10). O suficiente para Eliseu, o «homem de Deus», poder repousar quando estiver de passagem por Sunam. Mas, como quem acolhe um profeta por ele ser profeta, recebe recompensa de profeta, também a mulher hospitaleira de Sunam recebe uma recompensa nova: um filho! (2 Reis 4,16). A Palavra profética tem, de facto, uma energia nova: é a Palavra antes das coisas e do homem, de modo diferente da história comummente entendida, que põe as palavras depois das coisas e do homem. Aí está a maravilha de se viver com o Deus Criador à nossa beira: «Deus diz e tudo acontece» (Salmo 33,9).

    6. A passagem da Carta aos Romanos 6,3-4.8-11 é um grande texto batismal. Batizados na morte de Cristo e com Ele sepultados, formamos com Ele uma única realidade, e viveremos com Ele, por graça, a vida nova da ressurreição.

    9. Motivos sempre em excesso para cantar, saboreando a bondade do Senhor, e aprender a reconhecer a sua presença no meio de nós com a aclamação terûʽah (Salmo 89,16), grito ruidoso de emocionada alegria, em si intraduzível, mas que é a maneira de o povo fiel assinalar a presença favorável de Deus. É o que fazemos também nós hoje, cantando o Salmo 89, um Salmo Real, que canta Deus e o seu Messias, e o Reino maravilhoso do seu amor já estabelecido no meio de nós.

    António Couto


  • 1. Com exceção (honrosa) da língua portuguesa, os nomes dos dias da semana das principais línguas vivas europeias estão marcados pelos astros: sol, lua, marte, mercúrio, Júpiter, vénus, saturno. Esta maneira de dizer salienta a nossa dependência dos astros, que o mesmo é dizer, das forças da natureza que os astros representam. Excetuam-se, nalguns casos, o sábado e o domingo, que trazem a marca das tradições hebraica e cristã.

    2. Mas, mesmo no caso português, é fácil verificar como o nosso paganismo convive amenamente com o nosso cristianismo. Basta um olhar atento a esta época do ano (solstício de verão), e às celebrações que fazemos à volta dos santos populares: Santo António, São João e São Pedro.

    3. Embora o fenómeno seja o mesmo, detenho-me particularmente na festa de S. João, por ser a mais afeta a esta zona norte do país. A tradição bíblica põe João Batista na linha da Graça [o nome João, hebraico Yôhanan, nome pleno, teofórico, significa «YHWH faz Graça»], e não da natureza, e faz dele um homem austero, que não beberá vinho nem bebida alcoólica (Lucas 1,15), que anda pelo silêncio do deserto para melhor poder escutar e escrutar a Palavra de Deus, e que, a quantos o procuram, prega penitência e conversão. Mas nós festejamo-lo com esfuziante folia, no meio de barulho e muita música, abundância de vinho e danças…

    4. Na segunda metade do primeiro século e inícios do segundo da nossa era, o cristianismo e o primitivo culto cristão floresciam na Palestina, sobretudo ligados a lugares que carregavam as principais memórias cristãs, como Belém, Jerusalém, Nazaré, Ain Karem, e outros. Todavia, entre os anos 117 e 135, o imperador romano Adriano, com o intuito de paganizar a Palestina e anular o cristianismo nascente, deitou por terra todos os lugares de culto cristão que lá havia, entre os quais se contava a «casa-igreja» de Ain Karem [= «nascente do jardim»], lugar do nascimento de João Batista, a uns 8 Km a SO de Jerusalém, extinguindo assim o nascente culto cristão a João Batista, e implantando no seu lugar o culto pagão de Adónis. O culto de Adónis é o culto da natureza. Filho do incesto de Ciniras com Esmirna ou Mirra, sua filha, a beleza de Adónis seduziu a deusa Afrodite ou Vénus, deusa do amor, da beleza, da vegetação e da fertilidade. Ciúmes de outras deusas, entre as quais Perséfone ou Proserpina, deusa da morte, fizeram que Adónis, que era um bom caçador, fosse morto por um javali, indo assim parar aos braços de Perséfone, deusa da morte. O facto deu origem a intrigas entre as duas deusas (Afrodite e Perséfone), só sanadas pelo decreto de Júpiter, que decidiu que Adónis ficasse com Perséfone um terço do ano (quatro meses), com Afrodite outro terço (quatro meses), e que ficasse livre no último terço do ano (quatro meses). Mas Adónis ofereceu este último terço também a Afrodite. O tempo que passa com Perséfone é o inverno, o tempo triste em que a natureza definha e parece que morre. O tempo que passa com Afrodite é o tempo da primavera [= «primeiro verão»] e do verão, o tempo da explosão da vida e da alegria. Perséfone e Afrodite são natureza, e não são mais do que natureza. As festas em honra de Adónis têm assim um tempo de choro e de lágrimas, que equivale à morte de Adónis e ao tempo invernal, que passa com Perséfone, e um tempo mais intenso de folia, que equivale como que à «ressuscitação» de Adónis e ao tempo da primavera e verão, que passa com Afrodite. Como se vê, Adónis também é natureza, e não é mais do que natureza no seu ciclo anual, e aquilo que se festeja nas festas populares no solstício de verão não é mais do que a exuberância da natureza.

    5. É esta paganização de João Batista por Adónis que permanece ainda hoje nas nossas festas populares do solstício de verão. As festas populares desta época solsticial celebram, portanto, a explosão da natureza.

    6. Voltemos aos astros. A língua latina fornece-nos duas palavras para dizer «astro»: aster, plural astra, e sidus, plural sidera. Na sua brilhante L’Écriture du désastre (Gallimard, 1980), Maurice Blanchot (1907-2003) mostrou magistralmente que, se as pessoas vivem ligadas aos astros e se o seu comportamento depende deles sem qualquer possibilidade de liberdade, então a vida é com certeza um «des-astre»! E é esta a compreensão que expressamos do «desastre», quando lemos num acontecimento dramático da nossa vida ou da vida dos outros, não o resultado da nossa vontade, mas a influência perniciosa de qualquer astro, o velho destino. Do mesmo modo, dizemos hoje vulgarmente que alguém está siderado, quando está de tal modo fascinado por um objeto, por um acontecimento, por uma pessoa ou por uma ideia, que já não consegue dar um passo por conta própria.

    7. Viver ligado aos astros e ao que eles dizem pode ser, portanto, um desastre: se não nos conseguimos libertar deles, ficamos como que siderados, prisioneiros nas mãos de um destino qualquer. Mas se nos separarmos deles, então ficamos de-siderados, do latim desiderare, que deu o nosso desejar. Ao sabor do nosso desejo. É, portanto, a libertação dos astros, a saída da sideração, que dá acesso ao desejo, que nasce da separação do astral e do regresso à vida e ao movimento, à liberdade e à história, a um tempo que seja nosso.

    8. Mas será ainda necessário quebrar este arco desiderativo a que andamos presos e que apenas molda em nós um «eu» identitário e patronal sempre em expansão, à procura daquilo que pode satisfazer o nosso desejo, e que, o mais das vezes, resulta em rejeitar ou absorver o outro, num processo cego de autorrealização ou autossatisfação. É necessário abrir-se ao extra, ao sentido objetivo, ao éschaton, ao dom que vem de fora, e que ninguém pode produzir por si mesmo. Temos todos de aprender a recebê-lo, abrindo as mãos e o coração.

    9. Mas esta tonalidade já nos faz sair do âmbito da natureza e entrar no âmbito da Graça, sair da esfera de Adónis e entrar na esfera de João Batista. Na verdade, o nome «João» dado ao filho de Isabel e Zacarias, significa «YHWH faz Graça». E porque João Batista está no limiar dos dois Testamentos. O seu nome, vindo de Deus (Lucas 1,13) e não da sua família de sangue, resume todo o Antigo Testamento, e serve de sumário a todo o Novo Testamento. O nome «João» exprime então o conteúdo da inteira Escritura dos dois Testamentos, que é «Deus faz Graça». João é Graça. Não é natureza.

    António Couto


  • Ain Karem ou Fonte do Jardim, a uns 8 km a sudoeste de Jerusalém, é apontado como o lugar tradicional do nascimento de João Batista. Mas o verdadeiro lugar da sua vida é o deserto da escuta infinita e do sentido a transbordar que abre caminhos nunca andados e opera corações empedernidos e embotados. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Tal como a escuta infinita e o sentido a transbordar, também os gafanhotos e o mel silvestre são alimento para o coração, e não para o estômago. Como a verdade, a fidelidade, a felicidade, a paz, a alegria e o amor.

    Mas João Batista não é natureza. Não é Perséfone, a deusa da morte e do inverno, nem Vénus ou Afrodite, a deusa da beleza e da vegetação, da primavera e do verão. Não é Adónis, que pela morte invernal cai nos braços de Perséfone, para depois, pela “ressuscitação” primaveril e do verão, passar para os braços de Vénus. É este João Batista transformado em Adónis “ressuscitado” que se celebra nesta estação do ano com festas e folguedos, explosão de vida e alegria. Mas João Batista é outra coisa: é vontade boa e firme, sobriedade, verdade, mudança de vida, escuta infinita e vida com dedicatória ao Deus da inteira criação.

    São João Batista, rogai por nós!

    António Couto


  • Solenidade do Nascimento de S. João Batista

    Isaías 49,1-6; Salmo 139; Atos 13,22-26; Lucas 1,57-66.80

    1. Na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, é-nos dada a graça de escutar o Evangelho segundo Lucas 1,57-66.80. Depois de Maria ter visitado e saudado Isabel (Lucas 1,39-45), e depois de ter recitado a bela oração do Magnificat (Lucas 1,46-55), o narrador informa-nos que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56). No cenário da Anunciação do Anjo a Maria (Lucas 1,26-38), o leitor foi informado, no v. 36, que também «Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês [de gravidez], aquela, a quem chamavam estéril».

    2. Esta informação do sexto mês de gravidez de Isabel (Lucas 1,36), que o leitor é levado a articular com a visita de Maria a Isabel (Lucas 1,39-45), e sobretudo com os «cerca de três meses» que Maria passou em casa de Isabel (Lucas 1,56), pode levar-nos a pensar que Maria, mal recebeu esta informação, se pôs logo a caminho de Ain Karem, terra de Isabel, uns oito quilómetros a sudoeste de Jerusalém, para ajudar a sua parente naquilo que fosse necessário aquando dos trabalhos do parto. À primeira vista, parece ir nesse sentido a informação do narrador que refere que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56). Verificamos, portanto, que Maria está de regresso a Nazaré no v. 56. E, para algum espanto nosso, no versículo imediatamente seguinte (v. 57) Isabel dá à luz. De forma clara então: Maria não foi visitar Isabel, demorando-se em sua casa cerca de três meses, para ajudar Isabel nos trabalhos do parto. Se assim fosse, o narrador não nos informaria, no v. 56, que Maria regressou a sua casa, para nos informar no v. seguinte, v. 57, que Isabel deu à luz. Não sendo essa a razão, temos então de procurar noutra direção pelo significado que o narrador quis dar a essa estada de cerca três meses de Maria em casa de Isabel. Vale aqui o velho princípio hermenêutico de considerar a Escritura como um todo unitário em que Deus fala, o que nos obriga a «ler a Bíblia com a Bíblia» (Tôrah mittôk Tôrah), para captarmos o sentido de uma locução. E então impõe-se-nos a anotação que consta em 2 Samuel 6,11 acerca da Arca do Senhor, sendo aí dito que «a Arca do Senhor ficou três meses em casa de Obed-Edom» [atual Bídu, hoje uma aldeiazinha palestiniana no caminho de Emaús El-Qubèibeh, no antigo território de Gat], «tendo o Senhor», presente na Arca, «abençoado Obed-Edom e toda a sua casa».

    3. Portanto, Maria é, no texto de Lucas, a Arca do Senhor presente em casa de Isabel, que abençoa a casa de Isabel. Verificação: aquando do nascimento do menino, não é dito, o que seria de todo normal, que os vizinhos e os familiares de Isabel ouviram dizer que Isabel tinha tido um filho, mas sim que «os vizinhos e familiares ouviram dizer que Deus cumulou Isabel com a sua misericórdia» (Lucas 1,58).

    4. O oitavo dia do nascimento de um menino é uma grande festa em Israel. É nesse dia que o menino é circuncidado e lhe é dado o nome. A casa de Isabel enche-se outra vez de familiares e vizinhos. Mais uma vez atento, o narrador diz-nos que aquela gente que veio para a festa queria dar ao menino o nome do seu pai, Zacarias (Lucas 1,59). Nem outra coisa era de supor, dado que, em contexto bíblico, o filho primogénito recebia habitualmente o nome do seu pai. Mas Isabel também estava atenta, e reagiu logo, dizendo: «Não, o menino chamar-se-á JOÃO» (Lucas 1,60).

    5. Os presentes ficaram atónitos com a reação de Isabel, e fizeram questão de vincar tal incongruência, referindo que na família ninguém tinha esse nome (Lucas 1,61). Recorreram, pois, a Zacarias, que estava mudo desde Lucas 1,13, para que se pronunciasse sobre o assunto do nome do menino. Zacarias, porque estava mudo, pediu uma tabuinha de cera, e escreveu: «O seu nome é JOÃO!», o que provocou o espanto de todos os presentes (Lucas 1,62-63).

    6. Porquê, então, o nome de JOÃO? É certo que já o Anjo tinha mencionado a Zacarias este nome em Lucas 1,13. Mas porquê JOÃO, se ali, no livro anagráfico daquela família ninguém registava esse nome? O que significa o nome JOÃO? Em hebraico, JOÃO diz-se Yôhanan. Yôhanan significa literalmente «YHWH faz graça». E o que é fazer «fazer graça»? É, numa cultura que vive do concreto, uma mãe que embala ternamente o seu bebé nos braços e baixa para ele o seu olhar carinhoso, bondoso, maravilhoso, gracioso, maternal. É este duplo gesto de carinho maternal que é a graça bíblica. Sobretudo aquele olhar belo, enternecido, embevecido, maternal, que enche o bebé de graça.

    7. É assim que Deus olha para nós, e nos acaricia. É assim que Maria é saudada pelo Anjo com aquele: «Alegra-te, Cheia de Graça!» (Lucas 1,28). E é isso que Maria canta no Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor,/ e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,/ porque Ele Olhou (epiblépô = olhar condescendente) para a sua humilde serva» (Lucas 1,46-47).

    8. O nome JOÃO não estava registado no livro anagráfico daquela família. O nome dado não é, portanto, da nossa colheita. Vem de Deus. Foi anunciado pelo Anjo. O que é que isto quer dizer? JOÃO é, por assim dizer, o último profeta do Antigo Testamento, e o primeiro do Novo Testamento. Sendo o último do Antigo Testamento, ele resume todo o Antigo Testamento: «Deus faz graça». Sendo o primeiro do Novo Testamento, ele constitui o sumário de todo o Novo Testamento: «Deus faz graça».

    9. É a posição estratégica de JOÃO no limiar dos Dois Testamentos, encerrando um e abrindo outro, resumindo um e sumariando outro, que explica a nossa estranheza. Mas JOÃO é uma enorme lição. Neste Belo Nome está contida a inteira Escritura e constitui um imenso discurso sobre Deus. Parabéns, menino JOÃO, pelo teu nascimento no nosso mundo. Tu, que nos vieste mostrar Deus!

    10. O Antigo Testamento serve-nos hoje, na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, o chamado «segundo canto do Servo de YHWH» (Isaías 49,1-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» fala em primeira pessoa e refere o seu chamamento por Deus, que continua a dizer o seu nome e a revelar-se a ele. Na verdade, Deus quer fazer dele o restaurador de Israel, o condutor dos exilados de Judá, mas também quer que ele seja uma luz para as nações, pois Deus quer que a sua salvação chegue até aos confins da terra. Da mesma forma, João não é a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz (João 1,7-8).

    11. Também temos hoje a graça de ouvir um pequeno extrato (Atos 13,22-27) do extenso «módulo narrativo» da história da salvação feito por Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,16-41). A parte hoje narrada e escutada põe diante de nós a história santa desde a promessa feita a David até João Batista, que mostra a sua realização, apontando Jesus.

    12. O Salmo 139 é uma pequena maravilha, que põe diante de nós um Deus que se interessa por nós desde a nossa gestação no seio materno, ainda em embrião (golem) (Salmo 139,16), e depois acompanha com conhecimento pessoal todo o nosso percurso, toda a nossa vida. Tudo maravilhoso e admirável. Ó Deus amigo dos homens!

    António Couto


  • Único Senhor da minha vida em oração,

    em doação,

    abriga-me à sombra das tuas asas,

    põe sobre mim a tua mão de amor,

    conduz-me pelos teus caminhos puros

    e seguros,

    alumia as pregas escuras do meu coração,

    faz-me ver a alegria da tua salvação,

    o sabor do pão repartido à tua mesa,

    pão sempre a sair do forno,

    pão sempre quente e nunca morno.

    Apraz-me sentar-me à tua mesa,

    onde se come e se reza,

    e o ambiente é familiar e quente

    como uma lareira acesa.

    Até as aves do céu vêm abrigar-se em tua casa,

    comer à tua mesa.

    Aqui fazem os passarinhos os seus ninhos,

    e até os bandos de estorninhos

    encontram aqui o seu descanso.

    Dá-nos, Senhor,

    em cada dia

    da nossa vida

    às vezes escura,

    a água pura da tua luz e alegria,

    que nos enche de paz e nos sacia.

    António Couto


  • Sabes, meu irmão, que em Anatôt,

    há uma amendoeira em flor carregada de esperança.

    Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se

    e planta-se no teu coração róseo-branco de criança.

    Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,

    aí mesmo no chão do teu coração,

    tanto faz, minha irmã, meu irmão.

    Sai dessa reclusão

    e vem expor-te

    a este vendaval manso de graça e de perdão.

    A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.

    Não pela minha mão,

    incapaz de tecer um tal manto de brancura,

    mas pela mão de Deus,

    que também faz brotar o vinho e o pão

    e a ternura

    no nosso coração.

    António Couto


  • Domingo XII

    Jeremias 20,10-13; Salmo 69; Romanos 5,12-15; Mateus 10,26-33

    1. Continuamos a escutar, neste Domingo XII do Tempo Comum, o Discurso Missionário de Jesus no Evangelho de Mateus, hoje Mateus 10,26-33. Omitiu-se Mateus 10,9-25. A omissão, porém, não nos dispensa de o ler; antes pelo contrário, é um convite a ler, para ficarmos informados e também para não perdermos o contexto. Então, nesses vv. omitidos, Jesus fazia aos seus Doze Apóstolos um vivo apelo ao despojamento radical, enviando-os em missão sem ouro, nem prata, nem cobre, nem alforge, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado, nem pão. Apenas Paz! Ao mesmo tempo, prevenia-os para as perseguições que viriam de toda a parte. Das autoridades, das povoações em geral, dos interesses e ideologias reinantes, dos próprios familiares. Anunciar Jesus tem custos e implicações e acarreta perseguições, que podem ir até à morte violenta. Mas é também nos tribunais e perante os governadores e reis deste mundo que é preciso dar testemunho de Jesus, anunciando nesses areópagos que haverá outro julgamento, em que as leis são outras, e que há outro Juiz, outro Rei e outro Reino. Neste contexto, é importante ainda que os enviados do Evangelho não se precipitem a expor humanas razões, que nada valem, mas que saibam dar lugar ao «Espírito do vosso Pai», pois será Ele que falará em nós e em nosso favor (Mateus 10,19-20).

    2. A pequena perícope de hoje (Mateus 10,26-33) tem naturalmente em conta tudo o que a precede: por um lado, as perseguições, porventura até à morte terrena, até ao martírio, que a pregação do Evangelho acarreta; por outro lado, a plena confiança em Deus, nosso Pai, que cuida dos enviados de Jesus, como cuida de nós, em todas as circunstâncias. Daí a locução «Não temais!», verbo grego phobéomai, que soa no pequeno texto de hoje por três vezes na forma negativa: «Não temais» (mê phobeîsthe) (Mateus 10,26.28a.31), e uma vez na forma positiva: «Temei antes…» (phobeîsthe dè mâllon) (Mateus 10,28b). Compreende-se, no primeiro caso, que se trata de não temer os perseguidores, e a razão é que há Alguém mais poderoso, que pode mais do que os perseguidores, e que protege sempre os enviados e servidores do Evangelho. Por isso, é a esse mais poderoso, que é Deus, que se deve temer no sentido positivo: «Temei antes…». A espiritualidade bíblica e judaica tinha em grande apreço o temor de Deus. O temor é devido a Deus. O temor de Deus era e é uma referência fundamental da piedade judaica, como o é também da piedade cristã. Diz exemplarmente o tratado Pirqê ՚Abôt [= «Ditos dos Pais»], da Misnah Judaica: «Tende sempre sobre vós o temor dos Céus» (1,3). O temor dos Céus, circunlocução para evitar dizer o nome de Deus, compete só a Deus, só a Deus é devido. Os perseguidores, ainda que poderosos, não merecem a reverência do temor de Deus! Quem está a ler o pequeno texto com atenção, deparando-se por três vezes com a locução «Não (os) temais!», seguramente se recordará da Carta de Jeremias, que a Vulgata junta ao Livro de Baruc, aparecendo como o seu Capítulo VI, e em que sistematicamente se vai lendo acerca dos ídolos, com pesada ironia e diluente sarcasmo: «Não são deuses; portanto, não os temais!» (Baruc 6,14.22.28.64.68).

    3. Sendo então Deus o mais poderoso e o único que merece a reverência dos enviados do Evangelho e o seu temor, a nossa reverência e o nosso temor, a missão dos enviados do Evangelho, como também a nossa, a uns e outros confiada por Jesus, não pode ser calar a verdade do Evangelho só porque pode incomodar e pôr a descoberto o falso poder dos poderosos e os interesses e ideologias de turno que movem este mundo. Os enviados de Jesus devem anunciar sem medo, sempre e em toda a parte, a verdade do Evangelho, que é Jesus, no sentido subjetivo e objetivo. E se nos cortarem as estradas e outros meios e acessos, é sobre os terraços das casas [telhados não havia naquele tempo nas casas da Palestina], lugares tradicionais de descanso (Mateus 24,17 e de oração (Atos 10,9), mas sempre lugares altos, que deve ser gritado o Evangelho (vv. 26-27). O texto repete que não nos compete temer o poder dos poderosos e ideólogos de turno. O maior dano que o seu poder pode causar é matar o corpo (sôma), mas não podem matar a alma (psychê). O simples facto de se falar de «matar o corpo» deixa implícito que uma pessoa é mais do que o corpo, como Sextus, um pitagórico do séc. I a.C., ilustra nas suas Sentenças: «Como um leão tem poder sobre o corpo de um sábio, assim também um tirano, mas só sobre o corpo» (Sent. 363b). É mais sensato e inteligente, por isso, temer a Deus, que é mais poderoso, pois pode destruir na geena «a alma e o corpo» (psychê kaì sôma) (v. 28), isto é, o ser humano na sua inteireza, todo, como expressa bem Isaías 10,18, que fala da destruição das florestas da Assíria [e de Judá], no seu todo, empregando aqui a locução analógica «corpo e alma» (basar e nephesh TM; sárx e psychê LXX), para dizer toda a floresta.

    4. É claro que este vocabulário serve aqui para dizer a totalidade, e não tem a conotação dualista que a filosofia grega lhe atribui. O poder dos poderosos pode causar a morte terrena, mas nada pode nem sabe acerca da salvação eterna e da condenação eterna. Aqui, na morte terrena, acaba o poder dos homens e das ideologias e entra-se no âmbito exclusivo de Deus. Com esta articulação e clarificação temática, fica também à vista que a vida terrena não é o bem maior, do mesmo modo que a morte terrena não é o mal maior. O bem maior que o Evangelho anuncia é a nossa relação com Deus e a vida eterna que daí deriva, que também não está na mão dos homens, mas apenas na mão de Deus. Por isso, os enviados do Evangelho não devem, em caso algum, ceder aos poderosos e às ideologias de turno, mesmo que essa atitude de coragem e resistência lhes acarrete a morte terrena, como aconteceu a não poucos mártires ao longo da história da Igreja. A história da Igreja está marcada pelos mártires. Ao contrário do que se possa pensar, o martírio não revela o além, mas o aquém: a história humana é revelada de um extremo ao outro. O martírio é a negação do absurdo e uma fonte de sentido e da providência de Deus! Os pregadores do Evangelho, enviados por Jesus, de tudo despojados, não buscam fama nem proveito nem se contentam com qualquer acomodação. O Reino de Deus não se acomoda ou negoceia. Os anunciadores do Evangelho não pregam as suas ideias nem passam as suas mensagens. Pregam o Evangelho de Jesus, dando, se necessário for, a sua vida terrena pela causa de Jesus, tudo em ordem, não a qualquer simples acomodação ou inclusão, mas à conversão para a vida eterna (cf. Atos 11,18), que Deus a todos concede.

    5. Não devemos, pois, temer os homens. A alternativa é temer reverencialmente a Deus. O precioso discurso missionário de Jesus evolui então para precisar que Deus é o nosso Pai providente, que vela até pelos passarinhos que não valem quase nada: o valor de mercado de dois desses passarinhos é de um asse, que é uma moedinha de cobre que vale 1/16 avos de um denário. Um denário é o ordenado diário de um trabalhador. Um asse seria, portanto, o equivamente a 15-20 minutos de trabalho numa jornada de trabalho que então se contava de sol a sol. E Jesus conclui ao jeito rabínico, do menor para o maior (qal wahomer): se Deus, vosso Pai, cuida desses passarinhos, pequeninos, quanto mais fará sentir a sua providência sobre vós. Vós valeis muito mais do que muitos passarinhos (vv. 29-31). O resto do texto serve ainda para Jesus lembrar aos seus discípulos e a nós que devemos dar testemunho dele diante dos homens, para que também Ele dê testemunho de nós diante do «meu Pai que está nos Céus» (vv. 32-33). Inquebrável é esta relação que une Jesus ao Pai, que afinal é também o Juiz verdadeiro, o Rei verdadeiro, o único a quem devemos reverencialmente temer. O resto, todo o resto, os poderes que apenas podem meter medo e as ideologias enganosas e poeirentas, convém que não os deixemos apegar nem à sola dos nossos pés. Limpemos, pois, o pó. Apeguemo-nos a Deus e ao amor. Poderes e ideologias vivem da sedução. O discípulo de Jesus, enviado a anunciar o Evangelho, vive da verdade de Cristo e dá a sua vida pela verdade de Cristo, título de glória que nunca lhe será arrebatado (cf. 2 Coríntios 11,10).

    6. Em pura sintonia com o Evangelho, entre a perseguição de todos e o amor de Deus que tudo supera e vence, chega-nos também hoje, neste Domingo XII, a voz simultaneamente dorida e tranquila, mas sempre apaixonada e orante de Jeremias 20,10-13. É um extrato de uma das suas «Confissões», que se podem ver em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e que são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a meia dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias, subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 586, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá. No meio de tudo isto, muita corrupção, muita violência, muitos interesses em jogo. Jeremias é dotado de uma sensibilidade apuradíssima. Ele é, com certeza, o mais terno dos homens da Bíblia, um romântico afeiçoado ao seu país, à sua religião e ao seu Deus, à sua aldeia natal de Anatôt, aos afetos e ao amor. Todavia, por não poder calar o que tem de dizer, por não poder fugir de Deus e da sua Palavra, vê-se excomungado, perseguido pelos seus conterrâneos de Anatôt, denunciado por parentes e amigos, obrigado a não poder constituir família com a mulher amada (Jeremias 16,2). Por todos amaldiçoado (Jeremias 15,10), perseguido pelo poder, torturado e flagelado (Jeremias 20,1-6), preso (Jeremias 37,13-38,6) e exilado para o Egito (Jeremias 43,6-7), Jeremias continuou sempre a gritar a Palavra a arder que lhe chegava de Deus e lhe queimava os ossos e a alma (Jeremias 15,16; 20,9). Jeremias articula muito bem, na sua vida, tal como Jesus e os seus discípulos de todos os tempos, missão, perseguição e esperança.

    7. Por falar em missão, perseguição e esperança, vale a pena também, porque ajuda a esclarecer a força da missão do Evangelho de hoje, olhar para o Apóstolo. S. Paulo explica bem, na grande lição da Carta aos Romanos de hoje (5,12-15), que a Lei, por melhor que seja, não anula o pecado nem cura da morte. Antes, torna o pecado manifesto, pois a Lei é uma espécie de dique que aumenta a albufeira do pecado, e, portanto, o vau da morte. Aumentando a albufeira do pecado, torna-o visível, mostra-o, fá-lo entrar pelos olhos dentro. É assim que se pode ver depois, também, com todo o relevo e a toda a luz, a graça de Cristo Salvador. Foi quanto Paulo foi forçado a ver na estrada de Damasco. Tanto viu que ficou encandeado, e nunca mais viu como via antes. Por isso, foi «o maior missionário de todos os tempos», para usar as palavras certeiras de Bento XVI.

    8. O Salmo 69, que é uma súplica individual, continua a mostrar, com linguagem forte, como é habitual nos Salmos, figuras orantes e cheias de esperança, como Jeremias, como Jesus e os seus Apóstolos, como os missionários mártires de todos os tempos, por todos perseguidos e abandonados, mas sempre com Deus por perto, que escuta as súplicas e o louvor dos pobres e humildes. O trono de Deus, a sua cátedra, são as nossas misérias e as nossas dores, como nos ensinou S. João XXIII.

    António Couto


  • Barcas ao largo,

    corações ao alto,

    em pura sintonia

    com a alegria do Evangelho,

    ide!

    Ide!

    E entrai em cada coração,

    semeai a paz,

    saboreai o pão que houver,

    e que a mão de Deus vos der.

    Não largueis nunca essa mão de amor.

    É ela que vos guia

    rumo à alegria

    da messe e da missão.

    Acolhe, Senhor, a nossa prece

    por todos os que continuam a levar o teu amor

    a toda a humanidade

    e a fazer de cada coração

    a casa mais bela da cidade.

    António Couto


  • Domingo XI

    Êxodo 19,2-6a; Salmo 100; Romanos 5,6-11; Mateus 9,36-10,8

    1. Atravessada em seis etapas dominicais (Domingos IV a IX) a paisagem sublime das alturas do Discurso programático da Montanha (Mateus 5,1-7,29), a que não tivemos acesso na totalidade devido à entrada de outras festividades (Ascensão, Pentecostes, SS.ma Trindade) que ocuparam os Domingos VII, VIII e IX, e tendo vivido de perto a cena do chamamento e resposta imediata e festiva de Mateus (Mateus 9,9-13) (Domingo X), ficaremos agora, durante três Domingos (XI-XIII) com o chamado Discurso Missionário (Mateus 9,36-11,1).

    2. Neste Domingo XI, escutaremos Mateus 9,36-10,8. Tudo começa pelo princípio. E o princípio é sempre a misericórdia de Jesus, dita no texto grego com o verbo splagchnízomai, quase sempre com o aoristo passivo esplagchnísthê, que tenta traduzir o intraduzível rahamîm hebraico, plural intensivo de rehem, que pretende dizer o ventre materno no seu todo, como lugar onde se origina a vida (e nunca onde se sufoca a vida). Na maneira de ver hebraica e grega, mas também entre nós, o ventre é o lugar mais frágil e o mais rapidamente afetado por qualquer circunstância triste ou feliz. Por isso, a misericórdia aparece ligada ao ventre. Dizer isto de Jesus é compreender que, à vista das multidões cansadas e abatidas, comparadas a ovelhas sem pastor (Mateus 9,36), Jesus é tomado de assalto por um movimento visceral, maternal, intenso, imediato e irreprimível. É a mesma comoção visceral, maternal irreprimível, que encontramos em tantas outras circunstâncias do Evangelho: a cena da viúva de Naim (Lucas 7,13), do bom samaritano (Lucas 10,33), do pai da parábola das misericórdias (Lucas 15,20). De notar, desde já, que há uma diferença assinalável entre misericórdia (rahamîm) e amor (hesed). A misericórdia bíblica não se equaciona, pensa, calcula ou programa: é para já, toma-nos de assalto quando se nos depara uma situação que reclama logo ali as nossas mãos. Ao contrário, o amor bíblico, a hesed, que nos coloca no cenário da aliança e do compromisso, reclama de nós que pensemos previamente para que a decisão que vamos tomar seja firme e consistente. A expressão «como ovelhas sem pastor» é uma maneira de dizer muito bíblica para expressar a dispersão, o desalento e o desencanto das pessoas (Números 27,17; 1 Reis 22,17; Judite 11,19; Ezequiel 34,5-6; Zacarias 10,2).

    3. Jesus quer envolver nesta maneira de ver enternecida e comovida, misericordiosa, os seus discípulos. Por isso, dirige-se logo a eles com estas palavras: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos; pedi, pois, ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Mateus 9,37-38). A messe, grego therismós, qualifica a colheita, não a sementeira. A messe, dita com o termo grego therismós, é uma imagem muito bíblica para desenhar, não o tempo da sementeira, da espera e da preparação, mas o tempo amadurecido e pleno da realização do Reino de Deus, com a vinda do Messias, um tempo novo, não de lágrimas, mas de alegria e de canções, como refere o Salmo 126,5-6: «Os que semeiam com lágrimas,/ ceifam no meio de canções./ Vão andando e chorando,/ levando as sementes;/ ao voltar, vêm cantando,/ trazendo os molhos de espigas». É sintomático, e esbarra contra o nosso muito requintado gosto de apresentar resultados imediatos e estatísticas elevadas, que Jesus diga que «a messe é grande, e os trabalhadores poucos», e que não ponha logo os seus discípulos em campo a fazer projetos, planos e programas de ação para acudir àquela situação, e que, em vez disso, os mande pedir ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe!

    4. Com um procedimento assim, Jesus deixa desconcertados aqueles discípulos, e a nós com eles. Na verdade, Jesus está a passar-nos um ensinamento essencial, que repetidamente esquecemos. Está a dizer-nos que o povo e a precária condição em que eventualmente se encontra nunca é um campo aberto às nossas experiências, estudos, programas ou simples ensaios de medidas sócio caritativas, por mais bem intencionado que tudo isto seja. Primeiro e antes de tudo – primeiro, primeiro, primeiro –, Jesus remete-nos para Deus, que é o Senhor da messe. É como quem diz que quem quiser verdadeiramente ajudar as pessoas em qualquer situação precária não pode apresentar-se em nome próprio e por sua conta e risco. Tem de pedir esse privilégio ao Senhor da messe, e tem de ser por Ele enviado. O reconhecimento de Deus como Senhor da messe (1), a oração que lhe dirigimos (2), e a obediência que lhe devemos (3) são as condições primeiras da missão. Portanto, depois de ter mostrado àqueles discípulos a precária situação daquele povo abandonado e de lhes ter indicado as condições para levar a cabo a missão de misericórdia em seu favor, só agora, Jesus envia em missão «os seus doze discípulos» (Mateus 10,1), logo indicados como os «doze apóstolos», ou enviados (Mateus 10,2). Ao fazer o que faz e como o faz, isto é, ao preparar e presidir a esta ação de envio, Jesus assume-se como Senhor da messe, isto é, como Deus.

    5. A imagem da messe, que traz consigo a realização do Reino de Deus, completa a imagem do jejum, referida pouco atrás, em Mateus 9,14-15. Os discípulos de João Batista e os fariseus jejuam para apressar a vinda do Messias. Os discípulos de Jesus não jejuam, porque o Messias já está com eles. Ele é o Reino-de-Deus em Pessoa, a Autobasileía, no dizer certeiro e contundente de Orígenes (185-254), o insigne mestre das escolas de Alexandria e de Cesareia Marítima. É por isso que o dizer dos Doze Apóstolos enviados em missão deve soar: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (Mateus 10,7b), sendo que «fez-se próximo» está escrito em grego com éggiken, que é o perfeito do verbo eggízô. E já se sabe que o perfeito grego começa e continua, não está de passagem. Está no meio de nós. E é Ele que prepara a missão e preside à missão de que nos incumbe.

    6. É neste contexto que Jesus envia em missão os seus Doze Apóstolos, citados pelo nome, e que ficam fortemente vinculados a Jesus. 1) Em primeiro lugar, pelo chamamento (10,1a). 2) Em segundo lugar, pela autoridade dada (10,1b). 3) Em terceiro lugar, pelo envio (10,5 e 16). 4) Em quarto lugar, pelo anúncio (kêrýssô), que coloca sobre eles a marca da fidelidade: o mensageiro (kêrix) não transmite as próprias ideias, mas anuncia fielmente a mensagem que lhe é confiada (10,7a). 5) Em quinto lugar, pelas palavras que devem dizer: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (10,7b), que já foram postas na boca de Jesus (4,17) e de João Batista (3,2). 6) Em sexto lugar, pelas obras que devem realizar (10,1 e 8), que são também realizadas por Jesus (4,23-24; 8,16-17), e servem para identificar Jesus (11,5). 7) Em sétimo lugar, indo, antes de mais, à procura das ovelhas perdidas (10,6; cf. 18,12), imitando Jesus (9,36; 15,24). 8) Em oitavo lugar, pela Graça preveniente e concomitante: «recebestes de graça, dai de graça» (10,8). 9) Em nono lugar, pela sobriedade e despojamento, pobreza e simplicidade (10,9-10), que os conforma ao «Filho do Homem», que «não tem onde reclinar a cabeça» (8,20), portanto, até à Cruz (João 19,30). 10) Em décimo lugar, pelo reconhecimento da imensa dignidade impressa em cada ser humano, imagem de Deus: daí o invulgar «sem sandálias (só em Mateus e Lucas 10,4) nem bastão» (10,10). Sem sandálias: é assim que se está na presença do Deus Santo (cf. Êxodo 3,5; Josué 5,15). Sem sandálias e sem bastão: era assim que se entrava no Templo (os sacerdotes oficiavam descalços) e na sinagoga. Os enviados de Jesus sabem que vão na presença de Deus e devem ver em cada ser humano a imagem de Deus, suprema dignidade. 11) Em décimo primeiro lugar, pelo sustento (10,10), dado por Deus ao seu Servo e a Jesus, conforme a lição de Isaías 42,1, texto citado por Mateus em 12,18, e também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7). 12) Em décimo segundo lugar, o facto de sacudirem o pó dos pés ao sair de casas e cidades não acolhedoras (10,14) reclama a remoção do pó profano num caminho sagrado. 13) Em décimo terceiro lugar, pela rejeição e perseguição que lhes será movida (10,16-19), que é também, desde o princípio, a perseguição movida a Jesus (2,13). 14) Em décimo quarto lugar, pelo acompanhamento permanente e tranquilo do Pai e do seu Espírito, pelo que devemos fazer pausa e bemol, para que seja o Espírito a falar em nós (10,19-20; cf. 17,9). 15) Por último, quem acolher os Doze, acolhe Jesus e o Pai (10,40).

    7. As anotações acabadas de fazer dizem respeito a todo o discurso missionário, e devem, por isso, ser tidas em consideração também nos próximos dois Domingos. Jesus chama os Doze, dá-lhes autoridade e envia-os. A autoridade não é coisa própria dos Doze. É dada e recebida da fonte, que é Jesus. E destina-se a libertar as pessoas da influência dos espíritos impuros e a curar. Nas pessoas simples da Palestina do tempo de Jesus, estava ancorada a crença nos espíritos bons e maus que governavam o mundo e se instalavam como parasitas nas pessoas. Expulsar os espíritos maus não é nem menos eficaz nem menos credível que as curas psicanalíticas atuais. O envio é para anunciar (kêrýssô) que o Reino dos Céus se fez próximo e que é preciso ir à procura das ovelhas perdidas e encher o mundo de paz e de esperança. A base é deixar-se tomar pela misericórdia.

    8. Um ícone ilustrativo desta grande lição de Jesus que acabámos de expor. Num dia de Fevereiro de 1208, talvez no dia 24, então Festa de S. Matias, na igreja de Santa Maria degli Angeli (Porziuncola), em Assis, um jovem rico e até então dado a não poucos devaneios, o «Rei da juventude de Assis, ouviu a leitura desta página luminosa. Acendeu-se-lhe o coração. Nesse dia nasceu, ou completou o seu novo nascimento, S. Francisco de Assis. Apegou-se a Deus e à pobreza e ao Evangelho de Jesus.

    9. O contraponto musical em pura sintonia vem hoje do grande texto de Êxodo 19,2-6, e lança a semente para tempos de colheita e realização que hão de vir, e que o Evangelho mostra cumpridos. O «dizer» de Deus está guardado no centro da estrutura, como num envelope. Tem a ver com um passado de graça operado por Deus em favor dos Filhos de Israel e por estes experimentado e por um futuro de graça oferecido por Deus e que pode também ser experimentado. «Vós vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim» (Êxodo 19,4), eis o passado de graça, com fé e amor recitado – «o relato acredita-se; a história sabe-se» –, «módulo narrativo» elástico e miniatural que carinhosamente guardamos e transportamos connosco como uma joia de família, junto ao coração: é pequeno, trabalho delicado de artística e carinhosa miniatura, que recolhe com ternura o passado e o torna presente, para ser facilmente transportado e calorosamente recitado por cada um de nós; nele nos reconhecermos, dele vivemos, com ele nos identificamos, com ele nos apresentamos. O passado e o futuro de graça rodam, porém, sobre a resposta de adesão a Deus que Israel tem de dar, e não pode deixar de dar, exigida por aquele enfático «E AGORA» (we‘attah) que ocupa o centro da estrutura. Salta à vista que há um «dizer» de Deus a atravessar o texto, a atravessar Israel e a atravessar-nos a nós. Note-se ainda que está aqui a nascer um povo sacerdotal, verdadeiro «sacerdócio comum dos fiéis», assente na escuta e no cumprimento da Palavra, relação nova de nova proximidade e nova familiaridade entre Deus e o seu povo.

    10. A Carta aos Romanos 5,6-11 mostra-nos aquele Jesus Cristo que se debruça com amor sobre o nosso desvalor, exatamente como aparece no Evangelho de hoje, maternalmente se compadecendo das pessoas perdidas, cansadas e abatidas.

    11. Na tradição judaica, o Salmo 100 constitui uma velha, pequena oração que ressoa no nosso coração como louvor ao Deus bom, cujo amor é eterno. Intitula-se «Um cântico para a tôdah» (mizmôr letôdah), isto é, para a ação de graças ao Senhor. Este pequeno hino articula gritos de alegria, louvor, conhecimento, súplica, bênção. Agostinho comenta assim: «Deixa que a oração se transforme no teu alimento. Rezando, adquires novas energias, e Aquele a quem rezas torna-se mais doce para contigo». No centro do pequeno hino está uma profissão de fé no Senhor: o Senhor é Deus, nosso criador, que estabeleceu a aliança com Israel: «nós somos o seu povo», o amor do Senhor é para sempre, a sua fidelidade por todas as gerações (vv. 3 e 5).

    António Couto


  • 1. Santo António nasceu em Lisboa, provavelmente em 1195, e faleceu em Pádua (Itália), em 1231. Viveu apenas trinta e seis anos, mas foi o bastante para encher este mundo da beleza de Deus, do perfume performativo que nos vem só de Deus. É fácil ler, no contexto da iconografia, uma grande cumplicidade entre Maria, Mãe de Jesus, e Santo António de Lisboa, de Pádua, ou de todo o mundo.

    2. Maria aparece muitas vezes, na iconografia, com o Menino nos braços e um olhar de graça suavemente iluminado. O movimento dos braços mostra a ternura maternal de quem embala e segura o Menino Jesus, ou a alegria evangelizadora de quem apresenta e oferece Jesus a este mundo, reclamando de cada um de nós mãos carinhosas e seguras, coração atento, entranhas maternais, olhar de graça.

    3. E vê-se bem que também Santo António aparece com o Menino nos braços: umas vezes, segurando o Menino Jesus com os dois braços; outras vezes, com um braço segurando o Menino Jesus, e no outro ostentando um livro, o Livro por excelência, o Livro da Palavra de Deus, que Santo António tão bem viveu e tão bem soube dizer e dar a conhecer; outras vezes ainda, ostentando o Menino Jesus sentado sobre o Livro, Senhor do Livro, como o Anjo de Mateus sentado sobre a pedra do sepulcro (Mateus 28,2). Belíssimas fulgurações de amor e luz. Maria olhando pelo Menino Jesus ou convidando-nos a olhar pelo Menino Jesus, acolhendo-o nos braços e no coração. Santo António de Lisboa ostentando o Menino Jesus e o Livro, mostrando bem com que amor soube ler a Escritura, e convidando-nos a acolher o Menino que atravessa em contraluz toda a Escritura, e a ler a Escritura em contraluz acolhendo em cada página, não apenas sons e sílabas e palavras e frases, mas um Rosto e um Nome, JESUS.

    4. Maria e Santo António de Lisboa. Os dois com o Menino Jesus nos braços e no coração, nos lábios, na vida. Eles tomaram conta de Jesus com amor, tomaram conta do amor. Ou foi o amor que tomou conta deles? Na verdade, são eles que seguram Jesus, ou é Jesus que os segura a eles? Somos nós que seguramos a Palavra de Deus, ou é a Palavra de Deus que nos segura a nós? Frágil, forte segurança, a segurança e confiança do amor, forte como a morte o amor (Cântico dos Cânticos 8,6).

    5. É por esta imagem de um Menino ao colo de uma Mãe, seguro e confiante na força do amor maternal que cuida dele sempre que, em termos bíblicos, entramos no caminho da Verdade (Jacques Goldstain, Le monde des psaumes, Paris, la Source, 1964, pp. 391 e 393). Verdade, na Bíblia hebraica, diz-se ’emet, cuja etimologia remete para segurança, firmeza, confiança (’emunah’aman’amen), que o mesmo é dizer que, em última análise e no extrato mais fundo da etimologia, remete para mãe que, em hebraico, se diz ՚em. Quem, neste mundo, mesmo sem dizer uma palavra, faz o melhor sermão sobre a verdade, a firmeza e a confiança, será sempre uma mãe a sério que, por nada deste mundo, abandona o seu bebé. Biblicamente, a verdade não é a vulgar “adequação das coisas à mente”; em termos bíblicos, a verdade é uma pessoa segura, que não oscila ou engana, não derrapa, que serve de arrimo. Diz então o Livro, que Santo António segura no braço com o Menino em cima, que o lugar mais verdadeiro do mundo, portanto, a maior fonte de segurança do mundo, são os braços de uma Mãe ou de um Pai que ternamente seguram um bebé.

    6. A verdade é, portanto, a verdade do Amor que não engana, o mais puro amor que existe. A analogia do amor materno e paterno abre para Deus, que o mesmo Livro diz que ama com amor-perfeito e performativo, que transforma a nossa vida. S. Paulo dirige-se a nós desta maneira, ao escrever as primeiras linhas da primeira página do Novo Testamento:  «(…) Irmãos AMADOS por Deus (êgapêménoi hypò [toû] theoû)» (1 Tessalonicenses 1,4).  A locução «AMADOS» apresenta-se no tempo perfeito passivo (êgapêménoi: part. perf. passivo de agapáô), e traduz, portanto, um amor novo, vindo de Deus, que começou a amar e a amar continua ainda hoje, pois é esse o sentido do perfeito grego.

    7. É por isso que Deus, amor-perfeito e permanente, o mesmo ontem, hoje, amanhã e sempre (Hebreus 13,8), não mente, não engana, não derrapa. Ele é a Sabedoria, Ele é a luz. Ele chama, Ele ama, Ele dá a Sabedoria, Ele alumia. A nossa luz é reflexa, a nossa sabedoria é recebida, recebido é o amor com que amamos. Não o amor da sabedoria. Mas a sabedoria do amor. «Deus governa o mundo com as palmas das suas mãos» (Ben Sira 18,3), em que está inscrito o nosso rosto e o nosso nome (Isaías 49,16), e tem sempre as suas «mãos abertas sobre nós» (Salmo 139,5). Mãos de amor e de bênção.

    8. Como Maria e como Santo António, experimentemos também viver de coração aberto e de mãos abertas para acolher e saborear o dom de Deus (Hebreus 6,4) e experimentar a beleza da Palavra de Deus (Hebreus 6,5). Maria e Santo António, com o Livro e o Menino, representam uma nova cultura, não assente na mentira, na esclerose ou dureza do coração, no poder e na violência das armas, mas na ternura, no amor, na suavidade e na verdade.

    9. Santa Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, e Santo António de Lisboa, nosso padroeiro, ensinai-nos a viver com o Livro da Palavra de Deus e o Menino nos braços e no coração. Amém.

    António Couto


  • Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

    Deuteronómio 7,6-11; Salmo 103; 1 João 4,7-16; Mateus 11,25-30

    1. Passa no calendário litúrgico desta sexta-feira a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que assinala a presença viva, próxima, dinâmica e intensa de um amor sublime e de uma esperança nova, refletida no rosto, no coração e no horizonte de cada ser humano. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a Igreja inteira e o mundo inteiro, sobretudo os que se afastaram de Ti, os doentes e desanimados, as famílias desavindas e desfeitas, as crianças abandonadas, os marginalizados e descartados, os que fogem de situações de guerra ou de miséria, e os que andam à procura de um abrigo, de uma mão carinhosa e de um coração aberto e acolhedor. Deixou escrito, a propósito, o santo Charles de Foucauld (1858-1916): «Perdei-vos no coração de Cristo: ele é o nosso refúgio, o nosso asilo, a casa do pássaro, o ninho da pomba, a barca de Pedro para atravessar o mar tempestuoso».

    2. A Solenidade de hoje tem as suas raízes no coração de Deus, que as páginas da Escritura Santa nos dão a conhecer. Mas este caminho acentuou-se sobretudo nos tempos modernos, primeiro, nas revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), a quem se deve a implantação da devoção das nove primeiras sextas-feiras, mas também é oportuno lembrar São Vicente de Paulo (1795-1850), que viveu e testemunhou com paixão «o mar imenso das divinas misericórdias», sem esquecer as místicas religiosas Benigna Consolata (1885-1916), que se chamava a si mesma «a pequena secretária do amor misericordioso», Maria Teresa Desandais (1876-1943), que gostava de se ver a si mesma como a «mensageira do amor misericordioso», e Santa Faustina Kowalska (1905-1938), que recebeu de Jesus a missão de ser a «secretária da minha misericórdia». Particular importância para a realização da Solenidade de hoje e para a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus, teve ainda a mística beata Maria do Divino Coração (1863-1899), que nasceu na Alemanha e passou os últimos anos da sua vida em Portugal como Superiora do Convento do Bom Pastor, no Porto, onde faleceu em 08 de junho de 1899. O seu túmulo encontra-se na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Ermesinde, junto do Convento do Bom Pastor. Não podemos esquecer, neste contexto do Sagrado Coração de Jesus, a influência de Santa Teresa de Lisieux (1873-1897), que tomou o hábito castanho Carmelita no mesmo ano, dia e hora em que a Beata Maria do Divino Coração tomava o hábito branco das Irmãs do Bom Pastor. Todas estas figuras místicas assumiram particular relevo na vivência e divulgação da mensagem da misericórdia de Deus. São João XXIII dizia que «a Misericórdia é o nome mais belo de Deus», e acrescentava que «as nossas misérias são o trono da Misericórdia divina». Em 1856, Pio IX estendeu a toda a Igreja a Festa do Sagrado Coração de Jesus, até então celebrada de forma parcelar. A Festa ou Solenidade de hoje, bem como a Consagração ao Sagrado Coração de Jesus derivam das revelações das místicas religiosas acima elencadas, tendo sido a beata Maria do Divino Coração a que, desde Portugal, com as suas cartas, mais de perto inspirou o Papa Leão XIII à sua instituição, que aconteceu em 11 de junho de 1899, poucos dias depois da morte da beata Maria do Divino Coração (08 de Junho) e da publicação em 25 de maio de 1899 da Encíclica Annum sacrum, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus. Leão XIII chamou à Consagração Solene ao Sagrado Coração de Jesus «o maior ato do meu pontificado». Este processo foi depois confirmado por Pio XI, em 1928, mediante a Encíclica Miserentissimus redemptor, e por Pio XII, em 1956, mediante a encíclica Haurietis aquas, que remete para Isaías 12,3: «Tirareis água com alegria das fontes da salvação» e para o Coração trespassado de Jesus de onde saiu sangue e água (João 19,34). Esta encíclica de Pio XII assinala o centésimo aniversário do estabelecimento da Festa do Sagrado Coração de Jesus por Pio IX. No seguimento das revelações da mística Santa Faustina Kowalska, São João Paulo II instituiu, no ano 2000, o Domingo da Divina Misericórdia, a celebrar no Domingo II da Páscoa, e já antes, em 1995, tinha instituído este Dia do Sagrado Coração de Jesus como Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes.

    3. As poucas linhas do Evangelho deste grande Dia, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos (A. M. Hunter). Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

    4. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor, nenhuma autonomia, radical dependência e heteronomia, realidades tão de fora do mundo moderno, senhor de si e dobrado sobre si, incurvatus in se, para usar a expressão de Lutero, amigo de si mesmo (phílautos) (2 Timóteo 3,2) e não amigo de Deus (theóphilos). Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar (cf. 2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos da criança batizada: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

    5. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus exalta na sua «História de uma alma», que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamûl). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos de idade (cf. 2 Mac 7,27), e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

    6. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que se bastam a si mesmos, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos na mão as chaves de tudo e de todos, também as do Reino de Deus, mas somos nós como filhos pequeninos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança; enfim, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

    7. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz por três vezes: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança de criança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

    8. É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi que opera dentro de nós (Hebreus 4,12; Apocalipse 1,16), e de que não podemos fugir. Como aquela «voz de um fino silêncio» (qôl demamah daqqah) (1 Reis 19,12), puro murmúrio que fez estragos nas entranhas de Elias, ou aqueles «gemidos sem palavras» (stenagmoîs alalêtois) (Romanos 8,26), lalação filial, em que conta e canta a ternura mais do que as palavras do Espírito que em nós soletra ՚Abba՚ (Gálatas 4,6). É como o dizer ardente do Deus vivo que ferve nas entranhas, no coração, na pulsação, nos lábios, nas veias, nos ossos e nas mãos, como se vê em Jeremias 20,9, em Isaías 6,6-7, em Elias (Ben Sira 48,1), naqueles dois de Emaús (Lucas 24,32) e naqueles que, naquele quinquagésimo dia, estavam em Jerusalém (Atos 2,3): como o fogo os modelou e habilitou para entender e para dizer tudo de novo, de modo novo! Vem-me à memória uma velha história que circulava na África Oriental, e que falava de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do género: «Por quê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?». Mas a mulher lá seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu bem sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único livro que me lê a mim!».

    9. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho ou gorgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz no Evangelho de hoje: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar. Não se trata de dar os restos ou as sobras. Não é esse o modo de Deus.

    10. Vem de longe esta toada de intimidade e de eleição, como nos conta hoje o grande Livro do Deuteronómio. O Deus da Escritura Santa escolheu o pequeno povo de Israel, afeiçoou-se a ele, fez Aliança com ele, deu-lhe a sua Palavra de honra, os seus mandamentos. Não o escolheu por ser um povo forte e numeroso. As escolhas de Deus são gratuitas. Por isso, ao escolher um povo pobre e pequeno, vê-se que é por amor e graça que Deus escolhe.

    11. O Apóstolo reforça, na sua Primeira Carta (1 João 4,7-16), a insistência no horizonte novo do amor e da graça, repetindo que «quem ama, nasceu de Deus, e conhece-o (ginôskô) (1 João 4,7), ao contrário de quem não ama, que não conhece Deus (1 João 4,8). Se Deus é amor (1 João 4,8 e 16), e se «só o semelhante conhece o semelhante», como diz o velho aforismo, então é decisivo que este amor chegue até nós, para que, sendo feitos por amor semelhantes a Deus, possamos também conhecer Deus. E expõe de novo a rede do amor, desde a sua fonte, que é o Pai, que nos amou e enviou o seu Filho Unigénito para nos dar a vida mediante a oferta propiciatória (hilasmós) da sua vida pelos nossos pecados, que absorve e absolve (1 João 4,9-10).

    12. Atenção, porém, que o amor de Deus não é um património restrito e limitado, um exclusivo só acessível a alguns privilegiados, mediante inscrições, quotas pagas, registos, determinadas raças ou grupos. Chega a todos aqueles que o acolhem. Também esses nascem de Deus. O amor é de Deus; não é sequer prerrogativa dos discípulos de Jesus. Se quem ama nasceu de Deus, foi gerado por Deus (gennáô), então o amor não é nosso; é de Deus. Esta imensa afirmação implica que nunca nos julguemos donos do amor, pois não é nossa a patente do amor. Tem outro registo. Apenas nos é dado humildemente reconhecer que «é gerado por Deus» quem já vive no amor.

    13. O facto de sermos amados por Deus, não se resolve em devolver a Deus o seu amor primeiro. Resolve-se, antes, entregando-o a outros (1 João 4,11), alargando o círculo do amor. É sempre importante que tomemos consciência de que temos o dever de entregar este amor a outros, e não de nos fecharmos dentro de uma cerca, ainda que de rosas seja a cerca! Escreveu bem, em «As idades da vida espiritual», o conhecido teólogo ortodoxo russo Pavel Evdokimov (1901-1970): «Não permitas, Senhor, que o teu Amor e a tua Palavra sejam na minha vida como um santuário, que uma vedação separa da casa e da estrada». Um tal fechamento seria pecar contra o Amor. 14. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gratificante). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado-a-lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram, com razão, o Te Deum do Antigo Testamento.

    António Couto


  • Porque as pombas desceram à cidade,

    os meninos nasceram de mãos dadas,

    e acertaram o bater do coração

    pelo verde pulsar das madrugadas.

    Porque as pombas encheram a cidade,

    a paz inundou os corações.

    As crianças correram pelas ruas,

    e calaram a boca dos canhões.

    Porque as pombas poisaram na cidade,

    os meninos soltaram a alegria,

    e prenderam o Senhor Governador:

    do exílio já chegou a poesia.

    Porque as pombas mudaram a cidade,

    é urgente aprender-lhes a lição:

    a maneira de aprender a liberdade

    é levar uma criança pela mão.

    António Couto


  • Passou um dia pela banca de impostos de Mateus

    um homem chamado Jesus.

    Poisou em Mateus o seu sereno olhar de amor,

    e disse:

    segue-me!

    E logo Mateus se levantou

    e seguiu Jesus,

    e fez uma festa,

    porque achou que tinha encontrado

    um tesouro a sério,

    maior do que o império

    que servia.

    Na verdade,

    Jesus deu Mateus a si mesmo,

    e Mateus recebeu~se a si mesmo,

    como dom de Deus que era,

    e não sabia.

    Nesse dia,

    entrou naquele homem a alegria,

    e o perdão passou a ser o seu refrão.

    António Couto


  • Domingo X do Tempo Comum

    Oseias 6,3-6; Salmo 50; Romanos 4,18-25; Mateus 9,9-13

    1. Atravessado em seis etapas (Domingos IV-IX) o Discurso programático da Montanha, eis-nos agora, neste Domingo X do Tempo Comum, a braços com a narrativa da vocação de Mateus, narrada pelo próprio Mateus (9,9-13). É o único cenário de vocação em que aparece o nome Mateus. Nos lugares paralelos de Marcos 2,14 e de Lucas 5,27 aparece o nome Levi. É importante o nome Mateus (Matthaîos, do aramaico Matthai, hebraico Mattay, nome abreviado do teofórico Mattanyah [= «dom de Deus»]), que traduz bem a plantação nova de Deus (Isaías 61,3; 1 Coríntios 3,9; Mateus 15,13), que atravessa de lés-a-lés o texto deste Evangelho, gerando espantos sucessivos em todos aqueles que têm coração para ver! Por outro lado, o nome Matthaîos arrasta consigo por assonância o importante nome mathetês, que significa «discípulo», a que anda associada a forma verbal mathêteúô, que significa «tornar-se discípulo» (cf. 13,52; 18,19), que alude ao desempenho do escriba instruído na Tôrah (cf. as «coisas antigas» de que fala Jesus em 13,52), lida e compreendida a uma luz nova (cf. as «coisas novas», sempre em 13,51-52), no final do discurso das parábolas. Tudo somado: Mateus, sai do comércio e da banca de impostos para a CASA e para a MESA. Espaço relacional novo. Puro confronto com o comércio que se faz(ia) na MINHA CASA, que é o Templo de Deus (Mateus 21,12-13).

    2. O quadro imediatamente anterior (Mateus 9,1-8) narra o episódio habitualmente intitulado «cura de um paralítico». Na verdade, este texto é considerado um dos eixos do Evangelho de Mateus. Trata, sim, da cura radical do paralítico, pois Jesus concede-lhe o perdão dos pecados (Mateus 9,2), e o povo fecha o cenário louvando a Deus por ter dado uma tal autoridade (exousía) aos homens (toîs anthrôpois) (Mateus 9,8). Esta autoridade nova e maravilhosa dada, não apenas àquele homem, Jesus, mas aos homens (a conclusão excede as premissas), é o perdão, que é uma das chaves de leitura do Evangelho de Mateus. Digamos que é o segredo da vida de Mateus, logo posto a descoberto no cenário da sua vocação, que hoje nos ocupa.

    3. Na verdade, o publicano Mateus [o termo publicano deriva do termo latino publicanus, que designa coletor de dinheiro público, latim publicus] foi atingido em cheio no coração pelo PERDÃO. Visto, amado e chamado por Jesus, nasce aí, nesse olhar novo de PERDÃO radical, a nova identidade de Mateus e a sua particular sensibilidade pela prática do PERDÃO, como resposta ao PERDÃO primeiro de Deus. Vejamos um bocadinho do texto: «E andando dali, Jesus VIU um homem sentado na banca de impostos, chamado Mateus, e disse-lhe: “Segue-me!” E, tendo-se levantado, seguiu-o. E tendo-se reclinado à MESA, em CASA, vieram muitos publicanos e pecadores, e reclinavam-se à MESA juntamente com Jesus e os seus discípulos» (Mateus 9,9-10).

    4. O posto de cobrança de Mateus situava-se um pouco a norte de Cafarnaum, junto da estrada internacional que ali passava, e que ligava o Egito à Mesopotâmia. Os publicanos estavam ao serviço do poder ocupante, o império romano, e cabia-lhes a tarefa odiosa de cobrar impostos aos seus concidadãos judeus para os entregar às autoridades romanas, e meter ainda alguma coisa ao bolso. Sendo considerados cúmplices de romanos e ladrões, eram naturalmente mal vistos e odiados pelos judeus, que os insultavam e enchiam de nomes feios.

    5. O segredo está em que um dia passou pela banca de impostos de Mateus um homem chamado Jesus que, em vez de insultar Mateus, o VIU com o olhar BOM do criador (Mateus 9,9), e o chamou. A resposta de Mateus foi imediata. Afinal, nunca ninguém o tinha tratado como gente!

    6. O passo seguinte tem de ser a Festa para celebrar tão grande reviravolta. E assim se reúnem, na mesma CASA e à mesma MESA, Mateus e os seus amigos, publicanos e pecadores como ele, e Jesus e os seus discípulos.

    7. Surgem então ao fundo da cena os fariseus, que adoram escandalizar-se, isto é, só estão bem a ver o mal que pensam que os outros fazem, e ficam perplexos quando veem Jesus em tão más companhias e a não respeitar as tradições e convenções que eles tinham por sagradas! Estas convenções atiravam com os publicanos para o caixote do lixo da sociedade civil e religiosa de então, que punha os publicanos ao nível dos pagãos e das prostitutas e de toda a espécie de pecadores e de pessoas desprezíveis (cf. Mateus 18,17; 21,31-32), isto é, associava-os a gente que, segundo eles, vivia bem longe das pautas da vontade de Deus e devia ser votada ao desprezo. De gente assim, pensavam os fariseus, deviam as pessoas honestas e religiosas afastar-se, evitar a convivência com eles, e, sobretudo, nunca se reclinarem com eles à mesma mesa. Daí, a razão de ser da pergunta que os fariseus fazem aos discípulos de Jesus: «Por que é que o vosso mestre come com os publicanos e os pecadores?» (Mateus 9,11). Sim, além de tudo o mais, os publicanos lidavam com os pagãos romanos, tornando-se, por isso, impuros, e tornando impuros todos aqueles que com eles se relacionassem.

    8. Jesus, que terá ouvido também a pergunta, toma a seu cargo a resposta, que articula em três pontos: 1) uma imagem derivada do quotidiano e que todos compreendiam; 2) uma citação da Palavra de Deus do Antigo Testamento, que todos aceitavam; 3) a afirmação e clarificação da missão que lhe tinha sido confiada. Em primeiro lugar, Jesus compara a sua presença no meio dos pecadores com a presença do médico junto dos doentes, fazendo ver com esta imagem esclarecedora que assim como o médico tem de estar junto dos doentes, para os curar, assim Jesus tem de estar junto dos pecadores, para lhes levar a salvação de Deus. Sem o dizer, Jesus diz que não veio como um juiz que condena e castiga, ao gosto dos fariseus, mas como um médico que ausculta e cura. Recorrendo agora ao Antigo Testamento, que guardava a Palavra de Deus, que os fariseus também respeitavam, Jesus destaca o dizer de Deus: «Misericórdia Eu quero, e não sacrifícios», que se encontra em Oseias 6,6. Com esta citação, que os fariseus não podem rebater, Jesus diz que Deus antepõe às formalidades religiosas a atenção aos pobres e necessitados. E também aqui, sem o dizer, Jesus diz que também os fariseus não devem descurar esta atenção assente na Palavra de Deus, que eles também não podem rebater. Depois de ter recorrido à imagem e missão do médico, e depois de ter colocado diante de todos a misericórdia de Deus, Jesus afirma e esclarece agora a sua própria missão, dizendo: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mateus 9,13), mostrando que leva a cumprimento, de forma exemplar, a misericórdia que Deus quer, e compara a sua missão à do médico, declarando, todavia, que a sua missão não se destina tanto às doenças do corpo, mas à salvação da alma. Em suma, Jesus faz ver aos fariseus que eles nada sabem nem querem saber da saúde, da salvação e do Perdão trazidos pelo Médico divino! Na verdade, o olhar de Jesus é o olhar novo e bom do Criador, e traz consigo amor e misericórdia, e não velhos rituais, clichés e maneiras distorcidas de ver e analisar a realidade.

    9. O Evangelho de Mateus é o único que cita Oseias 6,6, e fá-lo por duas vezes: aqui, em 9,13a, e depois, em 12,7. Curiosamente, Mateus é o único dos Doze de que se fala no Talmude (Talmude da Babilónia, tratado Sanhedrin 43a). E sempre de forma interessante, o texto de Oseias 6,6 aparece também citado, em outro contexto, pelo importante rabino Yohanan ben Zakkay, iniciador da Mishnah, que surge em cena pouco depois de Jesus, e que é seguramente contemporâneo da redação do Evangelho de Mateus. Lê-se nos escritos rabínicos que um dia em que Yohanan ben Zakkay saía de Jerusalém, foi seguido por outro rabino que, ao ver o Templo em ruínas, terá desabafado: «Ai de nós, porque foi destruído o lugar em que eram expiadas as iniquidades de Israel». Ouvindo o desabafo Yohanan ben Zakkay ter-lhe-á respondido: «Meu filho, não fiques triste por isto. Nós possuímos outro instrumento de expiação igualmente eficaz. São as obras de misericórdia, pois está escrito: “Misericórdia Eu quero, e não sacrifícios”» (ʼAbôt de Rabi Natan, Versão B, 8).

    10. No seguimento imediato desta citação de Oseias em Mateus 9,13a, o Evangelho de Mateus apresenta-nos outra frase forte de Jesus: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (9,13b). Também este dito forte corre paralelo a um conhecido texto rabínico que abre às diversas partes da Bíblia a discussão acerca da sorte do pecador, mostrando no final o triunfo do parecer de Deus. Eis o conhecido texto: «Perguntaram à Sabedoria: “Qual é o castigo do pecador?”. A Sabedoria respondeu: “A desgraça persegue os pecadores” (Provérbios 13,21). Perguntaram à Profecia: “Qual é o castigo do pecador?”. A Profecia respondeu: “O pecador deve morrer” (Ezequiel 18,20). A mesma coisa foi perguntada à Tôrah: “Qual é o castigo do pecador?”. A Tôrah respondeu: “Oferece um holocausto, e será feita a expiação” (Levítico 9,7). Perguntaram ao Santo, Bendito Ele seja: “Qual é o castigo do pecador?”. Ele respondeu: “Que se converta e viva, como está escrito: Bom e reto é o Senhor, e aponta o caminho aos pecadores”» (Salmo 25,8) (Talmude de Jerusalém, Makkôt 2,6).

    11. Para nos pôr todos em sentido, porque é da Palavra de Deus que se trata, cai hoje também nos nossos ouvidos a Palavra de Deus guardada no Livro do profeta Oseias 6,3-6, que põe Deus a declarar que é amor e conhecimento de Deus o que quer de nós. O conhecimento bíblico não é teórico e escolar. É pessoal e experimental. Portanto, o nome do conhecimento é o amor. Não o amor da sabedoria, mas a sabedoria do amor. Este filão do amor e do verdadeiro conhecimento de Deus, que é sempre seguir Deus, imitar Deus, como Mateus segue Jesus, exclui ritualismos, exterioridades, impostos, retenções na fonte, burocracias (cf. 1 Samuel 15,22; Oseias, 6,6; Amós 5,22; Isaías 1,10-20). Na verdade, o amor de Deus, trazido até nós pelo médico divino, obriga-nos a renovar toda a nossa vida, pondo em causa radicalmente a nossa vã maneira de viver.

    12. No recorte da Carta aos Romanos hoje lido (4,18-25), Paulo põe diante de nós um bocadinho delicioso da história de Abraão, tal como nos é contada no Livro do Génesis. Seguindo a Palavra de Deus (Génesis 12,1-3), aos 75 anos (Génesis 12,4), no annus mundi 2021, Abraão imigra de Haran, na Alta Mesopotâmia, para a Palestina, estabelecendo-se no Hebron (Génesis 13,8). É aos 100 anos (annus mundi 2046) que acolhe, por entre risos, a promessa do nascimento de um filho, de nome Isaac, que a sua esposa Sara, então com 90 anos, daria à luz (Génesis 17,16-17). Dado o cenário exposto no Génesis, é de todo compreensível que Paulo escreva acerca de Abraão que, «contra a esperança [humana] (par’ elpída), na esperança acreditou (ep’ elpídi epísteusen)» (Romanos 4,18). A gramática ensina-nos que, na locução ep’ elpídi, a preposição epí, seguida do dativo, indica o objeto e o fundamento da fé, que é uma esperança nova e desmesurada, ainda não vista (Romanos 8,24) nem sabida, assim como a preposição pará com acusativo pode significar «para além de» ou «contra». S. João Crisóstomo explica assim, e explica bem: «era contra a esperança humana o modo da esperança que vinha de Deus». Quer dizer: o que era prometido a Abraão (vir a ser pai aos 100 anos, contando a sua esposa Sara 90) era humanamente inacreditável, para não dizer mesmo coisa ridícula.

    13. O Salmo 50 inverte a estrutura habitual que vemos quando percorremos e rezamos os Salmos. Normalmente, no Saltério, somos nós que falamos, que pedimos, que suplicamos, que louvamos. Neste Salmo 50, é Deus que toma a palavra, bem à maneira dos profetas, para nos dizer que basta de exterioridades, de sacrifícios de touros e carneiros com hipocrisia; o seu apreço vai para o louvor puro, que brota de um coração purificado, com consequências óbvias na nossa existência quotidiana. É este que anda no caminho reto. E é a este que Deus dá a sua salvação, como se diz no último versículo do Salmo (v. 23), que serve hoje de refrão à nossa música.

    António Couto


  • Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a Deus,

    sabe a pão,

    sabe a alegria,

    sabe a Eucaristia!

    Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a amor,

    a dádiva da vida,

    a uma lágrima comovida.

    Esta Quinta-Feira é Santa:

    sabe a Ceia

    e a Jesus,

    luz grande que incendeia

    as trevas do coração,

    e faz nascer amor

    e comunhão.

    António Couto


  • Dá-nos, Senhor, um coração novo,

    capaz de conjugar em cada dia

    os verbos fundamentais da Eucaristia:

    RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,

    PARTILHAR e DAR,

    COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

    Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,

    capaz de escutar

    e de recomeçar.

    Mantém-nos reunidos, Senhor,

    à volta do pão e da palavra.

    E ajuda-nos a discernir

    os rumos a seguir

    nos caminhos sinuosos deste tempo,

    por Ti semeado e por Ti redimido.

    Ensina-nos, Senhor,

    a saber colher

    o Teu amor

    semeado e redentor,

    única fonte de sentido

    que temos para oferecer

    a este mundo

    de que és o único Salvador.

    António Couto


  • Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

    Deuteronómio 8,2-3.14b-16a; Salmo 148; 1 Coríntios 10,16-17; João 6,51-58

    1. O imenso texto que forma o Capítulo 6 do Evangelho de João pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdução ou preparação do cenário, engloba os vv. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multidão, os discípulos), o lugar (na «outra margem do mar da Galileia», na «montanha») e o tempo («estava próxima a Páscoa dos judeus»); a segunda Parte, que se estende pelos vv. 5-15, abre com uma pergunta pedagógica de Jesus dirigida a Filipe («Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?»), não corretamente respondida por Filipe, a que se junta André, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os vv. 16-21, mostra-nos os discípulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os vv. 22-24, apresenta-nos um novo começo, «no dia seguinte», mostrando-nos a multidão que nota a ausência de Jesus e parte à sua procura para Cafarnaum (mudança de lugar); a quinta Parte, que compreende a longa extensão de texto entre os vv. 25-59, traz para a cena a importante discussão, travada entre Jesus e a multidão ou os judeus, sobre o pão vindo do céu; a sexta Parte, que contempla os últimos vv. 60-71, estende a discussão aos discípulos, mostrando a deserção de muitos (vv. 60-66), em contraponto com a confissão de fé de Pedro (vv. 67-71).

    2. A passagem do Evangelho que temos a graça de escutar neste Dia Grande do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é João 6,51-58. Como se vê, esta passagem integra a longa quinta Parte de João 6, que se estende pelos vv. 25-59. Mostramos agora, para efeitos de clareza e melhor compreensão, como se apresenta estruturada esta quinta Parte (João 6,25-59), para nos ocuparmos depois, mais de perto, do texto de hoje (João 6,51-58). João 6,25-59 apresenta-se ritmado pelo esquema «pergunta-resposta». As perguntas saem da boca de uma «multidão» não identificada ou dos «judeus», a que se seguem as respostas de Jesus. Seguindo este ritmo, o texto de João 6,25-59 mostra-se organizado em cinco secções: 1) João 6,25-29; 2) João 6,30-33; 3) João 6,34-40; 4) João 6,41-51; 5) João 6,52-59.

    3. É agora fácil verificar que a passagem do Evangelho de hoje (João 6,51-58) cai, quase por inteiro, na quinta secção (vv. 52-59) da quinta Parte. Dizemos quase por inteiro, porque o v. 51, que abre o Evangelho de hoje, faz parte da quarta secção (João 6,41-51), constituindo mesmo o seu encerramento natural. Na verdade, à pergunta dos judeus: «Não é este, Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora: “Eu desci do céu”?» (João 6,42), que abria a quarta secção (João 6,41-51), responde Jesus, afirmando a sua verdadeira identidade: «Eu sou o pão vivo (ho zôn) que desceu do céu; se alguém comer deste pão viverá eternamente; mais (kaì dé): o pão que Eu darei é a minha carne (sárx) para a vida do mundo» (João 6,51). Na finíssima rede do texto, o v. 51 constitui o fecho natural da quarta secção. Um pequeno reparo: como este v. 51 aparece a abrir o Evangelho de hoje, anote-se então que Jesus não está a responder à «multidão», como nos faz ler a versão oficial do texto que hoje vai ser proclamado, mas aos «judeus», que entram em cena em João 6,41, e formulam a pergunta que se ouve em João 6,42.

    4. A afirmação de Jesus em João 6,51 também é importante hoje, pois contém todos os elementos que importa considerar: «Eu sou o pão vivo (ho zôn) que desceu do céu», «se alguém comer desse pão», «esse pão é a minha carne», e «dá a vida (zôê)». De qualquer modo, a abrir a quinta secção, no v. 52, lá está outra pergunta enrolada, que brota da animada discussão dos judeus entre si, e que parece vir na continuidade da resposta acima referida de Jesus. Juntando pedaços soltos de frases pronunciadas por Jesus («Se alguém comer deste pão»; «o pão que Eu darei é a minha carne»), os judeus formulam uma frase que Jesus nunca pronunciou: «Como pode este dar-nos a sua carne (sárx) a comer?» (João 6,52). Notar-se-á facilmente que, da frase formulada pelos judeus, desapareceu completamente o termo «pão». A primeira objeção dos judeus, no v. 42, expressava a recusa da Encarnação do Lógos: «Não é este, Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora: “Eu desci do céu”?» (João 6,42). A segunda, formulado no v. 52, nega que a morte de Jesus possa ser fonte de vida para a humanidade.

    5. Na sua resposta, que preenche o resto do texto de hoje (João 6,53-58), Jesus fala de vida nova, e, por isso, também de alimento novo, consentâneo com essa vida nova. Esclarecedor, nesse sentido, é que o verbo «comer» apareça conjugado com «carne» (sárx) (João 6,52.53.54.56), com «pão» (ártos) (João 6,51.58) e «comigo» (me) [«o que me come»] (João 6,57). Fica claro que «comer o pão descido do céu» é «comer a carne do Filho do Homem», e que as duas expressões são equivalentes de «comer a pessoa» de Jesus, a sua identidade, o seu modo de viver, a sua entrada na glória. Só assim, a vida verdadeira, a vida eterna (zôê aiônios), pode entrar em nós e transformar a nossa vida terrena, configurando-a com a de Cristo Glorioso. Uma nova possibilidade entra na história humana. Tudo o que fica para trás, toda a história humana passada, pode resumir-se no maná, «que os vossos pais comeram, e morreram» (João 6,49.58a). Sim, o maná aparece em referência apenas com a vida terrena, e não tem nenhuma eficácia para além da morte. Ao contrário, o pão que Jesus é e dá não serve de sustento à vida terrena, e tão-pouco livra da morte terrena: também o próprio Jesus morreu! Mas o pão que Jesus é dá a vida eterna (zôê aiônios) (João 6,58b).

    6. Emerge ainda o tema grande da pertença mútua e permanente: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele» (João 6,56). É a melhor e a mais realista tradução da nossa comunhão eucarística. Até o verbo «comer» ganha nesta secção particular sabor e realismo. De facto, habitualmente, para dizer «comer», é usado o verbo grego esthíô. Todavia, em João 6,54.56.57.58, é usado um verbo «comer» muito mais forte, o verbo trôgô [= trincar, mastigar]. De forma significativa, este verbo só é usado nas passagens atrás assinaladas e em João 13,18, no contexto da ceia da Páscoa: «Aquele que come (ho trôgôn) o meu pão levantou contra mim o seu calcanhar». O texto de João 13,18 cita o Salmo 41,10. O gesto de levantar o calcanhar contra alguém é o gesto do vencedor contra o vencido, e resulta fortemente reprovável se praticado por um hóspede admitido à mesa de quem o hospeda. Vida nova e eterna, ressuscitada. Comunhão e intimidade entre Deus e a Humanidade. Por isso e para isso, Jesus se fez um de nós, descendo ao nosso mundo, e dando-se completamente a nós, dando por nós a sua vida (psychê) e dando-nos também a vida eterna (zôê aiônios).

    7. «Interroga a velha terra: responder-te-á sempre com o pão e o vinho». Estas palavras do poeta francês Paul Claudel (1868-1955) traduzem bem a nossa Eucaristia. Os sinais do pão e do vinho não mostram apenas o alimento físico, importante e indispensável, mas também estão presentes quando queremos manifestar a nossa comunhão na alegria (dias festivos) e na dor (veja-se a sua partilha em rituais fúnebres). Este segundo aspeto presente nos sinais do pão e do vinho é também um importante alimento da nossa vida. É o que Moisés diz com energia ao povo de Israel reunido na planície de Moab: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Deuteronómio 8,3). Palavra, comunicação, comunhão, intimidade.

    8. Aí está também hoje o grande texto de Paulo aos Coríntios 10,16-17, porventura a mais antiga e singela evocação da Eucaristia, que então se chamaria eulogía, isto é, «Bênção». «O cálice da Bênção (tò potêrion tês eulogías) que Bendizemos (eulogoûmen) não é comunhão (koinônía) no sangue de Cristo? O pão que partimos (kláô) não é comunhão no corpo de Cristo?» (1 Coríntios 10,16). O texto é singelo, condensado, fortíssimo. A bênção, hebraico berakah, é unitiva. Une, reúne, põe em comunhão. Se parte de Deus, recai sobre o homem, e volta a Deus, unindo Deus e o homem num círculo inquebrável. Se parte do homem, recai sobre Deus, e volta ao homem, unindo-os igualmente num círculo inquebrável. Pode também recair sobre outra pessoa ou outras pessoas, unindo sempre as duas partes num círculo inquebrável. Por aqui se vê bem a energia nova e irreprimível que «bendizer», «dizer bem», comporta. A Eucaristia é, na verdade, esta união ou comunhão entre Deus e o Homem, e de todos os membros da Assembleia cristã e orante entre si. O contrário de «bendizer» é «maldizer», «dizer mal». Bendizer une. Maldizer divide. Celebrar a Eucaristia significa e implica, para quem nela participa, dizer bem, pensar bem, querer bem, fazer bem. Um novo e belo programa de vida.

    9. «Como é bom, como é belo, viverem unidos os irmãos» (Salmo 133,1). Saboreemos esta Alegria, o Pão e o Vinho da Alegria, nesta celebração da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, bem unidos e reunidos à volta do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo. Tradicionalmente, neste Dia, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, em solene procissão, os caminhos das nossas aldeias e cidades. Quer isto dizer que o pálio (pallium) de Deus atravessará as nossas aldeias e cidades. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos. Verdadeiramente, num mundo em profunda crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia S. Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.

    10. Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior e mais quente, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).

    António Couto


  • 1. Diz acertadamente S. Gregório de Nazianzo (329-389), conhecido como «o Teólogo» (ho teólogos): «O Antigo Testamento proclamava manifestamente o Pai, o Filho de forma mais obscura. O Novo Testamento manifestou o Filho, e deixou entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito tem direito de cidadania (empoliteúetai) entre nós, e dá-nos uma visão mais clara de si mesmo».

    2. S. João Paulo II proclamou em sucessivos documentos o Espírito Santo como o Espírito-Dom que, de resto, o Novo Testamento sabe dizer admiravelmente. Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza e infinita doação constitui o Filho, infinita pobreza e infinita receção, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita receção, o Filho volta a dar tudo numa infinita e recíproca doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo.

    3. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor, princípio da doação, mas não perde a sua dimensão paterna, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor, termo da doação, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma ação requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objeto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, a nossa intimidade, menos é um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do ato da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o ato da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira.

    António Couto


  • O Filho e o Espírito Santo são,

    no dizer de Santo Ireneu de Lião,

    as duas mãos do Pai,

    enviadas em missão

    para junto dos seus filhos de adoção.

    À semelhança, claro,

    daquelas mãos de amor,

    que, no alvor da Criação,

    modelaram da terra pura o nosso coração,

    e de misericórdia o vestiram.

    Filhos no Filho, divina hyiothesía,

    hemorragia de graça e de alegria:

    Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

    e dá-nos em herança a sua divina filiação.

    E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

    divina comunhão, sem confusão,

    toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

    e faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

    a mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

    António Couto


  • Solenidade da Santíssima Trindade

    Êxodo 34,4b-6.8-9; Daniel 3; 2 Coríntios 13,11-13; João 3,16-18

    1. A oração e a bênção «em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» pressupõem o anúncio de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, bem como a fé nesse Deus. O Nome de Deus é posto em relação com o conhecimento que temos dele. Deus manifesta o seu Nome, para que possamos conhecê-lo, para que nos possamos dirigir a ele e entrar em relação com ele. Jesus deu-nos a conhecer Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e é este o núcleo mais profundo da sua mensagem. Na verdade, Jesus dá-nos a conhecer Deus de uma forma não acessível antes dele. O Antigo Testamento conhecia o Deus Criador do céu e da terra, que tem diante de si apenas criaturas, infinitamente diferentes dele, e em que não se entrevê nenhum digno interlocutor de Deus. No plano divino, este Deus parece estar sozinho consigo mesmo habitando uma sublime solidão. Mas Jesus anuncia e manifesta um Deus que, no plano divino, tem um interlocutor de pleno valor: o Deus de Jesus não está sozinho, mas vive em comunhão. Diante do Pai está o Filho, ambos unidos entre si, conhecem-se, compreendem-se e amam-se reciprocamente na plenitude e perfeição divinas, por meio do Espírito Santo.

    2. Dando um passo em frente, vê-se então que o Deus de Jesus, enquanto dádiva suprema fundante, princípio da doação, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, termo da doação, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita recepção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. Dizer que Deus é também Filho parece escandaloso! Mas é, ao invés, maravilhoso: o facto de Deus se revelar, não apenas como Pai que dá a vida, mas também como Filho que a recebe e acolhe, e vem partilhar connosco, abre imensas e preciosas perspectivas para a nossa vida humana e espiritual. Levantando uma vez mais o olhar para Deus, Pai que se dá e Filho que se recebe, verificamos então que esta comunhão-comunicação-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado, para o dizer com a bela expressão de S. João Paulo II na Carta Encíclica Dominum et vivificantem [1986].

    3. Deus faz-se ver nos interstícios do nosso humilde chão quotidiano. Foi quanto Nicodemos pôde depreender ao ver os sinais (sêmeîa) que Jesus fazia (cf. João 3,2b-3). Todavia, daqui para a frente, não há passo racional, nosso, que possamos dar. Não resta a Nicodemos outra via (não Tomista) que não seja ir ao encontro de Jesus (cf. João 3,2a), não na sua condição de «o mestre de Israel» (ho didáscalos toû Israêl) (João 3,10), mas do discípulo que sabe depor as suas armas de mestre aos pés de Jesus, «o Mestre que veio de Deus» (apò theoû elêlythas didáskalos) (João 3,2b), o Mestre que não estudou em nenhuma das nossas escolas, como dizem e repetem, admirados, os insuspeitos Judeus (cf. João 7,15). As pequenas mãos de Nicodemos, e as nossas também, não dispõem de nenhum argumento ou instrumento de acesso que nos permita ir além da gélida impassibilidade das leis da natureza. Ora, naquele Jesus que Nicodemos via, havia claros sinais de que «Deus estava com Ele» (ho theòs met’ autoû) (João 3,2b). Em Jesus, era então visível um acesso à vida divina e eterna (zôê aiônios). E foi isso que levou Nicodemos a sair tremulamente do seu estudado quotidiano de «mestre de Israel», para ir ao encontro de Jesus, o Mestre que veio de Deus, e que não estudou em nenhuma das nossas escolas.

    4. Chegado junto de Jesus – «o Mestre que veio de Deus» –, Nicodemos – «o mestre de Israel» – tropeça logo nos seus limites. De facto, ouve de Jesus que, para ter acesso à vida divina e eterna (Reino de Deus muitas vezes nos Sinóticos; em João só em 3,3.5), é preciso nascer de novo (ánôthen: «de novo», «do alto», «do princípio» (João 3,3.5.7). Fica completamente baralhado Nicodemos, de tal modo que chega a perguntar a Jesus se está a sugerir que «se pode entrar segunda vez no seio de sua mãe e nascer» (João 3,4). Jesus, que «fala do que sabe» (cf. João 3,11), explica que este novo início não pode ser uma repetição (seria uma contradição), nem o podemos alcançar pelos nossos meios. Não está nas nossas mãos poder chegar a ele. É dom de Deus. É-nos dado no batismo pelo poder criador de Deus. Mas Jesus esclarece ainda que, embora esta vida nova seja dom de Deus, dado por Deus, tal não significa, no que a nós diz respeito, que devemos ficar de braços cruzados, assumindo uma atitude meramente passiva. Na verdade, este início de vida nova, dom de Deus, dado por Deus, requer de nós que acreditemos no Filho Monogénito de Deus (João 3,16). A conexão entre nascer de Deus e acreditar no seu Filho está claramente afirmada em 1 João 5,1: «Todo aquele que acredita que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus (ek toû theoû gegénnêtai)».

    5. Daqui para a frente é todo o dizer do Evangelho deste dia (João 3,16-18). É, portanto, Jesus que se diz a Nicodemos. Não é a história ou a narrativa de um dizer livresco, amarelecido e anódino. É o Mestre que vem de Deus para dizer Deus a Nicodemos, a mim e a ti. Jesus não diz coisas; diz Deus. Não ensina conteúdos para aprender; dá-nos Deus que nos ama, e que, por amor, nos entrega o seu Filho Monogénito, Jesus, para acreditar, e muitos irmãos para amar. Portanto, Nicodemos fica sem jeito: não lhe compete apenas aprender o que Jesus lhe pode ensinar; compete-lhe receber Jesus, que Deus lhe entrega por amor. E compete-lhe ainda saber que esta enchente de amor, que vem de Deus, é para todos, e não apenas para ele, pelo que, responder a esta enxurrada de amor, passará sempre por amar também, no quotidiano, os seus irmãos.

    6. Sim, é tal a grandeza do amor de Deus por nós que, por amor de nós, entrega até o seu Filho Monogénito para assumir e absorver os nossos erros, saldar as nossas dívidas, suportar os nossos maus tratos e a nossa violência, poder ter mesmo que entregar a sua vida nas nossas mãos violentas e assassinas, sem deixar de nos amar, para nos salvar.

    7. A afirmação de Jesus é absolutamente assombrosa, impensável, desarmante: «Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho Monogénito» (João 3,16), o Filho do seu amor. Para que não nos passe ao lado a força do que acabámos de ouvir, talvez possamos perguntar: Quem é o pai ou a mãe (aqui presente) que está disposto a entregar o seu filho ou filha a um grupo de malvados para, com esse gesto de extrema ousadia, tentar retirar do mal aqueles malvados? Penso que não haverá (aqui) ninguém que se atreva a fazer uma coisa destas. O que nós não somos capazes de fazer, fê-lo Deus por nós, que não somos grande coisa! Entregou-nos o seu Filho querido, e nós cravámo-lo naquela Cruz!

    8. O texto do Antigo Testamento que faz equilíbrio com o Evangelho deste Dia Solene da Santíssima Trindade é a chamada magna charta do amor de Deus, que hoje podemos ler no Livro do Êxodo 34,4-9. A primeira frase [«E passou (ʽabar) o Senhor diante dele (Moisés), e proclamou/invocou (qaraʼ): “Senhor, Senhor”»], é de ligação, mas reveste-se de grande importância. A ação de «passar», por parte de Deus, significa, por um lado, a sua presença livre, boa e bela, e, por outro lado, que nós não podemos pôr sobre Ele a nossa mão, controlá-lo, nossa permanente tentação. «E passou o Senhor» (Êxodo 34,6) cumpre a promessa boa de Deus a Moisés, feita em Êxodo 33,19, de fazer passar diante de Moisés toda a sua bondade e beleza (kol-thûbî). E que esta «passagem» é boa e bela vê-se em contraponto com as visões do Livro de Amós, em que Deus declara: «Veio o fim (qets) para o meu povo, Israel; não continuarei a passar para ele (loʼʽabar lô)» (Amós 8,2; cf. 7,8). E o facto de o Senhor aparecer a proclamar/invocar (qaraʼ) o seu próprio Nome é coisa única, única vez em toda a Escritura em que o Senhor é sujeito do verbo qaraʼ, na expressão qaraʼ beshem, «proclamar/invocar o Nome». Por norma, a locução qaraʼ beshem YHWH encontra-se nos lábios dos adoradores e suplicantes, e significa aí «invocar o Nome de YHWH». Posta na boca do próprio Deus, a locução há de significar, em primeiro lugar, proclamar, mas sem anular a beleza e a surpresa de o próprio Deus invocar também o seu Nome, a sua plenitude de Amor, de que todos recebemos graça sobre graça (cf. João 1,16). A exegese costuma, neste lugar, acentuar o «proclamar», deixando de lado o «invocar», querendo quase explicar que Deus não pode invocar o seu próprio Nome, isto é, rezar. Mas só este duplo dizer de Deus, de revelação e de oração, constitui a verdadeira revelação de Deus, e assenta as bases para que o crente possa invocar proclamando, ou proclamar invocando, anunciando, rezando, com doçura e estremecimento, este Nome, esta Presença Amante e Fiel. Tão extraordinária maneira de dizer deixa-nos, pois, não no domínio da metafísica, mas no domínio da revelação, da anunciação, da oração, da adoração, ato fundador e modelar da nossa oração, contemplação e ação.

    9. Não será, neste contexto, de estranhar que, nesta exposição de Deus, Deus exposto diante de Moisés com toda a sua bondade e beleza, como acontece em Êxodo 34,6-7, e que não pode deixar de lembrar Jesus Cristo exposto (proétheto) na Cruz (cf. Romanos 3,25), «exposto por escrito (proegráphê) diante dos nossos olhos» (Gálatas 3,1), Moisés se tenha «apressado a responder ajoelhando-se (qadad) no chão e prostrando-se em adoração (hishtahawah, forma hitpael de shahah), e dizendo: “Por favor, se encontrei graça aos teus olhos (՚im-na՚ matsa՚tî hen beՙênêka), Senhor, vem, por favor, Senhor, para o meio de nós, que somos um povo de dura cerviz, e perdoa (salah) a nossa culpa e o nosso pecado”» (Êxodo 34,8-9).

    10. Entre esta necessária aproximação teofânica centrada no essencial, e o essencial é sempre pessoal, que é a passagem boa e bela de Deus (Êxodo 34,6a), exposição de Deus, e a oração e adoração humana por ela provocada (Êxodo 34,8-9), sem os fenómenos exteriores habituais, como relâmpagos, trovões, tremores de terra, fogo devorador (cf. Êxodo 19,16 e 18), aí está, dentro do caixilho, o quadro central, que abre com a repetição do Nome «Senhor, Senhor», única vez em toda a Escritura, duplicação certamente com valor enfático, mas também litúrgico, orante, adorante. Deus diz-se a Si mesmo como nos diz a nós: «Moisés, Moisés» (Êxodo 3,4), «Samuel, Samuel» (1 Samuel 3,4), «Saulo, Saulo» (Atos 22,7), com Amor imenso e intenso, orante, comovido, exposto! Convenhamos que, neste tremendo dizer, não conta apenas o facto de Deus se dizer a Si mesmo. Conta também, e talvez sobretudo, o modo como Deus se diz a Si mesmo.

    11. O Apóstolo traz-nos hoje, no final da sua correspondência com a comunidade de Corinto (2 Coríntios 13,11-13), a fórmula trinitária com que abrimos a nossa Eucaristia: «A graça do Senhor Jesus Cristo e o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós». É, de facto, em clave trinitária que vivemos e rezamos. É esta a vida eterna (zôê aiônios) a que, por graça, somos chamados e destinados: viver na graça de Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

    António Couto


  • 1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio II do Vaticano, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

    2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se Fé.

    3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico ʼemûnah. ʼEmûnah deriva do verbo ʼaman, cujo significado primeiro e material é «segurar», «firmar», mas, traduzido em termos interpessoais, significa «fiar-se», «confiar», «ser fiel». É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

    4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo ʼaman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal, pois pode derivar de ʼem, que significa mãe, e está em consonância com ʼomen, que significa mãe ou ama, e com ʼamûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado de qualquer mãe que o seja de verdade, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

    5. Significativamente foi a esta relação interpessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança, simplicidade e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

    6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternais e paternais, mais maternais que paternais: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

    7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternais.

    António Couto


  • A bíblica «verdade», hebraico ʼemet, não é apenas a conformidade entre as coisas e a mente, como ensinam Aristóteles e Tomás de Aquino. A bíblica verdade (ʼemet) deriva de ʼem, que é como se diz «mãe» na língua materna de Jesus. A verdade bíblica não é, portanto, da ordem das ideias, mas da ordem pessoal, maternal. E é de ʼem também que deriva ʼemûnah, que significa «fé», «fidelidade», «firmeza». Em mundo bíblico, a verdade, como a fé, não são, portanto, da ordem das ideias, mas da ordem pessoal, maternal. A verdade e a fé são, na Bíblia, como uma «mãe», figura que inspira e gera firmeza e confiança, que ternamente segura e carinhosamente cuida do seu bebé, e que, por nada deste mundo, o deixa cair ao chão. É assim também a nossa relação com Deus, a que nos agarramos, e que, por nada deste mundo, nos deixa cair. Atravessamos, como sabemos, o mês de maio, que é o mês de Maria, o mês da mãe de Deus e nossa mãe, o mês da «verdade» e da «fé», o mês de uma «verdade» e de uma «fé» que se chamam confiança e fidelidade, e que reclamam uns braços ternos e firmes, que nos seguram sempre.

    Neste mês que te é dedicado, Maria, nós te saudamos com filial ternura, e te pedimos que nos ensines a viver com verdade e fé, isto é, com confiança, segurança, simplicidade, fidelidade e felicidade. Dá-nos, Senhora da Alegria, umas mãos suaves e firmes como as tuas, uns pés ágeis para correr sobre as montanhas, uns olhos mansos que encham este mundo de paz e de beleza, e um coração maternal que palpite de amor e dedicação, sem engano nem engodo. Mãe de maio, vela por nós!

    António Couto


  • Todas as tuas criaturas, Senhor,

    respiram, vivem, sorriem,

    cantam,

    por causa do teu alento criador.

    O teu pão de mil sabores

    sacia todas as fomes e todas as dores,

    a tua Palavra bela e plena de harmonia

    a todos envolve e alumia,

    irmana, aconchega e alivia.

    Por isso,

    qinda que espalhados pelos quatro cantos do mundo,

    continuamos todos reunidos no Cenáculo,

    a primeira Catedral da Igreja nascente,

    mas com ramificações em todas as casas,

    em todos os corações,

    bem assente em quatro colunas:

    o ensino dos Apóstolos,

    a comunhão fraterna,

    a fração do pão

    e a oração.

    Com a boca cheia de louvor,

    os olhos de graça,

    as mãos de paz e de pão,

    as entranhas de misericórdia e de perdão,

    a comunidade bela crescia, crescia, crescia.

    Não admira.

    era tão jovem, leve e bela,

    que as pessoas lutavam por entrar nela!

    Envia, Senhor,

    sobre nós,

    o teu vento,

    o teu alento,

    o teu Espírito,

    e renova por favor,

    renova por amor

    a nossa face

    e a face da terra.

    António Couto


  • O medo não habita a nossa casa.

    O medo transforma a nossa casa em fortaleza,

    tranca portas e janelas,

    esconde-se debaixo da mesa.

    Mas vem Jesus e senta-nos à mesa.

    Começa a contar histórias e estrelas,

    leva-nos até ao colo de Abraão,

    até à Criação,

    sopra sobre nós um vento novo,

    rasga uma estrada direitinha ao coração:

    chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.

    Varrido para o canto da casa pelo vento,

    rapidamente todo o medo arde.

    Ardem também bolsas, portas e paredes,

    e surge um lume novo a arder dentro de nós,

    mas esse não nos queima nem o podemos apagar.

    Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,

    com esse vento, com esse fogo dentro,

    portugueses, ucranianos, russos e chineses,

    começamos a falar e tão bem nos entendemos,

    que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.

    E afinal não temos.

    Vendo melhor,

    maternais mãos invisíveis nos embalam,

    nos sustentam.

    Sentimos que estamos a nascer de novo,

    percebemos que somos irmãos,

    filhos renascidos deste vento, deste lume.

    E não é verdade que falamos,

    mas que alguém dentro de nós fala por nós,

    chama por Deus,

    como um menino pelo Pai.

    António Couto


  • Domingo de Pentecostes

    Atos 2,1-11; Salmo 104; 1 Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23

    1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num lugar, tolhidos e sedados pelo medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!» Claro que não é a paz feita pelas armas, como no mundo romano, nem a paz que é fruto de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense. Esta Paz que Jesus insiste em dar tem um aroma diferente: é dom de Deus! Jesus mostra-lhes então, não o rosto, mas as mãos e o lado, bilhete de identidade de Jesus, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, Vida dada por amor, para sempre e para todos, e vincula os seus discípulos à sua missão de dar a vida por amor: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô: tempo presente)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo que os envolvia foi dissipado) ao verem a identidade (idóntes: part. aor2 de horáô) do Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles veem com um olhar histórico e a renovar todos os dias (indicações do tempo aoristo) a identidade do Senhor.

    2. «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. A missão de Jesus não nasce das suas ideias e jeito pessoal, nem é determinada pela sua própria vontade, mas sim pela vontade do Pai: tem o seu fundamento no Pai. Em tudo o que fez e disse, sempre Jesus manifestou, de forma clara, que era a sua comunhão com o Pai a nascente da sua missão. Portanto, assim como Jesus estava em tudo em comunhão com o Pai, também os discípulos devem estar em tudo em comunhão com Jesus. Decorre daqui que os discípulos enviados em missão não se devem apresentar em nome próprio nem agir segundo o próprio modo de pensar, fiando-se nas suas capacidades. Devem, antes, apresentar-se em nome de Jesus e sempre vinculados à missão que dele receberam. Devem ainda, como Jesus, para que a sua mensagem não soe a falso, identificar-se completamente com a mensagem proclamada. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este vento, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

    3. O texto luminoso do Livro dos Atos dos Apóstolos 2,1-11, que enche e dá o tom ao dia de hoje, merece ser estendido diante de nós, e por nós bem entendido. Ei-lo: «Ao ser completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. E veio de improviso, do céu, um ruído como de uma ventania impetuosa, que encheu toda a CASA onde estavam sentados. Fizeram-se ver a eles línguas como de fogo, que se dividiram, e sentou-se uma sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, como o Espírito dava a eles de se exprimir. Estavam então em JERUSALÉM judeus residentes, homens piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu. Tendo vindo, então, este som, convergiu a multidão e ficou perplexa, porque ouviam, cada um na própria língua, aqueles que falavam. Estavam fora de si e maravilhavam-se, dizendo: “Não são galileus todos estes que estão a falar? E como é, então, que nós ouvimos, cada um na nossa própria língua em que nascemos? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia vizinhas de Cirene, romanos residentes, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los falar nas nossas línguas as maravilhas de Deus!”».

    4. É fácil verificar que o texto se articula em duas vagas sucessivas: a primeira agrupa os vv. 1-4, e a segunda os vv. 5-11. Um único lugar no tempo, um único dia, o 50.º da Páscoa, marca as duas vagas, mas são dois os lugares no espaço que ocupam: a CASA, a sala alta do Cenáculo (vv. 1-4), e a CIDADE aberta ao mundo (vv. 5-12), que empresta à cena uma ressonância mundial. As duas vagas estão marcadas, logo a abrir (vv. 2 e 6), pelo verbo grego gínomai, que é o verbo típico de um acontecimento que não podemos deduzir nem produzir, mas apenas constatar e descrever. Exatamente o contrário de uma doutrina, que se situa na esfera da demonstração e dedução. Qual é o acontecimento? O vento forte e o fogo que, vindos do céu, caem de improviso sobre todos os que estão sentados na casa, irrompendo depois para as praças e ruas da cidade.

    5. Lá estamos nós, como se vê e era hábito, todos reunidos no Cenáculo. Mas somos logo varridos e recriados pelo vento impetuoso e incontrolável do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, Mestre novo dos tempos novos, que orienta e guia a nossa vida, a nossa mente, coração, entranhas, mãos, pés… É o cumprimento da segunda das cinco promessas acerca da Vinda do Espírito feitas por Jesus no Evangelho de João: «Ensinar-vos-á todas as coisas e recordar-vos-á tudo o que Eu vos disse» (João 14,26). Realização em casa, no Cenáculo (Atos 2,1-4). Verificação na cidade e no mundo (Atos 2,5-11): eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna. Mas a nossa língua materna não é simplesmente o português ou o francês ou o inglês ou o chinês, mas aquele perfeito entendimento que existe entre nós e a nossa mãe, quando somos bebés, do tempo da palavra antes das palavras, divina e humana lalação, que passa por sons e intuições, que não precisam de gramática nem sintaxe nem dicionário. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Claro que não são as outras linguagens do Pentecostes ou do Espírito, em que todos entendem tudo tão bem! E em que todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

    6. É esta divina lalação (stenagmòs alálêtos) (Romanos 8,26) do Espírito, única menção desta locução no Novo Testamento, que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que «Deus é Pai» (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros, para que nasça e cresça a comunidade (1 Coríntios 10,23-24).

    7. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira (Lucas 22,12), do último serão de Jesus com os seus discípulos (Lucas 22,21-38), da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos (Lucas 24,36), da eleição de Matias (Atos 1,26), da descida do Espírito Santo no Pentecostes (Atos 2,1-4), enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Atos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo cristão, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica da Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

    8. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Atos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

    9. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão. Maravilhoso saber que nos assemelha a Deus, que sabe e cuida de nós (Êxodo 2,25), e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Génesis 4,9), e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mateus 26,70.72.74).

    10. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas diretamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afeta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

    11. Esta torrente de vida nova e não programada ou programável, esta ventania incontrolável, este fogo manso abalroa primeiro aquela casa e logo a seguir a cidade inteira, inunda sem aviso cada coração e move inteligências e vontades. Em plena cidade e a plenos pulmões, São Pedro traduz assim este vendaval manso: «Este Jesus, Deus o ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou-o sobre vós, e é isto o que vós vedes e ouvis» (Atos 2,32-33). Em pleno acordo com o dizer de Jesus em João 7,37-39: «Quem tem sede, venha a mim e beba. O que acredita em mim, como diz a Escritura, do seu seio jorrarão rios de água viva». E o narrador comenta com rigorosa precisão: «Isto dizia do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado nele, pois não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado». Sim, o Espírito Santo vem para nós da Humanidade glorificada do Senhor Jesus. Daí o importante inciso no início do cânon da Solenidade da Ascensão do Senhor, que refere esse dia como «O dia santíssimo em que Jesus Cristo, vosso Filho Unigénito, colocou à direita da vossa glória a nossa frágil natureza humana unida à sua divindade». Imprescindível. É desta humanidade glorificada do Senhor que vem o Espírito Santo para nós.

    12. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

    13. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós»: «Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo» (Atos 5,32); «O Espírito Santo e nós decidimos…» (Atos 15,28).

    14. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

    António Couto


  • O mês de maio

    traz-nos sempre

    Maria pela mão.

    E, talvez possamos mesmo dizer,

    com maior exatidão,

    que é Maria

    que nos leva pela mão

    em cada dia

    deste mês de maio.

    Confesso

    que vou pela vida muitas vezes distraído,

    de tal modo que tropeço

    como um catraio,

    e às vezes caio,

    e até desmaio,

    e fico sem saber bem

    se entro ou se saio.

    Mas sei bem,

    isso sei bem,

    que tu, Mãe,

    estás sempre lá à porta,

    à minha espera.

    Sei lá se entro ou se saio,

    se caio,

    se desmaio.

    O que sei bem

    é que tu, Mãe,

    estás sempre lá à porta,

    à minha espera,

    Senhora ao pé-da-porta,

    ao pé-da-noite,

    ao pé-do-dia,

    ao pé-da-luz,

    minha Mãe e Mãe de Jesus.

    Sei lá se entro ou se saio,

    se caio,

    se desmaio.

    Se caio é nos teus braços,

    e adormeço.

    Mas só sei que adormeço,

    porque depois desperto

    ainda no teu colo,

    ou contigo por perto.

    Minha Mãe de maio,

    Senhora da Alegria,

    vela por mim sempre,

    de noite e de dia.

    António Couto


  • Maio chega sempre contigo pela mão.

    Nós te damos graças, Senhor,

    pelas muitas maravilhas

    que continuamente realizas no meio de nós,

    e nos falam de Ti e do teu amor por nós.

    Nós te damos graças por Maria,

    causa da nossa alegria,

    feliz porque acreditou

    em Ti e na tua palavra,

    e tudo Te entregou,

    ficando sem nada,

    como uma escrava.

    Isabel abriu esse grito de felicitação,

    que rapidamente se tornou em canto coral

    até hoje prolongado de geração em geração.

    Sim, uma escrava nada é, nada tem.

    Tudo é do seu Senhor.

    Não tem idade nem identidade,

    nem sol nem luar,

    nem noite nem dia.

    É Deus que a alumia.

    Assim é Maria, nossa Mãe.

    Assim devem ser os seus filhos também.

    António Couto


  • Com a sua Ressurreição e Ascensão aos Céus,

    é glorificada a humanidade do Filho de Deus e de Maria,

    Jesus,

    e é desta humanidade glorificada,

    à direita de Deus sentada,

    que vem o Espírito Santo para nós.

    É, portanto, do vosso interesse, diz Jesus, que Eu vá,

    pois se Eu não for,

    o Espírito Santo não virá para vós.

    Com a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes,

    celebramos, pois, a humanidade glorificada de Jesus,

    da qual,

    por contágio sacramental,

    recebemos o Dom de Deus, o Espírito Santo.

    Senhor Jesus,

    enche a nossa frágil humanidade da riqueza da tua divindade,

    e derrama no nosso humano coração

    o Espírito da consolação,

    da paz e da alegria.

    António Couto


  • Solenidade da Ascensão do Senhor

    Atos 1,1-11; Salmo 47; Efésios 1,17-23; Mateus 28,16-20

    1. A Ascensão do Senhor ao Céu põe diante de nós o «Senhor sem limites», Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, Exaltado à direita do Pai e à sua direita Sentado: aí está exposta diante de nós a Humanidade Glorificada de Jesus, única fonte do Espírito Santo para nós (cf. João 7,39; 19,30; Atos 2,32-34). Embora em Deus tudo seja simultâneo e coeterno, no nosso discurso sobre Deus entende-se que a Ascensão precede o Pentecostes, e que não pode haver Pentecostes sem Ascensão: «É do vosso interesse que Eu vá; se Eu não for, o Espírito não virá para vós», diz Jesus (João 16,7). «Pois não havia ainda Espírito (para nós), porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). O Espírito vem para nós apenas da humanidade glorificada de Jesus. Daí, a necessidade da Ascensão. Na dinâmica da «economia» divina, foi necessário esperar a vinda deste terceiro tempo, ou tempo do Espírito, para sermos conduzidos à «verdade toda inteira» (João 16,13; cf. 14,26), que é precisamente a do Pai e do Filho. E é desta Díade divina com o Espírito, que é possível, a partir da letra da Escritura Santa, inferir a relação de consubstancialidade unida, mas não confusa, como se lê em João 10,30: «Eu e o Pai somos Um», não uma pessoa, mas uma realidade ou substância, como deriva do numeral neutro (hén), logo seguido por Mateus 28,19, com o batismo de todas as nações «no Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo», Único Nome indicando a substância pessoal comum dos Três Unidos, o Único Deus, Três hypóstasis em plena e permanente synousía. É fácil perceber que esta ordem diacrónica, ou narrativa, é a ordem do nosso Credo. De facto, o caminho trinitário da Bíblia é o da sucessão, dito «económico», das três Pessoas divinas. Neste sentido, diz bem S. Gregório de Nazianzo (329-389), conhecido como «o Teólogo» (ho teólogos): «O Antigo Testamento proclamava manifestamente o Pai, o Filho de forma mais obscura. O Novo manifestou o Filho, e deixou entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito tem direito de cidadania (empoliteúetai) entre nós, e dá-nos uma visão mais clara de si mesmo».

    2. Mateus 28,16-20 é a última página do Evangelho de Mateus, e é hoje, na Solenidade da Ascensão do Senhor, solenemente proclamada para nós. Encerra o Evangelho de Mateus, condensa-o e resume-o, e abre aos Discípulos e Irmãos do Ressuscitado novos e insuspeitados horizontes. Hoje vale a pena visitar atentamente o texto: «Então os Onze Discípulos partiram para a Galileia, para o monte que lhes tinha ordenado Jesus. E vendo-o, adoraram-no (proskynéô); alguns deles, porém, duvidaram. E aproximando-se, Jesus falou-lhes (laléô), dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade (exousía) no céu e na terra. Indo (poreuthéntes), pois, fazei discípulos (mathêteúsate) de todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que Eu convosco Sou (egô meth’ hymôn eimi) todos os dias até ao fim do mundo”» (Mateus 28,16-20).

    3. Algumas notas surpreendentes enchem a página, o pátio, o átrio sempre entreaberto do Evangelho para o mundo: 1) a autoridade soberana e nova de Jesus [«Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra»], assente, não na distância, mas na proximidade e familiaridade; 2) a missão universal confiada a uma Igreja discipular, toda reunida à volta de um único Mestre e Senhor; 3) só nesta página é dito que os Discípulos devem, por sua vez, ensinar, não se tornando, todavia, Mestres, mas permanecendo Discípulos; 4) não ensinam, por isso, nada de próprio nem por conta própria, mas apenas «tudo o que Ele ordenou», como Jesus, o Filho, que só diz o que ouviu dizer (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e só faz o que viu fazer (João 5,19; 17,4), e como o Espírito Santo, que não falará de si mesmo, mas apenas o que tiver ouvido (João 16,13); 5) a Presença nova e permanente [= «todos os dias»] do Ressuscitado na comunidade discipular; 6) este é o tempo novo e cheio, pleno, plenificado, a transbordar de plenitude e universalidade, que abarca a totalidade, fazendo de Jesus «o Senhor sem limites»: daí a repetição por quatro vezes do adjetivo todo (pãs): foi-me dada toda a autoridade, fazei discípulos de todas as nações, ensinando-os a observar todas as coisas, convosco sou todos os dias.

    4. A soberania nova, próxima e familiar, é já preparada pela cena anterior em que o anjo reorienta os passos das mulheres do túmulo para a Galileia, dizendo-lhes: «Indo depressa, dizei aos seus discípulos (toîs mathêtaîs autoû) que Ele ressuscitou dos mortos e vos precede (proágei hymâs) na Galileia» (Mateus 28,7). De forma grandemente significativa, o próprio Jesus surpreende as mulheres no caminho, e reformula assim o dizer do anjo: «Ide e anunciai aos meus irmãos (toîs adelphoîs mou) que partam para a Galileia, e lá me verão» (Mateus 28,10). Aí está a nascer a nova e indestrutível familiaridade: meus irmãos, diz Jesus, o Ressuscitado, apontando para nós e envolvendo-nos num imenso abraço fraternal. E chegados à Galileia, de acordo com o dizer de Jesus, e ao monte indicado por Jesus (Mateus 28,16), é ainda Jesus que toma a dianteira e se aproxima deles e de nós (Mateus 28,18). É sempre d’Ele a iniciativa. O monte lembra e reúne em analepse todos os montes que atravessam o Evangelho de Mateus: o monte da tentação (Mateus 4,8), o das bem-aventuranças (Mateus 5,1), o da oração (Mateus 14,23), o das curas (Mateus 15,29-31) e o da Transfiguração (Mateus 17,1), em que é sempre Ele que abraça e abre caminhos novos à nossa frágil humanidade.

    5. Aquele «Indo, fazei discípulos de todas as nações» (Mateus 28,19) é a missão sem fim que é colocada diante dos nossos olhos, pois todas as nações são todos os corações. E «Indo» é não ficar aqui ou ali à espera. Implica mudança de lugar e de modo: não ficar aqui ou ali e não ficar assim, preparando já as palavras inteiras de S. João Paulo II na preparação do Grande Jubileu do ano 2000, e que Bento XVI evocou em 2005: «Paróquia, procura-te a ti mesma e encontra-te a ti mesma fora de ti mesma». É a estrada sem medida de Abraão que se abre à nossa frente. E se medida tem é a medida sem medida da eleição, da bênção e da missão. Mas não estamos sozinhos nessa estrada. Ele está connosco todos os dias. Aquele «Indo» (poreuthéntes), particípio aoristo, implica, pois, a nossa participação diária n’Ele e na missão d’Ele. O seu nome, a sua identidade, é estar connosco. É assim a terminar o Evangelho: «Eu convosco Sou todos os dias até ao fim dos tempos» (Mateus 28,20). Note-se a intensidade e a beleza da sanduíche: «Eu [convosco] Sou» (Egô [meth’ hymôn] eimi). É assim também a abrir o Evangelho: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-lo-ão (kalésousin) Emanuel, que se traduz: “connosco Deus”» (Mateus 1,23). Connosco a abrir. Connosco a fechar. Então é assim todo o Evangelho, como indica a figura da inclusão literária. Mas a inclusão literária em paralelismo ou em confronto vai ainda da Galileia para onde se dirige Jesus (Mateus 4,12-17) à Galileia para onde se dirigem os Discípulos (Mateus 28,16), da visão do Menino pelos Magos (Mateus 2,11) à visão do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), da adoração do Menino pelos Magos (Mateus 2,2 e 11) à adoração do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), do (algum) poder deste mundo prometido pelo diabo a Jesus (Mateus 4,9) ao (todo) o poder sobre o céu e a terra dado por Deus ao Ressuscitado (Mateus 28,18). Sim, o Senhor sempre no meio de nós, Deus sempre connosco. Não apenas com alguns. Mas com todos. Note-se como o narrador, que está a citar Isaías 7,14 a partir da versão grega dos LXX, atualizou para a 3.ª pessoa do plural a forma verbal: de «chamá-lo-ás» (kaléseis LXX), 2.ª pessoa do singular, para chamá-lo-ão (kalésousin). O texto hebraico de Isaías 7,14 tem «chamar-lhe-á» (weqaraʼt), 3.ª pessoa do singular feminino.

    6. E aquele «ensinando» (didáskontes) discipular, e não magistral, apela mais à nossa fidelidade do que à nossa autoridade, iniciativa e capacidade. De resto, para evitar dúvidas e deixar tudo claro, lá está bem expresso o conteúdo deste ensinamento novo: «tudo o que Eu vos ordenei» (Mateus 28,20). Este «tudo» exclui qualquer acrescento a nosso gosto. É só permanecendo Discípulos fiéis que se pode ensinar. Discípulo define o estilo de vida de quem segue com fidelidade o Senhor que nos preside e nos precede sempre (Mateus 28,7). Portanto, «Vós, não vos façais chamar por Rabbî [literalmente «meu maior»], pois um só é o vosso Mestre (didáskalos), e vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8). Irmãos e pequeninos. Tornemo-nos, pois, imitadores de Paulo, por sua vez imitador de Cristo (1 Coríntios 11,1): «Tornámo-nos crianças (nêpioi) no meio de vós, como uma mãe (trophós) que acalenta (thálpê) os próprios filhos (heautês tékna) (1 Tessalonicenses 2,7); «fiz-me escravo de todos», «fiz-me tudo para todos»; «tudo faço por causa do Evangelho» (1 Coríntios 9,19.22.23). Disse bem S. João Paulo II: «Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-l’O para si; tem de O anunciar» (Novo Millennio Ineunte [2001], n.º 40).

    7. É esta imensa, impenetrável notícia que os Discípulos de Jesus devem saber levar e semear de mansinho no subtilíssimo segredo de cada humano coração. Jesus Cristo, o Ressuscitado, vem visitar os seus Irmãos. Não. Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada.

    8. O Livro dos Atos dos Apóstolos 1,1-11 retoma esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê), e uma nuvem O subtraiu (hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Atos 1,9-11). Entenda-se ainda bem que o Livro dos Atos é dedicado a Teófilo (Theóphilos), «amigo de Deus», e, por isso, Teófilo permanece de pé, com os olhos fixos no céu. Aí está o retrato do leitor e testemunha destes acontecimentos, não dobrado sobre si, incurvatus in se, como refere Lutero, amigo de si mesmo (phílautos), conforme o retrato em negativo que encontramos em 2 Timóteo 3,2.

    9. Tanto VER. Da panóplia de verbos registados (blépô, atenízô, horáô, emblépô, theáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus. Mas mais ainda do que o que se vê, estes verbos acentuam o modo como se vê. É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Atos 1,11). Ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. É, pois, importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espetacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.

    10. Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ATO propriamente dito dos Atos dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Atos 3,1-10: «Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona [= 15h00]. E um certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os dias diante da Porta do Templo, dita a Bela, para pedir esmola àqueles que entravam no Templo. Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para receber. Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós” (blépson eis hemâs). Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma coisa. Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha. E, tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. Com um salto, pôs-se em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a Deus. E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. E reconheciam que era aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Atos 3,1-10).

    11. Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáô, atenízô, blépô, epéchô. Atenízô desenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépô retrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos. Significativo agrafo: estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Atos dos Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Atos 1,9-10). De resto, blépô conhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Atos dos Apóstolos: duas no relato da vocação de Paulo (Atos 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,41; cit. de Habacuc 1,5), e a quarta e última no decurso da viagem marítima de Paulo para Roma (Atos 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e veem-no semelhante a um anjo (Atos 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e JESUS, de pé, à direita de Deus (Atos 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do Senhor, que o interpela (Atos 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu, dos animais impuros (Atos 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre, para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Atos 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando testemunho de JESUS (Atos 23,1).

    12. É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Atos 3,6), que se fixa sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira. Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver, a Terra Prometida: «a terra que Eu te farei Ver» (Génesis 12,1), «que o Senhor lhe fez Ver» (Deuteronómio 34,1), «Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Deuteronómio 34,4). O narrador anota mais à frente que o coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Atos 4,22), tipologia do povo perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida. Como o homem doente havia 38 anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (João 5,1-9).

    13. É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que preenche por inteiro o primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos, com realce para Pedro. Mas é ainda grandemente sintomático que o primeiro ATO de Paulo, descrito em Atos 14,8-10, que é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie o primeiro ATO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os dois grandes Apóstolos e os dois tempos da missão. Eis o texto referido de Atos 14,8-10: «E em Listra um homem estava sentado, sem força nos pés, coxo desde o ventre da sua mãe, e que nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, o qual, tendo fixado os olhos (atenísas) nele, e tendo visto que tinha fé para ser salvo, diz com voz forte: “Levanta-te direito sobre os teus pés!” E ele deu um salto e caminhava» (Atos 14,8-10). Aqui temos o mesmo coxo de nascença, o mesmo Olhar significativo e diaconal, sem poder, sem ouro nem prata, Ver JESUS, o mesmo levantamento do coxo. E também aqui, na sequência do texto, temos o aceno à multidão que disperdia o olhar, vendo em Paulo e Barnabé deuses em forma humana, e a mesma correção, feita por Paulo, apontando JESUS (Atos 14,11-18).

    14. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Os olhos do coração iluminados, como diz o Apóstolo à comunidade mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!

    15. Ponhamos tudo isto em imagem, como convém neste Domingo em que a Igreja celebra o Dia das Comunicações Sociais, instituição que tem as suas raízes diretamente no Concílio II do Vaticano (Decreto Inter Mirifica, n.º 18), e que foi celebrado pela primeira vez, com mensagem de Paulo VI, em 7 de maio de 1967. Eis então diante de nós, no cume do Monte das Oliveiras, um pequeno Templo, arredondado, chamado Imbomon [= «sobre o cume»], grecização do hebraico bamah [= «lugar alto»], a 818 metros de altitude, um pouco acima da Ecclesia in Eleona [= «no Olival»], que remonta a Santa Helena, hoje Pater Noster, e a curta distância de Jerusalém, a distância do caminho de um sábado (Atos 1,12), que é de 1892 metros. As construções cristãs do Imbomon remontam ao longínquo ano de 376, com reconstrução dos Cruzados em 1152, ocupadas depois, em 1187, pelos muçulmanos. A construção dos Cruzados, que respeitava a primitiva construção, tinha no centro um tambor encimado por uma cúpula aberta no centro, justamente para servir de suporte à imagem da Ascensão patente em Atos 1,9-11. Em 1200, os muçulmanos fecharam esse ponto de luz com uma cúpula de estilo árabe, escondendo assim a visão de Atos 1,11: «Porque estais aí a olhar para o céu?».

    16. O texto de hoje da Carta aos Efésios 1,17-23 completa maravilhosamente as passagens da Escritura que já vimos. Depois do grande hino (vv. 3-14), em que se bendiz o Pai, mediante o Filho, no Espírito Santo a nós dado, cantamos agora, guiados sempre por São Paulo, o primado da Humanidade do Senhor, obra admirável do Pai, para proveito nosso. E começamos com a epiclese ao Pai para que nos dê o dom do Espírito, que é a Sabedoria divina, o «conhecimento profundo» (epígnôsis) das Realidades divinas (v. 17). Tudo provém do único e omnipotente Acontecimento divino: Jesus Cristo Ressuscitado e Sentado à direita nos Céus (vv. 19-20). É assim que, da sua Humanidade glorificada vem para nós, por graça, o Espírito Santo, a verdadeira plenitude (v. 23).

    17. O Salmo 47 é um Salmo da realeza de YHWH, que canta, com grande energia, a soberania de Deus sobre todos os povos (vv. 1-3.7-10), sem deixar também de particularizar Israel (vv. 4-5), «a mais bela entre todas as nações» (Ezequiel 20,6). Ajusta-se também perfeitamente, no mundo católico, à Festa da Ascensão de Cristo, sobretudo por causa do v. 6, em que lemos que «Deus se eleva por entre aclamações». Devido ao seu tom geral, Israel canta este Salmo sete vezes antes de soar o toque do shôfar para assinalar a entrada do Ano Novo.

    António Couto


  • Atravessar o mês de maio,

    de perfumes e flores

    e de cores

    é também encontrar Maria,

    causa da nossa alegria

    e dos nossos amores.

    Lembro-me de quando era criança,

    e íamos, ao cair da noite,

    em passo manso e ligeiro,

    rezar o terço à capela do Outeiro.

    Lembro-me da música dos grilos,

    que enchia a pradaria

    de terna e intensa melodia,

    e da mágica luz dos pirilampos,

    que, sem arder, ardia,

    e enchia de cor e fantasia

    os meus olhos, os quelhos e os campos.

    Como são belos os caminhos de maio,

    belos e pequeninos,

    cheios de peregrinos,

    minha Mãe de maio!

    Vela por nós, Senhora da Alegria,

    hoje, nesta hora, em cada dia,

    Ave-Maria!

    António Couto


  • Treze de maio de dois mil e vinte e seis,

    ano da Graça, da Misericórdia e da Alegria,

    hoje todos os caminhos vão dar a Fátima,

    à Cova da Iria,

    a Maria.

    Titubeantes ou firmes,

    à chuva e ao frio,

    vão os teus filhos,

    desfiando o rosário,

    como se fosse o abecedário

    das suas vidas doridas.

    Vão ter contigo, Mãe,

    alívio das suas dores,

    atiram-te flores

    com gestos de ternura.

    Sabem que acolhes com doçura

    as suas preces tecidas de lã pura,

    à mistura

    com uma lágrima de amor

    na despedida.

    Abençoa, Senhora e Mãe querida,

    estes teus filhos e filhas,

    e recolhe-os no manto

    branco

    das tuas maravilhas.

    Roga por nós, Senhora de Fátima.

    António Couto


  • 1. Vivemos numa sociedade de consumismo. Também de consumismo verbal, líquido e volátil, em que as palavras e as palmas levitam e voam. O Papa Francisco apareceu em Fátima, sóbrio e simples, debilitado, estreme, essencial. Um homem de fé, um homem de pé, diante de Maria, a Mãe, que Isabel já tinha definido como «aquela que acreditou». «Mãe» é também uma figura essencial, um termo essencial, que não precisa de ser explicado, para se perceber o seu peso específico e o seu significado, como sucede, de resto, com outros termos essenciais que atravessam o Evangelho, como «casa», «porta», «pão», «água», «luz», «pastor», «caminho», «vida», «videira».

    2. Em 12 de maio de 2007, no Santuário de Aparecida, no Brasil, Bento XVI recorreu ao termo, igualmente estreme e essencial, «casa», para desenhar a fisionomia bela da Igreja: «A Igreja é a nossa casa! Esta é a nossa casa!», insistiu. Em 13 de maio de 2017, no Santuário de Fátima, o Papa Francisco encheu a casa de ternura e de alegria com a figura da Mãe: «Temos Mãe! Temos Mãe!», repetiu. Homem de fé, homem de pé, em casa, diante da Mãe, simples, debilitado, estreme, essencial, sem excessos nem retóricas. «Acreditei, por isso falei» (2 Coríntios 4,13), é a razão de São Paulo ser como é. «Acreditei, por isso falei», é a razão de Francisco ser como é.

    3. Por tudo, demos graças a Deus, e peçamos à Sua e nossa Mãe que nos acolha como filhos, simplesmente como filhos, sem alaridos, na sua casa de graça iluminada!

    António Couto


  • 1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio II do Vaticano, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

    2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se Fé.

    3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico ʼemunah. ʼEmunah deriva do verbo ʼaman, cujo significado primeiro e material é «segurar», «firmar», mas, traduzido em termos interpessoais, significa «fiar-se», «confiar», «ser fiel». É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

    4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo ʼaman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal, pois pode derivar de ʼem, que significa mãe, e está em consonância com ʼomen, que significa mãe ou ama, e com ʼamûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado de qualquer mãe que o seja de verdade, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

    5. Significativamente foi a esta relação interpessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança, simplicidade e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

    6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternos e paternos, mais maternos que paternos: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

    7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternais.

    António Couto


  • O Filho e o Espírito Santo são,

    no dizer de Santo Ireneu de Lião,

    as duas mãos do Pai,

    enviadas em missão

    para junto dos seus filhos de adoção.

    À semelhança, claro,

    daquelas mãos de amor,

    que, no alvor da Criação,

    modelaram da terra pura o nosso coração,

    e de misericórdia o vestiram.

    Filhos no Filho, divina hyiothesía,

    hemorragia de graça e de alegria:

    Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

    e dá-nos em herança a sua divina filiação.

    E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

    divina comunhão, sem confusão,

    toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

    e faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

    a mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

    António Couto


  • Domingo VI da Páscoa

    Atos 8,5-8.14-17; Salmo 66; 1 Pedro 3,15-18; João 14,15-21 

    1. O texto que o Evangelho deste Domingo VI da Páscoa (João 14,15-21) nos oferece enquadra-se naquele monumental Testamento que, no IV Evangelho, Jesus pronuncia, em ondas sucessivas, após a Ceia com os seus Discípulos (João 13,12-17,26). Neste imenso texto, cujas linhas temáticas vêm e refluem e voltam a vir e a refluir, à maneira das ondas do mar que vêm sobre a praia, refluem e voltam, assistimos hoje ao primeiro dos cinco dizeres de Jesus, no IV Evangelho, relativos à Vinda do Espírito Santo, Paráclito (paráklêtos), isto é, Defensor [Advogado de defesa], Consolador e Intérprete. Este último significado deriva do aramaico paráklita, dos rabinos, que não tem o significado usual do grego (Defensor e Consolador), mas Intérprete, aquele que traduz Deus para nós e nós para Deus, fonte e ponte permanente de comunicação, compreensão e comunhão. O Espírito Paráclito é assim o grande construtor de pontes, comunhão e hifenização entre nós uns com os outros e com Deus. É, por isso, que Ele é o Amor, porque destrói todos os muros, preconceitos, ódios, divisões, incompreensões, asperezas, e faz nascer harmonia, amor, paz, comunhão, comunicação. Eis os cinco mencionados dizeres de Jesus, no IV Evangelho, sobre a Vinda do Espírito Santo, sempre dita no futuro: João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15.

    2. O texto de hoje põe Jesus a dizer que, a seu pedido, o Pai nos dará outro Paráclito (állon paráklêton) (João 14,16). Outro. Este outro é o Espírito Santo. Mas o facto de Jesus dizer «outro Paráclito» faz-nos entender que Ele é também Paráclito, portanto, que é também nosso Defensor, Consolador e Intérprete, como de resto surge afirmado com todas as letras na Primeira Carta de S. João 2,1: «Temos um Defensor (paráklêtos) junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo».

    3. O primeiro enviado do Pai é então o seu Filho, Jesus, que cumpre e revela o conteúdo da própria missão. O segundo enviado é o Espírito Paráclito. O Filho e o Espírito são, no dizer do grande bispo e teólogo Ireneu de Lião (130-202), as duas mãos do Pai amorosamente estendidas e enviadas em missão à humanidade. O Pai é, em relação aos dois, o enviante; o Filho e o Espírito são, em relação ao Pai, ambos enviados. Confrontando os textos, vemos que há semelhança da relação entre o Pai e o Paráclito com a relação entre o Pai e o Filho: ambas são expressas pelo mesmo verbo «enviar» (pémpô). Mas, juntamente com a semelhança, deparamos também com diferenças. A primeira diferença está no facto de, em relação ao Filho, o verbo enviar estar no passado, encontrando-se no futuro em relação ao Paráclito. O envio de Jesus pelo Pai já se realizou, bem patente nas expressões: «O Pai que me enviou» (João 5,23.37; 6,44; 8,16.18; 12,49; 14,24) e «Aquele que me enviou» (João 4,34; 5,24.30; 6,38.39.40; 7,16.28.33; 8,26.29; 9,4; 12,44-45; 13,20; 15,21; 16,5). De modo diferente, o envio do Paráclito é anunciado, mas deve ainda realizar-se no futuro, como se verifica na expressão: «O Pai enviá-lo-á no meu nome» (João 14,26), do mesmo modo, que a sua tarefa de «ensinar» e «recordar» aparece igualmente enunciada no futuro (João 14,26). A segunda diferença reside no facto de o envio de Jesus ser feito diretamente pelo Pai, sem intermediários, enquanto que o envio do Espírito Paráclito é feito pelo Pai mediante a intervenção de Jesus, traduzida pela expressão «no meu nome» (João 14,26). E em duas das demais passagens relativas ao envio do Paráclito, é mesmo referido que o próprio Jesus é o sujeito direto do verbo enviar: «Eu enviá-lo-ei de junto do Pai» (João 15,26); «Quando eu for, enviá-lo-ei para junto de vós» (João 16,7). Este envio do Paráclito por Jesus encontra-se também nos textos lucanos, em que é Jesus que derrama o Espírito recebido do Pai (Lc 24,49; At 2,33). E o que se passa com o verbo «enviar» em termos de passado e futuro, passa-se também com o verbo «dar» (dídômi): «Deus (ho theós)… deu (édôken) o seu Filho unigénito» (João 3,16), e «dará (dôsei) a vós outro Paráclito» (João 14,16).

    4. Sente-se, no monumental Testamento de Jesus, apresentado após a Ceia, em João 13,12-17,26, que a dor da separação física, provocada pela partida de Jesus, atravessa o coração dos discípulos de então. Se virmos bem, também no coração dos discípulos de hoje pode vir ao de cima a percepção de que Jesus está ausente, invisível, pouco perceptível e dificilmente acessível. É verdade que a separação física, anunciada por Jesus, provoca nos seus discípulos de então uma dor difícil de ultrapassar. Mas é igualmente verdade que esta dor da separação revela o grande amor que une os discípulos a Jesus. As lágrimas e o amor traduzem a estreita ligação entre os discípulos e Jesus. Ao contrário dos discípulos, o Evangelho apresenta o mundo (ho kósmos), que não conhece Jesus, e, por isso, não o ama nem chora nem se apercebe de qualquer separação (João 14,19).

    5. Mas Jesus diz-nos ainda que esta sua ida para o Pai, não só não redunda em prejuízo para nós, mas constitui até proveito e lucro, «pois se Ele não for, o Espírito não virá para nós» (João 16,7). E Jesus explica bem que também Ele nos ama e, por isso, não nos pode deixar abandonados e sós, como órfãos (orphanoí), mas virá outra vez para junto de nós (João 14,18), e ousa tratar-nos carinhosamente por filhinhos (teknía) (João 13,33). É verdade que agora Jesus se encaminha para a morte e morre de facto, mas não desaparece na morte. Vem e fica connosco na sua condição de Ressuscitado, para se fazer ver a nós e nos comunicar a sua própria vida nova e eterna (zôê), o Espírito Consolador, que vem para nós do seu Corpo Glorificado (João 7,39; Atos 2,33). Sim, com a sua morte, Ele desaparece aos olhos do mundo, que não o conhece, e que apenas sabe que Ele morreu numa Cruz. O mundo conhece apenas a morte, e nada sabe da vida verdadeira e eterna (zôê aiônios) (João 14,19). Eis toda a sabedoria do mundo, que só leva em conta o que se vê, como a natureza, onde tudo nasce, cresce, envelhece, perece, desaparece e esquece. Outra coisa é o Deus Pessoal, Criador e Redentor. É sabido que também aqueles discípulos não superarão por si sós a prova ou o teste da Paixão e Morte de Jesus. Por isso, quando viram que a morte era o destino de Jesus, todos o abandonaram e fugiram (Mateus 26,56; Marcos 14,50). Será Jesus, será sempre Jesus, Amor e Vida permanente e dissolvente, que reparará esta brecha, chamando de novo estes discípulos reprovados e desistentes (Mateus 28,7.10.16; Marcos 16,7). E eles, como nós, levando consigo toda a sua história anterior de amor e rutura, mas também de milagrosa cura, voltam para a Galileia, para um encontro novo com o Ressuscitado, de quem, agora sim, nunca mais se separarão.

    6. O cúmulo. Filipe, «o Evangelista» (ho euaggelistês) (Atos dos Apóstolos 21,8), leva a Palavra de Deus à Samaria, exatamente àquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben Sira 50,26), e houve por lá também grande alegria (Atos dos Apóstolos 8,5-8). Sim! Os pobres são evangelizados! Bendito seja Deus que nos surpreende sempre. Quando eu lá chego, às portas da cidade ou do coração do meu irmão, constato com espanto que Tu, Espírito de Amor, já lá estás há muito tempo, e já derrubaste portas e muralhas! Tu chegas sempre primeiro e já preparaste tudo! Escreveu o filósofo e poeta dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) num belo poema: «Falamos de Ti/ como se Tu nos tivesses amado primeiro uma só vez./ É, porém, dia após dia, a vida inteira,/ que Tu nos amas primeiro./ Quando acordo pela manhã e elevo para Ti a minha alma,/ Tu és o primeiro,/ Tu amas-me primeiro./ Se pela madrugada me levanto,/ e logo/ para Ti a minha alma e a minha oração elevo,/ Tu precedes-me,/ Tu já me amaste primeiro./ É sempre assim./ E nós, ingratos,/ Falamos como se Tu nos tivesses amado primeiro/ uma só vez…».

    7. E, portanto, aí está a lição que São Pedro (3,15-18) aprendeu e viveu e hoje nos comunica: «estai sempre sempre prontos [atentos, preparados] para dar convictamente a quem vos pedir a razão da esperança que há em vós» (hétoimoi aeì pròs apologían pantì tô aitoûnti hymãs lógon perì tês en hymîn elpídos) (cf. 1 Pedro 3,15). Como se vê no texto grego, não se trata de «razões»; trata-se da «razão», do lógos. A razão, o lógos, não é aqui um terreno intelectual ou um objeto do pensamento, um arrazoado, mas uma pessoa: Jesus Cristo. Em termos neotestamentários, é Ele a razão, o lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Então, Ele habita e enche o universo inteiro e a nossa vida também. «É n’Ele que vivemos, nos movemos e existimos», diz Paulo em Atenas (Atos dos Apóstolos 17,28). Nós com Ele, e Ele em nós, santuários vivos do Deus vivo. De forma intensa, como sempre, grita S. Paulo aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é Santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). Sem equívocos agora: estar prontos a dar a razão da esperança que há em nós é estar prontos a dar o lógos, isto é, Jesus, a razão de fundo da vida de Pedro e da nossa; a razão não são as razões, arrazoados; é a pessoa de Jesus. É Ele o lógos, o Verbo de Deus [kaì ho lógos sarx egéneto = «e o Verbo se fez carne»] (João 1,14). Estar prontos a dar a razão é estar prontos a dar a mão, isto é, o pão, compreensão, amor, esperança e confiança, sentido. Em suma, face a este mundo em desconstrução, semelhante ao navio de Hans Blummenberg, não podemos mais ficar na praia simplesmente a ver, mas temos de ser engenheiros de um mundo novo, verdadeiro, credível, transparente. E como este trabalho é urgente!

    8. Diz, de forma absolutamente maravilhosa, o velho comentário rabínico aos Salmos, dito Midrash Tehillîm, que, quando Israel estava no Sinai para fazer aliança com Deus, «o ventre das mulheres grávidas se tornou transparente como vidro, para que os embriões pudessem ver Deus e conversar com Ele». Oh admirável mundo novo!

    9. O Espírito Santo faz nascer em nós esta transparência luminosa e maravilhosa. Luz que alumia, e não engana, Amor, só Amor, nada mais que Amor. Vem, Espírito de Luz, construtor e Senhor das mais belas transparências e vivências. Precisamos tanto de Ti nesta calçada enlameada e escura e escorregadia em que andamos. Esquecemo-nos tantas vezes de que é em ti que «vivemos, nos movemos e existimos».

    10. Missão nossa será então cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (vv. 13-20).

    António Couto


  • 1. «A liberdade é o poder de fazer tudo aquilo que não prejudique os outros». É esta a formulação exemplar que encontramos na famosa «Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão» (Art.º 4), saída da Revolução Francesa (1789), depois muitas vezes traduzida e divulgada no aforismo: «A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro».

    2. É em nome deste princípio, que se diz habitualmente que a Europa é a terra natal dos direitos do homem. Porém, se não formos míopes, teremos de acrescentar logo que esse nascimento foi muito ambíguo e esses direitos muito restritivos, pois não afetam por igual todos os homens. Por exemplo, aquele «um homem (e todos aqueles que ele representa) que descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes que, depois de o roubarem e espancarem, se foram embora deixando-o meio morto», da conhecida parábola do bom samaritano (Lc 10,30-37), ficaria excluído desses direitos.

    3. De facto, roubado e em estado de coma, aquele homem não é sujeito de nenhum poder nem de nenhum fazer. Ora, a fórmula exemplar da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atrás referida, assenta, como vimos, no «poder fazer» aquilo que não prejudique os outros. Visto por este prisma, o homem da referida parábola fica duplamente excluído: primeiro, porque não é sujeito de nenhum poder e de nenhum fazer: nada «pode fazer», portanto; segundo, porque, ainda que porventura tivesse o «poder de pedir» auxílio – o que parece que nem é o caso –, é preciso ver que um tal gesto não teria, de facto, qualquer força de direito, pois se dirigiria a liberdades cuja essência consiste, como vimos, em «não prejudicar». Mas se o exercício da liberdade consiste em «não prejudicar», então basta abster-se de fazer o que quer que seja para se cumprir o articulado. É o que fazem, na parábola narrada, o sacerdote e o levita, que, tendo visto o homem em causa, passam simplesmente pelo outro lado da estrada, não se incomodando nem o incomodando.

    4. Ironia da história: a sociedade laica nasce imitando, inconscientemente com certeza, o comportamento das duas figuras clericais (o sacerdote e o levita) da parábola, bem agarradas à sua autonomia e soberania. Nasce assim como novo culto o culto do «eu» como «poder fazer», o culto do «eu» como senhor mais ou menos civilizado, engravatado, que não prejudica diretamente os outros por palavras ou por obras, dado que se limita a passar simplesmente ao lado deles. Daqueles que já perderam autonomia e soberania!

    5. É fácil de ver que este culto laico do «eu» é hoje uma religião com muitos praticantes, todos de bem com a sua consciência. A única obrigação que este culto impõe aos seus crentes é não fazer mal aos outros. É fácil de praticar: basta não se importar com eles. Mas hoje temos todos os dias à nossa porta e à beira das nossas estradas pessoas caídas, doentes, fragilizadas, abandonadas. Será que podemos passar por elas com a consciência tranquila, cientes de que passamos por elas sem as prejudicar?

    6. Talvez tenhamos outra vez de voltar à escola. Desde que ainda haja quem ensine (o que não é um dado adquirido), e nós estejamos dispostos a aprender pelo menos a soletrar humanidade e cidadania (o que também não é de todo seguro). E já agora, porque pode já não haver quem saiba ensinar, deixo aqui escrito que é urgente substituir o velho aforismo burguês e anestesiante, segundo o qual «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro», pelo implicativo e sempre inquietante «a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro».

    7. Em vez de continuares a passar tranquilamente e de boa consciência ao lado do outro, experimenta aproximar-te dele. Deixa-te incomodar por ele.

    António Couto


  • 1. As páginas de maio passam entre nós suavemente, por entre cânticos e flores, e alguns dissabores. Mas ser cristão, em Mossul, é não ter nada na mão e uma dor sem fim no coração.

    2. Há quarenta anos que uma família cristã vive lado a lado com uma família muçulmana. Dão-se bem. Sempre se deram bem. Mas agora, diz o muçulmano para o cristão: «Tens 24 horas para te pores a andar daqui para fora; se te volto a ver, mato-te, pois tenho direito a ficar com a tua casa, e com tudo o que é teu».

    3. No dia seguinte, este cristão preparou-se para partir com a sua família, mas, antes de o fazer, ainda bateu à porta do seu amigo muçulmano.

    4. «Ainda estás aqui? Não te disse que te matava se te voltasse a ver?», gritou o muçulmano. «Sim, amigo, bem sei, mas somos vizinhos há quarenta anos. Como podia partir sem me despedir?», disse o cristão.

    5. Ao ouvir isto, o muçulmano comoveu-se, abraçou o cristão, e disse-lhe: «Bem o sinto, não te vás embora, proteger-te-ei; não te vai acontecer nada de mal, nem a ti nem à tua família».

    6. «Tarde demais», respondeu o cristão; rompeu-se a confiança; já não há lugar em Mossul para os cristãos; vamos embora».

    7. Dói saber que, pela primeira vez desde o século III, não há um único cristão em Mossul.

    8. Nossa Senhora de maio, da paz e da confiança, vela por estes teus filhos, que fogem da tempestade, à procura da bonança.

    António Couto


  • Como criança sossegada no colo da sua mãe,

    assim

    está em mim

    a minha alma,

    sossegada e calma,

    como criança no colo da sua mãe.

    É desse lugar sereno e seguro,

    desse lugar suave e puro,

    que olho o mundo todo ao redor:

    o céu azul claro acabado de lavrar

    e o chão a ressoar um rumor de rosas brancas

    e um aroma de futuro,

    um mar de mariposas

    e um ror de boieiras a chegar,

    a aprender a amar,

    e a brindar com um grão de trigo maduro.

    Apuro o olhar.

    Daqui,

    deste lugar,

    não vejo ódios

    nem raivas

    nem guerras

    nem desdém.

    Vejo apenas um lugar

    chamado mãe.

    António Couto


  • «O lugar para onde Eu vou,

    vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.

    «Nós não sabemos para onde vais,

    como podemos saber o caminho para lá?»,

    retorquiu Tomé.

    Tomé é como nós:

    não sabe trabalhar sem metas e objetivos.

    E é em função das metas e objetivos,

    que escolhe caminhos e metodologia.

    Deus disse a Abraão: «Vai do teu país

    para o país que Eu te farei ver».

    E o narrador diz-nos que «Abraão foi».

    Para onde? Para qual país?

    Não interessa.

    Interessa é saber que uma mão segura nos guia,

    e que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

    É assim que faz Jesus também.

    Não nos indica no mapa o lugar do destino,

    mas mostra-nos o caminho para chegar lá.

    Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

    É assim a procissão e a peregrinação.

    Ele vai connosco e à nossa frente.

    Ele é o caminho,

    a mão segura,

    a água pura,

    o pão de trigo.

    Ensina-nos, Senhor,

    a caminhar contigo.

    António Couto


  • Mãe de maio

    Senhora da alegria

    Mãe igual ao dia

    Maria

    Canto para ti

    Ao correr da pena

    A tinta é de açucena

    A minha mão pequena

    Pega em mim ao colo

    Minha mãe de maio

    Olha que desmaio

    E caio

    Pega em mim ao colo

    O meu rosto afaga

    Depois apaga a luz

    Sou eu ou jesus?

    António Couto


  • Domingo V da Páscoa

    Atos 6,1-7; Salmo 34; 1 Pedro 2,4-9; João 14,1-12

    1. Os nomes JESUS e PAI juntam-se para entretecer uma rede finíssima que atravessa e extravasa o corpo do inteiro IV Evangelho, onde se ouvem respetivamente por 237 vezes e 124 vezes. Só no Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 14,1-12), pode contar-se o nome PAI (ho patêr) por doze vezes, onze das quais na boca de JESUS! Entenda-se: a vida de JESUS está completamente nas mãos do PAI, dele provém e para ele se orienta totalmente, de modo a JESUS poder dizer com verdade: «EU (egô) e (kaí) o PAI (ho patêr) somos um (hén esmen)» (João 10,30). A locução é audaz, mas clara e de extrema precisão. Não serve para indicar uma só pessoa (hypóstasis): são claramente duas, uma indicada pelo pronome EU (egô), e outra pelo nome masculino PAI (patêr). Duas pessoas distintas, não confusas, e que tão-pouco estão divididas e separadas. Indica esta não-divisão e não-separação a partícula copulativa «e» (kaì), a forma verbal plural «somos» (esmen) e o numeral neutro «um» (hén). O numeral neutro «um» (hén) indica uma realidade, e não uma pessoa, o que pediria a forma masculina do numeral «um» (heîs). Portanto, entre o PAI e o FILHO Monogénito há uma subsistência comum (ousía), indivisa, inseparável e, todavia, distinta e não confusa, relação vital interpessoal contínua. É desta «unidade» e «unicidade» de essência e subsistência concreta entre o PAI e o FILHO que decorre, no nosso texto, aquele límpido dizer de Jesus, dirigido a Filipe: «Quem ME vê, vê o PAI» (João 14,9). Esta plena comunhão de vida entre JESUS e o PAI fica bem expressa nas repetidas fórmulas de «imanência recíproca» ou de «unidade» do PAI e do FILHO, que soam: «Eu estou no PAI e o PAI está em MIM» (João 14,10.11).

    2. Estabelecida esta perfeita unidade entre o PAI e JESUS, pode JESUS reclamar dos seus discípulos que acreditem nele (João 14,1b.11.12) como acreditam em Deus (ho theós) (João 14,1a), isto é, no PAI. Theós com artigo (ho theós), no NT, é reservado ao PAI. «Acreditar» conserva aqui a aceção fundamental que já vem do AT, e que significa «apoiar-se firmemente em alguém» (Isaías 7,9; 28,16) que nos possa salvar. E é claro que a salvação de que aqui falamos consiste na nossa união com Deus, em apoiar-nos em Deus, único arrimo seguro de salvação. O problema consiste agora no nosso acesso a Deus em quem reside a salvação (cf. Isaías 12,2).

    3. E JESUS explica aos seus discípulos, nesta hora de despedida, que só há um acesso disponível: Ele próprio, dado que ELE está no PAI, e o PAI está nele. E usando agora a fórmula de apresentação ou de revelação, afirma: «Eu sou (egô eimi) o caminho e a verdade e a vida», a que acrescenta: «Ninguém vem ao PAI senão por MIM» (João 14,6). Claro que Jesus não é um caminho de terra batida ou uma estrada de alcatrão. É um caminho pessoal, uma maneira de viver, com entranhas, pés, mãos e coração. É preciso, portanto, atravessar esta maneira de viver, viver esta maneira de viver, para chegar ao PAI. Jesus também não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa (adequatio rei et intellectus). Não é uma coisa. A verdade bíblica [hebraico ʼemet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (cf. João 18,38), mas à pergunta inédita e surpreendente: «QUEM é a VERDADE?» De facto, ʼemet deriva de ʼem [= mãe] e de ʼaman [= firmar, confiar], e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se vive. É aquela verdade que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar, que em caso algum a vai deixar cair ao chão, como bem refere a filósofa, de origem judaica, Edith Stein, depois Santa Teresa Benedita da Cruz. A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE, realidade bem patente na etimologia, dado que ʼemet [= verdade] deriva de ʼem [= mãe]. Não engana, portanto. É assim que JESUS, o FILHO, é também a VIDA (zôê) toda recebida (do PAI), vida divina, vida filial do FILHO de Deus, vida toda a nós dada. A Vida que Jesus é e que Jesus nos dá, o maior dom que Ele nos dá, não é a nossa vida terrena, o segmento de tempo que nos é dado viver, e que se diz bíos ou psychê. É zôê, que é a vida eterna, a vida divina, a vida que há em Deus.

    4. Diz Jesus para os seus discípulos: «Para onde (ópou) EU vou, vós conheceis o caminho» (João 14,4), mas muda logo o lugar pela pessoa: «EU vou para o PAI» (João 14,12). Pelo meio, cruza-se a incompreensão ou incompetência expressa de dois dos seus discípulos: Tomé e Filipe, que o mesmo é dizer, a nossa incompreensão e incompetência. Tomé, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»], não sabe para onde vai JESUS; logo, não sabe o caminho para lá (João 14,5), e Filipe recebe de Jesus uma repreensão que também nos atinge a nós, pois é proferida no plural, e soa assim: «Há tanto tempo que estou convosco, e não ME conheces, Filipe?» (João 14,9).

    5. Tomé é bem Gémeo nosso, nosso irmão gémeo, muito parecido connosco, nesta passagem e em muitas outras. E Filipe, que significa «amigo dos cavalos», único nome verdadeiramente grego entre os Apóstolos de Jesus, também se manifesta muito semelhante a nós aqui e em outros lugares, como, por exemplo, João 6,5-7, onde é literalmente posto à prova por Jesus, e chumba claramente no teste. Na verdade, Jesus pergunta-lhe, para o pôr à prova: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). E Filipe põe-se a contar o dinheiro, dizendo onde põe a sua confiança, e responde que não há nada a fazer, porque não há dinheiro que baste (João 6,7). Filipe, talvez como nós, ainda não sabia que o onde (póthen) a que Jesus se refere não é o shopping, mas é o PAI. Ainda não sabia a Escritura, e não conhecia Isaías 55,1-2, em que Deus nos convida a comprar a Ele pão, sem gastar qualquer dinheiro: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).

    6. Filipe anda, de facto, bastante distraído, e tem dificuldade em sintonizar a onda de compreensão de Jesus, isto é, o PAI. À pergunta formulada por Jesus em João 6,5, Filipe responde literalmente: «Duzentos denários de pães não bastam (ouk arkoûsin) para que cada um receba uma migalhinha» (João 6,7). E no nosso texto de hoje, logo depois de Jesus ter afirmado: «Se ME tivésseis conhecido, também conheceríeis o meu PAI, e desde agora já O conheceis e já O vistes» (João 14,7), Filipe ainda ousa retorquir: «Senhor, mostra-nos o PAI, e basta (kaì arkeî) para nós» (João 14,8). Não deixa de ser sintomático que este verbo bastar (arkéô) só apareça duas vezes no NT, e as duas vezes apareça nos lábios de Filipe (João 6,7; 14,8). E é ainda mais sintomático que, após ter vivido o grande sinal dos pães e dos peixes realizado por Jesus, ainda não lhe baste agora a revelação de Jesus, mas pareça requerer uma revelação espetacular à maneira das manifestações de Deus no AT.

    7. É assim também, maternalmente, que se entende a jovem e bela comunidade cristã nascente, atenta, outra vez como uma mãe, aos seus filhos que necessitam de assistência (Atos dos Apóstolos 6,1-7). Como é belo ver crescer, e cresce mesmo, uma comunidade de rosto maternal, de braços sempre abertos para acolher e abraçar, de mãos sempre abertas para receber, dar e acariciar. Tudo tão ao jeito e ao estilo de Jesus. Total dedicação à oração e ao serviço (diakonía) da Palavra de Deus (6,4). Total dedicação ao serviço (diakonía) da caridade. Atenção, porém: Filipe não aparece com o título de diácono (diákonos). O seu trabalho é evangelizar (Atos 8,26-40), e, se algum título lhe é atribuído, é o de «o evangelista» (ho euaggelistês), como se pode ver em Atos 21,8.

    8. É claro, diz S. Pedro (1 Pedro 2,4-9), que Jesus é a pedra viva, base de um novo tipo de edifício, que nenhum arquiteto sabe desenhar ou projetar. É, na verdade, um edifício espiritual, feito de pedras vivas (!). E nós somos essas pedras vivas, esse Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos, pés e coração.

    9. Enfim, o Salmo 34, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração com a música do amor misericordioso que nos vem de Deus. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

    10. Passa hoje também, neste Domingo V da Páscoa, o Dia da Mãe, que nos ajuda, com certeza, a entender melhor o Deus de Jesus e o Jesus de Deus da liturgia de hoje. Sobre esta terra exangue, fustigada pelos mísseis, pelos drones, e pela insensatez, uma Mãe verdadeira ainda é o ícone mais belo do amor imenso e sem pauta nem medida, que não é meu, nem é teu, nem é nosso, que é de Deus, que atravessa os textos da liturgia de hoje, e se vê a palpitar em tantas páginas indescritíveis destes tempos ácidos e nebulosos. Nós sabemos isso. Mas uma Mãe sabe isso melhor. É por isso que é fácil, neste Dia da Mãe, ver cair pelo rosto de cada Mãe uma lágrima de tristeza ou de alegria! Melhor assim, Mulher e Mãe: sentirás a mão carinhosa de Deus a afagar o teu rosto e a enxugar essa lágrima, de acordo com a lição do Livro do Apocalipse 21,4.

    António Couto


  • 1. A maioria dos nossos contemporâneos pensa tranquilamente que a questão de saber se há um Deus ou não, se o mundo é o único ser ou não, é uma questão que pertence à fé, que o mesmo é dizer, sempre segundo os nossos tranquilos contemporâneos, que pertence à ordem arbitrária da afetividade e do sentimento, mas não à ordem da razão e do conhecimento. É o chamado fideísmo, segundo o qual a fé não é um assentimento da razão, mas apenas do sentimento.

    2. Nesta ordem de ideias, continuam a pensar tranquilamente os nossos contemporâneos, que a Bíblia, o judaísmo e o cristianismo não têm conteúdos que seja necessário estudar. São apenas da ordem do sentimento. E, nesse sentido, sempre segundo os nossos tranquilos contemporâneos, essas «coisas da fé», que são da ordem do sentimento, ou se têm ou não se têm, sentem-se ou não se sentem. Ponto final.

    3. E, todavia, quando os nossos ilustrados contemporâneos repetem tranquilamente que o universo físico é o único ser, não é seguramente pela razão e pelo conhecimento que o fazem. É bom que se saiba que é uma afirmação puramente gratuita, arbitrária e sentimental. Da ordem da razão é o passo que se segue: se o universo físico é o único ser, então tem de ser eterno, já que é impossível que a totalidade do ser tenha saído do nada, em virtude do princípio, que permanece firme desde Parménides (510-445 a.C.), de que «do nada, nada vem». Se o universo físico é o único ser, é então da ordem da razão que seja eterno. Mas é também da ordem da razão que seja sem evolução nem entropia. Vale aqui a pergunta que deixou Empédocles (495-430 a.C.), no seu fragmento 17: «de quem receberia o crescimento, se é o único ser?» E Melisso de Samos (470-442 a.C.) explicita bem que, se o universo é o único ser, então tem de ser «eterno, infinito, uno e absolutamente idêntico. Não pode perecer nem crescer; não pode ter sofrimento nem penas. Porque se tal acontecesse, já não seria uno, uma vez que se veria alterado e não seria idêntico a si mesmo, já que o sofrimento, por exemplo, que antes não existia no seu seio, teria chegado a existir… Por isso, se algo mudasse, mesmo que fosse um só cabelo ao longo de dez mil anos, pereceria completamente através do tempo». De facto, depois de se ter afirmado completamente a priori que o universo é o único ser, e depois de se ter admitido, como deriva necessária nesse contexto, a eternidade do universo, se se admite agora que ele se consome, então é óbvio que já se deveria ter consumido há uma eternidade.

    4. Afirmar que o universo físico é o único ser é uma afirmação completamente arbitrária. Que seja eterno e imutável é mesmo refutável pela ciência moderna e pelo bom senso do olhar da minha avó. Apenas se mantém o princípio de que «do nada, nada vem». Afinal, é o ateísmo que é fideísta. A Bíblia, o judaísmo e o cristianismo contêm um pensamento bem mais exigente e fundamentado: o ser não é único nem unívoco; é análogo, isto é, há duas classes de ser: o ser criado, finito e relativo, e o ser incriado, eterno e absoluto; o universo físico não é o único ser nem o ser absoluto, eterno e imutável; o ser absoluto, eterno e imutável, é o Deus criador, e o universo físico foi criado e mantém-se em estado de criação pelo Deus criador. A vida e o pensamento não vêm do nada, isto é, da não-vida e do não-pensamento. Vêm do Deus criador, Vida e Pensamento ele mesmo. O nascimento e a morte não são meras aparências ou ilusões no seio do único ser imutável. São verdadeiros acontecimentos que remetem para o Deus criador.

    5. O nascimento como Dom entra-nos em casa a toda a hora. A morte como Dom também nos visita a toda a hora. Os defuntos não são simplesmente aqueles que já morreram, isto é, aqueles que já não veem nem ouvem nem têm memória, como pensamos nós, pagãos modernos, muitas vezes, na esteira do que pensavam os gregos, que remetiam os mortos para o Hades [= lugar onde não se vê], mas aqueles que, sem perder a sua identidade pessoal e as marcas da sua história pessoal concreta, foram assumidos, por graça, a viver a Vida grande do Deus criador.

    António Couto


  • Viver a fé é nunca se deixar abaular,

    ter sempre pé em terra firme,

    nunca perder o céu de vista,

    ter sempre Deus na nossa lista

    de amigos,

    e abrir essa lista também aos inimigos.

    Acreditar é amar até ao fim do mundo,

    sem pé e sem fundo,

    ter sempre Cristo à mão

    do coração,

    e uma multidão de irmãos

    a bater à nossa porta.

    A entrada é pela aorta,

    e vêm sentar-se à volta da fogueira

    da Ressurreição.

    É Cristo o anfitrião,

    o irmão, o pão e a lição.

    Está aberta a inscrição.

    António Couto


  • Senhor Jesus Cristo,

    único Senhor da minha vida,

    bom Pastor dos meus passos inseguros

    e do silêncio inquieto do meu coração,

    cheio de sonhos, anseios, dúvidas, inquietações.

    Senhor Jesus,

    faz ressoar em mim a tua voz de paz e de ternura.

    Eu sei que pronuncias o meu nome com doçura,

    e me envias ao encontro daquele meu irmão que Te procura.

    Fico contigo sentado junto ao poço.

    Alumia o meu pobre coração.

    Vejo que, de toda a parte,

    chega gente de cântaro na mão.

    Dispõe de mim, Senhor,

    nesta hora de Nova Evangelização.

    Que eu saiba, Senhor,

    interpretar bem a tua melodia.

    Que eu saiba, Senhor,

    dizer sempre SIM como Maria.

    António Couto


  • Domingo IV da Páscoa

    Atos 2,14a.36-41; Salmo 23; 1 Pedro 2,20b-25; João 10,1-10

    1. Domingo IV da Páscoa. Domingo do Bom, Belo, Perfeito e Verdadeiro Pastor. É este o significado largo do adjetivo grego kalós e do hebraico thôb, que qualifica o nome «Pastor». É o mesmo adjetivo, hebraico e grego, que qualifica o sentido que Deus dá repetidamente, por sete vezes, à sua Criação (Génesis 1,1-31). De notar que o Domingo IV da Páscoa, Domingo do Bom Pastor, é sempre também Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E da mesa da Escritura deste Domingo transbordam tonalidades e sabores intensos, harmoniosos e deliciosos. Música encantatória. Água pura. Óleo perfumado. Verde pradaria em festa. Proximidade. Ternura. Confiança. Beleza em flor e fruto. Vida a transbordar. Tudo da ordem do sublime.

    2. O Evangelho que marca o ritmo deste Dia Grande é João 10,1-10, que não deve ser visto apenas como um texto isolado, embora tenha sentido em si mesmo, mas sai enriquecido quando inserido no duplo enquadramento que lhe serve de contexto. Por um lado, situa-se no seguimento imediato de João 9,1-43, que analisámos no Domingo IV da Quaresma, e que trata da cura física e espiritual por Jesus de um cego de nascença. Por outro lado, devemos ter presente que o texto de João 10 tem o seu lugar no decurso da Festa judaica anual da Dedicação do Templo, como resulta da anotação de João 10,22.

    3. Comecemos por olhar para o texto de João 10 no seguimento imediato de João 9, que trata da cura física e espiritual do cego de nascença. Esta cura, operada em dia de sábado, dá lugar a um confronto com os fariseus, que tudo fazem para desacreditar Jesus. O resultado é que, enquanto o cego vê cada vez melhor, os fariseus se vão tornando cada vez mais cegos. É com eles que Jesus fala no final, pondo à vista a sua acentuada cegueira (João 9,39-41). E é com eles que Jesus continua a falar em João 10, e é para eles que Jesus conta a parábola do rebanho e das ovelhas, que traz para a cena a figura do pastor em contraponto com a figura do ladrão ou salteador ou mercenário. Neste contexto, diz-lhes Jesus que as ovelhas ouvem e conhecem a voz do pastor, e seguem-no, mas não conhecem a voz do ladrão, e fogem dele. Está bom de ver que foi assim que fez o cego de João 9, que foi seguindo cada vez mais de perto Jesus, ao mesmo tempo que se foi afastando cada vez mais dos fariseus. A colocação de João 10, não à parte, mas no seguimento imediato de João 9 resulta, como se vê, grandemente esclarecedora, tornando-se mesmo obrigatório fazer esta ligação.

    4. A figura do Pastor Bom enche muitas das páginas do Antigo Testamento, e traduz habitualmente a atitude cuidadosa e carinhosa de Deus, que é o Pastor Bom, para com as suas ovelhas, metáfora do seu Povo, quase sempre em confronto com os maus pastores, que esbulham e tratam em proveito próprio as ovelhas. Basta ver os textos de Ezequiel 34,1-23; Jeremias 23,1-4; Isaías 40,11; Salmo 23. Na página de João 10,1-10, ao dizer «Eu sou», Jesus assume a identidade e a atitude do Pastor Bom, que é Deus, e deixa aos fariseus o desempenho do papel de pastores maus ou ladrões ou mercenários. Ao dizer «Eu sou», Jesus está, em simultâneo, a dizer «vós sois» ou «vós não sois». Está a dizer «vós sois» para as suas ovelhas: está, portanto, a estabelecer uma relação pessoal, direta, de proximidade, confiança e intimidade com as suas ovelhas, relação bem expressa, de resto, pelos verbos «chamar pelo nome», «conhecer», «ouvir a voz», «conduzir», «caminhar à frente de», «seguir», «dar a vida». Mas está também a dizer «vós não sois» para os fariseus, colocados a conjugar os verbos «roubar», «matar», «destruir». Como esta página antiga e sempre nova de João 10,1-10 lê e desvenda «aqueles tempos» e os tempos de hoje!

    5. Mas o texto grandioso de João 10,1-10 passa também mensagens intemporais que, em cada tempo e lugar, devem interpelar a comunidade cristã. Assim, quando Jesus diz: «Eu sou a porta» (João 10,7.9), não está a usar uma linguagem da ordem da arquitetura e da carpintaria. É de uma porta pessoal que se trata. E esta porta pessoal tem um nome e um rosto: Jesus de Nazaré, Jesus de Deus. E esta porta serve para «entrar e sair». «Entrar e sair» é um merisma [= figura literária que diz o todo acostando duas extremidades] que traduz a nossa vida toda, que se passa, toda ela, a entrar e sair. É a nossa vida toda sempre em referência a Jesus Cristo. Entende-se, não com a atual criação industrial de gado, em que os animais estão quase sempre em clausura e o pasto lhes é fornecido em manjedouras apropriadas e a horas certas, visando sempre uma maior produtividade, mas com os «apriscos» [= mais abrir do que fechar, como indica o étimo latino aprire] antigos, em que os animais se recolhiam apenas para se protegerem do frio da noite e dos assaltos das feras ou dos ladrões, e procuravam fora o seu alimento durante o dia todo, sempre conduzidos e sob a atenção vigilante do pastor.

    6. Note-se ainda que os Evangelhos falam sempre de rebanho e de ovelhas, e não de ovelhas separadas. Quando falam de uma ovelha sozinha, é para descrever a situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida ou tresmalhada, que se perdeu do rebanho ou da comunidade, e deixou de seguir o pastor e de ouvir a sua voz. Note-se ainda que as ovelhas «entram pela porta», mas não é para ficarem descansadas e recolhidas, fechadas sobre si mesmas, hoje diríamos «confinadas». É para sair, pois é fora que encontrarão pastagem. Lição para a comunidade dos discípulos de Jesus de hoje e de sempre: o trabalho belo que nos alimenta e nos mantém saudáveis espera-nos lá fora! Que Deus nos dê então sempre um grande apetite! A messe ondulante está à espera de ceifeiros que saibam cantar (Salmo 126,5-6), porque também sabem que é Deus o Senhor da messe.

    7. Situemo-nos agora no âmbito da festa anual da Dedicação do Templo (cf. João 10,22), habitat da parábola do Bom Pastor, apresentada por Jesus (João 10,1-10). O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Este acontecimento remonta ao ano 167 a.C. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, três anos depois, no ano 164 a.C., Judas Macabeu conseguiu afastar os selêucidas, e procedeu à Purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. É este importante acontecimento que deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir do dia 25 do mês de Kisleu, que, no ano civil de 2026, no nosso calendário, terá lugar de 05 a 12 de dezembro.

    8. A Festa da Dedicação, em hebraico hanukkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmude que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder permanentemente no Templo, diante do Deus Vivo, isto é, diante do Santo dos Santos. Todavia, cálculos feitos, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula, que daria apenas para um dia, durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiyyah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente, uma luz por dia, até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respetivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial, cultural e todos os ambientes e situações. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente, uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro cultural), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz. Mais Luz. Mais Luz. Mais Luz. Mais Dedicação. Mais Dedicação. Mais Dedicação!

    9. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece desconstruir-se e reduzir-se a fragmentos soltos e à deriva, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E é ainda necessário que esta Luz saia para fora: uma «igreja em saída», como gostava de dizer o Papa Francisco! E está em maravilhosa sintonia com a Luz Grande que deve alumiar este Domingo do Bom Pastor, que é Jesus, verdadeira Luz do mundo, Dom do Amor de Deus ao nosso coração. Atear esta Luz de Jesus no nosso coração é também o segredo maior deste 63.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

    10. A cristalina melodia do Salmo 23, que hoje cantamos, entranha-se suavemente em nós, fazendo-nos experimentar os mil sabores da paz, do pão e da alegria que em cada dia recebemos do Pastor belo e bom que amorosamente nos guia. Ele é o companheiro para quem as horas do seu rebanho são também as suas, corre os mesmos riscos, experimenta a mesma fome e a mesma sede, o sol que cai sobre o rebanho cai também sobre ele. Deixemo-nos, portanto, conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelas suas pradarias muito verdes, cheias de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu azul claro a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Como é importante recitar e saborear esta alegria e mansidão pessoal que nos traz o Pastor belo e bom que nos chama e nos inebria. Confessou o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), prémio Nobel de literatura (1927): «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

    11. E, em sintonia com tudo o que vem de trás, aí está outra vez Pedro a exortar-nos na manhã de Pentecostes: «Salvai-vos desta geração perversa» (Atos 2,40). «Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora regressastes para o pastor e supervisor (epískopos) das vossas almas» (1 Pedro 2,25). «Segui, pois, os seus passos» (1 Pedro 2,21).

    12. Concede-nos, Senhor, Belo e Bom Pastor, que nunca nos tresmalhemos do teu imenso amor, e que saibamos sempre levar o tom e o sabor da tua voz, que chama e ama cada irmão perdido em casa ou numa estrada de lama.

    António Couto


  • Todos os dias

    Te encontramos

    no caminho.

    Mas muitos reconhecer-Te-ão

    apenas

    quando

    repartires connosco

    o Teu pão.

    Quem sabe?

    Talvez

    no último entardecer.

    Poema escrito em diversas línguas nas paredes interiores da basílica de Emaús


  • Tristes, desanimados, pesarosos,

    trilhamos um caminho apenas de regresso,

    de insucesso,

    confinamento,

    esvaziamento,

    em que não se vê nenhum acesso,

    nenhum ingresso.

    Nenhuma luz

    se vê lá para os lados de Emaús

    Vem Jesus

    e começa a caminhar connosco,

    vai connosco.

    não se apresenta,

    mas faz perguntas,

    corrige as respostas,

    abre as Escrituras,

    cura as fraturas,

    põe-nos a arder o coração,

    reparte o pão,

    parece que desaparece,

    mas fica afinal mais presente do que nunca,

    e vê-se que transparece

    na nossa vida,

    antes caída,

    agora erguida,

    desconfinada,

    como uma estrada iluminada

    pela intensa Luz

    que brota daquela Cruz florida.

    E pode recomeçar tudo aqui,

    pode recomeçar tudo aí,

    em Emaús,

    em casa e à mesa,

    ou mesmo na estrada,

    com Jesus.

    António Couto


  • Domingo III da Páscoa

    Atos 2,14.22-33; Salmo 16; 1 Pedro 1,17-21; Lucas 24,13-35

    1. O Evangelho deste III Domingo da Páscoa convida-nos a fazer aquela que pode ser considerada a mais bela viagem de doze quilómetros de toda a Escritura. Doze quilómetros vezes dois, dado que será uma viagem de ida e volta. A viagem que nos leva de Jerusalém a Emaús, atual aldeia palestiniana de nome El-Kubèibeh, que guarda a memória deste maravilhoso episódio de Lucas 24,13-35. Segue-se, todavia, a viagem de regresso a Jerusalém.

    2. Aperceber-nos-emos, porém, rapidamente que se trata menos de uma viagem transitiva sobre o mapa, e mais, muito mais, de uma viagem intransitiva nas estradas poeirentas do nosso embotado coração. É assim que «dois deles» (dýo ex autôn) – e está aqui assinalada uma ruptura destes dois com a comunidade reunida em Jerusalém – saem da comunidade, passam a ser ex-membros da comunidade. O texto retrata-os bem: estão em dissensão com a comunidade, pelo caminho conversam familiarmente (homiléô) sobre as coisas acontecidas em Jerusalém (Lucas 24,14 e 15), mas também debatem (syzêtéô) (Lucas 24,15), e entram mesmo em dissensão um com o outro, opondo argumentos (antibállô) (Lucas 24,17). Esperaram até ao limite da esperança (três dias), mas deixaram-se vencer pela desilusão. Distanciam-se, pois, da esperança e de Jerusalém, mas não se conseguem distanciar do passado vivido com Jesus, que os encheu de tanta esperança, até que tudo se derreteu naquela cruz.

    3. Desistiram então da esperança, e vão-se embora desiludidos, desencantados, desconcertados, dissentidos. Estando assim as coisas, narra o texto que um terceiro viandante, que é Jesus – informa-nos o narrador –, se aproximou deles e caminhava com eles (syneporeúeto autoîs), mas os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto) de o reconhecer (Lucas 24,15-16). Neste ponto preciso, impõem-se duas pequenas observações. Primeira: Jesus é sempre aquele que caminha com, faz conjunção, onde nós, e quando nós, estamos em disjunção. E não caminha connosco apenas algum tempo. Caminha connosco de forma continuada, pois o verbo grego está no imperfeito de duração (syneporeúeto): caminhava com. Segunda: não é a incapacidade deles ou a nossa que nos impede de reconhecer Jesus. Na verdade, o texto diz, na sua crueza gramatical, que os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto). A forma verbal grega está num imperfeito passivo. Entenda-se então corretamente: é Deus que impede os nossos olhos de o reconhecerem agora. É, portanto, Deus que conduz a ação. Esta preciosa indicação desperta a nossa atenção, e deixa-nos alerta para o momento em que Deus vai desimpedir os nossos olhos para o reconhecermos.

    4. Este terceiro viandante, que caminha sempre connosco, e que faz conjunção resolvendo as nossas disjunções, é também aquele que conduz o nosso caminho. Ele é o Presidente. Preside sempre. Por isso, vem ao nosso encontro, intromete-se no meio de nós, não se apresenta, começa a fazer perguntas estranhas, que habitualmente nós não permitimos a um desconhecido que se intromete no meio de nós, sem sequer se apresentar: «Que são estas palavras que opondes entre vós enquanto caminhais?» (Lucas 24,17). Ele é o Mestre que nos faz perguntas pedagógicas, para nós nos dizermos, e manifestarmos os nossos pontos de vista, e também o ponto de vida em que estamos. A primeira consequência em nós desta pergunta certeira é fazer com que digamos a nossa tristeza e desilusão: «E eles pararam com o rosto triste» (Lucas 24,17). E depois, atónitos, perguntamos: «Tu és o único (mónos) estrangeiro residente (pároikos) em Jerusalém que não conheces as coisas que nela aconteceram nestes dias?» (Lucas 24,18). E ele pergunta outra vez teimosa e pedagogicamente: «O que foi?» (Lucas 24,19). Duas anotações. Primeira: sem o sabermos, fazemos uma afirmação correta: de facto, ele é o único que não conhece as coisas como nós, mas as conhece de outra maneira. Segunda: quando ele pergunta: «O que foi?», os dois nada estranham porque não sabem quem é aquele que os está a interrogar, mas o leitor, que já sabe, até se sente incomodado, porque bem sabe que se há alguém que sabe o que lá se passou, é Jesus. Então se sabe, por que é que pergunta? Pergunta, não porque não saiba e queira saber, mas para nos levar a dizer a desilusão e o sem sentido que nos habita. Ele é o Mestre que faz as perguntas, para depois poder corrigir as nossas respostas (Lucas 24,25-27). E nós lá dizemos que, pois, Jesus era com certeza um grande profeta, e que teve a sorte dos profetas: foi assassinado (cf. Lucas 11,50-51). Mas quanto a ser o Messias que nós esperávamos, não, não pode ser, porque um homem que foi crucificado e morto não pode ser o Messias, pois este, estando em plena comunhão com Deus e possuindo a vida em plenitude, não só não vinha para sofrer e morrer, como vinha mesmo para nos libertar do sofrimento e da morte (Lucas 24,22-23). Jesus ouve os nossos lamentos, e mostra a insensatez que nos habita por desconhecermos os caminhos da Escritura! Se os conhecêssemos, diz Jesus, saberíamos que era preciso o Messias passar por tudo isto para entrar na glória de Deus. E a partir das Escrituras (Moisés e todos os profetas) explicou-lhes, a eles e a nós, ponto por ponto, o que a Ele dizia respeito (cf. Lucas 24,25-27). O caminho de Emaús é, afinal, o caminho das Escrituras! Levará o seu tempo até compreenderem que Jesus é o Messias exatamente enquanto Crucificado, que a Cruz não é a manifestação do seu fracasso, mas da sua incondicional fidelidade à vontade do Pai.

    5. Enquanto assim falavam entre a esperança e a desilusão, estranhamente guiados por um terceiro desconhecido, parece que o caminho se encurtou. Ei-los que estão em Emaús. E, chegados aí, Jesus fez como se (prosepoiêsato: aor. de prospoiéomai) fosse caminhar para mais longe (Lucas 24,28). «Fez como se»: trata-se de uma finta pedagógica. O texto não diz que ele ia caminhar para mais longe. Diz que Ele «fez como se fosse…». Finta pedagógica, que provoca logo ali a nossa oração: «Fica connosco…» (Lucas 24,29). Atenção, portanto: também a nossa oração não é produção nossa; é provocada por Ele. Ele é o Mestre, o Presidente. O grito «fica connosco!» é profunda e entranhadamente verdadeiro. Mas as razões invocadas são superficiais e simuladas. Será, de facto, verdade que os dois de Emaús gritam «fica connosco!», pela simples razão de que «se faz tarde e o dia já está a declinar?» (Lucas 24,29). Por outras palavras: será o medo da noite exterior o que os preocupa, e o cumprimento do preceito sagrado da hospitalidade o que têm em mente? Absolutamente não. Do que eles têm medo é do escuro interior, do vazio da alma, do sem sentido da vida que experimentaram com aquela morte ilegível de Jesus.

    6. A necessária analepse: era assim, vazios, desanimados, desiludidos, dissentidos e em dissensão, que caminhavam de Jerusalém para Emaús. E foi então que, sem saberem bem como, se viram alcançados, tal como Paulo no caminho de Damasco (Filipenses 3,12: katelêmphthên), por um terceiro que caminhava com eles, lhes fazia perguntas, lhes corrigia as respostas, lhes abria e interpretava as Escrituras, lhes fazia ver as coisas com olhos diferentes, com um coração novo. E, acompanhados e conduzidos assim por ele, sempre sem saberem bem como ou porquê, eis que começaram outra vez a sentir subir dentro de si os indicadores da esperança. É esta luzinha interior acesa no caminho, e o caminho é um dos lugares da graça no Evangelho de Lucas, que eles não querem agora perder. Por isso, logo que pressentem que o companheiro desconhecido se apresta para os deixar, gritam/rezam do fundo das entranhas: «Fica connosco»!

    7. No seguimento deste pedido, ele entra para ficar com eles, connosco. Não, porém, apenas algum tempo, como fazemos nós quando visitamos os amigos. Ele entra para ficar connosco sempre, para presidir à nossa vida toda. Há quem estranhe que, entrando em casa alheia, ele se ponha a presidir à mesa, ato que competiria ao dono da casa. Quem assim pensa esquece-se de que, afinal, foi ele que presidiu ao caminho todo, foi ele que fez as perguntas, foi ele que corrigiu as respostas, foi ele que abriu a Escritura, foi ele que, com uma simulação pedagógica, provocou a nossa oração. Ele é, portanto, o Presidente, e é, nessa condição, que preside também à nossa mesa: recebe o pão, bendiz a Deus, parte o pão e dava (epedídou: imperf. de epidídômi), imperfeito de duração. Atitude que continua ainda hoje a verificar-se. É aqui que são abertos (por Deus) os nossos olhos, antes impedidos por Deus de reconhecer Jesus. Decifração da Cruz. Ele está vivo e presente. A sua vida é uma vida a nós dada. Sempre a ser a nós dada. É por isso que Ele desaparece da nossa vista (Lucas 24,31), mas não da nossa vida, em que fica mais presente do que nunca, presente para sempre, sem sombra de ausência. Na verdade, se dar reclama a presença do dom que o doador ao donatário, dar-se reclama a presença do doador ao donatário. Novidade imensa. Dando-se a nós, o Crucificado-Ressuscitado transparece em nós, passa para nós a suprema dignidade da sua manifestação: passamos a ser nós os mostradores da Vida Nova do Ressuscitado. Suprema dignidade. Alegria imensa. Responsabilidade imensa. É agora, e daqui, e deste modo, que vemos a luzinha que Ele acendeu já no nosso coração, no caminho… Não é o escuro da noite exterior que nos mete medo. O que nos mete medo é o escuro interior. Ei-los que partem em plena noite, em plena luz, para Jerusalém. Viagem da conjunção, fazendo o caminho inverso da primeira viagem da disjunção.

    8. Afinal, não era mesmo o medo da noite exterior que preocupava os dois de Emaús. A prova: ei-los que imediatamente se levantam e partem a caminho de Jerusalém (Lucas 24,33). Não o fariam se fosse a noite a assustá-los. Era o escuro interior que os tolhia. Dissipado esse escuro disjuntivo, disruptivo e dissentivo daquela morte ilegível de Jesus, agora compreendida como auto destituição por auto doação a nós e por nós num amor subversivo, eis que se inicia o movimento contrário de conjunção e comunhão. Voltam para Jerusalém (eis Ierousalêm), dizem os dois um para o outro (pròs allêlous), ao mesmo tempo, a mesma coisa: «Não estava a arder (kaioménê) em nós o nosso coração, quando nos falava no caminho, quando nos abria as Escrituras?» (Lucas 24,32). Na verdade, relatam a mesma história, nascem, portanto, como irmãos: o mesmo coração aceso por Deus, as Escrituras abertas (com o mesmo verbo da abertura dos seus olhos). Olhos abertos, Escrituras abertas, coração aceso.

    9. Ainda hoje é bom e salutar fazer esta viagem no mapa e no coração a Emaús (El-Kubèibeh). O peregrino encontra nesta aldeia palestiniana uma igreja à guarda dos Padres Franciscanos da Custódia da Terra Santa, que guarda e recorda os acontecimentos narrados no sublime episódio de Lucas 24, que acabámos de visitar. A atual igreja é uma construção de inícios do século XX, estilo românico-gótico de transição, que respeita as linhas e integra algumas pedras de uma igreja construída pelos Cruzados no século XII. Esta igreja encontrava-se ainda de pé no século XIV, mas estava já em ruínas no século XV, de acordo com o testemunho de peregrinos qualificados. A construção dos Cruzados enquadra aquilo que se pensa serem os fundamentos da casa de Cléofas, um dos dois que, naquele primeiro dia da semana (Lucas 24,1 e 13) se dirigiam para uma aldeia, chamada Emaús, que distava 60 estádios (11-12 km) de Jerusalém.

    10. Nas paredes interiores da igreja que hoje pode ser visitada, que data de princípios do sáculo XX, pode ler-se em várias línguas um belo e significativo poema, que aqui passa também a conhecer a versão portuguesa: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

    11. E o poeta inglês Thomas S. Eliot (1888-1965) faz esta evocação da cena de Emaús: «Quem é o terceiro, que vai sempre ao teu lado? Se me ponho a contar, juntos vamos apenas eu e tu. Porém, se olho à minha frente sobre a estrada branca, vejo sempre outro que caminha ao teu lado. Quem é esse que vai sempre do outro lado?».

    12. É o Senhor, que vós entregastes à morte, mas que Deus ressuscitou, responde Pedro, falando ao povo no dia de Pentecostes (Atos 2,14.22-33). Reside aqui, não apenas o essencial do anúncio, mas o anúncio essencial, sem glosas e sem filtros, que somos chamados a fazer, com alegria e determinação (Atos 2,23-24). Este veio fundamental percorre, como verdadeira filigrana, o Livro dos Atos dos Apóstolos: 2,23-24.32.36; 3,15-16; 4,10; 5,30-31; 10,39-40; 13,28-30; 17,31; 25,19. Chamemos-lhe «primeiro anúncio», ou, como já se diz hoje, nesta sociedade que já recebeu o «primeiro anúncio», mas que vive distante da seiva do Evangelho, «segundo (primeiro) anúncio». Anunciar outra vez. Sim, falamos desse Jesus, por vós crucificado, por Deus ressuscitado, à direita de Deus sentado na sua humanidade glorificada, de onde transborda o Espírito sobre nós derramado. É o que vemos e ouvimos, e devemos fazer ver e ouvir.

    13. Pedro continua a ensinar-nos que vivemos aqui como «estrangeiros e hóspedes», isto é, como «paroquianos» (pároikoi, paroikía), mas que, como Jesus e à sua maneira, somos também filhos e chamamos a Deus «nosso Pai». E é neste Senhor Jesus que, conforme desígnio eterno do Pai, deu a sua vida terrena por nós, mas deu-nos também a vida eterna, que o seu maior dom, temos posta a nossa fé e a nossa esperança, muito para além das coisas corruptíveis, como prata e oiro, e de tudo o que se avalia, mede ou pesa (1 Pedro 1,17-21). É-nos pedida, portanto, vida nova de acordo com o estatuto por graça concedido, por graça recebido.

    14. Portanto, «o Senhor sempre diante de mim», cantamos hoje com o Salmo 16,8. Só Ele nos pode guiar no caminho da vida. Na verdade, as pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão, não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). E nós também cantamos no nosso Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

    António Couto


  • Páscoa significa passagem. É passagem. Transitiva e intransitiva. No mapa e no coração. Do inverno para a primavera, como os antigos pastores beduínos seminómadas, nas origens de Israel, e como registam os calendários dos modernos sedentários. Da escravidão para a liberdade, como os hebreus do Egito para a Terra Prometida. Da morte para a vida, como Jesus Cristo, que assume, atravessa e transfigura todas as nossas Páscoas ou passagens. A Páscoa és Tu, Senhor, que passas e nos chamas a seguir-te, e a estar contigo, para depois nos enviares em missão. «Vinde atrás de mim» (Mateus 4,19). «Vinde ver» onde moro (João 1,39). «Ide por todo o mundo» (Mateus 28,19).

    Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti, voltam a sair de ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o vinho, o pão, o peixe. Tu és a Páscoa verdadeira. Seguindo-te de perto no caminho, nós aprendemos e «sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Onde a habitual trajetória que seguimos parece levar-nos inexoravelmente da vida para a morte, tu vens ensinar-nos um caminho novo que faz passar da morte para a vida. E que esse caminho é o amor.

    A Páscoa é também o tempo social, usual entre nós, de limpar as casas e os caminhos, e de os alindar com flores. Mas a Páscoa é sobretudo o tempo interior da máxima exposição ao amor e à palavra que nos lava os pés e a alma, e que nos limpa o coração: «Vós já estais limpos, por causa da palavra que ouvistes de mim» (João 15,3). A Páscoa é então o tempo intenso de nos deixarmos operar pelo bisturi da palavra, que penetra até às pregas mais recônditas do nosso engessado coração (Hebreus 4,12). A Páscoa é a luz fulgurante que acende a nossa vida, e nos leva a passar essa luz, que é Jesus Ressuscitado, de mão em mão, de coração a coração. A Páscoa é Missão.

    António Couto


  • Senhor Jesus,

    há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

    Mas quando dizem que Te querem ver,

    não é para Te conhecer.

    É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

    a tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

    Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

    Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

    quando Te dás a conhecer a nós,

    não mostras o rosto,

    uma fotografia,

    o cartão de cidadão.

    Se fosse assim,

    mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

    E o facto é que,

    quando surges no meio deles,

    não Te reconhecem.

    E em vez do rosto,

    são, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

    Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

    Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

    é dar a mão e o coração.

    É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

    Senhor, dá-nos sempre desse pão!

    António Couto


  • Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia

    Atos 2,42-47; Salmo 118; 1Pedro 1,3-9; João 20,19-31

    1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), que o Papa S. João Paulo II, em 30 de Abril do ano 2000, consagrou como «Domingo da Divina Misericórdia». Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência e da Precedência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua vida e à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. João Batista tinha apresentado Jesus como Aquele que batiza com o Espírito Santo (João 1,33), que é a vida de Deus, a Dýnamis, o poder de Deus, imperecível, que só Deus pode comunicar. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

    2. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo, quando Ele por graça se faz ver, não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Não se capta deste lado, seja qual for a técnica aplicada. É-nos dado por graça reconhecê-lo. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz, de onde jorra também a dádiva do Espírito (João 19,34; cf. 7,37-39; Atos 2,33). Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, fazendo-nos ao mesmo tempo reconhecer que Ele ultrapassou a morte, vencendo-a. As mãos e o lado são sinais abertos para podermos entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus Ressuscitado, soprando sobre nós o alento do Espírito, da Vida, da Paz e do Perdão. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

    3. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

    4. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele deve ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, por assim dizer, rasteirado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Confessa de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo, fé e confiança, adesão no tempo da história, e no dia-a-dia renovada. Esta felicitação é para nós.

    5. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entrando dentro dele, precedendo-o e presidindo-o, rendeu-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

    6. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47, mas ver também 4,32-35 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

    7. Vem em nosso auxílio também a Primeira Carta de Pedro 1,3-9, que nos apresenta uma síntese feliz da visão nova da fé e da obra da misericórdia de Deus em nós, os dois grandes temas deste Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia. Filhos renascidos da grande misericórdia do nosso Deus, verificada pela Ressurreição de Jesus Cristo (1 Pedro 1,3), exultamos de alegria. E repetem-se temas importantes acerca da visão da fé na Ressurreição de Jesus, em que a expressão gramatical é outra vez importante. Não o tendo visto na história (ouk idóntes: part. aor2 de horáô), nós o amamos agora, e não o vendo agora com os nossos olhos (mê horôntes: part. pres. de horáô), acreditamos agora (pisteúontes: part. pres. de pisteúô) (cf. 1 Pedro 1,8).

    8. Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa [«Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24], e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘ozzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

    António Couto


  • 1. Em 12 de Janeiro de 2010, às 16h53, um violento sismo abalou o Haiti e abalou o coração do mundo, desencadeando por toda a parte uma gigantesca onda de solidariedade e compaixão.

    2. «Merci, Seigneur», [= «Obrigado, Senhor»], rezavam vozes jovens logo nos primeiros dias resgatadas dos escombros. Vozes saídas do milagre. Oração saída das entranhas.

    3. Naquela tarde do dia 12 de Janeiro, Ena Zizi, uma senhora de 69 anos, estava na missa quando viu a igreja cair-lhe em cima. Continuou a rezar, e, ao sétimo dia, chegou o auxílio. E Ena saiu a cantar de debaixo dos escombros. Contou uma socorrista mexicana: «Ela agarrou a minha mão com tanta força, que pensei que era Deus que me estava a tocar».

    4. «Deus ajudou-me», respondeu Kiki, aquele menino de sete anos, feliz, de sorriso largo e de braços abertos, quando lhe perguntaram: «Como conseguiste sobreviver sete dias debaixo dos escombros»?

    5. Isabel Jossaint, uma bebé de 15 dias, foi resgatada ao oitavo dia, quando já até os seus pais estavam conformados com a sua morte. Estava sossegada debaixo da mobília da casa. Tinha passado metade da sua vida debaixo dos escombros! Disse o avô: «Todos sabiam que a menina estava morta, menos Deus!».

    6. Emmanuel Buso, um jovem de 21 anos, esteve soterrado nos escombros da sua casa durante dez dias. Foi bebendo a própria urina para não se desidratar. Deitado agora na cama do hospital, afirma: «Só estou aqui, porque Deus assim o quis».

    7. «Rezei a Deus», respondeu a menina, de 14 anos, resgatada catorze dias depois da catástrofe, quando lhe perguntaram: «O que fizeste durante este tempo todo?»

    8. São histórias vivas, densas, encharcadas de dor, de Deus e de amor. Corações a bater, orações a arder, lições a doer para este mundo sonolento, violento, insípido, amortalhado em vida, esse sim soterrado nos escombros de um egocentrismo sem saída.

    9. O Apóstolo Paulo aponta-nos o AMOR como o CAMINHO HIPERBÓLICO (kath’ hyperbolèn hodón) (1 Cor 12,31), portanto, excessivo e belo e maravilhoso. E dirá na Carta aos Colossenses que o AMOR é o vínculo (sýndesmos) (Cl 3,14), portanto, a fita, o fio, o cíngulo, o cinto que aperta e ajusta as vestes e os corações. E a Carta aos Hebreus vai até ao ponto de nos exortar a estar atentos uns aos outros «até ao paroxismo do AMOR» (eis paroxysmòn agápês) (Hb 10,24).

    10. Tristemente célebre e tragicamente verdadeira é a transcrição que George Orwell (1903-1950) fez do grande texto do «Hino ao Amor» que o Apóstolo Paulo nos deixou em 1 Coríntios 13, substituindo o AMOR pelo DINHEIRO. Escreveu assim George Orwell: «Ainda que falasse todas as línguas, se não tiver dinheiro, sou como um bronze que retine… Se não tiver dinheiro, nada sou… O dinheiro tudo crê, tudo espera, tudo suporta…».

    11. Não anda longe de Orwell esta sociedade em que vivemos. E aqueles que mandam no mundo, ou que pensam que mandam. Mas os pobres, que não têm dinheiro nem poder, continuam a dar-nos lições de amor. Como estas, vindas do Haiti. Merci, Seigneur!

    António Couto


  • 1. «Do SENHOR veio isto:/ isto é MARAVILHOSO (niphla’t TM / thaumastê LXX) aos nossos olhos! ESTE-O-DIA que fez o SENHOR:/ exultemos e alegremo-nos nele!» (Sl 118,23-24).

    2. Não é um dia cíclico, um dia entre outros dias, o dia que o salmista aclama! Os dias, de resto, fê-los todos o SENHOR (Gn 1,1-2,3). Trata-se aqui de um DIA novo, e sem série (cf. Sir 33,7-9). É o profético «DIA do SENHOR», aqui totalmente cheio da ação benfazeja do SENHOR!

    3. Os Evangelhos documentam esta alegria grande e nova e esta ESTUPEFAÇÃO MARAVILHOSA a abrir o nascimento de JESUS e o DIA novo da sua Ressurreição. Alegria grande (chará megálê) evangelizada (euaggelízomai) aos pastores, mas que é para todo o povo (Lc 2,10). De facto, todos quantos escutaram os pastores ficaram MARAVILHADOS (thaumázô) (Lc 2,18). Em estado de MARAVILHA (thaumázôn: particípio presente) ficou Pedro quando leu os sinais do túmulo de Jesus aberto (Lc 24,12), e depois os Onze e os outros com eles, movidos pela alegria (chará) e pela MARAVILHA (thaumázontes: particípio presente) (Lc 24,41), um versículo sobrecarregado com as notas da alegria incontida e da esfuziante MARAVILHA.

    4. Só assim, em estado de MARAVILHA permanente, Maria Madalena pode ir anunciar: «VI (heôraka) o SENHOR!» (Jo 20,18), e os Dez podem dizer a Tomé, chamado Gémeo, irmão gémeo, talvez nosso: «VIMOS (heôrákamen) o SENHOR!» (Jo 20,25). Os dois verbos «ver» estão no tempo perfeito, pelo que, de facto, significam: «VI e continuo a VER», «VIMOS e continuamos a VER». Um VER perfeito. Sempre pleno. Completo.

    5. Lendo muito bem o mistério de Cristo, o Papa S. João Paulo II, no início do seu Pontificado, deixou escrito, com palavras luminosas, na Encíclica Redemptor hominis, n.º 10, de 04 de março de 1979, que o homem deve «apropriar-se e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção para se encontrar a si mesmo», e ficar assim «MARAVILHADO face a si mesmo», «ESTUPEFACTO perante o seu valor e dignidade». E acrescenta ainda que é «a esta ESTUPEFAÇÃO que se chama Evangelho ou Boa Nova».

    6. Os missionários cultivam a alegria, o espanto e a MARAVILHA, e compete-lhes colocar este mundo em estado de MARAVILHA, ou não fôssemos nós também testemunhas destas coisas (cf. Lc 24,48; At 2,32). E, portanto, somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste! Nós tornámo-nos desistentes, apoderou-se de nós o desânimo e a frustração, fomos embora. E como é que estamos agora aqui, indómitas testemunhas, prontos a dar a vida por Jesus?

    7. A Páscoa só pode ser cheia de CRISTO RESSUSCITADO, MARAVILHA do SENHOR aos nossos olhos!

    António Couto


  • 1. As mais antigas raízes da festa da Páscoa [= «passagem»] remontam certamente aos antigos pastores seminómadas do Próximo Oriente Antigo, que se deslocavam, com os seus rebanhos, ao longo de uma estreita faixa de terra, situada entre as terras cultivadas e o deserto. Não entravam nas terras cultivadas: se o fizessem iriam arranjar problemas com as populações sedentárias; não entravam no deserto: se o fizessem, o gado miúdo sucumbiria rapidamente.

    2. A festa da Páscoa teria a ver inicialmente com os ritos apotropaicos [de apo-trépô = afastar de, conjurar] levados a cabo por estes pastores seminómadas, ritos que seriam em tudo análogos aos sacrifícios realizados entre os beduínos árabes pré-islâmicos, no decurso da primeira noite de lua cheia (antigo shabbat ou sábado) da Primavera [= primeiro Verão], mês de Radjab ou de Abib ou de Nisân, antes da transumância estival, e que se destinavam a afastar as doenças dos rebanhos, sobretudo as que podiam afetar as crias jovens, particularmente nesta época de transumância, e, portanto, de «passagem».

    3. Tratava-se de uma festa noturna, realizada à luz da lua. É a lua, de resto, que comanda o suceder dos dias no Próximo Oriente, onde o dia começa, não com o nascer do sol, mas com o nascer da lua. A escolha para uma noite de festa recai, portanto, naturalmente na noite de lua cheia, por causa do luar. De resto, o intenso calor no limiar do deserto não permitia que tais ritos festivos se realizassem durante o dia. Nessa época de «passagem» para a Primavera e para novas pastagens, era costume imolar um animal do rebanho, provavelmente um cabrito desleitado, de um ano de idade, dito «filho de um ano». Só mais tarde se fala em imolar um cordeiro. Nos sacrifícios da Primavera dos árabes antigos, o cabrito é referido mais vezes do que o cordeiro. É também o cabrito desleitado, «filho de um ano», que é mencionado no texto ritual antigo do Livro do Êxodo 34,26. A carne do animal imolado era comida juntamente com o bolo folhado de pão não levedado, próprio dos pastores seminómadas, que o assavam sobre as pedras escaldadas pelo sol, condimentando-o com ervas do deserto. O pão ázimo cozido no forno e comido com ervas amargas tiradas da horta representa a fase sedentária, e, portanto, posterior, dos ázimos.

    4. A antiga descrição da Páscoa no Egito, referida em Êxodo 12,21-23, recolhe as antigas tradições atrás referidas acerca dos sacrifícios apotropaicos dos pastores seminómadas efetuados na primeira noite de lua cheia da Primavera para afastar os golpes do «exterminador» (Êxodo 12,23), e sedentariza-as. Fala-se, portanto, de casas (Êxodo 12,22.23), e não de tendas. E localiza-as no Egito. Continua a privilegiar a noite e a lua cheia, como vinha da antiga tradição seminómada. Situa, por isso, a festa da Páscoa na noite do décimo quinto dia (Êxodo 12,6-8) do mês de Abib ou de Nisân, primeiro mês do ano (Êxodo 12,2), que começava com a Primavera. Mas aqui já não se trata de transumância com a «passagem» do gado para novas pastagens, nem tão pouco da «passagem» para o tempo primaveril, mas da «passagem» do povo de Israel da escravidão para a liberdade.

    5. A Páscoa de Cristo retoma tudo o que vem de trás: o cordeiro, o pão ázimo, as ervas amargas, o carácter noturno (patente ainda hoje na Ceia Pascal hebraica e na Vigília Pascal cristã), a lua cheia (a Páscoa é uma festa móvel, porque acompanha, ano após ano, a primeira lua cheia da Primavera). Mantém-se também o sentido de «passagem», ainda que cada vez mais alargado e aprofundado: passagem tranquila para novas pastagens, passagem para um tempo novo, passagem da escravidão para a liberdade, passagem da morte para a vida verdadeira, que é o verdadeiro sentido da Páscoa de Cristo, que se apresenta a si mesmo como o passageiro deste mundo para o Pai (João 13,1).

    António Couto


  • O ser humano, criança, jovem ou adulto, merece sempre o melhor de nós. Em todas as circunstâncias, e seja qual for o seu lugar no mapa. Parecemos, por vezes, mais ocupados com o alcatrão e as estátuas. Tempo perdido, pois é sabido que nenhuma música inebria as estátuas de alegria. O essencial do ser humano não se vê nas praças ou nas ruas. O melhor do ser humano é intransitivo. O mapa desenrola-se por dentro. Alta tensão. Toda a atenção no coração. Só o Amor pode dissolver este nevão. Só o Bem pode vencer o mal. O Bem não combate. Se combatesse, já não seria Bem. Seria mal. Mais mal, portanto, adviria. Só o Bem pode vencer, sem combater, este combate. Só o Amor. O Amor ama também o mal. É aí que o vence.

    Foi assim que Jesus atravessou e abraçou a nossa cegueira e violência. Até à Cruz e à Luz da Ressurreição. Vem sempre, Senhor Jesus. Vem e chama por nós outra vez. Ainda agora vieste para reanimar a nossa esperança. Não nos deixes ficar aqui, tranquilos, a consertar bolsas ou redes, quando há tanto Amor para semear, tanta paz para ativar.

    António Couto


  • Tu, Senhor, Tu falas

    e um caminho novo se abre a nossos pés,

    uma luz nova em nossos olhos arde,

    átrio de luminosidade,

    pão

    de trigo e de liberdade,

    claridade que se ateia ao coração.

    Lume novo,

    lareira acesa na cidade,

    és Tu, Senhor, o clarão da tarde,

    a notícia, a carícia, a ressurreição.

    Passa outra vez, Senhor,

    dá-nos a mão,

    levanta-nos,

    não nos deixes ociosos nas praças,

    sentados à beira dos caminhos,

    sonolentos,

    desavindos,

    a remendar bolsas ou redes.

    Sacia-nos.

    Envia-nos, Senhor,

    e partiremos

    o pão,

    o perdão,

    até que em cada um de nós nasça um irmão.

    António Couto


  • Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

    At 10,34a.37-43; Sl 118; Cl 3,1-4 (1 Cor 5,6b-8); Jo 20,1-9

    1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mt 27,46 e Mc 15,34, citando apenas o início: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Rm 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (Jo 19,34; Ef 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a caminhada quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Ef 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Rm 16,25‑26; 1 Cor 2,7‑10; Ef 3,3‑11; Cl 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Ef 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos com a Chará, a Alegria grande da Páscoa, pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Sl 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mt 28,1; Mc 16,2 e 9; Lc 24,1; Jo 20,1 e 19; At 20,7; 1 Cor 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (At 2,20; Ap 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico inteiro, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte!), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde jorra continuamente a vida e a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

    2. O Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de Jo 20,1-9, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Mc 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mt 28,2): impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Mc 16,4); dois homens com vestes fulgurantes (Lc 24,4); as faixas de linho no chão e o sudário enrolado em outro lugar (Jo 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram o abandono das vestes da morte e deixam entrever uma forma de vida nova que somos chamados a identificar.

    3. O texto imenso de João 20,1-9 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não.

    4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê (blépei), com um olhar normal (verbo grego blépô), um olhar que até causa aflição, a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus(Jo 20,1), tal é o significado imposto pela forma verbal êrménos, particípio perfeito passivo do verbo aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável (ação de Deus!) como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece um claro contraponto com a pedra por algum tempo retirada pelos homens do túmulo de Lázaro. Chegado ao túmulo de Lázaro, Jesus manda retirar (árate: impv. aor. de aírô) a pedra (cf. Jo 11,39), e mãos humanas retiraram-na (êran: aoristo de aírô) (cf. 11,41) por algum tempo, pois Lázaro, trazido da morte por Jesus a esta vida terrena, vai naturalmente voltar a morrer. No que se refere ao túmulo de Jesus, a Madalena, cega pelos seus preconceitos, falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada e baralhada, a levar uma notícia falsa: «Retiraram (êran: aoristo do verbo aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (Jo 20,2). O que a Madalena diz, trocando o perfeito pass. pelo aoristo simples, é que mãos humanas retiraram (ato histórico pontual) o Senhor do túmulo. Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (Jo 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende, e nada do que faça dá bom resultado. A oposição luz-trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (Jo 1,9). Sem esta Luz, que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompetência, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (Jo 3,2) e nada entende, como os discípulos que nada pescam de noite (Jo 21,3), e no meio do escuro andam perdidos (Jo 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (Jo 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido no pátio da noite e no meio dos guardas (Jo 18,17-18).

    5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e «o outro discípulo». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos empregados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e (blépei) a pedra(da morte) retirada. 2) «O outro discípulo», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e (blépei) as faixas de linho no chão, mas não entra. 3) Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em Jo 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (Jo 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim, até à Cruz e ao túmulo! Digamos, à nossa maneira, que deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, «o outro discípulo» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR «o outro discípulo», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

    6. Pedro, que corria juntamente com «o outro discípulo», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que «o outro discípulo» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se Jo 13,24 e 21,7), e (theôreî, ind. presente do verbo theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. Jo 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada com tanta ordem, aprumo e esmero! Por isso, Pedro com o olhar de quem fica a pensar no que terá acontecido… Olhando para trás, pode comparar-se com o que se passou com Lázaro. Por ordem de Jesus, mãos humanas retiraram por algum tempo a pedra que tapava o túmulo de Lázaro (cf. Jo 11,41). Por ordem de Jesus, Lázaro saiu do túmulo com as vestes da morte, com as faixas da morte a prenderem-lhe os pés e as mãos e o sudário a tapar-lhe o rosto (cf. Jo 11,44a). Foi mesmo necessária uma nova ordem de Jesus para que o libertassem e o deixassem ir (cf. Jo 11,44b). Em contraponto, a pedra agora da morte retirada para sempre e por Deus faz ver que o poder da morte não tem ali mais qualquer domínio. E a indicação preciosa de que as faixas da morte estavam estendidas no chão, inutilizadas, e que o sudário se apresentava cuidadosamente dobrado fazem ver a Pedro que o que ali aconteceu não foi obra de ladrões, mas Pedro ainda não está apto para compreender o que fazem ali as vestes da morte deixadas para trás (Jo 20,6-7).

    7. «O outro discípulo» entrou depois de Pedro no túmulo, viu a mesma coisa, mas com olhos diferentes e de forma diferente. Viu por dentro, viu a identidade. O verbo empregado já não é o de Pedro, que era o verbo theôréô, que indica que quem vê, fica a pensar no significado do que vê. «O outro discípulo» entrou no túmulo, e viu de modo absoluto (eîden: ind. aoristo de horáô), com o olhar próprio de quem vê a identidade. Por isso, «o outro discípulo» deu um passo em frente: viu e acreditou de modo absoluto (Jo 20,8). Todavia, o narrador fecha a cena dizendo que «ainda não tinham entendido a Escritura, que dizia que Ele devia (deî) ressuscitar dos mortos» (Jo 20,9). A capacidade de compreensão dos discípulos habilitava-os a entender o que podiam entender: que o final da vida terrena de Jesus estava ali, naquela morte na cruz e naquele túmulo, onde ele jazia envolvido nas faixas da morte (cf. Jo 19,40). Agora já sabem que as faixas no chão estendidas e o sudário cuidadosamente dobrado são sinais, que ainda terão de aprender a ler; como terão também de aprender a ler a Cruz de Jesus como «Obra do Senhor» (Sl 22,32), bem como outros sinais que Jesus recomendou, para evitar equívocos, que apenas fossem falados depois de o Filho do Homem ressuscitar dos mortos (Mc 9,9). Será, portanto, o encontro com o Senhor Ressuscitado que habilitará os discípulos de todos os tempos a compreenderem a Escritura (cf. Jo 2,22) e a interpretarem tudo o que ela diz sobre Jesus (At 2,24-31; 13,32-37).

    8. É verdade que à pergunta fundamental de Jesus aos seus discípulos, estrategicamente colocada no centro do Evangelho: «Quem dizeis vós que Eu Sou?», Pedro reconheceu e confessou Jesus como «o Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16). Mas opõe-se logo energicamente às palavras de Jesus (Mt 16,22), quando Ele anuncia que vai ter de sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (Mt 16,21). Pedro e os discípulos sabem bem o que é o sofrimento e a morte, mas não têm qualquer noção do que possa ser a ressurreição dos mortos. Mc 9,10 observa que os discípulos «se interrogavam entre eles sobre o que fosse ressuscitar dos mortos». Além disso, hão de eles certamente ter pensado, para que nos serve um Messias que sofre e morre? Para isto, os discípulos não têm necessidade dele, pois sabem que hão de sofrer e morrer mesmo sem ele. Do Messias, os discípulos, como os judeus em geral, esperavam que viesse pôr fim ao sofrimento e à morte, e que os viesse libertar, a eles e a todos, dessa triste realidade.

    9. O que não compreendem agora, compreendê-lo-ão mais tarde, quando souberem a Escritura e experimentarem a força (dýnamis) da Ressurreição de Cristo (Fl 3,10-11). Reconhecerão então em Jesus Aquele que veio do outro lado do nosso mundo de sofrimento e de morte, Aquele que veio de Deus, para trazer à humanidade, na sua pessoa, a vida de Deus e a plena comunhão com Ele. Verdadeiramente, a vida, a vida mesmo, é união e comunhão com Deus. E esta vida divina, dada por Jesus à humanidade, atravessa a morte, mas não se extingue nem se apaga na morte. A união e comunhão com Deus, a nós dada por Jesus, não conhece fim nem decaimento nem qualquer tipo de parêntesis. O verdadeiro dom que Jesus nos traz não consiste numa vida terrena que se prolonga sempre, digamos uma vida terrena sem morte terrena, mas na vida em comunhão com Deus, esta sim, inextinguível.

    10. Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e , agora também (como Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza, do luto. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (Jo 19,38), daquele Rei por mãos humanas retirado (Jo 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do túmulo de Lázaro (Jo 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de Jo 20,1. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram» (Jo 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

    11. Voltando-se para o jardim, , outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (Jo 20,15).

    12. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar em aramaico o nome dela: «Maria!» (Jo 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para Jo 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (Jo 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (Jo 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

    É o amor, ainda que imperfeito,

    é o amor, ainda que com defeito,

    é o amor que faz correr a Madalena.

    É o amor, ainda que imperfeito,

    é o amor, ainda que com defeito,

    é o amor que faz chorar a Madalena.

    Mas tu sabes, meu irmão da páscoa plena,

    tu sabes que há outro amor em cena,

    e é esse amor que faz amar a Madalena.

    13. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco ortodoxa, a romano católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

    14. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jr 31,34; Is 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ez 34,16; Dn 9,24. Ver depois Jo 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

    15. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

    16. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Cor 5,7 e Lc 22,15, esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Cor 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; é comido em família. O Sacrifício da Páscoa realizava-se a seguir à ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Ex 29,38-42 e Nm 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Depois deste sacrifício quotidiano, procedia-se então, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Dt 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Cor 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

    17. A música do Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), levanta-se do meio da alegria própria da Festa: «Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!» (v. 24) é o refrão que hoje cantaremos. Este Salmo eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘ozzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Ex 15,2 e Is 12,2. YAH está por YHWH. A récita das maravilhas do Senhor enche a nossa vida de alegria, e deixa mesmo os nossos olhos encantados a contemplar a ação surpreendente de Deus entre nós, que põe como pedra angular a pedra por nós rejeitada (v. 22).

    António Couto