E AINDA HÁ QUEM QUEIRA TRADUZIR A GRAÇA POR DINHEIRO!

No dia em que a praça da cidade

se encheu de indigentes,

passou por lá o dono de uma vinha

e contratou-os para um dia de trabalho.

…

Valia um denário o dia de trabalho.

Mas o dono da vinha passou mais uma vez

e outra vez

e outra vez,

e ainda uma última vez,

e foi contratando sempre

aqueles que

de cada vez ia encontrando na praça.

…

Foi assim nos encontrou a todos,

e nos contratou a todos.

Uns trabalharam doze horas,

outros nove,

outros seis,

outros três,

outros apenas uma.

…

Ao cair da noite,

mandou pagar a todos.

Mas virou tudo ao contrário,

e começou o pagamento pelos últimos,

que receberam um denário,

o salário de um dia de trabalho.

E todos foram recebendo o mesmo,

e murmuravam contra aquele patrão,

que não sabia ou não queria

distinguir os horários de trabalho.

…

Já não nos lembramos,

mas foi assim que todos fomos contratados,

indigentes da última hora,

ao cair do sol,

para aprendermos

que nenhum direito nos assiste

e que é graça

tudo quanto existe.

…

António Couto

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