E AINDA HÁ QUEM QUEIRA TRADUZIR A GRAÇA POR DINHEIRO!

No dia em que a praça da cidade

se encheu de indigentes,

passou por lá o dono de uma vinha

e contratou-os para um dia de trabalho.

Valia um denário o dia de trabalho.

Mas o dono da vinha passou mais uma vez

e outra vez

e outra vez,

e ainda uma última vez,

e foi contratando sempre

aqueles que

de cada vez ia encontrando na praça.

Foi assim nos encontrou a todos,

e nos contratou a todos.

Uns trabalharam doze horas,

outros nove,

outros seis,

outros três,

outros apenas uma.

Ao cair da noite,

mandou pagar a todos.

Mas virou tudo ao contrário,

e começou o pagamento pelos últimos,

que receberam um denário,

o salário de um dia de trabalho.

E todos foram recebendo o mesmo,

e murmuravam contra aquele patrão,

que não sabia ou não queria

distinguir os horários de trabalho.

Já não nos lembramos,

mas foi assim que todos fomos contratados,

indigentes da última hora,

ao cair do sol,

para aprendermos

que nenhum direito nos assiste

e que é graça

tudo quanto existe.

António Couto

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