MULHER E MÃE LIBANESA

Estou aqui parado

no meio deste mar encapelado,

de onde nada se avista

senão densos bancos de nevoeiro,

nenhum horizonte,

nenhuma pista.

Mas é como se estivesse a ver

aquela mulher e mãe libanesa,

que se aproxima de Jesus aos gritos,

e lhe suplica pela sua filhinha,

cruelmente atropelada

pelos demónios da guerra.

À primeira vista,

Jesus não lhe responde palavra,

parece não querer saber,

e continua a seguir o seu caminho

sem nada lhe doer.

São os discípulos que lhe imploram:

“atende-a, Senhor,

são insuportáveis os seus gritos”.

Jesus avança então uma resposta duríssima:

não se dá o pão dos filhos aos cachorrinhos.

Mas aquela mulher e mãe libanesa

não se deu por vencida,

e respondeu

que também os cachorrinhos comem

as migalhas

que caem da mesa dos donos.

Jesus não podia mais ficar indiferente,

e profere uma resposta comovente:

“mulher da grande fé,

faça-se como queres”.

Compreende-se que uma mãe

lute até ao fim pela sua filha,

e nunca chegue a desistir de Jesus.

Compreende-se também

que face a este imenso paradigma,

Pedro e os discípulos de Jesus

não cheguem a passar

de homens da pequena fé.

António Couto

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