Estou aqui parado
no meio deste mar encapelado,
de onde nada se avista
senão densos bancos de nevoeiro,
nenhum horizonte,
nenhuma pista.
Mas é como se estivesse a ver
aquela mulher e mãe libanesa,
que se aproxima de Jesus aos gritos,
e lhe suplica pela sua filhinha,
cruelmente atropelada
pelos demónios da guerra.
…
À primeira vista,
Jesus não lhe responde palavra,
parece não querer saber,
e continua a seguir o seu caminho
sem nada lhe doer.
…
São os discípulos que lhe imploram:
“atende-a, Senhor,
são insuportáveis os seus gritos”.
…
Jesus avança então uma resposta duríssima:
não se dá o pão dos filhos aos cachorrinhos.
Mas aquela mulher e mãe libanesa
não se deu por vencida,
e respondeu
que também os cachorrinhos comem
as migalhas
que caem da mesa dos donos.
…
Jesus não podia mais ficar indiferente,
e profere uma resposta comovente:
“mulher da grande fé,
faça-se como queres”.
…
Compreende-se que uma mãe
lute até ao fim pela sua filha,
e nunca chegue a desistir de Jesus.
Compreende-se também
que face a este imenso paradigma,
Pedro e os discípulos de Jesus
não cheguem a passar
de homens da pequena fé.
…
António Couto
