Louvado sejas, meu Senhor,
por tantos irmãos e irmãs que me confiaste,
pela beleza que semeaste nas tuas criaturas,
que a toda a hora e em todas as alturas
olham para Ti e olham para mim,
à espera que delas cuidemos com ternura.
…
É assim a irmã terra, nossa casa comum,
que tantas vezes maltratamos,
alterando os seus ciclos naturais e a sua felicidade,
os seus ecossistemas e biodiversidade,
para mais rapidamente lhe explorarmos os recursos,
água e minerais, plantas, frutos, florestas, animais.
…
Em nome do lucro fácil e rápido,
acendemos fogueiras de poluição,
asfixiamos a respiração da nossa terra irmã e mãe,
somos vorazes, cheios de volúpia e delapidação,
de “rapidación” ou “rapidação”,
que é a aceleração dos ritmos naturais de produção
da casa comum que habitamos.
…
Montes de lixo é a marca que deixamos
na nossa bela terra,
que geme sob pesados tapetes de asfalto e empedrado.
Mas geme também a floresta derrubada,
a fauna dizimada,
os filhos não nascidos,
os pedaços de terra abandonados, desertificados,
e gemem os pobres da nossa bela terra descartados.
…
A arte do descarte fez de nós ferozes predadores,
insensíveis às flores e às lágrimas seja de quem for.
Nenhum amor move estes senhores.
Só a posse da riqueza nos fascina e nos ensina,
não conhecemos outro professor ou professora,
nada sabemos de «nossa senhora, a santa pobreza».
…
Como te estragámos, querida terra, irmã e mãe,
como te explorámos,
como te contaminámos
com as nossas mãos vorazes e dominadoras!
Como acelerámos a pulsação do teu harmonioso coração!
…
Louvado sejas, meu Senhor,
pela bela, perfumada e colorida irmã terra que nos deste,
nossa casa comum.
Ensina-nos, Senhor, a recebê-la de Ti,
a mantê-la limpa e asseada,
a respeitá-la como criatura tua e nossa irmã,
a amá-la por ser tão bela e carinhosa.
…
António Couto
