O PÃO NÃO SE MATA!

Domingo XVIII do Tempo Comum

Isaías 55,1-3; Salmo 145; Romanos 8,35.37-39; Mateus 14,13-21

1. O Evangelho deste Domingo XVIII do Tempo Comum (Mateus 14,13-21) é conhecido como a primeira «multiplicação dos pães», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão, condivisão ou partilha.

2. Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, hospitaleiro, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre (agorázô) de comer para si mesmo (heautoîs)  (Mateus 14,15). Em cena estão duas maneiras opostas de ver e de fazer: a de Jesus e a dos discípulos de Jesus. O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

JesusDiscípulos
Misericórdia
Acolher
Curar
Dar
Partilhar
Insensibilidade
Excluir
Mandar embora
Comprar
Cada um para si

3. Vistas bem as coisas, o comportamento destes discípulos, e, se calhar, o nosso também, opõe-se, ponto por ponto, ao comportamento novo de Jesus. O que Jesus faz à vista dos seus discípulos e em confronto com os seus discípulos parece ser em primeiro lugar para eles, para nós, para baralhar as nossas contas e a nossa esquadria mercantilista. A questão não está, de facto, em produzir mais. A questão está em partilhar mais, de preferência tudo. O que Jesus ensina a estes discípulos de mentalidade consumista é que condividir, partilhar, é a melhor maneira de multiplicar. Não é preciso produzir mais para partilhar mais. A grande operação de sinal : [= dividir] ou x [= multiplicar] é na lousa do coração que se faz. A celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, partindo e repartindo o seu pão (note-se que não se faz nenhuma referência à partilha dos peixes!), reclama de nós que ensaiemos também novas maneiras de fazer! A Eucaristia continua a ser o grande milagre que a Igreja faz ininterruptamente há dois mil anos!

4. O narrador termina o episódio, informando-nos que aquela multidão de pessoas ficou saciada ou foi saciada, e que ainda «sobraram» doze cestas! (Mateus 14,20). Não se deve perder aquela forma verbal «foram saciados» (echortásthêsan) que, sendo um passivo, indica que foram saciados por Deus, passivo divino, que traduz o dom da saciedade divina, dom messiânico por excelência, que traz da parte de Deus e implica da nossa parte transfiguração e transformação (metamórphôsis), identificação com o doador divino, que nos dá a saciedade divina. Note-se também que o verbo grego usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas e ultrapassadas todas as nossas pequenas medidas! É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestas, símbolo da plenitude transbordante e inesgotável. Quem aprendeu a partilhar a vida sabe bem que ganha sempre mais! A «cesta» de que aqui se fala diz-se em grego kófinos, um recipiente com a capacidade de cerca de dez litros.

5. De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «condivisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica consumista de produzir mais, vender mais e comprar, bons acionistas e empresários, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso» que toda a dádiva e partilha contêm, a superabundância da graça [«os discípulos encheram doze cestas»]. E tudo isto acontece num deserto! Devia ser mais fácil ver aí exposta sobre a mesa a lição da nossa auto insuficiência!

6. Em perfeita sintonia com o Evangelho de hoje, a lição de Isaías 55,1-3 é fantástica: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2). Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro. Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra comereis» (Isaías 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes e vos rebelardes, será a espada que vos comerá a vós» (Isaías 1,20). Um Deus bom e Pai convida os seus filhos sedentos e famintos a sentarem-se à sua mesa e a comprar sem dinheiro o bom alimento. Note-se bem o oxímoro (comprar sem dinheiro) que nos deve (des)orientar sempre! Enquanto não entendermos isto, reprovaremos sempre no teste que Jesus fez a Filipe e faz a nós hoje também: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). Era um teste, diz-nos o narrador (João 6,6), e Filipe pôs-se a contar o dinheiro e a pensar no shopping! (João 6,7). Pelos vistos, não conhecia este imenso texto de Isaías, nem o Deus bom e Pai que dá coisas boas aos seus filhos! Nem aquela fantástica articulação do ouvido com o alimento [«Ouvi-me, ouvi-me, e comei!»], que faz da Palavra de Deus o verdadeiro pão dos seus filhos! No meio de fogos e inundações, catástrofes naturais, devia ser mais fácil perceber a nossa auto insuficiência, mas continuamos orgulhosamente a apregoar a nossa autossuficiência!

7. O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus [«Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!»] (Isaías 55,2), faz nascer novas maneiras de viver, alarga a tenda e o coração, gera fraternidade e comunhão. Também por isso, ainda hoje, os beduínos do deserto não cortam o pão com a faca, e explicam dizendo que «o pão não se mata!». Sim, «o pão não se mata!»: parte-se e reparte-se!

8. De facto, quando matamos este pão cujo fermento é o amor e a alegria de estarmos reunidos como filhos e irmãos, o que nos resta? Sim, diz bem S. Paulo, na lição de hoje da Carta aos Romanos 8,35-39: «Nada nos pode separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo!».

9. Por isso, cantemos hoje, com o hino do Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração, e enquanto saboreamos a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9): «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16). Tanta coisa nova para aprender neste Domingo.

António Couto