O SEU NOME É JOÃO

Solenidade do Nascimento de S. João Batista

Isaías 49,1-6; Salmo 139; Atos 13,22-26; Lucas 1,57-66.80

1. Na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, é-nos dada a graça de escutar o Evangelho segundo Lucas 1,57-66.80. Depois de Maria ter visitado e saudado Isabel (Lucas 1,39-45), e depois de ter recitado a bela oração do Magnificat (Lucas 1,46-55), o narrador informa-nos que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56). No cenário da Anunciação do Anjo a Maria (Lucas 1,26-38), o leitor foi informado, no v. 36, que também «Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês [de gravidez], aquela, a quem chamavam estéril».

2. Esta informação do sexto mês de gravidez de Isabel (Lucas 1,36), que o leitor é levado a articular com a visita de Maria a Isabel (Lucas 1,39-45), e sobretudo com os «cerca de três meses» que Maria passou em casa de Isabel (Lucas 1,56), pode levar-nos a pensar que Maria, mal recebeu esta informação, se pôs logo a caminho de Ain Karem, terra de Isabel, uns oito quilómetros a sudoeste de Jerusalém, para ajudar a sua parente naquilo que fosse necessário aquando dos trabalhos do parto. À primeira vista, parece ir nesse sentido a informação do narrador que refere que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56). Verificamos, portanto, que Maria está de regresso a Nazaré no v. 56. E, para algum espanto nosso, no versículo imediatamente seguinte (v. 57) Isabel dá à luz. De forma clara então: Maria não foi visitar Isabel, demorando-se em sua casa cerca de três meses, para ajudar Isabel nos trabalhos do parto. Se assim fosse, o narrador não nos informaria, no v. 56, que Maria regressou a sua casa, para nos informar no v. seguinte, v. 57, que Isabel deu à luz. Não sendo essa a razão, temos então de procurar noutra direção pelo significado que o narrador quis dar a essa estada de cerca três meses de Maria em casa de Isabel. Vale aqui o velho princípio hermenêutico de considerar a Escritura como um todo unitário em que Deus fala, o que nos obriga a «ler a Bíblia com a Bíblia» (Tôrah mittôk Tôrah), para captarmos o sentido de uma locução. E então impõe-se-nos a anotação que consta em 2 Samuel 6,11 acerca da Arca do Senhor, sendo aí dito que «a Arca do Senhor ficou três meses em casa de Obed-Edom» [atual Bídu, hoje uma aldeiazinha palestiniana no caminho de Emaús El-Qubèibeh, no antigo território de Gat], «tendo o Senhor», presente na Arca, «abençoado Obed-Edom e toda a sua casa».

3. Portanto, Maria é, no texto de Lucas, a Arca do Senhor presente em casa de Isabel, que abençoa a casa de Isabel. Verificação: aquando do nascimento do menino, não é dito, o que seria de todo normal, que os vizinhos e os familiares de Isabel ouviram dizer que Isabel tinha tido um filho, mas sim que «os vizinhos e familiares ouviram dizer que Deus cumulou Isabel com a sua misericórdia» (Lucas 1,58).

4. O oitavo dia do nascimento de um menino é uma grande festa em Israel. É nesse dia que o menino é circuncidado e lhe é dado o nome. A casa de Isabel enche-se outra vez de familiares e vizinhos. Mais uma vez atento, o narrador diz-nos que aquela gente que veio para a festa queria dar ao menino o nome do seu pai, Zacarias (Lucas 1,59). Nem outra coisa era de supor, dado que, em contexto bíblico, o filho primogénito recebia habitualmente o nome do seu pai. Mas Isabel também estava atenta, e reagiu logo, dizendo: «Não, o menino chamar-se-á JOÃO» (Lucas 1,60).

5. Os presentes ficaram atónitos com a reação de Isabel, e fizeram questão de vincar tal incongruência, referindo que na família ninguém tinha esse nome (Lucas 1,61). Recorreram, pois, a Zacarias, que estava mudo desde Lucas 1,13, para que se pronunciasse sobre o assunto do nome do menino. Zacarias, porque estava mudo, pediu uma tabuinha de cera, e escreveu: «O seu nome é JOÃO!», o que provocou o espanto de todos os presentes (Lucas 1,62-63).

6. Porquê, então, o nome de JOÃO? É certo que já o Anjo tinha mencionado a Zacarias este nome em Lucas 1,13. Mas porquê JOÃO, se ali, no livro anagráfico daquela família ninguém registava esse nome? O que significa o nome JOÃO? Em hebraico, JOÃO diz-se Yôhanan. Yôhanan significa literalmente «YHWH faz graça». E o que é fazer «fazer graça»? É, numa cultura que vive do concreto, uma mãe que embala ternamente o seu bebé nos braços e baixa para ele o seu olhar carinhoso, bondoso, maravilhoso, gracioso, maternal. É este duplo gesto de carinho maternal que é a graça bíblica. Sobretudo aquele olhar belo, enternecido, embevecido, maternal, que enche o bebé de graça.

7. É assim que Deus olha para nós, e nos acaricia. É assim que Maria é saudada pelo Anjo com aquele: «Alegra-te, Cheia de Graça!» (Lucas 1,28). E é isso que Maria canta no Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor,/ e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,/ porque Ele Olhou (epiblépô = olhar condescendente) para a sua humilde serva» (Lucas 1,46-47).

8. O nome JOÃO não estava registado no livro anagráfico daquela família. O nome dado não é, portanto, da nossa colheita. Vem de Deus. Foi anunciado pelo Anjo. O que é que isto quer dizer? JOÃO é, por assim dizer, o último profeta do Antigo Testamento, e o primeiro do Novo Testamento. Sendo o último do Antigo Testamento, ele resume todo o Antigo Testamento: «Deus faz graça». Sendo o primeiro do Novo Testamento, ele constitui o sumário de todo o Novo Testamento: «Deus faz graça».

9. É a posição estratégica de JOÃO no limiar dos Dois Testamentos, encerrando um e abrindo outro, resumindo um e sumariando outro, que explica a nossa estranheza. Mas JOÃO é uma enorme lição. Neste Belo Nome está contida a inteira Escritura e constitui um imenso discurso sobre Deus. Parabéns, menino JOÃO, pelo teu nascimento no nosso mundo. Tu, que nos vieste mostrar Deus!

10. O Antigo Testamento serve-nos hoje, na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, o chamado «segundo canto do Servo de YHWH» (Isaías 49,1-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» fala em primeira pessoa e refere o seu chamamento por Deus, que continua a dizer o seu nome e a revelar-se a ele. Na verdade, Deus quer fazer dele o restaurador de Israel, o condutor dos exilados de Judá, mas também quer que ele seja uma luz para as nações, pois Deus quer que a sua salvação chegue até aos confins da terra. Da mesma forma, João não é a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz (João 1,7-8).

11. Também temos hoje a graça de ouvir um pequeno extrato (Atos 13,22-27) do extenso «módulo narrativo» da história da salvação feito por Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,16-41). A parte hoje narrada e escutada põe diante de nós a história santa desde a promessa feita a David até João Batista, que mostra a sua realização, apontando Jesus.

12. O Salmo 139 é uma pequena maravilha, que põe diante de nós um Deus que se interessa por nós desde a nossa gestação no seio materno, ainda em embrião (golem) (Salmo 139,16), e depois acompanha com conhecimento pessoal todo o nosso percurso, toda a nossa vida. Tudo maravilhoso e admirável. Ó Deus amigo dos homens!

António Couto