1. Diz acertadamente S. Gregório de Nazianzo (329-389), conhecido como «o Teólogo» (ho teólogos): «O Antigo Testamento proclamava manifestamente o Pai, o Filho de forma mais obscura. O Novo Testamento manifestou o Filho, e deixou entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito tem direito de cidadania (empoliteúetai) entre nós, e dá-nos uma visão mais clara de si mesmo».
2. S. João Paulo II proclamou em sucessivos documentos o Espírito Santo como o Espírito-Dom que, de resto, o Novo Testamento sabe dizer admiravelmente. Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza e infinita doação constitui o Filho, infinita pobreza e infinita receção, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita receção, o Filho volta a dar tudo numa infinita e recíproca doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo.
3. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor, princípio da doação, mas não perde a sua dimensão paterna, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor, termo da doação, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma ação requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objeto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, a nossa intimidade, menos é um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do ato da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o ato da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira.
António Couto
