O medo não habita a nossa casa.
O medo transforma a nossa casa em fortaleza,
tranca portas e janelas,
esconde-se debaixo da mesa.
…
Mas vem Jesus e senta-nos à mesa.
Começa a contar histórias e estrelas,
leva-nos até ao colo de Abraão,
até à Criação,
sopra sobre nós um vento novo,
rasga uma estrada direitinha ao coração:
chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.
…
Varrido para o canto da casa pelo vento,
rapidamente todo o medo arde.
Ardem também bolsas, portas e paredes,
e surge um lume novo a arder dentro de nós,
mas esse não nos queima nem o podemos apagar.
…
Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,
com esse vento, com esse fogo dentro,
portugueses, ucranianos, russos e chineses,
começamos a falar e tão bem nos entendemos,
que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.
…
E afinal não temos.
Vendo melhor,
maternais mãos invisíveis nos embalam,
nos sustentam.
Sentimos que estamos a nascer de novo,
percebemos que somos irmãos,
filhos renascidos deste vento, deste lume.
E não é verdade que falamos,
mas que alguém dentro de nós fala por nós,
chama por Deus,
como um menino pelo Pai.
…
António Couto
