PÁGINAS DE GUERRA E DE AMOR

1. As páginas de maio passam entre nós suavemente, por entre cânticos e flores, e alguns dissabores. Mas ser cristão, em Mossul, é não ter nada na mão e uma dor sem fim no coração.

2. Há quarenta anos que uma família cristã vive lado a lado com uma família muçulmana. Dão-se bem. Sempre se deram bem. Mas agora, diz o muçulmano para o cristão: «Tens 24 horas para te pores a andar daqui para fora; se te volto a ver, mato-te, pois tenho direito a ficar com a tua casa, e com tudo o que é teu».

3. No dia seguinte, este cristão preparou-se para partir com a sua família, mas, antes de o fazer, ainda bateu à porta do seu amigo muçulmano.

4. «Ainda estás aqui? Não te disse que te matava se te voltasse a ver?», gritou o muçulmano. «Sim, amigo, bem sei, mas somos vizinhos há quarenta anos. Como podia partir sem me despedir?», disse o cristão.

5. Ao ouvir isto, o muçulmano comoveu-se, abraçou o cristão, e disse-lhe: «Bem o sinto, não te vás embora, proteger-te-ei; não te vai acontecer nada de mal, nem a ti nem à tua família».

6. «Tarde demais», respondeu o cristão; rompeu-se a confiança; já não há lugar em Mossul para os cristãos; vamos embora».

7. Dói saber que, pela primeira vez desde o século III, não há um único cristão em Mossul.

8. Nossa Senhora de maio, da paz e da confiança, vela por estes teus filhos, que fogem da tempestade, à procura da bonança.

António Couto

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