A OUTRA LUZ DO NATAL

À nossa volta parece tudo escuro:

espingardas, mentiras, raivas, ódios,

Herodes a mais, Belém a menos,

Belém outra vez sem paz e sem meninos,

sem alegria, só com sangue e choro,

sem coro e decoro de Natal.

…

É como se o tempo corresse para trás,

e para trás corresse também a água das fontes,

o sopé dos montes,

a linha que define os horizontes.

…

Onde estamos, afinal? Onde chegamos?

Quem somos? Para onde vamos?

Não somos nós a humanidade por Deus criada?

O que é feito da nossa liberdade e responsabilidade?

Não partilhou connosco Deus

o seu poder omnipotente,

a sua ciência omnisciente,

a sua presença omnipresente,

a sua vida vivente?

…

Para que servem os túneis, os paióis,

os mísseis, os muros, as trincheiras?

Por que investimos tão pouco em presépios,

em presentes,

em abraços, em flores, em sementes?

…

Vem, Senhor Jesus,

o mundo precisa tanto da tua Luz.

…

António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, p. 52.

Published by