A OUTRA LUZ DO NATAL

À nossa volta parece tudo escuro:

espingardas, mentiras, raivas, ódios,

Herodes a mais, Belém a menos,

Belém outra vez sem paz e sem meninos,

sem alegria, só com sangue e choro,

sem coro e decoro de Natal.

É como se o tempo corresse para trás,

e para trás corresse também a água das fontes,

o sopé dos montes,

a linha que define os horizontes.

Onde estamos, afinal? Onde chegamos?

Quem somos? Para onde vamos?

Não somos nós a humanidade por Deus criada?

O que é feito da nossa liberdade e responsabilidade?

Não partilhou connosco Deus

o seu poder omnipotente,

a sua ciência omnisciente,

a sua presença omnipresente,

a sua vida vivente?

Para que servem os túneis, os paióis,

os mísseis, os muros, as trincheiras?

Por que investimos tão pouco em presépios,

em presentes,

em abraços, em flores, em sementes?

Vem, Senhor Jesus,

o mundo precisa tanto da tua Luz.

António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, p. 52.

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