1. A Declaração Nostra aetate sobre a relação da Igreja com as religiões não cristãs foi aprovada no Concílio II do Vaticano no dia 28 de outubro de 1965, passam hoje, portanto, 60 anos. Esta Declaração constituiu um passo importante, pois abriu a Igreja ao mundo e às diferentes expressões de religiosidade.
2. Quero recordar hoje, com particular afeto, as renovadas relações da Igreja com o judaísmo. Lembro a participação, por parte do judaísmo, de Abraham Joshua Heschel, um sábio, um crente, um orante na verdadeira aceção das palavras, homem de grande envergadura intelectual, espiritual e moral. Heschel nasceu em 1907 em Varsóvia e faleceu em 23 de dezembro de 1972 em Nova Iorque. Em 1965, participou com Martin Luther King na grande marcha a favor dos direitos dos negros. Participou de um modo tal, que chegou a confessar com verdade: «senti as minhas pernas rezar».
3. A sua ação vigorosa fez-se sentir também no âmbito do diálogo religioso, e, como escreveu a sua filha, Susannah Heschel, começou mesmo a sentir grande afinidade com os católicos, sentimento, de resto, recíproco por parte dos católicos. Tinha um grande amigo no Cardeal Bea, que foi o principal redator da Declaração Nostra aetate. Teve também diversos encontros com o Papa Paulo VI, havendo entre os dois grande admiração e estima mútua. O último encontro, confessa Heschel, ocorreu em março de 1971, quando foi recebido por Paulo VI em audiência particular, que Heschel descreveu assim: «Quando o Papa me viu, abriu um grande sorriso, cheio de alegria, com o rosto radiante, e pegou na minha mão, apertando-a cordialmente com ambas as mãos, gesto que repetiu diversas vezes durante a audiência. Iniciou o encontro dizendo-me que estava a ler os meus livros, que os julgava muito espirituais e muito belos, e que um católico os devia ler».
4. Foi professor na Alemanha, na Polónia e nos Estados Unidos. Conseguiu fugir das perseguições nazis, mas vários dos seus familiares foram assassinados nos campos de Treblinka e Auschwitz. É um dos grandes pensadores do séc. XX, com vasta obra realizada e publicada. Os seus livros são, de facto, obra de grande sabedoria, excecional cultura, e fina sensibilidade literária, requerendo do seu leitor extrema atenção e apurado sentido literário. Os títulos, que cito em português, são muito significativos: Deus à procura do homem; O homem à procura de Deus; O homem não está só; Quem é o homem?; O canto da liberdade; A mensagem dos profetas; O sábado; A descida da Shekinah… Os originais estão em língua inglesa, mas encontram-se traduzidos em diferentes línguas.
António Couto
