Do Oriente veio em procissão de esperança
o melhor da nossa humanidade.
Os magos caminharam à luz de uma estrela nova,
recém-nascida,
mansa,
como uma criança.
…
A procissão faz-se em passos de dança,
e a estrela só pode ser olhada com olhos puros,
de cristal,
com alma enternecida,
e coração de natal.
…
Por isso,
não a viu Herodes,
não a viram os guardas,
não a viram os sábios,
que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.
…
Viram-na os magos,
pegaram nela à mão,
levaram-na aos lábios,
deitaram-na no coração.
…
Vem, Senhor Jesus.
O mundo precisa tanto da tua Luz.
1. Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta de Jacob, um cetro se levanta de Israel (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, oriundo das margens do Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7), terra da sabedoria maior do que Salomão, de onde vêm os sábios e a burra de Balaão.
2. Balaão habita o coração da luz, escuta Deus, sabe que só pode dizer de Deus o que Deus disser, sai de entre as fragas frias e escarpadas, caminha por caminhos estreitos e murados, tem por companhia uma burra fiel e astuta, que escuta e vê Deus melhor que o dono, que corre atordoado pela pressa e pelo sono. Mas a burra trava de repente a correria, e atira Balaão ao chão, que se zanga e fustiga sem razão a astuta burra, que fez o que fez porque viu um anjo parado no meio do caminho, com a espada na mão desembainhada a fazer stop. Não o viu Balaão, viu-o a burra. Fustigada pelo dono uma e outra vez, travou-se a burra de razões, e pediu satisfações ao dono: «Que te fiz eu, para me bateres assim?» (Números 22,28), protesta a burra, fazendo coro com Miqueias 6,3 e os impropérios postos na boca de Jesus, enquanto se beija a Cruz em Sexta-Feira Santa.
3. Habituado a ler as estrelas, Balaão via à distância, e à distância viu Jesus. Mas a burra viu-o de perto, no caminho, viu-o bem, e ajoelhou-se logo ali, como se fosse ali o presépio de Belém. Quando Balaão se apercebeu e se levantou do chão, meteu a mão no bornal, e encontrou numa folha de jornal uma bênção que pronunciou sobre José, o Menino, e Maria, sua Mãe. E a burra de Balaão ofereceu-se logo ali para levar Jesus ao Egito, e o trazer de volta também.
António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 53-54.
