Isaías 7,10-14; Salmo 24; Romanos 1,1-7; Mateus 1,18-24
1. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação, que é a divina surpresa, e a adequação da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Neste Evangelho, os discípulos de Jesus nunca são ditos «justos», mas são chamados à «justiça», isto é, a andar no «caminho da justiça», auto destituindo-se, isto é, libertando-se dos seus projetos autorreferenciais, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: «não te metas com esse justo»), o que não deixa de ser uma nota significativa.
2. Fica então diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade com Deus (Mateus 1,18-24). A cena abre com a notícia acerca da origem (génesis) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e não nascimento. Se fosse nascimento, o texto grego assinalá-lo-ia com génnêsis. A cena remete essa origem para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria não provinha de José nem de uma possível infidelidade de Maria, mas do Espírito Santo (ek pneúmatos hagíou) (Mateus 1,19b). É assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa grávida durante o noivado, a que os hebreus chamam ՚arûsîn, antes da fase propriamente conjugal ou de coabitação, a que os hebreus chamam nîssû՚în, e não sabendo disso a razão, mas desconfiando, dado que o seu matrimónio com Maria era seguramente, não em ordem à procriação, mas de proteção mútua e de total dedicação a Deus.
3. Pode, de facto, ler-se este matrimónio de Maria e de José pelo estatuto dos chamados matrimónios putativos ou de proteção ou espirituais, a que não será alheia a locução «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê), que se lê em Lucas 1,27. O matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, é difícil de explicar no quadro habitual de um matrimónio em ordem à procriação, mas é possível explicá-lo mais, muito mais, no quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus, protegendo-se mutuamente. Neste quadro religioso, jurídico, social, Maria é apresentada como «desposada» (emnêsteuménê) (Mateus 1,18; Lucas 2,5), «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27), ou simplesmente como «a sua esposa» (hê gynê autoû) (Mateus 1,24), sendo José «o esposo de Maria» (ho anêr Marías) (Mateus 1,16) ou «o seu esposo» (hoanêrautês) (Mateus 1,19). A não ser este o estatuto do matrimónio de Maria e José, não se compreende que, posta perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), Maria avance logo a objeção concreta: «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34).
4. É também mais fácil compreender que, no quadro de um matrimónio habitual em mundo judaico, esta objeção não faria sentido, pois mais dia menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho, que era o ideal de qualquer casal judaico. Parece óbvio que não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter filhos. Faço notar que este estatuto matrimonial era conhecido no judaísmo, como se pode ver no tratado Niddah, da Mishnah judaica, e no cristianismo primitivo (ver as anotações precisas de Ireneu de Lião [130-202], Tertuliano de Cartago [160-220], Gregório de Niza [330-395] e Jerónimo [347-420]). Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que, no dizer de Gabriel, muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos (Lucas 1,13).
5. José nada sabia daquela gravidez de Maria, sua esposa, mas não duvidava da sua retidão (temîmût) e fidelidade a Deus. Suspeitava de Deus, mas guardava tudo para si, no silêncio do seu coração, como é dito também de Maria (Lucas 2,19.51). Evita cenas públicas. Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, «em um sonho» (kat’ ónar) (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, entenda-se, surpresas, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas antigas da Escritura Santa (cf. Isaías 60,1.4-5; 62,4-5). A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como se vê em Mateus 1,18-24, é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José» como se pode ver comparando o relato do encontro de Gabriel com Maria (Lucas 1,26-38) e o relato deste encontro de um anjo com José (Mateus 1,18-24). E esta cumplicidade mansa, em sonhos, entre Deus e S. José, sempre com Deus a conduzir a cena, continua a ver-se aquando da procura de refúgio no Egito, devido à raiva assassina de Herodes (cf. Mateus 2,13), aquando do regresso do refúgio do Egito à terra de Israel, após a morte de Herodes (cf. Mateus 2,19-20), e na ida para a Galileia, para Nazaré porque, aquando do regresso do refúgio do Egito, reinava na Judeia Arquelau, filho de Herodes, que não era melhor do que o seu pai (cf. Mateus 2,22-23).
6. Sempre em bicos de pés e no limiar do silêncio, e lendo bem os acontecimentos à luz de Deus, o «justo» José passa discretamente da possível ideia de expor Maria à difamação pública (deigmatízô) para a ideia de ele próprio sair de cena em segredo (láthra) (Mateus 1,19), entregando assim a cena toda a Deus, imitando desse modo a leitura do seu homónimo José (do Egito)!
7. Em boa verdade, este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!), não deixa de lembrar o outro José, «o homem dos sonhos» (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime.
8. A missão esponsal de José, declarado «justo» (Mateus 1,19), fica logo clarificada pelo anjo que o incumbe de receber Maria como sua esposa (Mateus 1,20). Mas José, também pelo anjo chamado «filho de David» (Mateus 1,20), expressão fora deste passo só usada acerca de Jesus, mostra bem a importância de José para incorporar Jesus na linhagem davídica, e explica a razão pela qual José é incumbido pelo anjo da sua particular missão paternal em relação ao filho que a sua esposa Maria vai dar à luz. É preciso ter em conta que Mateus toma todos os cuidados, já no v. 16, para precisar que Jesus é filho de Maria, esposa de José, mas que não é filho de José, afirmando depois, nos vv. 18 e 20, que a conceção de Maria é obra do Espírito Santo. Esta afirmação, retirando José da conceção de Jesus, tornaria inútil a inteira linha genealógica cuidadosamente traçada por Mateus em 1,1-16 com o intuito de integrar Jesus na descendência de David. Em termos da linha do sangue resulta de facto impossível, dado que Jesus é filho de Maria, mas não de José. Então, o que é impossível pela via do sangue, vai tornar-se possível pela via da adoção. O primeiro ato da missão paternal de José, a quem o anjo se dirige chamando-o propositadamente «filho de David» (v. 20), consistirá então, também por indicação do anjo, na adoção formal do filho que vai nascer de Maria, dando-lhe o nome de Jesus (v. 21). Modo de fazer também de Deus, que diz de Israel: «Chamei-te pelo teu nome; tu és meu» (Isaías 43,1). Ao dar-lhe o nome de Jesus, indicado pelo anjo (vv. 21 e 24), José assume o estatuto de pai legal de Jesus, que assim se torna seu filho e herdeiro e fica inserido na linha dinástica de David. O nome «Jesus» surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (v. 21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida da SALVAÇÃO e do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem conta, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice na ceia pascal: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (Mateus 26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!
9. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é Emanuel, «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, sorve, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão, contemporâneo e companheiro, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos juntos a dar-lhe o nome de Emanuel, Deus connosco. Mateus faz aqui uma citação de Isaías 7,14 que, por graça, também hoje é objeto de leitura para nós. Mas Mateus faz uma alteração literária e teológica fundamental. Em Isaías lia-se no texto hebraico: «E ela [a jovem mãe] chamará o nome dele Emanuel». O verbo hebraico weqaraʼt [«chamar-lhe-á»] aparece aqui na 3.ª pessoa do singular feminino. Na versão grega dos LXX lemos kaléseis [«chamar-lhe-ás»] na 2.ª pessoa do singular masculino. Mas Mateus altera o sujeito e a forma verbal e escreve assim: «E eles chamar-lhe-ão (kalésousin) Emanuel» (Mateus 1,23). Com esta mudança de sujeito e forma verbal do singular para o plural, Mateus faz de Jesus, não apenas o sinal de salvação dado a um povo, mas sinal de salvação para todos os povos! E a dádiva do nome por todos, por nós também, implica-nos a todos com este Jesus, Emanuel, Deus connosco. Sempre.
10. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva pela mão o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»] (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pequeno pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como para-vento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade de quem reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.
11. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abi, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abi, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» dado fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus, como, por graça, nos é dado ouvir no Evangelho de hoje (Mateus 1,18-24). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734, se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).
12. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que vem a acontecer, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926 a.C., data da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.
13. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Isaías 9,1-6 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.
14. Temos também hoje a graça de receber o início da Carta de S. Paulo aos Romanos (1,1-7), em que podemos identificar a apresentação ou titulatio [«Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado apóstolo, separado para o Evangelho de Deus»] (v. 1), seguida de um longo parêntesis cristológico (vv. 2-6), o endereço ou adscriptio [«a todos os que estão em Roma, amados de Deus, aos chamados santos»] (v. 7a), e a saudação ou salutatio [«Graça a vós e Paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo»] (v. 7b). Notemos que a locução «Graça e Paz» abre todas as Cartas de S. Paulo, e «A Graça» está em todas as saudações finais, fechando todas as Cartas. Mas é ainda grandemente sintomático que, depois deste início, a Carta aos Romanos prossiga assim: «Primeiro, dou Graças ao meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por todos vós…» (Romanos 1,8). Aqui está o mesmo olhar de bondade e de beleza, ícone de Paulo em oração sem fim. Na verdade, depois daquele «primeiro», ficamos à espera de encontrar um «segundo» ou um «depois», que, todavia, nunca mais aparecerá. A Graça e a Ação da Graça estão antes de tudo e preenchem tudo. Nesse sentido, é bom e justo que tomemos consciência de que não é mais suficiente um cristianismo convencional, marcado pela ação social. É hoje igualmente insuficiente a espiritualidade da militância, que persegue a causa nobre de uma Igreja viva e participada e da construção de um mundo melhor. Um serviço pastoral que se reduza a «coisas que fazer» está gasto. Passou o tempo dos cristãos meramente «praticantes». Hoje são necessários cristãos enamorados, à maneira de Paulo.
15. Vem, Senhor Jesus. Só um amor como o teu transformará este mundo e salvará o nosso engessado coração! O «justo» José pode ensinar-nos como te ensinou a andar, menino, a dar os primeiros passos, e também como tu, menino, lhe ensinaste a ele a andar no «caminho da justiça».
16. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e nosso Salvador que vem na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No primeiro andamento deste Salmo (vv. 1-6), justamente a parte Hoje cantada, somos convidados a acolher este Senhor com as mãos limpas e o coração purificado. O teólogo luterano alemão Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».
António Couto
