1. Neste dia dedicado a São Sebastião, Padroeiro principal da nossa Diocese de Lamego, quero saudar todos os filhos da nossa Diocese, espalhados por todas as paróquias, por todos os recantos de Portugal e também em países de imigração, sobretudo os mais fragilizados, os doentes, os reclusos, os que perderam Deus e a esperança. A todos entrego à solícita proteção de São Sebastião que, ao longo dos séculos, tem sempre sabido defender quem dele implora pronto-socorro em situações difíceis de fome, de peste e de guerra. Quero saudar de modo particular o Sr. D. Jacinto, meu irmão no Episcopado, que hoje celebra o 30.º aniversário da sua Ordenação Episcopal, que teve lugar nesta Catedral no dia 20 de janeiro de 1996.
2. Portanto, a nossa Igreja de Lamego está hoje em festa. A razão fundamental é porque celebramos hoje o nosso Padroeiro principal, São Sebastião, de quem recebemos a implorada e desejada proteção e a suprema lição, que não passa por um sermão, mas pela doação da própria vida. A nós, que aqui nos reunimos hoje, interessa-nos saber que foi Jesus Cristo a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. Foi intensa a sua LUZ, imenso e notório o seu TESTEMUNHO no meio de uma cidade ensonada e às escuras.
3. No meio da cidade pestilenta e decadente de Roma, São Sebastião representa uma fonte de vida e um ponto de luz. Há a cidade dormente e sonolenta. E há, em contraponto, a cidade alumiada e atenta, que não se pode esconder sobre um monte. Não se pode apagar o horizonte. Não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição que desencadeou contra os cristãos nos primeiros anos do século IV. O tirano, Diocleciano, fez o que podia fazer. Mas era pouco e tarde demais. Mandou quebrar o frasco cheio de perfume. Mas não se apercebeu que, ao quebrar-se o frasco, se soltaria o perfume, que nem o estrume de Roma podia apagar. E foi assim que o perfume intenso daquele amor imenso se espalhou por Roma e pelo mundo inteiro. Já sabemos que chegou também a Lamego esse aroma intenso e perfumado, que sanava a fome, a peste e a guerra, mas também o frio, e sobretudo o vazio do coração e da alma, a descrença e a indiferença, a maior doença que corrói a sociedade.
4. Um documento manuscrito guardado na Biblioteca Nacional reporta uma grande peste em Lisboa e Alcácer do Sal em 1569 e 1570, que provocou muitas dezenas de milhar de mortos. O vocabulário é semelhante ao que nós usamos hoje: «cercas sanitárias», «isolamento», «quarentenas». Lê-se ainda, nesse documento que, no dia 22 de agosto de 1569, de uma imagem de São Sebastião escorreram grossas gotas de água claríssima que, recolhidas em lenços, curaram então muitas pessoas.
5. Acabados também nós de sair de um tempo de pandemia, eis-nos já entrados num tempo de guerras brutais como há muito não se via, em que já se contam centenas de milhares de mortos, milhões de vidas humanas truncadas, atiradas ao lamaçal da sorte, a um vale de lágrimas, ao desalento e ao sofrimento. Tempo de imunda insensatez. Não é pensável que um ser humano sensato ocupe o seu tempo a pensar como pode matar mais e mais depressa. Seguramente não falta dinheiro a este mundo. Falta amor a este mundo. Falta Deus a este mundo. É por isso que faltam irmãos, e sobram inimigos.
6. Jesus não veio trazer-nos uma definição de Deus. Veio trazer-nos Deus, e mostrar-nos que somos filhos e irmãos, amados e não abandonados. Não nos ensinou montes de orações. Só nos ensinou a rezar o Pai Nosso e a perceber o alcance das palavras que dizemos. E, portanto, ouvimos no Evangelho de hoje (Mateus 10,28-33): Tende confiança! Valeis mais do que muitos passarinhos. Se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não semeiam nem ceifam, com quanto mais carinhos cuidará de nós, seus filhos queridos! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tão segura que está mesmo retratada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16).
7. Portanto, Igreja de Lamego, tem confiança. Aprende outra vez a rezar o Pai Nosso. Levanta-te e vai com os passarinhos, que não semeiam nem ceifam, mas voam e cantam os louvores do nosso Pai, que está nos Céus. Levanta-te e vai com São Sebastião, e enche este mundo de perfume e de unção, de oração, de comunhão e de paixão. Enche este chão bendito de estradas de Jericó, onde passa o próprio Deus, e se debruça sobre o teu pó, e o levanta e o beija.
8. Vem, Senhor Jesus! Ensina-nos outra vez a rezar o Pai Nosso, e isso nos basta. Nós vo-lo pedimos por intercessão do Mártir S. Sebastião. Amém.
António Couto
