• Senhor,

    Tu firmaste a terra há muito tempo,

    o céu é obra das tuas mãos.

    Eles perecem, mas Tu permaneces.

    Eles ficam gastos como a roupa.

    Sim,

    Tu os mudarás como um vestido,

    e eles ficarão mudados.

    Mas tu permaneces o mesmo,

    e os teus anos jamais findarão.

    O homem é como a erva,

    e toda a sua glória como a flor do campo.

    Seca a erva e murcha a flor,

    mas a tua Palavra, Senhor, permanece para sempre.

    Neste mês em que a paisagem muda,

    as folhas caem,

    as árvores choram,

    e nós verificamos que a nossa vida é breve e frágil,

    como a lançadeira no tear,

    assiste-nos, Senhor, mais de perto, com a tua bondade,

    sustém os nossos passos vacilantes,

    alumia os olhos do nosso coração titubeante,

    faz-nos sentir a alegria da tua presença carinhosa

    e senta-nos à mesa

    da certeza da tua salvação.

    António Couto


  • Job 19,1.23-27; Salmo 27; 2 Coríntios 4,14-5,1; Mateus 11,25-30

    2 Macabeus 12,43-46; Salmo 103; 2 Coríntios 5,1.6-10; João 11,21-27

    Isaías 25,6a.7-9; Salmo 23; 1 Tessalonicenses 4,13-18; João 6,51-58

    1. No próximo dia 2 de novembro, este ano dia de Domingo, XXXI do Tempo Comum, celebramos a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Seja qual for o texto de Paulo hoje lido e escutado, é sempre de uma enxurrada de vida nova que se trata, mas que, a fazer fé no que se sente, ouve e vê, parece que já não nos diz nada, não fala para nós, nenhuma fome nos mata, nenhuma sede nos apaga, não responde a nenhuma inquietação nossa. E, todavia, os textos de Paulo que hoje lemos, quer provenham das Cartas aos Coríntios ou aos Tessalonicenses, eram então ansiosa e atentamente recebidos e respondiam às questões que se punham os cristãos das comunidades dos anos 50: o que acontece com a nossa morte? O que vai acontecer quando Cristo Ressuscitado vier ao nosso encontro? E como pode a humanidade das gerações que viveram e morreram antes de Jesus ter aparecido a calcorrear os caminhos da Palestina beneficiar da salvação por Ele trazida e oferecida?

    2. Em boa verdade, não parece credível que as questões acima formuladas façam parte das preocupações das pessoas que hoje frequentam as igrejas ou visitam os cemitérios das nossas comunidades paroquiais. Tanto quanto nos podemos aperceber, as questões que as gentes de hoje transportam têm mais a ver com a situação daqueles que a morte separou de nós: o que permanece da relação que tínhamos com eles? O que permanece sobretudo da amizade, do amor, do carinho que se partilhava quando eles ainda estavam connosco? Haverá alguma maneira, alguma possibilidade de lhes permanecermos fiéis? Poderemos, porventura, fazer algo mais do que colocar estas flores sobre a sua campa?

    3. Podemos, com certeza, pôr tranquilamente de parte a imagem do toque da trombeta e dos restos mortais a saírem dos túmulos. Mas também podemos abandonar sem medo o medo quotidiano da morte que uma certa pregação medieval e moderna incutia nas pessoas. É sabido, de resto, que esta comemoração de todos os fiéis defuntos é de origem medieval e monástica, e acusa, por vezes, traços de piedade duvidosa e supersticiosa, acentuados ainda por outras estranhas ideologias que, de forma difusa, dissimulada e até violenta, invadem hoje o nosso quotidiano.

    4. Estranha Boa Nova que amedrontava para levar à conversão. Conversão a que deus?, temos de nos perguntar. Porque não era seguramente àquele Deus a quem Jesus tratava por Pai e nos ensinou a tratar também por Pai. E a força explosiva dos textos de Paulo hoje lidos não está nos acessórios, mas reside toda no nosso conhecimento pessoal e experimental (ginôskô / yadaʽ) de Jesus Cristo e da força (dýnamis) da sua Ressurreição (Filipenses 3,8 e 10). «Em verdade, em verdade, vos digo: “Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna (zôê aiônios), e passou da morte para a vida (zôê)”» (João 5,24).

    5. Sim, esta Palavra nova que Jesus faz irromper na nossa vida faz-nos saber que o peso e o medo da morte já passou, afinal, para trás de nós, de tal modo que já não pode ameaçar apagar, mais dia, menos dia, como uma esponja, a vida que vamos construindo com o amor novo que nos vem do Ressuscitado, pois é este amor que nos faz passar da morte para a vida (zôê) (1 João 3,14). E mesmo quando o sofrimento cai sobre nós como uma avalanche, transformando a nossa vida num insuportável pesadelo, como sucede com Job, seremos ainda levados a descobrir que não é Deus que nos persegue e fustiga, pois Ele permanece ao nosso lado, dado que é Ele o nosso «familiar mais próximo», que é o nosso «redentor» (goʼel) (Job 19,25), aquele a quem cabe o dever, a obrigação, de velar sempre por nós em todas as situações difíceis da nossa vida. Os pretensos e falsos amigos de Job tudo fazem para o fazer calar. Vão de argumento em argumento. Só Deus se vem verdadeiramente sentar ao nosso lado, põe a sua mão de Pai sobre o nosso ombro (Job 9,33), carrega sobre si as nossas dores e a nossa morte (Isaías 53,4; Mateus 8,17; Hebreus 2,14-15), limpa os nossos olhos e o terreno todo à nossa frente, dá-nos a mão para a liberdade, libertando-nos também do temor da morte (Hebreus 2,15).

    6. Estranha aberração que a Igreja tenha durante tanto tempo pregado a resignação, a aceitação do sofrimento, mas também da injustiça e da desigualdade. Sim, mas a fé na ressurreição é esta força (dýnamis), esta alavanca, que mantém Job de pé, e o leva a recusar até ao fim a resignação, a demissão, a ideia de um Deus que ficaria satisfeito com a injustiça.

     7. Faz-nos bem sentar hoje com tempo à beira da página do Evangelho de Mateus 11,25-30. As poucas linhas que a atravessam guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

    8. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem podem confiar (2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos das crianças batizadas: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

    9. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua História de uma alma, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança já desmamada (gamûl). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

    10. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que pensam que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, que dele dependem a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos na mão as chaves de tudo e de todos, que cantamos a nossa radical autonomia e liberdade de escolha, a hipertrofia do «eu», um «eu» sem «me», nominativo sem acusativo, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança e a quem entregamos a guarda do nosso mais precioso tesouro, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

    11. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança em Deus, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

    12. É assim que o Evangelho deste Dia entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Nenhum arrogante ou elegante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida (bíos e psychê) para dar, e a vida divina (zôê aiônios) para receber.

    13. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus que, por graça, nos deu a sua vida divina, vida vivente, vida eterna (zôê aiônios) que não morre nunca mais.

    António Couto


  • «O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egito,

    e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

    CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

    DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

    e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa,

    para uma terra que mana leite e mel”».

    Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

    Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

    É um Deus bem atento, próximo e interventor.

    É um Deus que, por amor, SAI de SI,

    e não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua eternidade.

    Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

    Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

    que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

    conhecidos e anónimos,

    e aos Fiéis Defuntos.

    Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

    que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

    como escreveu bem S. João Paulo II.

    E o SANTO é aquele que SAI de SI,

    é aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

    vê com os olhos de Deus,

    fala com a língua de Deus,

    acaricia com as mãos de Deus,

    ama com o coração de Deus.

    Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

    dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

    e a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e necessitados.

    Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

    António Couto


  • Apocalipse 7,2-4.9-14; Salmo 24; 1 João 3,1-3; Mateus 5,1-12a

    1. Dia um de novembro. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (cf. Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) de si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

    2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projetos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Santa Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele que é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica!

    3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» de Mateus 5,1-12, que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10). Eis o precioso texto:

    «5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

    Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

    2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

    3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

    porque deles é o reino dos céus;

    4FELIZES os aflitos,

    porque serão consolados;

    5FELIZES os mansos,

    porque herdarão a terra;

    6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

    porque serão saciados;

    7FELIZES os misericordiosos (eleêmones), porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

    8FELIZES os puros de coração,

    porque verão a Deus;

    9FELIZES os fazedores de paz,

    porque serão chamados filhos de Deus;

    10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

    porque deles é o reino dos céus.

    11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

    e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

    por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

    4. Sim, escutámos por nove vezes o termo «FELIZES». Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente, anestesiado e medicado em que vivemos.

    5. Também não nos devemos esquecer que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa S. João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, S. João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

    6. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shefal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

    7. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144 000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144 000, número perfeito e incontável [12 vezes 12 vezes 1000], que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo.

    8. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é», grande teologia da divinização por graça aportada pela página inesgotável da Primeira Carta de S. João 3,1-3. Filiação por graça, diferente da filiação natural de Jesus. Deus ama-nos. O mundo não nos ama. O mundo não sabe amar. A natureza não ama ninguém, não sabe amar. Mas, em grande contraponto, Deus ama-nos. Não o vemos no decurso da história humana, mas «vê-lo-emos como Ele é», em versão transformante, pois «seremos semelhantes a Ele». «Quem tem esta esperança nele, torna-se puro como Ele é puro». É esta a esperança (elpís) – termo usado só aqui em todo o tecido joanino –, que o amor de Deus faz habitar em nós.

    9. Sim, disse-o no Sínodo sobre a Nova Evangelização (2013) para mim e para todos os homens de boa consciência e boa vontade que vivem de olhos postos em Cristo: por que será, perguntava eu, que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, para serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (cf. Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), para sermos ricos e importantes?

    10. «Esta é a geração dos que procuram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (v. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o «não ir atrás dos ídolos» e «não praticar fraudes» (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia regista por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade». Por aqui passa o Dia de todos os Santos.

    António Couto


  • 1. A Declaração Nostra aetate sobre a relação da Igreja com as religiões não cristãs foi aprovada no Concílio II do Vaticano no dia 28 de outubro de 1965, passam hoje, portanto, 60 anos. Esta Declaração constituiu um passo importante, pois abriu a Igreja ao mundo e às diferentes expressões de religiosidade.

    2. Quero recordar hoje, com particular afeto, as renovadas relações da Igreja com o judaísmo. Lembro a participação, por parte do judaísmo, de Abraham Joshua Heschel, um sábio, um crente, um orante na verdadeira aceção das palavras, homem de grande envergadura intelectual, espiritual e moral. Heschel nasceu em 1907 em Varsóvia e faleceu em 23 de dezembro de 1972 em Nova Iorque. Em 1965, participou com Martin Luther King na grande marcha a favor dos direitos dos negros. Participou de um modo tal, que chegou a confessar com verdade: «senti as minhas pernas rezar».

    3. A sua ação vigorosa fez-se sentir também no âmbito do diálogo religioso, e, como escreveu a sua filha, Susannah Heschel, começou mesmo a sentir grande afinidade com os católicos, sentimento, de resto, recíproco por parte dos católicos. Tinha um grande amigo no Cardeal Bea, que foi o principal redator da Declaração Nostra aetate. Teve também diversos encontros com o Papa Paulo VI, havendo entre os dois grande admiração e estima mútua. O último encontro, confessa Heschel, ocorreu em março de 1971, quando foi recebido por Paulo VI em audiência particular, que Heschel descreveu assim: «Quando o Papa me viu, abriu um grande sorriso, cheio de alegria, com o rosto radiante, e pegou na minha mão, apertando-a cordialmente com ambas as mãos, gesto que repetiu diversas vezes durante a audiência. Iniciou o encontro dizendo-me que estava a ler os meus livros, que os julgava muito espirituais e muito belos, e que um católico os devia ler».

    4. Foi professor na Alemanha, na Polónia e nos Estados Unidos. Conseguiu fugir das perseguições nazis, mas vários dos seus familiares foram assassinados nos campos de Treblinka e Auschwitz. É um dos grandes pensadores do séc. XX, com vasta obra realizada e publicada. Os seus livros são, de facto, obra de grande sabedoria, excecional cultura, e fina sensibilidade literária, requerendo do seu leitor extrema atenção e apurado sentido literário. Os títulos, que cito em português, são muito significativos: Deus à procura do homem; O homem à procura de Deus; O homem não está só; Quem é o homem?; O canto da liberdade; A mensagem dos profetas; O sábado; A descida da Shekinah… Os originais estão em língua inglesa, mas encontram-se traduzidos em diferentes línguas.

    António Couto


  • A Palavra de Deus desce, desce, desce,

    atravessa as nuvens,

    como chuva miudinha,

    cai num pedaço de chão,

    ou num pobre coração,

    e adormece

    como o crescente

    no ventre da farinha,

    e cresce, cresce, cresce,

    até voltar a Deus, sua nascente.

    A oração do humilde é pobre e pura,

    mas sobe, sobe, sobe,

    como um passarinho,

    atravessa as nuvens,

    e deita-se de mansinho

    no coração de Deus,

    que presta atenção e cura

    as nossas feridas,

    as nossas alergias,

    e acaricia as nossas alegrias.

    Atende, Senhor, as nossas preces de hoje

    e de todos os dias.

    António Couto


  • Ben Sira 35,15-17.20-22; Salmo 34; 2 Timóteo 4,6-8.16-18; Lucas 18,9-14

    1. Domingo XXX do Tempo Comum. Aí está, no Evangelho de hoje (Lucas 18,9-14), mais uma parábola de Jesus direitinha ao nosso orgulhoso coração. Trata-se da famosa parábola do fariseu e do publicano, duas personagens muito tipificadas, que sobem ao Templo para rezar. O narrador fornece-nos, a abrir a parábola, a sua chave de interpretação, situando-se e situando-nos a nós também do lado do fariseu. Assim, seguindo a indicação do narrador, Jesus «disse ainda esta parábola para alguns (pròs tinas) que se consideravam justos (díkaioi) e desprezavam os demais» (Lucas 18,9). O leitor atento não deixará passar em branco esta disjunção: na verdade, considerar-se justo e desprezar os outros são duas posições contraditórias. Como é que a conjunção «e» (grego kaì) pode reunir duas afirmações completamente díspares? A surpresa da parábola está na conclusão (Lucas 18,14), em que o próprio Jesus revela o ponto de vista de Deus, isto é, dá a conhecer a reação de Deus à oração dos dois homens, mostrando que foi operada uma verdadeira reviravolta: o publicano, que se reconheceu pecador, foi declarado justificado (dedikaiôménos), ao contrário do fariseu orgulhoso que volta para casa privado da justiça que pensava possuir. O publicano, rezando desde o seu humilde chão, obteve o perdão, enquanto o fariseu pecou mesmo a rezar, arrogando-se o poder de julgar uma pessoa, e negando a Deus a possibilidade de perdoar, e ao homem a possibilidade de ser redimido. Ao contar esta parábola, a intenção de Jesus não é mostrar-nos a radiografia religiosa de duas figuras públicas e emblemáticas do seu tempo: um fariseu e um publicano. A intenção de Jesus é que a parábola nos atinja a nós, e dissolva o orgulho e a arrogância que nos habitam e orientam a nossa vida, quer na nossa relação com Deus, quer na nossa relação com o próximo.

    2. O facto de nos ser dito que os dois homens subiram ao Templo para rezar, é para os colocar e nos colocar, não numa situação qualquer, mas numa situação limite, dado que, de acordo com o fortíssimo dizer de Jeremias, «aproximar-se de Mim» (lageshet ʼelay), diz Deus, implica «empenhar [ou penhorar] o coração» (ʽarab ʼet-libbô) (Jeremias 30,21). «Empenhar o coração» no sentido estrito e técnico de «pôr o coração no prego», de «penhorar o coração», no contexto das «casas de penhores». Salta à vista que «penhorar o coração» é pôr a vida em risco, é como subir a um poste de alta tensão, onde vemos escrito: «perigo de morte». É, pois, nesta situação limite que são colocados os dois homens de hoje, e nós também. Esta situação dá às coisas uma seriedade imensa e intensa. Vejamos como tudo se passa.

    3. Vem primeiro a radiografia do fariseu. Entenda-se sempre, não de um homem da classe dos fariseus do tempo de Jesus, mas do farisaísmo que há em mim, em ti, em nós. O que a radiografia nos mostra é, então, um fariseu cheio de si, afogado em si, autossuficiente e autorreferencial. Já a água lhe dá pelo pescoço, dada a situação de proximidade com Deus em que ousou colocar-se, mas nem por isso «põe o coração» na situação limite em que se encontra. Para espanto nosso, na sua oração, não pede auxílio, não estende a mão; antes, procede a um estranho ritual de auto incensação e debita faturas e palavras orgulhosas que não atravessam as nuvens (Ben Sira 35,21). Mais parecem pedradas no charco em que alegre e orgulhosamente se afunda, agora já com a água a entrar-lhe pela boca adentro. Em breve as velas do coração ficarão encharcadas, e a embarcação afundar-se-á. À superfície, a boiar, antes de se afundarem também, fica um monte de faturas e de palavras inchadas. É assim que vive e reza o fariseu que há em mim, em ti, em nós. A balança do deve e haver com Deus, pensa o fariseu e pensamos nós muitas vezes também, está claramente desiquilibrada a seu e a nosso favor. Aí estão as faturas que Deus terá de nos pagar: «Jejuo duas vezes por semana [a lei mandava jejuar uma vez] e pago o dízimo de todos os meus rendimentos» (Lucas 18,12). Julga o fariseu, portanto, e julgamos muitas vezes nós também com ele, que temos muito crédito acumulado face a Deus. E, por isso, até nos damos ao luxo de dar graças (eucharistéô) a Deus por não sermos como os outros, que vemos como ladrões, injustos e adúlteros, nem como este reles publicano (Lucas 18,11), estes, sim, cheios de dívidas para com Deus. É assim que, no enfadonho monólogo da sua oração, o fariseu acusa os outros homens de serem ladrões, injustos e adúlteros (Lucas 18,11). Fina ironia do narrador! Os traços da acusação do fariseu aos outros correspondem exatamente à descrição do retrato que pouco antes Lucas ofereceu dos fariseus (Lucas 16,14-18). Convenhamos que este enfadonho monólogo de auto incensação e acusação dos outros é uma estranha forma de dar graças a Deus, isto é, de «fazer eucaristia» (Lucas 18,11). Este fariseu que eu sou acha-se com direitos adquiridos sobre Deus e sobre o próximo, de tal modo que facilmente os julgo e condeno. A sua e a nossa oração não atravessa as nuvens, como a do humilde (Ben Sira 35,21); desfaz-se contra as paredes da sua arrogância.

    4. Ao fundo da cena, sempre ao fundo da cena, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, este pecador, este publicano, leva a sério a situação limite que é rezar, que supõe verdade. Não vale a pena mentir à beira da morte, à beira da vida dada! Sim, é um publicano, um cobrador de impostos, coletor de dinheiro público, daí o publicano [do latim publicanus], é um traidor à pátria judaica, um vendido aos invasores romanos, um ladrão, porque, naquela profissão, sempre se cobravam uns cobres a mais. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão, rezando assim: «ó Deus, sê-me propício (hilásthêtì mou: imp. aor. pass. de hiláskomai), a mim, que sou pecador» (Lucas 18,13). No NT, o verbo hiláskomai [= ser propício] só se encontra aqui e em Hb 2,17. O nome hilastêrion [= propiciatório] encontra-se em Rm 3,25. É assim, com este pedido de propiciação, que o publicano põe a andar a sua pobre embarcação. É assim que reza o publicano que há em mim, em nós. É a verdadeira respiração ou oração do nosso coração. Conclui Jesus de forma solene: «Eu vos digo: “este desceu justificado (dedikaiôménos: part. perf. pass. de dikaióô) para sua casa; o outro não”» (Lucas 18,14a). Este justificado, no modo passivo, chamado passivo divino ou teológico, diz-nos que esta justificação é obra de Deus, não nossa. Diz bem São Paulo: «não com a minha justiça, a da lei, mas aquela através da fé em Cristo, a de Deus» (Filipenses 3,9; cf. Romanos 3,28). Na verdade, justificar significa transformar um pecador em justo. Então, justificar é perdoar. E, neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são ações que só Deus sabe e pode fazer («quem pode perdoar os pecados senão Deus somente?») (Lucas 5,21), dado que, transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Atenção, portanto: perante Deus, não há justos; há apenas justificados!

    5. Pode ajudar-nos uma belo conto judaico, edificante, sobre a verdadeira oração, que vai de encontro à parábola de Jesus, hoje escutada, e que mostra a oração como abandono a Deus e em Deus, louvor, súplica, confissão. O protagonista é David, depois do pecado de adultério com Betsabé e de homicídio na pessoa de Urias. David apresenta-se diante de Deus, e diz somente: «Pequei, Senhor!» (2 Samuel 12,13), calando-se logo e ficando em silêncio. Por que se cala?, pergunta o narrador. Porque se vê semelhante àquele pobre, esfomeado, com as roupas rotas, que um dia teve a sorte de poder entrar no palácio, de ir à presença fulgurante do rei. Chegado à beira do trono, não disse nada, não obstante a insistência dos cortesãos para que implorasse a ajuda do rei. Na verdade, não precisava de palavras. O seu próprio corpo, a sua miséria exposta, era um pedido mais forte do que qualquer palavra.

    6. O precioso Livro de Ben Sira, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, mostra-nos como Deus está atento ao indigente, à viúva, ao órfão, ao deserdado, ao humilde, e diz-nos que a sua oração atravessa as nuvens (Ben Sira 35,15-22). Belíssima expressão que se cruza com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, atravessa as nuvens para baixo e para cima, enchendo de alegria a nossa terra abençoada (Isaías 55,10-11). Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração a Deus, enquanto Deus não olhar para eles com olhos de bondade (Ben Sira 35,21). É exatamente o modo como reza o publicano: «ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão», com aquele olhar maternal da bênção sacerdotal (Números 6,25-26).

    7. Reza, meu irmão. Como vês, rezar não é para beatos ou beatas de trazer por casa. Rezar é para gente forte, para militantes, pois requer a coragem das situações limite, podendo, de facto, mudar a nossa vida inteira. Bem, hoje, a confissão de São Paulo na reta final da sua vida: «Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé» (2 Timóteo 4,7). E a bela doxologia final, que nos mostra um Paulo sempre em oração: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

    8. Aí está, então, a fazer ressoar no nosso coração as páginas deliciosas deste Dia de Domingo, o Salmo 34, que põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah) que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah) que é a sua verdadeira razão de viver (vv. 2-3). O pobre enche o seu olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» [«Saboreai e vede que Bom é o Senhor»], em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido, na pronúncia viva, christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés». E São Francisco de Assis, no Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, aí por abril ou maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, ocorrida a seguir ao pôr-do-sol de 03 de outubro desse mesmo ano, recomenda aos seus irmãos que amem sempre nossa senhora, a santa pobreza.

    António Couto


  • A Igreja celebra hoje, dia 17 de outubro a memória litúrgica de Santo Inácio de Antioquia. Santo Inácio de Antioquia foi o sucessor de São Pedro como Bispo de Antioquia. Santo Inácio foi, com certeza, o primeiro «Padre da Igreja» a usar a palavra «Sínodo», dando-lhe, todavia, um sentido mais forte do que nós hoje fazemos. Sínodo é a palavra que anda hoje por aí. Mas já andava ontem e anteontem. Tem a idade da Igreja. Se examinarmos atentamente a literatura cristã antiga, descobriremos que, no seu uso cristão mais antigo, a palavra sínodo nos aparece com um significado pessoal, isto é, referindo pessoas, e não eventos. Na sua Carta aos Efésios, escrita enquanto era conduzido para o martírio em Roma, onde foi atirado às feras no Coliseu, nos últimos anos do séc. I ou nos primeiríssimos anos do séc. II, durante a perseguição de Trajano, escreveu Santo Inácio de Antioquia (35-107), chamado «Teóforo» ou «portador de Deus» (theóphoros), que os cristãos são sínodos (sýnodoi), entenda-se: aqueles que caminham uns com os outros. Escreveu ele: «Sede todos companheiros de caminho (estè oûn kaì sýnodoi pántes), portadores de Deus (theophóroi) e portadores do templo (naophóroi), portadores de Cristo (christophóroi), portadores do Espírito (hagiophóroi), em tudo adornados (katà pánta kekosmêménoi) com os mandamentos (entolaí) de Jesus Cristo» (Ad Ephesios 9,2; PG 5, 652), Ele que é o Sýnodos por excelência (João 14,6), o verdadeiro companheiro de caminho para os seus discípulos, chamados na origem «os discípulos do caminho» (Atos 9,2; 19,9.23; 22,4; 24,14.22). Lê-se numa comovente exortação conservada no apócrifo Atos de Tomé, de princípios do séc. III: «Acredita em Cristo Jesus (…). Ele será teu companheiro (Sýnodos) ao longo do caminho perigoso; Ele será teu guia para o seu reino e do seu Pai» (Acta Thomae, 103). Portanto, cristãos, sede sínodos, e não vos limiteis a fazer sínodos!

    António Couto


  • Êxodo 17,8-13; Salmo 121; 2 Timóteo 3,14-4,2; Lucas 18,1-8

    1. Depois da semente pequenina, pequenina, que é a fé, e que pode virar do avesso a nossa vida, depois do samaritano leproso curado, agradecido a Jesus e salvo pela fé (Lucas 17,19), eis-nos, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, perante uma viúva desprotegida no campo social, económico e jurídico, mas persistente no seu clamor por justiça.

    2. A Bíblia insiste que ninguém deve afligir ou menosprezar uma viúva ou um órfão, pois se o fizer, e se a viúva ou o órfão gritarem a Deus, o seu grito será escutado e os seus opressores duramente castigados (Êxodo 22,21-23). Juntamente com o estrangeiro e o pobre, a viúva e o órfão fazem parte do rol das chamadas personae miserabiles, pessoas miseráveis, sem proteção social, económica ou jurídica, mas que, para sua defesa, podem contar sempre com a mão protetora de Deus, que sobre elas coloca o seu manto protetor ou pálio.

    3. A impressão da pobre viúva do Evangelho de hoje (Lucas 18,1-8) é que o seu pedido esbarra contra uma porta fechada, quase blindada, que tem por detrás o coração fechado com um nó cego de um juiz agnóstico, portanto, sem Deus, e insensível, incapaz de se condoer com as dores seja de quem for. O retrato que dele faz o narrador mostra-nos um juiz fechado a Deus (à sua bondade, à sua grandeza e à sua vontade) e aos homens, que ostenta um coração empedernido, e não um «coração que vê», para usar a bela expressão do Papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica Deus caritas est, de 25 de Dezembro de 2005, n.º 31.

    4. Sem nunca abrir a porta ou o coração aos apelos da viúva, o juiz de coração fechado com um nó cego acaba, todavia, por ceder aos gritos persistentes da viúva, não porque o seu coração se tenha amaciado ou o nó cego desatado, mas tão-só para se ver livre do incómodo causado pelos gritos persistentes e obstinados da viúva. A oração da viúva indefesa, o seu grito por justiça, tem semelhanças com a oração dos mártires de que fala o Livro do Apocalipse: «Até quando, ó Deus santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça e a pedir contas do nosso sangue aos habitantes da terra?» (Ap 6,10).

    5. A reflexão corre do menor para o maior (qal wahomer), à boa maneira rabínica. Se assim faz o juiz de coração fechado com um nó cego, quanto mais e mais depressa fará Deus aos seus eleitos que a Ele gritam dia e noite? (Lucas 18,7).

    6. Note-se que o narrador nos dá a chave logo no início, para podermos abrir a parábola e entrar na sua correta compreensão. Na verdade, introduz-nos assim o narrador na parábola: «Disse-lhes uma parábola sobre a necessidade de REZAR sempre, sem descanso» (Lucas 18,1). E no final insiste nos eleitos que gritam a Deus dia e noite (Lucas 18,7). Rezar com persistência, com perseverança, sem relaxamento. Não tanto para que Deus faça agora o que agora lhe pedimos, mas para que a nossa fé permaneça acesa! Sim, conclui surpreendentemente Jesus, o verdadeiro problema não é a intervenção de Deus (que faz justiça com certeza), mas a constância da nossa fé: «Quando vier o Filho do Homem, encontrará a fé sobre a terra?» (Lucas 18,8).

    7. É, de resto, sabido que o Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da oração. Aqui deixamos, para quem o desejar e achar útil, os principais acenos. 1) Este Evangelho apresenta cenários de oração a abrir (Lucas 1,10 e 13; 2,37) e a fechar (Lucas 24,53), formando aquilo que se chama uma inclusão literária ou envelope, como que a dizer que o inteiro Evangelho está repleto de oração. 2) Este Evangelho é de longe o que apresenta mais vezes Jesus a rezar sozinho, como modelo de oração: Lucas 3,21; 5,15-16; 6,12-16; 9,18-20; 9,28-36; 10,21; 11,1; 22,31-32; 22,39-46; 23,33-34; 23,44-46. 3) É este Evangelho que nos apresenta as mais belas e inesquecíveis figuras de oração: Maria, com o magnificat (Lucas 1,46-55); Zacarias, com o benedictus (Lucas 1,68-79); Simeão, com o nunc dimittis (Lucas 2,29-32); o coro celeste, com o gloria in excelsis Deo (Lucas 2,14). 4) É ainda este Evangelho que salienta alguns traços fundamentais da oração: a persistência, no chamado «amigo importuno» (Lucas 11,5-13) e na figura de hoje, a «viúva importuna» (Lucas 18,1-8), e a humildade, como veremos no próximo Domingo, na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18,10-14).

    8. Não se pode descurar hoje a colagem ao belo modelo de oração da viúva, do texto do Êxodo 17,8-13, que nos mostra Moisés também a rezar sem descanso no cimo da colina com os braços e as mãos abertos e firmes em cruz. Salta à vista que a vitória sobre Amalec não resulta tanto da espada de Josué, mas mais da oração de Moisés! É como quem diz que a oração dia e noite, sem descanso, é a chave da nossa vida em todas as suas circunstâncias. Sobretudo quando a tentação toma conta de nós e a nossa vida só conhece guerras e litígios. Sintomaticamente o lugar em que está o povo de Israel chama-se Massá (massah) e Meribá (merîbah), à letra,  lugar da tentação (nasah: v. 2) e do litígio (rîb: v. 2), que é o Horeb, onde está a rocha de onde jorra a água, dada por Deus ao seu povo, o qual, face às dificuldades do deserto, tinha já entrado na grande tentação, expressa na questão: «Está Deus no meio de nós, ou não»? (Êxodo 17,7).

    9. É ainda de uma beleza inexcedível o alcance dos versículos 15 e 16 do mesmo Capítulo 17 do Livro do Êxodo que estamos a seguir. YHWH-nissî [= «O Senhor, minha bandeira»], a bandeira ou o pálio de YHWH nas minhas mãos. É outra vez o manto ou o pálio carinhoso de Deus que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisarmos de «cuidados paliativos»… Foi a este manto, a este «pálio», que a medicina foi buscar os cuidados «paliativos». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os doentes, os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, e os moribundos…

    10. São Paulo adverte hoje Timóteo (2 Timóteo 3,14-4,2), seu discípulo e cooperador dileto, que as Escrituras não transmitem apenas um saber, que há que estudar, aprender e ensinar. Ele acentua que as Escrituras têm o poder (dýnamis) de nos comunicar a sabedoria que conduz à salvação. É esta dinâmica que se deve manifestar em tudo o que fazemos. Oportuna e inoportunamente. Portanto, sempre.

    11. O Salmo 121 é um delicioso hino inserido na coleção dos chamados «Cânticos das peregrinações» ou «subidas», que se estendem do Salmo 120 ao 134. O sonho do peregrino, que se lhe vê nos olhos e no coração, é o Senhor, que habita nas alturas de Sião. Por isso, enquanto atravessa montes e vales, leva já os olhos fixos no «monte Sião, belo em altura, alegria de toda a terra» (Salmo 48,3), e vai dialogando no seu coração acerca d’Aquele que é o seu auxílio (ʽezer) e o criador do céu e da terra (vv. 1-2). Depois desta fixação no seu Senhor, que reside em Sião, o salmista passa a contemplar Deus como o seu «guardador», três vezes o nome shômer [= «guardador»] (vv. 3.4.5), três vezes o verbo shamar [= «guardar»] (vv. 7[2 x].8), uma maneira de dizer um Deus protetor e atento, como a mãe que vela sobre o bebé, para seguir o belo dizer de Alonso Schökel: «Imagino uma cena noturna. Um bebé no berço que baloiça, docemente movido pela mãe que vigia. O vai e vem do berço, que poderia provocar medo, traz serenidade, porque o bebé sente a presença da mãe… No vai e vem da nossa vida, «levantamos os olhos» expectantes e descobrimos a presença vigilante de Deus, que nos tranquiliza». Vem depois a imagem da «sombra» protetora, que protege do sol escaldante do deserto, mas também dos raios nefastos da lua (vv. 5-6). No Próximo Oriente Antigo, os raios lunares eram temidos, podendo, como se pensava, causar febres, cegueira e loucura. E, mesmo entre nós, o termo «lunático» é aplicado a pessoas com comportamentos esquisitos e extravagantes. O Deus «guardador» reaparece no final, para nos guardar quando saímos e quando entramos (v. 8a), portanto, sempre. Pode entender-se do nosso movimento diário, mas também desde o nascimento até à morte, pois o verbo «sair» (yatsaʼ) também significa «nascer», e «entrar» (bô՚) pode aludir também ao túmulo. O acerto final «desde agora e para sempre» (v. 8b). Esta maneira forte de dizer deixa sob a guarda de Deus, não apenas o segmento da nossa cronologia humana, mas também o futuro misterioso do depois da morte. Graças a Deus.

    12. Celebra-se também neste Domingo o 99.º Dia Missionário Mundial. A ideia da instituição de um Dia dedicado à reflexão acerca da dimensão missionária da Igreja, bem como à oração, comunhão e partilha de vida com os nossos irmãos mais necessitados e com todos os missionários espalhados pelos cinco continentes foi apresentada ao Papa Pio XI em 1926 pelas Obras da Propagação da Fé. Dando logo seguimento à sugestão apresentada, o Papa Pio XI, conhecido como «o Papa das Missões», instituiu, nesse mesmo ano de 1926, o Dia Missionário Mundial, que, a partir de então, se tem celebrado anualmente. E este é já o 99.º Dia Missionário Mundial que celebramos, e o Papa Francisco convida-nos a dar testemunho de Cristo, neste Jubileu de Esperança, apondo a este Dia Mundial o tema «Missionários de esperança entre os povos». Bem sabemos que o Papa actual é Leão XIV, eleito em 08 de maio de 2025. Mas esta mensagem para o 99.º Dia Missionário Mundial já tinha sido escrita pelo Papa Francisco, e traz a data de 25 de janeiro de 2025, Festa da Conversão de São Paulo.

    António Couto


  • A Igreja celebra no dia 15 de outubro, a memória litúrgica de Santa Teresa de Jesus, virgem e doutora da Igreja, padroeira de Espanha. Viveu entre 1515 e 1582. Aos sete anos de idade, já ia a caminho do martírio, mas foi travada nas suas intenções por um familiar. Aos catorze anos, perdeu a sua mãe, e começou a dedicar o perfume da sua vida à Virgem Maria, sua mãe espiritual. Ingressou numa escola de religiosas agostinianas, em Ávila, mas aos quinze anos adoeceu, e teve de ficar em casa vários anos. Foi então que leu as Confissões de Santo Agostinho e começou a interessar-se particularmente por Santa Maria Madalena. Entrou para o Convento Carmelita da Encarnação, em Ávila, em 1535, e ficou perplexa ao ver a vida mundana e relaxada das religiosas carmelitas, que então povoavam os mosteiros em grande número. Ao ver o estado deprimente do mosteiro em que entrou, tratou logo de fundar um Carmelo reformado, o que aconteceu em 1562-1563. Juntamente com São João Cruz, reformou a Ordem Carmelita, e os dois fundaram a Ordem dos Carmelitas Descalços. O Carmelo ganhou assim novo fulgor, pobreza, e a necessária espiritualidade e contemplação. Santa Teresa deixou-nos Obras extraordinárias que traduzem a sua vida mística e contemplativa, como “O Castelo Interior” e o “Caminho de Perfeição”. Foi ao ler estas grandes Obras que a judia Edith Stein se converteu ao catolicismo, sendo hoje Santa Teresa Benedita da Cruz. As últimas palavras de Teresa de Ávila, antes de morrer, foram: “Meu Senhor, é hora de seguir adiante. Pois bem, que seja feita a Tua vontade. Ó meu Senhor e meu Esposo, chegou a hora que tanto esperei. É hora de nos encontrarmos”.

    Foi canonizada em 1622 por Gregório XV. Em 27 de setembro de 1970, S. Paulo VI proclamou-a doutora da Igreja, juntamente com Santa Catarina de Sena, as duas primeiras doutoras da Igreja.

    Santa Teresa de Jesus, roga por nós, que atravessamos também tempos de grande confusão e de difícil visibilidade, a clamar por uma verdadeira reforma espiritual.

    António Couto


  • No meio da bruma e da esperança

    que envolve os passos de tanta gente

    nestes dias toldados por guerras e nuvens escuras,

    há sempre uma mãozinha que se sente,

    uma luzinha que se acende,

    nos alumia, nos acolhe e nos atende.

    Guia-me sempre, Luz amável,

    no meio do nevoeiro que me envolve:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    A noite é escura,

    a casa é distante:

    sê Tu a guiar-me no caminho!

    Guarda Tu os meus passos!

    Eu não peço para ver o horizonte distante:

    um passo de cada vez

    é para mim o bastante!

    Obrigado, Senhor Jesus!

    Tu és a Luz que me alumia

    a cada instante!

    Alumia também

    cada pedinte,

    cada viandante,

    que na penumbra dos dias,

    tenha perdido a fé ou o volante.

    António Couto


  • 2 Reis 5,14-17; Salmo 98; 2 Timóteo 2,8-13; Lucas 17,11-19

    1. De há muito que seguimos Jesus no seu caminho para Jerusalém. No seu caminho, que é o nosso itinerário ou currículo de formação. É por isso que devemos pôr toda a atenção em tudo o que se passa. No episódio do Evangelho proclamado no Domingo passado (XXVII do Tempo Comum), Lucas 17,5-10, fomos nós que pedimos a Jesus: «Aumenta a nossa fé!» (Lucas 17,5). E Ele foi ao campo buscar a metáfora da semente pequenina da mostarda e do serviço humilde e dedicado do servo que serve em tudo e sempre o seu Senhor (Lucas 17,10), acabando mesmo por ser servidos pelo seu Senhor (Lc 12,37).

    2. No seguimento imediato, o Evangelho proclamado neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, Lucas 17,11-19, continua a glosar a temática da fé, e põe diante de nós dez leprosos que empregam todas as suas forças para, com voz grande e em uníssono, se fazerem ouvir por Jesus. É a Jesus que dirigem o seu pedido, nestes termos: «Jesus, Mestre, Faz-nos Graça!» (Lucas 17,13). Aquele «Faz-nos Graça!» soa, no texto grego, eléêson hêmãs, cujo eco ainda hoje ressoa no nosso «Kýrie, eléêson» («Senhor, Faz Graça»). «Fazer Graça» é um dizer muito bíblico, que o pensamento ocidental desconhece, com que nós pedimos a Deus que, como uma mãe cheia de ternura, nos embale nos seus braços carinhosos e seguros e olhe para nós com o seu olhar carregado de bondade maternal. Note-se, porém, que esta relação maternal, carinhosa e gratuita, não assenta em nenhum determinismo. Não é movida pelos laços do sangue ou beleza atraente ou simpatia que nos move sempre para o valor, de acordo com a pedagogia grega, mas é devida a todos, até aos inimigos e àqueles com quem não simpatizamos e excluimos das nossas relações, os pobres, o estrangeiro, o órfão, a viúva, os refugiados, os descartados, é movida para o desvalor, de acordo com a pedagogia bíblica. Não se trata, portanto, da nossa natural inclinação para o valor, mas da imitação de Deus, que se debruça sobre o desvalor.

    3. Note-se que, no tempo e no mundo cultural de Jesus, os leprosos, devido à sua doença contagiosa, eram excluídos da sociedade, literalmente excomungados, e obrigados a andar longe dos povoados, não se podendo aproximar de ninguém. E, à vista de alguém, deviam gritar: «Impuro, impuro!», para que as pessoas se desviassem deles, de acordo com as prescrições que podemos ver no Livro do Levítico 13,45-46.

    4. O Evangelho diz-nos que se trata de um grupo de dez leprosos, certamente judeus e samaritanos. Já sabemos que os judeus não se dão com os samaritanos (cf. João 4,9). Mas aqui, afinal, andam juntos uns e outros. É bem verdade que a doença, a miséria, a dor, o sofrimento juntam as pessoas, sem olhar a credos e raças! E o grito que lançam juntos a Jesus é igualmente estranho e significativo, dado que, no seu grito, chamam a Jesus Mestre (epistáta) (cf. Lucas 17,13), eles que têm necessidade de cura e não de ensinamentos, pois, ainda que o desejassem, nem sequer podiam ir à escola. Então é como se estes leprosos estivessem a pensar em nós, a fazer-nos compreender que Jesus veio sobretudo curar os males do espírito e iluminar o escuro dos corações, desfazer os preconceitos e os nós que toldam tantas vezes a nossa vida quotidiana!

    5. É claro que Jesus escuta o seu pedido (nós é que não sei!), e manda que se vão apresentar aos sacerdotes, para que estes, dentro das suas competências de autoridade sanitária de controlo (Levítico 13,2-3; 14,2-32), os pudessem declarar curados da lepra. Note-se bem que Jesus os manda apresentar-se aos sacerdotes, antes de os curar, como quem diz que requeria deles uma fé total na sua capacidade de os curar. Eles partem, sinal da plena confiança que depositam em Jesus, pois, quando se põem a caminho, ainda continuam possuídos pela lepra. Na verdade, é depois de partirem, enquanto vão a caminho, que se sentem curados! (Lucas 17,14).

    6. O narrador tem o cuidado de avisar o leitor de que Jesus caminhava para Jerusalém (Lucas 17,11). Jerusalém é a meta de Jesus desde Lucas 9,51, e o narrador insiste neste nome em 9,53; 13,22; 13,33; 17,11; 18,31; 19,29. Enquanto insiste em sublinhar que o caminho de Jesus vai na direção de Jerusalém, e para que este aspeto fique claro, reduz todas as outras localidades por onde Jesus passa a cidades e aldeias inominadas, uma certa povoação, um certo lugar. É assim também no Evangelho hoje proclamado, em que o narrador nos informa que Jesus entrou numa aldeia (kômê), quando vieram ao seu encontro dez leprosos (Lucas 17,12), que lhe pediram que lhes fizesse graça (Lucas 17,13). O narrador informa-nos ainda que, ao vê-los, Jesus ordenou simplesmente que se fossem mostrar aos sacerdotes (Lucas 17,14). O leitor ou ouvinte pode presumir que os leprosos foram curados, e, no seguimento, enviados a Jerusalém, para que a sua cura fosse confirmada pelos sacerdotes. Todavia, o que o texto diz é que a ordem de Jesus precede a cura, que vai acontecer no caminho. Note-se em primeiro lugar o envio dos leprosos a Jerusalém. É lá que se encontram os sacerdotes. Note-se ainda a fé destes dez leprosos que pedem a Jesus que os cure, e ainda antes de serem curados, obedecem à sua ordem de seguirem para Jerusalém. Entretanto, a cura dá-se no caminho, mas só um dos dez volta para trás para se prostrar aos pés de Jesus e lhe agradecer (Lucas 17,15-16). Todos mostraram ter fé ao pedirem a Jesus que os curasse e ao obedecerem às suas ordens, pondo-se a caminho de Jerusalém, mas o que voltou atrás, só ele, soube juntar à fé um gesto de adoração.

    7. É agora que entramos no centro do episódio. Os holofotes do narrador põem em grande destaque este leproso que, sentindo-se curado, interrompeu a sua viagem e voltou para trás, louvando a Deus com voz grande, e veio agradecer a Jesus, prostrando-se aos seus pés, num típico gesto de adoração! O narrador informa-nos que era um samaritano (Lucas 17,15-16), portanto herético, estrangeiro, excluído, marginalizado, descartado, habitante da região «daquele estúpido povo que habita em Siquém», para o dizer com as palavras de Ben Sira 50,26. É-nos permitido deduzir ainda que este samaritano se sente pobre e devedor a Deus pela graça concedida, enquanto que os restantes, talvez todos judeus, não sentiram tal necessidade, bem pelo contrário, porque o seu pensamento teológico talvez os levasse a pensar que era Deus quem estava em dívida para com eles, e que, portanto, Jesus não teria feito mais do que devia fazer!

    8. Jesus louva a fé deste excluído, deste estrangeiro (Lucas 17,18), e deixa entender que a fé não consiste simplesmente em cumprir ordens, mas também em proclamar a boa nova da salvação, em reconhecer a graça recebida diante daquele que a concedeu, com uma voz tão grande como o grito com que antes lha pediu. Esta voz nova de louvor e de alegria precede mesmo o cumprimento dos ritos de purificação, precede qualquer rito, interrompe qualquer viagem, passa à frente de qualquer negócio. É já a segunda vez que Lucas nos mostra um samaritano a interromper a sua viagem. A primeira vez foi naquela estrada que descia de Jerusalém para Jericó, quando um samaritano se debruçou por amor sobre um homem meio morto (cf. Lucas 10,33-34). O viajante mesmo é Jesus. O seu discípulo, atento e sensível, segue o Mestre, e, ao seguir o Mestre, corta estradas velhas, abre estradas novas! Parte sempre de Jesus, chega sempre a Jesus, princípio e meta de todo o seu caminhar discipular.

    9. O contraponto musical vem hoje naturalmente do sírio Naamã, que se vê curado da sua lepra seguindo as instruções do profeta Eliseu, a quem recorre (2 Reis 5,14-17). Na verdade, Naamã tem de se desfazer, primeiro, de todas as evidências e de todo o tom negocial e diplomático, tem de cair abaixo da sua importância, das suas vestes de gala, das grandes somas de dinheiro, da atitude sobranceira de comprar. Naamã tem apenas de aprender a colocar-se nas mãos de Deus, para renascer puro como uma criança (2 Reis 5,14). E uma criança apenas confia e recebe. Não tem nada. No seguimento da história, e em claro contraponto com o desapropriamento de Naamã, que se desfaz de toda a sua importância e riqueza, somos levados a ver a ambição de Guiezi, servo de Eliseu, que fraudulentamente foi atrás dos bens de Naamã, procurando subir uns degraus na vida. O resultado de um tal procedimento é desastroso. Disse-lhe Eliseu: agora podes comprar vinhas e olivais, servos e servas, mas a lepra de Naamã se apegará a ti!

    10. Deus é fiel e não pode dar o dito por não dito, diz Paulo a Timóteo (2 Timóteo 2,8-13), a quem incentiva a proclamar a Palavra de Deus. Paulo está preso por causa do Evangelho e adverte Timóteo que também lhe pode vir a suceder a mesma coisa. E termina confessando com júbilo e firme ousadia que a Palavra de Deus continua à solta e ninguém a consegue aprisionar. É esta a âncora de Paulo, e deve ser também o baluarte firme de Timóteo. O equívoco dos poderosos e mentirosos que prenderam Paulo foi que, ao prender Paulo, pensaram que secavam a fonte do Evangelho, e, portanto, o Evangelho no seu todo. Pensavam que era Paulo que levava o Evangelho. Nem suspeitavam que era o Evangelho que levava Paulo! As correntes e as espadas do poder podem prender e decapitar Paulo, mas nada podem fazer para cortar e secar a torrente do Evangelho. Ao contrário, será o Evangelho a espada de dois gumes que rasgará por dentro e destruirá todo o poder orgulhoso, gorduroso e mentiroso que se lhe opuser (Hebreus 4,12). A Palavra de Deus anda sempre à solta, e mais dia menos dia há de encontrar-nos, também a nós, para nos salvar. Jesus veio, de facto, procurar e salvar o que estava perdido (Lucas 19,10). E aí estamos outra vez a fechar o círculo com o Evangelho de hoje na mão e no coração.

    11. Levantar-se-á sempre, desde o santuário do nosso coração emocionado, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôfar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

    12. Kýrie, eléêson, faz-nos graça, Senhor, e dá-nos um coração samaritano.

    António Couto


  • Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    mas não a aumentes tanto,

    que possamos pensar que a fé é como um banco

    de alto rendimento,

    e que, portanto,

    já não precisamos mais da tua mão,

    para nos guiar para fora do barranco.

    Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    mas aumenta-a só um bocadinho,

    de mansinho,

    como a semente da mostarda,

    que guarda

    o canto de um passarinho.

    Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    mas aumenta-a devagarinho,

    pé ante pé,

    para não perdermos o pé,

    pois perder o pé é perder a fé,

    e ficar perdido no caminho.

    Aumenta, Senhor, a nossa fé,

    e assiste-nos sempre,

    na alegria e na tristeza,

    na saúde e na doença,

    e na nossa pequenez imensa.

    António Couto


  • Habacuc 1,2-3; 2,2-4; Salmo 95; 2 Timóteo 1,6-8.13-14; Lucas 17,5-10

    1. Falo do umbral do outono, de uma praça carregada de metáforas. Moro aqui debaixo deste céu. Claro que durmo ao relento. Sou pobre e puro. Pedinte apenas à porta do espírito. Como os plátanos no púlpito das praças, abrigo os pássaros. Atiram-me pedras os meninos. O meu lugar é aqui, de bruços nas palavras, pedra a pedra construindo o pátio do poema. É assim que hoje enfrento, em estilo diferente, mas de frente, os dizeres deste Domingo XXVII do Tempo Comum.

    2. Oiço bater à porta. Serás tu ainda? Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente envolta em neblina?

    3. Trazes a história de uma semente pequenina, microscópica. Trata-se da semente de mostarda (Lucas 17,6). Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra, dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria (cf. Lucas 13,18-19). E dizes, outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado, empedrado, empecadado, fazer ruir os nossos cálculos mais estudados, fazer florir o alcatrão das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra (cf. Lucas 17,5-6).

    4. Acrescentas logo, sempre para espanto meu, que uma vida de serviço e da máxima simplicidade é a melhor. E que, além de ser a melhor, é ainda também a melhor pregação, uma vez que, como nos ensinou o Papa São Paulo VI, na sua Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n.º 41, «O homem con­temporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas». Servir por amor. Sem tempo nem contrato. Sem cláusulas. Doação total. Dar a vida como tu, Senhor e Servo. Não se trata de dizer que sou um servo inútil (achreîos), se o serviço que prestei ao meu Senhor foi útil. Trata-se simplesmente de dizer que sou apenas um servo, e que a minha missão é «fazer tudo o que me foi ordenado», e que tudo recebo da liberalidade do meu Senhor. Servo apenas servo (Lucas 17,10), que não passa de servo, não sobe na carreira, não tem carreira, servo que se cumpre e esgota como servo, portanto, servo servido pelo seu Senhor, como ensina a parábola de Lucas 12,37. A fé é esse vínculo firme e fiel ao meu Senhor e ao meu irmão.

    5. Para me dizeres tanto, foste buscar metáforas ao campo: a semente, as árvores e o servo (Lucas 17,5-10). E, uma vez no campo, levas-me a visitar o jardim de Habacuc (1,2-3, 2,2-4), que aparece hoje também no mapa da liturgia. Poucos saberão, mas Habacuc é o nome de uma planta de jardim, talvez o manjerico ou a hortelã. Num clima seco como o do Médio Oriente, a plantinha de jardim está de passagem, portanto. Como diz bem Isaías, «de manhã viceja e à tarde seca» (cf. Isaías 40,6-8). É mesmo preciso ir depressa. Até porque Habacuc ainda tem de ir à cidade e escrever num grande painel publicitário, para que todos possam ver bem, a única palavra que Deus o incumbe de dizer: «o não-reto perecerá, mas o justo viverá pela FÉ» (Habacuc 2,4).

    6. A FÉ é a tal sementinha de nada, do tamanho do grão de mostarda, que pode virar do avesso a nossa vida, a nossa casa, a nossa rua, a nossa cidade, a nossa história. Um dito rabínico do tempo de Jesus afirmava que vale mais um grão de mostarda que um cesto de melancias. Vale também aqui o verso belíssimo da Primeira Carta de São João que a liturgia nos faz cantar hoje ao Aleluia: «Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé» (1 João 5,4).

    7. Corre e demora-te a ver esse painel, metáfora erguida na cidade, e aprende a FÉ, isto é, a FIDELIDADE. São Paulo demorou-se longamente a contemplar esse painel, de tal maneira que gravou os seus dizeres na alma e em Romanos 1,17 e Gálatas 3,11.

    8. Sim, Timóteo (2 Timóteo 1,6-8.13-14), escuta bem, reacende o dom de Deus que arde em ti, não tenhas vergonha do Evangelho, dá testemunho de Jesus Cristo, guarda a FÉ!

    9. Sim, não nos é permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus discípulos.

    António Couto


  • 1. A Igreja celebra com júbilo no próximo sábado, dia 4 de outubro, a memória litúrgica de S. Francisco de Assis, um dos santos que mais fundo entrou no coração do povo de Deus. Nasceu em Assis em 1182 e morreu na Porciúncula, também em Assis, logo após o pôr-do-sol do dia 03 de outubro de 1226. 44 anos de vida.

    2. Oriundo de família nobre e rica, Francisco viveu a sua juventude no meio de festas e folguedos, pouco ou nada se importando com os pobres, os doentes, princípios morais, religiosos e humanitários.

    3. Em 1202, Francisco foi mobilizado para a guerra entre Assis e Peruggia. Nesse tempo e circunstâncias, as guerras eram coisa de nobres. Acontece que Francisco foi feito prisioneiro na batalha de Ponte San Giovanni, e foi levado para Peruggia, onde esteve enclausurado durante mais de um ano. No cárcere, adoeceu gravemente. Foi libertado por esse motivo, e voltou à sua terra de Assis, onde passou anos de convalescença e meditação, com grande apoio da sua piedosa mãe.

    4. O ano de 1205, ou talvez 1206, marcará para sempre a vida de Francisco. É o ano em que recebe do próprio Senhor do Universo Crucificado, na Igreja de S. Damião, a missão de reparar a sua Igreja que ameaçava ruínas. E não era só, vê-se bem, o edifício da igreja de S. Damião. Era sobretudo o edifício espiritual da Igreja de Deus, o Povo Santo de Deus que espiritual e moralmente se desmoronava. É o ano em que beija e lava as chagas de um leproso (os leprosos sempre lhe repugnaram), e bebe a água com que as lavou. É o ano em que o «Rei da Juventude de Assis» participa numa última festa de despedida com os seus amigos. Francisco nasceu rico. Viveu a sua juventude em festas e folguedos. Tinha muitas coisas. A partir de 1205, ano em que ouve o Crucificado da capela de S. Damião dizer-lhe: «Francisco, vai e repara a minha Igreja, que ameaça ruínas», Francisco começa a ser tocado e trabalhado pela graça, terreno nos anos anteriores preparado pela sua mãe.

    5. Outra data importante na vida de Francisco é o ano de 1208. No dia 24 de fevereiro desse ano, tinha Francisco 26 anos, foi à missa à igreja de Santa Maria degli Angeli (Porciúncola), e ouviu proclamar o Evangelho da Festa de S. Matias (Mateus 10,6-14), que então se celebrava nesse dia, e entraram-lhe pela alma adentro as palavras de Jesus aos seus Apóstolos enviados em missão: «Ide» […]. «Recebestes de graça. Dai de graça. Não adquirais ouro, nem prata, nem cobre para os vossos cintos, nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão» (Mateus 10,6.8-10). Francisco ouviu essa página. E anota Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de Francisco, que «imediatamente se descalçou, abandonou o seu bastão, ficou apenas com uma túnica áspera, e substituiu o seu cinto por uma corda».

    6. Tomás de Celano descreve o «onde» e o «quando» desta cena: «um dia, em que nesta igreja (da Porciúncola) se lia a passagem do Evangelho relativa ao envio dos Apóstolos a pregar, o Santo, que estava presente e tinha captado o sentido geral, terminada a missa, pediu ao sacerdote que lhe explicasse a passagem. O sacerdote comentou-lha ponto por ponto, e Francisco, ouvindo que os discípulos de Cristo não devem possuir nem ouro, nem prata, nem dinheiro, nem alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, nem sandálias, nem dias túnicas, mas devem apenas pregar o reino de Deus e a penitência, de repente, exultando de fervor divino, exclamou: “É isto que quero, é isto que peço, é isto que desejo praticar com todo o meu coração”» (FF 356). Francisco levou o que ouviu a sério. E o segredo mais profundo desta reviravolta que Francisco operou (ou que foi operada em Francisco) consiste na mudança radical da sua vida, à maneira do Evangelho, chamemos-lhe conversão. Francisco não foi nem nunca quis ser um reformador, nem da sociedade nem da Igreja, não obstante a época em que viveu se apresentar cheia de chagas a sangrar no que à fé e aos costumes dizia respeito. Francisco não quis mudar o mundo nem a Igreja! Quis apenas mudar a sua vida de acordo com as pautas do Evangelho.

    7. Nas trevas brilhou uma luz. Imensa e intensa. Como no outro caminho de Damasco. Francisco mudou então a vida toda. Abandonou tudo. Desapropriou-se. Nunca ter nada de próprio passou a ser um dos seus lemas mais preciosos, e exigia a mesma radicalidade àqueles que o queriam seguir, e muitos eram. Francisco, fez-se pobre e irmão de todos, para levar a todos a incontida e incontrolável alegria encontrada. Francisco tinha descoberto a pérola preciosa da pobreza e da fraternidade.

    8. Na noite de 18 para 19 de março de 1212, Francisco recebe Clara, então com 18 anos, e entrega-lhe o hábito da pobreza e da penitência, colocando assim a «primeira pedra» das senhoras pobres, futuras clarissas.

    9. Em 1219/1220, Francisco faz uma peregrinação ao Oriente. Encontra-se com o sultão Malek-al-Kamel, e visita os lugares santos, particularmente Belém, regressando a Itália. 1220 é também o ano em que Fernando de Bulhões deixa os cónegos regrantes de Santo Agostinho, e se faz Frade Menor, seguidor de Francisco de Assis, tomando o nome de António.

    10. Em maio de 1221, a partir do dia 23, dia de Pentecostes, começou a realizar-se nas imediações da Porciúncola o primeiro Capítulo Geral dos «irmãos menores» que seguiam os passos de Francisco. E eram já tantos. O Capítulo ficou conhecido como o «Capítulo delle Stuoie», ou das esteiras. Na verdade, compareceu um número elevadíssimo de «irmãos», na ordem dos 5.000, e não havia logística possível para albergar e alimentar aquela multidão. Daí o recurso aos campos, às esteiras e aos ramos das árvores. Sintomático é que também não foi necessária logística nenhuma, dado que a população do lugar e de outras povoações se mobilizou, e foi trazendo os víveres necessários para alimentar tantos irmãos. O Capítulo durou sete dias, e ainda sobejaram muitos alimentos.

    11. Outra data importante e inesquecível é a noite de Natal de 1223, na aldeia de Greccio, acontecimento de que passaram há pouco os 800 anos. Jesus estava então esquecido e o seu Natal apagado na nossa velha Europa. E S. Francisco de Assis resolveu fazer um presépio em Greccio, uma aldeia pobre, vizinha de Assis. O presépio de Greccio era um presépio especial: não tinha nem Maria nem José, nem sequer o Menino Jesus! Francisco tinha pedido aos camponeses que pusessem lá apenas uma manjedoura, e que trouxessem um burro e um boi, e os colocassem um de cada lado da manjedoura. E que pusessem muito feno na manjedoura, para que os animais pudessem comer em abundância.

    12. O presépio não tinha nem Maria nem José… nem o Menino Jesus. A ideia genial de Francisco era expor nessa noite toda a verdade do Natal. Por isso, em vez de pedir que se colocasse a imagem do Menino Jesus na manjedoura, como fazemos nós ainda hoje, feito o presépio como atrás referido, procedeu-se à celebração da Eucaristia, tendo a manjedoura como altar, e, então sim, aí se faria presente o próprio Jesus, para ser por todos adorado.

    13. O dia 14 de setembro de 1224 é outra data a reter. Era a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Francisco tinha-se recolhido no ermitério de Monte Alverne. E fixando o olhar no Crucifixo de Monte Alverne, Francisco tem a graça de dele receber os estigmas.

    14. Em 1225 estava Francisco quase cego, recolhe-se em S. Damião, e compõe o famoso Cântico das Criaturas ou do Irmão Sol, que está agora a celebrar 800 anos.

    15. Se há uma marca que carateriza Francisco, e na qual todas as fontes são concordes, é a altíssima pobreza. No Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, em abril-maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, Francisco reúne e resume a sua aventura humana e espiritual nestas poucas linhas: «Como, em razão da fraqueza e do sofrimento da doença, não posso falar, manifesto brevemente aos meus irmãos a minha vontade nestas três palavras, que são: como sinal da minha bênção e do meu testamento, amem-se sempre uns aos outros (1); amem sempre nossa senhora, a santa pobreza (2); e sejam sempre fiéis e submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe Igreja (3)».

    16. Na sua obra póstuma Escritos de Londres e últimas cartas (1957), Simone Weil anotava que «a riqueza aniquila a beleza…, porque a esconde com a mentira. É a mentira contida na riqueza que mata a poesia. É por isso que os ricos têm necessidade do luxo como de um sucedâneo». Modelo de articulação entre a pobreza e beleza é S. Francisco, que «não procurou na pobreza a dor, mas a verdade e a beleza, a poesia do encontro verdadeiro».

    17. Acerca de Jesus, dizem os insuspeitos fariseus, no Evangelho de João: «O mundo veio atrás dele» (João 12,19). Todos sabemos quem era Jesus. E todos sabemos também que havia em Francisco de Assis qualquer coisa que não há em nós. «Por que razão o mundo inteiro corre atrás de ti?», terá perguntado um dia Frei Masseo a Francisco. Francisco terá respondido: «Porque os olhos de Deus não encontraram sobre a terra pecador mais vil do que eu». Frei Masseo não deve ter entendido a resposta de Francisco. Mas eu penso que a resposta é certeira e verdadeira, e deve ler-se ou cantar-se em duas pautas diferentes, mas complementares. Primeira: não há santo que não se sinta verdadeiramente pecador, o maior pecador; segunda, não há santo que não se sinta verdadeiramente amado e perdoado, vendo sobre ele cair em ondas sucessivas o olhar agraciador de Deus, o perdão de Deus.

    18. Já muito debilitado, Francisco morreu, como já dissemos, pouco depois do pôr-do-sol do dia 3 de outubro de 1226.

    19. Em 16 de julho de 1228, menos de dois anos depois da sua morte, foi canonizado em Assis pelo Papa Gregório IX.

    António Couto


  • Estamos à porta de outubro, um mês dedicado à causa da evangelização. Nada melhor para o fazer do que evocar, logo no primeiro dia de outubro, com a Igreja inteira, a memória de Santa Teresinha de Lisieux, popularmente conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, aclamada como Virgem e Doutora da Igreja e Padroeira Universal das Missões. Santa Teresinha viveu apenas 24 anos, tendo nascido em 2 de janeiro de 1873, ocorrendo a sua morte em 30 de setembro de 1897, faz hoje 128 anos. Entrou no Convento das Carmelitas de Lisieux aos 15 anos, com autorização expressa do Papa Leão XIII. A sua maneira de viver foi sempre o amor vivido nas coisas mais pequenas e humildes do dia-a-dia, na simplicidade, dedicação, oração e total confiança em Deus. O seu legado é o “Pequeno Caminho” ou a “Infância Espiritual”, como quem apanha um alfinete do chão ou uma das pequeninas rosas brancas que levam o seu nome. Tinha, todavia, um coração grande, do tamanho do mundo, e vivia ardentemente a paixão de salvar a humanidade inteira. Não admira, por isso, que sem nunca ter saído de casa ou do convento, tivesse sido declarada “Padroeira Universal das Missões”, em 1927, pelo Papa Pio XI, que já a tinha beatificado em 1923 e canonizado em 1925. O Papa S. João Paulo II declarou-a, em 1997, “Doutora da Igreja”. “No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, eu serei o amor”, escreveu ela. Como esta melodia faz falta nos dias de hoje. Os seus pais, Luís e Zélia, foram beatificados em 2008 e canonizados em 2015, caso único na história da Igreja. Como dizia bem S. João Paulo II, “a Santidade é a medida alta da vida cristã ordinária”. Por isso, Jesus proclamou as Bem-Aventuranças no alto da montanha!

    Santa Teresinha do Menino Jesus, roga por nós e ensina-nos o teu Caminho pequenino e florido.

    António Couto


  • Cristo, que nos guarda, diz Santo Agostinho,

    adormeceu apenas uma vez, para nos salvar.

    Acordou, e não dormirá jamais.

    Estamos, pois, salvos e seguros,

    com Alguém sempre por perto e vigilante.

    Mas é bom saber também

    que este Alguém

    é Aquele-que-nos-ama,

    aquele-que-nos-chama,

    a nós que adormecemos tantas vezes.

    Mas, ainda assim, deu-nos também os Anjos e os Arcanjos,

    para serem a nossa Companhia e nossa Guarda,

    de noite e de dia,

    e acenderem na nossa alma uma luzinha de alegria

    do tamanho de um grãozinho de mostarda.

    A Igreja celebra amanhã, dia 29, a Festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.

    Obrigado, Senhor, por nos dares estes companheiros,

    e também mensageiros,

    vigilantes e atentos,

    que guiam os nossos passos em todos os momentos.

    António Couto


  • Amós 6,1.4-7; Salmo 146; 1 Timóteo 6,11-16; Lucas 16,19-31

    1. A parábola que nos é dado escutar neste Domingo XXVI do Tempo Comum, conhecida por «O rico avarento e o pobre Lázaro», narrada em Lucas 16,19-31, tem duas coisas únicas: 1) a primeira reside no facto de ser a única parábola de Jesus em que uma personagem ostenta nome próprio, Lázaro, nome emblemático que significa «Deus ajuda»; 2) a segunda tem a ver com o facto de que Jesus não dá qualquer explicação da parábola, nenhuma chave de interpretação nos é dada por Ele.

    2. A parábola mostra, em comparação (sýnkrisis) e em claríssimo contraponto, um RICO e um POBRE, de nome LÁZARO. Do RICO, que permanece anónimo, é dito que se vestia luxuosamente de púrpura e linho fino, sempre em comparação e em contraponto com o POBRE LÁZARO que se apresentava coberto ou vestido de chagas. A púrpura era considerada na antiguidade o tecido mais raro e precioso, e a tradição rabínica reservava-o aos reis. Do RICO é dito que se banqueteava sumptuosamente, outra vez em comparação e contraponto com o POBRE LÁZARO, esfomeado, que bem desejava comer os restos do miolo do pão com que o RICO limpava a gordura das suas mãos, de que resultavam pequenas bolas, que atirava depois aos cães!

    3. O RICO é absolutamente insensível, apresentado em contraponto até com os próprios cães, que se aproximavam do POBRE LÁZARO e lhe lambiam as chagas! A questão de fundo nem está em que o RICO hostilize o POBRE. Está em que nem sequer o vê! E a presença e o gesto simpático dos cães não tem o significado que hoje lhes atribuiríamos, mas exatamente o contrário, pois o cão era um animal impuro, e ser abandonado aos cães era uma desonra (cf. 1 Reis 21,19).

    4. Enfim, morre o POBRE LÁZARO e morre também o RICO anónimo, e o nevoeiro começa a dissipar-se. LÁZARO é acolhido no seio luminoso de Abraão. O RICO cai nos braços de um lume inextinguível que o aperta e atormenta.

    5. É então que o RICO levanta os olhos, e começa a ver alguma coisa para além de si mesmo. Mas o que vê, ou quem vê, é ainda para tentar pôr ao serviço do seu «eu» muito autorreferencial. É assim que vê finalmente, só agora, o pai Abraão e LÁZARO. A Abraão vê-o como pai (Lucas 16,24). Mas ao POBRE LÁZARO ainda não o consegue ver como um irmão, mas apenas como um servo que agora lhe pode ser útil. O RICO já não pode fazer mais nada. É irreversível a sua situação. Recorre então ao pobre para duas coisas, agora também impossíveis: primeiro, para refrescar a língua do RICO (Lucas 16,24); segundo, para avisar os cinco irmãos do RICO, vivos, ricos, insensíveis e insensatos como ele (Lucas 16,27-28). O RICO continua afinal a pensar nos RICOS, e ainda se quer servir, para esse efeito, dos pobres… No entanto, o facto de a parábola trazer os vivos para a cena constitui um elemento importante, pois é a situação do leitor e do ouvinte da parábola. E ficamos então todos a saber que também a nós toca a conversão. E que é este o tempo da conversão. E que, para esse efeito, não é suficiente vir alguém do além para nos fazer mudar de ideias. Para isso, basta escutar a Palavra de Deus e agir em consequência.

    6. A resposta de Abraão é esclarecedora e decisiva. Há um abismo entre nós e vós. Claro que o abismo que AGORA não é possível transpor é o abismo cavado em vida pelo RICO separando-se do POBRE. É, portanto, HOJE que o RICO deve ouvir a voz do POBRE. É, portanto, HOJE que o RICO deve escutar Moisés e os Profetas.

    7. A parábola é imensa. É como uma faca apontada ao coração dos RICOS de hoje, que continuarão a fazer as suas reuniões faustosas e vistosas, mas continuarão a não cumprir sequer os «Objetivos de Desenvolvimento do Milénio», estabelecidos no ano 2000 para erradicar doenças e reduzir para menos de metade a pobreza extrema. A pobreza afinal é dos outros, que nós não conhecemos de lado nenhum, ainda que estejam doentes e esfomeados ali mesmo à nossa porta! Pensam como o RICO da parábola.

    8. Lembremo-nos que, no imaginário da Idade Média, o POBRE LÁZARO, nome que significa «Deus ajuda», saiu para fora da parábola e se transformou numa personagem histórica, padroeiro dos leprosos e mendigos. É assim que nascem os «Lazaretos», edifícios destinados a albergar e tratar os deserdados e doentes. E, no século XVII, S. VICENTE DE PAULO, cuja memória a Igreja celebra no dia 27 de setembro, que dedicou toda a sua vida aos pobres, fundou os Padres LAZARISTAS (sempre sobre a memória do POBRE LÁZARO), para continuar essa bela missão de saber que os pobres existem, que têm nome, e de os tratar com carinho. E, no século XIX, o beato FRÉDÉRIC OZANAM fundou as CONFERÊNCIAS VICENTINAS, que alicerçou sobre uma frase de S. VICENTE DE PAULO: «A caridade é inventiva até ao infinito!».

    9. Está à vista, meus irmãos, que o POBRE LÁZARO tem de voltar a sair da parábola para nos incomodar e nos colocar todos os dias no caminho da criatividade da bondade e da Caridade!

    10. E aí temos outra vez Amós (6,1-7) a bater à nossa porta, a desassossegar o nosso sossego, a desmoronar os nossos belos palácios de marfim, a surpreender-nos enfartados e bêbados, deitados por aí em qualquer divã. O retrato feito nos vv. 4-6 é considerado como a melhor e mais ampla descrição da vida luxuosa dos ricos em todo o Antigo Testamento. Estendidos, isto é, reclinados (ver também Amós 2,8), para comer e beber, não o pão e o vinho da bênção de Deus e da partilha com os necessitados, mas o pão do crime e o vinho da violência (Provérbios 4,17). Mas também semelhantes à palha, deitada, e não de pé, como a árvore plantada, de acordo com as imagens vegetais utilizadas no Salmo 1 para retratar o insensato em confronto com o justo. A árvore plantada, portanto, de pé, está viva, respira o vento, dá fruto. A palha, essa, está deitada, é levada pelo vento, não dá fruto, mas é a casca do fruto. Ricos, orgulhosos, altivos, atulhados de excessos,  de luxos e de lixos, mas completamente indiferentes aos pobres – «não se afligem com a ruína de José» (6,6) –, o retrato traçado desta confraria dos «estendidos» só é comparável, porventura, com a parábola lucana do rico e do pobre Lázaro, que hoje também temos a graça de ouvir nos nossos ouvidos. Mas aí estão também já os Assírios para pôr fim àquilo que tantas vezes julgamos seguríssimo, senão eterno. Sim, os habitantes da Samaria irão nus e descalços para o exílio na Assíria. E um dia hão de chegar os arqueólogos, que descobrirão debaixo das ruínas os restos deste mundo podre e dissoluto!

    11. E a solene exortação de São Paulo a Timóteo, seu discípulo dileto, que hoje nos visita outra vez (1 Timóteo 6,11-16). Começa o v. 11a, com uma forte advertência a Timóteo a fugir destas coisas. Quais coisas? É preciso visitar atrás os vv. 4-6, onde se encontra um elenco de vícios, como o orgulho, controvérsias, conflitos de palavras, inveja, contendas, blasfémias, más suposições, lutas infindáveis, a piedade como fonte de lucro. No v. 7, encontramos esta verdade: «Nada trouxemos para o mundo, nem dele coisa alguma podemos levar». E ainda a grande sabedoria condensada no v. 10: «A raiz de todos os males é o dinheiro». Ora bem, é disto tudo que Timóteo deve fugir, para perseguir um elenco de virtudes, como a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão (v. 11b). Paulo exorta depois Timóteo a combater (agônízô) o bom e belo combate (agôn) da fé, para conquistar a vida eterna (v. 12a), e a fazer uma boa e bela profissão de fé (homología), como Jesus Cristo fez diante de Pilatos (vv. 12b-13).

    12. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

    António Couto


  • A Igreja celebra no próximo dia 27, Sábado, a figura ilustre de São Vicente de Paulo, que encheu o século XVII de caridade, e vamos ouvir no Evangelho do próximo Domingo, dia 28, a parábola do Rico, que se banqueteava, e do pobre Lázaro, chagado e faminto, literalmente encostado à sua porta. Lembremo-nos agora que, no imaginário da Idade Média, o pobre Lázaro, cujo nome significa «Deus ajuda», saiu fora da parábola e transformou-se numa personagem histórica, como padroeiro dos leprosos e mendigos. É assim que nascem os «Lazaretos», edifícios destinados a albergar e tratar os doentes e deserdados. E, no século XVII, São Vicente de Paulo, cuja memória celebramos no próximo Sábado, que dedicou a sua vida toda aos pobres, fundou os Padres Lazaristas (sempre sobre a memória do pobre Lázaro), para continuar essa bela missão de tratar os pobres com carinho. E, no século XIX, o beato Frederico Ozanam fundou as Conferências Vicentinas, entregando-lhes a sublime missão de assistir os pobres e necessitados, sempre com referência a São Vicente de Paulo e à caridade por ele vivida e pregada, e que, nas suas palavras, é «inventiva até ao infinito».

    São Vicente de Paulo, ensina-nos a sair da nossa indiferença e a amar um pouco mais os pobres e desfavorecidos deste mundo, atirados pela porta fora pelos ricos e poderosos.

    António Couto


  • Hoje, dia 21 de setembro, é Domingo, e a Igreja celebra naturalmente o Dia do Senhor. Se não fosse Domingo, a Igreja celebraria a Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista, pois o dia 21 de setembro é o seu dia. Por isso, aqui inserimos umas linhas sobre ele. Mateus era publicano de profissão. O termo publicano deriva do termo latino publicanus, que designa coletor de dinheiro público. O posto de cobrança de Mateus situava-se um pouco a norte de Cafarnaum, junto da estrada internacional que ali passava, lugar de passagem, e que ligava o Egito à Mesopotâmia. Como publicano, Mateus estava ao serviço do poder ocupante, o império romano, e cabia-lhe a tarefa odiosa de cobrar impostos aos seus concidadãos judeus para os entregar às autoridades romanas. Era, pois, naturalmente mal visto e odiado pelos judeus, que diariamente o insultavam e enchiam de nomes feios.

    Até que um dia passou pela banca de impostos de Mateus um homem chamado Jesus, que, em vez de o insultar, poisou nele o seu sereno olhar de amor, e disse: «Segue-me!». A resposta de Mateus foi imediata. Atingido no coração por um olhar novo e uma palavra nova, Mateus levantou-se e seguiu Jesus. Afinal, era a primeira vez que alguém o tratava como seu igual! O passo seguinte foi uma Festa que Mateus ofereceu aos seus amigos, publicanos e pecadores como ele, e a Jesus e aos seus discípulos. É aqui que nasce o Apóstolo e Evangelista São Mateus.

    São Mateus, roga por nós e por todos os que desconhecem Jesus e não sabem o que é um olhar de Amor e de Perdão.

    António Couto


  • Amós 8,4-7; Salmo 113; 1 Timóteo 2,1-8; Lucas 16,1-13

    1. O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a Lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas belas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

    2. A parábola do Administrador desonesto, que escutaremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a leem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

    3. O leitor ou ouvinte simples e de boa fé diz naturalmente que não, e compreende que deve afinar pela honestidade a sua vida. Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o desconforto sentido pela incompreensão do texto, por indagar os costumes então em uso na Palestina, e descobrem que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que se ausentavam para os seus negócios, deixando no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o montante que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros ou benefícios, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

    4. Explicação aparentemente fácil e sensata, mas que não pode ser levada em conta. É demasiado equilíbrio para tão pouca explicação! Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, e tão pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a prontidão, inteligência, clarividência e largueza de vistas com que o administrador procede, sem permitir que o assalte, nem por um momento, a hesitação ou a fuga às suas responsabilidades.

    5. É verdade que o administrador da parábola e o discípulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador, não a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontidão, inteligência e largueza de vistas. Todavia, se a parábola só ensinasse isto, tratava-se de coisas óbvias que a vida sensata nos vai ensinando todos os dias. Para aprender apenas isto, não é preciso ler ou ouvir nenhum Evangelho. O Evangelho tem de nos levar para além do habitual, tem de desequilibrar completamente as nossas habituais maneiras de fazer e proceder.

    6. Prossigamos então este caminho. Na sua literalidade (nem precisamos de ser muito rebuscados), este pedaço do Evangelho deve revolver completamente os nossos procedimentos. E aquilo que salta à nossa vista, quer queiramos quer não, é a figura de um administrador que esbanja completamente os bens de que dispõe, e que não são dele. São do seu senhor. Inequívoco. O texto diz expressamente que o administrador «convocou os devedores do seu senhor, e disse ao primeiro: “Quanto deves ao meu senhor?”» (v. 5). Fica claro quem é o proprietário daqueles bens: é o senhor do administrador e dos devedores. À pergunta formulada pelo administrador: «Quanto deves ao meu senhor?», o devedor respondeu: «Cem talhas de azeite». Resposta do administrador, que traz para a cena, agora sim, não a usual prudência e honestidade, mas o Evangelho: «Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (v. 6). Sem equívocos: este administrador é um esbanjador dos bens do seu senhor! Olhemos então de frente, e perguntemo-nos: «E Jesus não veio esbanjar os bens do Pai?». Não esbanjou e continua a esbanjar o amor, o perdão, a vida, a misericórdia, a alegria, a paz? E não ensinou os seus discípulos a fazer assim também? Portanto, o administrador da parábola não faz mais do que Jesus fez e faz. Por estranho que pareça, distribuir sem medida, «esbanjar», é a ideia-chave e a palavra-chave da parábola. E então, o leitor e o ouvinte desta parábola do Evangelho já sabem até que ponto este bocadinho de Evangelho pode e deve envolver e revolver a sua vida.

    7. Mas, há ainda, no v. 6, outro belo apontador do Evangelho, que não podemos descurar. É aquele: «Senta-te depressa…». Mas que pressa é esta? É a pressa e o mapa da Páscoa do Egito, porta aberta para a viagem transitiva e intransitiva da liberdade: «Comereis a toda a pressa com os rins cingidos, as sandálias nos pés, o cajado na mão; é a Páscoa do Senhor» (Êxodo 12,11). É a pressa do mensageiro de Isaías 52,7, que corre sobre os montes porque tem para anunciar boas novas a Sião, exultação logo replicada pelas sentinelas de Sião, e que chega a revolver e a envolver mesmo as próprias ruínas de Jerusalém (Isaías 52,8-9). É a pressa do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, que o amor faz correr sobre os montes. É a pressa de Maria que se levanta e se põe a caminho apressadamente (Lucas 1,39), Arca da Nova Aliança portadora do Evangelho em pessoa. É a pressa dos pastores dos campos de Belém, que correm a Belém (Lucas 2,15-16), para ver e saudar o Salvador acabado de nascer. É a pressa dos setenta e dois discípulos de Jesus (Lucas 10,4), enviados por Jesus, sem paragens no caminho, procedimento inconcebível no mundo do Médio Oriente Antigo (onde as pessoas se entretinham longamente a conversar), e que lembra a pressa imposta pelo profeta Eliseu ao seu servo Guiezi para ir, sem paragem no caminho, ao encontro do filho morto da Sunamita (2 Reis 4,29), a qual também tinha partido a toda a pressa para casa de Eliseu (2 Reis 4,22). É a pressa do Pai do filho pródigo, quando interrompe o discurso do filho, e diz para os criados: «”Depressa”, trazei o primeiro vestido, e vesti-lho» (Lucas 15,22). É a pressa de Jesus, quando diz para Zaqueu: «Desce depressa, porque é preciso para mim ficar hoje em tua casa» (Lucas 19,5). É a pressa de Zaqueu a descer do sicómoro e a receber Jesus em sua casa, para virar a sua vida toda do avesso (Lucas 19,6). É a pressa das mulheres e dos homens da Páscoa, que até hoje não param de correr (João 20,2.4). É a pressa de Pedro pelo anjo atirado da prisão para a rua (Atos 12,7). É a pressa de Paulo em anunciar aos judeus de Damasco que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9,20). É esta a pressa do administrador esbanjador dos bens do seu senhor, que diz para um dos devedores: «Cem talhas de azeite? Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (Lucas 16,6). Não nos resta senão acelerar a nossa vida para nos pormos ao ritmo do Evangelho.

    8. A parábola contada por Jesus permite ainda uma correta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nós nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, ídolo a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5; Baruc 6,69). No nosso caso e nesta sociedade moderna, pode tratar-se de belos edifícios plantados no meio das cidades. É aí que estão os bancos! O historiador das religiões, David Flüsser, atravessava um dia a cidade de Atenas enquanto refletia sobre a fé, grego pístis, no Novo Testamento. E quando levantou os olhos, deparou-se com grandes letras no frontal de um edifício. Leu: trápeza tês písteôs, à letra, banco de fé, em termos modernos, banco de crédito! Veja-se, hoje, com olhar lúcido, o logro ou o lodaçal das nossas arquitetadas seguranças!

    9. Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben Sira já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben Sira 27,1-3).

    10. O livro de Amós, de que hoje ouvimos também uma pequena perícope (8,4-7), caustica severamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas o seu Livro parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda atualidade. A lição de hoje abre com a chamada «fórmula de atenção» [= «Ouvi»], que introduz habitualmente oráculos de desgraça, e dirige-se aos ricos e latifundiários, que vendem o trigo aos necessitados, enganando-os e roubando-os sorrateiramente, usando balanças, medidas e pesos falseados, comprando o trabalho dos pobres por um par de sandálias! Como se vê, sendo embora o texto do séc. VIII a.C., parece que estamos a ler um compêndio moderno de economia e comércio, que tem em vista apenas o lucro fácil a custo seja do que for. O oráculo termina referindo que para um tal comportamento de roubo, para cúmulo disfarçado de seriedade, não há amnistia: «nunca o esquecerei», diz Deus (v. 7). O efá, de que se fala no texto (v. 5), usado para medir cereais, equivalia a 45 litros. O sheqel ou siclo, de que também se fala no v. 5, pesava 11,4 gramas. A moeda propriamente dita aparece no séc. VIII na Anatólia, e pouco depois na Grécia. O sheqel é o nome atualmente usado para designar a moeda israelita.

    11. Chega-nos hoje mais uma extraordinária lição de São Paulo na sua 1 Carta a Timóteo 2,1-8. Primeiro que tudo (prôton pántôn), rezar por todos os homens, usando todas as modalidades da oração: súplicas (deêseis), orações intensas (proseuchaí), pedidos (enteúxeis), ações de graças (eucharistíai) (v. 1). Depois, a afirmação da vontade salvadora universal de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos, e ao conhecimento da verdade venham (v. 4). Dois movimentos: um da parte de Deus, nunca anulável; outro da nossa parte, indicando que nos devemos pôr em movimento em ordem ao conhecimento profundo, pessoal, íntimo, experimental (epígnôsis) da verdade, que é o amor fiel e fiável de Deus por nós. Em continuidade, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nós (v. 5-6). A seguir, a razão de ser do próprio Paulo e da sua missão de anunciador (kêryx) e apóstolo (apóstolos) (v. 7). Por último, como ao princípio, a vontade de Paulo de que todos rezem em toda a parte (v. 8).

    12. E ficamos com a música inebriante do Salmo 113, o Salmo que abre o fascículo dos Salmos 113-118, catalogados como o «pequeno Hallel da Páscoa» ou «Hallel egípcio», Salmos cantados no decurso da Ceia da Páscoa hebraica, de que o Talmude regista uma imagem sugestiva, deixando supor que, no decurso da Ceia da Páscoa, se levantava das casas dos hebreus um suspiro de louvor que perfurava os tetos e chegava ao céu: «A Páscoa é saborosa como a azeitona, e o Hallel deve atravessar os tetos das casas para chegar ao trono de Deus». O Salmo 113, sessenta palavras hebraicas, apresenta três belos andamentos: o primeiro, v. 1-3, convida os orantes a encher de louvor o espaço todo visto na sua linha horizontal (do nascer ao pôr do sol: oriente-ocidente) e o tempo todo (agora e sempre). Este louvor intenso dirige-se à pessoa do Senhor, expressa pelo Nome do Senhor (três vezes). O segundo andamento, v. 4-6, desenha uma linha vertical no sentido descendente (céu-terra), e mostra a transcendência, a glória e a incomparabilidade de Deus, sentado no alto, nos céus, mas amorosamente debruçado sobre a terra. Portanto, o nosso Deus não é um Deus impassível e abstrato, fechado nas paredes douradas da sua eternidade, mas é um Deus que se interessa por nós. O terceiro andamento, v. 7-9, desenha agora uma linha vertical no sentido ascendente (terra-céu), e mostra Deus em ação no nosso mundo, levantando do pó e do esterco os indigentes, e fazendo da estéril, por todos desprezada, mãe honrada e feliz, habitante digna na casa do Senhor. Grande Hino de Louvor, que faz comunhão na vertical e na horizontal, e que nos junta a todos na bênção (v. 2), hebraico berakah, grego eulogía, que desenha um mundo de bondade e de bem, de pensar bem, dizer bem, querer bem, fazer bem. Bendizer ou dizer bem une, como sabemos. Une-nos uns com os outros e todos com Deus. É a Eucaristia. Ao contrário, maldizer ou dizer mal separa, como também sabemos.

    13. Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

    António Couto


  • Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores.

    Na aurora dos tempos Deus sonhou

    o sonho que continua a sonhar ainda hoje.

    Um sonho bom e belo e justo brota sempre do coração de Deus,

    e o Homem está no centro desse sonho feito criação.

    Coração a coração, sonho a sonho,

    o Homem sonhou também,

    e via-se então a humanidade toda de mãos dadas e abertas,

    sem sebes nem armas nem cobiças.

    Mas rapidamente se embotou o coração da humanidade,

    e apareceu a cizânia, a inveja, a ambição, a guerra.

    No coração da humanidade,

    o sonho transformou-se então em pesadelo e morte.

    Mas Deus não desistiu nunca do seu sonho.

    E, no coração do tempo,

    clareira aberta no bosque,

    luz nas trevas,

    Maria encostou o ouvido ao coração de Deus.

    Sonho a sonho,

    o coração de Maria começou a pulsar ao ritmo do coração de Deus.

    O sonho sonhado fez-se carne,

    e Maria tornou-se a Mãe da nova Humanidade.

    Mas as nossas raivas continuavam acesas e atiçadas

    contra este sonho estreme e indefeso.

    Foi assim que matámos o teu Filho, Senhora.

    Matámos o teu Filho.

    Mas tu vieste ao nosso encontro.

    Vens sempre ao nosso encontro,

    ao encontro dos teus filhos violentos,

    e acolhes-nos no teu regaço maternal.

    Mãe! Senhora das Dores!

    Senhora que acolhe as nossas Dores.

    Aqui estamos, nesta terra tão sofrida e tão querida.

    Recebe-a.

    Recebe-nos.

    Recebe o nosso coração violento e azedo.

    Recebe, Mãe, as nossas lágrimas,

    e troca-as por flores,

    Mãe, Senhora das Dores.

    Acolhe-nos, Mãe.

    Embala-nos nos teus braços maternais.

    Deixa-nos encostar o nosso ouvido ao teu coração de Mãe.

    Acolhe as nossas preces.

    Acalma-nos.

    Sorri para nós, Mãe.

    Queremos ir daqui embora sossegados, serenos, tranquilos.

    Como teus filhos queridos,

    protegidos pela tua bênção maternal.

    António Couto


  • Irei também, Senhor,

    Em procissão de amor,

    Beijar a tua Cruz.

    E quando eu olhar para ti,

    Para o teu rosto ferido e desfigurado,

    Para as tuas muitas chagas a sangrar,

    Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

    E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

    Com esse meigo olhar de serena compaixão,

    Dá-me a graça de aí ver o teu perdão nunca poupado,

    E de sair com o coração transfigurado.

    António Couto


  • Nm 21,4-9; Fl 2,6-11; Sl 78; Jo 3,13-17

    1. Por coincidir este ano com o dia 14 de setembro, a Igreja celebra, neste Domingo XXIV do Tempo Comum, a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que se celebra todos os anos neste dia 14 de setembro. É sabido que a Igreja-Mãe de Jerusalém rapidamente fez do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. Na sua luta implacável contra o culto cristão, o Imperador Adriano (117-138), sobretudo nos últimos anos do seu reinado, transformou Jerusalém, em termos de edifícios e de moral, numa cidade de estilo romano, a Aelia Capitolina. Para tanto, soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de dissuadir os cristãos de continuar a frequentar esses lugares pelo temor da communicatio in sacris. Assim, no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. O projeto de Adriano não atingiu os seus fins, pois os judeo-cristãos continuaram a frequentar aqueles lugares, confundindo-se com os pagãos, que ali faziam ritos semelhantes, ainda que antitéticos. Neste sentido, conclui S. Jerónimo, que o imperador não conseguiu, como pretendia, apagar nas almas dos cristãos a fé na Ressurreição e na Cruz de Cristo. Não é de admirar, portanto, que, quando em 13 de setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, tenham sido logo demolidas as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que, em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração da Cruz: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

    2. E as coisas assim continuaram até ao ano 614, quando o rei persa Cosroé II conquistou Jerusalém e levou consigo a Santa Cruz. Neste dia, rezam as diferentes crónicas que documentam o sucedido no dia 20 de maio de 614, que «a Jerusalém do Alto chorava sobre a Jerusalém de baixo», tal era o grau de destruição, fúria, ódio, violência, sangue. Todavia, em 630, a Santa Cruz regressa a Jerusalém por obra do imperador bizantino Eráclio que, em 628, tinha derrotado o louco Cosroé II.

    3. São estes dois episódios históricos, dos séculos IV e VII, que fornecem o chão histórico para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que hoje celebramos. Anotamos, porém, que, mesmo sem estes episódios, e antes deles, a Cruz do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo, foi, segundo o Evangelho, exaltada para sempre diante dos nossos olhos.

    4. É, nesse sentido luminoso, que temos hoje a graça de ouvir o Evangelho de João 3,13-17, que expõe a toda a luz o «Filho do Homem, que deve (deî) ser levantado (hypsôthênai: aor. inf. passivo de hypsóô), para que todo o que acredita nele tenha a vida eterna» (João 3,14b). Vê-se perfeitamente que Jesus está a expor diante dos olhos de Nicodemos e dos nossos, a Cruz Santa e Gloriosa em que Ele próprio, o Senhor da Vida, será crucificado, que o mesmo é dizer, na linguagem Joanina, exaltado e glorificado. Note-se a presença da mão de Deus, quer na necessidade teológica, expressa naquele deî, que reclama o plano divino, quer na forma passiva utilizada na ação deste levantamento. Também é importante a comparação explícita que o próprio Jesus faz do seu levantamento com a ação de Moisés: «Assim como Moisés levantou (hýpsôsen: aor. de hypsóô) a cobra no deserto» (João 3,14a). E não podemos também perder de vista que, com este dizer, Jesus se assume como o verda­deiro Servo de YHWH, que «será exaltado» (hypsóô) por Deus (Isaías 52,13), e se apresenta a si mesmo como transparência de Deus: «Quando tiverdes levantado (hypsóô) o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou” (egô eimi), e que por mim mesmo nada faço, mas como me ensinou o Pai estas coisas falo (laléô)» (João 8,28). Paulo também dirá, na Carta aos Filipenses, acerca deste Jesus, que Deus o «sobreexaltou» (hyperhypsóô) (Filipenses 2,9).

    5. Notemos, antes de mais, que o levantamento de Jesus na Cruz é em ordem a dar a vida eterna (zôê aiônios) a todos os que creem (João 3,15-16). É por isso que Jesus diz: «Quando eu for levantado (hypsóô) da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32). E ainda: «Hão‑de olhar para aquele que trespassaram» (João 19,37). Na verdade, para ter a Vida verdadeira, eterna, divina, vivente, que não morre, é necessario ver [= acre­ditar] o Filho (João 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36). Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (João 3,5), isto é, do alto e de outra maneira (ánôthen) (João 3,3).

    6. Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naquelas chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está escondido em nós; 2) passa ali também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça. Sendo Deus amor, então a única maneira que Ele tem de curar o meu pecado não é decretar, lá do alto e de dentro das paredes douradas da sua eternidade, uma qualquer amnistia. A única maneira que Deus tem de me curar é descer ao meu mundo, viver no meu mundo, caminhar comigo, sujeitar-se às minhas maldades e violências, sofrê-las, absorvê-las e absolvê-las. É só assim, desarmado e só amando, que pode dissolver e absolver o pecado que há em mim. «Deus amou tanto o mundo» (João 3,16). A cura não é mágica. Levantada e exibida bem diante dos nossos olhos, naquele rosto desfigurado e naquele sangue a escorrer, a imagem da violência, mentira, ódios, dentro de nós escondida, mas agora declarada, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali exposto bem diante dos nossos olhos: é aquele amor e perdão subversivos!

    7. Era então necessário que Jesus sofresse na Cruz, daquela maneira, por nós? Sim, porque, para nos salvar, Deus não podia senão amar-nos. E, para nos amar, tinha sempre de vir viver connosco, no meio de nós, e sujeitar-se naturalmente às maldades e violências daqueles que Ele amava. Se nós fôssemos todos bons, seguramente que Jesus não teria sofrido e morrido naquela Cruz. Porquê? Porque não era necessário? Penso que a maioria de nós responderia que sim, que não era necessário. Mas a resposta verdadeira e objetiva nem sequer passa pelos terrenos da necessidade, e está toda aqui: Jesus não teria morrido naquela Cruz simplesmente porque, sendo nós todos bons, quem de nós ia fazer uma coisa daquelas?!

    8. Atenção, portanto: a Cruz não é o nosso pecado. É a imagem do nosso pecado! O pecado, que está em nós, produziu aquela imagem. Sim, está ali a imagem da nossa violência e estupidez. Vendo a imagem, podemos ver o pecado, o mal que há em nós, habitualmente escondido e dissimulado. A Cruz também não é o amor de Deus. É a imagem do Amor de Deus!

    9. Se olharmos agora para o texto do Livro dos Números 21,4-9, tudo fica mais claro. O pecado camuflava-se nos interstícios do coração do povo de Israel no deserto. O resultado era a murmuração contra Deus e contra Moisés, o não reconhecimento da ação libertadora de Deus no Êxodo e o desprezo do alimento dado por Deus no deserto, causa de fastio, e não de maravilha (Números 21,5). Como corrigir, com boa pedagogia, esta situação? Aí estão as cobras (nehashîm) venenosas, que mordem e matam (Números 21,6). A cobra é, por excelência, imagem do pecado. Esconde-se e dissimula-se como o pecado. E o veneno que transporta, igualmente dissimulado, conduz à morte, como o pecado. A cobra, como o pecado, anda dentro de nós, dissimulada nas pregas do nosso coração empedernido. É sintomático que o Livro do Génesis 3,14 refira que a cobra se alimenta de pó (ʽaphar). De pó (ʽaphar) foi modelado o homem (Génesis 2,7). Salta então à vista que a cobra se alimenta de nós. É um parasita perigoso que se alimenta de nós e nos vai corroendo. Como o pecado.

    10. Moisés expõe num poste uma cobra de bronze. Quem olhar para ela, fica curado (Números 21,8-9). Não se trata de magia, mas, outra vez, do realismo bíblico. Note-se também, antes de mais, que não era uma cobra que Moisés fixava no poste, mas a imagem de uma cobra. Olhar bem para a imagem da cobra leva-nos a descobrir a cobra verdadeira que anda dentro de nós, o veneno que transportamos, que nos mata e mata os nossos irmãos. Feito o diagnóstico, reconhecido o mal de que padecemos, podemos então iniciar o processo da cura. É neste ponto preciso que a boa pedagogia de Jesus em João 3,14 nos leva a ver bem o Filho do Homem levantado como Moisés levantou a cobra no deserto.

    11. O chamado «hino cristológico», que encontramos na Carta aos Filipenses 2,6-11, volta a pôr diante de nós o Filho de Deus, humilhado e exaltado, Jesus, que recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. Segundo as boas indicações gramaticais, o sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

    12. O Salmo 78 ensina-nos que a Bíblia é a longa história de uma salvação sempre oferecida, acolhida e, por vezes, rejeitada. Lembra-nos que que as maravilhas de Deus não são para guardar no cofre da família, mas para passar, de mão em mão, de coração a coração, de pais para filhos, de geração a geração. A catequese é o anúncio de um acontecimento em carne viva que nos deve comprometer, e não de uma série de frias ou requentadas teses teológicas.

    António Couto


  • Senhor, Tu falas,

    Tu fazes,

    Tu chamas,

    Tu ordenas.

    O teu dizer é belo, fácil e fecundo:

    Tu dizes, e tudo vem à existência.

    Todos os caminhos vêm de ti,

    vão para ti.

    És tu o Senhor de todos os chamados,

    de todos os reunidos,

    de todos os enviados.

    Nós somos os teus próprios discípulos,

    tua propriedade,

    coisa própria tua.

    Tu és a casa,

    a mesa,

    o caminho,

    o peixe,

    o pão,

    o vinho.

    Velas por todos:

    pelos pais,

    pelos filhos,

    pelos irmãos,

    pelos desfilhados,

    pelos órfãos,

    pelos desirmanados.

    Vela por nós, Senhor!

    Fica connosco!

    Dirige a nossa inteligência e a nossa vontade!

    Acalma-nos,

    quando nos vires em demasia atarefados e desorientados,

    com medo de morrermos afogados.

    Orienta a nossa barca!

    Deita-te tranquilamente à popa:

    o teu sono sereno

    há de por certo serenar as nossas tempestades.

    Senhor, vem em nosso auxílio!

    António Couto


  • 1. Vale a pena abrir uma das páginas seletas de Marcos, que transborda aromas de excecional serenidade e beleza. Trata-se do episódio de Marcos 4,35-41:

    «4,35E diz-lhes naquele dia, à tardinha: “Passemos para a outra margem”. 36E tendo eles deixado a multidão, tomam-NO consigo (paralambánousin autón), assim como estava (hôs ên), na Barca (en tô ploíô), e outras barcas estavam com ELE. 37E acontece uma grande tempestade de vento, e as ondas atiravam-se para dentro da Barca, de maneira a ficar cheia a Barca. 38E ELE estava à popa (prýmna), dormindo (katheúdôn) sobre a almofada (epì tô proskephálaion). E acordam-NO e dizem-LHE: “Mestre, Tu não Te importas que morramos?”. 39E, tendo acordado, ordenou ao vento e disse ao mar: “Cala-te! Acalma-te!”. E cessou o vento, e aconteceu grande bonança. 40E disse-lhes: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. 41E foram amedrontados (ephobêthêsan) de um medo grande (phóbos mégas), e diziam uns para os outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”».

    2. Um Evangelho de excelência, uma página imensa, como o mar imenso, em que somos convidados a mergulhar. Um luxo. Em pleno mar da Galileia, os discípulos / apóstolos de Jesus lutam, aflitos, contra a tempestade que ameaça desfazer a pequena e frágil embarcação no meio do mar encapelado (Marcos 4,35-41). A arqueologia pôs a descoberto as pequenas embarcações de pesca do tempo de Jesus. Tinham cerca de 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, tornando-se, portanto, presa fácil das ondas e do vento. E em claro e sereno contraponto, narra o Evangelho, «Jesus, à popa, dormia deitado sobre uma almofada» (Marcos 4,38). Não nos esqueçamos que a popa é o lugar de comando da embarcação. Jesus permanece, portanto, no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem nos apercebamos da serenidade da sua condução. A presença da almofada na pobre embarcação e do sono sereno de Jesus marcam bem o tom doce e tranquilo deste condutor diferente da nossa vida agitada. Não é a nossa agitação que conta. É o seu sono tranquilo. Ainda que algumas vezes nós caiamos na tentação, como, de resto, sucede com aqueles discípulos, de julgar o sono de Jesus como indiferença (4,38).

    3. Canta bem a Liturgia das Horas da Igreja:

    «Se me colhe a tempestade,

    E Jesus vai a dormir na minha barca,

    Nada temo porque a Paz está comigo».

    4. Senhor, Tu falas, tu fazes, tu chamas, tu ordenas. Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o caminho, o vinho, o pão, o peixe. Velas por todos: pelos pais, pelos filhos, pelos irmãos, pelos desfilhados (shekôl, shikulîm), pelos órfãos, pelos desirmanados. Vela por nós, Senhor, orienta a nossa barca, deita-te tranquilamente à popa (Marcos 4,38): o teu sono sereno há-de certamente serenar as nossas tempestades.

    5. Marcos descreve três travessias do mar da Galileia. Além da que aqui apresentamos agora (Marcos 4,35-41), veja-se também Marcos 6,45-52 e 8,13-21. Carateriza-as sempre o facto de a precedê-las estar o afastamento das multidões. Por outro lado, estas travessias do mar na Barca deixam Jesus a sós com os seus discípulos, possibilitando-lhes uma experiência pessoal com Ele. A Barca (tò ploîon) demarca, de resto, um espaço privilegiado que Jesus condivide unicamente com os seus discípulos. Mais ninguém entra nessa Barca, ainda que o solicite (veja-se Marcos 5,18).

    6. Na travessia de hoje, levantou-se uma violenta tempestade, que encheu de água a pequena Barca e de medo aqueles discípulos. Como Jesus dormia tranquilamente deitado sobre a almofada, os discípulos correram a acordá-lo, deixando no ar um certo tom acusatório por aquilo que julgavam ser o desinteresse de Jesus pela vida dos que seguiam com Ele: «Tu não te importas que pereçamos?» (Marcos 4,38).

    7. Jesus levanta-se e mostra um modo novo de fazer bem diferente dos seus discípulos. Dirige-se primeiro ao vento e ao mar, dando duas ordens: «Cala-te! Acalma-te!» (Marcos 4,39). E parou o vento, e fez-se bonança no mar (Marcos 4,39). Só depois disto, Jesus se dirige aos seus discípulos, não com duas ordens, mas com duas perguntas incisivas: «Por que tendes medo? Ainda não tendes fé? (Marcos 4,40). Os discípulos não responderam, mas expressam a sua reação perante tudo o que viram Jesus fazer e ouviram Jesus dizer: «Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?» (Marcos 4,41).

    8. Já lá atrás, em Cafarnaum, Jesus tinha dado ordens a um espírito impuro, e ele obedeceu (Marcos 1,26-27). Fica então claro que os espíritos impuros e as forças da natureza, que não reagem a palavras humanas, seguem à letra as ordens de Jesus. Os discípulos saem então de um temor, não para a acalmia, como seria de supor, mas para outro temor ainda maior. É o temor que resulta da experiência do poder divino, sobreumano (Êxodo 14,31). Tal como o perigo, também a salvação do perigo é superior ao homem, vence a humana impotência e desperta o sentido profundo do sagrado. O novo temor daqueles discípulos mostra o sentido que começam a ver nascer do fazer divino de Jesus. Mas expressa também o seu espanto diante da pergunta de Jesus [«ainda não tendes fé?»], que deixa supor uma fé incondicionada. Se fosse requerida por um homem, uma tal fé seria impossível e sem sentido. A pergunta que os discípulos se fazem entre si é, portanto, dupla: «Quem é este que faz tais coisas e que pede uma tal fé»? Esta pergunta não exprime dúvida, mas espanto sagrado e pesquisa atenta. Acompanhá-los-á daqui para a frente no seu caminho com Jesus.

    9. Note-se que, no episódio hoje diante de nós estendido, e nunca de todo entendido, a iniciativa de entrar na Barca é de Jesus (Marcos 4,35), mas também é dito que os discípulos «tomam Jesus, assim como estava, na Barca» (Marcos 4,36). Pode passar despercebido, mas esta fantástica anotação não é uma pequena nota do diário de bordo daquela travessia marítima. Serve, antes, para nos apercebermos bem que, na verdade, é Jesus que conduz aqueles discípulos, estes discípulos, assim como somos, assim como estamos!

    António Couto


  • Os seguidores de mesadepalavras.wordpress.com devem ter reparado que o site deixou de ser atualizado há cerca de quinze dias. Problemas técnicos ainda hoje não compreendidos a isso obrigaram o autor e alimentador do site. Além disso, Todo o acervo de mesadepalavras.com, que contava mais de 1300 posts foi perdido, e permanece irrecuperável. A página aberta ao público ainda permanece disponível, por enquanto, e pode ser aproveitada.

    Anuncio aos muitos seguidores, de todas as latitudes, a criação de um novo site, também com o título mesadepalavras.org. A única pequena diferença está no .org. Esquecendo o passado, que permanece irrecuperável, este novo site vai manter a identidade do anterior, servindo sobretudo as páginas litúrgicas, como era usual no anterior. Mas não só. Haverá também, como já se fazia no anterior, anotações apropriadas às circunstâncias que se forem deparando na dobadoira próprio do tempo.

    Para começar, vou colocar o post mais visitado no site anterior: “Jesus, à popa, dormia deitado numa almofada”.

    Saudações a todos os antigos e novos visitantes.

    António Couto