EM ESTADO DE MARAVILHA

1. «Do SENHOR veio isto:/ isto é MARAVILHOSO (niphla’t TM / thaumastê LXX) aos nossos olhos! ESTE-O-DIA que fez o SENHOR:/ exultemos e alegremo-nos nele!» (Sl 118,23-24).

2. Não é um dia cíclico, um dia entre outros dias, o dia que o salmista aclama! Os dias, de resto, fê-los todos o SENHOR (Gn 1,1-2,3). Trata-se aqui de um DIA novo, e sem série (cf. Sir 33,7-9). É o profético «DIA do SENHOR», aqui totalmente cheio da ação benfazeja do SENHOR!

3. Os Evangelhos documentam esta alegria grande e nova e esta ESTUPEFAÇÃO MARAVILHOSA a abrir o nascimento de JESUS e o DIA novo da sua Ressurreição. Alegria grande (chará megálê) evangelizada (euaggelízomai) aos pastores, mas que é para todo o povo (Lc 2,10). De facto, todos quantos escutaram os pastores ficaram MARAVILHADOS (thaumázô) (Lc 2,18). Em estado de MARAVILHA (thaumázôn: particípio presente) ficou Pedro quando leu os sinais do túmulo de Jesus aberto (Lc 24,12), e depois os Onze e os outros com eles, movidos pela alegria (chará) e pela MARAVILHA (thaumázontes: particípio presente) (Lc 24,41), um versículo sobrecarregado com as notas da alegria incontida e da esfuziante MARAVILHA.

4. Só assim, em estado de MARAVILHA permanente, Maria Madalena pode ir anunciar: «VI (heôraka) o SENHOR!» (Jo 20,18), e os Dez podem dizer a Tomé, chamado Gémeo, irmão gémeo, talvez nosso: «VIMOS (heôrákamen) o SENHOR!» (Jo 20,25). Os dois verbos «ver» estão no tempo perfeito, pelo que, de facto, significam: «VI e continuo a VER», «VIMOS e continuamos a VER». Um VER perfeito. Sempre pleno. Completo.

5. Lendo muito bem o mistério de Cristo, o Papa S. João Paulo II, no início do seu Pontificado, deixou escrito, com palavras luminosas, na Encíclica Redemptor hominis, n.º 10, de 04 de março de 1979, que o homem deve «apropriar-se e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção para se encontrar a si mesmo», e ficar assim «MARAVILHADO face a si mesmo», «ESTUPEFACTO perante o seu valor e dignidade». E acrescenta ainda que é «a esta ESTUPEFAÇÃO que se chama Evangelho ou Boa Nova».

6. Os missionários cultivam a alegria, o espanto e a MARAVILHA, e compete-lhes colocar este mundo em estado de MARAVILHA, ou não fôssemos nós também testemunhas destas coisas (cf. Lc 24,48; At 2,32). E, portanto, somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste! Nós tornámo-nos desistentes, apoderou-se de nós o desânimo e a frustração, fomos embora. E como é que estamos agora aqui, indómitas testemunhas, prontos a dar a vida por Jesus?

7. A Páscoa só pode ser cheia de CRISTO RESSUSCITADO, MARAVILHA do SENHOR aos nossos olhos!

António Couto