O SENHOR DA CRUZ

O mundo belo e sete vezes bom que Deus nos deu mostra-se hoje desfigurado, irreconhecível, maltratado, fruto das nossas desmedidas ambições, que envenenam o céu e o chão, e enchem os nossos dias de sangue e de guerras e de fomes e os esvaziam de amor, de pão, de paz e de perdão. O desvario que atravessa e varre de lés a lés o nosso mundo físico e mental impõe-se a uma velocidade supersónica semelhante aos mísseis e aos drones que diabolizam as vidas de tantos irmãos nossos. Nestas circunstâncias de crescente insensatez, não há como saber saudar com o coração aberto, ainda que dorido, esta oportunidade, esta estação de Graça, estes Dias Santos, esta Semana Santa, que Deus nos dá para rezar, para pensar, para contemplar. Neste sentido, a Semana Santa é um convite e um desafio a que saibamos transformar a nossa cidade exterior e interior num grande átrio de fraternidade, de oração e de paz. É por isso e para isso que as nossas igrejas têm ao seu redor um adro, um átrio, são um adro, um átrio, para todos irmos aprendendo a trocar impressões com Deus e uns com os outros. E já sabemos que, em cada Semana Santa, no centro deste grande adro ou átrio, que se deve expandir em círculos cada vez mais amplos até ocupar toda a cidade e todos os corações, deve estar a Cruz do Senhor, que traduz e assume as nossas dores, mas também o Senhor da Cruz, que dá sentido aos nossos sofrimentos e nos aponta o rumo da Ressurreição.

Contemplemos, então, demoradamente a Cruz do Senhor, e encontremo-nos com o Senhor da Cruz!

António Couto