ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

Isaías 7,10-14; 8,10; Salmo 40; Hebreus 10,4-10; Lucas 1,26-38

1. Dia 25 de Março, Dia grande, Dia solene, que reúne a Igreja inteira, Oriente e Ocidente, em celebração compacta ao seu Único Senhor, venerando a sua Mãe, na Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria, que aponta já para o Natal do Senhor. Ainda que, de facto, separados, hoje os irmãos estão todos unidos e reunidos à volta mesma mesa da Graça. Demos, por isso, graças a Deus. No Oriente, a Anunciação do Senhor permanece um Mistério tão central que, nas rubricas do calendário litúrgico, apenas cede à Sexta-Feira Santa. No rito bizantino, a própria Vigília Pascal, caso caia no dia 25 de março, reparte a celebração, uma parte do cânon Pascal, outra parte do cânon da Euaggelismós [= Evangelização], nome que este acontecimento recebe no Oriente.

2. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). Aí está outra vez a harmonia da Escritura Santa. E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

3. O centro da cena neste dia é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra da Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus a sua vida toda e a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver em matrimónio está, porém solidamente documentada, e impõe-se mesmo que assim a compreendamos no texto da Anunciação. O matrimónio de Maria e de José, como se pode entrever em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será tanto o quadro habitual do matrimónio em ordem à procriação, mas será mais o quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus. Neste quadro religioso, jurídico, social, não é de estranhar que Maria seja apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27; 2,5) que, perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), avança a objeção concreta: «Como pode ser isso, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34). Faço notar que, no quadro de um matrimónio habitual, esta objeção não faria sentido, pois se se tratasse de um matrimónio habitual, mais dia, menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho. Claramente, não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter um filho. Faço notar que este estatuto é conhecido no judaísmo [(tratado Niddah 1,4 da Mishnah judaica, e ver também as anotações precisas de Ireneu de Lião (130-202), Adv. Haer. III, 22,4, de Tertuliano de Cartago (160-220), De Virg. XI,2; Exhort. ad Cast. XII,2,  Gregório de Niza (330-395), in PG 46, 1140s., e Jerónimo (347-420), De Perp. Virg. 19]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos, no dizer de Gabriel (Lucas 1,13).

4. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver o matrimónio, além de estar documentada no judaísmo, é a que melhor explica a objeção de Maria ao anjo (de outro modo, no contexto de um matrimónio habitual, mais dia, menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho). Ao contrário do homem de Génesis 3 e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

5. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1, 28 e 30). Não se trata de uma simples saudação, de uma espécie de «Olá», como pode deixar entender a tradução latina, mas de uma condensação de inúmeras páginas do Antigo Testamento, de uma enxurrada de «Evangelização», como, de resto, é chamado o episódio entre os nossos irmãos Orientais.

6. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Em toda a Escritura Santa, nenhuma mulher, exceto Maria, aparece chamada «a serva do Senhor». Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

7. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

8. Já se ouve a música de Isaías 7,10-14; 8,10. O cenário é a guerra siro-efraimita, que são dois exércitos, da Síria e de Israel, que põem cerco a Jerusalém, capital do Reino de Judá, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Judá. Já se vê um Isaías firme e confiante, que, enviado por Deus (Isaías 7,3), atravessa sem medo o cenário da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e trémulo rei Acaz (Isaías 7,2), que se encontra junto da nascente de Gihôn, a inspecionar as águas, uma palavra de conforto e de esperança. Para significar melhor tudo isto, Isaías leva o seu filho, que ostenta um nome de esperança She’ar yashûb [= «um “resto” voltará»], pela mão (Isaías 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cenário de guerra levando um filho pela mão, é, na verdade, testemunha de outra segurança! A mensagem que Isaías comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) não tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isaías 7,11). Já se sabe que o descrente Acaz não pedirá o sinal, diz ele, para não tentar a Deus (Isaías 7,12), isto é, hipocritamente alega uma razão aparentemente religiosa como paravento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um «sinal», nestas circunstâncias, era sinal de fé e de humildade que reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abraão (Génesis 15,8), de Gedeão (Juízes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse «sinal», como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.

9. Pouco importa. Eis que Deus dá, de igual maneira, o seu sinal: «A jovem» (‘almah TM; parthénos LXX) concebeu e dará à luz um filho a quem porá o nome de ‘immanû ’el [= «Connosco Deus»]» (Isaías 7,14). A jovem, aqui mencionada, é, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, mãe de Ezequias (2 Crónicas 29,1). O filho, cujo nascimento é anunciado é certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda não tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele não é nomeado, a promessa não se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro dinástico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este «filho» fica assim no campo dos «sinais», de resto como Isaías e os seus filhos (Isaías 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus (Mateus 1,18-25). Em primeira leitura, o «sinal» dado a Acaz é que a dinastia davídica, que corria perigo em 734 a.C., se salvará. Virá mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcará a infância daquele menino, que se alimentará de leite coalhado e mel (Isaías 7,15), alimentos que simbolizam abundância porque são dom de Deus (Deuteronómio 6,3; 11,9; 32,13-14; Êxodo 3,8 e 17).

10. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da razão, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da Síria, agora invasores e agressores, serão reduzidos a escombros (Isaías 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a Síria anexada pela Assíria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do território de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salomão, ou mesmo do tempo dos Juízes, serão recordadas e vividas em Judá. É o que pretende dizer o oráculo: «O Senhor fará vir sobre ti […] dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim se separou de Judá» (Isaías 7,17), ou seja, desde 926, data provável da morte de Salomão e da separação do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusalém.

11. Logo a seguir, Isaías introduz um oráculo de desgraça sobre Judá: as águas impetuosas da Assíria virão sobre Judá e submergi-lo-ão (Isaías 8,6-8). Mas é neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: «‘immanû ’el»! (8,8 e 10). Acostagem extraordinária da salvação à desgraça! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradição já para o próprio Isaías. Esta tradição tem a sua história. Já não temos apenas um sentido histórico único e determinado, mas começa a história da tradição do oráculo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegará ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.

12. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com esta avenida de sentido que atravessa a Escritura Santa. Travessia que jamais fazemos sozinhos, porque Ele está connosco sempre, e é Ele que abre a Escritura para nós nela podermos entrar (Lucas 24,32). Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram,/ mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7). E o texto, notável, da Carta aos Hebreus cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste,/ mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). E é assim, que vem ao nosso mundo, nascendo de Maria, para, no seu corpo e com o seu corpo, mãos, pés, entranhas, coração, inteligência, fazer a vontade de Deus (Hebreus 10,7 e 9; cf. Salmo 40,9), como está escrito acerca d’Ele no rolo antigo (Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8). Assim é ultrapassada a Economia antiga dos muitos sacrifícios e ofertas pela Economia nova em que somos santificados por meio da oferta (minhah) do corpo de Jesus Cristo uma vez por todas (epáphax) (Hebreus 10,10).

António Couto