O JUSTO JOSÉ

2 Samuel 7,4-5.12-14.16; Salmo 89; Romanos 4,13.16-18.22; Mateus 1,16.18-21.24

1. Celebramos hoje, dia 19 de março, a Solenidade de S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Sempre me encantou esta humaníssima e sensibilíssima figura de José, que o Evangelho de Mateus, hoje proclamado aos nossos ouvidos (Mateus 1,16-24), qualifica como «justo» (Mateus, 1,19). O termo «justiça» enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade à vontade salvífica de Deus. Neste Evangelho, os discípulos nunca são declarados «justos», mas são chamados à «justiça», a andar no «caminho da justiça» (Mateus 21,32), auto destituindo-se, libertando-se dos seus próprios projetos, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta, andando nos seus caminhos. O termo «justos», no plural, ouve-se várias vezes, sobretudo em textos de colorido parabólico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. «Justo», no singular, neste Evangelho de Mateus, só se aplica a José (Mateus 1,19, na pena do narrador) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: «que não haja nada entre ti e esse justo»), o que não deixa de ser uma nota significativa.

2. A cena abre com a notícia acerca da origem (génesis) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e não nascimento. Se fosse nascimento, o texto grego assinalá-lo-ia com génnêsis. A cena remete essa origem para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria não provinha de José nem de uma possível infidelidade de Maria, mas do Espírito Santo (ek pneúmatos hagíou) (Mateus 1,19b). É assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa grávida durante o noivado, a que os hebreus chamam ՚arûsîn, antes da fase propriamente conjugal ou de coabitação, a que os hebreus chamam nîssû՚în, e não sabendo disso a razão, mas desconfiando, dado que o seu matrimónio com Maria era seguramente, não em ordem à procriação, mas de proteção mútua e de total dedicação a Deus.

3. É oportuno introduzir aqui o estatuto dos chamados matrimónios putativos ou de proteção ou espirituais, a que não será alheia a locução «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê), que se ouve em Lucas 1,27. Parece cada vez mais razoável que o matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será explicável no quadro habitual de um matrimónio em ordem à procriação, mas será explicável mais, muito mais, no quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus, protegendo-se mutuamente. Neste quadro religioso, jurídico, social, Maria é apresentada como «desposada» (emnêsteuménê) (Mateus 1,18; Lucas 2,5), «virgem desposada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27), ou simplesmente como «a sua esposa» (hê gynê autoû) (Mateus 1,24), sendo José «o esposo de Maria» (ho anêr Marías) (Mateus 1,16) ou «o seu esposo» (hoanêrautês) (Mateus 1,19). A não ser este o estatuto do matrimónio de Maria e José, não se compreende que, posta perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), Maria avance logo a objeção concreta: «Como será isto, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34).

4. Eu entendo e entenda quem puder que, no quadro de um matrimónio habitual em mundo judaico, esta objeção não faria sentido, pois mais dia menos dia, sempre Maria haveria de ter um filho. Sem equívocos: não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter filhos. Faço notar que este estatuto matrimonial era conhecido no judaísmo, como se pode ver no tratado Niddah, da Mishnah judaica, e no cristianismo primitivo (ver as anotações precisas de Ireneu de Lião [130-202], Tertuliano de Cartago [160-220], Gregório de Niza [330-395] e Jerónimo [347-420]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que, no dizer do Anjo Gabriel, muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos (Lucas 1,13).

5. Voltamos agora ao texto do Evangelho de hoje. Depois de se referir à origem de Jesus Cristo (Mateus 1,18a), acrescenta logo que Maria se encontrava grávida por obra do Espírito Santo (Mateus 1,18b). José nada sabia daquela gravidez de Maria, sua esposa, mas não duvidava da sua retidão (temîmût) e fidelidade (ʼemûnah) a Deus. Suspeitava de Deus, mas guardava tudo para si, no silêncio do seu coração (Mateus 1,19), como é dito de Maria (Lucas 2,19.51). Evita cenas públicas. Está a pensar em abandonar Maria em segredo (láthra) (Mateus 1,19). Fantástico. Até Deus entende e respeita este silêncio, este «segredo» de José, e é de mansinho, «em um sonho» (kat’ ónar) (Mateus 1,20), que Deus põe José a par dos seus planos, que passam pela maternidade divina de Maria e pela missão esponsal e paternal de José, competências próprias de Deus em relação ao seu povo nas páginas antigas da Escritura Santa (cf. Isaías 60,1.4-5; 62,4-5). A atribuição a José da missão esponsal em relação a Maria, e paternal em relação a Jesus, como podemos ver em Mateus 1,18-25, é o que podemos chamar «Anunciação do Anjo a José». E esta cumplicidade mansa, em sonhos, entre Deus e S. José, sempre com Deus a conduzir a cena, continua a ver-se aquando da procura de refúgio no Egito, devido à raiva assassina de Herodes (cf. Mateus 2,13), aquando do regresso do Egito à terra de Israel, após a morte de Herodes (cf. Mateus 2,19-20), e na ida para a Galileia, para Nazaré porque, aquando do regresso do Egito, reinava na Judeia Arquelau, filho de Herodes, que não era melhor do que o pai (cf. Mateus 2,22-23).

6. Aí está, então, diante de nós o sensibilíssimo «justo» José sintonizado em alta fidelidade com Deus. É assim que, em bicos de pés, no limiar do silêncio, passa discretamente da cena «pública» para o «segredo» (Mateus 1,19), preparando-se mesmo para sair de cena, não tanto para não expor Maria, sua esposa, a uma situação embaraçosa, mas para expor Deus a toda a luz, entregando a Deus a cena toda!

7. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, não se lhe ouve uma única palavra!) lembra o outro José, o homem dos sonhos (Génesis 37,19), que surge no Livro do Génesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (Génesis 37; 40; 41). Também este José sabe ler a sua história em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entrançando bem as coisas humanas e as divinas?!). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irmãos mais do que atónitos: «Eu sou José, vosso irmão, que vós vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Deus enviou-me adiante de vós para assegurar a permanência da vossa raça na terra e salvar as vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus» (Génesis 45,4-8). Leitura sublime. Em que ficamos: foram os irmãos que despacharam José para o Egito, para se verem livres dele por inveja e ciúmes, ou foi Deus que por amor o enviou para o Egito? No teclado da história empírica, é verdade que foram os ciumentos irmãos de José que o despacharam para o Egito… Mas, no outro teclado de Deus, de acordo com a boa leitura de José, foi Deus que o enviou para o Egito para uma missão de salvação!

8. A missão paternal de José fica clara no facto de ser José a dar o nome ao filho que vai nascer de Maria (Mateus 1,21.25). O nome do menino será Jesus, que surge logo explicado «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (Mateus 1,21). E aqui se começa a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERDÃO. Esta nota soa vezes sem fim, como obra bela de Deus que nós, seus filhos, devemos imitar, perdoando também. São tantas as vezes que seria fastidioso citá-las todas aqui. Deixo só a pérola do dito de Jesus sobre o cálice da Ceia da Páscoa: «Isto é o meu sangue da aliança, pelos muitos derramado, para perdão dos pecados» (26,28). O inciso «para perdão dos pecados» é um exclusivo de Mateus!

9. E é assim, descendo ao nosso nível e assumindo ou abraçando tudo o que é nosso, sem deixar nada nem ninguém esquecido ou de lado, que Jesus é «Deus connosco» (Mateus 1,23), e «connosco fica todos os dias até ao fim do mundo» (Mateus 28,20). Princípio e fim do Evangelho de Mateus. Inclusão literária. Inclusão literária e inclusão total, porque descendo ao nosso chão e ao nosso coração para ficar connosco sempre, sofre, sorve, absorve e absolve o nosso pecado, faz-se nosso irmão e contemporâneo, torna-se mesmo o nosso familiar mais próximo, e somos nós todos juntos a dar-lhe o nome de Emanuel. Por isso, o verbo que, em Isaías 7,14, na versão grega dos LXX, aparece na 2.ª pessoa do singular: kaléseis [chamar-lhe-ás], no texto hebraico aparece na 3.ª pessoa do singular feminino: weqaraʼt [chamar-lhe-á], e aparece agora, no dizer do anjo a José, na 3.ª pessoa do plural: kalésousin [chamar-lhe-ão] Emanuel (Mateus 1,23). Todos os povos envolvidos e implicados neste nome.

10. A lição do Segundo Livro de Samuel 7,4-16 mostra-nos Deus a prometer a David, através do profeta Natan, que construirá uma ponte de bênção e de paz, pura graça, entre David e o filho que lhe suceder, Salomão. Mas Deus acaba por relançar a sua promessa para sempre, indo, portanto, esta ponte de graça muito para além de Salomão, de filho em filho, até ao filho que será também filho de Deus: «Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um filho» (2 Samuel 7,14). Anda por aqui o «Filho de David», que atravessa as Escrituras. Anda por aqui Jesus. É a boa interpretação que Paulo faz na sinagoga de Antioquia da Pisídia: «Da sua descendência [de David] é que Deus, conforme prometera, fez sair para Israel um Salvador, Jesus» (Atos 13,23). A tanto conduz o desejo intenso de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

11. S. Paulo escreve aos Romanos (4,13-22) e retrata a figura de Abraão, constituído herdeiro pela fé, e não pela lei. Pela fé, e não pela lei, para que a herança fosse vista como dom de Deus para todos, e não apenas para alguns. Por isso, todos nos sentimos na senda de Abraão e agradecidos a Deus. Sim, Jesus veio para todos. Para nós também.

12. É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor, sobretudo a sua fidelidade à promessa feita a David. O Salmo 89 insinua-se nas pregas do nosso coração, e não nos deixa parar de cantar. O Salmo 89 é um Salmo Real, que amplifica a promessa feita a David em 2 Samuel 7, cantando Deus e o seu Messias, e o Reino maravilhoso do seu amor já estabelecido no meio de nós.

António Couto