Vai adiantado o tempo da Quaresma,
e eu continuo ainda aqui parado
nesta página em branco da calçada.
…
Sei bem que foste tu que me puseste em movimento,
que teceste o meu ser,
que me deste a vida e de comer,
que me acolheste e me acolhes sempre em tua casa.
…
Como é que estou então aqui parado na berma desta estrada,
pensando que fui eu que me pus no ser,
que sou dono de mim,
que esta vida é minha,
minha é esta casa,
este pedaço de chão,
este naco de pão
e até este coração?
…
Não fiques aí parado, meu irmão.
Ergue-te e vai pelos nós do vento,
chegarás por certo à pátria do Espírito,
submisso ao sopro obsessivo do silêncio.
…
Olha com mais atenção
o chão que sonhas,
o céu que lavras.
recomeça!
Conquista o espaço
onde a palavra cresça
longe do ruído das palavras!
…
António Couto
