DESCER À CRIPTA

O caminho da Quaresma leva-nos à cripta,

ao miolo,

àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro,

onde eu sou verdadeiro,

sem dolo

nem tijolo

nem roupeiro.

Chegar lá implica desfazer-se do barulho

e do entulho,

arredar a caliça e o reboco,

aprender com os pássaros do céu,

com os lírios do campo,

ir até ao fundo,

até ao toco,

e deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço,

onde só Ele sabe semear semente santa,

que depois há de florir e dar fruto

a seu tempo e a seu campo.

Que rebento pode brotar de um toco seco?

Que sucesso pode ter uma semente

na aridez do deserto semeada?

É mesmo só com Deus essa empreitada.

E Jesus explica bem,

no meio do sermão da montanha,

que são também assim a esmola,

a oração e o jejum,

frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas

por mim e ao meu jeito,

e para mim e em meu proveito,

nas ruas,

nas praças,

nas igrejas,

só para que as pessoas vejam e aplaudam.

A Quaresma é tempo de deixar Deus

fazer nascer

dentro de mim

um jardim,

uma maneira nova de viver.

António Couto

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