UM ABRAÇO DE ALMA A ALMA

Isaías 58,7-10; Salmo 112; 1 Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16

1. Entrámos no Domingo passado (IV do Tempo Comum) no Sermão da Montanha, e fomos logo felicitados por aquele encantatório rol de felicitações, em que por nove vezes se repetia a palavra FELIZES (makárioi), sendo as oito primeiras formuladas na terceira pessoa do plural, e a última, a nona, formulada na segunda pessoa do plural, que aqui recuperamos: «FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal por causa de mim (héneken emoû)» (Mateus 5,11). Não, não se trata de acentuar qualquer conduta moral, mas de acentuar a total adesão a Cristo, tudo pela causa de Cristo. Nas primeiras oito felicitações, é Deus que dá os parabéns aos pobres e desqualificados, aos últimos da sociedade, àqueles que não estão habituados a receber parabéns de ninguém, mas que não tiram os olhos de Deus nem deixam de para Ele levantar as mãos. O uso da terceira pessoa dá a estas felicitações uma forma generalizada, escolar e abstrata. Ao passar a formulação para a segunda pessoa do plural [«Felizes sois vós…»], é àquela audiência concreta, ali presente, que Jesus se dirige, vinculando-a a si [«por causa de mim»], mas expondo-a também face a um mundo adverso e perseguidor. Todavia, estes pobres, perseguidos pelos homens, são felicitados por Deus. O seu mundo não é esquizofrénico: não se separam de Deus, mas tão-pouco se separam do mundo que tudo faz para os ver separados.

2. O Evangelho deste Domingo V do Tempo Comum (Mateus 5,13-16) continua a glosar as notas da nona Felicitação, e mantém acesa a clave do «Vós sois» [uns-com-os-outros e uns-para-os-outros, e não uns-sem-os-outros ou uns-contra-os-outros], sem qualquer cedência a esquizofrenias nem ao moderno individualismo ocidental, e, nos tempos que correm, praticamente mundial, em que se podem contar cerca de oito biliões de solidões alérgicas. Hoje começamos por estender o texto do Evangelho diante dos nossos olhos, para melhor lhe podermos captar a importância de que se reveste, mas também o sabor e a sabedoria, sem descurar a forma direta de que se reveste no seguimento do v. 11.

«Vós sois (hymeîs este) o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que o salgaremos? Não serve para nada, senão para se deitar fora e ser calcado pelos homens. Vós sois (hymeîs este) a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus».

3. Aquele «Vós sois» (hymeîs este) a abrir os vv. 13 e 14 dá ênfase ao «Felizes sois» (makárioí este) que introduz o v. 11, e ajuda-nos a identificar como SAL e LUZ aqueles que são perseguidos «por causa de Jesus», isto é, aqueles cuja vida está fundada sobre a presença e a atividade de Jesus. Aqui são luminosas as palavras de S. Paulo: «Ninguém pode pôr outro fundamento diferente do que já está posto, que é Jesus Cristo. Se alguém constrói sobre o fundamento do ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um tornar-se-á manifesta» (1 Coríntios 3,11-13). Acabámos de ouvir acordes como estes: «Vós sois o SAL da terra» (Mateus 5,13); «Vós sois a LUZ do mundo» (Mateus 5,14). O SAL dá sabor. A LUZ alumia. O mundo inteiro por horizonte. É, portanto, necessário abrir os horizontes. O mundo é a nossa casa. Compreenda-se já que o SAL e a LUZ são belíssimas metáforas das OBRAS boas e saborosas que devemos fazer: «Assim brilhe a vossa LUZ diante dos homens, para que vejam as vossas BOAS OBRAS» (Mateus 5,16). Mas entenda-se também de imediato que «as nossas OBRAS BOAS» não são do domínio das nossas mãos (a LUZ escapa-nos das mãos), mas do domínio da Graça de Deus que, como em Maria, também em nós «faz grandes coisas» (Lucas 1,49). São mesmo as OBRAS que se devem ler no cone de luminosidade da LUZ e do SAL. De resto, é sabido que, quimicamente falando, o SAL não pode perder o seu sabor. Mas um homem sem OBRAS BOAS é insípido e inútil. O SAL só é inútil enquanto está retido no saleiro. E a LUZ enquanto está impedida de brilhar. E nós, quando nos blindamos dentro das portas e das janelas do nosso egoísmo e comodismo. É assim que nos tornamos insípidos e deixamos apagar a nossa luz. O verbo grego môraínô, que aparece no texto para dizer que o sal «se torna insípido» (v. 13), é usado mais habitualmente para dizer o homem que «se torna estúpido». Podemos estar perante um daqueles duplos sentidos que tantas vezes encontramos na expressão escrita. E pode bem ser disso que se trata, dado que, em hebraico e aramaico, o verbo tapel significa ao mesmo tempo «ser insípido» e «ser estúpido». E não faltam indicadores rabínicos a referir que, com a vinda do Messias, «a sabedoria dos escribas se há de tornar insípida». Que é o que as multidões dizem de Jesus no final do Sermão da Montanha: «ensina com autoridade, e não como os escribas» (Mateus 7,29).

4. É ainda necessário dar um passo em frente, e entender bem que aquele plural «Vós sois» (hymeîs este) se reveste seguramente de significado comunitário, como é usual em Mateus, que nunca perde de vista a comunidade eclesial. Assim, sois vós, em comunidade, que sois a Luz do mundo, que sois o Sal da terra, e não cada um por si, isoladamente. O texto diz com clareza: «Vós sois a Luz do mundo», e não as luzes do mundo! As luzes são outra coisa bem diferente, e já se apagaram há muito tempo! As luzes tinham a ver com o homem orgulhoso, só, e sem Deus. A Luz é de outra proveniência. Nas páginas da Bíblia, não há Luz senão na relação com Deus e na sua dependência. Este belo dito pode ser uma alusão às lâmpadas que as mães de família acendiam em cada lar hebreu quando caía a noite, e simbolizavam os mandamentos de Deus (Provérbios 6,23) e, mais tarde, a própria alma humana (Provérbios 20,27). A lâmpada que a mãe de família acendia era para alumiar todos os que estavam na casa. No texto de Mateus é para alumiar toda a comunidade da família de Deus. E o sal, «o sal da aliança» (ála diathêkês kyríou) (Levítico 2,13), está lá também para dar o autêntico sabor da aliança a «toda a oferta» (pân dôron) feita pela comunidade a Deus (Êxodo 30,35; Levítico 2,13), e a todo o recém-nascido a nós dado por Deus e por nós a Deus oferecido (Ezequiel 16,4). Assim, o Sal deve andar sempre em nós (Marcos 9,50), e com ele devemos temperar tudo o que fazemos e dizemos (cf. Colossenses 4,6).

5. Bem se vê que o SAL e a LUZ são metáforas que mostram a comunidade reunida com Jesus na Montanha e as BOAS OBRAS que deve realizar. Finalidade: para que seja glorificado «o vosso Pai que está nos Céus». Entenda-se: glorificar Deus é reconhecê-lo como o único Deus verdadeiro. Ao contrário da mentalidade moderna, a mentalidade judaica ignora qualquer conhecimento de Deus prévio à sua glorificação. Conhece-se Deus, glorificando-o. A expressão «o vosso Pai que está nos Céus» é usada por Mateus apenas no Sermão da Montanha. Assim, percebemos melhor que estamos em casa, e que temos de aprender a ser filhos e irmãos.

6. O Livro do Deuteronómio atira-se contra a nossa tranquila indiferença: «Se houver no meio de ti qualquer irmão necessitado, não endureças o teu coração e não feches a tua mão» (Deuteronómio 15,7). Precisamos, hoje mais do que nunca, de viver ao estilo de Jesus, Bom Pastor, e ao estilo do Bom Samaritano, com «um coração que vê», para usar a expressão feliz de Bento XVI (Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n.º 31).

7. É assim que Isaías 58,10 nos desafia literalmente (aí está o sabor das traduções literais!) a «oferecer ao faminto a tua alma (nefesh),/ e saciar a alma (nefesh) do oprimido». Trata-se de muito mais do que uma simples ajuda material. É um abraço entre duas almas, entre duas vidas, entre dois intensos desejos de viver, entre dois alentos de vida! Portanto, com o Deus criador e providente sempre por perto.

8. Só entende esta intensidade quem sabe que a sua LUZ é reflexa, porque a recebe de Deus. É assim, com «um coração que vê» à flor da pele ou da alma, que S. Paulo não se apresenta no meio de nós ou da comunidade de Corinto com fortes argumentos da sabedoria humana, conforme a sua lição de hoje (1 Coríntios 2,1-5). Ele quer que nós compreendamos bem que a nossa fé assenta em Cristo e no seu poder, e não em qualquer humano raciocínio e respetiva força. «A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Coríntios 1,25). E «quando eu sou fraco, então é que eu sou forte» (2 Coríntios 12,10). Portanto, Paulo não se apresentou em Corinto cheio de si, mas cheio de Deus. Não se anunciou (kêrýssô) a si mesmo, mas a Cristo Jesus (2 Coríntios 4,5). Sim, é a Luz que devemos saber levar em vasos de barro, para que se veja bem que esse tesouro e esse poder (dýnamis) vêm de Deus, e não de nós (2 Coríntios 4,7). É o poder (dýnamis) de Deus que move Paulo (1 Coríntios 2,5), e que nos deve mover também a nós.

9. Com tanto Sal na mão e tanta Luz a alumiar o coração, o nosso tempo é sempre tempo dado para nos questionarmos de verdade, pondo em causa os nossos egoísmos e as nossas portas fechadas à graça de Deus e aos irmãos que Ele nos deu. Com base no sentido do SAL e da LUZ, pode abrir-se diante de nós um tempo de verificação: cheio de mim ou cheio de Ti? Estou no centro das atenções ou sei orientar todos os olhares para Ti? Conheço-Te e celebro-Te e dou testemunho da Tua Ressurreição? Os meus atos anunciam a tua Vinda, isto é, revelam e desvelam a tua presença permanente? Ou será que o meu olhar é mau porque Tu és Bom? (Mateus 20,15; cf. Ben Sira 14,9-10). Por que é que eu tenho tão poucos (ou nenhuns) encontros CONTIGO marcados na minha agenda? O que faço eu com o relógio e o telemóvel na mão o dia inteiro? Por que corro tanto e para onde corro tanto? Debruço-me com amor, e com tempo, sobre os meus irmãos abandonados à beira do caminho ou postos ali mesmo à entrada da minha porta? A minha casa está construída sobre a rocha ou sobre a areia? E a LUZ alumia ou está apagada? E o SAL dá sabor à minha vida e à vida dos outros?

10. O Salmo 112 é irmão gémeo do Salmo 111. Neste é Deus o sujeito. Naquele o homem justo, «imitador de Deus». O Salmo de hoje conta apenas 77 palavras divididas por dez versículos, em nove dos quais se desenha o homem justo, de coração e mãos largas para dar com abundância. Ao ímpio é reservado apenas um versículo, e é retratado só para ver o sucesso do justo e para se roer de raiva e de inveja até se atolar na ruína. O justo é uma casa iluminada. O ímpio desaparece nas trevas.

António Couto