Ain Karem ou Fonte do Jardim, a uns 8 km a sudoeste de Jerusalém, é apontado como o lugar tradicional do nascimento de João Batista. Mas o verdadeiro lugar da sua vida é o deserto da escuta infinita e do sentido a transbordar que abre caminhos nunca andados e opera corações empedernidos e embotados. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Tal como a escuta infinita e o sentido a transbordar, também os gafanhotos e o mel silvestre são alimento para o coração, e não para o estômago. Como a verdade, a fidelidade, a felicidade, a paz, a alegria e o amor.
Sempre em contraponto, João pregava no deserto, e não na Trafalgar Square. No deserto, João estava a sós com Deus. Não havia distrações. E quem o queria ouvir, e muitos eram, tinham de sair de casa, das praças, do barulho da cidade. E já sabiam que iam ouvir uma palavra diferente, que caía no coração, e aí crescia como uma semente.
Também Jesus veio lá da Galileia, fez 150 km para ficar tu-a-tu com João e a céu aberto com Deus. A água do Jordão lava o coração. O batismo de João é como um sismo que abala, não o chão, mas o coração.
António Couto
