NATAL DE HÁ DOIS MIL ANOS

Há dois mil anos Deus sonhou

e foi

Natal em Belém.

Sonha também.

Se o jumento corou

e o boi se ajoelhou,

não deixes tu de orar também.

A notícia ecoou nos campos de Belém.

Com o celeste recital que ali se deu,

o céu ficou ao léu,

a terra emudeceu de espanto,

e os pastores dançaram tanto, tanto,

que até os mansos animais entraram nesse canto.

Isaías 1,3 antecipou a cena,

e gravou com o fulgor da sua pena

o manso boi e o pacífico jumento

comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,

e bafejando depois suavemente o Menino de perfume.

Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,

o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

Vem, Menino!

E quando vieres para a tua doirada sementeira,

que logo cresce e se faz messe (João 4,35),

quando assobiares às boieiras,

chama também por mim,

diz bem alto o meu nome,

vamos os dois para o campo e para a eira,

e enche-me de fome de um amor como o teu,

pequenino e enorme.

António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.

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