Há dois mil anos Deus sonhou
e foi
Natal em Belém.
Sonha também.
Se o jumento corou
e o boi se ajoelhou,
não deixes tu de orar também.
…
A notícia ecoou nos campos de Belém.
Com o celeste recital que ali se deu,
o céu ficou ao léu,
a terra emudeceu de espanto,
e os pastores dançaram tanto, tanto,
que até os mansos animais entraram nesse canto.
…
Isaías 1,3 antecipou a cena,
e gravou com o fulgor da sua pena
o manso boi e o pacífico jumento
comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,
e bafejando depois suavemente o Menino de perfume.
Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,
o meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.
…
Vem, Menino!
E quando vieres para a tua doirada sementeira,
que logo cresce e se faz messe (João 4,35),
quando assobiares às boieiras,
chama também por mim,
diz bem alto o meu nome,
vamos os dois para o campo e para a eira,
e enche-me de fome de um amor como o teu,
pequenino e enorme.
…
António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 30-31.
