HOJE É DIA DE NATAL

Hoje é Dia de Natal.

É Dia de Jesus.

O Natal é um imenso caudal

de luz

e de alegria:

hemorragia

de Jesus.

Há quem pense amansá-lo e enlatá-lo,

domesticá-lo,

e depois tomá-lo em pequenos comprimidos,

mais ou menos à razão de um por dia.

Mas o Natal não se pode comprá-lo

ou aviá-lo por receita.

Nem cumprimentá-lo,

quer com a mão esquerda quer com a direita.

O Natal não tem regra ou etiqueta.

Não se pode semeá-lo

na jeira ali ao lado.

Não se pode trocá-lo

por qualquer bugiganga à venda no mercado.

Este vendaval,

que se chama Natal,

só podemos deixá-lo entrar por nós adentro aos borbotões,

até que rebentem os portões,

e caiam um a um do nosso fraque todos os botões.

Também o mofo e o verdete que há nos corações

serão levados na torrente,

e também tudo o que apenas é corrente,

banal ou indiferente.

Só ficaremos mesmo eu e tu, menino,

só mesmo nós os dois,

lado-a-lado ou frente-a-frente.

António Couto

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