À BEIRINHA DO NATAL

Aqui estamos, Senhor, à beirinha do Natal,

que és Tu que vens de mansinho bater à nossa porta,

visitar a nossa casa,

comer à nossa mesa,

sentar-Te à nossa beira.

E enquanto te aqueces à lareira,

e começas a contar a tua história,

é como se se abrisse uma clareira,

e tanta coisa me passa na memória.

Vejo-te aqui sentado ao meu lado.

Faço contas:

éramos tantos ao princípio,

entusiasmados,

a ouvir e a repetir as tuas histórias,

aqueles pedaços de Evangelho

que não nos deixavam pregar olho

naquelas velhas enxergas de folhelho.

E então quando o Natal se aproximava,

e corríamos à procura de musgo pelos montes,

e também de uns pinheirinhos mansos,

com cheiro a verde e a resina,

que alegria ardia nos meus olhos,

que, sem o saber, bebia as fontes,

entrava pelas chaminés,

construía pontes,

contava de um a dez,

rasgava horizontes.

Vem, Senhor Jesus.

E vindo, não te esqueças de bater à minha porta,

entrar em minha casa,

comer à minha mesa,

onde já arde uma lareira acesa

e se sente o odor do vinho e do pão.

Falta apenas o calor da tua mão.

António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 16-17.

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