Aqui estamos, Senhor, à beirinha do Natal,
que és Tu que vens de mansinho bater à nossa porta,
visitar a nossa casa,
comer à nossa mesa,
sentar-Te à nossa beira.
…
E enquanto te aqueces à lareira,
e começas a contar a tua história,
é como se se abrisse uma clareira,
e tanta coisa me passa na memória.
…
Vejo-te aqui sentado ao meu lado.
Faço contas:
éramos tantos ao princípio,
entusiasmados,
a ouvir e a repetir as tuas histórias,
aqueles pedaços de Evangelho
que não nos deixavam pregar olho
naquelas velhas enxergas de folhelho.
…
E então quando o Natal se aproximava,
e corríamos à procura de musgo pelos montes,
e também de uns pinheirinhos mansos,
com cheiro a verde e a resina,
que alegria ardia nos meus olhos,
que, sem o saber, bebia as fontes,
entrava pelas chaminés,
construía pontes,
contava de um a dez,
rasgava horizontes.
…
Vem, Senhor Jesus.
E vindo, não te esqueças de bater à minha porta,
entrar em minha casa,
comer à minha mesa,
onde já arde uma lareira acesa
e se sente o odor do vinho e do pão.
Falta apenas o calor da tua mão.
…
António Couto, Natal. Aroma a céu acabado de lavrar, Apelação, Paulus, 2024, pp. 16-17.
