S. MARTINHO DE DUME

1. A Igreja Arquidiocesana de Braga celebra no dia 22 de Outubro, com superlativa alegria, a solenidade do seu principal Padroeiro, S. Martinho de Dume. A Igreja em Portugal celebra a sua memória no dia 05 de dezembro, amanhã, portanto, juntamente com S. Frutuoso e S. Geraldo. Natural de outras terras, Martinho de Dume foi feito por graça cidadão dos céus, e partiu da Panónia, atual território da Hungria, para Oriente e para Ocidente. Peregrino do Homem e de Deus, viu bem e de perto Cristo nos pobres e estrangeiros, e com eles soube repartir o pão do corpo e do espírito, a roupa que vestia, a alegria do bom e belo Cristo que servia.

2. Vindo de fora, agora para Ocidente, ao jeito de Abraão, do Oriente para o Ocidente, incondicionalmente abençoado e com o objetivo único de abençoar, passou por Tours, onde outro Martinho, seu conterrâneo tinha semeado e colhido, dois séculos antes, a fina flor do trigo do Evangelho. E foi assim que chegou até ao extremo Ocidente das dumienses e bracarenses terras que pisamos. O seu dizer simples, são e sábio sabia a sal e sol e luz. Nele ardia a Luz e exalava o suave odor do incenso e do louvor. Quem o encontrava, encontrava Jesus sempre a dizer: «Vós sois o sal da terra!… Vós sois a luz do mundo!» Nasciam assim os novos sabores da Paz, do Amor, da Alegria, do Evangelho. Novas luzes se acendiam nas alturas e nas planuras. «Não se pode esconder uma cidade iluminada!» Sim, que cidade é a vossa, assim tão escura e tão cinzenta?, bem poderia perguntar-nos hoje S. Martinho de Dume, Padroeiro principal da Arquidiocese de Braga. E que coração é o vosso, tão insensível e tão pouco fraterno?, pergunta-nos outra vez hoje S. Martinho. Naquele tempo ainda o amor doía, o moinho moía, o insonso não existia, e parece que nem a indiferença, a insensatez, a anestesia. S. Martinho de Dume é do tempo da alegria, da beleza do lírios do campo, do tempo em que os pássaros comiam à mesa dos meninos.

3. «Cristo no meio de vós!», assim dizia Paulo, e assim fazia. «Cristo no meio de vós!», assim dizia Martinho, e assim acontecia. «Nada temo,/ porque Tu estás comigo!», repetia o povo rude que começava a saber o sabor da bondade e da alegria e da boa companhia. Bom Pastor, Cristo ou Martinho, Martinho ou Cristo, quem os distinguia?, cuidava com carinho das ovelhas, com o seu braço forte reunia os cordeirinhos no regaço, tratava-lhes as feridas com óleo e vinho. Pastor Bom: sabia o caminho, mostrava o caminho, abria o caminho. O Bom Pastor é Cristo e é Martinho. Martinho configurado com Cristo, transfigurado por Cristo, missionário de Cristo, veio de longe acender na Luz de Cristo a nossa vida.

4. Na sua mensagem para o 84.º Dia Missionário Mundial, que a Igreja inteira celebrou no Domingo, dia 24 de Outubro de 2010, o Papa Bento XVI escreveu de forma exemplar e luminosa: «O mês de Outubro, com a celebração do Dia Mundial das Missões, oferece às comunidades diocesanas e paroquiais, aos Institutos de Vida Consagrada, aos Movimentos Eclesiais e a todo o Povo de Deus uma ocasião para renovar o compromisso de anunciar o Evangelho». E na Mensagem para o Dia Missionário Mundial do ano imediatamente anterior, que ocorreu no dia 18 de Outubro de 2009, escreveu Bento XVI: «Às Igrejas antigas com às de recente fundação recordo que são constituídas pelo Senhor como sal da terra e luz do mundo, chamadas a irradiar Cristo, luz do mundo, até aos extremos confins da terra». Tempo de verificação: como tudo isto é verdade em S. Martinho de Dume! Como deixou a sua terra, e veio até aos confins do mundo para nos trazer, a nós, a Luz de Cristo! E será que esta Luz de Cristo arde em nós, ainda hoje? A exemplo de S. Martinho, a minha alegria consiste em levar ao meu irmão a Luz de Cristo? E a exemplo de Martinho, sei o caminho, mostro o caminho, abro caminhos?

5. A estas sólidas mobilizações do Evangelho – «Vós sois o sal da terra!… Vós sois a luz do mundo!» – e do Papa Bento XVI, que nos recordou que «todas as Igrejas são constituídas como sal da terra e Luz do mundo, para irradiar a Luz de Cristo até aos extremos confins do mundo», o Papa ousou ainda acrescentar esta fortíssima indicação programática: «A missão ad gentes deve ser a prioridade dos planos pastorais de todas as Igrejas!» O que o Papa ousou dizer é que ser missionário, para um batizado, não é facultativo. É de fundo. E se ser missionário deve ser a prioridade de todas as Igrejas, portanto também da Igreja de hoje onde quer que esteja estabelecida, então, meus irmãos, teremos mesmo de mudar o coração e de o revestir ou investir com novos sentimentos, novas decisões, novas paixões, novas ações, novas missões.

6. E bem vistas as coisas, este amor maior não é senão o tesouro que nos trouxe de longe e nos legou o missionário, S. Martinho de Dume. S. Martinho de Dume, continua a proteger e a abençoar a Igreja de Dume e de Braga e todas as Igrejas, para que arda nos nossos corações a Luz de Cristo. De ti, Martinho, invocamos a tua proteção. A Ele, a Cristo, seja dada glória para sempre. Ámen.

António Couto