PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO

Isaías 2,1-5; Salmo 122; Romanos 13,11-14; Mateus 24,37-44

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, a mesma «subida» espiritual é cantada com esfuziante alegria no Salmo Responsorial (122). Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «Vigiai», «Compreendei», «Estai preparados», «Sabei o dia», «Não aconteça que não deis por nada!» (Mateus 24,37-44). Vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

2. Faz parte da sabedoria popular acumulada, saber de experiência feito, que os rumos da vida de cada um e da inteira história da humanidade dependem em partes não iguais das nossas decisões e dos determinismos da natureza ou do destino, como é usual dizer-se. Deriva daqui a ideia corrente de que as coisas continuarão a funcionar mais ou menos como tem vindo a acontecer até aqui, a menos que surja alguma catástrofe provocada pelo homem ou pela natureza ou pelo destino que deixe o nosso mundo intransitável e completamente fora de controlo. É nestes carris da sonolência e aparente normalidade que Jesus traz hoje à colação, neste primeiro Domingo ou carruagem do comboio do Advento e do Ano Litúrgico, os dias de Noé, antes do dilúvio, em que as pessoas passavam os seus dias, comendo e bebendo, casando, negociando, trabalhando, até serem completamente surpreendidas pelo dilúvio que a todos dizimou (Mateus 24,37-39).

3. Em claro contraponto com esta maneira acomodada de pensar e de viver, em que o andamento do mundo decorre de acordo com os nossos hábitos de sempre e segundo as elementares leis da natureza, em que dificilmente surge ou se detecta uma surpresa, Jesus anuncia um Acontecimento Novo e Determinante que é a Vinda do Reino dos Céus (Mateus 4,17), que se há de verificar na Vinda do Filho do Homem com poder e glória (Mateus 24,30). E tratar-se-á, não de um acontecimento circunscrito, constatável apenas «aqui» ou «ali», mas universal, que afetará de maneira decisiva toda a existência humana, que aí receberá o seu sentido último. No dizer novo de Jesus, o nosso mundo não é então mais um mundo redondo e fechado em que o velho comboio continua a circular como sempre segundo as mesmas regras e cumprindo os mesmos rumos e tabelas. Jesus anuncia um acontecimento novo, que é a Vinda de Deus ao nosso mundo, que rompe os determinismos do nosso mundo fechado e habituado, e inaugura modos de vida até agora insuspeitados. Note-se bem: nem se trata de uma nossa ida ou viagem para Deus. Ao contrário e ainda mais surpreendente: é Deus que Vem!

4. O Evangelho hoje proclamado (Mateus 24,37-44) insere-se na II Parte do Discurso Escatológico deste Evangelho de Mateus, que abre em 24,36 e fecha em 25,13, encontrando-se a abrir e a fechar a afirmação: «ninguém conhece o dia nem a hora». E, como se não bastasse, ouve-se ainda a mesma afirmação mais três vezes ao longo da perícope (24,42.44.50). Já se sabe que este insistente não conhecimento do dia e da hora não se refere a um qualquer fenómeno mais ou menos espetacular. Refere-se à Vinda do Filho do Homem, de que fala o texto do Evangelho de hoje por três vezes (24,37.39.44). Bem se entende que a Vinda do Filho do Homem é a Vinda do Senhor Jesus (24,42). Torna-se então claro que uma tão acentuada ignorância do «quando» da Vinda do Senhor por parte dos habitantes da terra deve determinar neles, não a sonolência e a dormência, mas uma atitude de permanente atenção e vigilância.

5. Para avivar esta necessidade de vigilância, Jesus faz-nos ver que ninguém viaja seguro neste comboio dos anos, dos dias e das horas. E clarifica: «dois homens estarão a trabalhar no campo: um será tomado, e o outro deixado» (Mateus 24,40); «e duas mulheres estarão a moer no moinho em casa: uma será tomada, e a outra deixada» (Mateus 24,41). Não é explicada a razão de a situação de uns e de outros ser diferente. Não é sequer dito que a divisão tenha a ver com a maldade de uns e a bondade de outros. Tem então apenas a ver com o Senhor-Que-Vem. Se o Senhor Vem, e é certo que o Senhor Vem, então não podemos deixar-nos embalar e enredar tranquilamente nos habituais afazeres do quotidiano. Sejam eles quais forem. É preciso estarmos vigilantes. E mesmo que comecemos já, neste primeiro Domingo do Advento, a pensar no presépio que vamos fazer, é imperioso que não nos esqueçamos de que a vigilância é o caminho da Cruz: o caminho da doação, e não o caminho da conservação. Uma advertência solene: «Recordai-vos da mulher de Lot. Quem procurar salvar a sua vida, vai perdê-la, e quem a perder, salvá-la-á» (Lucas 17,32-33). Portanto, desde o primeiro Domingo do Advento e do Ano Litúrgico, requer-se o olhar fixo na Cruz, e nada de olhar para trás!

6. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

7. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

8. E aí está S. Paulo, no final da sua carreira, a escrever desde Corinto aos Romanos (13,11-14). E aí está também o buscador Agostinho. Na sua intensa busca da verdade, foi de Tagaste para Cartago, para Milão. Homem inquieto, no polo oposto do coktail da tranquilidade e consolo, servido pela New Age ou Next Age, e de acordo com a advertência de Julien Green: «Enquanto estivermos inquietos, podemos estar tranquilos». No princípio do Outono de 386, angustiado e inquieto, Agostinho (Confissões, Livro VIII, 12) sai para o jardim da casa de um amigo, em Milão, e chora amargamente, sentado debaixo de uma figueira. Ouve então uma criança que, na casa vizinha, cantarolava uma estranha melodia com uma letra ainda mais estranha: «Toma e lê!», «toma e lê!». Agostinho apercebeu-se de que não era normal uma criança trautear uma canção com uma letra assim. Foi, por isso, levado a compreender que bem podia ser um recado de Deus para ele. Levantou-se do jardim, entrou em casa, desenrolou à sorte as Cartas de S. Paulo que tinha sobre a mesa, e leu: «Não em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência» (Romanos 13,13b-14).

9. Nesse dia e nessa hora, nasceu Santo Agostinho. Hoje podes nascer tu também, meu irmão do tempo novo do Advento. Mãos à obra, e conta sempre com a graça de Deus: «Segundo a graça que Deus me deu, como bom arquiteto, lancei o fundamento, mas é outro que constrói por cima. Mas cada um veja como constrói. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diferente do que foi posto: Jesus Cristo. Se alguém, sobre esse fundamento, constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência» (1 Coríntios 3,10-13).

10. Enfim, ressoa Hoje a voz do imenso Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Trata-se, de facto, de um imenso canto de espanto, emoção, comoção, amor, que junta a cidade com as pessoas, tudo e todos envoltos num manto de extraordinária beleza. O Salmo tem um início de teor cinematográfico, acostando admiravelmente dois extremos: o anúncio da partida (v. 1), logo seguido da chegada (v. 2), a alegria da partida e o êxtase da chegada, que provoca uma paragem extática no limiar daquelas portas, descrita nos pés extasiados dos peregrinos (!), tantas são as coisas a contemplar e a amar naquela cidade querida, de que se amam (ratsah) até as pedras e se acaricia (hanan) o pó (ʽaphar) (cf. Salmo 102,15). Há quatro palavras que se repetem três vezes, num especialíssimo 4×3: Jerusalém (2b.3a.6a), Senhor (1b.4d.9a), Casa (1b.5b.9a), Paz (6a.7a.8b). Este «trishágion» constitui como que a espinha dorsal do Salmo e define a alta qualidade da vida na cidade. Um imenso desejo instintivo e visceral de paz, felicidade, fraternidade, atravessa o Salmo e constitui como que a energia, a magia e o magnetismo de Jerusalém, que atrai os peregrinos e os povos, como se vê no Salmo 87, em Isaías 2,1-3 e Miqueias 4,1-2, e como se vê ainda hoje com peregrinações provenientes do mundo inteiro, e como se sentiu recentemente, em 1996, aquando da celebração do seu aniversário trimilenar. Tal como se encontra tecido, o Salmo pode parecer uma paranomásia do nome Jerusalém, recurso muito ao gosto dos autores bíblicos, e muito em uso em culturas de elevado teor oral e auditivo, que joga sobre efeitos sonoros. É conhecida a etimologia mais provável de yerûshalaim, yerûshalayim ou yerûshalam, que será «fundação de Shalem», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. O que passa, todavia, é a etimologia popular que vê nela a «cidade da paz», tomando ye, não como uma forma do verbo yarah [= fundar], mas por ʽîr [= cidade], e tomando shalaim por shalôm [= paz]. O desdobramento destes dois nomes, cidade e paz, como que se verifica no próprio corpo do Salmo, assim apresentado: vv. 1-2: introdução; vv. 3-5: a harmonia da cidade; vv. 6-9: a paz que envolve a vida na cidade. Tenha-se presente como a locução bêt-YHWH [= Casa do Senhor, Templo] faz de envelope ao Salmo inteiro, fazendo-se notar nos vv. 1 e 9, ficando no centro, no v. 5, a bêt-David [= Casa de David]. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (thôb), com que franciscanamente se saúdam!

António Couto