A HISTÓRIA DE UM SONHO

1. O Capítulo II do Livro de Daniel traz-nos a história de um sonho, mais pesadelo do que sonho, que transtornou Nabucodonosor, rei da Babilónia, no segundo ano do seu reinado, ou seja, em 604 a.C. A história do andamento deste pesadelo de Nabucodonosor pode ler-se em  Daniel 2,1-45.

2. Acossado por um sonho, que se tornou, na verdade, um pesadelo, Nabucodonosor ficou de tal modo perturbado que já não conseguia dormir nem viver em paz. Para tentar ver-se livre do stress e das insónias, Nabucodonosor precisava de saber o que significava o pesadelo que lhe tinha caído em cima. Como não via, para isso, nenhuma clareira, e como cada vez se sentia pior, decidiu convocar para o seu palácio todos os sábios, adivinhos, bruxos e magos e astrólogos, que pululavam na Babilónia, para que interpretassem o seu sonho.

3. Eles compareceram, e apresentaram-se diante do rei. O rei disse-lhes: «Tive um sonho, e o meu espírito está stress até que lhe compreenda o significado». Disseram eles: «Conta o teu sonho aos teus servos, e nós te daremos a interpretação». Mas o rei disse-lhes: «Eis a minha decisão: se não adivinhardes o sonho que eu tive, e não me derdes a sua interpretação, sereis feitos em pedaços, e as vossas casas ficarão reduzidas a escombros. Ao contrário, se descobrirdes o sonho e a sua interpretação, recebereis de mim riquezas, presentes e honrarias. Portanto, relatai-me o sonho e a sua interpretação». Eles insistiram: «Queira o rei contar o sonho aos seus servos, e nós dar-lhe-emos a interpretação».

4. Mas o rei continuou: «Vejo que quereis ganhar tempo, sabendo que a minha decisão está tomada. Se não me dais a conhecer o sonho, uma só sentença vos espera. Vejo que estais combinados para inventar explicações falsas e funestas diante de mim, enquanto o tempo vai passando. Portanto, relatai-me o sonho, e ficarei a saber que me podereis dar também a interpretação».  Responderam-lhe: «Não há homem algum sobre a terra que possa descobrir o segredo do rei. Por isso, nenhum rei, governador ou chefe propôs algum dia tal problema a um bruxo, mago ou adivinho. O problema que o rei propõe, homem algum o pode resolver; só os deuses». A essas palavras, o rei encolerizou-se e mandar trucidar todos os sábios da Babilónia. Promulgou o decreto de execução, procurando também Daniel e os seus companheiros, para os executar.

5. Ao ter conhecimento do decreto do rei, Daniel dirigiu-se a Arioc, chefe da guarda real, que tinha saído para executar os sábios da Babilónia. Daniel perguntou a Arioc: «Por que motivo promulgou o rei uma sentença tão premente?» Arioc explicou o caso a Daniel, que foi imediatamente ter com o rei, e pediu-lhe que lhe desse um prazo, que ele mesmo daria ao rei a interpretação do seu sonho. Daniel voltou para casa, comunicou o problema aos seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, pedindo-lhes que implorassem de Deus a resolução deste mistério, a fim de não perecerem também eles juntamente com os outros sábios da Babilónia. E o mistério foi revelado a Daniel numa visão noturna. Daniel foi logo ter com Arioc, dizendo-lhe que suspendesse a ordem de matar os sábios da Babilónia, e que o fizesse comparecer diante do rei, que ele mesmo lhe daria a interpretação do sonho.

6. Arioc apressou-se a fazer Daniel comparecer diante do rei, a quem disse: «Encontrei, entre os deportados de Judá, um homem que dará ao rei a interpretação desejada». O rei dirigiu-se então a Daniel, e perguntou-lhe: «És realmente capaz de me dar a conhecer o sonho que tive, e a sua interpretação?» Daniel respondeu: «O mistério que o rei procura desvendar, nem os sábios, nem os adivinhos, nem os magos, nem os bruxos, nem os astrólogos podem dá-lo a conhecer ao rei. Mas há um Deus no céu que dá a conhecer os mistérios do que vai acontecer. Eu não tenho mais sabedoria do que os outros, mas Deus deu-me a conhecer o teu sonho e a sua interpretação, para que tu possas conhecer os pensamentos do teu coração».

7. O teu sonho, ó rei, ei-lo aqui. Tu viste, ó rei, uma estátua enorme, que se erguia diante de ti, uma estátua grande e terrível. A cabeça da estátua era de ouro, os braços e o peito de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e os pés uma mistura de ferro e barro. Estavas tu olhando, ó rei, quando uma pedrinha, sem intervenção de mão humana, rolou pela colina e veio embater contra os pés de barro da estátua, que logo se pulverizaram. E logo se pulverizaram também o ferro, o bronze, a prata e o ouro, que ficaram como palha miúda na eira, que o vento levou, sem deixar rasto. E, entretanto, a pedrinha que embateu na estátua tornou-se uma grande montanha que ocupou a terra inteira. Este foi o teu sonho, ó rei.

8. Eis agora a sua interpretação. Tu, ó rei, tu és a cabeça de ouro daquela estátua. Depois de ti, levantar-se-á outro reino, inferior ao teu, simbolizado no peito e nos braços de prata daquela estátua. Virá depois um terceiro reino que dominará a terra inteira, e que está representado no ventre e nas coxas de bronze da estátua. Haverá ainda um quarto reino, simbolizado nas pernas de ferro daquela estátua. Os pés de ferro e barro que viste, ó rei, representam um reino dividido. Entretanto, ó rei, virá um reino novo que destruirá todos os outros e que não será destruído. Está representado na pedrinha que viste, que fez em pó os elementos daquela estátua, e cresceu, cresceu, cresceu, transformando-se numa montanha.

9. Para bom leitor e intérprete, nestes metais estão representados os impérios babilónio, medo, persa e grego. Este último, à morte de Alexandre Magno, será dividido entre os seus generais, dando depois origem aos Selêucidas da Síria e aos Lágidas do Egito. Lição: todos os impérios caem, os grandes, os pequenos, os meus e os teus. Neste sentido, pode ver-se ainda mais: a cabeça de ouro representa o poder, a ambição, a importância, o orgulho, a opulência, o dinheiro, o lucro; o peito e os braços de prata representam a sedução, o luxo, o prazer, a vaidade; o bronze e o ferro representam a guerra e a violência; os pés de barro significam que a estátua inteira, embora manifeste brilho e esplendor, é inútil, não serve para nada. Não anda.

10. Impõe-se, por isso, uma mudança radical da nossa vida, da cabeça aos pés. Uma cabeça de ouro, de facto, não serve para nada. O que é que vamos lá pôr? Proponho: bom senso, grandes ideais, olhos, ouvidos, nariz, boca. O peito e os braços de prata também não servem para nada. O peito não tem coração; os braços nada podem fazer. O que é que vamos lá pôr? Proponho: um coração sensível, uns braços que sejam capazes de levantar uma criança, umas mãos abertas. Um ventre e umas coxas de bronze e umas pernas de ferro também não servem para nada. O que é que vamos lá pôr? Proponho: retirar todas as armaduras, e colocar lá um ventre maternal, que é lugar misericórdia. Com uns pés de barro, esta estátua não anda, ninguém pode andar. O que é que vamos lá pôr? Proponho: os pés do mensageiro de Isaías, que leva boas novas a Jerusalém (52,7), ou os pés do noivo do Cântico dos Cânticos, que correm por amor (2,8).

António Couto

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