Ainda a palavra me não chegou à língua,
e já Tu, Senhor, a conheces toda.
Também não admira,
pois a Palavra é sempre tua,
desde a origem até que respira
na música da harpa e da lira.
…
De Ti saiu,
no meu coração caiu,
é lá que comigo se entretece,
alumia e aquece,
como uma fogueira a arder.
É lá que a escuto,
é lá que rasga o meu ser,
como uma espada de dois gumes,
como um bisturi
manuseado por Ti.
…
Primeiro, é preciso escutar.
E escutar é deixar-se dizer, cortar, sangrar.
Só depois aparece a palavra à porta dos meus lábios,
depurada e limpa,
pronta para eu a dizer.
Mas o meu dizer não é senão redizer,
orar, cantar, saborear o teu dizer.
…
Que seja assim, Senhor,
a tempo inteiro
contigo e comigo a condizer.
…
António Couto
