A TUA PALAVRA E A MINHA ORAÇÃO

Ainda a palavra me não chegou à língua,

e já Tu, Senhor, a conheces toda.

Também não admira,

pois a Palavra é sempre tua,

desde a origem até que respira

na música da harpa e da lira.

De Ti saiu,

no meu coração caiu,

é lá que comigo se entretece,

alumia e aquece,

como uma fogueira a arder.

É lá que a escuto,

é lá que rasga o meu ser,

como uma espada de dois gumes,

como um bisturi

manuseado por Ti.

Primeiro, é preciso escutar.

E escutar é deixar-se dizer, cortar, sangrar.

Só depois aparece a palavra à porta dos meus lábios,

depurada e limpa,

pronta para eu a dizer.

Mas o meu dizer não é senão redizer,

orar, cantar, saborear o teu dizer.

Que seja assim, Senhor,

a tempo inteiro

contigo e comigo a condizer.

António Couto

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