ATÉ UM DIA AMOR

Quando,

chegado ao fim do dia,

no teu caminho só encontres paz,

paz,

inebria-te de vinho e de alegria,

e brinda ao puro rumo das manhãs.

Não pares

enquanto não detenhas

o rastro das armas nucleares.

Enquanto uma espada andar à solta na cidade,

não deixes de cantar a liberdade.

Canta.

Considera uma mão-cheia de chão,

olha ao redor do coração.

E quando,

no pátio sobranceiro da cidade,

um pássaro cair vergado pela idade,

não deixes de falar da eternidade.

Pensa.

O que há em nós são caudalosos rios

de silêncio,

ocultas nascentes de esperança,

e há um país tão próximo da infância.

Mas a gente despe o tempo todo

nas palavras.

As tardes crescem, crescem,

entretecem o crepúsculo,

enquanto os mortos acocorados

na memória

ritualmente sepultam a distância.

Traz-me uma manhã amor.

Traz-ma como quando

pelas tardes de verão me trazes água.

Não deixes que o sonho se esvaneça,

que esmoreça a esperança nos teus passos.

Não deixes de lutar.

Até um dia amor,

até quando

cada palavra que disseres

transporte uma pomba nos seus braços.

António Couto

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