Quando,
chegado ao fim do dia,
no teu caminho só encontres paz,
paz,
inebria-te de vinho e de alegria,
e brinda ao puro rumo das manhãs.
…
Não pares
enquanto não detenhas
o rastro das armas nucleares.
Enquanto uma espada andar à solta na cidade,
não deixes de cantar a liberdade.
…
Canta.
Considera uma mão-cheia de chão,
olha ao redor do coração.
E quando,
no pátio sobranceiro da cidade,
um pássaro cair vergado pela idade,
não deixes de falar da eternidade.
…
Pensa.
O que há em nós são caudalosos rios
de silêncio,
ocultas nascentes de esperança,
e há um país tão próximo da infância.
Mas a gente despe o tempo todo
nas palavras.
As tardes crescem, crescem,
entretecem o crepúsculo,
enquanto os mortos acocorados
na memória
ritualmente sepultam a distância.
…
Traz-me uma manhã amor.
Traz-ma como quando
pelas tardes de verão me trazes água.
…
Não deixes que o sonho se esvaneça,
que esmoreça a esperança nos teus passos.
Não deixes de lutar.
Até um dia amor,
até quando
cada palavra que disseres
transporte uma pomba nos seus braços.
…
António Couto
