FRANCISCO DE ASSIS, PASTOR DE OVELHAS E DE LOBOS

1. A Igreja celebra com júbilo no próximo sábado, dia 4 de outubro, a memória litúrgica de S. Francisco de Assis, um dos santos que mais fundo entrou no coração do povo de Deus. Nasceu em Assis em 1182 e morreu na Porciúncula, também em Assis, logo após o pôr-do-sol do dia 03 de outubro de 1226. 44 anos de vida.

2. Oriundo de família nobre e rica, Francisco viveu a sua juventude no meio de festas e folguedos, pouco ou nada se importando com os pobres, os doentes, princípios morais, religiosos e humanitários.

3. Em 1202, Francisco foi mobilizado para a guerra entre Assis e Peruggia. Nesse tempo e circunstâncias, as guerras eram coisa de nobres. Acontece que Francisco foi feito prisioneiro na batalha de Ponte San Giovanni, e foi levado para Peruggia, onde esteve enclausurado durante mais de um ano. No cárcere, adoeceu gravemente. Foi libertado por esse motivo, e voltou à sua terra de Assis, onde passou anos de convalescença e meditação, com grande apoio da sua piedosa mãe.

4. O ano de 1205, ou talvez 1206, marcará para sempre a vida de Francisco. É o ano em que recebe do próprio Senhor do Universo Crucificado, na Igreja de S. Damião, a missão de reparar a sua Igreja que ameaçava ruínas. E não era só, vê-se bem, o edifício da igreja de S. Damião. Era sobretudo o edifício espiritual da Igreja de Deus, o Povo Santo de Deus que espiritual e moralmente se desmoronava. É o ano em que beija e lava as chagas de um leproso (os leprosos sempre lhe repugnaram), e bebe a água com que as lavou. É o ano em que o «Rei da Juventude de Assis» participa numa última festa de despedida com os seus amigos. Francisco nasceu rico. Viveu a sua juventude em festas e folguedos. Tinha muitas coisas. A partir de 1205, ano em que ouve o Crucificado da capela de S. Damião dizer-lhe: «Francisco, vai e repara a minha Igreja, que ameaça ruínas», Francisco começa a ser tocado e trabalhado pela graça, terreno nos anos anteriores preparado pela sua mãe.

5. Outra data importante na vida de Francisco é o ano de 1208. No dia 24 de fevereiro desse ano, tinha Francisco 26 anos, foi à missa à igreja de Santa Maria degli Angeli (Porciúncola), e ouviu proclamar o Evangelho da Festa de S. Matias (Mateus 10,6-14), que então se celebrava nesse dia, e entraram-lhe pela alma adentro as palavras de Jesus aos seus Apóstolos enviados em missão: «Ide» […]. «Recebestes de graça. Dai de graça. Não adquirais ouro, nem prata, nem cobre para os vossos cintos, nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão» (Mateus 10,6.8-10). Francisco ouviu essa página. E anota Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de Francisco, que «imediatamente se descalçou, abandonou o seu bastão, ficou apenas com uma túnica áspera, e substituiu o seu cinto por uma corda».

6. Tomás de Celano descreve o «onde» e o «quando» desta cena: «um dia, em que nesta igreja (da Porciúncola) se lia a passagem do Evangelho relativa ao envio dos Apóstolos a pregar, o Santo, que estava presente e tinha captado o sentido geral, terminada a missa, pediu ao sacerdote que lhe explicasse a passagem. O sacerdote comentou-lha ponto por ponto, e Francisco, ouvindo que os discípulos de Cristo não devem possuir nem ouro, nem prata, nem dinheiro, nem alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, nem sandálias, nem dias túnicas, mas devem apenas pregar o reino de Deus e a penitência, de repente, exultando de fervor divino, exclamou: “É isto que quero, é isto que peço, é isto que desejo praticar com todo o meu coração”» (FF 356). Francisco levou o que ouviu a sério. E o segredo mais profundo desta reviravolta que Francisco operou (ou que foi operada em Francisco) consiste na mudança radical da sua vida, à maneira do Evangelho, chamemos-lhe conversão. Francisco não foi nem nunca quis ser um reformador, nem da sociedade nem da Igreja, não obstante a época em que viveu se apresentar cheia de chagas a sangrar no que à fé e aos costumes dizia respeito. Francisco não quis mudar o mundo nem a Igreja! Quis apenas mudar a sua vida de acordo com as pautas do Evangelho.

7. Nas trevas brilhou uma luz. Imensa e intensa. Como no outro caminho de Damasco. Francisco mudou então a vida toda. Abandonou tudo. Desapropriou-se. Nunca ter nada de próprio passou a ser um dos seus lemas mais preciosos, e exigia a mesma radicalidade àqueles que o queriam seguir, e muitos eram. Francisco, fez-se pobre e irmão de todos, para levar a todos a incontida e incontrolável alegria encontrada. Francisco tinha descoberto a pérola preciosa da pobreza e da fraternidade.

8. Na noite de 18 para 19 de março de 1212, Francisco recebe Clara, então com 18 anos, e entrega-lhe o hábito da pobreza e da penitência, colocando assim a «primeira pedra» das senhoras pobres, futuras clarissas.

9. Em 1219/1220, Francisco faz uma peregrinação ao Oriente. Encontra-se com o sultão Malek-al-Kamel, e visita os lugares santos, particularmente Belém, regressando a Itália. 1220 é também o ano em que Fernando de Bulhões deixa os cónegos regrantes de Santo Agostinho, e se faz Frade Menor, seguidor de Francisco de Assis, tomando o nome de António.

10. Em maio de 1221, a partir do dia 23, dia de Pentecostes, começou a realizar-se nas imediações da Porciúncola o primeiro Capítulo Geral dos «irmãos menores» que seguiam os passos de Francisco. E eram já tantos. O Capítulo ficou conhecido como o «Capítulo delle Stuoie», ou das esteiras. Na verdade, compareceu um número elevadíssimo de «irmãos», na ordem dos 5.000, e não havia logística possível para albergar e alimentar aquela multidão. Daí o recurso aos campos, às esteiras e aos ramos das árvores. Sintomático é que também não foi necessária logística nenhuma, dado que a população do lugar e de outras povoações se mobilizou, e foi trazendo os víveres necessários para alimentar tantos irmãos. O Capítulo durou sete dias, e ainda sobejaram muitos alimentos.

11. Outra data importante e inesquecível é a noite de Natal de 1223, na aldeia de Greccio, acontecimento de que passaram há pouco os 800 anos. Jesus estava então esquecido e o seu Natal apagado na nossa velha Europa. E S. Francisco de Assis resolveu fazer um presépio em Greccio, uma aldeia pobre, vizinha de Assis. O presépio de Greccio era um presépio especial: não tinha nem Maria nem José, nem sequer o Menino Jesus! Francisco tinha pedido aos camponeses que pusessem lá apenas uma manjedoura, e que trouxessem um burro e um boi, e os colocassem um de cada lado da manjedoura. E que pusessem muito feno na manjedoura, para que os animais pudessem comer em abundância.

12. O presépio não tinha nem Maria nem José… nem o Menino Jesus. A ideia genial de Francisco era expor nessa noite toda a verdade do Natal. Por isso, em vez de pedir que se colocasse a imagem do Menino Jesus na manjedoura, como fazemos nós ainda hoje, feito o presépio como atrás referido, procedeu-se à celebração da Eucaristia, tendo a manjedoura como altar, e, então sim, aí se faria presente o próprio Jesus, para ser por todos adorado.

13. O dia 14 de setembro de 1224 é outra data a reter. Era a Festa da Exaltação da Santa Cruz. Francisco tinha-se recolhido no ermitério de Monte Alverne. E fixando o olhar no Crucifixo de Monte Alverne, Francisco tem a graça de dele receber os estigmas.

14. Em 1225 estava Francisco quase cego, recolhe-se em S. Damião, e compõe o famoso Cântico das Criaturas ou do Irmão Sol, que está agora a celebrar 800 anos.

15. Se há uma marca que carateriza Francisco, e na qual todas as fontes são concordes, é a altíssima pobreza. No Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, em abril-maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, Francisco reúne e resume a sua aventura humana e espiritual nestas poucas linhas: «Como, em razão da fraqueza e do sofrimento da doença, não posso falar, manifesto brevemente aos meus irmãos a minha vontade nestas três palavras, que são: como sinal da minha bênção e do meu testamento, amem-se sempre uns aos outros (1); amem sempre nossa senhora, a santa pobreza (2); e sejam sempre fiéis e submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe Igreja (3)».

16. Na sua obra póstuma Escritos de Londres e últimas cartas (1957), Simone Weil anotava que «a riqueza aniquila a beleza…, porque a esconde com a mentira. É a mentira contida na riqueza que mata a poesia. É por isso que os ricos têm necessidade do luxo como de um sucedâneo». Modelo de articulação entre a pobreza e beleza é S. Francisco, que «não procurou na pobreza a dor, mas a verdade e a beleza, a poesia do encontro verdadeiro».

17. Acerca de Jesus, dizem os insuspeitos fariseus, no Evangelho de João: «O mundo veio atrás dele» (João 12,19). Todos sabemos quem era Jesus. E todos sabemos também que havia em Francisco de Assis qualquer coisa que não há em nós. «Por que razão o mundo inteiro corre atrás de ti?», terá perguntado um dia Frei Masseo a Francisco. Francisco terá respondido: «Porque os olhos de Deus não encontraram sobre a terra pecador mais vil do que eu». Frei Masseo não deve ter entendido a resposta de Francisco. Mas eu penso que a resposta é certeira e verdadeira, e deve ler-se ou cantar-se em duas pautas diferentes, mas complementares. Primeira: não há santo que não se sinta verdadeiramente pecador, o maior pecador; segunda, não há santo que não se sinta verdadeiramente amado e perdoado, vendo sobre ele cair em ondas sucessivas o olhar agraciador de Deus, o perdão de Deus.

18. Já muito debilitado, Francisco morreu, como já dissemos, pouco depois do pôr-do-sol do dia 3 de outubro de 1226.

19. Em 16 de julho de 1228, menos de dois anos depois da sua morte, foi canonizado em Assis pelo Papa Gregório IX.

António Couto